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Fevereiro 2005

Vendo Artigos de: Fevereiro , 2005

Capoeiragem: O Nosso Jogo!

Nota:
Alguns mestres estão tendendo a esquecer o passado mais remoto da Capoeira.
O que interessa, segundo esses, é o presente e o futuro, quando muito recuam apenas algumas décadas. 
Felizmente a maioria dos mestres e pesquisadores, inclusive estrangeiros, está pensando, cada vez mais, no sentido oposto. Ou seja, o Brasil tem a obrigação de passar para o resto do mundo, toda a história da Capoeira, e não apenas uma parte. Pois, se assim não fizer, os outros farão.
Assim considerando, começamos neste número a publicar o que o Mundo da Capoeira considera como literatura clássica da Capoeiragem.  Por falta de espaço, obviamente, não transcreveremos os livros que já estão sendo  consagrados como básicos para o bom entendimento da Capoeiragem. Vamos nos limitar a transcrever velhos artigos, crônicas e reportagens.  Boa parte do que for transcrito, certamente, já será do conhecimento de muitos, mas, mesmo assim, acreditamos que é hora também de reler toda esta magnífica literatura capoeirística.
Vamos começar com a extraordinária crônica NOSSO JOGO, de Coelho Netto, publicada em 1922, no livro BAZAR.  Antes, porém, umas palavras sobre o autor:
 Henrique Maximiano COELHO NETTO – Escritor brasileiro, nasceu em Caxias, Maranhão no dia 20 de fevereiro de 1864 faleceu no Rio de Janeiro no dia 28 de novembro de 1934. Foi para o Rio de Janeiro com dois anos de idade; estudou Medicina e Direito mas não concluiu nenhum dos cursos. Em 1885 relacionou-se com José do Patrocínio, que o introduziu na relação da Gazeta da Tarde; nesse jornal deu início à sua Lista Abolicionista e Republicana. Em 1891, foi publicada sua primeira obra "Rapsódias", um livro de contos. Dedicou-se a literatura com entusiasmo, publicando obras atrás de obras. Escreveu algumas peças teatrais, mais de cem livros e cerca de 650 contos. Foi também um orador de grandes recursos; em 1909 foi catedrático da mesma matéria. Foi deputado na Legislatura da 1909 a 1911; esteve em Buenos Aires como Ministro Plenipotenciário, em Missão Especial. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Em 1928, foi consagrado como "Príncipe dos Prosadores Brasileiros". De sua extensa obra literária, destacam-se: "A Capital Federal", "Fruto Proibido", "O Rei Fantasma", "Contos Pátrios", "O Paraíso", "Mano", "As Estações", "Sertão", "Mistério do Natal", "Fogo Fátuo" e "A Cidade Maravilhosa". Também poeta, escreveu um soneto que se tornaria famoso: "Ser Mãe"; Coelho Neto é o exemplo de fidelidade e dedicação às letras.

Capoeiragem: O Nosso Jogo!
Coelho Netto,  O BAZAR " 1922
 
"Transcrevendo-o do Correio do Povo, de Porto Alegre, publicou O Paiz em seu número de 22 do corrente, um artigo com o título: "Cultivemos o jogo de capoeira e tenhamos asco pelo do Box", firmado pelo correspondente do jornal gaúcho nesta cidade, Dr. Gomes Carmo.
 
Concordamos in limini com o que diz o articulista, valho-me da oportunidade que me abre tal escrito para tornar a um assunto sobre o qual já me manifestei e que também já teve por ele a pena diamantina de Luiz Murat.
 
A capoeiragem devia ser ensinada em todos os colégios, quartéis e navios, não só porque é excelente ginástica, na qual se desenvolve, harmoniosamente, todo o corpo e ainda se apuram os sentidos, como também porque constitui um meio de defesa pessoal superior a todos quantos são preconizados pelo estrangeiro e que nós, por tal motivo apenas, não nos envergonhamos de praticar. (negrito do Editor)
 
Todos os povos orgulham-se dos seus esportes nacionais, procurando, cada qual dar primazia ao que cultiva. O francês tem a savate, tem o inglês o boxe; o português desafia valentes com o sarilho do varapau; o espanhol maneja com orgulho a navalha catalã, também usada pelo "fadista" português; o japonês julga-se invencível com o seu jiu-jitsu e não falo de outros esportes clássicos em que se treinam, indistintamente, todos os povos, como a luta, o pugilato a mão livre, a funda e os jogos d`armas.
 
Nós, que possuímos os segredos de um dos exercícios mais ágeis e elegantes, vexamo-nos de o exibir e, o que mais é, deixamo-nos esmurraçar em ringues por machacazes balordos que,  com uma quebra de corpo e um passe baixo, de um "ciscador" dos nossos, iriam mais longe das cordas do que foi Dempsey  à repulsa do punho de Firpo.
 
O que matou a capoeiragem entre nós foi…a navalha. Essa arma, entretanto, sutil e covarde, raramente aparecia na mão de um chefe de malta, de um verdadeiro capoeira, que se teria por desonrado se, para derrotar um adversário, se houvesse de servir do ferro.
 
Os grandes condutores de malta " guaymús e nagôs, orgulhavam-se dos seus golpes rápidos e decisivos e eram eles, na gíria do tempo: a cocada, que desmandibulava o camarada ou, quando atirada ao estomago, o deixava em síncope, estabelecido no meio da rua, de boca aberta e olhos em alvo; o grampeamento, lanço de mão aos olhos, com o indicador e o anular em forquilha, que fazia o mano ver estrelas; o cotovelo em ariete ao peito ou ao flanco; a joelhada; o rabo de raia,  risco com que Cyriaco derrotou em dois tempos, deixando-o sem sentidos, ao famoso campeão japonês de jiu-jitsu; e eram as rasteiras, desde a de arranque, ou tesoura, até a baixa, ou bahiana; as caneladas, e os pontapés em que alguns eram tão ágeis que chegavam com o bico quadrado das botinas ao queixo do antagonista; e, ainda, as bolachas, desde o tapa-olho, que fulminava, até a de beiço arriba, que esborcinava a boca ao puaia.  E os ademanes de engano, os refugos de corpo, as negaças, os saltos de banda, à maneira felina, toda uma ginástica em que o atleta parecia elástico, fugindo ao contrário como a evitá-lo para, a súbitas, cair-lhe em cima, desarmando-o fazendo-o mergulhar num "banho de fumaça".
 
Era tal a valentia desses homens que, se fechava o tempo, como então se dizia, e no tumulto alguém bradava um nome conhecido como:Boca-queimada, Manduca da Praia, Trinca-espinha ou Trindade, a debandada começava por parte da polícia e viam-se urbanos e permanentes valendo-se das pernas para não entregarem o chanfalho e os queixos aos famanazes que andavam com eles sempre de candeias às avessas.
 
