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Fevereiro 2015

Vendo Artigos de: Fevereiro , 2015

Capítulo 5 – Noivo da Vida

CAPOEIRISTAS

PULP FICTION TROPICAL

 

Nestor Capoeira

capítulo 5

 

Finalzinho do capítlo 4

Nos 20 anos seguintes, até a morte do Senador em circunstâncias um tanto misteriosas – murmurava-se: “queima de arquivo” -, Piu-piu e Bule viveram vida de Príncipe. 

Fim do cap. 4

  

NOIVO-DA-VIDA

 

Eu cresci na malandragem, tirei meu diploma no asfalto.
Da cobra conheço o bote, da onça conheço o salto,
do tamanduá o abraço, do escorpião a peçonha;
Dos homens, a mesquinhez e a maldade medonha.

Meu nome é Noivo-da-Vida, mas na roda da brincadeira
do Jogo de Capoeira, meu apelido é Liberdade.
E já tarda demais o amanhecer.

(Nestor Capoeira, 2014; CD A balada de Noivo-da-Vida e Veneno-da-Madrugada)

 

O MENDIGO NO ESPELHO

Noivo aremessou com raiva a garrafa que se espatifou numa árvore. Levantou-se, atravessou a praça e se embrenhou numa rua onde algumas lojas ainda estavam abrindo as portas.

Ia murmurando frases imcomprensiveis; e então lembrou-se:

“A maçaroca de notas…”

Noivo enfiou as mãos nos bolsos e, satisfeito, achou as notas amarfanhadas.

Entrou num botequin, os clientes espalhavam-se pelas mesas tomando o café da manhã.

Noivo bateu com a mão espalmada de dinheiro no balcão de alumínio.

“Ô mané, vê uma cachaça. Capricha na dose.”

“Teu dinheiro aqui não vale nada. Não tem nada de cachaça pra mendigo bebum e safado.”

Mendigo?

Noivo surpreso olhou o espelho atrás do balconista do outro lado do balcão. Constatou que, realmente, havia um mendigo imundo – a barba de meses; a roupa suja e esmolambada em pedaços, mal cobrindo o corpo.

Mas o que é que ele, Noivo-da;Vida, ttinha a ver com isso?

Noivo se virou já exorcizando – “sai fora…” -; mas não há ninguem ali . Noivo ve com asco que o mendigo é a sua própria imagem refletida no espelho.

“É isso mesmo”, diz o gordo e parrudo dono do bar, “sai fora. Vai curtir a tua cachaça em outro lugar antes que eu te arrebente a cabeça”. E puxou um grosso porrete de trás da caixa registradora.

 

PULO-DO-GATO

Noivo finalmente cai na real: mendigo bebado, imundo e ensebado.

Um murmúrio estrangulado de raiva e desgosto escapa de sua garganta.

Apoia as duas mãos no balcão e, num pulo de gato, já esta em pé na superficio de aluminio. Ele aterisa no balcão num só pé e, no mesmo movimento, chuta a cara do balconista com o outro pé, num movimento sincronisado, harmônico, perfeito.

O dono do bar cai para tras, braços abertos, esparramando-se nas prateleiras, derrubando um monte de garrafas que se espatifam no chão.

Noivo, em pé no balcão, sólido como uma rocha, murmura roucamente mais alguma coisa; gira lentamente a cabeça e circula o olhar vermelho e ensandecido pela duzia e meia de comensais que o olham boquiabertos e estupefatos.

Noivo subitamente, leve e preciso como um gato, pula  por cima do corpo estatelado do dono do bar; pega uma coxinha de galinha e a devora de um só golpe, pega outra – idem. Abre a caixa registradora e pega as notas de dinheiro; enfia nos bolsos imundos. Agarra uma garrafa de cachaça e toma dois longos goles e vai sair… mas subitamente para.

Olha longamente seu reflecxo no espelho.

Murmura mais algumas palavras imcompreensíveis.

Vai ate a pia e pega uma barra de sabão de coco que tambem enfia no bolso. E – garrafa na mão -, sai do bar sem olhar sequer mais uma vez os apavorados fregueses.

É como se ele estivesse sozinho em sua própria casa e, agora, sai calmamente e ganha a rua.

As pessoas, ainda temerosas, aproximam-se lentamente da porta do bar e olham tímidos para fora.

Noivo já esta dobrando a esquina.

Um jovem comenta com seu amigo:

– Voce viu o Samurai Louco do Shaolin? Foi programa duplo com As Peitudas que Fazem de Tudo por Trás, lá no Odeon. Uns caras matam a mulher do samurai, ele enlouquece e sai pelo mundo afora caçando os caras e cortando as cabeças deles.

 

O SAMURAI LOUCO DO SHAO-LIN

Noivo dobrou a esquina e sem diminuir a marcha recolheu uma calça branca e uma camiseta riscada de vermelho que estavam penduradas num cabide tipo mostruário em frente a uma das lojas recem abertas.

Vai andando seu andar empinado, calmo, resoluto, ligeiramente gingado, a cabeça levantada e o olhar no horizonte; algo que destoa completamente do visual das roupas e da imundíce de mendigo.

Se alguem tivesse a curiosidade de olhar o corpo que transparece por baixo dos farrapos imundos, ficaria mais surpreso ainda com a musculatura trabalhada e recortada por anos a fio de treinos e jogo.

Noivo vai murmurando consigo mesmo.

Cheguemos mais perto.

Aos poucos, a algavaria ininteligivel vai se condensando lentamente, na mesma medida em que o olhar, injetado e alucinado, tambem vai clareando em lampejos de lucidez.

“Eles pensam que estou derrotado, definitivamente caído. Podem pensar o que quiserem, bando de filhos-da-puta, Mas ainda não estou acabado. Longe disso. Eles vão ver a volta que o mundo deu, e a volta que o mundo dá. Eles vão ver que eu ainda não esqueci o pulo-do-gato.”

