Blog

Dezembro 2014

Vendo Artigos de: Dezembro , 2014

BATUQUE: “Pai João, capoeira e navalhista”

Mais uma passagem da capoeiragem pela amazônia se deu nos versos do poeta Bruno de Menezes, nascido em 1893 no bairro do Jurunas, em Belém do Pará, deixou um importante legado a cultura amazônida em seus versos e prosas, falecendo em 1963 na cidade de Manaus. Em seu livro “Batuque” publicado pela primeira vez em 1931, o poeta conta a história de Pai João, capoeira e navalhista que cisma no tempo de ontém, que de tanta desordem e furdunço, foi recrutado para Guerra do Paraguai lutar. Segue abaixo o texto…

 

Pai João

Pai João sonolento bambo na pachorra da idade

Cisma tempo de ontém.

De olhos vendo o passado recorda o veterano

A vida brasileira que ele viu e gozou e viveu!

Mãe Maria contou que o pai dele era escravo…

Moleque sagica e teso, destro e afoito num rolo,

Pai João teve fama de capoeira e navalhista.

– Eita!… era o pé comendo,

quando a banda marcial saía à rua,

com tanto soldado de calça encarnada.

E rabo-de-arraia, cabeçada na polícia,

xadrez, desordens, furdunço no cortiço

e o ronco e o retumbo do zonzo som molengo do carimbó.

“Juvená

Juvená!

Arrebate

esta faca

Juvená!

Arrebate

esta faca

Juvená!”

De amores… uma anágua de renda engomada,

um cabeção pulando nos bicos duns peitos,

umas sandálias brancas bem na pontinha dum pé.

E o rebolo bolinante dos quartos roliços da Chica Cheirosa…

E a guerra do Paraguai! Recrutamento!

Gurjão! Osório! Duque de Caxias!

Itororó! Tuiutí! Laguna!

E não sabia nem o que era monarquia!

… Agora, sonolento o bambo,

tendo em capuchos a trufa,

Pai João ao recordar a vida braisleira,

que ele viu e gostou e viveu,

diz do Brasil de ontém:

AH! MEU TEMPO!…

 

80 anos de ‘Batuque’, do poeta Bruno de Menezes

Foi em junho de 1931 que saiu a primeira edição do livro de poemas“Batuque”, do poeta e folclorista paraense Bruno de Menezes, um registro da presença do negro na cultura brasileira. De lá pra cá já saíram sete edições, o que para Maria de Belém, filha do escritor, é uma grande conquista.
A segunda edição contou com ilustrações de Garibaldi, já a quinta foi uma tiragem especial em comemoração aos 350 anos de Belém. As ilustrações desta edição estão no piso do palanque da Praça Bruno de Menezes, no bairro de Canudos. O escritor publicou um total de 13 obras, sendo as primeiras tiradas pela Tipografia Guará, na Cidade Velha.
 
Criado no festivo bairro do Jurunas, conhecido por suas tradições populares, Bruno de Menezes, ou Bento de Menezes, como foi batizado, só fez o curso primário, o que não o impediu de imprimir em seus livros todas as manifestações de sua vivência. Foi o ofício de encadernador que o levou a apaixonar-se pelo mundo dos livros.
 
Obra reflete a musicalidade negra
 
Maria de Belém tem em “Mãe Preta” e “Pai João” alguns de seus poemas preferidos do livro “Batuque”. Funcionária aposentada da Justiça do Trabalho, a filha de Bruno de Menezes esbanja lucidez do alto de seus 84 anos de vida, e não deixa de citar, com orgulho, seus irmãos e os atributos de seu pai. “Meu pai era um homem cordial, alegre e presente, sempre nos incentivava muito na leitura e nos estudos”, relembra.
Com ilustrações de Raimundo Vianna, “Batuque” já foi adaptado para espetáculos e homenageado diversas vezes, como nas peças “Bento Bruno”, de Carlos Correia Santos, apresentada no ano passado pelos alunos da Fundação Curro Velho, no Teatro Waldemar Henrique, e “Batuque”, apresentado pela Cia. de Dança Clara Pinto no Theatro da Paz.
(…)
“A musicalidade dos poemas dele mostram o negro cantando a noite para disfarçar a dor de seu sentimento na senzala”, diz Maria de Belém.
João Bosco Castro chegou a musicar “O Cheiro da Mulata” e a “Escola dos Sapos”. “Numa excursão à França, brincava-se que o cheiro da mulata se comparava ao cheiro dos perfumes franceses”, divertem-se as filhas de Bruno.