"Dessa geração celebérrima fizeram parte vultos eminentes na política, no professorado, no exército, na marinha como " Duque Estrada Teixeira, cabeça cutuba tanto na tribuna da oposição como no mastigante de algum paróla que se atrevesse a enfrentá-lo à beira da urna: capitão Ataliba Nogueira; os tenentes Lapa e Leite Ribeiro, dois barras; Antonico Sampaio, então aspirante da marinha e por que não citar também Juca Paranhos, que engrandeceu o título de Rio Branco na grande obra patriótica realizada no Itamaraty, que, na mocidade, foi bonzão e disso se orgulhava nas palestras íntimas em que era tão pitoresco.
 
A tais heróis sucederam outros: Augusto Mello, o cabeça de ferro; Zé Caetano, Braga Doutor, Caixeirinho, Ali Babá e, sobre todos o mais valente, Plácido de Abreu, poeta comediógrafo e jornalista, amigo de Lopes Trovão, companheiro de Pardal Mallet e Bilac no O COMBATE, que morreu, com heroicidade de amouco, fuzilado no túnel de Copacabana, e só não dispersou a treda escolta, apesar de enfraquecido, como se achava , com os longos tratos na prisão, porque recebeu a descarga pelas costas quando caminhava na treva, fiado na palavra de um oficial de nome romano.
 
Caindo de encontro às arestas da parede áspera ainda soergue-se, rilhando os dentes, para despedir-se com uma vilta dos que o haviam covardemente atraiçoado. Eram assim os capoeiras de então.
 
Como os leões são sempre acompanhados de chacais, nas maltas de tais valentes imiscuíam-se assassinos cujo prazer sanguinário consistia em experimentar sardinhas em barrigas do próximo, deventrando-as.
 
O capoeira digno não usava navalha: timbrava em mostrar as mãos limpas quando saia de um turumbamba.
 
Generoso, se trambolhava o adversário, esperava que ele se levantasse para continuar a luta porque: "Não batia em homem deitado"; outros diziam com mais desprezo: "em defunto".
 
Nos terríveis recontros de guaiamus e nagôs, se os chefes decidiam que uma questão fosse resolvida em combate singular, enquanto os dois representantes da cores vermelha e branca se batiam as duas maltas conservam-se à distância e, fosse qual fosse o resultado do duelo, de ambos os lados rompiam aclamações ao triunfador.
 
Dado, porém, que, em tais momentos, estrilassem apitos e surgissem policiais, as duas maltas confraternizavam solidárias na defesa da classe e era uma vez a Força Pública, que deixava em campo, além do prestigio, bonés em banda e chanfalhos à ufa.
 
O capoeira que se prezava tinha oficio ou emprego, vestia com apuro e. se defendia uma causa, como aconteceu com do abolicionismo, não o fazia como mercenário.
 
O capanga, em geral, era um perrengue, nem carrapeta, ao menos , porque os carrapetas, que formavam a linha avançada, com função de escoteiros, eram rapazolas de coragem e destreza provadas e sempre da confiança dos chefes.
 
Nos morros do Vintém e do Néco reuniam-se, às vezes, conselhos nos quais eram severamente julgados crimes e culpas imputados a algum dos das farandulas.  Ladrões confessos eram logo excluídos e assassinos que não justificassem com a legitima defesa o crime de que fossem denunciados eram expulsos e às vezes, até, entregues a policias pelos seus próprios chefes.
 
Havia disciplina em tais pandilhas.
 
Quanto às provas de superioridade da capoeiragem sobre os demais esportes de agilidade e força são tantas que seria prolixa a enumeração.
 
Além dos feitos dos contemporâneos de Boca queimada e Manduca da Praia, heróis do período áureo do nosso desestimado esporte, citarei, entre outros, a derrota de famosos jogador de pau, guapo rapagão minhoto, que Augusto Mello duas vezes atirou de catrambias no pomar da sua chacarinha em Vila Isabel onde, depois da luta e dos abraços de cordialidade, foi servida vasta feijoada. Outro: a tunda infligida um grupo de marinheiros franceses de uma corveta Pallas, por Zé Caetano e dois cabras destorcidos. A maruja não esteve com muita delonga e, vendo que a coisa não lhe cheirava bem em terra, atirou-se ao mar salvando-se, a nado, da agilidade dos três turunas, que a não deixavam tomar pé.
 
A última demonstração da superioridade da capoeiragem sobre um dos mais celebrados jogos de destreza deu-nos o negro Cyriaco no antigo Pavilhão Paschoal Segreto fazendo afocinhar, com toda a sua ciência, o jactancioso japonês, campeão do jiu-jitsu.
 
Em 1910, Germano Haslocjer, Luiz Murat e quem escreve estas linhas pensaram em mandar um projeto a Mesa da Câmara dos Deputados tornando obrigatório o ensino da capoeiragem nos institutos oficias e nos quartéis. Desistiram, porém, da idéia porque houve quem a achasse ridícula, simplesmente, por tal jogo era…brasileiro.
 
Viesse-nos ele com rótulo estrangeiro e tê-lo-íamos aqui, impando importância em todos os clubes esportivos, ensinado por mestres de fama mundial que, talvez, não valessem um dos nossos pés rapados de outrora que, em dois tempos, mandariam um Firpo ou um Dempsey ver vovó, com alguns dentes a menos algumas bossas de mais.
 
Enfim…Vamos aprender a dar murros " é esporte elegante, porque a gente o pratica de luvas, rende dólares e chama-se Box, nome inglês. Capoeira é coisa de galinha, que o digam os que dele saem com galos empoleirados no alto da sinagoga.
 
É pena que não haja um brasileiro patriota que leva a capoeiragem a Paris, batisando-a, com outro nome, nas águas do Sena, como fez o Duque com o Maxixe.
 
Estou certo de que, se o nosso patriotismo lograsse tal vitória até as senhoras haviam de querer fazer letras, E que linda seriam as escritas!  Mas, se tal acontecesse, sei lá !  muitas cabeçadas dariam os homens ao verem o jogo gracioso das mulheres".
 

A Capoeira na 3ª Idade

A pratica da capoeira,
  • pela multiplicidade de seus movimentos,
  • pela facilidade de ajustamento às condições pessoais de cada praticante,
  • pelas modificações mentais que acarreta,
  • pela integração entre os vários componentes do Ser,
  • por ser uma atividade fundamentalmente lúdica e portanto prazerosa,
  • por desenvolver uma estado transicional de consciência capaz de escapar aos bloqueios de natureza mental e às limitações físicas do praticante,
  • por se prestar a inúmeros níveis de carga de trabalho,
 
pode ser usada como método de manutenção da aptidão física, de capacitação ou de recuperação da aptidão física, correção de desgastes pela idade ou seqüela de complicações decorrentes de doenças próprias do envelhecimento.
Cumpre entretanto realçar que sua prática depende de avaliação prévia das condições orgâncas e funcionais do cadidato e acompanhamento médico adequado para impedir possíveis complicações por sobrecarga de esforço.
 