 

VOU ONDE A VIDA LEVAR

Se voce leva uma vida seguramente balizada e sinalizada; trilhando por caminhos de seguros projetos de estudos, de trabalho; é normal que voce encontre dificuldades e obstáculos – assim é o viver.

Mas em condições normais de temperatura e pressão, o obstáculo é vencido. E mesmo que não se consiga tudo aquilo do nosso sonho e desejo – you can’t always get what you want -, vamos chegar em algum lugar onde, mesmo que intimamente insatisfatório, podemos levantar um olhar arrogante. sentado ao volante do novo carro recem comprado e mentir. Fingir estar plenamente satisfeito com a vida:

– Estou numa boa! Numa ótima! I am a winner!

Assim é o viver do proletariado bem pago; assim é o viver da classe mérdia, e da  burguesia, no mundo do dinheiro e da tecnocracia em tempos de condições normais de temperatura e pressão.

Mas se voce vai onde a vida te leva; se voce vai onde a vida levar; seguramente vai encontrar muitas encruzilhadas que desembocam em um número sem fim de trilhas e caminhos.

Cuidado!

Alguns conduzem ao abismo.

Mas, anime-se, tambem é verdade que a sorte é fada madrinha dos corações aventureiros.

 

A CANÇÃO DE NOIVO-DA-VIDA

Eu  sou Noivo-da-Vida,
angola e regional;
Já rodei o mundo
tocando meu berimbau.

Vi o sol da meia-noite
e a noite fria do deserto,
poeira de muita estrada,
amores lá longe e aqui perto.

 

(Nestor Capoeira, 2014; CD A balada de Noivo-da-Vida e Veneno-da-Madrugada)

 

NEW LOOK

Noivo dobrou a esquina e sem diminuir a marcha recolheu uma calça branca e uma camiseta riscada de vermelho que estavam penduradas num cabide tipo mostruário em frente a uma das lojas recem abertas.

Voltou à pracinha, tirou a roupa, ficou nú, entrou no laguinho e começou a se lavar com o sabão de coco. Tomou um banho longo, lento, sem pressa, enquanto ouvia o cantar dos passarinhos.

Depois deitou-se ao comprido, de barriga para cima, num dos bancos de madeira, para secar ao suave sol matinal, e cochilou.

Sentia-se bem naquela praça com suas enormes árvores centenárias e seu velho chafariz rococó despejando água por oito bocas de bronze.

Não se dava conta de sua nudez.

 

PRAÇAS COM CHAFARIZES

Noivo sonhou um daqueles sonhos vívidos, coloridos, com enredo mais racional que seriado americano de televisão.

O cenário era o Rio Antigo dos 1800s, aquele mesmo Rio que muitos viajantes estrangeiros compararam a uma das grandes metrópoles africanas a baira-mar, e que Libano Soares tão bem descreveu:

“Uma cidade do Rio de Janeiro coalhada de africanos, atravessada por limbambos de negros acorrentados, persigangas flutuantes carregadas de condenados, pelourinhos espalhados pelas praças, onde, por muitos anos, os capoeiras sofreram o flagelo do açoite, do vergalho, cercados de quitandeiras e de negros de ganho, moradores dos zungus”.

As maltas de capoeiras dos 1800s dominavam áreas da cidade; e o capoeira se filiava a uma, ou a outra, não necessariamente por morar naquela freguesia mas por uma escolha pessoal.

 Os pontos principais de encontro eram:

– os adros de igrejas e a própria igreja; militares não entravam armados nas igrejas para prenderem delinquentes ou capturar desertores do exército e da marinha;

– determinadas tabernas que os capoeiras denominavam fortalezas;

– os zungus; casas de angu, locais onde negros moravam e se reuniam; tanto os libertos, quanto os escravos negros de ganho que saiam de manhã para o trabalho freelancer e de noite tinha de entregar uma determinada quantia a seu senhor;

– os cortiços, ocupados por mulatos e brancos pobres;

– a zona potuária; a estiva, as docas, os locais frequentados por marítmos e marinheiros nacionais e estrangeiros; local de muitas trocas culturais. 

Mas o principal ponto de encontro eram as praças com chafarizes, lugares de convivência explosiva onde os escravos – as vezes, de maltas diversas – iam constantemente buscar água para abastecer a casa senhoril. 

A capoeira era o meio de estabelecer hierarquias e áreas de domínio dentro do próprio universo escravo; algo que se via diariamente nas filas para buscar água, nas praças.

Mais do que uma “forma de resistência contra a opressão senhorial” – como desejariam alguns puristas adeptos da versão heróica dos fatos -, a capoeira foi uma ferramenta na disputa do domínio de diferentes áreas da cidade, pelas diferentes maltas.

Após a sesta, ou o almoço, e principalmente de noite e de madrugada, os negros capoeiras sorrateiramente esgueiravam-se da casa senhorial e aproveitavam a maior liberdade para dominar as vias mais importantes da cidade. O encontro de duas maltas frequentemente deixava saldo de mortos e feridos.

Vimos que esta disputa se perpetuou, até mesmo em nossos dias, com a luta pela hegemonia entre estilos, cidades, e entre os próprios mestres. Por exemplo, a transformaçãoção dos 1960s, com João Grande e João Pequeno; Peixinho, Suassuna, Acordeon e outros.

 

CRONOMETRAGEM HARMÔNICA

 Noivo acordou confuso: o sonho lembrava os lampejos de clarividência durante a época em que, junto com Veneno e Toninho Ventania, tinha armado os pelotões de seu “exército”.

Lentamente, ainda murmurando para si mesmo, vestiu a roupa nova e limpa – ao fundo, o chilrear dos passáros, e o múrmurio de água corrente -; e saiu da praça exatamente no momento da chegada de uma patrulhinha que vinha averiguar a denúncia de um homem peladão tomando banho no chafariz.

 

UMA CIDADE DENTRO DA OUTRA

Em que medida a disputa, e este “domínio”  da urbe, que a massa escrava exercia cotidianamente na cidade do Rio de Janeiro duranre o Brasil Império, nunca se manifestou numa revolução aberta; num levante generalizado, como tinha acontecido no Haiti, ou em Salvador na Revolta dos Malês de 1833?

