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Março 2005

Vendo Artigos de: Março , 2005

A saga do Negro Capoeira

Interlúdio de alguns capítulos para contar a saga do negro capoeira conhecido como King Kong
Crônica escrita por Mestre Tonho Matéria, onde o autor conta parte de sua própria história
 


Roberto? E quem disse que ele não era mole?
 
Um menino cheio de energia que fazia nas ruas do seu bairro um centro de vandalismo, uma espécie de membro da Nagoas que como um ser malta desequilibrava a esperança de paz dos seus vizinhos.
 
Carrasco lembra bem, certo dia quando encontrou pela primeira vez com ele na Praça da Sé sentado num dos bancos que ficava ali esperando alguém para o ócio, matutando algo que iria de uma forma não tão suntuosa, provocar um ato de alvoroço. Vestido com um macacão azul onde tinha o emblema do Liceu Arte e Ofício, que era o colégio onde estudava, isso era o que naquele momento demonstrava o nagoa. Sua mãe, dona Elza, uma negra descendente de africana legítima, ou seja, uma original filha de Luanda, não escondia o amor por ele, e nem conseguia dormir direito, porque seu quase primogênito não tinha horas para chegar a casa, vivia o tempo inteiro no meio das ruas, muitas vezes pongando em ônibus, o que chamamos de surfista de asfalto, desafiando a lei da sua própria gravidade.
 
Seu pai um quase Manuel Querino e sábio do seu povo onde, com gratidão, levava a vida inteira contando causos do tempo dos seus ancestrais. Ele era um homem de caráter forte e de sinceridade à flor da pele, conhecido como Mané do Burro, um mercador ambulante que vivia de calçadão em calçadão vendendo seus limões para levar pra dentro de casa o édulo que com muito esforço, e merecimento, era conseguido,  transformado-o em satisfação. Seus irmãos, dois descendentes também quase legítimos de Angolano, conhecidos como Barata e Negrura, eram os mais centrados de todos. Barata vivia falando consigo mesmo e não gostava muito de prosa. Já Negrura, por ser o mais velho dos três, tinha uma maneira diferente de se comportar com as pessoas. Ele andava jogando dama na porta do armazém de Branco, e assim levava sua calma vida de um rapaz que compreendia a vida que tinha.
 
Já seu irmão casula não, ele era um terror e não conseguia um minuto se quer deixar os vizinhos em paz. Muitas vezes foi preso pela guarda do bairro por estar fazendo baderna, e isso, simplesmente, por jogar pedra ao telhado do vizinho ou por procurar intrigas com quem passava quieto.
 
Ouve uma ocasião em que ele ficou de plantão na porta do mercadinho de Louro a espera de Panela, um garoto boxeador que morava na rua de baixo, conhecida como Rua das Pedreiras, por cisma. Só que teve um dia que ele se deu de mal com Panela, levando alguns cruzados no rosto, acompanhados de diretos e ganchos. E com isso levou-se anos e anos pra ser desmistificado esse rancor. Eles cresceram, se tornaram adultos, e não conseguiam se separar da infância. O menino era assim mesmo, um valente guerreiro que não sabia o que o destino estava protocolando para a sua vida.
 
Quando já trabalhando na Limpurb (Empresa de Limpeza Publica Urbana), continuava a cometer os mesmos atos de antes, era um erê com sua brasilerança de truculentos modos de agitar. Certa feita conseguiu escapulir da garupa do caminhão onde pegava os lixos que as donas de casa deixavam na porta, se ralando todo, tendo vários ferimentos em toda parte do corpo, e mesmo assim não aprendeu. A sorte dele foi que naquela época a empresa obrigava os seus funcionários a usarem um macacão cor de abóbora, com uma faixa em forma de um xis incandescente, para avisar aos motoristas que havia perigo, ou seja, homens trabalhando para limpar a cidade e ao mesmo tempo correndo risco de vida pendurado no que chamamos de "carro de lixo". Mas pra ele isso não importava muito e não tinha um valor se quer, não pensava muito em constituir família e nem tinha medo da morte tanto que fazia da sua vida um coquetel de riscos. Acredita-se que o mais importante disso tudo foi o que estava por vir, e nem ele mesmo teria noção disso.
 
O mais engraçado de tudo é a maneira como ele é, até hoje, conhecido e chamado no bairro por "Nenenquinha". E não perguntem qual a origem da palavra que ninguém saberá explicar. Talvez seja por conta de suas pelas travessuras, ou se, quando ainda era bebê, fosse a alcunha gerada por sua mãe por chamá-lo de Neném e os vizinhos de Quinha e daí surgiu Nenenquinha, uma junção de dois nomes carinhosos. Isso é uma hipótese! Na verdade o segredo do nome foi com dona Elza para o jardim dos espíritos de luz e lá ficou para sempre.
 
Voltando a falar de sua mãe, Elza foi uma verdadeira dona de casa que tinha em sua particularidade o segredo e sagrado dom de proteger. Proteção essa que virava noites e mais noites sentada na porta da casa esperando o último dos três filhos entrar e se deitar. Era uma pessoa maravilhosamente meiga e cheia de vigor. Não poupava uma bacia de roupa suja, ela lavava de ganho e mesmo aparentando seus 60 anos, que mais parecia uns 30 de tanta energia que esbanjava, não conseguia ser uma mãe descontente dos seus atos de ser sempre uma mãe exemplar. Brigava com qualquer um por causa dos seus bambinos, e não dispensava uma surra neles também. Na verdade todo povo de Ogum é assim mesmo, bastante guerreiro e imbatível.
 
Varias e varias vezes dona Edith ficava batendo papo até altas horas fazendo companhia a mãe Elza, como era chamada pelos meninos. Coitada, morreu cedo demais para uma mulher que era tão forte espiritualmente. Mais é isso mesmo, é o caminho de todos os negros que ainda vivem num quilombo sem ter certeza que a vida pode mudar a sorte de ser um doutor, o que na verdade aconteceu com seu tão protegido e amado filho.
 
Recordaremos um episodio que acontecera na Cidade Nova, quando um bloco de percussão passava arrastando o povão era uma zona danada, e ao mesmo tempo gostoso de ver o SPP passar tocando suas batucadas. Quando de repente, quem estava batendo nas pessoas? Ele, o próprio Roberto Nenenquinha, o temido pelas pessoas da área. O que tinha de bom era que ele nunca precisou usar armas para se defender, ele tinha já os punhos preparados para seus ataques sombrios. Mais com sempre terminava apanhando também ou indo preso.
 
Nenenquinha teve uma infância normal como qualquer criança do gueto tem. Foi vendedor de picolé e carregador de compra, e um dia tivera um sonho que iria modificar a sua vida. Aos pouco foi se descobrindo como negro e sabia que tinha uma razão mais profunda para se concretizar no universo, e ai conheceu uma dança que era uma mistura de luta que se espojava pelo chão e quem fosse de verdade o babalaô dessa dança não se sujava. Tomou gosto e mergulhou de vez e até hoje não conseguiu voltar do fundo do oceano dessa dança.
 
