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Maio 2005

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Iª Feira de Capoeira em Joaçaba – SC

Iª Feira de Capoeira em Joaçaba – SC

No próximo dia 28/05 das 9h até as 12h estará acontecendo na praça da prefeitura de Joaçaba – SC a primeira Feira de Capoeira, aonde alunos da Associação de Capoeira Raios do Sol estarão apresentando trabalhos sobre a História da Escravidão as teorías do surgimento da capoeira, como funciona e o que é a capoeira.
 
Realização Monitor Atrazado


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Mulher na capoeira: Claudivina Pau-de-Barraca

 
Não muitos anos atrás, as poucas mulheres que ousavam se meter na capoeira eram rejeitadas pelos homens, que viam nisso uma intrusão em território próprio. O que não impediu algumas guerreiras de irem para frente, na capoeira como em tantos outros setores de dominação masculina. Assim numa lembrança de Lúcia Palmares. Alguns termos não encontram-se em dicionário. Em caso de dúvida, deixem o cursor em cima por dois segundos para ver se não aparece um esclarecimento: exemplo.

Dona Valdelice morava quase do lado da nossa casinha na Capelinha de São Caetano, um subúrbio pertinho de Salvador. Tanto Mãe como Dona Valdelice eram pessoas discretas e que não se metiam em fuxicos; iam na igreja evangêlica e acontecia que conversando no caminho Dona Valdelice falasse:

— Ah, dona Damiana, Vina não tem jeito. É a a ovelha negra da família.

Mãe não fazia questão de perguntar por que. Eu não imaginava o que era ser ovelha negra. Não tinha ovelha nenhuma na Capelinha de São Caetano, e quando Claudivina visitava a irmã, eu via apenas aquela negrona bonita de cabelo curto bem arrumado, preso atrás da cabeça, vestida direitinho, como se diz la na minha terra, nada que explicasse o que era ser ovelha negra. Mãe dizia somente que era coisa que não prestava, e uma criança de sete anos esquece logo as coisas da gente grande. Vina não tinha nada de especial, a não ser o tamanho, na faixa de um metro e noventa, meia cabeça a mais da irmã.

Se calculo bem, foi por volta de 1963 que deixei a casinha de taipa na ribanceira e o nosso pé de mamão por uma vida bem melhor no bairro de Uruguai. Juliana, a irmã gemêa de Mãe, passou a ser minha Mãe, e eu fui morar na rua Conselheiro de Abreu, 39, com os meus pais adotivos. Logo ouvi falar de uma tal arruaceira e desordeira conhecida como Pau-de-Barraca, e não demorei de ver essa mulher que passava entre os verdureiros e todo jeito de vendedores ambulantes que tinham seus fregueses no bairro. Uma coisa que me chamava atenção é que ela usava coturnas e boné meio de lado, macacão azul ou então bermuda, nada de saia. Quando ela passava, os garrotos que jogavam baba paravam para olhar aquela negrona com seu andar gingado, seguro como se seguisse uma música. Mesmo no barulho dos ônibus e dos carros, nos gritos das crianças brincando nos poços de água da rua de chão, o vozeirão dela fazia todos correrem às janelas e às portas. E na primeira vez que eu também corri p’ra ver, eu reconheci Vina.

Ela sorria para todo mundo e dizia piadas às vezes piquantes, que mexiam com os mais velhos :

— Que mau exemplo para as meninas!

Mas Vina não ligava para nada disso. Ela tirava os jornais da sua sacola de pano azul, e fazia as suas entregas para os assinantes, indiferente. Também trabalhava de mecânico de automóveis, consertava casas, vendia picolé. Andava nas ruas não importava a hora, entrava em botequim para jogar dominó. Isso era coisa que mulher direita nem pensava em fazer no Nordeste. Pau-de-Barraca alimentava conversas.

— Não é p’ra olhar essa muié! Muié macho é contra os olhos de Deus. Na certa fez pacto com o Capeta.

Minha Mãe era uma mulher corajosa e determinada; mesmo assim creio que achava que Pau-de-Barraca era o diabo em figura de gente. Vina brincava com todas essas coisas que diziam dela, e gritava às vezes nas suas passagens:

— Olhem suas filhas minhas senhoras, que estão de olho em mim…

e seguia o caminho dela quase sempre alegre, e sempre pronta para os desafios da vida dura que ela levava.

Minha Mãe era ialorixá no bairro de Uruguai. Um dia iamos para a casa de Leleta, uma filha-de-santo dela, quando ao passar na rua da Palestina, ouvimos o vozeirão de Vina acima de outras vozes, exaltadas, de homens, que vinham do beco onde ela morava. Paramos para observar, e não demorou muito, vimos quatro homens saindo do beco, correndo como bala, com Vina armada de um porrete grosso atrás, xingando os caras com nomes que os homens não gostam de escutar. Vina voltou a entrar no beco, xingando todos nós que estavam la olhando os homens fugirem humiliados, iguais a cachorrinho com o rabo entre as pernas. Mesmo com barulho corriqueiro no bairro, era um espetáculo as brigas da mulher macho. Como sempre, a polícia chegou e foi embora. Não sei ao certo, mas parece que Vina tinha amizade na polícia. Nunca foi presa que eu saiba.

Vina se dizia mulher e bem mulher. Não era sapatão, como dizia com a boca bem grande, e nunca ouvi ninguém falar, só que homem para viver com Pau-de-Barraca, tinha de se conformar em ser a galinha, pois o galo, era ela. E as vezes, ficava difícil, e dava briga.

O tempo passou. Nos meus catorze anos eu não falava nada por que tinha medo de levar tabefe de minha Mãe, mas no fundo, admirava aquela mulher. Desejava mesmo de ser corajosa e valente como ela. Acho que um monte de colegas tinham por Vina um pequeno pensamento de admiração, e como eu não ousavam falar. Mulher sem papa na língua, que não levava desaforo para casa, nem de homem! E mulher? Essas nem ousavam lhe dizer uma palavra de desagrado seriamente, poderiam pilheriarem, mas isso ela não ligava. Era como se se sentisse toda poderosa diante do pequeno mundo que as mulheres do lugar viviam naquela época.

Um sábado de verão minha Mão me falou assim:

— Vai dar recado p’ra Miuda vir para o Ingorossí na segunda-feira, sua nigrinha, vá sozinha e não demore!

Minha Mãe não pedia, dava ordens. Dona Miuda morava pelos lados de São Domingos no final da Régis Pacheco. Ir sozinha era para não levar o meu irmão de criação Zé, que não batia bem da bola, e que sempre me fazia desviar do caminho com o paco dele insistente. Mas Zé escutou, saiu de fininho, e correu para me esperar na esquina como fazia sempre.

Aí chegados lá e recado dado, o Largo do Tanque não ficava longe. Ora, tinha sido renovado, e à noite ia ter a inauguração. Só que em Salvador, as festas começam bem mais cedo, ou de véspera. Sabendo disso Zé falou:

— Vamo Lucinha, vamo ver como ficou o Tanque depois da renovação!

— P’ra levar uma surra da minha Mãe ? Não vou!