“Assoviando e portando paus, cometendo desordens na maioria das vezes sem nenhum razão”; em 1817, o Intendente de Polícia, Paulo Fernandes Viana, faz questão de mencionar a aparente “falta de objetivos” dos capoeiras, pois não se dedicavam primordialmente ao furto e ao roubo.

Mas Libano Soares no seu Capoeira Escrava explica brilhantemente a motivação: a construção de “uma cidade dentro da outra”:

“Primordialmente, a existência de um grande aparato militar…e a heterogeneidade étnica e cultural (dos escravos que vinham de diferentes regiões da Africa) era contrária à um levante geral… as maltas de capoeira eram a concretização possivel deste inconformismo escravo.

Ao invés de reinvindicarem uma unidade dos cativos, as maltas lutavam por espaços limitados, restritos, pedaços do estreito mundo urbano colonial. Os conflitos com agentes do Estado colonial, ou imperial, não eram incoerentes com a guerra crônica entre as maltas de escravos: tanto uns quanto outros (os policiais e as outras maltas) eram invasores, beligerantes, se bem que em planos diferentes…

A cidade era sua, mas não toda a cidade, ou toda de uma vez… eles forjaram uma cidade dentro da outra.”

 

 O MÃO DE FACA

 

He was looking for the card
that is so high and wild
he’d never need to deal another.

(Leonard Cohen)

Nossa estória – além de Veneno-da-Madrugada, Noivo-da-Vida, e Toninho Ventania; além dos mestres Bimba e Pastinha; de João Grande e Pequeno, Decânio e Jair Mora; Peixinho e Acordeon e Suassuna -, tambem é a estória de um destes raros Encantados de Alta Hierarquia que resolveu encarnar e viver uma longa vida terrena.

E fez isto mais de uma vez.

A curtição deste Encantado não é, nem nunca foi, desempenhar um papel como, por exemplo, o de Alexandre Magno ou Genghis Khan, que com seus exércitos dominaram a quase totalidade do mundo “civilizado”.

Nem tampouco um Ghandi que, sozinho, enfrentou, derrotou, e tomou a Índia das mãos do arrogante e violento Império Britânico – the sun never sets over the British Empire – sem dar um ünico bofetão. 

Este Encantado preferiu atuar em papéis menores, muitas vezes “dentro” e perto do núcleo dos principais acontecimentos da época; e outras vezes, nem tanto.

Por outro lado, este Encantado não deletou completamente as personalidades das crianças na qual encarnou. O Encantado “conviveu” – dentro do corpo e da mente e do espírito – com aquelas crianças; e mais tarde, com os adolescentes e adultos que elas se tornaram. Algo que é visto quase como uma obscenidade no Mundo Espiritual.

Quer dizer, nos Mundos Espirituais Médio e Não-tão-Alto, pois lá tambem existem estes prolegômenos,  estas regrinhas de “devemos nos comportar assim ou assado”.

No entanto, nos níveis mais elevados da Hierarquia… tanto faz, como tanto fez; o que realmente interessa é o Axé, a força criativa e de realização de determinado Ser.

 

MEU BRASIL BRASILEIRO

O Encantado escolheu o Brasil mais de uma vez.

Porque?

Difícil dizer.

Tim Maia dizia que, no Brasil, puta goza, cafetão se apaixona, e traficante é viciado. Parece que o nosso espaço é um tanto especial.

A tal ponto que, embora a última encarnação de qualquer humano, antes de deixar a Gira Terreste para encarnar em outras mais evoluidas, sempre ser na Índia; depois, ele ainda vem mais uma vez, a passeio, dar um rolê no Brasil.

O Encantado provavelmente escolheu o Brasil devido à geografia, ao clima, e à concentração excepcional e única de energias locais que permitiram que ele curtisse ao máximo os melhores aspectos e paradoxos e prazeres do material world.

Alem disto, apesar do Nelson Rodrigues afirmar, com razão, que a função das massas é parir o gênio e, depois que o pariu, voltavam a babar na gravata; a verdade é que até mesmo as massas daqui – miseráveis, proletários, classe mérdia, pequena e alta burguesia – tem um certo suíngue. A figuração do filme é boa.

O Encantado escolheu o Brasil, mas sempre depois de 1800: aquele negócio de vida de índio, de Brasil Colônia, e até mesmo o mundo aristocrata de D. Pedro I e de D. Pedro II, realmente nunca foi a sua onda. Se, por acaso, ele tambem esteve por aqui no Brasil Império, foi somente para curtir a chegada dos 1900s e, mais especificamente, as últimas décdas do século e a entrada dos 2000.

 

O nome deste Encantado no mundo espiritual é Mão de Faca.

 

Fim do capítulo 5

Livro: Roda dos Saberes do Cais do Valongo

Esse livro documenta uma experiência singela. Acontece no cais do Valongo desde julho de 2012. O Valongo, lugar de desembarque de centenas de milhares de africanos escravizados entre 1774 e 1831, passou em seguida quase dois séculos encoberto e esquecido pelos habitantes do Rio de Janeiro e seus visitantes. Como era inconveniente lembrar desse lugar de sofrimento e de profunda injustiça, os donos do poder carioca o encobriram, primeiro com outro cais, depois com um largo chamado de “Jornal do Commercio”, o que evoca notícias de uma atividade decente e normal, não um crime contra a humanidade.

