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Maio 2015

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Mestre Dinho Nascimento & Orquestra de Berimbaus do Morro do Querosene

O berimbau é um instrumento de resistência cultural que atravessou o Atlântico e, no Brasil, tornou-se símbolo de luta pela liberdade.

A Orquestra de Berimbaus do Morro do Querosene, formada por capoeiristas, músicos e pessoas da comunidade da Vila Pirajuçara, Butantã, São Paulo, é modelo de inclusão social e sustentabilidade que valoriza a capoeira enquanto manifestação e patrimônio cultural brasileiro. Contar com mestres, contramestres e professores de capoeira, caracteriza interpretação própria e singular de ritmos brasileiros como o samba de roda, ijexá, congo-de-ouro, barravento, além de ladainhas, chulas e corridos, tudo com arranjos arrojados e inéditos de Mestre Dinho Nascimento.

Os berimbaus são cuidadosamente afinados e agrupados em naipes: berimbau gunga ou berra-boi (som grave), de centro (som médio) e o viola ou violinha (som mais agudo). O “Berimbum”, com som super-grave, é tocado com arco de violoncelo. E o “Berimbau de lata” também tocado com arco, mais parece uma rabeca.

Vozes entoam os versos das ladainhas, corridos e canções. Alguns instrumentos como o guimbarde ou trump (berimbau de boca), agogô, pandeiro, reco-reco, ganzá, triângulo, atabaque, matraca, efeitos diversos e palmas completam a sonoridade.

A orquestra mostra a versatilidade do berimbau como instrumento musical, já que no seu repertório encontramos tanto toques da capoeira quanto outros gêneros da música brasileira.

 

Orquestra de Berimbaus do Morro do Querosene

 

A idéia de uma Orquestra de Berimbaus surgiu nos encontros informais que aconteciam na pracinha do morro, ao cair das tardes de domingo, quando Dinho Nascimento e alguns amigos se reuniam para tocar, jogar capoeira e passar seus ensinamentos aos mais jovens e outros recém-chegados.

Em 2000, Dinho Nascimento dirigiu a Orquestra de Berimbaus do Espetáculo Étnico apresentado aos presidentes dos países participantes da XIX Reunião do Conselho do Mercado Comum do Mercosul, realizado em Florianópolis (SC).

No 452º aniversário de São Paulo (em 2006), a Orquestra de Berimbaus foi regida por Aluá Nascimento, músico percussionista popular e erudito que também fez os arranjos e a escolha do repertório das apre.sentações no Parque D. Pedro e na Praça do Patriarca, centro da cidade.

Em 2007 a idéia ressurgiu nos cursos oferecidos pelo Projeto Treme Terra (Morro do Querosene) e a Orquestra de Berimbaus tocou nas Oficinas de Percussão do PercPan 2007, festival internacional de percussão.

Em fins de 2007 consolidou-se a formação atual. A Orquestra de Berimbaus do Morro do Querosene foi convidada a participar de um evento da Prefeitura de Santo André (SP). Pouco antes desta apresentação, em 01/11/2007, estreou no CEU Butantã, teatro da Prefeitura de São Paulo. Deste momento em diante, as apresentações se sucederam: SESC-SP (Ipiranga, Campinas, Bauru, Vila Mariana, Interlagos e Taubaté); Festival da Juventude (no Memorial da América Latina); Off-FLIP (Paralela à Feira de Literatura Internacional de Paraty – RJ) quando tocou na histórica Igreja de N.S. Rosário e de S. Benedito; na Virada Cultural 2008, tocando no Largo do Paissandu; na marquise do MAM (Rio de Janeiro-RJ) e no Pepsi-on-Stage (Porto Alegre-RS), participando do evento C&A Pop Music; na Casa de Cultura do Butantã (na Semana da Consciência Negra); pelo Pro-Art, em vários CEUs (Centro de Educação Unificado do Município de São Paulo); na Virada Cultural Paulista 2009, apresentando-se na cidade de São José do Rio Preto; na Casa de Cultura Tainã, Ponto de Cultura em Campinas; em Academias de .Capoeira e nas festividades do Bumba Meu Boi, no Morro do Querosene.

Em dezembro de 2009, a Orquestra de Berimbaus do Morro do Querosene foi contemplada com o título “Ponto de Cultura” do Programa Mais Cultura, uma iniciativa do Ministério da Cultura em parceira com a Secretaria Estadual da Cultura.