Vovô Capoeira
 
Vovô não brinca em serviço! Entrando na cruz. Sai de baixo!
Meia-lua de frente cuidadosa… "prá num machucá u mininu!" 
 
Sr. Manoel Dantas, avô do Mestre Canelão, é o aluno de capoeira mais idoso do mundo!
Nasceu em 20 de Maio de 1913, no sítio de São Pedro, cidade Jardim de Seridó, sertão do Rio Grande do Norte, Brasil.
Aos 84 anos de idade começou a assistir os treinos e exibições da "família de capoeiristas" do seu neto, Mestre Edmilson "Canelão" e um belo dia, como Totonho de Maré e  tantos outros, começou a entrar na roda e jogar. Sem treinamento especial!
Aprendeu capoeira pelo método intuitivo
Ouviu berimbau
Sentiu o balanço
Entrou na roda e jogou!
 
"Vovô Capoeira" exibindo  sua habilidade no manejo do berimbau
Vovô Capoeira irradiando juventude aos 85 anos de idade!
Um exemplo do vitalidade
Levanta às 04:00
Trabalha como coletor de caixas usadas até às 10:30
Toma uma cachacinha ao meio-dia
Freqüenta o forró diariamente de 16:00 às 18:00
Recolhe-se aos braços de Morfeu às 19:00
No forró comemorativo dos seus 85 dançou 4 horas seguidas
Inclusive com uma parceira de 90 anos de idade!
Assim é vida dos que vivem na Terra do Sol!
Mestre Edmilson "Canelão" e Manoel "Vovô Capoeira"
Neto e avô unidos pela "Boa Vontade" da "Associação de Capoeira"
 

Capoeira fará “revolução” na atividade física

Maravilhosa a iniciativa do setor de Reabilitação Desportiva da AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente) de implementar a capoeira nas atividades de crianças com deficiência física.
 
Há mais de dois anos implantado, o projeto demonstra bons resultados médico e terapêutico. As crianças adquiriram melhor equilíbrio, desenvolvimento mental, disciplina e sociabilização.
 
A capoeira é realmente apaixonante, pois reúne atividade física exigente junto com aspectos artísticos e musicais. Ela alia movimentos de força, coordenação, destreza e equilíbrio dinâmico. Além de se caracterizar por um vigoroso exercício cardiovascular.
 
O exercício da capoeira exige participação dos grandes músculos do corpo, uma particular coordenação motora com movimentos delicados e bastante rigorosos, como saltos mortais para a frente e para trás.
 
Com tantas vantagens, a capoeira tem tudo para realizar uma futura revolução no campo da atividade física.
 
Somente a vigorosa atividade de desempenho cardiovascular, seria o bastante para fazer desse esporte uma das atividades físicas mais significativas. Por ter sido trazida pelos escravos africanos e ter assolado primeiramente a região nordeste, possui um lado cultural muito significativo.
 
Muitas academias estão utilizando a capoeira em suas atividades. E acredito que ela ainda será matéria obrigatória nas escolas, pois como exercício de luta, possui um extrato filosófico muito importante na formação de crianças e jovens tornando-se, por si só, uma atividade extremamente educacional.
 
O fato dela exigir regras, respeito, atitudes de competitividade e solidariedade leva a um conceito filosófico de luta e respeito muito importante, aliando a idéia de competência e resultado. Como todas as lutas, promove a formação do caráter e da personalidade. A capoeira leva o aluno, através do estimulo artístico, musical e atlético a uma plenitude da sua exuberância, promovendo efeitos da ordem mental, emocional e espiritual.
 
Capoeira e auto-estima
 
A exigência de movimentos acrobáticos é um fator a mais no desenvolvimento da auto-estima, fator crucial numa sociedade de formação ‘anulante’ que tira da criança e do jovem o auto-respeito e a auto-admiração: elementos fundamentais no sucesso em qualquer profissão. Ela possui ainda um poder de socialização de rara grandeza, pois emana, através dos grupos de combate, uma amizade solidificada através dos treinamentos. Essa integração social irá ajudar o jovem no futuro, quando esse tiver que trabalhar em equipe dentro das empresas.
 
Quem pode praticar capoeira?
 
É um esporte que pode ser praticado em qualquer idade, por qualquer pessoa, em qualquer situação, pois pela sua própria forma de ser, acaba se encaixando no nível de intensidade e exigência tanto cardiovascular, como muscular localizado, no nível que lhe for possível, de acordo com suas condições especificas, independente do seu preparo físico, orgânico ou muscular.
 
Com treino você se aprofunda ate adquirir um nível de excelência. A capoeira vai de uma simples brincadeira na areia, até complexas acrobacias próprias de ginastas olímpicos, esta é a sua grandeza.
 
 
Nuno Cobra é formado pela Escola de Educação Física de São Carlos e pós-graduado pela Universidade de São Paulo. Foi preparador físico de Ayrton Senna, Mika Hakkinen, Rubens Barrichello, Abílio Diniz entre outros. É autor do best-seller A Semente da Vitória

Entrevista com Mestre Brasília

Antonio Cardoso de Andrade, Mestre Brasília, um dos pioneiros da capoeira em São Paulo, autor do livro – “Vivência e Fundamentos de um Mestre de Capoeira”, publicado pela Editora Circuito LW.
 
(O livro pode ser adquirido, no Capoeiradobrasil, via e-mail: capoeiradobrasil@uol.com.br )
 
Mestre Brasília nos concedeu entrevista e conversou sobre o atual estágio de organização da capoeira. Ele pertence ao quadro de honra do Conselho Superior de Mestres de São Paulo e é vice-presidente da Federação de Capoeira do Estado de São Paulo.
 
  • Veja alguns trechos da entrevista:
 
Capoeiradobrasil: – Caro Mestre Brasília: é um grande prazer conversarmos com o senhor, e podermos compartilhar um pouco de sua grande sabedoria; temos a absoluta consciência de estarmos diante de um dos maiores mestres da capoeira mundial; conhecemos seu trabalho de longa data, desde os tempos pioneiros da capoeira em São Paulo. Sabemos de sua dedicação, da excelência de seu trabalho e de sua pessoa, tanto dentro como fora das rodas de capoeira.
Acreditamos que a capoeira vive hoje um momento muito especial, no processo de progressiva estruturação organizacional que deverá conduzi-la à maioridade, digamos assim, entendendo por isso o estágio de sua efetiva profissionalização e pleno reconhecimento social, como esporte e como parte valiosa do patrimônio cultural do povo brasileiro. O senhor, como um dos mais ativos participantes deste processo, como vê o momento atual?
 