Mas ele continuava rindo — ele ria todo o tempo, Zé — e insistindo:

— Venha, Lúcia, vamos no largo do Tanque!

Eu curiosa de ver como tinha ficado o Largo do Tanque acabei escutando Zé Doido.

O Largo do Tanque era todo novinho, em folha. Bastante gente trelavam p’ra lá e p’ra cá na calçada nova ou asfalto novo; o tráfico ainda era proibido. A música do alto-falante já alegrava o ambiente, um palanque esperava os políticos falarem, à noite. Eu fiquei andando por ali, Zé olhando para outras coisas. Já era o final da tarde, e prometia que o Grito de Carnaval que ia se passar à noite, seria bem alegre. Aliás tudo é alegre em Salvador, e quase todo vira festa. Nesse meio tempo pensava em tomar o rumo de casa, pois tinha nenhum desejo de tomar cipoada de cipó caboclo. Pensei em procurar Zé, mas ele me encontrou antes, e ele, todo assanhado, me chamou para ver uma roda de capoeira. Sua excitação não era por causa da capoeira.

— Vem Lucinha, Vina vai jogar capoeira, vamo ver.

Naquele tempo não sabia nada de capoeira. Quando eu ficava curiosa de ver o que se passava no interior daquelas rodas que se formavam nas ruas, durante as festas de largo, como a da Boa Viagem ou a lavagem do Bonfim, minha Mãe me puxava pelo braço, falando:

— Isso aí é coisa de gente que não presta, é brincadeira de vagabundo e de ladrão.

Pois naquele Sábado no Largo do Tanque fiquei curiosa de ver Vina fazer uma coisa tão proibida assim como a capoeira; esqueci das cipoadas que poderia tomar caso eu demorasse de voltar para casa. Cedei aos esticões que Zé me fazia no braço. Quando consegui chegar na beira da roda, a força de Zé abrir o caminho para eu passar, eu vi pela primeira vez uma roda de capoeira. Tinha mais de vinte homens em pé com berimbaus, pandeiros, agogô, e todos assim muito animados, alegres e vestidos normalmente, de calça e camisa de manga curta. Minha curiosidade se dirigia para Vina, em pé na beira da roda, batendo palmas e cantando, vestida de uma camisa de quadradinhos azulada colocada dentro das suas calças jeans de marca Far-West. Também com grande chapéu de palha na cabeça; só ela que tinha esse chapéu. Ela gostava de aparecer.

Com certeza aqueles homens a olhavam com o canto do olho. Não gostavam daqueles eternos desafios dela. Vina tinha um nome respeitado, mas que muitos deles que estavam ali. E é bem claro que alguns deles desejavam apagar aquela arrogância, aquela ousadia da mulher que jogava capoeira e batia em homem. Hoje compreendo que não tinha lugar melhor para fazer-la compreender que ela invadia um território que não lhe pertencia.

Vina logo entrou para jogar com um negão do mesmo tamanho dela. E depois de ginga p’ra lá e ginga p’ra cá, ela não demorou muito de receber um telefone, golpe na capoeira dado com as duas mãos contra as orelhas, violentamente. Um vacilo, sem dúvida. E para minha tristeza, eu vi, como todos os que estavam lá, Pau-de-Barraca desabar de cima de seus metro e noventa de altura e cair estendida no chão desmaiada. Eu vi os capoeiristas a arrastarem para fora da roda. Não fiquei para ver se levavam-la no hospital. A roda continuou; eu tomei o rumo de casa sem demora, pois não tinha permissão de estar naquele lugar. Durante o caminho, Zé que vivia rindo ria mais ainda, e puxava meu braço, dizendo:

–Viu Lucinha, ‘cê viu aquela da Vina…

Eu tinha visto sim. Ficava de certa forma triste. Mas mesmo assim eu não perdi a admiração que tinha por ela.

Penso hoje que ela não devia estar em plena forma naquela tarde; ou devia estar queimada pelos inúmeros inimigos disfarçados que à arrondiavam. O que sei é que as energias foram contra ela. Mas, era uma mulher destemida, impetuosa, e que não conhecia o medo, e talvez não resistiu aos toques arrojados do berimbau. Também sei que aquele telefone que ela recebeu não foi nada diante da força que ela possuia. Jamais a esqueci. Três anos depois entrei na capoeira, cheia de receios, mas determinada a ficar e a conhecer, e sem esquecer que são mulheres de cabeça erguida, como Claudivina Pau-de-Barraca, que mesmo sem ter a fama de outras mulheres de sangue no olho como Rosa Palmeirão ou Maria Doze Homens, conseguem mudar o pensamento de outras.

Digo isso por que aí se trata de capoeira. Conheci as dificuldades que as mulheres enfrentaram, tanto olhares, agressões verbais e xingamentos como disrespeito no jogo de capoeira ou do batuque, por terem tido a ousadia de entrarem naquele mundo sagrado dos homens. Sei que em todas as épocas existiram mulheres excepcionais que se destacaram para a posteridade devido à audácia que tiveram em vários outros setores da vida; e que graças a essas mulheres heroinas que hoje nós mulheres ocupamos uma posição bem melhor na sociedade em geral.

Lucia Palmares & Pol Briand
3, rue de la Palestine 75019 Paris
Tel. : (33) 1 4239 6436
Email : polbrian@wanadoo.fr

Capoeiragem e Capoeiras

Capoeiragem e Capoeiras: "Um artigo valioso para todo e qualquer mestre-pesquisador" – Miltinho Astronaulta
 
Crônica publicada na Revista Criminal (1929, Rio), enviada à Redação do Jornal do Capoeira (www.capoeira.jex.com.br), em formato original, por Mestre André Luiz Lacé.

Nota:
Esta cronica foi publicada em sua integra no Jornal do Capoeira (www.capoeira.jex.com.br), com excelentes comentários do editor do jornal, Miltinho Astronaulta. Vale a pena conhecer e se deliciar com esta pérola da nossa literatura clássica.
Neste sentido o Jornal do Capoeira vem fazendo um trabalho ímpar… onde procura mesclar as informações, as notícias, os eventos e tudo que esta ligado direta ou indiretamente ao universo da capoeira… Resgatando material fundamental para alimentar e fomentar a nossa cultura e a nossa curiosidade…
Uma atenção especial deve ser dada a coluna: Literatura Clássica, mantida pelo Jornal do Capoeira, principalmente pelo seu valor histórico, cultural e raro…
Temos a certeza de que a fórmula do sucesso do Jornal do Capoeira é o trabalho, feito em equipe, por sinal um  excelente time de colaboradores…
 
Nosso site mesmo que informalmente tambem se sente orgulhoso… pois tem Miltinho e o Jornal do Capoeira como "Parceiros…. Amigos"
 
É este nosso jogo… é jogo de camamaradas… em prol da capoeira.
Luciano Milani.