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Quase que simultaneamente, a Orquestra foi selecionada pelo Programa de Ação Cultural da Secretaria Estadual da Cultura, ProAC nº18, incentivo para gravação de disco inédito, o que propiciou a gravação deste seu primeiro CD, “Sinfonia de Arame”.

Em janeiro/2010, a Orquestra apresentou-se no Centro Cultural da Marinha, participando de um evento de intercâmbio cultural com estudantes vindos de Dubai (Emirados Árabes). E em março, esteve em Fortaleza onde se apresentou no Centro Cultural Dragão do Mar, por ocasião da TEIA Brasil 2010, E em setembro, participou do Mutatis, evento realizado pela FUNARTE/SP para reflexões sobre a população em situação de rua.

Em 31/outubro/2010, a Orquestra lançou seu primeiro CD, “Sinfonia de Arame”, no Auditório Ibirapuera. Neste show de lançamento, participaram: Cecília Pellegrini, João Nascimento, Gabriel Nascimento, Bico-Duro, Fábio Salém, Gilvan Capoeira, Décio Sá, Paulinho Baraúna, Jorge Fofão, Droca, Djavan, Fernando Soares e Paulo Pixu. Participações especiais: Nasi, Orquestra de Tambores de Aço (Casa de Cultura Tainã), Quarteto Pererê (Kiko, Tchelo, Edin.ho e Alessandro) e Tião Carvalho. Na projeção de imagens,Leila Monsegur. Na assessoria técnica de som, Beto Mendonça. Na assistência de produção: Vani Fátima, Roberta Smith, Lourival Miranda e André Miguel de Jesus.

2011 foi um ano de grandes mudanças que culminou com a atual formação da Orquestra: Bico-Duro, Cecília Pellegrini, Creusa, Fábio Salém, Filipe Soares, Gabriel Nascimento, João Nascimento, Jorge Fofão, Klaus, Laura, Madrugada e Rubens Rossin.

Destacamos: em 19/março/2011, Ensaio Aberto no Parque da Previdência; 10/abril, apresentação na ManiFestAção em Defesa da Fonte, no Morro do Querosene; 28/abril, apresentação no Abril Mais Cultura, no C.C. Vladimir Herzog, Diadema; 14/maio, na Virada Cultural Paulista, Sorocaba; 21/maio, Ensaio Aberto na Casa do Hip Hop, Diadema, no projeto Cículo de Trocas do programa Interações Estéticas; 11/junho, na Fundação Ema Klabin; 30/julho, Oficina Construção de Berimbaus; 19/agosto, apresentação no Teatro Municipal de São Sebastião; 12/outubro, na Rua da Fonte, na abertura para o espetáculo teatral “Peabiru, o caminho suave”; 22/outubro, III Entoada Nordestina, em São Caetano do Sul; e, pelo Pro-Art, programa da Secretaria Municipal de Educação do Município de São Paulo, apresentou-se em diversos CEUs (Centro de Educação U.nificado).

Grupo Nzinga São Paulo Comemora 12 Anos

Fazendo parte das comemorações de 20 anos do nosso grupo, nosso núcleo da zona norte de São Paulo também comemora o aniversário de 12 anos.

“Grupo Nzinga de Capoeira Angola atua na preservação, no cultivo e na divulgação da capoeira e das heranças culturais de tradição Bantu”

Presenças dos Mestres fundadores do Grupo Nzinga e também amigos e convidados do estado de São Paulo.
 
Movimentações, musicalidade, conversas, alegria, trocas de informações e conhecimentos.

Esperamos por vocês,
 
Grupo Nzinga de Capoeira Angola / São Paulo

 

Grupo Nzinga de Capoeira Angola

 

O Grupo Nzinga de Capoeira Angola nasceu em 1995, quando Rosângela Araújo – hoje conhecida como Mestra Janja – passou a residir em São Paulo, em função da elaboração de suas teses de mestrado e doutorado na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, na área temática de Filosofia e Educação. Ela vinha de 15 anos de trajetória dentro do Grupo de Capoeira Angola Pelourinho-GCAP, em Salvador, trabalho conduzido pelo Mestre Moraes, que é uma referência no crescimento e divulgação da Capoeira Angola, no Brasil e no mundo. Durante os anos noventa, vieram unir-se ao Grupo Nzinga: Paula Barreto – hoje Mestra Paulinha – que esteve em São Paulo durante seu doutorado no Departamento de Sociologia da USP, e Paulo Barreto (Mestre Poloca), geógrafo e arte-educador, que participavam do GCAP em Salvador desde sua fundação, e onde Poloca já tinha o título de Contramestre. Na Bahia, Janja, Paulinha e Poloca, conviveram com alguns dos mestres mais importantes e renomados da Capoeira Angola, como Mestre João Grande e Mestre Cobra Mansa.