Agora, graças a iniciativa de Mestre Carlão e dos alunos do Kabula Artes e Projetos, reúnem-se ali na sombra mais próxima ao lado do antigo cais, cada terceiro sábado do mês, capoeiristas, artistas, acadêmicos e outros transeuntes para participar das várias rodas consecutivas: a roda dos saberes, a roda dos fazeres e a roda de capoeira. As falas da roda dos saberes, diligentemente selecionadas por Carlo Alexandre Teixeira e editadas pelo escritor e artista Délcio Teobaldo, permitem ao leitor entrever um pouco daquilo que está acontecendo nesse local que representa, segundo Ali Moussa Iye, diretor da Diversidade Cultural da UNESCO, “o mais importante sítio de memória da diáspora negra fora da África”. O Valongo constitui assim um lugar crucial de memória para lembrar a tragédia que foi o tráfico transatlântico de seres humanos escravizados, e sua escala inhumana de quase um milhão de vítimas desembarcadas apenas nas pedras desse cais. Por que a memória desse lugar foi silenciada durante tanto tempo? Milton Guran salienta na sua fala que os “capitais financeiros do Império tiveram ligação direta e participação direta com o tráfico negreiro. […] Toda economia do Império estava diretamente ligada e desfrutava do tráfico negreiro.”  De fato, é bom lembrar que o Rio de Janeiro foi não somente o maior porto de desembarque de escravos nas Américas, mas também o segundo maior porto de origem dos navios negreiros, depois de Liverpool, na Inglaterra. Ou seja, o Rio não era apenas o porto de destino dos navios negreiros de negociantes portugueses, mas foi mesmo o segundo mais importante porto de armação do infame comércio, perdendo apenas para Liverpool.

O Valongo é denominado de complexo porque inclui não somente o cais de desembarque, mas também o cemitério dos Pretos Novos para onde foram aqueles milhares de recém chegados que não se recuperaram dos horrores da travessia. Foram jogados em fossas comuns ali mesmo, sem cerimônia. Por que os traficantes haveriam de considerar os mortos se maltratavam os vivos? Como explica Denise Demétrio, o descaso com o corpo do escravo defunto era a norma no Rio de Janeiro colonial. A distância da fazenda para um cemitério ou para a igreja da paróquia geralmente sendo grande, “os cadáveres eram largados na estrada ou enterrados no meio do caminho para não custar um dia inteiro.” Mas ela também nos fala das primeiras pontes que se estabeleceram entre os próprios escravizados, também com a população pobre “de cor” e até mesmo com os senhores. Isso é revelado pelos registros coloniais de batismo do Recôncavo da Guanabara. O compadrio que se instaurou entre a casa grande e a senzala é o símbolo máximo do escravismo patriarcal brasileiro. Através dele, o dono reconhecia a humanidade de sua propriedade e a ideia da família extensa incluindo seus escravizados lhe permitia dar um ar de aparente respeitabilidade à instituição do cativeiro. Também acabou subvertendo a ideia de pensar a escravidão unicamente “como dois blocos, os senhores e os escravos.”

Entre a chegada, a re-partida ou a morte, o Valongo também foi um lugar de quarentena para os recém-chegados onde deveriam ficar até sua recuperação e venda. Por isso, salienta Hebe Mattos, o complexo do Valongo também é um “um espaço de aprendizado da língua, do trabalho, uma espécie de socialização para a nova vida que teriam.” A partir desse momento, o Valongo passa a ser não somente um lugar de tragédia, mas também de um milagre, que Richard Price chamou do “milagre da crioulização”. Várias das falas reproduzidas aqui nos contam outros aspectos desse processo de criação cultural. A minha própria fala tenta resgatar a memória dos Benguelas, um grupo importante entre os desembarcados, tanto em termos numéricos quanto pela sua cultura de jogos de combate que contribuiu muito para a formação da capoeira. Cláudio de Paula Honorato discorre sobre os capoeiras que trabalhavam na região portuária, destacando os grandes capoeiristas locais como o Prata Preta. Já Mestre Neco nos fala de seus próprios mestres: Adilson, Moraes, e o início da capoeira angola no Rio, até a década de 1980. 

Martha Abreu também faz reviver os bairros portuários, espaço de trabalho de uma população em sua maioria negra ou afrodescendente, mas também espaço de lazer. Depois da abolição do tráfico e do cativeiro, a “Pequena África” continua a receber migrantes negros, só que agora eles vêm da Bahia ou do Vale do Paraíba… Ela põe em evidência essa sociabilidade negra dos bairros portuários que pesquisas recentes estão redescobrindo. Personagens fascinantes como o Mano Elói, migrante do Vale do Paraíba, que “pertence ao candomblé, é capoeirista, trabalha no porto como estivador, participa de blocos, de ranchos e passa a ser fundador-membro atuante da fundação da Portela e depois da Império Serrano.” Luiz Antônio Simas reivindica que caras como ele seriam “os verdadeiros heróis civilizadores do Rio de Janeiro”, e providencia aos ouvintes mais um insight provocador dessa permanente tensão entre tragédia e milagre, no caso “o incômodo fabuloso que é você pensar uma cidade que tem como seus heróis civilizadores que codificaram, talvez, a maior referência de construção do imaginário dessa cidade que é o samba urbano carioca, uns camaradas que estavam lá traficando maconha; os camaradas que estavam lá colocando mulher na zona; uns camaradas que estavam lá morrendo de sífilis, morrendo de briga de esquina, morrendo por causa de um jogo da chapinha, morrendo por causa de um jogo de ronda.” A genealogia da cultura diaspórica não é, por definição, simples. Muita gente acredita, por exemplo, que o semba, gênero musical angolano, seria a origem do samba brasileiro.