Que magia tem essa dança que não deixa ninguém viver sem falar nela? Principalmente quem a conhece e lhe tem como um guia protetor. Será que há magia e mistérios guardados com seus criadores que eles não conseguiram contar porque não tiveram tempo de achar um indivíduo capacitado de adquiri-la? Ou será que Deus colocou nas mãos do dona da estrada e mandou que ele se virasse sozinho por ai para sair emergindo de dentro de si essa dança num formato de dois corpos dentro de uma roda viva para dar significado ao mundo? Fica aqui essa interrogação.
 

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Ministério da Cultura destina R$1,85 milhão à capoeira

Mais de 400 capoeiristas de 40 grupos integraram o Cortejo Viva Salvador, que percorreu as ruas da cidade
 
O secretário executivo do Ministério da Cultura (Minc), Juca Oliveira, aproveitou que Salvador ficou mais velha ontem para lhe dar um presente. Ele anunciou a liberação R$1,85 milhão para financiar dez projetos envolvidos com a capoeira na Bahia. O edital será publicado hoje no Diário Oficial da União. A novidade foi revelada durante a caminhada Cortejo Viva Salvador, que percorreu o trajeto do Campo Grande à Praça Municipal, com a presença de 456 capoeristas, de 40 grupos diferentes. "Precisamos reconhecer a maior manifestação cultural do Brasil. Pretendemos lançar outros projetos", acrescentou Oliveira.
 
Segundo o secretário, a capoeira existe em mais de 150 países do mundo, mas ainda assim é muito discriminada, por ter nascido no período da colonização do Brasil como uma forma de resistência dos escravos negros. "Até hoje a luta misturada à dança não recebeu seu verdadeiro reconhecimento. Capoeira é dança, é cultura, é educação física, fortalece o espírito de lealdade e solidariedade. Está na hora de dar a ela seu valor. Este é só começo de muitos outros investimentos que virão", informou.
 
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I Encontro Paraibano de Monitores

O Grupo Zumbi de Cultura Popular realizará o I Encontro Paraibano de Monitores, entre os dias 13 à 15 de Maio de 2005, na Paraiba
 
 
O Grupo Zumbi de Cultura Popular, primando pelos seus propósitos que é fortalecer a prática da cultura popular na Paraíba, através da dança, do maculelê, do maracatu e da capoeira, carro chefe nessa busca, irá realizar o I Encontro Paraibano de Monitores, no período de 13 à 15 de  maio do corrente ano, podendo participar todos aqueles que estejam no grau de monitor, exercendo ou não.
 
O êxito que o grupo vem conseguindo sistematicamente junto a sociedade paraibana, é fruto desses propósitos, bem como graças as constantes investidas em eventos voltados para a comunidade.
 
Diante disso, estaremos realizando esse encontro de monitores, que com certeza será inédito até como iniciativa para a busca de uma tomada de consciência no tocante a prática da capoeira no Estado da Paraíba.
 
O evento focará a importância da atividade do monitor dentro do grupo ou associação, conforme a definição de cada entidade. Respeitando cada particularidade, é objetivo desse encontro a proposição de novas idéias que venham a enriquecer as atividades de cada um.
 
Como Coordenador do Grupo Zumbi de Cultural Popular, e o Profissional de Relações Públicas, declaro que estamos visando, com esse evento, criar um canal mais eficiente de comunicação com a comunidade capoeirística e simpatizantes.
 
 
Benedito dos Santos
Coordenador
Grupo Zumbi de Cultura Popular
 
 
GRUPO ZUMBI DE CULTURA POPULAR
 
I ENCONTRO PARAIBANO DE MONITORES
SUPERVISÃO MESTRE NALDINHO – CAPOEIRA ANGOLA COMUNIDADE
 
BAIRRO DOS NOVAIS " JOÃO PESSOA – PB
  
 
F ICHA DE INSCRIÇÃO
 
 
NOME: _________________________________________________________________
 
 
 
ENDEREÇO:_____________________________________________________________
 
 
 
CIDADE/UF:_____________________CEP:__________BAIRRO:_________________
 
 
 
TEL.: (     ) __________________ EMAIL:_____________________________________
 
 
 
DATA NASCTO:_____/____/_____ESTADO CIVIL:____________________________
 
 
PAI:____________________________________________________________________
 
 
 
MÃE:___________________________________________________________________
 
 
 
DOCUMENTOS PESSOAIS:
 
 
 
IDENTIDADE Nº:______________ÓRGÃO EXPED.:_________DATA EXP.:________
 
                    
 
CPF:______________________________CNH__________________________________
 
COMPROVANTE DE INSCRIÇÃO
 
AGÊNCIA: 1234-3   – C/C 76104-4 EM NOME DE: BENEDITO DOS SANTOS
ENVIAR FICHA DE INSCRIÇÃO E COMPROVANTE DE  PAGAMENTO PARA O ENDEREÇO: RUA MANOEL PAULINO JUNIOR, 68 – TAMBAUZINHO – JOÃO PESSOA – PB. CEP: 58042-000 – TEL. (083) 244.8423  – (083) 8822.4866 .
 
PRAZO DAS INSCRIÇÕES: ATÉ 29/04/2005
 

PRIMEIRA PARCELA: 17,50 ATÉ 31//03/2005
 
SEGUNDA PARCELA: 17,50 ATÉ 29/04/2005

 
P  R  O  G  R  A  M  A  Ç  à O
 
LOCAL : Escola Estadual de Ensino Infantil e Fundamental PADRE DEHON.
 
DATA: 13 a 15 de Maio de 2005.
 
TAXA: R$ 35,00 (trinta e cinco reais), com direito a alimentação, hospedagem e certificado.
 
INSCRIÇÃO: ATÉ 29.04.2005
 
DIA 13.05.2005 – SEXTA
 
 
18:00       Credenciamento dos participantes
 
19:30       Palestra: Negritude – Globalização e Educação (João Balula – Diretor de Teatro, Poeta, Educador Popular e Ator).
 
20:30       Palestra: Capoeira e Violência   X   "O mito da marginalização" (Mestre Naldinho – Agente Público Estadual, Membro da Associação Paraibana de Arquidofilos e Educador Popular)
 
21:30       Passeio Noturno
 
DIA 14.05.2005 – SÁBADO
 
07:00 às 08:00   Café da Manha
 
08:30 às 12:00   Dinâmica com a turma de formandos em Educação Física do UFPB.
 