O Grupo Nzinga volta-se para a preservação dos valores e fundamentos da Capoeira Angola, segundo a linhagem do seu maior expoente: Mestre Pastinha (Vicente Ferreira Pastinha, 1889-1981). A Capoeira Angola é pautada por elementos como Oralidade, Comunidade, Brincadeira, Jogo, Espiritualidade e Ancestralidade. Toda a sua prática carrega em si significados e simbologias para o crescimento e transformação do indivíduo. Em seu ritual, todos participam e cada um é fundamental e único. Entre os princípios fundamentais dessa tradição estão a luta contra a opressão, a defesa de uma Cultura de Paz, a preservação dos valores que herdamos da diáspora africana, o cuidado com as crianças e jovens, principalmente através da cultura e da educação. Daí destacam-se o enfrentamento do racismo e a luta contra a discriminação de gênero. O antirracismo está na própria natureza da Capoeira Angola, que assumiu esse nome como estratégia para se diferenciar da folclorização e da esportização sofrida pela capoeira quando ela foi legalizada e usada como discurso do Estado Novo para divulgar uma pretensa democracia racial no Brasil. Os angoleiros, como são chamados, não aceitaram a descaracterização promovida pela transformação da capoeira apenas em Educação Física, que desprezava fundamentos da convivência e da educação afrobrasileiros mantidos por séculos nas comunidades de capoeiristas. Quanto à luta contra discriminação de gênero, o Nzinga muito se traduz através da liderança de Mestras Janja e Paulinha. Apesar da existência de mulheres capoeiristas históricas, sua trajetória se destaca num mundo eminentemente masculino e machista como o da capoeira.

Nos anos noventa, o Grupo Nzinga acumulou uma série de feitos nas áreas da cultura e da educação, destacam-se as Maratonas Culturais Afro-Brasileiras, que foram discussões, oficinas, celebração e Capoeira Angola, com público diversificado, incluindo movimento Hip-Hop, ONGs e educadores. Os integrantes do grupo foram incentivados a elaborar Pesquisas Acadêmicas: produção de papers, monografias, dissertações e teses como forma de intensificar e informar o diálogo entre a cultura tradicional e a academia. Desenvolveram-se atividades em conjunto com entidades das mulheres negras, centros culturais, escolas e outras entidades congêneres.

Nessa década de 2000, outras novas conquistas: as Oficinas no Fórum Social Mundial, com participação especial no “Forumzinho”, divulgando a Capoeira Angola para crianças de todo o mundo. O lançamento do CD Nzinga Capoeira Angola, a produção de um Clip (seguem anexos) e do vídeo IÊ, Viva meu mestre. O lançamento da Revista Toques d’Angola, um domínio na internet, o sitewww.nzinga.org.br, e a inauguração de novos núcleos de trabalhos do grupo.

Entre os anos de 2001 e 2002, surgiram os núcleos do grupo em Salvador, conduzido por Mestre Poloca, e Brasília, já com número significativo de membros. Ainda em 2001 nasceu o INCAB – Instituto Nzinga de Estudos da Capoeira Angola e de Tradições Educativas Banto no Brasil. Este instituto é a representação jurídica do grupo, além de uma ampliação efetiva no leque de atuação do Nzinga. Desde sua fundação o grupo tinha sido abrigado por entidades parceiras, como o Instituto de Psicologia da USP e o Centro Cultural Elenko, mas em abril de 2003, inaugurou-se a sede do INCAB no Jardim Colombo, Zona Oeste de São Paulo. Nessa comunidade, que é um dos bairros com pior Índice de Desenvolvimento Humano da capital, uma favela menos vistosa que a vizinha Paraisópolis, o Grupo Nzinga traduziu sua vocação ativista organizando ações de complementação pedagógica para crianças da comunidade e oferecendo gratuitamente aulas de Capoeira Angola e Culturas Populares para as crianças e adolescentes do bairro dentro do Projeto Ginga Muleke. No Projeto Kakurukaju, grupos da terceira idade participavam de atividades de conscientização corporal, Capoeira Angola e debates sobre negritude.