Mas como Mauricio Barros de Castro explica na sua fala sobre a história do N’Gola Ritmos, não foi bem assim. Esse grupo se engajou na luta anti-colonial, trouxe o quimbundo de volta pra canção angolana, dominada até então pelos chamados  “assimilados”. Mas o que veio a ser o semba foi concebido pelo predecessor “Grupo dos Sambas”, orquestra angolana “inspirado justamente no samba brasileiro”. Assim, “essas culturas que consideramos nacionais são, na verdade, construídas nos movimentos de diáspora; nos movimentos de trânsito Atlântico.” Adriana Facina examina um novo capítulo dessa história do silenciamento e da criminalização das expressões culturais da diáspora africana. O Programa de Aceleração ao Crescimento (PAC) efetivou uma série de remoções em favelas com consequências negativas. Ela nos conta como no Complexo do Alemão, obras do PAC destruíram uma galeria de grafite a céu aberto, produzida pelos artistas locais e, também, por artistas de fora. Esse rebaixamento das manifestações culturais é visível em várias outras manifestações culturais populares. Segundo constato de MC Leonardo, o processo de “pacificação” das comunidades, a ação da UPP, teve como resultado acabar com a diversidade cultural: “O baile funk não está agonizando, ele já morreu e a gente precisa revitalizar”. Com isso, acabou o concurso entre funkeiros, importante para a criatividade e interação do artista com público. No momento, a “molecada” da cultura está inventando as Rodas de Rima. Mas  mesmo “para rimar no meio da rua, sem caixa de som” ainda precisa de autorização da prefeitura… Por isso Amir Haddad afirma: “Quando saio pra rua estou transgredindo, estou politicamente me opondo a esta cidade, a esta cidade que não dá espaço para criação, uma cidade sem linguagem.” Vários palestrantes da roda dos saberes nos falam assim do poder de mobilização da arte, em particular da arte pública como o grafite e o funk, ou da roda de capoeira. Acredito que o Valongo, por ser um espaço de memória tão impactante, tem a vocação de também virar um espaço privilegiado para a arte pública. O Valongo, espaço de arte pública, e como resultado disso, também espaço de utopia. Ainda nas palavras de Amir: O espetáculo de rua “passa a ser a utopia representada, […] quando se equilibram as forças públicas e as forças privadas em um espetáculo, quando se estabelece a harmonia entre o privado e o público […] Você está eternamente naquele lugar. Presente, passado, futuro é uma coisa só, no momento que você consegue esse encontro na praça com as outras pessoas”.

Isso é particularmente relevante agora que a área portuária está passando por uma mudança radical. Investimentos bilionários estão resultando numa reforma impressionante da infraestrutura além da construção de espaços para escritórios, comércio e moradia. Torres novas estão pipocando em vários lugares. O perigo é que mais uma vez passa a operar a política do silenciamento. Como lembra Wallace de Deus, a nova sede do Banco Central será edificada no local mesmo onde ficava o Lazareto dos Escravos. Vai ter algum tipo de memória em evidência no edifício novo do Banco Central?  É  verdade que foram resgatados alguns artefatos provenientes das escavações pelos arqueólogos. Um percentual do faturamento do Porto Maravilha é dedicado para a cultura, o que está abrindo uma série de oportunidades. Mas é importante também que os espaços de sociabilidade da área sejam reconstruídos ao mesmo tempo, para que a região portuária continue sua tradição, cultuando o seu milagre, a Pequena África. Como diz o Guran: “Então, o Valongo pode, no prazo de uma geração se transformar num grande centro multiplicador de cultura de matriz afro-brasileira, mas nós, a sociedade cível, temos que lutar pelo que consideramos correto.” Com as rodas de rima e de capoeira de rua em vários pontos da cidade, as sessões religiosas no Cemitério dos Pretos Novos e outras muitas iniciativas nessa área portuária que não tem espaço aqui para enumerar, isso já está acontecendo. Seria bom também mudar o nome do “Largo do Jornal do Commercio” para “Largo do Infame Comércio”, para dar mais visibilidade ao Valongo e reverter o processo de silenciamento. Por isso também a fabulosa iniciativa dos iniciadores e participantes da roda do Valongo merece todo nosso apoio.

Essas são as melhores maneiras de prestigiar os ancestrais africanos que foram desembarcados aqui: ocupar o Valongo com as rodas, os rufos dos tambores, os toques dos berimbaus – o milagre que deixaram para nós. 

Matthias Röhrig Assunção – Essex, 23 de novembro de 2014

 

Introdução

As obras de urbanização do Porto Maravilha, realizadas na Região Portuária do Rio de Janeiro, redescobriram o Cais do Valongo em 2010, após 167 anos encoberto por sucessivas ondas civilizatórias que transformaram radicalmente sua configuração original. No ano seguinte, graças ao Decreto Municipal 34.803 de 29 de novembro de 2011, o monumento passa a integrar o Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração Africana, composto por seis marcos históricos que legitimam a presença africana na região.

A partir dessas mudanças, o local se configurou como espaço urbano adequado à prática da Roda de Capoeira, evidenciado pela singularidade de ser o ponto onde funcionou o maior entreposto escravagista durante o período do tráfico Atlântico de africanos. Este fato acabou despertando a consciência, motivando o interesse e gerando a necessidade de se falar a respeito do que havia acontecido, em especial, na região conhecida a partir do inicio do século xx, como A Pequena África, um dos berços da cultura afro-brasileira no Rio de Janeiro. A Roda de Capoeira do Cais Valongo iniciou suas atividades no dia 14 de julho de 2012, treze dias após a inauguração dos monumentos do Cais do Valongo e da Imperatriz e Jardins Suspensos do Valongo. As palestras que precedem cada roda de capoeira logo ganharam nome, passando a se chamar Roda dos Saberes. Em seguida foi criada uma agenda fixa, trazendo um programa de que participaram palestrantes renomados. Esse formato atraiu a atenção do público engajado na cultura popular, da mídia, pesquisadores e acadêmicos que entraram em contato, solicitando dados relativos aos objetivos e desdobramentos da roda para pesquisas ligadas a políticas públicas e cultura popular, dentro da ótica da “arte pública” e da democratização e ocupação dos espaços urbanos.