12:00 às 14:00   Almoço 
 
14:15 às 15:00   Avaliação da Primeira Dinâmica
 
15:00 às 15:30   Intervalo para  Lanche
 
15:30 às 17:30   Dinâmicas (Turma e tema definidos na hora)
 
17:30 às 18:00   Avaliação da Segunda Dinâmica
 
20:00                Jantar
 
21:00                Lazer Noturno
 
DIA 15.05.2005 – DOMINGO
 
 
07:00 às 08:00   Café da Manha
 
08:15 às 12:00   Dinâmicas (Turma e Tema definidos na hora)
 
12:00 às 14:00   Almoço 
 
14:00 às 15:00   Avaliação geral do i encontro paraibano de monitores
 
16:00 às 18:00   Roda de Confraternização na Avenida Carneiro da Cunha – Torre – Frente da Escola.
 
19:00 às 21:00   Brincadeira Popular com o Centro Popular de Xultura – CPC Bairro do Novais
 
DESPEDIDA DOS PARTICIPANTES E DESLOCAMENTO PARA REGRESSO AS SUAS ORIGENS DE TRABALHO.
 
REALIZAÇÃO:
 
GRUPO ZUMBI DE CULTURA POPULAR.
 
INCENTIVO CULTURAL
PARAÍBA – NOVO AMBIENTE MÓVEIS
 
 
APOIO:
REST. TENDA MINEIRA
ASSOCIAÇÃO CULTURAL DE CAPOEIRA ANGOLA COMUNIDADE – MESTRE NALDINHO
 
INFORMAÇÕES – telefone: 244.8423/8822.4866 (Bené) – beneditod@geap.com.br
 

Roda de Angola – Mestre Cavaco

Vadiagem em Dose Dupla! Neste final de semana (2 e 3/abril)
 
O Grupo Negaça Capoeira Angola, convida todos seus Amigos para Roda de Confraternização do Mês de Abril, onde estaremos Inaugurando Nosso Novo Espaço.
 
 
        Dia 02/04  –  Sábado   
        A partir das 15:00hrs
                 Local: Barração da Fábrica do Mestre Cavaco
                Rua Marieta da Silva, 197 – Vila Guilherme – SP
                Fone/Fax: (55-11) 6901-1365 – gnegaca@yahoo.com.br
                Visite nosso Site: www.negaca.com e acompanhe nossas próximas rodas !!!
 
 
    Dia 03/04 – Domingo
    A partir das 15:00hrs
             Local: Parque do Trianon
            Av. Paulista ( Próximo ao Portão de entrada )
 
Coordenação: Mestre Cavaco
  
Apoio: O Berimbau Instrumentos Musicais
 
http://www.negaca.com/oberimbau.htm
 
Abraço a todos
Ratão

Capoeira, Dinâmica e Informação

Crônica sobre a dinâmica da Capoeira e das informações nos veículos de comunicações virtuais
 
 
Mestre Edson Carneiro, respeitável folclorista e estudioso da cultura do Negro-Banto, e especialmente de Capoeira Angola, deixou diversas lições para todo bom Capoeira-Pesquisador.
 
O próprio título de um de seus livros – Dinâmica do Folclore – já é uma lição, onde o autor demonstra que não adianta tentar congelar as manifestações culturais como se fossem estáticas, e pior ainda, como se fossem Regionais.
 
Edson Carneiro tratou de descrever a Capoeira de sua época, mas dando a deixa de que a mesma poderia – e está – se modificando ou se adequando com o passar dos tempos. E é bem o temos visto ultimamente. Até mesmo como reflexo deste processo quase que inevitável da globalização.
 
Um bom exemplo disto é a apaixonante Capoeira Angola, que outrora estava por desaparecer, quando os Mestres Moraes e Cobrinha Mansa, ainda no Rio de Janeiro, entraram em campo – ou deveria dizer na Roda – e viraram o jogo. Coisas da angola… Para certificarem-se do que estou falando, basta ler o livro "Capoeira: pequeno manual do jogador", de autoria de Nestor Capoeira, edição de 1998.
 
Hoje, felizmente, podemos ter acesso a um número infinito de informações, seja em livros especializados sobre o tema Capoeira ou teses doutorais, também sobre o assunto. Algumas negando a Capoeira como Patrimônio Cultural Brasileiro. Outras, por outro lado, valorizando exatamente esta face de nossa arte. Alguns trabalhos vêem o componente Negritude como um dos pilares da Capoeira, outros, ao contrário, passam por cima disto e correm para uma Academia de Ginástica.
 
Além dos livros, teses e revistas, basta entrar em alguma ferramenta de busca na internet e digitarmos combinações de palavras-chave com os assuntos correlatos à Capoeira, e Chazan… aparece centenas e milhares de endereços para pesquisa. O problema, geralmente, é a qualidade das informações, ou seja, a maioria das páginas tem conteúdo repetitivo, buscando sempre fortalecer uma versão comercial unificada do que vem a ser, realmente, Capoeira. É claro, é jogada de marketing de uns e outros. Mas quem paga o preço, que aliás tem sito cada vez mais caro – vejam os preços dos workshops pelo mundo afora – é o próprio Capoeirista.
 
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Água: Direito Humano Inalienável

Antonio Carlos de Mendes Thame1
24/03/2005
Acessado em 27/3/2005 09:54
Redação/Editoração/Formatação modificadas por AADF

O alerta tem sido repetido, cada vez com mais intensidade, no mundo inteiro:
 
Ø      a escassez de água é um dos maiores desafios do nosso século.
o        Parece mentira, já que ¾ do planeta são ocupados por água.
o        Só que é quase toda (97%) salgada e 2% formam as geleiras, inacessíveis.
§         Pior ainda: a exploração irracional da água doce dos rios, lagos e lençóis subterrâneos está ameaçando a magra fatia de 1% da água que pode ser usada pelo homem.
 
Hoje, mais de 70% da água doce utilizada no mundo vai para a agropecuária, ou seja para a produção de alimentos.
Em diversos países, depois de se chegar ao limite máximo de utilização da água superficial disponível, vem-se procurando usar a água subterrânea, através da perfuração de poços. O bombeamento é tamanho, que a água não se renova.
Como não se consegue regenerar toda a água retirada, os aqüíferos vêm sofrendo depleção e gerando rebaixamento do solo em muitas regiões. Somente na Índia, no norte da África , Arábia Saudita, Paquistão, Iêmen e México, retiram-se e não se renovam quase 200 bilhões de toneladas de água por ano.
 
É a água necessária para se produzir 200 milhões de toneladas de grãos, suficientes para alimentar aproximadamente 600 milhões de pessoas por um ano. Ou seja, mais de meio bilhão de pessoas consomem alimentos produzidos com água retirada do solo de forma insustentável, predatória.2
Como essa água não está sendo reposta, deixa de ser um bem natural renovável, infinito. Passa a ser um bem finito, cada vez mais escasso.3
Não é somente a água necessária para produzir alimentos que está no limite da exaustão. Falta água para beber.
 