"Capoeiragem e Capoeiras"
por Paulo Várzea (jornalista e capoeira)
 
            Madrid tem o chulo; Buenos Aires, o compadron; Lisboa, o fadista, e o Rio de Janeiro, o capoeira. Nas varias modalidades da sua ligeireza e destreza physica, a capoeira sobrecede os seus rivaes. É um acrobata prodigioso. Salta, desarticula-se todo para passar um tombo, para metter a cabeça. E faz isso de repente, sem alarde, na surdina. Dois, três, quatro golpes seus, simultâneos, continuados, embaraçaram, confundem, atordoam e dominam o adversário.
            Inimigo leal, jamais ataca pelas costas. É um sujeito valente. Alcunhado, também, de capadócio, malandro, bam-bam-bam, o capoeira, como o próprio nome está dizendo, vem das capoeiras ao tempo colonial. E não foi apenas o vadio, o molequete desertor das casernas, o escravo evadido das fazendas, foi também o jornalista, o deputado, o engenheiro e o general. São famosas as scenas de capoeiragem jogadas outróra no Rio, no antigo Café Londres, de madrugada, entre literatos, deputados e militares.
            Naquelle tempo, na terra carioca, a capoeiragem era uma instituição devidamente organizada em partidos: os guyamús, os nagôas, flor da gente, franciscanos, luzitanos, conceição da marinha, conceição da glória, boccas-rasgadas, natividades, monduros, caxinguelês etc.
            Estes partidos travavam diariamente, nas ruas, terríveis conflictos e, porque constituís-
sem sério perigo para a segurança pública, foram depois energicamente combatidos por um próprio capoeira, o Dr. Sampaio Ferraz, ex-chefe de polícia. Diminuídos nas suas proporções, os capoeiras hoje são quase raros e já não mais dão a conhecer pelos grupos, mas isoladamente, pelo próprio nome de baptismo. A terra natal, os bairros, o mulherio, o defeito phisico e moral passaram a influir na celebridade do malandro moderno: "Cardosinho da Saúde", "Hespanholito", "Canella de Vidro", "Galleguinho", "Cabeleireira", "Mulatinho deo Catete", "Camisa Pretas", "Treme-Treme", "Carvoeiro", "Cabo-Verde", "Bonitinho do Castello" e "Paulo da Zazá".
 
O capoeira moderno, como o antigo, não tem occupação. Faz das suas habilidades, da sua disposição o mesmo que faziam os espadachins do século XVII. Consummado acrobata, põe suas façanhas a serviço dos magnatas, dos políticos, do bicheiros e, especialmente, dos donos das tavolagens, desde os clubs elegantes até as batotas sórdidas, desde os cabarés até os ranchos. Na guarda de um desses antros elle é um leão, leão de chácara. Joga ahi, a vida num desprendimento de louco e termina, invariavelmente, numa explosão de tragedia. Há que mostrar as qualidades… "Ou subo ou desço", diz referindo-se a ir para a cadeia (subir) ou morrer (descer).
 
 
Os malandros de facto são ciosos da fama. Considera, a guarda de uma espelunca como um compromisso de vida ou de morte. Não querem ficar com o prestigio abalado, a cara suja… Erradamente, fazemos a idéia de que o malandro é um bandido. Entretanto, elle não é assim tão execrável. Há que o conhecer, para vel-o como é expansivo, maneiroso, sympathico… Quando é inimigo, é cruel; quando vai visital-o e leva-lhe notícias e presentes: o crivo (cigarro), cabello (fumo), papagaio (jornal), tendo antes o cuidado de baratinar o hafra (o guarda) da galeria.
 
Mas, com a mesma mão com que pratica taes generosidades, elle tira uma vida. E, com a mesma habilidade com eu faz essas coisas, tange o violão, o cavaquinho, o berimbao «grifo do Editor». Aquellas modinhas que às vezes ouvimos da cama, cantadas na rua, dormecida e deserta são delle, o poeta seresteiro que recolhe à casa.
O malandro é também um bohemio. E não é capaz de delinqüir de outro modo que não seja com a sua arte. Da capoeiragem, só della, desfruta o provento com que mantém o dandysmo exótico em que vive. Já viram a indumentária de um malandro? É curiosa: chapéo de panno ou de palha cahido sobre os olhos ou atirado par traz, sobre a nuca; na falta do colarrinho, um lenço no pescoço, à guiza de gravata; paletó folgado; calças largas, bocca de sino, bombachas ou balão, cahidad dobre os sapatos de pelica de bico fino com salto apionado ou de carrapeta; prendendo as calças à cintura, um cinto com fivelas complicadas, escondendo a sardinha ou o páo de fogo…
 
Assim vestido, o malandro está frajóla, tem a dica, a herva, a grana, o dinheiro… Mal vestido, está de tanga, a nenhum, teso, limpo… Aos domingos, o malandro dedica-se de corpo e alma á sua brincadeira predilecta – a batucada ou samba.
 
Batucada ou samba é um mixto de divertimento e escola, escola de malandragem improvisada nos terenos baldios, nos recantos longíquos da cidade. Ahi, abrigados da polícia, os malandros romam a roda e iniciam o samba. O ritual é um sapateado marcado pelo batido dos pandeiros, pelo sacolejar dos chocalhos e pelo Coro dos sambistas, cantando o amor e a morte… Nos sambas, também entram mulheres. Puxar o samba é jogar em verso a deixa a um dos pareiros da roda:
 
Por exemplo:
"Sou Arthur de Catumby
Vou tirar uma pequena
Contando daqui p`r`ali
Ella faz uma dezena…"
 
O Coro rompe:
 
"Contando daqui p`r`ali
Ella faz uma dezena…"
 
O puxador corre a roda, trocando passes complicados, fazendo letras, presepadas. De repente pára deante de um parceiro. Finge que vae dar um tombo no companheiro e dá uma umbigada. Esta ceremonia chama-se tirar… É um preceito e um desafio, pelo que cumpre ao desafiado ir substituir no centro, o desafiante. Se o desafiado é mulher, sahe batendo com o salto das chinellas no chão, cadenciadamente, rebolando os quadris, sacolejando os braços num retinir de pulseiras até defrontar um oturo parceiro, a quem repete o preceito e canta:
 
"Sou Zazá de Deodoro
Sambista do tenpo antigo
Derrubei o Theodoro
E agora vou comtigo…"
 
O desafiado entra para a roda e vae reproduzir o ´receito adeante, improvisando:
 
"Já vi muié, é das pouca,
Prepara muito cozido
Já vi muié bate boca
Mas dá in home? Duvido…"
 
E assim, todos os sambeiros, cada um por sua vez, passam pelo centro. Tal é o samba.
 