Este livro é fruto desta roda pública, realizada a céu aberto no antigo Cais e desde seu início se propõe a pensar a cidade do Rio de Janeiro, a partir de fatos passados e atuais da sua história e de sua cultura, através do convite a pesquisadores, professores especialistas e artistas para falarem, in loco, sobre temáticas relacionadas a estas áreas do conhecimento. De 2012 para cá, contamos mais de 30 rodas naquele local e uma frequência estimada em mais de três mil visitantes, entre amantes da cultura, capoeiristas, pesquisadores, moradores da região e turistas, que visitam o Valongo nos dias de roda para assistir não apenas a capoeira angola mas, também, às atividades integradas a ela. Por isso, é importante frisar que seu maior diferencial e ineditismo consiste na dimensão da produção de conteúdos, dinamizados no contexto desta cultura imaterial, ou seja, a partir do envolvimento de especialistas nas Rodas dos Saberes como prática sistemática integrada à Roda de Capoeira. Somada a isso, outra grande inovação surgida dentro desse processo foram os registros fotográficos, realizados pela fotógrafa Maria Buzanovsky e a captação de imagem em vídeo por Guilherme Begué. Com destaque para as fotografias que impressionam pela qualidade artística e invadiram o ciberespaço através das redes sociais, além de serem expostas em museus e galerias de arte, no Rio, Niterói e Lyon, na França. Além disso, também conquistaram prêmios de fotografia importantes. As filmagens se tornaram clipes bem realizados, exibidos em sites de compartilhamento de vídeos. Ao mesmo tempo em que tudo isso acontecia, alguns grupos de capoeira angola criaram o movimento cultural Conexão Carioca de Rodas na Rua: um calendário mensal de Rodas Públicas de capoeira, com datas fixas e locais pré-estabelecidos, ocupando espaços públicos da cidade.

O Conexão Carioca, como ficou conhecido o movimento, sistematizou e ampliou algo que já acontecia na cidade há muito tempo, facilitando ao público o acesso ao conhecimento e à participação nas rodas, divulgando e ampliando as oportunidades para que os capoeiristas, também, a pratiquem publicamente. É inegável dizer que graças ao envolvimento de diversos grupos e de rodas de capoeira, integrados num movimento organizado, a Roda do Cais do Valongo ganhou visibilidade sem precedentes, assim como as outras rodas do Conexão Carioca, destacando-as no circuito cultural e nos espaços públicos da cidade. É bom notar, que após alguns meses de funcionamento dessa metodologia de trabalho, que associou o calendário do Conexão Carioca à produção e à circulação das fotos e vídeos na internet, foi gerado um impacto sobre diversas rodas pelo Brasil e pelo mundo, pois deram mais visibilidade e importância às rodas públicas de capoeira. Portanto, foi por meio dessa sequência de ideias que se criaram condições especiais para que a Roda do Cais do Valongo alcançasse notoriedade e impacto positivo, especialmente, sobre a Região do Porto. Hoje, esta ação é considerada uma das tradições culturais locais e a prova disso é que foi integrada como um dos pontos de partida do “Roteiro de Visitas Guiadas à Região Portuária”, enquanto patrimônio cultural imaterial de herança africana, uma ação patrocinada pela Concessionária Porto Novo.

É importante perceber que, nesta mesma época, houve uma aproximação maior entre os agentes culturais locais com o poder público. Este processo coletivo reuniu diversos agentes culturais, gestores e artistas independentes que realizam atividades na zona portuária, organizados em torno de um objetivo comum: a reivindicação de programas, ações e políticas públicas para a cultura da região. Foi a partir desta ação integrada que se consolidou o Condomínio Cultural da Região Portuária, que até hoje possui papel crucial no diálogo, entre os protagonistas que fazem a cultura e a arte do porto com o poder público. Em meados de 2013, a Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro (CDURP) e a Prefeitura do Rio, alinhadas às diretrizes traçadas pelo Programa Porto Maravilha Cultural, lançou o primeiro prêmio dirigido exclusivamente aos projetos para a Região Portuária do Rio de Janeiro, o “Prêmio Porto Maravilha Cultural”. A partir daí surge a oportunidade para que diversos agentes e gestores culturais que trabalham na região portuária possam transformar suas ações em projetos ou seus sonhos em realidade.

Nesse momento, a Roda do Cais do Valongo foi inscrita como projeto, com o nome O Porto Importa – Memórias do Cais do Valongo, destinado à manutenção das três ações que já aconteciam: a Roda de Capoeira do Valongo, a Roda dos Saberes e a Roda dos Fazeres (oficinas). A novidade é que incluímos três novas ações objetivando ampliar o alcance do projeto. Assim, propomos uma exposição com as fotos de Maria Buzanovsky; um vídeo documentário Memórias do Cais do Valongo e o livro Roda dos Saberes do Cais do Valongo, que agora vocês terão a oportunidade de ler.

O projeto O Porto Importa – Memórias do Cais do Valongo foi premiado entre 34 dos 206 inscritos para a seleção e, desde então, já mobilizou para o Valongo uma quantidade considerável de público durante os seis meses do projeto. Esse público é composto, basicamente, por professores e alunos da rede pública de ensino, crianças moradoras em ocupações, assim como alunos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), do Programa Estudante Convênio de Graduação de países africanos e caribenhos: Jamaica, Costa do Marfim, Benin, Congo, Haiti e Barbados, o que nos motiva e estimula ampliar as atividades que realizamos na região do porto. Esperamos que vocês, leitor e leitora deste livro, satisfaçam a forte demanda por conteúdos relativos à história do Rio de Janeiro, neste momento de aparente sensibilização da memória carioca e sejam contagiados pelo diálogo proposto entre os 13 autores, cuidadosamente selecionados, nessa cartografia afetiva de memórias que surgem a partir do Cais do Valongo.

Carlolo Alexandre Teixeira – Rio de Janeiro, 20 de novembro de 2014

 

 

Aconteceu: 18º Encontro de Professores e Mestres de Capoeira

Petrolina sedia o 18º Encontro de Professores e Mestres de Capoeira

Nesta edição, o evento teve a presença de capoeiristas de várias partes do país

A cidade de Petrolina está mais uma vez sediando o Encontro Nacional de Mestres de Capoeira. Esta é a 18ª edição do evento, que começou na sexta-feira e reuniu capoeiristas de diversas partes do Brasil e outros países. Um dos objetivos deste encontro é promover a manutenção do projeto social Ginga Capoeira, que atende crianças carentes da cidade pernambucana. 