 

“‘Batuque’ não fica só nas estantes de livros; é uma obra que tem um destaque popular e desceu para a alma do povo. São 80 anos de alma viva. Não é uma comemoração saudosa, é participativa”, emociona-se Maria de Belém.

HQ: A Balada de Noivo da Vida e Veneno da Madrugada

As aventuras, viagens e amores de Noivo-da-Vida e Veneno-da-Madrugada, capoeiristas e viajantes, heróis imbatíveis de corpo fechado em pleno século XX, tais como foram contadas por Toninho Ventania.

  • Autor: Nestor Capoeira Versão BD / HQ

 

Mestre Nestor Capoeira que agora faz parte da nossa Equipe de Colaboradores, nos brinda com mais uma “fantástica viagem criativa” os personagens do Livro A Balada de Noivo da Vida e Veneno da Madrugada, se transformam em heróis da Banda Desenhada (HQ).

Uma deliciosa leitura repleta de malandragem e magia ilustrada pelo próprio Nestor…

Vale a pena a leitura!!!

“Oi Luciano blza?

Aqui, na maior.. com o verão já bombando!

Estoria em Quadrinhos que faz parte do CD que acompanha o livro “A Balada de Noivo-da-Vida e Veneno=da=Madrugada” (Rio, Ed. Record, 1997).

Esta EQ é a quadrinização da 1ª parte do livro “Balada”. Como os personagens são os mesmos (“Capoeiristas” é a continuação do “Balada”), talvez fosse legal colocar a EQ no Portal.”

Nestor Capoeira

A Balada de Noivo da Vida e Veneno da Madrugada

Rio Branco: Projeto Capoeira na Apae gradua alunos com deficiência

No Acre, projeto faz a inclusão de pessoas deficientes através da capoeira

Um batizado de capoeira especial será realizado na sede da Associação de Pais e Amigos Excepcionais (Apae), de sexta-feira (5) a domingo (7), a partir das 10h, no bairro Conjunto Esperança, em Rio Branco. O evento comemora os 10 anos do Projeto Capoeira na Apae – Arte que encanta, desenvolvido pela Associação Cultural e Desportiva Cordão de Ouro. Segundo Everton Silva, o Mestre Arrepiado, o trabalho tem o objetivo de dar aos capoeiristas especiais uma melhor qualidade de vida e inclusão na sociedade.

– A capoeira na Apae tem um foco diferenciada e específico, que foi adaptado. A capoeira trabalha a expressão dos praticantes, além de trabalhar com os rituais, cantos e códigos que contribuem para a melhor qualidade de vida dos capoeiristas especiais – explica.

Com uma extensa programação de cursos e palestras em outros locais da cidade, o evento contará ainda com a participação do Mestre Ponciano e Contramestre Gerry, de Guaratinguetá (SP), que foi o primeiro capoeirista com síndrome de down, a alcançar essa graduação. 

– A capoeira em si que já é sinônimo de vitória e ao longo da história já venceu o preconceito, a marginalidade e a perseguição. Agora, estamos ajudando jovens e adultos a vencerem seus obstáculos e serem incluídos na sociedade – destaca. 

O projeto é financiado pela Prefeitura de Rio Branco, através da Função Garibaldi Brasil,  Secretaria Municipal de Esporte e Lazer e Lei Municipal de Incentivo ao Esporte.

Confira a programação:

05/12 (sexta-feira)
Escola Apae
9h30 – Abertura
10h – Batizado Capoeira Espercial Arte Que Encanta – 10 anos
19h – Roda de Apresentação na Praça da Revolução

06/12 (sábado)
Horto Florestal
9h30 – Capoeira Ecológica: trilha e treino com o Contramestre Gerry e Mestre Arrepiado

Tentamen
17h – Curso Capoeira Especial e Adaptada com Mestre Ponciano

07/12 (domingo)
Confraternização

 

GloboEsporte.comRio Branco, AC

Jovens músicos levam a cultura baiana para fora do Brasil

De volta às terras soteropolitanas desde 23 de novembro, após um intercâmbio em Viena, Áustria,  os alunos da Escola de Educação Percussiva Integral – EEPI, Gladson Conceição e Edson Mota, planejam mostrar o que aprenderam durante a viagem com  aulas e workshops.