Em setembro de 2004, Mestra Janja recebeu a homenagem de Cidadã Paulistana, da Câmara de Vereadores de São Paulo, por sua marcante atuação na preservação e luta dos valores da comunidade negra do país.

2005 foi o ano da internacionalização do trabalho do Grupo Nzinga, com a inauguração dos núcleos em Marburg, na Alemanha, e na Cidade do México; atualmente com núcleos também em Maputo – Moçambique e Londres, e um terceiro núcleo em São Paulo, que funciona na zona norte da cidade, no bairro do Tucuruvi.

Voltando a residir em Salvador, Mestra Janja assumiu a coordenação do Departamneto de Mulheres da Secretaria de Promoção da Igualdade do Estado da Bahia – SEPROMI e depois o cargo de professora titular no Departamento de Educação da Universidade Federal da Bahia. Mestra Paulinha dirige o Centro de Estudos Afro Orientais de Salvador – CEAO –  da UFBA,  e Mestre Poloca desenvolve já cinco anos atividades de resgate de lendas e contos africanos com crianças de escolas da rede pública de Salvador. Em São Paulo e nos outros núcleos, o trabalho foi assumido pelos chamados na tradição de treinéis, integrantes mais antigos, responsáveis pela condução das atividades do grupo.

Em 2008, o Instituto Nzinga decidiu mudar sua sede para a região do Largo da Batata, em Pinheiros. Ao se reestabelecer nesse bairro, onde o Nzinga foi sediado por vários anos, um núcleo de atividades passou a funcionar nas instalações do Projeto Viver, no Jardim Colombo, garantindo a continuidade dos trabalhos no bairro.

Os angoleiros e angoleiras do Nzinga são, na sua maioria, pessoas da comunidade, jovens estudantes, universitários, músicos, artistas, professores, trabalhadores…, reunidos numa diversidade de três gerações, no mínimo. Acima de tudo, o Grupo Nzinga é  constituído de pessoas que se conhecem, se gostam, gostam do que fazem e, principalmente, gostam e acreditam em fazer juntos.

Programação

 

Capítulo 9 – Toninho Ventania

 

CAPOEIRISTAS

PULP FICTION TROPICAL

 

Nestor Capoeira

capítulo 9

 

Finalzinho do capítulo 8 

Zequinha foi até o pé-do-berimbau; Noivo seguiu-o; e Zequinha, sem se benzer nem cumprimentar o estranho, deu um aú e um sensacional salto-mortal aterrisando no meio da roda onde começou a gingar com competência e confiança.

Fim do capítulo 8

 

capítulo 9

 

TONINHO VENTANIA

 

 

A GORDINHA COM ASCENDENTE EM AQUARIUS

Tinha esta gordinha, bem mais moça que a geração das minhas balzacas – chamava-se Leticia Efigenia Fulustreca de Tal. O pai era um médico cirurgião famoso, a mãe era dona de uma loja de moveis finos e tapetes orientais; tinham tambem uma fazenda de gado – herança de família -; gente de posição mas sem ser milionário.

Era bonitinha, mas sempre tinha sido gorda numa cidade onde faltava homem e sobrava mulher. Entrou numa de estudar, os pais bancaram: administração de empresas, mestrado em São Paulo, etc e tal.

Eu conheci a Leticia na festa de aniversário do dono de uma das duas boatezinhas chiques e avançadas de Belô, a Toy Toy.

A casa estava abarrotada de minas e de casaizinhos love story dançando; os poucos homens livres se agrupavam, bebendo, falando da bolsa de Wall Street e de futebol. Eu me acabava na pista de dança junto a minha balzaca número um – Lucia -, uma cavalona tipo italiana, 42 de idade, que dominava os circuitos sociais da alta alternativa.

“Meu amor”, falou Lucia, “vou ter de sair mais cedo, amanhã tenho um business meeting as nove horas. Detesto te deixar sozinho no meio dessas vadias”.

Lucia era a única que saia comigo abertamente. Eu, se estava com uma mulher, não ficava galinhando, nem dando mole pra concorrência que ficava mandando olhares calientes, beijinhos, e até bilhetinhos pelo garçon – eu valorisava as minhas minas.