O Projeto do Milênio, plano de ação para combater, a pobreza, a fome e doenças opressivas que afetam milhões de pessoas, lançado em 2002 pelas Nações Unidas, divulgou em janeiro passado seu último relatório, em que acusa a existência de mais de 1 bilhão de pessoas no mundo sem acesso à água potável e 2,6 bilhões (mais de 40% da população mundial ) sem coleta ou tratamento de esgoto, ou seja, sem saneamento básico.
 
E justamente esta ausência de saneamento é responsável não somente por mais de 80% da mortalidade infantil, como também pela ocupação de mais de 50% dos leitos dos hospitais brasileiros por pessoas acometidas de doenças de veiculação hídrica, ou seja, de enfermidades transmitidas pela água.
Na realidade, este imenso desastre, ao mesmo tempo ambiental e de saúde pública,  é fruto não somente do crescimento e adensamento populacional, mas também  do despejo indiscriminado de esgotos domésticos e industriais, dos lixões, do entulho jogado nas margens dos cursos d’água, da ocupação e impermeabilização das margens dos rios , do desmatamento irresponsável, deixando as águas inservíveis para consumo humano.
 
O item 42 do documento "ÁGUA, FONTE DE VIDA", da CAMPANHA DA FRATERNIDADE-2004, destaca:
 
Ø      "Se existe uma escassez progressiva, ela é fruto da depredação causada pela mão humana. O problema da água é mais uma questão de gerenciamento que de escassez".
No Brasil, as preocupações de cientistas e ambientalistas nem sempre são levadas a sério. Afinal, temos mais de 12% da água potável do globo.
Uma riqueza, porém, extremamente mal distribuída: cerca de 80% estão na região amazônica; os 20% restantes se distribuem desigualmente pelo país, atendendo a mais de 90% da população.
 
Ø      Em 9 regiões metropolitanas, a situação é crítica: os sistemas de abastecimento de água ficam contando com o beneplácito do clima ( torcendo por chuva), para fugir do desabastecimento. Nem sempre conseguem, e a saída, onerosa e tremendamente desgastante, é apelar para o racionamento, tentando evitar o rodízio.
 
Revertendo a situação
 
Há décadas, países que já vinham sentindo a escassez de água instituíram instrumentos de gestão para assegurar a integridade dos ecossistemas, com base em três diretrizes:
 
a) utilizar o caráter indutor da legislação ambiental;
b) alocar recursos dos orçamentos públicos, considerando a água como um valor coletivo; e c) instituir a gestão compartilhada da água.
Ø      Primeiro: atualizaram a legislação, adotando não apenas leis de comando e controle, como a Lei dos Crimes Ambientais, e leis de prevenção, mas também leis que inibam comportamentos indesejáveis e incentivem procedimentos ambientalmente corretos, como é o caso da LEI DE COBRANÇA PELO USO DA ÁGUA.
 
        Pela LEI DOS CRIMES AMBIENTAIS, quem polui, despejando nos cursos d’água resíduos ou efluentes com níveis de toxidez que extrapolem os índices máximos permitidos por lei, comete crime e pode ser preso ou ter a empresa fechada.
        Pela LEI DE COBRANÇA, quem polui, mas dentro dos limites fixados por lei, passa a pagar pelos danos causados. Ou seja, o custo de reverter os estragos causados deixam de ser arcados pela sociedade e passam a ser assumidos por quem os gera, dentro da clara aplicação do princípio poluidor-pagador.
 
§         É preciso, porém, destacar o caráter direcionador da LEI DE COBRANÇA PELO USO DA ÁGUA:não é um simples instrumento arrecadatório. É um instrumento de gestão. Melhor do que ter os recursos cobrados de quem polui, para investir na reversão da degradação por ele causada, é induzir quem polui a deixar de fazê-lo. Por isso, o mais importante é forçar os poluidores a tratar seu esgoto, para ficarem livres do pagamento da cobrança pelo uso da água. Para tanto, é preciso "internalizar" os custos para os geradores de poluição, cobrando um alto preço pela poluição da água, a fim de que se torne economicamente compensador tratar os esgotos e resíduos, deixando de poluir4. Este ponto é chave: se o valor a ser cobrado dos poluidores for menor do que o custo de instalar suas próprias unidades de tratamento, estes agentes degradador não mudarão seu comportamento e vão preferir pagar e continuar poluindo.
 
§         O item 51 do documento "Água, fonte de vida", da Campanha da Fraternidade-2004, ressalta que se os valores forem baixos, acabam se tornando um direito de "pagar para poluir".  Por outro lado, os itens 48 a 50 do mesmo documento destacam que a cobrança pelo uso da água deve levar em conta o conceito de "vazão insignificante", com preços diferenciados (por volume e por destinação), para facilitar o acesso dos pequenos usuários. Caso contrário, a cobrança estaria provocando o surgimento dos "excluídos da água", o que seria eticamente inaceitável.
 
Ø      Segundo: a destinação e aplicação de recursos dos orçamentos públicos é indispensável para acelerar as intervenções que possibilitem reverter a degradação das águas.5 Não é possível realizar todas as obras necessárias somente com recursos advindos da tarifa. Para que isso fosse viável, a água precisaria ficar extremamente cara e seria inacessível aos mais pobres. Água tratada interessa a todos, é uma questão de saúde pública, por isso tem valor coletivo, o que justifica a destinação de recursos públicos, através de empréstimos ou mesmo a fundo perdido.
Ø      Terceiro: garantir a participação dos envolvidos nas decisões, através dos comitês de bacia, instituindo a gestão (e a responsabilidade) compartilhada da água. Os comitês, estruturas partidárias com participação dos representantes da União, dos Estados, dos Municípios e da sociedade civil organizada, têm poder de decisão: determinam quais obras serão prioritariamente realizadas na bacia hidrográfica. Dessa forma, estimulam a descentralização, a participação e a conscientização ambiental.
A aplicação conjunta destas três diretrizes significa mais do que oferecer aos cidadãos condições de participar do gerenciamento da água. Implica adequar um valor que reflita os custos de sua provisão, mas que não deixe de levar em conta, eqüitativamente, as necessidades dos mais pobres e vulneráveis. Significa considerar a água como bem público, incluindo-a no universo de interesse da gestão governamental, não ficando sujeita estritamente às leis de mercado.
 
O Fórum Alternativo Mundial da Água
 
Para os Deputados e representantes das ONGs. participantes do 2° Fórum Alternativo Mundial da Água, que acaba de realizar-se  na Suíça, em Genebra, de 17 a 20 de março, é preciso fazer mais.
Ø      Não basta que se considere a água como um direito humano universal inalienável, é preciso que a lei:
 
o        a) determine, dentre os usos múltiplos da água,a prioridade para o abastecimento da população;
o        b) possibilite de fato a universalização do acesso à água, explicitando subsídios ou mesmo a gratuidade dos primeiros 50 litros consumidos por pessoa/dia.
 