Mas a batucada é differente. Nella não entram mulheres. Tomam parte somente homens. Os mesmos instrumentos e mais o atabaque; o mesmo modo de sapatear, igual característica. Apenas os batuqueiros ficam em posição de sentido, pés juntos, com a máxima attenção nos movimentos do puxador, cujos golpes são jogados de surpresa para derrubar…
 
"O batuque é da arrelia
Na Saúde e na Gambôa
Masda Favella á Alegria
É dansa de gente atôa…"
 
O côro repete:
 
"Mas da Favella á Alegria
É dansa de gente atôa…"
 
O puxador, mal soa o ultimo verso do côro, manda o golpe> tesoura, rapa, banda, bahú, bahiana, abeçada, susto, cama, bengala, fedegoso, chulipa, rabo de arraia, tombo de lafeira etc. O parceiro que sahiu fora canta:
"Gosto mais da Babylonia,
Topo ambém a Mangueira
Mas nas falas da Colônia,
Eu prefiro a Geladeira…"
 
Todavia, a batucada mais importante é a batucada braba ou surda, ora marcada pelo coro, ora pelas pernas. Ás pernas compete falar pelo individuo, dizer das suas habilitações. Mas, para entrar nessa batucada há que ser malandro de facto e não de informações. Sendo uma reunião onde é posta em jogo a competência do reguez, a ella de ordinário, só acode a malandragem pesada que, por direitos de conquista, representa o prestígio, a força dos diversos reductos da cidade.
            Na batucada surda quando um acompanhamento fala, o outro fica mudo. Quando o côro cala, falam as pernas. As pernas dizem, pelo puxador, o verso e jogam também a deixa… E quando falam as pernas, os olhos se accendem em lampejos de laminas brilhantes para espreitar os movimentos do puxador que ameaça. É a hora das comidas…da onça beber água:
          
–                          Toma, séo Abóbora…
–                          Repete, séo Chandas…
 
            Três, quatro, cinco golpes consecutivos riscam o ar, provocando um arrepio nas espinhas. Afinal um corpo vacila e tomba. Então o coro que está alerta, abafa a queda, cantando a meia voz, ironicamente:
 
            "Boléa,
Boléador…
Boléa…"
 
            No ardor da dansa, os batuqueiros chegam a cheirar a sangue… De mistura com o suor dos corpos offegantes, o bafio quente da cachaça, chamada de capote, quando chove, e de ventarola, quando está calor. E a visão é a de uma scena de pantomina numa paisagem pobre, a meio de uma ruela deserta, com rancho em ruína e lampeões bruxulentos, á cuja claridade da vida os batuqueiros se agitam, cabriolam, rasteja nervosos e espectraes como si fossem fantoches que dansassem e arfassem… E a música rouca, monótona, lúgubre, reboa lá no alto do morro, emquanto cá debaixo a cidade dorme sob o levario de outro das luzes. Neses reductos, a essas horas, a polícia não vae…
E quando apparece, vê apenas para recolher cadáveres com que a farandula da morte costuma saudal-as pelas manhãs…
 
            A Penha, D. Clara, Madureira, Deodoro, Parada Cordeiro foram redctos trdicionaes de sambas e batucadas. Mas hoje os sítios maisecolhidos para essas dansas são os morros: Capão, da Mangueira, Pendura-Saia, Urubu, Salgueiro, Kerozene, Conceição, Mundo-Novo,Paraíso, Favella, Pinto e as estações de Merety e Braz de Pinna.
 
–                          Porque são zonas próprias para o pessoal pyrá…
–                          Isso é verdade…
 
Éramos dois querecordavamos o tempo da coroa sentados áquella mesa. Á porta do café, sujeitos estrnahos divagavam sobre coisas estranhas… Após molhar a palavra, o parceiro proseguiu:
 
–                     Sambistas, batuqueiros de verdade conheci ´pucos e esses poucos foram Apollonio, Bamba, Cento eOnze, Cleto, Albino, Jacaré, Zé Maria, Camaleão, Sahara, Branda, Catita, Espada, Nua, Beatriz, Reúna, Careca, Emerentina e Violeta.
 
Nisto, interrompendo a conversa, approximou-se um mulatinho despachado, que falou:
 
–                          Olá, compadre !
 
O parceiro resmungou:
–                          Olá, mano !
 
Mas o mulato estava com toda a corda e puxou conversa…
 
–                          Quando deixaste Petrópolis?
–                     Menino, eu nunca estive em Petrópolis. Estive, sim, em Therezópolis, no convento. De uma feita tirando 15; da outra 12 (e espalmou as mãos para melhor enumerar s sentenças). Como, vês, não fui lá para sujar no cubo… não sou malandro barato… (E dardejando o olhar em redor, um olhar perscrutador, revelou cautelosamente, como se fosse contar um segredo): Despachei dois. Mas a vaga lá está a sua espera…
–                          Passo. Si a quizesse, tinha ido occupal-a hoje mesmo.
–                          Cachorro quente?
–                          Figuração…
–                          Na boa?
–                          Na boa. Mas tu sabes… eu sou de circo… Fiz a viagem… o besta metteu os peitos… Foi a conta… Caberei elle…
–                          Brucutu…
–                          Chão…
–                          Knock-put?
–                          Não.. o bruto trasteou… Eu lhe disse: "Vem que eu te recebo!" Mas o cabra pediu hábeas, fez meio-dia…
–                          Foi na batata!
–                          Ah! Commigo não tem bandeira… E está ahi como estive vae não vae…
–                          O diabo tenta a gente, Pinga…
–                          Se tenta…
–                          Sempre levando vantagem…
–                          Qual ´o meu? Bem, vou roda… Boas festas…
–                          Já? Mulato presença.
–                          Já, negro frajola.
E o mulato partiu gingando.
–                          Oh! Balão – exclamei.
–                          Conhece-o? – inquiriu o parceiro.
–                          De vista.
–                          É o Pinga-fogo…
–                     Esse é malandro moderno, da turma do Atônico Branco, Joazinho da Lapa, Leão, Broa, Cirineu, Antonico, Ferreira, Petit… gente que se estraçalhou nos entreveros dos clubes.
–                     Mesmo porque os veteranos já se foram na sua quase totalidade: João Ferreira, Prata-Preta, João Grande, Hespanholito, Galleguinho, Carlito, Cardozinho, Zé do Senado, Três Tempos, Braço de Ouro, Bonzão, Satyro, Manoel do Friso, Arthur Mulatinho, Massa-Bruta, Gato Brito, Manduca da Praia, Camisa Preta, Alfredo Bexiga, Leão da Noite, Antonico, Zé Moço, Quitute, Camisa do Paraíso, Zuzú, Mello, Cambuca…
–                          E dessa geração quaes são os que sobrevivem?
–                     Poucos: Gallo, Arthur da Conceição, Cabo Verde, Vacca Brava, Getúlio, Geraldo, Januário, Leopoldo, Guerreiro, Russo da Pirajá, Bonitinho do Castello, Marinheiro, Quincas e Mette-Braço.
–                     Logo essa fúria de destruição entre os malandros é coisa velha e continua mesmo depois que a Polícia passou a perseguir as maltas, essas lutas diminuíram. Mas, quando chegava a época do Carnaval, ellas voltavam a recrudescer.
–                          O Carnaval era um pretexto par o grito de guerra…
–                     Era. As maltas, para passarem despercebidas da polícia, sahiam á rua disfarçadas em cordões. Á frente, mascaradas de caboclos, de reis, derainhas, de velhos, de caveiras, de diabos, iam os chefes, emquanto atrás seguia o corpo da matula empunhando archotes e estandartes dos quaes ressaltavam estes dísticos ameaçadores: Teimosos de São Christovão, Filhos da Machadinha, Destemidos de Catumby, Heroes das Chamas, Invencíveis do Cattete, Dragões do Mar, Triumpho de Botafogo, Couraceiros do Inferno, Estrella da Concordia, Heróes Brasileiros…
–                          E com isso as maltas voltavam a luctar nas ruas, ás barbas da polícia…          
–                          Voltavam.
–                          É assim, muito malandro embarcou…
–                          Muito. Mas hoje não dá mais disso…
–                          A capoeiragem está cahindo…
–                          Qual nada… Em decadência estão os aficccionados…
–                          Achas, então que a capoeiragem é ionvencível?
–                          Sem dúvida…
–                          Mas se já não existem mais capoeiras…
–                          Existem. Mas esses não se prestam a exhibições públicas. O capoeira de facto não se mostra.
–                          É opprtunista…
–                          Justo. E por isso mesmo é que elle diz, e com acerto: Na hora é que se vê. Capoeira de exhibição só os do tempo da mandninga.
–                          E onde ficam os que hoje se exhibem no circos?
–                          Truta…
–                          Tapeação?
–                          Justo…
–                          Tens razão, compadre…
–                          Razão e memória…
–                          E terás baos pernas como tens boa memória?
–                          Só vendo…
–                          Achote-se velho…
–                     Qual velho. Velhos são os trapos… Tenho 62, mas sinto-me tão leve quanto uma pluma. Eu não desminto as qualidades, não nego o nome… Sou o mesmo "Bode" do passado que pulva, que dava marradas… Formei na malta dos guaymús, fui malandro e até hoje não vi piaba que me tocasse, perna que me derrubasse. E si tomei este risco que me deu um guardião de bordo (e mostrou a faze esquerda, onde lhe vi um tremendo gilvaz que ia das pálpebras ao pavilhão da orelha) foi porque estava dormindo… Naquelle tempo, quando havia rolo em terra, a bordo logo diziam: "Isto foi o Bode ou o Apollonio que se espalharam em terra!…" Justamente dali a instantes um de nós dois arribava a bordo escoltado e tendo sob um dos braços um feixe de facões que tomávamos aos "meganhas"…
–                          E hoje serias capaz de repetir a dose, de solta a cachorra?
–                     Deus me livre… Trinta annos de cadeia, na cubata, de sobrado, no convento, transformam os homens. Hoje tenho pavor aos rolos. Só de ouvir o griullo (apito) do cardeal (soldado) eu me aflijo, tremo e soffro…
–                          É o pavor da jaula…
–                          Justo
–                          Deverás?
–                          Deveras.
–                          Mentira… – interrompeu um patusco ao lado.
 