Durante o encontro, as crianças do Ginga Capoeira participaram de um batizado e receberam as novas graduações no esporte. Além disso, aconteceram seminários, rodas de capoeira e vivências com Mestre Paulão, que veio da Holanda, Mestre Robério Ratto, de Fortaleza, e Mestre Medicina, de Muritiba-BA.

 

Por GloboEsporte.comPetrolina, PE

2 de Fevereiro é dia de Iemanjá

A Festa de Iemanjá do dia 2 de fevereiro é uma das mais populares e valorizadas festas de cariz religioso, repleta de sincretismos, Dona Janaina cativa e atrai multidões que lhe trazem oferendas dos mais diversos tipos…

Iemanjá goza de grande popularidade entre os seguidores de religiões afro-brasileiras e até por membros de religiões distintas. Em Salvador, ocorre anualmente, no dia 2 de fevereiro, a maior festa do país em homenagem à “Rainha do Mar”. A celebração envolve milhares de pessoas que, trajadas de branco, saem em procissão até o templo mor, localizado no bairro Rio Vermelho, onde depositam variedades de oferendas, tais como espelhos, bijuterias, comidas, perfumes e toda sorte de agrados. Todavia, na cidade de São Gonçalo, os festejos acontecem no dia 10 de fevereiro.

Outra festa importante dedicada a Iemanjá ocorre durante a passagem de ano no Rio de Janeiro e em todo litoral brasileiro. Milhares de pessoas comparecem e depositam no mar, oferendas para a divindade. A celebração também inclui o tradicional “banho de pipoca” e as sete ondas que os fiéis, ou até mesmo seguidores de outras religiões, pulam como forma de pedir sorte à orixá. Na umbanda, é considerada a divindade do mar.

Yemanjá, Iemanjá, Janaína, Rainha do Mar, Aiucá, Dona Janaína, Inaê ou Maria princesa do Aioká é um orixá africano cujo nome deriva da expressão ioruba Yéyé omo ejá (“Mãe cujos filhos são peixes”). É identificada no jogo do merindilogun pelos odusejibe e ossá. É representado no candomblé através do assentamento sagrado denominado igba yemanja.

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Iemanjá, rainha do mar, é também conhecida por dona Janaína, Inaê, Princesa de Aiocá e Maria, no paralelismo com a religião católica. Aiocá é o reino das terras misteriosas da felicidade e da liberdade, imagem das terras natais da África, saudades dos dias livres na floresta.

Jorge Amado

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Sincretismo

Existe um sincretismo entre as santas católicas Nossa Senhora dos Navegantes, Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora da Glória, e aorixá da Mitologia Africana Iemanjá. Em alguns momentos, inclusive em festas, as santas católicas e africanas se fundem. No Brasil, tanto Nossa Senhora dos Navegantes como Iemanjá têm sua data festiva no dia 2 de fevereiro. Costuma-se festejar o dia que lhe é dedicado, com uma grande procissão fluvial.

Uma das maiores festas ocorre em Rio Grande, no Rio Grande do Sul, devido ao sincretismo com Nossa Senhora dos Navegantes. No mesmo estado, em Pelotas a imagem de Nossa Senhora dos Navegantes vai até o Porto de Pelotas. Antes do encerramento da festividade católica acontece um dos momentos mais marcantes da festa de Nossa Senhora dos Navegantes em Pelotas, que em 2008 chegou à 77ª edição. As embarcações param e são recepcionadas por umbandistas que carregavam a imagem de Iemanjá, proporcionando um encontro ecumênicoassistido da orla por várias pessoas.

No dia 8 de dezembro, outra festa é realizada à beira mar baiana: a Festa de Nossa Senhora da Conceição da Praia. Esse dia, 8 de dezembro, é dedicado à padroeira da Bahia, Nossa Senhora da Conceição da Praia, sendo feriado municipal em Salvador. Também nesta data é realizado, na Pedra Furada, no Monte Serrat, em Salvador, o presente de Iemanjá, uma manifestação popular que tem origem na devoção dos pescadores locais à Rainha do Mar – também conhecida como Janaína.

Na capital da Paraíba, a cidade de João Pessoa, o feriado municipal consagrado a Nossa Senhora da Conceição, 8 de dezembro, é o dia de tradicional festa em homenagem a Iemanjá. Todos os anos, na Praia de Tambaú, instala-se um palco circular cercado de bandeiras e fitas azuis e brancas ao redor do qual se aglomeram fiéis oriundos de várias partes do Estado e curiosos para assistir ao desfile dos orixás e, principalmente, da homenageada. Pela praia, encontram-se buracos com velas acesas, flores e presentes. Em 2008, segundo os organizadores da festa, 100 mil pessoas compareceram ao local.

Wikipédia

 

Dois de Fevereiro

Dia dois de fevereiro
Dia de festa no mar
Eu quero ser o primeiro
A saudar Iemanjá
Dia dois de fevereiro
Dia de festa no mar
Eu quero ser o primeiro
A saudar Iemanjá
Escrevi um bilhete a ela Pedindo pra ela me ajudar
Ela então me respondeu
Que eu tivesse paciência de esperar
O presente que eu mandei pra ela
De cravos e rosas vingou
Chegou, chegou, chegou
Afinal que o dia dela chegou
Chegou, chegou, chegou
Afinal que o dia dela chegou

Dorival Caymmi

Briga por Moqueca

MARIA DOZE HOMEM E ANGÉLICA ENDIABRADA

Uma era calada, cara que não se abria pra qualquer um, jeito duro de andar e gesticular. A outra faladeira, sempre metida em algum bate-boca por causa de galinha de vizinho ou fofoca de vida alheia. Bastava começar uma discussão ou uma briga e pronto… parace que o diabo tomava conta dela!

Com Maria Doze Homem ninguém bulia não… todo mundo respeitava e ate temia. Aquela cara amarrada e aquele jeito esquisito, metia medo em qualquer que fosse. Mesmo os valentões do pedaço, nem pensavam em ousadia pros lado dela. Mas a Angélica, ah… essa era esculhambada… vivia contando piada e gargalhando pela rua. Do que vivia, ninguém sabe não, mas o seu quartinho lá no Taboão, era um entra e sai de homem de todo o tipo: marinheiro, estivador, beberão, e até  doutor.