Ø      Não basta que a legislação consagre a água como um bem público, é necessário tomar medidas efetivas para restringir sua mercantilização, sua caracterização como "commodity", começando por proibir a comercialização dos direitos de uso advindos de outorgas.
 
Ø      Não basta criticar as privatizações , é preciso mais:
o        a) que a lei proíba expressamente as concessões onerosas , em que o concessionário fica com o direito de fixar as tarifas;
o        b) que se imponham limites à elasticidade das regras das parcerias público-privadas, que privilegiam a proteção dos interesses do setor privado e não a defesa dos usuários-consumidores;
o        c) que se proteste veementemente contra as exigências do Banco Mundial e de bancos regionais, que condicionam a concessão de financiamentos à privatização de sistemas públicos de abastecimento de água.
 
Ø      Não basta defender os imprescindíveis direitos à educação ambiental e à informação, urge que se institucionalize a adoção de mecanismos permanentes de participação popular, com poder de decisão, segundo a concepção bem sucedida dos comitês e das agências de bacias hidrográficas.
 
Ø      Por último, não é suficiente que estas medidas propostas sejam facultativamente implantadas pelos países, a seu critério.
o        É indispensável, haja vista a gravidade, relevância e urgência da matéria, que:
§         a) seja votada e implantada uma COVENÇÃO DAS PARTES, atualizada e eficaz, contemplando estes direitos, a qual, aprovada pelos países signatários da ONU, seja transformada em lei internacional;
§         b) seja criado um fundo para alavancar ou suplementar inversões nos países com menor ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO HUMANO_ IDH;
§         c) seja criada uma autoridade internacional, no mesmo nível da ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO TRABALHO_OIT ou do ALTO COMISSARIADO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA OS DIREITOS HUMANOS_ UCDH, para cuidar especificamente das questões atinentes à prevenção e resolução de conflitos relativos ao acesso à água.
 
Sem dúvida, estas propostas, aprovadas no FÓRUM DA ÁGUA, constituem um conjunto ambicioso de medidas, todas na mesma direção: antecipar a solução definitiva de uma carência social de conseqüências fatais, já que negar o direito de acesso à água é negar o direito à vida.
Por outro lado, cabe uma ressalva: o direito universal de acesso à água, com o qual todos concordamos, não pode se transformar em alvará para atropelar o direito de cada nação soberanamente decidir sobre suas reservas e sobre a gestão de seus recursos naturais.
 
De toda forma, as conclusões do 2° FÓRUM ALTERNATIVO MUNDIAL DA ÁGUA demonstram uma crescente percepção e conscientização com relação a este vital problema. Conscientização que é essencial para induzir à organização e à mobilização, capazes de gerar pressão popular suficiente para fazer surgir a "vontade política" (que não nasce por geração espontânea6), que fará com que temas ambientais, como é o caso da escassez de água, passem a fazer parte da agenda dos Parlamentos e dos Governos.7

1 -Deputado Federal (PSDB/ SP). Foi Secretário Estadual de Recursos Hídricos (gestões Covas e Alckmin) e 1° presidente do 1° comitê de bacias hidrográficas (Piracicaba, Capivari e Jundiaí) implantado no Estado de São Paulo.
2 -Grifo AADF
3 -Idem
4 -Grifo AADF
5 -Idem
6 -E sim por pressão popular… Addendum de AADF
7 -Grifo AADF

LEMBRANÇAS DE PASTINHA

I SEMINÁRIO DE CAPOEIRA ANGOLA DO GRUPO DE CAPOEIRA LIBERTAÇÃO – LEMBRANÇAS DE PASTINHA


Luciano,
 
Como havia lhe falado no Orkut, eu meus alunos e demais membros do meu Grupo (Grupo de Capoeira Libertação), com base no que foi proposto por vc faremos uma roda em homenagem a Mestre Pastinha no dia 05/04.
 
Só que resolvemos fazer um pouco mais. Vamos fazer um seminário com o Vídeo do Pastinha e palestras com estudos e debates sobre o Mestre e a capoeira angola. O nome será "I SEMINÁRIO DE CAPOEIRA ANGOLA DO GRUPO DE CAPOEIRA LIBERTAÇÃO – LEMBRANÇAS DE PASTINHA" . Tudo se realizará nos dias 31/03, 01/04 e 04/04, finalizando com a roda no dia 05/04.

Gostaria de lhe pedir que divulgasse o evento no seu site, mas, principalmente, que comunicasse aos seus alunos que o evento aqui será realizado, e que haverá diversas rodas (guardadas as diferenças de fuso-horário) no dia 05/04 aqui no Brasil e em Bogotá na Colômbia, que serão feitas junto com a que será realizada pelo seu grupo numa corrente mundial, em comunhão, pela memória do saudoso Mestre Pastinha.
 
Gostaria, ainda, que se possível, vc me enviasse uma mensagem, em nome do Grupo Mogadouro, para ser colocada junto às demais mensagens na nossa academia, informando sobre a realização da roda no seu grupo e da importância de Pastinha para você. Do mesmo modo, a mensa gem que lhe envio, juntamente com prospecto do seminário em anexo, poderão ser afixados na sua academia para demonstrar aos alunos a força que tem o nome de pastinha, bem como a União de diversos capoeiras em todo mundo em torno do seu nome.
 
Grande abraço a você e a todos os seus alunos. E lembre-se que eu formei esta corrente, mas na verdade esse movimento foi deflagrado dentro de mim pelo que vc escreveu no orkut. Um grande abraço a você e a todos da Capoeira Mogadouro.
Axé, VIVA PASTINHA
 
Professor Gustravo Cunha Tavares
Grupo de Capoeira libertação


Caro Gustavo,
 
Tomei a liberdade de publicar o artigo conforme o original, enviado a mim… pela beleza, paixão e carinho como se referiu ao Mestre Pastinha…
 
Axé camará…
 
Luciano Milani

LEI ÁUREA

"Lei 3.353 de 13 de Maio de 1888 Declara Extinta A Escravidão no Brasil".

A Princesa Imperial Regente, em nome de Sua Magestade o Imperador, o senhor D. Pedro II faz saber a todos os súditos do Império que a Assembléia Geral decretou e Ela sancionou a Lei seguinte:

Art 1o – É declarada extinta desde a data desta lei a escravidão no Brasil.

Art 2o – Revogam-se as disposições em contrário.

Manda portanto a todas as autoridades, a quem o conhecimento e execução da referida Lei pertencer, que a cumpram e façam cumprir e guardar tão inteiramente como nela se contém.