Eles foram para a capital austríaca a partir de um processo seletivo promovido pela EEPI e seus parceiros. Os rapazes já passaram por todas as etapas de formação  e seguem os passos do idealizador e diretor da instituição, o percussionista Wilson Café.

A oportunidade surgiu durante as avaliações rotineiras da escola, onde estudam há nove anos. Eles  não imaginavam que, em meio às provas, estava um teste que terminaria  em um intercâmbio de duas semanas em Viena, capital da Áustria.

Lá – onde Wilson Café foi nomeado Embaixador da Paz em julho deste ano pela Abrasa, associação civil que fomenta o intercâmbio cultural entre Brasil e Áustria -, os jovens participaram dos workshops ministrados por Café, dando suas próprias aulas e abordando aspectos da cultura do Norte e Nordeste. “Edson falou para uma plateia explicando sobre a cultura, a diversidade cultural do Brasil. Gladson falou da parte da música”, diz Café.

No outro lado do mundo

Gladson e Edson desembarcaram em Viena com a temperatura beirando os 3º C. Entre visitas à Escola de Música de Mozart, à casa onde o compositor nasceu e  à Embaixada Brasileira na Áustria (onde levaram de presente uma peça da exposição Máscaras, uma homenagem da EEPI ao centenário de Abdias do Nascimento, que culminou na criação do Acervo Para Matrizes Africanas da Cultura Brasileira na embaixada em 20 de novembro), Edson e Gladson se surpreenderam com o interesse do povo austríaco pela cultura baiana.

“Eles não tinham conhecimento algum que aquele instrumento de uma corda só tinha várias notas”, diz Edson Mota sobre a curiosidade dos alunos de Viena pelas notas musicais produzidas pelo berimbau.

O interesse pelo português, em seu aprendizado e exercício, foi um dos aspectos de maior choque para os estudantes baianos, como conta Gladson Conceição. “Eu fiquei besta de ver um alemão cantando as músicas da capoeira limpinhas em português”.

Em meados de agosto de 2015, será a vez da  Escola de Educação Percussiva Integral receber alunos da Áustria. Na ocasião, 20 estudantes europeus virão ao Brasil para ver de perto o que lhes foi contado pelos garotos.

Antes do embarque

Gladson e Edson descobriram em outubro que representariam a escola no exterior. Em 9 de novembro,  acompanhados de Wilson Café, deixaram o Brasil para conhecer um novo país e levar um pouco da bagagem cultural de Salvador.

“O que eu espero é conhecer os lugares e ter mais informações”, disse Edson Mota um dia antes do embarque. Aos 20 anos e cursando  Letras/Espanhol na Universidade Federal da Bahia, ele tinha 11 anos de idade quando ingressou na EEPI.

Prestes a embarcar para Viena, a expectativa de estar em um lugar novo era difícil de ser ignorada. Gladson Conceição, que, aos 18 anos, tem uma forte ligação com a música e com a capoeira, mostrava sua preocupação com o clima frio da região enquanto fazia planos para a viagem. “Quero passar um pouco do que eu aprendi para outras pessoas”, conta.

Durante a viagem de duas semanas, os garotos acompanharam o percussionista e professor Wilson Café em seus workshops, ministrados inteiramente em língua portuguesa, aos estudantes interessados em conhecer sobre a cultura afro-brasileira, a capoeira e os instrumentos de percussão.

Educação com o tambor

O percussionista Wilson Café realizava workshops sobre instrumentos percussivos no Brasil e no exterior quando foi convidado por Roberto Corriea Lima, do Banco Interamericano de Desenvolvimento, para  um projeto social destinado a crianças e adolescentes de Salvador. A ideia, no começo, parecia assustadora. “Eu nunca esperava ter uma escola”, conta Café.