"Bode" deitou ao chereta umolhar de quemn não gostou da patsucada. Assumptou. Por fim espirrou em tom confidencial, na surdina:
–                          Gente de D. Justa. Cuidado…
–                     Compreendi-lhe as falas. Aquelle cabra que mexera com elle era um tira entre outros tirasd. A cana estava ali, braba. Convinha sahir. Dar o fora. "Bode" não perdeu tempo. Empinou-se á guisa de despedida espirrou:
–                          Au revoir. E disponha desse negro.
–                          Para tudo? – perguntei-lhe.
–                          Para tudo.
–                          Mesmo para um gallo?
–                          Conforme… Si for gallo, 50$, estou comtigo… Quem não quer as massas?…
–                          Não, "bode", é para um gallo de briga que eu preciso de ti… Serviço de sangue…
–                          Misericórdia! Sahe azar! Commigo, não!
 
E saltou para a rua, lépido, aos pulinhos, aos corcovos, de cabeça baixa, olhos em fogo. E de repente desabalou num arranco, como si fosse mesmo um bode de verdade, preto, enorme, de duas pernas.
Estaquei na calçada, espantado, perplexo com tamanha agilidade em tamanha velhice. Por fim cheguei a conclusão de que, como o "Bode" , também eu nunca apanhei. Entrei em conflitos sérios, metti-me em batucadas brabas. De uma feita. Na Penha de Nictheroy, parti o braço de um parceiro com uma banda secca…
Pudera, eu era discípulo do mestre "Peru", aquelle malandro esguio e avermelhado que foi cocheiro de carro e que certa vez matou, com uma cabeçada certeira, precisa, um saltimbanco japonez no largo de Camtumby!
Se o "Bode" foi celebre, eu não fui menos famoso… Eu sou o …"Vagabundo",,,, um repórter.
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Roda de Capoeira Angola e Batuque de Umbigada no Céu do Butantã.

O Grupo Negaça Capoeira Angola, convida a todos a participarem da Roda de Capoeira Angola no Céu do Butantã.
 
Dia 22/05/05 – Domingo
Horário: apartir das 13:30
Céu do Butantã
AV. Heitor Antônio Eiras Garcia, 1700 – Jardim São Domingos – SP
Fone: (55 11) 3732-4519
 
Programação:
Roda de Capoeira Angola: 13:30hrs  –  Coord. Trenel Djavan
Batuque de Umbigada: 15:00 hrs com os grupos da cidade de Tiete, Capivari e Piracicaba.
 
No dia 21/05 os Grupos de Batuque de Umbigada estaram no Espaço Cachuera, NÃO HAVERÁ RODA DE CAPOEIRA – Rua Monte Alegre 1094 – Perdizes. apartir das 15:00hrs
 
Abraço a todos
Ratão

FESTIVAL DE CANTIGAS – “CAPOEIRA PELA PAZ”

O festival de cantigas "CAPOEIRA PELA PAZ", tem como objetivo incentivar os professores, monitores, graduados, alunos e estudiosos da capoeira a refletirem, compreenderem e a desenvolverem cantigas de capoeira que apresentem mensagens de conscientização e de críticas sociais acerca dos diversos problemas encontrados na atual sociedade que afetam diretamente as crianças, os adolescentes e a maioria dos jovens.
 
Ao compreendermos as mensagens nas cantigas de capoeira de maneira crítica e consciente, estaremos contribuindo para a formação de cidadãos autônomos, emancipados e críticos, pois na capoeira as cantigas representam um valioso instrumento para diversas reflexões sendo muito mais do que ritmos envolventes. Suas letras e mensagens nos dizem sobre os acontecimentos histórico e sociais brasileiros e poderão nos ser bastante úteis para a construção de uma sociedade mais justa e democrática afim de solucionar e acabar de uma vez por toda com esses problemas.
 
Neste sentido, torna-se necessário valorizar e ao mesmo tempo resgatar as tradições, os fundamentos, os conhecimentos e os saberes proporcionado pela capoeira, esta manifestação da cultura popular e de origem afro-brasileira que em sua particularidade apresentam os aspectos de conformismo e resistência, na qual possibilita reverter determinada situação por meio do seu jogo, luta e dança.
 
Para tanto, ressaltamos que tantos os adeptos quantos os profissionais da capoeira, precisarão compreender esta manifestação da cultura popular brasileira como um riquíssimo instrumento educativo e como um veículo que transmite conhecimentos, pois a capoeira se caracterizou como uma prática desenvolvida fora de um ambiente formal como uma atividade de desordeiros e vagabundo desenvolvida em um ambiente não-formal, ou seja, nas ruas e nas praças no qual os conhecimentos, os saberes, os rituais e os valores da capoeira eram transmitidos de maneira oral pelos velhos mestres.
 