O Secretário de Estado dos Negócios da Arquitetura, Comércio e Obras Públicas e interino dos Negócios Estrangeiros, bacharel Rodrigo Augusto da Silva, do Conselho de Sua Magestada o Imperador, a faça imprimir e correr.

Dada no palácio do Rio de Janeiro, em 13 de Maio de 1888, 67 da Independência e do Império. Princesa Regente Imperial – Rodrigo Augusto da Silva.

Desde 1 hora da tarde de anteontem começou a afluir no Arsenal da Marinha da corte grande número de senhoras e cavalheiros que ali iam esperar a chegada de Sua Alteza a Princesa Imperial Regente.

As 2 horas e 3/4 da tarde chegou a galeota imperial trazendo a seu bordo Sua Alteza a Princesa Regente acompanhada de seu augusto esposo Sua Alteza o Sr. Conde d’Eu, general Miranda Reis, e chefe de divisão João Mendes Salgado e dos ministros de agricultura e império.

Sua Alteza trajava um vestido de sêda cor de pérolas, guarneado de rendas valencianas. Ao saltar no Arsenal foi Sua Alteza vistoriada pelas senhoras que ali se achavam, erguendo-se vivas a Sua Alteza e a Sua Magestade o Imperador.

Às 2 1/2 horas da tarde já era difícil atravessar-se o perímetro compreendido nas proximidades do paço da cidade. Calculamos para mais de 10.000 o número de cidadãos, que ali aguardavam a chegada de Sua Alteza Princesa Regente. (…)

Pouco antes das 3 horas da tarde, anunciada a chegada de Sua Alteza por entusiasmáticos gritos do povo, que em delírio a aclamava, abrindo alas, ministério, camaristas e damas do paço vieram recebê-la à porta.

Acompanhada de seu augusto esposo, subiu a princesa, tendo formado alas na sacada grande número de senhoras que atiravam flores sobre a excelsa Regente.

Em seguida a comissão do senado fez a sua entrada na sala do trono para apresentar a Sua Alteza os autógrafos da lei. Nesta raia acham-se à direita do trono ministros e à esquerda os semanários e damas do paço. A comissão colocou-se em frente ao trono, junto ao qual estava Sua Alteza, de pé, então o sr. Senador Dantas, relator da comissão, depois de proferir algumas palavras, entregou os autógrafos ao presidente do conselho, para que este, por sua vez, os entregasse a Sua Alteza.

O sr. ministro da agricultura, depois de traçar por baixo dos autógrafos o seguinte: – Princesa Imperial Regente em nome de S.M. o Imperador, consente – entregou-os a Sua Alteza que os assinou bem como o decreto, servindo-se da riquíssima e delicada pena de ouro que lhe foi oferecida.

O povo que se aglomerava em frente do paço, ao saber que já estava sancionada a grande Lei chamou Sua Alteza, que aparecendo à janela, foi saudada por estrepitosos vivas. (…)"
Gazeta da Tarde, 15 de maio de 1888.

"Durante o dia e a noite de ontem continuavam cheios de animação as festas comemorativas da liberdade nacional. A rua do Ouvidor, constantemente cheia de povo, apresentava o belo aspecto dos grandes dias fluminenses. As casas marginais primorosamente ornamentadas estavam repletas de senhoras. De tempos em tempos, aqui, alí, acorria um viva aos heróis da abolição cortava os ares estridentes.

De ocasiões em ocasiões, um prestito passava saudando as redações dos diversos jornais. Geral o contentamento, enfim, transbordando da grande alma popular, que andava cantando a epopéia homerica da redenção."
Cidade do Rio, 18 de maio de 1888.

"A sessão do senado foi das mais imponentes e solenes que se tem visto. Antes de abrir-se a sessão, o povo que cercava todo o edifício, com justificada avidez de assistir ao que ali se ia passar, invadiu os corredores e recintos da câmara vitalícia.

As galerias, ocupadas por senhoras, davam um aspecto novo e entusiasmático ao senado, onde reina a calma imperturbável da experiencia.

Ao terminar o seu discurso, o senador Correia, que se congratulou com o país pela passagem do projeto, teve uma ovação por parte do povo.

Apenas o senado aprovou quase unanimemente o projeto, irrompeu uma salva prolongada de palmas, e vivas e saudações foram levantadas ao senado, ao gabinete 10 de março, à absolvição, aos senadores abolicionistas e a S.A. Imperial Regente.

Sobre os senadores caiu nessa ocasião uma chuva de flores, que cobriu completamente o tapete; foram saltados muitos passarinhos e pombas. (…)
Gazeta de Notícias, 14 de maio de 1888.

"Continuavam ontem com extraordinária animação os festejos populares. Ondas de povo percorriam a rua do Ouvidor e outras ruas e praças, em todas as direções, manifestando por explosões do mais vivo contentamento o seu entusiasmo pela promulgação da gloriosa lei que, extingüindo o elemento servil, assinalou o começo de uma nova era de grandeza, de paz e de prosperidade para o império brasileiro. (…) Em cada frase pronunciada acerca do faustoso acontecimento traduzia-se o mais alto sentimento patriótico, e parecia que vinham ela do coração, reverberações de luz.

Mal podemos descrever o que vimos. Tão imponente, tão deslumbrante e magestoso é o belíssimo quado de um povo agitado pela febre do patriotismo, que só d’ele poderá fazer idéia quem o viu, como nós vimos. Afigura-se-nos que raríssimas são as histórias das nações os fatos comemorados pelo povo com tanta alegria, com tanto entusiasmo, como o da promulgação da gloriosa lei de 13 de maio de 1888." – Gazeta de Notícias, 15 de maio de 1888.
"Carbonário – Rio 14 de maio de 1888 : –

Coube ainda a muito dos descrentes desta reforma vê-la realizada em nossos dias. Daí essa alegria imensa, maior mesmo do que era dado esperar, de fato tão auspicioso. Maior, porque a alegria de nossa população é tão sincera, que não tem dado lugar a mais leves exprobação ao povo em sua expansão. Muitos eram os que desejavam de coração, ardentemente, anciosamente, mas não supunham vê-la tão cedo realizada. Foi talvez a isso devido a expansão relativamente acanhada do primeiro momento da lei. O golpe era muito profundo, a transformação era tão grande como se fosse um renovamento da sociedade.

Hoje como que nos sentimos em uma pátria nova, respirando um ambiente mais puro, lobrigando mais vastos horizontes. O futuro além se nos mostra risonho e como que nos acena para um abraço de grandezas.

Nós caminhavamos para a luz, através de uma sombra enorme e densa, projetada por essa assombrosa barreira colocada em meio da estrada que trilhavamos – a escravidão. Para que sobre nós se projetasse um pouco dessa luz interna, que se derrama pelas nações cultas, era preciso que essa barreira caisse.