Mas, em 2001, a Escola de Educação Percussiva Integral foi inaugurada no bairro do Cabula, em um espaço até então abandonado, cedido pela Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia.  O funcionamento, no entanto, só aconteceu dois anos depois, quando a EEPI foi equipada.

Com cerca de 150 estudantes, a Escola é voltada para jovens de 12 a 16 anos, com renda familiar menor do que um salário mínimo, e  matriculados na rede pública de ensino. Os jovens são estimulados a empreenderem em sua formação como um músico completo. “Não é só chegar e tocar. Tem que entender toda a filosofia”, explica Café.

Fonte: http://atarde.uol.com.br/

Capítulo 2 – Atratores Estranhos

CAPOEIRISTAS

PULP FICTION TROPICAL

 

Nestor Capoeira

capítulo 2

 

 

ATRATORES ESTRANHOS

Falei da “desordem cósmica”.

Será que, aqui, eu deveria falar dos Atratores Estranhos dos Estados Caóticos?

Não, não se trata de filme de ficção científica; trata-se da Teoria do Caos, um importante desdobramento da Física moderna; algo mais ou menos da mesma ordem da Teoria da Relatividade ou da Física Quântica.

A Teoria do Caos não se propõe à explicar o Caos, como poderíamos pensar. A Teoria do Caos estuda e explica os Estados Caóticos, ou Sistemas Caóticos, que são aqueles que, regidos por leis (como os demais), são frutos de tantas variaveis que, no passado, pensávamos que eram regidos pela Sorte, pela Chance, pela vaidade dos Deuses, ou pelo Caos Total.

Um exemplo de um Sistema Caótico são as espirais de fumaça que saem da ponta em brasa de um baseado: como conseguir as equações matemáticas para prever todas as circum-evoluções daquele fumacê?

Outro Sistema Caótico seria, por exemplo, o namôro e a paixão entre dois adolescentes.

Na verdade, a Teoria do Caos é um afastamento da Física dos 1800s, regida pela Aritmética, Geometria, Álgebra; coisas que ainda faziam sentido para o nosso “senso comum”; onde a entropia era a “medida da desorganização”.

Este ponto de vista, da entropia, já tinha derrubado a anterior Teoria de Newton – a Lei da Ação e Reação, etc. -, que não definia a irreversibilidade (e assim, em teoria, uma chícara que cai no chão poderia voltar, inteira, para cima da mesa).  Mas, apesar da evolução em relação a Newton, a entropia não conseguia mais resolver certos problemas que foram pintando nos 1900s e então surgiram outras loucuras científica e, entre elas, a Teoria do Caos com seus atratores estranhos.

 

ABRINDO SUA PRÓPRIA ACADEMIA

Vamos sair do mundo da Física, para o mundo do dia-a-dia. Especificamente para o meu mundo que gira, em grande parte, em torno da capoeira.

Poderíamos pensar, por exemplo, que estes atratores estranhos dos estados caóticos (que são forças estranhas que existem na natureza) poderiam atuar, atraindo os jovens professores de capoeira para um determinado e específico tipo de ação: abandonar seu mestre, e abrir a sua própria academia.

Isto, evidentemente, é um desgaste para a academia de origem.

Mas este desgaste, esta “desorganização local” – como ensina a Teoria do Caos -, propicia uma “organização geral”. Uma nova “organização geral” que, muitas vezes, é mais forte e mais completa que a organização anterior.

Ou seja: o mestre perdeu um aluno, ou um professor graduado; mas o universo da capoeira ganhou mais uma academia com uma ideologia e praxis diferente. E sabemos que a diversidade (tão em moda nos nossos dias, após a “descoberta” da Ecologia pelo Sistema) é um fator essencial à evolução, e à própria sobrevivência dos humanos no Planeta Terra.

 

ORGANISANDO O GERAL

Os atratores estranhos dos estados caóticos são estruturas dissipativas; mas o que dissipa as energias também é vida.

O modelo de equilíbrio não vigora absoluto.

O ser vivo e o clima não tendem ao equilíbrio.

Não se trata de imaginar uma coisa linear, de pequenos desgastes que levam, finalmente à morte; que é o pensamento “normal” do “senso comum”. Trata-se de outra coisa: de pequenas “desorganizações locais” que organizam o geral.