Mestre Brasília: – Vejo com muita esperança. O fato de que a capoeira esteja se organizando é auspicioso, embora ela ainda esteja longe do ponto em que gostaríamos que estivesse. Hoje, contamos com a Confederação Brasileira de Capoeira, que congrega as Federações Estaduais e suas respectivas Ligas Regionais e Municipais, e eu estou lá, sempre apoiei, porque acho que é socialmente o mais correto trabalho de organização da capoeira que há, com respaldo do governo, nos níveis municipal, estadual e federal. Eles também acreditam como eu que a cultura brasileira deve ter um órgão que a preserve. Pode-se obter patrocínio e subsídios oficiais a partir do momento em que se tem um trabalho organizado e se adquire credibilidade social. E a Federação está aí para ajudar nisto. A capoeira precisa e merece ter pessoas trabalhando pelo seu engrandecimento, mas nós só vamos realmente obter maior credibilidade quando todos estiverem juntos, falando a mesma língua, e não cada um querendo puxar a brasa para o seu lado, cada um buscando satisfação e resultados pessoais; isso não vai levar a capoeira tão cedo aonde ela já deveria estar há muito tempo.
 
Capoeiradobrasil: – Sempre que o assunto é a “esportização”, ou, como agora, a “olimpização” da capoeira, levantam-se objeções de certos segmentos do mundo da capoeira, objeções que traduzem preocupações quanto à preservação da arte, ou dos aspectos lúdicos da capoeira, dos rituais e fundamentos. Isto nos leva a pensar nos critérios de avaliação e pontuação nos campeonatos e competições capoeirísticas. Como o senhor vê esta questão?
 
Mestre Brasília: – Eu, desde que comecei a praticar a capoeira, sempre venho praticando-a como esporte. Nunca como esporte competitivo, mas sempre como esporte. E se eu tivesse necessidade de competir, lá na roda, eu competia: era a minha vida que muitas vezes estava em jogo na roda, e eu tinha que competir, me defender. Se hoje ela pode ser um esporte legalizado, muito bem; a capoeira não é apenas esporte, é uma manifestação cultural brasileira que possui um conteúdo muito amplo: temos o ritmo, a poesia, a música, a coreografia, a defesa, o ataque, temos o espetáculo, temos a luta e temos o esporte.
 
Capoeiradobrasil: – O público tem muito interesse em saber se nas competições estes fatores – a musicalidade, o ritmo, a harmonia, a coreografia, etc – são também levados em consideração.
 
Mestre Brasília: – Sem dúvida. Toda luta tem um ritmo a seguir. Você tem que ouvir seu treinador. Na capoeira, você tem que saber ouvir a música, para que você tenha mais entusiasmo para lutar; mesmo em caso de competições, porque aí é o berimbau também que determina o tipo de jogo a fazer. Então, você tem de estar atento, para se defender, para atacar, para entrar na hora certa, na brecha de um adversário, ou para sair no tempo certo, você tem que estar atento, até mais do que normalmente. Para isso, é preciso treinar muito. Acredito até mesmo que a capoeira ainda venha a ser um esporte de ringue, profissional, mas no futuro. No momento, não vejo uma perspectiva de bons lutadores; vejo grandes entusiastas, aí, dizendo que estão lutando, mas que na realidade não estão lutando coisíssima nenhuma. Quando o cara entra no ringue para lutar, a vida dele e a de seu parceiro estarão em jogo. E a gente percebe, quando ele entra na roda se imaginando um lutador, que ele está cheio de brechas que, no caso de uma competição cerrada mesmo, esse cara poderia ser eliminado a qualquer momento, antes do que ele imagina. Acho que a capoeira ainda não está preparada para isso, mas ela pode se preparar, ela tem tudo para isso.
 
Capoeiradobrasil: –  No site www.capoeiradobrasil.com.br vamos pedir aos internautas que respondam à questão: “Deve a capoeira ser incluída no rol dos esportes olímpicos? Sim ou não, e por quê?” – Gostaríamos que o senhor fosse o primeiro a exprimir a sua opinião.
 
Mestre Brasília: – Pois bem: acho que, no momento, a capoeira ainda não tem condições de chegar às Olimpíadas, porque há modalidades esportivas com muito mais tempo e organização do que ela; mas o fato de que a olimpização tenha sido elegido como um objetivo é muito bom, pois vai orientar o processo de organização da capoeira, e aí eu dou todo o meu apoio, e espero ver o dia em que a capoeira integre as Olimpíadas. E não acho, de maneira nenhuma, que a inclusão da capoeira nas Olimpíadas traga qualquer prejuízo para ela. A capoeira é riquíssima, e é um pequeno segmento dela que vai para as Olimpíadas, e ela não vai perder nada, muito pelo contrário, ela vai é se enriquecer cada vez mais, no seu todo. Se as pessoas querem que a capoeira cresça, temos de nos acostumar com a idéia dela incluída nas Olimpíadas, sem dúvida alguma.
 
Capoeiradobrasil: – O senhor cresceu num tempo em que a divisão entre capoeira Angola e Regional não era bem nítida, ou não existia. Hoje, há várias divisões, várias “capoeiras”. Como o senhor dividiria hoje as variedades ou estilos de capoeira?
 
Mestre Brasília: – Dizem que Mestre Bimba, quando criou a Regional, chamou os angoleiros da época para conversarem sobre a unificação da capoeira. Alguns acharam que não, e ela continuou dividida. Na realidade, quando eu aprendi, o mestre dizia: capoeira é uma só, você deve ouvir o berimbau e jogar de acordo com o toque. Para cada toque há uma maneira específica. Não há modalidades diferentes, é o toque que determina as diferenças no jogo. Se você toca Angola, há uma maneira característica de jogar; se toca São Bento Grande da Regional, a característica do jogo é outra; se você toca São Bento Grande de Angola, é outra maneira; se toca Jogo de Dentro, outra maneira; se toca Iuna, é outra maneira de jogar. E o capoeirista tem que estar atento a tudo isso. Mestre Canjiquinha me dizia sempre, e eu acredito também nisso, a capoeira, no futuro, será uma só; ou melhor, o capoeirista vai ter que saber jogar tudo. Não é que ela será reduzida a uma só, mas o contrário: você vai ter que saber jogar a Regional e a Angola, tem que manter esta divisão, mas não é uma divisão política, de facções antagônicas, mas uma divisão cultural, percebe? Porque a Angola é a raiz, e Mestre Bimba, quando criou a Regional, levou para ela os movimentos da Angola aos quais achou que podia dar mais velocidade e acrescentou outros movimentos, mas 80% foram trazidos da Angola. Aplicou a isso uma didática específica, e pronto. Como ele enfatizava o aspecto de luta da capoeira, criou-se uma lenda. As pessoas que hoje fazem a capoeira com aquele espírito de luta, não estão fazendo a Regional do Mestre Bimba. A maioria toca São Bento Grande de Angola e diz que está jogando Regional. O toque de São Bento Grande de Angola chama para um jogo rápido, solto, mas é Angola. Mestre Canjiquinha, quando queria que nós jogássemos um jogo mais pesado, tocava Banguela; se queria jogo de dentro, tocava Jogo-de-Dentro; mas você pode jogar dentro tanto na Regional como na Angola, depende do toque, da situação, do momento e do jogador com quem você está jogando. Se você joga com um cara maldoso, você não vai jogar aberto com ele, não vai jogar descuidado, não vai fazer floreio na frente dele, a menos que você seja um cara inocente e entra na roda para “se espalhar”, como dizem, aí, vai sair com a cara quebrada, porque na primeira brecha, o cara maldoso vai entrar com tudo, pois as pessoas estão aí para fazer nome na roda, não há necessidade disso, mas as pessoas, por estupidez ou ignorância, fazem é isso mesmo, querem tirar proveito das outras, mas não deveria ser assim.
 