Então, apareceram para a grande derrubada os operários do bem – uns fortes operários, no parlamento e nas associações ateram ombros à assombrosa derrubada. E venceram! Foi ontem! Quando a grande barreira monstruosa da escravidão desabou e caiu, sentiu-se a projeção de uma luz, que nos ilumina. Ficamos atônitos, deslumbrados, como se saissemos de um recinto de trevas para um campo de luz. Bem hajam os que tanto trabalharam por essa grande lei! Não se poderia descrever o entusiasmo do povo desde o momento da promulgação da lei. A cidade vestiu-se de galas, o povo encheu-se goso, o governo cobriu-se de glória!

Nas casas, como nas ruas, a alegria tem sido imensa, indizível, franca e cordeal. Nenhum festejo organizado, nenhuma estudada e falsa manifestação de regozijo; de cada peito rompe um brado, de cada canto surge um homem, de cada homem sai um entusista. E por toda a parte o regozijo é o mesmo, imenso, impossível de descrever.

É que a felicidade que rebentou nesse dia imensamente grande, que completou para o Brasil a obra da sua independência real, é do tamanho de muitos anos de escravidão.

Devia ter sido assim tão grande, tão santa, tão bela, a alegria do povo hebreu quando para além das margens do Jordão, perdida nas névoas do caminho à terra do martírio, ele pôde dizer ao descansar da fuga:

– Enfim, estamos livres, e no seio de Abraham!

Tanto podem hoje dizer os ex-escravos do Brasil, que longe do cativeiro, encontram-se finalmente no seio de irmãos.

Grande e santo dia esse em que se fez a liberdade da nossa pátria!
O Carbonário, 16 de maio de 1888.

"Está extinta a escravidão no Brasil. Desde ontem, 13 de maio de 1888, entramos para a comunhão dos povos livres. Está apagada a nódoa da nossa pátria. Já não fazemos exceção no mundo.

Por uma série de circunstâncias felizes fizemos em uma semana uma lei que em outros países levaria nos. Fizemos sem demora e sem uma gota de sangue. (…)

Para o grande resultado de ontem concorreram todas as classes da comunhão social, todos os partidos, todos os centros de atividade intelectual, moral, social do país.

A glória mais pura da abolição ficará de certo pertencendo ao movimento abolicionista, cuja história não é este o momento de escrever, mas que libertou províncias sem lei, converteu ambos os partidos à sua idéia, deu homens de Estado a ambos eles e nunca de outra coisa se preocupou senão dos escravos, inundando de luz a consciência nacional.(…)"

"Em todos os pontos do império repercutiu agradavelmente a notícia da promulgação e sanção da lei que extingüiu no Brasil a escravidão. Durante a tarde e a noite de ontem fomos obsequiados com telegramas de congratulações em número avultado e é com prazer que publicamos todas essas felicitações, que exprimem o júbilo nacional pela áurea lei que destruiu os velhos moldes da sociedade brasileira e passou a ser a página mais gloriosa da legislação pátria."

"O júbilo popular explodiu ontem como bem poucas vezes temos presenciado. Nenhum coração saberia conter a onda entusiasmo que o inundava, altaneira, grandiosa, efervescente.

Desde pela manhã, o grande acontecimento, que será sempre o maior da história brasileira, agitava as massas e as ruas centrais da cidade e imediações do senado e paço imperial tinham festivo aspecto, constante e crescente movimento de povo, expansivo, radiante. Era finalmente chegado de atingir-se ao termo da grande conquista, campanha renhida, luta porfiada, sem tréguas, em que a parte honesta da população de todo o império se tinha empenhado desde há dez anos.O decreto da abolição tinha de ser assinado e para isso reuniu-se o senado extraordinariamente. (…)

É inútil dizer que no rosto de toda gente transparecia a alegria franca, a boa alegria com que o patriota dá mais um passo para o progresso da sua pátria. Fora como dentro o povo agitava-se irrequieto, em ondas movediças, à espera do momento em que se declarasse que apenas faltava a assinatura da princesa regente para que o escravo tivesse desaparecido do Brasil. (…)

Logo que se publicou a notícia da assinatura do decreto, as bandas de música estacionadas em frente ao palácio executaram o hino nacional, e as manifestações festivas mais se acentuaram prolongando-se até a noite. O entusiamo popular cresceu e avigorou-se rapidamente, e a instâncias do povo Sua Alteza a Princesa Imperial assomou a uma das janelas do palácio, em meio de ruídos e unânime saudação de mais de 10.000 pessoas que enchiam a praça D. Pedro II . (…)" –
O Paiz, 14 de maio de 1888.

"No meio do entusiasmo do povo pelo sucesso do dia, revelava a multidão a sincera satisfação pelas boas notícias que se haviam recebido acerca do estado de Sua Magestade o Imperador. O povo brasileiro não podia esquecer, nessa hora em que o pátria festejava a iniciação de uma nova era social, que em país estrangeiro estava enfermo o seu Monarca, aquele que, verdadeiramente dedicado aos interesses nacionais, tem o seu nome inscrito nos fatos da história do progresso do Brasil. (…)" –
Diário de Notícias, 14 de maio de 1888.

"Continuaram ontem os festejos em regozijo pela passagem da lei áurea da extinção da escravidão. A rua do Ouvidor esteve cheia de povo todo o dia e durante uma grande parte da noite, sendo impossível quase transitar-se por esta rua.

Passaram encorporados os estudantes da Escola Politécnica, os empregados da câmara municipal e o Club Abrahão Lincoln, composto de empregados da estrada de ferro D. Pedro II, todos acompanhados de bandas de música.

Uma comissão desta última sociedade, composta dos Srs. Henrique do Carmo, Lourenço Viana, Bartolomeu Castro e Eduardo Dias de Moura, subiu ao nosso escritório, sendo nessa ocasião abraçada pela redação. (…)"

"O tribunal do juri, ontem, manifestou de maneira eloqüente que também se associava no regozijo geral pela extinção da escravidão. (…)

Os empregados e despachantes da câmara municipal organizaram ontem uma esplêndida e estrondosa manifestação aos vereadores, em regozijo à extinção total dos escravisados no Brasil.

À 1 hora da tarde mais ou menos, achando-se presentes todos os srs. vereadores, penetraram os manifestantes na sala das sessões, precedidos pela banda de música do 1o batalhão de infanteria. (…)" –
O Paiz, 15 de maio de 1888
.  


Fonte: www.escoladeartecapoeira.com.br

"Lei 3.353 de 13 de Maio de 1888 Declara Extinta A Escravidão no Brasil".