Os atratores estranhos dos estados caóticos são (algo misterioso) que, justamente, agenciam estas pequenas “desorganizações locais”.

Parece papo de doidão chapado?

Talvez.

Mas é (sem duplo sentido) baseado em “papos” como este que foi possível desenvolver a tecnologia para colocar o homem na lua; para construir os computadores e telefones celulares e ipads e ipods que o sr. e a sra. e a simpaticíssima srta. tanto apreciam.

 

VIVENDO A VIDA ALHEIA

Mas, deixa isto pra lá e vamos voltar ao roteiro.

O que interessa ao Encantado é a possibilidade de “acessar” aquele humano, e pegar carona na vivência da vida daquela pessoa.

Evidentemente isto aumenta o Axé, a força vital, e o poder daquele humano; mas aquele humano pode não ter (uma total e clara) consciência da presença do Encantado.

Voces devem ter notado que o nome deste segundo capítulo é O Mão de Faca.

Quem será este Mão de Faca?

O Mão de Faca é, justamente, um destes Encantados aos quais nos referíamos.

Um Encantado da mais Alta Hierarquia.

Um destes Encantados que, de tempos em tempos, sentia saudades dos prazeres e paradoxos da vida material no planeta Terra.

 

NOIVO-DA-VIDA

 

Meu nome é Noivo-da-Vida,

com a vida é meu compromisso;

Não me prende parede,

não me amarra feitiço.

 

Vou onde a vida me leva;

vou onde a vida levar;

Meu nome é Noivo-da-Vida,

sou filho de Oxalá.

(Nestor Capoeira, 2014; CD A balada de Noivo-da-Vida e Veneno-da-Madrugada)

 

 

 

SUAVE NA NAVE

Noivo-da-Vida acordou lentamente tipo suave na nave.

Não abriu imediatamente os olhos; sentia-se maravilhosamente bem, quase eufórico, e ficou curtindo aquela região morna e macia entre o sono e a vigília.

Uma brisa matinal acariciava seu rosto e a pele do corpo, uma luminosidade difusa ocasionalmente atravessava suas pálpebras, ouvia o múrmurio de água corrente e o alegre e animado gorjeio de pássaros.

“Deve ser começo de primavera”, pensou preguiçosamente.

Entreabiu lentamente os olhos sem se mexer, sem nem mesmo espreguiçar, e ficou ligeiramente confuso: não se lembrava daqule lençol verde brilhante que forrava sua cama.

Focou o olhar – “uma formiga?” -; não, várias formigas em teimosa e atarefada labuta.

Franziu o cenho e levantou o corpo parcialmente.

Para sua surpresa, estava deitado no gramado do que parecia a bucólica e arborisada praça de uma pequena e pacata cidade interiorana; passáros chilreavam e pulavam de galho em galho nas árvores que filtravam a suave luz matinal do sol; uma fonte esguichava jatos de água através bocas de leões de uma velha estátua de bronze; e numa coisa Noivo estava certo – era realmente o começo da primavera.

 

TUDO QUE É SÓLIDO SE DESMANCHA NO AR

Queixo-me às rosas;

que bobagem, as rosas não falam.

As rosas simplesmente exalam

o perfume que roubam de ti.

(Cartola, As rosas não falam)

Aí, Noivo viu a garrafa de cachaça caída na grama; quase ao alcance da mão; quase vazia.

Não era à toa que se sentia tão bem e eufórico: ainda estava bêbado do dia anterior. A brutal ressaca só ia pintar lá pelo fim da manhã.

Num repente lembrou de tudo; os meses que perambulava sem rumo, enlouquecido, sem saber onde estava nem como ali tinha chegado.

Noivo lembrou-se da perda de sua visão, o desmoronar dos alucinados planos que tinham orientado e sustentado sua vida durante os últimos anos, a despedida de Veneno-da-Madrugada e Toninho Ventania.

O reencontro com Ingrid no Planalto Central perto de Brasília, os meses de amor e paixão.

E então, o vazio, a desilusão, e a ferida que não cicatrizava.

Ingrid.