Hoje, fala-se aí em “capoeira contemporânea”; isso, na realidade, não é capoeira: é uma pequena parte dela, as pessoas estão pulando, e se fizessem isso de forma engrenada, ainda que bem, mas, assim, individualmente, cada um pula sozinho, é um circo mal organizado; um circo de acrobatas mal dirigidos. No entanto, ela pode ser executada de forma organizada, com coordenação e movimentos engrenados, fazendo toda essa movimentação que aí está hoje, pois a capoeira evoluiu; há quarenta anos, eu via capoeirista dar salto mortal na roda de capoeira, bonito, mas engrenado, um dentro do movimento do outro. Vi também João Grande e João Pequeno jogando no chão, e não era essa Angola que hoje o pessoal diz: ”isso aqui é Angola”; não, eles faziam tudo: bananeira, João Grande fazia a ponte, queda de rins, até a chamada volta-por-cima… e hoje, não: o pessoal fica com meia-lua de compasso pra lá e pra cá, passa a perna por cima do outro, só na meia-lua de compasso, e dizendo que estão jogando Angola.
Então, é isso: é preciso administrar toda esta parafernália de movimentos que os jovens acham que são contemporâneos, e inseri-los na capoeira realmente. Aí é que eu falo do estudo que o cara teria de ter: conhecimento do que havia antes; numa pesquisa médica, por exemplo, o pesquisador tem que conhecer os remédios que já foram criados antes, e hoje ele complementou; se ele não tiver esse conhecimento do que já foi feito antes, ele não poderá criar nada, e dizer que está fazendo uma capoeira contemporânea.
 
Capoeiradobrasil: – Mestre Brasília, neste final de entrevista, vou deixa-lo à vontade para falar do que achar melhor.
 
Mestre Brasília: – Pois bem: eu gostaria então de convidar as pessoas, os dissidentes, a conhecerem melhor a Federação e a Confederação, e que tragam a sua opinião. Venham somar conosco, venham aprender e, logicamente, trazer a sua contribuição, colocando nas reuniões as suas posições; acredito que, hoje, com o Conselho Superior de Mestres, nós poderemos aproveitar muita coisa, as pessoas estão mais abertas, eu converso com muitos capoeiristas, o carrancismo do passado está em baixa, o autoritarismo já não é tão presente como antigamente. As pessoas estão se conscientizando de que ele não leva a um trabalho construtivo. As grandes empresas de hoje ouvem cada vez mais, desde o seu faxineiro até seu mais alto funcionário. Por quê? Porque elas querem crescer. 
 
Mestre Gladson tem uma bela frase sobre isso: “não há ninguém tão incapaz que não tenha nada a ensinar, como não há ninguém tão sábio que não tenha nada a aprender”. Eu aprendo diariamente, junto com vocês, eu sinceramente me considero um aprendiz da arte da capoeira.
 

Referencia Visual: Mestre Bimba

Mestre Bimba, em sua
chegada a Goiânia,
quando concedia
entrevista ao jornal
”O Popular”, em 1973.
Mestre Bimba, notícia de
”A Tarde”, em 1° de Agosto
de 1936.
Mestre Bimba aplicando uma vingativa Vermelho 27.
Centro de Cultura Física e Luta Regional da Bahia
R. do Maciel, 1/Térreo, 1957.
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Pós-Graduação em Capoeira

A UNIABEU, Rio de Janeiro, estará promovendo curso de pós-graduação em Capoeira.

 

ESPECIALIZAÇÃO EM CAPOEIRA

OBJETIVO GERAL:

Capacitar profissionais com conhecimentos específicos a UNIABEU pretende oferecer o curso de Pós-Graduação em Capoeira(Lato Sensu).

PÚBLICO-ALVO:

Profissionais de Educação Física e graduados das profissões relacionadas à Capoeira.

HORÁRIO DE AULA

As aulas serão realizadas aos sábados, nos períodos da manhã e da tarde, com periodicidade quinzenal, admitindo-se, de acordo com calendário divulgado previamente, a ocorrência de aulas em sábados subsequentes.

DURAÇÃO:

360 horas, a serem intregralizados em 18 meses, não comportando o tempo de estudo individual ou em grupo, sem assistência docente.

ESTRUTURA CURRICULAR:

  • História da Capoeira I e II
  • Corporeidade na Capoeira
  • Treinamento Desportivo na Capoeira
  • Antropologia na Capoeira
  • História da África e das Sociedades Afro-americanas
  • Psicologia na Capoeira
  • Psicopedagogia na Capoeira
  • Biomecânica Aplicada a capoeira
  • Nutrição e Capoeira.                                
  • Psicomotricidade na Capoeira
  • Metodologia da Pesquisa
  • Tópicos Especiais em Capoeira
  • Análise Sistemática dos Movimentos da Capoeira
  • Sociologia na Capoeira
  • Didática do Ensino Superior
  • Trabalho final de curso

CORPO DOCENTE

Corpo docente é formado por doutores, mestres e especialistas com sólida formação acadêmica e experiência profissional relativa ao curso em que lecionam.

PROCESSO SELETIVO

Análise de Curriculum-Vitae.

DOCUMENTAÇÃO EXIGIDA PARA INSCRIÇÃO

    • Cópia do Diploma de graduação ou similar (Autenticado)
    • Declaração de Graduação (Temporário)
    • Cópia do Histórico Escolar da Graduação
    • Cópia do Documento de Identidade/CPF/Título de Eleitor
    • Curriculum Vitae Resumido
    • Cópia Certidão de Nascimento ou casamento
    • 2 fotos 3X4

NÚMERO MÁXIMO DE ALUNOS POR TURMA

40 (QUARENTA) vagas por turma

INVESTIMENTO

A definir pela Coordenação Geral

PERÍODO DE INSCRIÇÃO

21 de fevereiro a 21 de março de 2005

PREVISÃO DE INÍCIO DAS AULAS

09 de abril de 2005

CERTIFICADO

Os alunos que concluírem todas as disciplinas com média mínima 7,0 (sete) e presença de, no mínimo, 75% das atividades acadêmicas de cada disciplina e obtiverem avaliação satisfatória no Trabalho de Conclusão de Curso, terão direito ao Certificado de Especialista em Psicopedagogia, conferido pela UNIABEU- Centro Universitário.