A construção do berimbau

O primeiro passo para o fabrico do berimbau é a obtenção de uma madeira flexível e resistente, que suporte arqueamento e pressão sem ceder demasiado. Escolhe-se uma vara sem muitos nós ou grandes curvas, que bem pode ser "biriba" (a preferida pela maioria dos capoeiras ) ou guatambú (mais facilmente encontrada). O guatambú se apresenta como a madeira indicada – ao lado da taipoca e outras espécies nativas – na construção do berimbau, por se tornarem suas varas muito leves, após secas, sendo comuns longas hastes muito regulares, apresentando grossura mais ou menos uniforme de uma extremidade a outra. Tirada a vara, que não seja demasiado grossa ou muito fina. O tamanho ideal é de aproximadamente 1.20 m.
 
Quando a madeira ainda está verde, caso não seja perfeitamente reta, basta passá-la sobre o calor do fogo, ainda com casca, para que sejam corrigidas eventuais curvas, dando-lhe a forma reta necessária. A casca do guatambú sai com facilidade, passando uma faca de lâmina afiada de ponta a ponta da vara, removendo longas tiras.
 
Passamos, a seguir, à confecção propriamente dita do berimbau. Esculpe-se uma pequena ponta na extremidade mais grossa da vara, que irá servir como conexão para se ajustar o arame do berimbau. A outra ponta deve ser bem acertada, pois irá receber um pequeno pedaço de sola de couro, que impedirá o arame de rachar a madeira.
 
O arame – que cumprirá o papel de corda do instrumento – é um fio de aço com um comprimento maior que a vara cerca de 20 cm e recebe em sua extremidade um laço de diâmetro adequado para se encaixar na ponta esculpida na madeira – que será o pé do instrumento – enquanto que no outro extremo recebe uma laçada menor, onde será amarrado o cordão que irá prendê-lo à madeira. Após esta primeira fase, o berimbau é vergado – ou "armado" para o ajuste da corda, formando o arco – com o emprego de um pé flexionando a madeira, enquanto uma das mãos apoia a extremidade superior da vara e a outra amarra o arame. Pronto o berimbau, já se tornou comum acrescentar-lhe discreta pintura, manchas de fogo e verniz, com a finalidade de embelezá-lo. Esta pintura às vezes possui um significado especial para o tocador, quando é este que confecciona o instrumento.
 
O próximo passo é a elaboração da caixa de ressonância, indispensável ao arco do berimbau. Para isto, utiliza-se uma cabaça que serve à perfeição ao nosso propósito. De preferência, que a cabaça se encontre já bem seca e não tenha sido colhida madura. Que a casca não seja demasiado grossa ou muito fina. O tamanho ideal terá um circunferência de aproximadamente 18 cm – quando se pretenda fazer um berimbau gunga, de timbre grave; caso se pretenda um berimbau viola, de timbre agudo, o tamanho deverá ser menor, com cerca de 11 cm.
 
Escolhida a cabaça, primeiramente façamos uma abertura tal que seja possível a saída de um som claro. Esta abertura será proporcional ao diâmetro máximo alcançado pela cabaça e feita na extremidade oposta à que se prende a haste, quando ainda no pé. Concluída a abertura – feita com uma serra fina – se a cabaça for demasiado grossa é conveniente que coloquemos água em seu interior e deixar por 48h, para depois raspá-lo até que a casca se torne da espessura desejada. Isso para que a ressonância obtida seja de boa qualidade. Depois, com o emprego de uma lixa, daremos à abertura da cabaça o acabamento necessário.
 
Terminado este preparo, a cabaça receberá no seu fundo dois furos paralelos em uma distância de aproximadamente 3 cm um do outro, por onde irá passar o cordão que a manterá fixa ao arco. O tamanho deste cordão irá depender do grau de curvatura obtido pelo arco, para que a cabaça fique presa de forma tal que aperte o arame e proporcione ao tocador a necessária firmeza para segurar o instrumento, apoiando-o sobre o dedo mínimo através deste cordão. Servirá ainda para afinar o instrumento, conforme a pressão exercida sobre a corda.
 
Na escolha da vareta a ser utilizada na percussão do arame são preferidas pequenas varas tiradas de pedaços de bambu, da grossura aproximada de um lápis e comprimento de mais ou menos 30 cm. Outra espécie de vareta muito apreciada é de bambu fino, do tipo das varas de pesca, obedecendo às dimensões citadas. A vareta será usada segura entre os dedos indicador e polegar, apoiada sobre o dedo médio de uma mão, enquanto a outra sustenta o instrumento e prende o dobrão. A percussão da corda se dá numa altura pouco superior ao ponto onde o dobrão pressiona o arame. As batidas devem ser firmes.
 
O dobrão – denominação popular das antigas moedas de 40 réis – é empregado com a finalidade de pressionar o arame quando se pretende obter uma nota aguda, já que o berimbau emite dois tons básicos (grave e agudo) e outros efeitos. É por seu intermédio que o tocador estica ainda mais a corda do instrumento, provocando em conseqüência a modificação do tom grave para o agudo ou um chiado característico. Muitos capoeiras preferem o uso de pedras lisas e resistentes no lugar das moedas de cobre, por considerarem o som obtido mais agradável, além da escolha das pedras possibilitar o emprego daquela de formato mais conveniente para o manuseio do tocador.
 
O caxixi
 
Na execução do berimbau, um outro instrumento constitui acessório indispensável: o caxixi, que é usado como chocalho.
Caxixi é o nome que se dá ao pequeno cesto de alças, feito com tiras de junco trançadas, contendo em seu interior contas de lágrimas, pequenas conchas marinhas ou búzios. O seu fundo é feito de pedaços de cabaça.
 
Além do seu emprego como complemento ao berimbau, Edison Carneiro nos informa em Candomblés da Bahia acerca de outros usos do caxixi.
 
"Caxixi, s.m. Saquinho de palha trançada que contém sementes de bananeira-do-mato, usado pelos pais dos candomblés de Angola para acompanhar certos cânticos, especialmente a ingorôssi. (…) Ingorôssi, s.m. Reza da nação Angola. O tata, agitando um caxixi, fica no meio das filhas, que sentadas em esteiras, batem com a mão espalmada sobre a boca, respondendo ao solo. (…) O chefe do candomblé acrescenta à orquestra, quando Nagô ou Jeje, o som do adjá, uma ou duas campânulas compridas que, sacudidas ao movimento da filha, ajudam a manifestação do orixá, e quando Angola ou Congo, o som do caxixi, um saquinho de palha trançada cheio de sementes. (…) Os candomblés de Angola e do Congo saúdam conjuntamente os inkices com um cantochão lúgubre, o ingorôssi, que se compõe de mais de trinta cantigas diferentes. As muzenzas se sentam em esteiras, em volta do tata, que, com um caxixi na mão, faz o solo, respondido por um coro de gritos entrecortados por pequenas pancadas na boca."
 
No acompanhamento do berimbau o caxixi é usado prendendo-se a sua alça entre os dedos anular e médio da mão que segura a vareta. Tem destaque especial na marcação rítmica dos toques.