Mas um dia… num é que a tal endiabrada resolveu se meter com a Maria, por causa de uma moqueca de arraia? É, o Zeca Pescador prometeu uma arraia, das grandes, para Angelica, mas quando chegou no cais, não encontrou a danada e vendeu o peixe foi para a Maria mesmo, que não sabia de nada e logo subiu pro Taboão pra preparar a tal moqueca. Quando Angélica chegou já era tarde e não teve duvida, foi tirar satisfação com a vizinha. O fuzuê tava armado!!!

Angélica começou a xingar Maria do lado de fora, na rua mesmo, esperando que a vizinha saísse. E o cheiro da moqueca começando a subir. Quando Maria surgiu na porta, com aquela cara enfezada, foi um Deus nos acuda, já foi partindo pra cima da Endiabrada soltando pernada e cabeçada. As duas rolavam pelo châo, e não tinha cristão que conseguisse apartar não. Chamaram até a polícia, mas foi ai que a coisa mudou de figura, porque uma coisa elas tinham em comum: num gostavam de policia não!!!

Acho que foram uns sete soldados que chegaram, todos afoitos para apartar a confusão. Quando as duas perceberam a presença dos milicos, saíram distribuindo sopapo e pontapé pra todo lado. Era cada cabeçada e cotovelada que desnorteava os coitados, que ficavam sem poder nem reagir. Foi quando Maria 12 Homem tirou a navalha, escondida dentro do cabelo. Então começou a cortar quem tava pela frente. A confusão se armou de vez, e até o povo que assistia se meteu na briga, pois sempre tem um valentão querendo tirar suas casquinhas em briga com polícia. Foi o suficiente pras duas escaparem, correndo juntas pros lados da Barroquinha. Dizem que depois desse dia, as duas não se largavam mais, andando sempre juntas, pra baixo e pra cima, comprando peixe e fazendo moqueca. *

 

* Nota: Texto construído a partir de informações contidas nos livros “No tempo dos valentões: os capoeiras na cidade da Bahia” de Josivaldo Pires de Oliveira (2005, p.78) e “ A capoeira na Bahia de todos os santos” de Antonio Leberaque C.S. Pires (2004, p.113)

 

Fonte: Mestres e Capoeiras famosos da Bahia de Pedro Abib – 2009

 

** Sugestão e colaboração: Nélia Azevedo e Luciano Milani

A mulher na capoeira

Lendo o livro “Mestres e Capoeiras Famosos da Bahia” do meu amigo e colaborador do Portal Capoeira, Pedro Abib, decidi que iria escrever algo específico sobre Maria Doze Homen, o que realmente não sabia era que esta leitura iria me levar para uma pesquisa mais aprofundada que acabou por me levar por um mar de informações sobre esta Mulher que ninguém bulia… no decorrer da pesquisa me deparei com este delicioso texto da Professora Criança… Tive o cuidado de anexar o documento original que contém belissímas ilustrações. Fica ainda a promessa de muito em breve brindar os nossos leitores com mais material sobre Maria Doze Homem.

Luciano Milani

 

A mulher na capoeira

Algumas das grandes referências femininas de força, garra, coragem e segurança retratadas na história remetem-nos à década de 1940, quando se destacaram as famosas “Maria 12 Homens”, “Calça Rala”, “Satanás”, “Nega Didi” e “Maria Pára o Bonde”, mulheres que se fizeram passar por homens para poderem conviver no meio da malandragem das rodas da capoeira.

Personagens lendárias como Rosa Palmeirão, a capoeirista que serviu de inspiração para Jorge Amado no romance Mar Morto, é também um desses exemplos. Respeitada e temida como a mulher mais “arretada” que sacudiu o cenário dominado pelas figuras masculinas, era Maria 12 Homens, uma capoeirista, assídua freqüentadora das rodas do Cais Dourado e da rampa do Mercado Modelo. O sobrenome de Maria, não está registrado na memória de Salvador, mas o apelido, segundo a lenda, foi pelo fato de ter conseguido levar 12 marmanjos a nocaute. Acima de tudo, essas mulheres fizeram o nome na história e buscaram seu espaço com muita astúcia e malícia. Em busca de liberdade, conseguiram sair vitoriosas, deixando seu registro para a posteridade.

Há vários mitos em torno de mulheres que fizeram de sua honra uma batalha de vida, tornando-se modelos de coragem e de determinação. Conta-se, por exemplo, que Aqualtune, filha do rei do Congo, comandou um grande exército de dez mil homens quando os Jagas invadiram seu território. Após tentar defender o reinado, acabou sendo derrotada e levada para um navio negreiro como escrava reprodutora. Foi obrigada a ter relações sexuais com um escravo, desembarcando em Recife grávida. No fim de sua gravidez, organizou uma fuga com outros escravos para Palmares.

Atualmente, as mulheres, símbolo de vitória e orgulho, vêm alcançando, cada vez mais, posições de destaque na política e no mercado, com melhores funções e diversos cargos importantes. Também no esporte, a mulher tem conquistado muitas medalhas, troféus e títulos. Na capoeira, como não poderia deixar de ser, a participação feminina tem sido cada vez mais freqüente, ajudando a fortalecer a modalidade. Ela toca, canta, joga, ministra aulas e participa de debates com muitos dos renomados mestres da arte. Maria 12 Homens, Calça Rala, Satanás, Nega Didi, Maria Pára o Bonde e Rosa Palmeirão, onde quer que estejam, têm muitos motivos para se ufanarem.

 

 

* Lilia Benvenuti de Menezes. Professora de Educação Física, professora do Grupo Muzenza e bicampeã mundial pela Super Liga Brasileira de Capoeira. Autora do livro “Benefícios Psico-fisiológicos da Capoeira”.