 

LUTANDO CONTRA O DESTINO

“… e vi longe, adiante no tempo

que, com seus vales e colinas,

cambiante,

ondulava à minha frente.”

(Noivo-da-Vida)

Noivo, adolescente, tinha lutado contra seu destino:

“Quero ser apenas mais um; mais um capoeirista solto no mundo e na vida”.

Mas um dia, em Amsterdam, na época em que ele e Veneno e Toninho Ventania andavam fugindo do Dr. Turíbio e seus asseclas, Noivo teve mais um surto de clarividência – desta vez, uma visão tão clara e definitiva que não tinha jeito de voltar atrás.

“O lance todo está podre”, Noivo explicava, naquela época, à Toninho Ventania sob o olhar irônico e cínico de Veneno – que chamava Noivo de “nosso Mao Tse Tung de araque”.

“Você não viu o lance dos hippies  em Woodstock nos USA?”, perguntava Noivo.

“Voce não estava lá em Paris em maio de 68?”, e dava um sorrizinho misterioso, talvez lembrando-se de alguma estrepolia cometida no confronto com os gendarmes.

“Pois vai pintar um novo lance que vai botar os 1960s no chinelo; a gente vai apenas dar uma forcinha, aparar umas arestas”.

E aí, Noivo começou a criar seu exército de “teleguiados”.

Uns 20 jovens e promissores capoeiristas, bancados por Noivo para abrir academia e dar aulas nas 20 favelas mais punk do Rio. Tudo bancado com a grana que Noivo ganhava – sem fazer fôrça – na roleta, nas cartas, no Jockey, e eventualmente até na loteria (sua visão estava, cada dia, mais poderosa).

“Quem é que vai desconfiar de umas academiazinhas mambembes de subúrbio? E, daqui a 30 anos, quando o fruto estiver maduro e o bicho pegar, nós estaremos prontos.”

 

30 ANOS

Dentro de 10 anos, cada um dos 20 “teleguiados” já teria formado, no mínimo, 5 novos professores – seriam 120 caras na área.

Mais 10 anos: cada um dos 120 formando mais 5 professores – 720 malucos dando aula.

Ainda mais 10 anos, na época em que “chegasse o momento”, mais de 3.500 professores, cada um com uns 15 a 20 alunos cada – uns 50.000 jovens empolgados, com o corpo trabalhado na capoeira, e a cabeça feita pela malícia do Jogo e pelas ideias utópicas e alucinadas de Noivo-da-Vida.

Naquele momento final, Noivo e Veneno já estariam com uns 60 de idade, e Toninho com uns 50.

Mas, 60 anos para quem vive a capoeira diariamente, dia-a-dia, ano-a-ano, não é a mesma coisa dos 60 de um cara relativamente sedentário. Basta lembrar da forma física dos mestres Bimba e Pastinha aos 60; e, mais recentemente, Leopoldina que, aos 72, jogava com 4 ou 5 jovens, um atrás do outro, e dava show de bola na rapaziada; ou então do atual mestre Acordeon que em 2013, aos 69 de idade, saiu de bicicleta de San Francisco, na California, e um ano depois chegou a Salvador, na Bahia, Brasil.

 

SAPATINHO

“O único problema é querer por pra quebrar antes do tempo”, pontificava nosso Mao tropical.

“Temos de agir no sapatinho: todas as coisas e fatos e pessoas estão interligados no Tempo e na tapeçaria do devir. Por isso não  podemos fazer lances bruscos, radicais, no presente… pois certamente isto iria alterar o cenário do futuro”.

Dessa maneira, Noivo tambem explicava porque sempre acertava na roleta – “preto dezessete!” -, e no jogo de cartas – “valete de ouros!” -; mas, por outro lado, acertava menos nos cavalos, e menos ainda na loteria ou no Jogo do Bicho.

Noivo via um resultado. Mas entre o ver, e o apostar, e finalmente acontecer o lance – roleta, carta, corrida de cavalo, loteria -, rolava um tempo. Este intervalo de tempo, na roleta e nas cartas, era pequeno. Mas na loteria, por exemplo, passavam alguns dias entre comprar o bilhete e o sorteio; e nestes “alguns dias” rolavam  eventos e aconteciam fatos que se concretizam no presente, alterando toda a estrutura do porvir, uma vez que estava tudo interconectado.