“Sem problemas, meu amor”, eu ronronei no ouvidinho dela, “amanhã vou na piscina do Fulaninho, podemos nos encontrar lá as duas da tarde”. O amanhã era um sábado.

Aí a Lucia viu a Letícia que estava dançando num grupo de tres outras moças, perto de nós.

“Letícia! Letícia! Vem cá!”

A gordinha, que tambem era altona, chegou cheia de animação alcoólica fazendo umas coreôs tipo Saturday Night Fever – acho, até, que a música era aquela do filme.

“Letícia, esse é o Antonio”, a Lucia nunca me chamava de Toninho, “tenho de ir embora e não quero deixá-lo sozinho e abandonado. Sera que você tomava conta dele para mim?”

Dançamos de montão, as amigas dela se achegaram, foi a maior onda.

No fim da noite ficamos batendo papo na mesa do aniversariante até as 10 da manhã. Ela imaginou que eu fosse mais um retardado mental e começou com uns papo tati-bi-tati dela ter ascendente em Aquarius; mas logo depois da segunda vez que o baseado rodou na nossa mão, trocamos altas ideias.

Na sequência nos encontramos várias vezes, ainda mais pela Lucia ser amiga dela e saber que não havia perigo com a Gordinha; ela não era, nem de longe, concorrência.

 

TOY TOY

Uma ou duas semanas depois, estava sozinho dançando no Toy Toy – na real, as noturnas boas eram o Toy Toy ou o Hanoy – e encontrei a Leticia Gordinha.

“Estou  cançada de ser gorda”.

“Agora que você falou, reparei que voce deu uma emagrecida legal”

“Você notou?”

“Claro? Quantos quilos você perdeu? Três? Quatro?”

”Na verdade, foram seis.”

“Seis?”

“Seis. Eu estava muito gorda, por isto não dá pra notar”.

“Parabens. Dou o maior valor. É muito difícil a gente dizer ‘não’ pras vontades. Tá sendo muito difícil?”

“Até que não. Fui no dr. Alberto; ele é muito conhecido aqui em  Belô; tem um método que une umas pilulas que você toma três vezes ao dia, com dieta.”

“Tres vezes ao dia? Sei…”, bem que eu tinha notado que Leticia, alem de emagrecer, estava mais acelerada que de costume. Tava ligadona de anfeta sem nem saber disso.

“É, três vezes. Já vai fazer um mes”.

“Tou vendo que está funcionando. Voce esta muito bem”.

“Obrigado. Mas, imagina; nem estou seguindo a dieta. Não preciso. Não tenho fome nenhuma.”

“É mesmo?”

“É. E ando com uma disposição danada. Trabalho 11 horas por dia, caio na balada, durmo pouco, e estou sempre cheia de disposição. Fechei tantos contratos no mes passado que vou  ser promovida”.

“Que bom, as pílulas estão funcionando de verdade”.

“E junto com as pílulas, tem uma dieta preparada pela nutricionista. É uma dieta que varia de acordo com o perfil de cada paciente”.

“Haute couture, nada de pret-a-porter. Deve custar uma grana.”

Leticia riu. “Pret-a-porter! Você é engraçado! Sempro me esqueço que você morou na França e destrói no francês. Só me lembro de você jogando capoeira…”, aí ela enrubesceu, “lá na Praça da Liberdade”.

 

Eu soube, naquele momento que, alem de estar ligadona – nos 1960s e 70s, os médicos receitavam pílula da pesada para tudo; ninguem considerava a pilula do dr. como “droga” -, ela tambem estava doida pra me dar. É uma coisa curiosa. mas uma mina que nunca te deu muita bola, quando pela primeira vez te ve jogando, muita vezes gama.

Sério.

Paixonite mesmo.

Eu guardei a informação num escaninho na Torre de Pensamento.

Eu tinha minhas quatro balzacas que me davam vida mole mas  nunca se sabe o dia de amanhã. O futuro a Deus pertence. A verdade é que a Gordinha tinha um puto emprego, a família tinha grana, e alem de tudo era uma moça cem por cento legal; contra fatos, não há argumentos.

 

Pois nessa mesma noite que rolou esse papo abobrinha, um playboy local entrou numa comigo.

“Rebola, neguinha; mexe esse cuzinho”, dizia o mané olhando pra mim enquanto eu  dançava na pista com a Leticia e mais umas duas amigas delas.