OBSERVAÇÃO

Não preenchendo o número mínimo de vagas estabelecidas, a UNIABEU reserva-se o direito de não abrir o curso.

 

Informações: Prof. João Perelli 

 

Berimbau

O berimbau é um instrumento de percussão trazido da África (mbirimbau). Ele só entrou na história da capoeira no século XX. Antes, o instrumento era usado pelos vendedores ambulantes para atrair os clientes. O arco vem do caule de um arbusto chamado biriba, comum no Nordeste, que é fácil de envergar. A cabaça, feita com o fruto da árvore cabaceira, funciona como caixa de ressonância. Usa-se uma baqueta (vara de madeira de 40 centímetros) e o dobrão (peça de cobre, parecendo uma moeda, com 5 centímetros de diâmetro).
A palavra capoeira não é de origem africana. Ela vem do tupi (kapu’era) e tem dois significados. Pode ser mato ralo ou uma espécie de cesto para carregar animais e mantimentos.
 
Debret (Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. São Paulo, 1940, I), descreve o berimbau: "Este instrumento se compõe da metade de uma cabaça aderente a um arco formado por uma varinha curva, com um fio de latão, sobre o qual se bate ligeiramente. Pode-se ao mesmo tempo estudar o instinto musical do tocador, que apoia a mão sobre a frente descoberta da cabaça, a fim de obter pela vibração um som mais grave e harmonioso. Este efeito, quando feliz, só pode ser comparado ao som de uma corda de tímpano, pois é obtido batendo-se ligeiramente sobre a corda com uma pequena vareta, que se segura entre o indicador e o dedo médio da mão direita "…
 
O berimbau que hoje se conhece e se toca em todo o mundo é um arco feito de madeira específica (nem toda madeira serve; a mais usada é a biriba), tendo as pontas ligadas por meio de um fio de aço (geralmente, retirado das bordas de um pneu). Numa das extremidades, amarra-se uma cabaça (Cucurbita lagenaria, Linneu), e esta, quanto mais seca estiver, melhor. Faz-se na cabaça uma abertura na parte que se liga com o caule e, na parte inferior, dois furinhos por onde passará o cordão que vai ligá-la ao arco de madeira e ao fio de aço. Para tocá-lo, toma-se um dobrão (moeda antiga) ou um seixo arredondado e chato, uma baqueta (ou vaqueta, pequena vareta de madeira ou de bambu) e um caxixi. Nos primeiros tempos da colonização, havia no Brasil outro tipo de berimbau, bem menor, tocado com a boca, conhecido na América Latina como berimbau de Paris.
 
Entre os etimólogos, há verdadeiro desencontro a respeito da origem do nome berimbau.
A Real Academia Española registrou o verbete na 12a. edição de seu dicionário, em 1884, que até hoje ainda sugere proposição onomatopaica para a sua origem: "voz imitativa del sonido de este instrumento". Há proposições para origem africana, de Leite de Vasconcelos, em artigo publicado na Revue Hispanique, onde apresenta o mandinga bilimbano. Renato Mendonça propõe o quimbundo mbirimbau, com a simplificação do grupo consonantal mb. Desconhece-se precisamente a verdadeira origem do próprio instrumento e por que vias chegou ao Brasil. Registra-se sua existência em várias partes do mundo, inclusive na África, nos territórios de Iaca e Benguela. Possui muitas denominações e vem sendo motivo de estudo, até mesmo em cadeiras de departamentos universitários a ele dedicadas. É considerado o mais completo instrumento de percussão. No Brasil, é conhecido por: berimbau, urucungo, orucungo, oricungo, uricungo, rucungo, berimbau de barriga, gobo, marimbau, bucumbumba, gunga, macungo, matungo, rucumbo. Em Cuba, país da América Latina onde ele é tão conhecido como no Brasil, é chamado de sambi, pandiguro, gorokikamo e também burumbumba, que deve ser uma variação de bucumbumba no Brasil. Há indicações de seu uso nas práticas religiosas afro-cubanas, coisa de que não se tem notícia de se fazer no Brasil. Burumbumba (buro = falar, conversar; mbumba = habitáculo do morto ou espírito familiar) é o instrumento que "fala com os mortos".
 
O fim do regime escravocrata não significou a aceitação imediata da comonidade negra na vida social. Ao contrário, vários aspectos da cultura afro-brasileira sofreram violenta repressão, como a Capoeira no Rio de Janeiro e o candomblé em todo Brasil e principalmente do nordeste. Talvez o caso da Capoeira seja o mais evidente: essa forma de rebeldia, que já havia sido utilizada como arma de luta em inúmeras fugas durante a escravidão, tornou-se um símbolo de resistência do negro à dominação. Assim, o Governo Republicano, instaraudo em 1889, deu continuidade a essa política e associou diretamente a Capoeira à criminalidade, como consta do Decreto 847 de 11 de outubro de 1890 com o título " Dos Vadios e Capoeiras". A Capoeira foi reconhecida como prática desportiva pela primeira vez como "LUTA BRASILEIRA (CAPOEIRAGEM)," pela Lei Federal 3.199 de 14/04/41, onde foi criado o Departamento Nacional de Capoeira junto à Confederação Brasileira de Pugilismo.
 
Oficialmente, até uma data muito recente à Capoeira esteve vinculada à Confederação Brasileira de Pugilismo que, através de seu Departamento Especial de Capoeira, elaborou o " Regulamento Técnico da Capoeira" publicado em 26 de dezembro de 1972, e que passsou a vigorar à partir de 1º de janeiro de 1973. Esta iniciativa visava "institucionalizar" o ensino e a Aprendizagem da Capoeira. Este regulamento define a Capoeira como uma "modalidade esportiva do ramo pugilístico", uma " prática desportiva de luta que consiste num sistema de ataque de defesa, de caráter individual e orgiem folclórica genuinamente brasileira", que tem como características o movimento ritimado, ma movientação constante, agilidade e a grande velocidade dos movimentos. O regulamento estabelecia sistema de graduação, unforme, categorias e regras de competição.
 