Então o negócio, segundo Noivo, era “fazer tudo no sapatinho”; lentamente e sem dar bandeira. Nem os “teleguiados” mais chegados podiam saber dos alucinados planos do nosso Ghandi brasileiro.

Os “teleguiados” deveriam pensar que “éramos apenas mais um Grupo de Capoeira; um grupo de sucesso, e em expansão”, sob o inspirado e competente comando de Noivo e Veneno, e tambem do jovem Toninho Ventania.

 

TRES LONGOS GOLES

Mas o Tempo é foda, meu amigo; e as coisas não se passaram como Noivo tinha previsto

Agora, alguns anos depois, separado de seus camarás, perdida a sua  visão clarividente, desiludido e ferido por seu grande amor – Ingrid -; Noivo, sentado na grama da pracinha no suave sol da manha de primavera, esvaziou a garrafa de cachaça em três longos goles.

 

FLASH BACK

Noivo recordou, em lampejos de flah-back, o rosto rude e violento de um homem que lhe falava de algo do qual ele não tinha a mínima ideia – “… por bem ou por mal, sabendo ou não, tu vai me pagar essa grana”.

Quando teria acontecido?

Ontem?

Um mês atrás?

Noivo lembrava que estava completamente embriagado e, alem de tudo, tinha acabado de fumar um grosso baseado. E aí deu um branco.

Um daqueles brancos que acontecem quando o cara está completamente alcoolisado de cachaça e chapadão de maconha.

Noivo recordou que, quando voltou à realidade, havia o tal estranho à sua frente; violento, gritando “tu vai me pagar essa porra dessa grana”.

Noivo tinha saído do ar – alguns segundos? minutos? horas? -; mas o Tempo não parou. E, ao que tudo indicava, as coisas tinham rolado indiferentes à presença ou ausência de Noivo no mundo real.

Noivo lembrou-se de um brilho selvagem nos olhos do estranho; e. então, sua visão voltou num breve lampejo e Noivo previu o futuro imediato.

Noivo viu, junto com o brilho nos olhos do estranho, um brilho da faca. Noivo viu, a si mesmo, descendo rápido na rasteira, a queda do inimigo; Noivo num aú, perfeito todo aberto, contornando o corpo que rola no chão; uma banda na mão do homem que tentava se levantar, mais uma queda; uma violenta calcanheira por baixo do queixo, o estranho caindo desmaiado.

Praticamente em seguido à visão, as coisas aconteceram igualzinho, como se fossem um dejá vu.

Finda a ação, Noivo olhou ao redor:

“Mais alguem, ‘por bem ou por mal’?”

As pessoas afastaram-se temerosas, mas com olhar de espantada admiração.

Seria difícil alguem que tivesse conhecido o elegante e cool Noivo-da-Vida, tempos atrás, reconhece-lo nesta sua nova persona de Dr.Jekyl e Mr. Hyde; brutal, arrogante, o olhar ensandecido. 

Mais um branco.

Noivo ia e vinha, saindo e voltando da realidade, apesar de seu corpo continuar a agir.

Uma maçaroca de notas de dinheiro na mão de Noivo; o estranho continuava caído no chão, mas com os bolsos das calças revirados para fora.

Noivo olha novamente ao redor, as pessoas afastavam-se mais um pouco, mas agora com um olhar de reprovação – “algum problema?” -, e a pequena plateia vai se dispersando.

Quando tinha sido isto?

Semanas atrás, ou ontem?

 

DE VOLTA `A PRACINHA

Noivo, sentado na pracinha, relembra os eventos; sua mente está confusa.

Um grupo de quatro ou cinco colegiais passa do outro lado da rua e, ao verem Noivo com a garrafa, apressam o passo, cochicham entre si, dão risadinhas, e desviam o olhar.

“Qual é? Vão cuidar de suas vidas! É isso aí! Vão correndo pra não chegar atrasadinhos na bosta do colégio!”.

 

Noivo aremessa com raiva a garrafa que se espatifa numa árvore, levanta-se, atravessa a praça e se embrenha numa rua onde algumas lojas ainda estão abrindo as portas.

{vimeo}58294486{/vimeo}