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Mulheres Guerreiras Capoeiras

A escravidão migra do campo para as cidades e os escravos e escravas de ganho tornam-se essênciais nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Minas Gerais; estes escravos deviam gerar renda para seu próprio sustento e os que ainda não eram libertos, além disto deveriam levar parte do ganho aos seus senhores. Estes eram denominados pelos brancos como “boçais” quando não dominavam a língua portuguesa e “ladinos” aos que aqui nasciam ou chegavam após a proibição do tráfico em 1850. O comércio por eles promovido era o mais diversificado possível, de alimentos à utensílios domésticos.
 
Entre os negros e negras de ganho havia uma certa hierarquia a ser respeitada de acordo com o ganho e a etnia Malé, Ijexá, Cabinda, Nagô, Bantu… As mulheres escravas e forras que se dedicavam ao comércio muitas vezes eram consideradas inadequadas e imorais por se defenderem publicamente de agressões à elas causadas por fiscais da Coroa Portuguesa. Elas procuravam defender seus filhos e mercadorias do abuso português. Vamos falar um pouco destas guerreiras, Aqualtune, Dandara, Eva Maria do Bonsucesso, Teresa de Benguela, Luísa Mahin e outras.
 

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1º ENCONTRO DE CAPOEIRA DA ZN

 
data: sábado, 21 de maio de 2005
hora: 14:00
local: Academia Movimentos – rua do horto 350 tremembé
cidade: sao paulo
 
Fala galera … dia 21/05/2005 vai rolar o 1º ENCOTRO DE CAPOEIRA DA ZONA NORTE e LANÇAMENTO OFICIAL DO CD INGÁ CAPOEIRA VOLUME 2 .
O evento contara com um curso com o contra-mestre Paulo Renato do grupo n’golo .
 
Sera cobrada a taxa de 10 reais para as despesas do evento, conto com a presença de todos….
 
Organização :form. Batata e grad Dentinho
 
Supervisão: Prof Perna
 
Realização: INGÁ CAPOEIRA

“Ou Mato ou Morro”: Capoeira como Weltanschauung

– Entrevista com Eduardo de Andrade Veiga – 

Entrevista realizada em São Paulo, em 20-10-99, por Luiz Jean Lauand. Eduardo Veiga, batizado por Bimba com o nome de guerra Duquinha, é capoeirista da velha guarda e foi discípulo de Mestre Bimba. É ainda professor aposentado da Univ. Federal da Bahia. Atuou também – aplicando a "filosofia da educação da capoeira" – como professor no Centro de Treinamento de Professores Anísio Teixeira (do Governo da Bahia). Edição: Luiz Jean Lauand.

"Ou mato ou morro: ou me escondo no mato, ou fujo para o morro…"

LJ: Poucos capoeiras refletem sobre sua arte e poucos intelectuais conhecem "por dentro" a capoeira. Nessa sua situação privilegiada – você foi assistente de Mestre Bimba e, por outro lado, vice-reitor de universidade – poderia falar-nos de como começou nessa arte e da capoeira como visão-de-mundo?
EV: Antes de mais nada, quero deixar registrado que este meu depoimento tem o caráter de uma homenagem a meu professor (de capoeira e, portanto, de vida), o grande Mestre Bimba, cujo centenário de nascimento se celebra no dia 23-11-99.
Comecei a jogar capoeira (quero observar, desde já, que capoeira "se joga": não é "arte marcial" de iniciativa agressiva; depois voltaremos a falar disso) ainda bastante jovem, em meados da década de 40, "vestindo farda" do Colégio dos Maristas de Salvador, e ingressei na capoeira como atividade complementar de minha formação pessoal. Escolher Mestre Bimba era seguir um caminho natural de excelência: Bimba já estava consagrado como grande capoeirista.
Por estranho que pareça, a Academia de Mestre Bimba ficava na "Laranjeiras", na época, a conhecida rua do meretrício. Só andar nesta rua já significava aprender: para chegar à Academia, era necessária a disposição de enfrentar eventuais problemas: a calçada era estreita, só uma pessoa podia passar e não raramente algum "valentão" – dos da zona – podia provocar… De modo que nós íamos pelo meio da rua.
Assim, a própria localização da Academia – já servia para ir ensinando duas lições, muito úteis para a mentalidade do capoeira: evitar o confronto desnecessário (no caso, evitar o passeio estreito) e evitar expor-se inutilmente ao perigo (passar perto das portas, de onde poderia surgir agressão de surpresa).
O ritual de ensino de Mestre Bimba começava por uma rigorosa seleção de quem entrava e de quem podia prosseguir na escola: tanto em termos de capacidade física como em termos de comportamento em relação aos colegas e ao mestre. Daí a escola ter um Regulamento – uma espécie de "código interno" – orientando a conduta dos discípulos. Nesse regulamento (talvez o primeiro código escrito de aprendizagem de comportamento da capoeira: um "código" seria impensável, por exemplo na capoeira de angola, extremamente fluída e espontânea…), encontravam-se normas como por exemplo: a de guardar silêncio durante a prática e observar atentamente o jogo dos companheiros. Mestre Bimba era também um educador muito sensível às fases de progresso dos alunos, sabendo extrair o potencial e avaliar as possibilidades de cada um.
A sentença que cunhei – um tanto jocosamente – "Ou mato ou morro" (no sentido de "Ou me escondo no mato, ou fujo para o morro…") – indica em sua formulação literal a temerária atitude de coragem irresponsável; já a jocosa interpretação poderia ser mal-entendida como pura e simples covardia. Na verdade, a capoeira não é nem uma coisa nem outra. A capoeira surge como objetivação, como consubstanciação da mentalidade do escravo, submetido a uma situação de desesperada injustiça e sem ter a quem recorrer ante o arbítrio de seus dominadores. Que defesa cabe em uma tal situação? Como sobreviver? Assim, desenvolveu-se entre os escravos – de modo mais ou menos inconsciente, mas profundamente racional – uma técnica, uma arte, um jogo, um jeito (ou talvez o único jeito) de ser e viver (ou sobreviver…). Isto corresponde a duas situações historicamente vivenciadas: a de enfrentamento direto dos desesperados escravos com o poderoso sistema dos senhores ("mato ou morro" no sentido literal) e o esquivar-se a qualquer confronto (esconder-se no mato), buscando o mato como espaço sobre o qual é possível uma forma de vida independente: os quilombos (é interessante observar que já os holandeses surpreendiam-se com a familiaridade, a facilidade, a desenvoltura com que os escravos transitavam pelos matos e morros…). Essa atitude é a base da capoeira. Subtrair-se ou, ao menos, procurar minimizar os horrores da escravidão, em busca de uma vida livre e digna (na medida do possível, evitando o desigual enfrentamento). Assim se compreendem certas "regras" (naturalmente, não escritas…) da capoeira em sua forma originária (a que deu origem a grandes mestres como Bimba), como por exemplo:
– Prontidão em observar o adversário e o ambiente. Como não se trata de iniciativa de agressão, mas de esquivar-se de um possível dano, é pela atenta observação que se vê a real dimensão do perigo e as rotas de fuga. Por exemplo, o capoeirista deve observar se o potencial agressor (e para o escravo – desde o "boçal", recém-desembarcado dos navios negreiros, ou o "ladino" ou "crioulo", já aclimatados – qualquer branco é um potencial agressor…) está de paletó aberto ou fechado (se aberto, há a possibilidade de ele sacar rapidamente uma arma…).
– Fazer sempre o papel do agredido ou do inocente. Como sua situação é de total desamparo social e jurídico, ser tido por agressor equivale à morte. Daí a malícia do capoeira: ele bate, mas como quem está apanhando; se recebe um golpe deve gritar e chorar como se a dor fosse muito superior à real, provocando compaixão ou desprezo… Pode desfazer-se em súplicas de misericórdia enquanto prepara um golpe fatal…
– Enquanto não mata, a pancada é suportável. Em todo caso, sempre há uma expectativa e, na primeira oportunidade real, o capoeirista aplica o seu golpe (daí a necessidade da rapidez e do reflexo, inclusive a partir de situação de imobilidade). Em outra formulação jocosa: na primeira oportunidade não é que ele dá o troco, ele "fica com tudo"…
Naturalmente, há diversos níveis de "capoeirismo", adaptados aos diversos graus de "encurralamento" social… Em qualquer caso, essa malícia para a luta, essa arte enquanto técnica, encontra uma representação simbólica no jogo entre amigos, que brincam capoeira (agora transformada em arte mesmo), entre ritmos, danças e cantos:

"Água de beber.

É Água de beber camarada…"

A estética substitui a violência e, também nesse sentido, pode-se falar de uma educação pela capoeira, independe de qualquer propósito de defesa ou ataque. Sobrevive a capoeira mesmo fora de um contexto de escravidão: ela, por assim dizer, ganha vida própria e emancipa-se das desumanas situações que lhe deram origem.
Por outro lado, muitos aspectos das relações de trabalho nacional (e, como se sabe, também do sincretismo religioso ou do futebol etc. etc.) são afins à mentalidade que estamos descrevendo. Não se trata só da escravidão formal; num caso extremo, "pratica capoeira", hoje, um trabalhador mal pago que faz "corpo mole" e conscientemente busca esforçar-se o mínimo possível (guardando, naturalmente, na presença do chefe, as formas externas de prontidão, solicitude, integração na firma etc. etc.). Um boy é encarregado de entregar uma correspondência urgente num endereço que requer uma hora de percurso. Ele acata solicitamente a ordem, sai com presteza e, mal virada a primeira esquina, já começa a treinar malabarismo, girando – com arte e maestria – a pasta na ponta do indicador direito; penteia-se ante as vitrines das lojas; no primeiro fliperama, desenvolve outras habilidades etc. Quando, após três ou quatro horas, retorna, queixa-se de dor de cabeça (o trânsito infernal, manifestações de greve…) e pede à secretária o reembolso do (pretenso) táxi que teve que tomar ("como o chefe falou que era urgente…").
Neste, e em tantos outros aspectos, a capoeira – totalmente incorporada à mentalidade nacional – é uma importante clave de interpretação do Brasil. Não se trata de "malandragem" ou preguiça, mas de um fenômeno complexo que inclui uma escravidão que persiste disfarçadamente: por que o escravo vai empenhar-se em algo que – de nenhum modo – lhe pertence ou beneficia? E não esqueçamos que "escravo" é um conceito relativo: só cessa de haver escravo, quando cessa de haver feitor… É nessa linha que se encontra o agudo pensamento de autores como Anande das Areias e Nestor Capoeira.
É evidente que a capoeira traduz realidades muito distintas das veiculadas por artes marciais, digamos, como o jiu-jit-su, caratê ou de ninjas & cia. O Brasil é diferente; o brasileiro procura não chocar de frente: ele pode te destruir, mas sempre com ares de vítima ou de quem não quer nada…
Evidentemente, toda essa mentalidade de que estamos falando pode degenerar em uma grave situação de caos – como aconteceu no final do século passado com as "maltas" capoeirísticas do Rio de Janeiro ou como acontece hoje com alguns políticos brasileiros… Daí o valor de Mestre Bimba que, como líder carismático, procurou racionalizar um código de honra e criar uma elite de capoeira: praticar a arte do escravo com a alma do príncipe! Quem não se dedicasse seriamente ao estudo ou ao trabalho, estava excluído da academia. Aliás, diga-se de passagem, muitos escravos negros provinham de famílias nobres africanas e, alguns, com nível cultural muito superior ao de seus senhores.
LJ: Que outros aspectos destacaria das práticas da capoeira? E da capoeira como meio de educação?
EV: Um aspecto importante na minha formação – eu, na época era muito moço – foi o de preparação para as dificuldades da vida. Para quem teve a feliz oportunidade de ser "puxado" (que significa, em linguagem de capoeira, "ensinado" – e vocês, professores de filosofia da educação, podem explorar as ricas sugestões desse termo -; um ensino em que o professor vai se adequando à capacidade do discípulo, como quem "puxa" para fazer aflorar o jogo próprio de cada um…) por mestre Decânio, certamente se lembra de como ele, logo que iniciava o treino, procurava alertar com um ligeiro e repentino tapa sem machucar, porém suficiente para deixar em desconforto ou furioso quem o recebesse. Ora, na aula seguinte e nas mais outras ou tantas quantas necessárias, o Decânio repetia esse gesto… Era um estímulo meio amargo, entretanto, em duas ou três vezes – ou um pouco mais – o remédio atingia o efeito desejado. E Decânio já procurava outro para dar o seu remédio pouco convencional e amargo. Nós, aprendizes, nos conscientizávamos de que quem não observa bem, literalmente "leva tapa na cara". Ele nos ensinava a ficar atento às possibilidades de agressão do adversário.
Outra lembrança "pedagógica". Menos drásticos, porém mais excitantes eram os treinos para a prontidão que mestre Bimba usava. Ele portava um apito. Na situação de treino, dois alunos deveriam enfrentar-se: um dos oponentes se armava antes da luta, porém só podia usar a arma ao ouvir o apito. O sinal era também válido para o outro: ao som do apito, poderia reagir. Como é óbvio, somente Mestre Bimba sabia o momento em que iria ocorrer o sinal. Fazia-o em função da aprendizagem. Isso porque, durante a luta há momentos oportunos (e outros que não o são) para se puxar uma arma. O mesmo se pode dizer em relação a tomá-la, podendo chegar ao ponto, de mesmo sendo capoeirista, o outro tomar-lhe a arma, antecipando-se ao gesto de sacar. Obviamente, só após a ordem de ação autorizada pelo apito. Nessa situação, a capoeira funciona também como metáfora da vida: há o momento certo de agir para acometer ou defender.
Uma terceira situação corresponde ao treinamento de dois iniciantes, que com o tempo vão aumentando gradualmente a precisão, velocidade e graça nas seqüências de golpes. Os alunos mais adiantados percebiam que os formados quando os "puxavam" com mais velocidade tinham o cuidado de não atingi-los, parando o golpe a poucos centímetros do ponto de impacto. Este gesto possibilitava ao aluno dar prosseguimento à seqüência de golpes e contragolpes. Por isso as solas ou pontas das "basqueteiras (kedis) pretas" de Aquiles Gadelha eram muito conhecidas dos alunos. Elas deram muitos sustos, pois a cada momento estavam em frente do peito ou do rosto perplexo dos aprendizes. Era o resultado das "bençãos" (pontapé frontal) e "martelos" (de lado) ou "armadas soltas estancadas" (golpe giratório). Não é este o papel de todo verdadeiro professor e educador que – auxilia o aluno, mostrando-lhe as dificuldades e o modo de superá-las, sem massacrá-lo, porém fazendo-o suar bastante? É nesse clima de solidariedade e confiança, ao som do berimbau, que se canta de verdade:

"Água de beber.