Mestre Mendonça, autor do anteprojeto do Regulamento da Capoeira, o qual passou a vigorar como Regulamento Nacional da Capoeira a partir de 1º de janeiro de 1973, é inventor do berimbau de bambu. Recebeu da Câmara Municipal do Rio de Janeiro o título de Cidadão Honorário do município do Rio de Janeiro e Medalha de Mérito Pedro Ernesto e, recebeu, também, o título de Cidadão do Estado do Rio de Janeiro e a Medalha Tiradentes da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro.
 
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Angoleiro Paulista, Sim Sinhô!

No Início dos anos 90, no Estado de São Paulo, existiam apenas alguns raros grupos dedicados exclusivamente à Capoeira Angola. Nos dias de hoje, somando-se os grupos da Capital, do Interior e do Vale do Paraíba, e mais os do Litoral Norte, chegamos, aproximadamente, a uma dezena.
 
Alguns, com trabalhos consolidados e reconhecidos pela exigente comunidade angoleira dos demais estados, especialmente Bahia, Rio de Janeiro e, até mesmo, do próprio Estado de São Paulo. Alguns outros grupos, ainda em estágio embrionário, mas com bom potencial.
 
Os Mestres Pé-de-Chumbo, Jogo-de-Dentro e Zequinha fizeram parte dos pioneiros da fase Pós-GCAP-80 da Capoeira Angola em São Paulo.
 
O “Centro de Capoeira Angola – Angoleiro, Sim Sinhô” – CCAASS – fundado em 1993 (ou 1995) pelo CM Plínio, também faz parte dos pioneiros da Angola neste Estado. Grupo que tem como referência os Mestres Moa do Katendê e Jogo-de-Dentro. Mestre Moa, baiano, há bom tempo atua também como “conselheiro” do grupo. Moa tem pelo menos uma década de atividades em São Paulo, considerando-se o tempo que aqui viveu, desenvolvendo sempre trabalhos com música, arte, religião e, especialmente, Capoeira Angola. Hoje em dia, praticamente, vive na ponte-aérea Bahia-Sampa.
 
Mestre Moa, juntamente com o CM Plínio, está à frente do  Grupo Afoxé “Amigos de Katendê”. Aliás, está mais do que na hora de os capoeiras paulistas passarem a observar, com mais atenção, o que se “executa” em conjunto com a Capoeira em outros estados, passando então a estudar e preservar outras manifestações prima-irmãs da Capoeira. 
 
Plínio Angoleiro,  Sim Sinhô! – O dono da casa
 
Em 1999, quando comecei a trilhar os caminhos da Capoeira Angola, sempre orientado pelo saudoso Mestre Cosmo, tive a sorte de participar de um evento do Angoleiro Sombra. Isto aconteceu em Santa Rita do Sapucaí, Sul de Minas, de 22 a 24 de outubro. Na ocasião tive a oportunidade de fazer uma oficina de Capoeira Angola com o Mestre Jogo-de-Dentro. O Plínio, que acabara de receber, pelas mãos do próprio Jogo-de-Dentro, o título de Contramestre, também ministrou aulas naquela oficina. Na ocasião tive também o prazer de conhecer os Mestres Bigo (Francisco 45), Alemãozinho e Robinho Angoleiro. O Robinho é mestre do Grupo de Capoeira Angola Axé Brasil, e desenvolve os trabalhos na região de Santo Amaro de São Paulo. Aliás, em 1999, ele organizou uma série de excelentes reportagens em uma revista de circulação nacional, com mestres da região da Zona Sul onde tratou de, por exemplo, ressaltar a importância destes mestres nas décadas dos 70 e 80 na Capoeira daquela região. Mestres Bigo, Natanael, Limãozinho, Alemãozinho e muitos outros participaram daquelas reportagens. Aliás, a bem da verdade, o Robinho é um dos grandes incentivadores do resgate e preservação da memória do Mestre Angoleiro Paulo Limão.
 
Voltemos ao Contramestre Plínio!
 
Mais recentemente, em curso da USP “Capoeira na Academia” – promovido pela Doutora Letícia Vidor e grande elenco (Bia, Camila, Joao da Selva etc) – o CM Plínio contou parte de sua história. Ele conta que começou capoeira em 1979, com um discípulo dos Mestres Caiçara e Silvestre, chamado  Almir Vitório. Pouco depois conheceu Mestre Gato Preto, angoleiro da Bahia, com quem aprendeu capoeira de 1980 a 1983. Naquela época, em São Paulo, não existia muito essa diferença entre Angola e Regional, como se vê hoje. Capoeira Angola era só pra “abrir batizados”.
 
Quando Mestre Gato Preto volta para Santo Amaro da Purificação, Bahia, em 1984, Plínio participou então do Grupo Cordão de Ouro de Mestre Suassuna. Isto aconteceu até os anos de 90/91. Nesta época ele, CM Plinio, já havia passado dois anos em Salvador trabalhando, onde teve a oportunidade de treinar durante três meses com o Mestre João Grande no Teatro Miguel Santana.
 
 
De volta a São Paulo, em 1991, o CM Plínio iniciou um trabalho com o Mestre Moa do Katendê, quem primeiro lhe estendeu a mão para o desenvolvimento na Capoeira Angola. Em início de 1993, Plínio é a convidado coordenar um grupo só de Capoeira Angola para a Somaterapia de Roberto Freire. Após 1995, o Plínio se separa dos somaterapeutas, iniciando seu grupo. O núcleo Casa da Soma assumiu o nome de IÊ, a busca pela pedagogia libertária. O somaterapeuta (de SOMAIÊ) Rui Takeguma é remanescente do núcleo IÊ de Roberto Freire e atualmente coordena o IÊ de São Paulo, a União de Angoleiros Independentes – UAI em Belo Horizonte e participa da Federação Anarquista de Capoeira Angola (FACA), a qual ajudou a criar.
 
Antes de eu conhecer a Capoeira Angola de Plínio, eu já conhecia parte de seu trabalho, como, por exemplo, o CD organizado pelo Mestre Limãozinho (sobrinho do saudoso Mestre Angoleiro Paulo Limão), no qual Plínio teve participação.
 
O Terreiro do CM Plínio exala Axé e dendê. Pudera, pois ele tem na veia a questão da espiritualidade. Seu campo de mandinga é sempre bem freqüentado por entendidos no assunto Candomblé, como é o caso do próprio Mestre Ananias, que diz que Capoeira e Candomblé são como irmãos.
 
No curso da USP, Plínio fez os seguintes comentários: “Para se entender melhor a capoeira, até mesmo a partir da musicalidade, o candomblé é uma das formas mais eficientes… é beber da fonte… é você receber alimento de um mesmo lugar… muitos capoeiras antigos eram Ogãns e defendiam os Candomblés…”. Aliás, este assunto – Capoeira e religião afro-brasileira – é um bom mote!
Afinal, parafraseando o próprio Plínio, “São Paulo tem Angoleiro, Sim Sinhô!”.

Parte do texto: ANGOLEIRO PAULISTA,  SIM SINHÔ !
Aniversário do Contramestre Plínio
Fonte: Capoeira do Brasil
 

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I Seminário Nacional das Culturas Populares

Evento promovido pela "Secretaria da Identidade e Diversidade Cultural" e "Ministério da Cultura". A realização ficará por conta da "Fundação Cultural Palmares (MinC)" e "Instituto Brasileiro de Administração para o Desenvolvimento". Brasília, 23 à 26/fev/2005.
 
 A cultura popular é a expressão mais legítima e espontânea de um povo. Ao mesmo tempo em que carrega em si elementos fundadores de uma cultura, resulta de um constante processo de transformações, assimilações e misturas. Ao assumir e reconhecer sua fundamental importância para a construção de uma identidade nacional que compreenda toda a diversidade das manifestações culturais do Brasil, o Governo Federal dá um passo importante em direção ao fortalecimento de uma consciência cidadã no país.
É com esse espírito que a Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural, do Ministério da Cultura, por meio da Fundação Cultural Palmares e do Instituto Brasileiro de Administração para o Desenvolvimento (Ibrad), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, por meio do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, e a Secretaria de Políticas Culturais (MinC) , realizam o I Seminário Nacional das Culturas Populares, que acontecerá dos dias 23 a 26 de fevereiro, no Complexo Cultural Funarte em Brasília.
 
Essa iniciativa é fruto de um diálogo do Ministério da Cultura com segmentos da sociedade civil, constituídos pelo Fórum Permanente das Culturas Populares de São Paulo e o Fórum de Culturas Populares, Indígenas e Patrimônio Imaterial do Rio de Janeiro, que se quer ampliar por todo o território brasileiro, propiciando a discussão em busca de modos de atuação e políticas que fortaleçam a pluralidade brasileira.
 
O Seminário tem por finalidade contribuir para o processo de formulação de políticas públicas para as culturas populares envolvendo seus diferentes protagonistas e gestores, de forma a estimular um debate nacional mais amplo sobre a situação atual das ações destinadas ao reconhecimento e fomento das atividades artísticas e culturais compreendidas como Culturas Populares.
 
A programação do evento inclui palestras e oficinas, a exposição "Da cabaça, o Brasil: natureza, cultura, diversidade", além de espetáculos de música e dança com artistas de todo o Brasil.
 
Sua presença é fundamental para enriquecer a diversidade dos debates.
 
Envie suas sugestões, informações, notícias e artigos.
 

Horário

Evento

Local

23 de fevereiro

18:30h

Orquestra Nzinga de Berimbaus

Mesa de abertura

Sala Plínio Marcos

20:00h

Conferência Inaugural

Diversidade Cultural e Biodiversidade Ministra do Meio Ambiente
Exª Srª Marina Silva

Sala Plínio Marcos

21:00h

Noite das Violas

Viola Nordestina com Ivanildo Vila Nova e Oliveira de Panelas

Viola de Cocho com Daniel de Paula e Severino Dias de Mora

Viola Caipira com Badia Medeiros, Ivan Vilela e Roberto Correia

Sala Plínio Marcos

24 de fevereiro

9:00h

Painel 1: Cultura e a Invenção do Popular no Brasil

Sala Plínio Marcos

12:00h

Território livre

Sala Cássia Eller

14:00h

Painel 2: Formas de Preservação dos Saberes e Modos de Fazer: a voz das culturas populares

Sala Plínio Marcos

19:00h

Mesa: Culturas Populares e as novas gerações urbanas

Sala Plínio Marcos

22:00h

Show

Lançamento do 1º Cd. do Coral dos Guaranis

Manifesto 1° Passo

Sala Plínio Marcos

25 de fevereiro

9:00h

Painel 3: Culturas Populares, Circuitos de Difusão e Mercado

Sala Plínio Marcos

12:00h

Território livre

Sala Cássia Eller

Roda de Capoeira com o Grupo de Capoeira Nizinga

14:00h

Painel 4: Educação para Diversidade

Sala Plínio Marcos

19:00h

Mesa: Relatos de experiências internacionais

Sala Plínio Marcos

21:00h

Show
Carimbo Raízes da Terra
Grupo de Chula Os Gaúchos

Sala Plínio Marcos

26 de fevereiro

9:00h

Fala do Séc. Executivo do MinC Juca Ferreira

Sala Plínio Marcos

9:30h

Painel 5: O Estado e as Culturas Populares

Sala Plínio Marcos

14:00h

Painel 5: Continuação mais Plenária

Sala Plínio Marcos

19:00h

Show de encerramento
Nana Vasconcellos: O Bater do Coração 
Bumba Meu Boi Fé em Deus
Samba Chula Filho da Pitangueira

Sala Plínio Marcos

Capoeira Angola em Rio Claro SP

Mestre Roxinho vai ministrar uma oficina de Capoeira Angola em Rio Claro, São Paulo, de 11 à 13 de Março de 2005
 
Oficina de Capoeira Angola
 
De 11 a 13 de março de 2005
 
Rio Claro – SP
 
REALIZAÇÃO
Escola de Capoeira Angola Mato Rasteiro
Núcleo Rio Claro
 
COORDENAÇÃO
Rinaldo Prado (GATO)
 
PARTICIPAÇÃO
Mestre Roxinho de Salvador – BA
 
PROGRAMAÇÃO
 
Dia 11
     * Às 18hs na sede da ECAMAR Palestra Capoeira e educação e Roda de Angola com Mestre Roxinho de Salvador – Ba
Dia 12
     * Das 9hs ás 12hs Oficina Capoeira Angola c/ Mestre Roxinho de Salvador "Ba
     * Das 14hs ás 15:30 oficina de canto e ritmos de Capoeira Angola
     * Das 16hsás 18Hs palestra Capoeira e Ancestralidade e roda.
 Dia 13
     * Às 9hs Palestra a mulher Negra no Brasil E roda de Capoeira Angola. 

Maiores Informações: fones
(19) 3532-2312 e 3533-7257
 
Local: Sindicato dos metalúrgicos
Rua 17, 135 AV. 25 / 24
Bairro estádio
 
Valor da inscrição
R$ 20,00 até dia 9/03 após esta data R$ 30,00
Conta para depósito
Banco Real
AG:0595 C/C 1709047
Edielson da Silva Miranda
Apresentar comprovante de depósito no local do curso.
 
APOIO
Prefeitura de Municipal de Rio Claro
Secretaria Municipal de Cultura e turismo de Rio Claro
Acessória de assuntos Afros
 
CONERC – Conselho da Comunidade Negra de Rio Claro
 
Lavador do Ronnald – Tel (19) 3532-2312
 
Auto Posto Lago Azul
 
Sesi Rio Claro
 
Sindicato dos metalúrgicos de Rio Claro