É Água de beber camarada…"

Nem sempre é apropriado estancar um golpe. Numa "armada solta", caso se encolha a perna no meio do caminho para não machucar o adversário, pode não ser uma boa alternativa. A percepção deve estar concentrada também no esboço de defesa que o aluno faz… E para isso o tempo é muito curto para se decidir o que fazer. No caso de se aplicar rasteira nas mãos durante os "aus" (rotação descendente substituindo o apoio dos pés pelas mãos) sucessivos, o procedimento correto de quem aplica a rasteira é de fazê-la com muita velocidade, porque caso contrário não encontrará o que puxar. Porém se encontra a mão apoiada, é para fazer o arrasto com muito vigor. Isto facilita o "rolê" (giro) de defesa do oponente. Este treino só é feito no curso de especialização. Em função do exposto "capoeirar" é saber aplicar golpes:
a) "em câmara lenta", suave e graciosamente;
b) desferir golpes com alta velocidade a partir de uma situação de repouso;
c) modificar a trajetória de um golpe ou estancá-lo em vista da percepção de algo "novo" após ter desfechado o golpe de defesa ou ataque;
d) durante o jogo da capoeira, o que se observa é uma "seqüência" de golpes desferidos em velocidades desde o lento quase imperceptível até aqueles em que a vista, talvez não acompanhe. O meio ambiente dos golpes é a ginga: e o ritmo e a velocidade seguem o compasso da orquestra, muitas vezes composta de um só berimbau dolente.
e) a ginga é tão importante que ela aparece sozinha no item 5 do Regulamento de Bimba e o "gingado" é conteúdo programático da primeira lição. O gingado é como uma rampa de lançamento para se disparar uma violenta cabeçada ou se defender dando um "au" com rolê saindo-se do raio de ação do oponente, que procura, mas não sabe mais onde, encontrar o adversário. Gingando, o capoeira determina as distâncias mais convenientes, inclusive para "amarrar o jogo" do adversário. Por mais que se descreva o gingado, sempre existe o inesperado no adversário: ele esconde manhas ou pode até não significar nada. Tanto simula e dissimula como esconde ou gera golpes ou defesas. É no gingado que os floreios e as negaças se harmonizam. Quando bem feitos, o adversário procura e nada encontra ou encontra sem esperar o que não procura… É malícia pura.
f) emprega-se a expressão "jogar capoeira" à semelhança de "manejar com destreza, jogar com armas". Então o capoeira é aquele que é destro no manejo de armas, a semelhança do jogo de florete ou espada. Somente que as suas armas por excelência são os dedos, as mãos abertas ou fechadas de frente ou lateral ou em "cutila", os pés, as articulações ligeiramente dobradas e a cabeça também são usadas. Sem dúvida, aprende-se também a usar armas simples e convencionais ou improvisadas;
g) joga-se também no sentido de brincar. É aprender brincando – é demonstrar que se sabe de forma alegre. Por isso o capoeirista não machuca quando joga em situação de aprendizagem ou demonstração. Conserva um sorriso as vezes até matreiro de quem com facilidade saiu-se de uma situação difícil ardilada. Pode também representar um pouco de zombaria face ao outro que nem se apercebeu claramente do que aconteceu, ou melhor, do que poderia ter acontecido….
Todos esses ensinamentos estão centradas no modelo de ser e de aprender de Mestre Bimba (sem demérito de outros grandes mestres), que inquestionavelmente é um referencial firme para tema.
Eu, em minha vida pessoal e também como professor (e professor de professores) sempre me remeto à capoeira como metáfora da vida: viver é capoeirar. E há também uma mentalidade de capoeira, mesmo quando você não é o oprimido. Uma vez, há muitos anos, um ladrão invadiu minha casa: eu e minha mulher acordamos com o sujeito ameaçando-nos com uma barra de ferro. Nem sei como, de um pulo já estava ao lado dele que, assustado, fugiu. Eu fui atrás, com muito furor, mas só até a porta: daí em diante, "persegui-o" um pouco, mas não para alcançá-lo (isso é capoeira pura), era só para estimulá-lo a fugir: rápido e para longe. Como consegui dar aquele pulo? Não sei! Inconscientemente, eu tinha me programado (capoeira é observação e antecipação) para, numa situação dessas, "virar um bicho" (um ladrão, por definição, não teme tanto a um homem, mas não há homem que não tema um bicho…)
Resumindo, eu diria que a capoeira, sim representa uma visão de mundo, marcada por um conjunto de atitudes de defesa em situação de forte desigualdade: seja o oponente um feitor; um governo (há empresas que praticam contra o governo a capoeira fiscal…); um professor, pai ou sargento opressor; um seqüestrador (li recentemente no Estadão as indicações da polícia para o caso de você ser seqüestrado e era um "manual de capoeira": indicavam por exemplo, não encarar, não discutir, dormir só quando o seqüestrador estiver acordado e vice-versa; etc.); ou mesmo o mundo como um todo, sempre ameaçador à fragilidade humana. Por isso, encontram-se traços de capoeira em qualquer cultura em que haja situações de opressão. A capoeira não se baseia na agressão positiva nem na mera resignação passiva; é a defesa racional levada ao limite do possível, na inaparência de jogo, ginga e lúdico.


Luiz Jean Lauand.

jeanlaua@usp.br

Esta matéria foi alvo de uma indicação do Sapujo – Teimosia (ORKUT), obrigado por garimpar este documento e assim podermos disponibilizar para todos capoeiristas…

Axé!

A ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL

:: A ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL (13/05/1888) ::

História – Professor Luizão

Hoje estamos comemorando os 117 anos de abolição no Brasil.
Automaticamente associamos “abolição” ao momento em que os escravos no Brasil conquistaram a sua liberdade.
Até que ponto essa idéia pode ser verdadeira?
Se considerarmos o termo “liberdade” como uma expressão que designa meramente igualdade jurídica entre todos os cidadãos, de fato a escravidão acabou em 13 de maio de 1888. Se entendermos, no entanto, “liberdade” no sentido de igualdade de oportunidades e tratamento, então a abolição ainda não aconteceu.

Deixando de lado aspectos meramente semânticos, o que devemos questionar é o seguinte: como aconteceu a abolição no Brasil? Que interesses estavam envolvidos? E, acima de tudo, quais foram os resultados dessa nossa abolição?

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