Eu fingia que não ouvia; o cara já estava meio bebum, e eu não era otário de me meter em confusão, logo ali, na Toy Toy, minha área de caça e playground da jeunesse doreé.

 

TIROTEIO

Mas inesperadamente o babaca pulou na minha frente, fez uns movimentos made in Hong Kong tipo Bruce Lee com os braços, e mandou um socão direto. Eu estava distraído e por pouco o cara não me arrebenta a boca.

Desviei no susto e, sem pensar, enfiei-lhe uma cabeçada no meio dos cornes.

Ele saiu cambaleando tipo marcha ré; se estatelou no chão; levantou e saiu da buate.

Foi um lance tão rápido e inesperado que não houve nem comoção. Pouca gente sacou que ele tinha levado uma porrada; pensaram que ele tinha caído de bêbado.

Eu continuei a dançar com as três minas como se nada tivesse acontecido. Elas, por sua vez, não  entenderam nada; mas vendo que eu continuava na boa de antes, reataram a dancinha – elas eram umas gracinhas, gentís e tudo o mais; mas ligeiramente retardadas. E aquele lance – acontecer alguma coisa extraordinária, mas as pessoas fingirem que não tinha rolado nada -, aquilo era bem típico da high society de Belô, e as minas tinham sido educadas naquela escola desde nenem.

Eu continuei a dançar aparentemente descontraído mas fiquei numa posição que podia ver a porta de entrada. Todo mundo sabe: quem bate esquece, quem apanha, lembra; e eu é que não ia marcar nenhuma bobeira básica.

Não deu outra.

O babaca entrou numa, pegou um revólver que sempre levava no carrão importado, e voltou a boate já lascando o dedo.

Eu vi ele entrar porta adentro todo agitado e levantar o braço com o  revólver na mão. Quase que não acreditei. Mas me abaixei desaparecendo no meio da rapaziada que  dançava ao meu redor.

O play me errou e acertou a Leticia na clavícula.

Uma gritaria danada; e eu, abaixadinho, saí pelo lado da pista, contornei algumas mesas me desviando das pessoas que se levantavam alvoroçadas; e me mandei.

Foi um tititi da porra, saiu no jornal e o  caralho.

O cara disse na polícia que eu  era traficante e tinha querido vender maconha pra ele. Mas ele não sabia meu nome. Ninguem sabia, eu era apenas o “Toninho”.

Leticia e as amigas, mineiras espertas, disseram não saber de nada; estavam na pista dançando quando ouviram o tiro, e viram a Leticia berrar de dor.

E  eu, que já estava em Belô dando um tempo do Rio, ao ler as manchetes do jornal na manhã seguinte, saquei que tinha de sartar fora. Peguei meu berimbau na sua capa de couro, e uma maleta com tres pisantes invocados e algumas altas becas que as minas estavam sempre me presenteando, fui ate a rodoviária e embarquei para São Paulo.

 

 

OS ENTENDIDOS EM MANDINGA

 

Como vemos, Toninho Ventania estava se tornando um malandro bem falante e elegante.

Não se enganem, não é uma tarefa fácil.

Malandro tem de ter excepcionalidade ou então, para sobreviver, acaba virando esperto, golpista, descuidista, 171, escroque, cafetão, e até entra pra turma da pesada e vai assaltar banco.

Ou então, mesmo se não tiver um talento excepcional numa determinada área, talvez o malandreco tenha sorte, ou padrinho – quem tem padrinho não morre pagão.

Arranja um emprego de escrevente no Jogo do Bicho; escriturário ou fiscal nas docas – essa é uma boa, dá pra participar de uns contrabandozinhos com um risco mínimo -; chofer numa repartição pública – o falecido Camisa Preta, contramestre do Roque Cachaça no morro do Pavão  e Pavãozinho em Copacabana em 1970, era chofer da Comlurb, a companhia da limpeza pública no  Rio de Janeiro.

Mas não era o caso  de Toninho Ventania.

O cara era uma fera na capoeira, um craque nos instrumentos musicais de percussão – berimbau, atabaque, e mandava bem em qualquer peça da bateria de Escola de Samba -, dançava pra caralho, era alto e boa pinta, cantava bem, entendia de sexo e mulher, e era bom de porrada – diziam, nas internas, que era um perigo com a navalha.

Para um cara classe média, Toninho seria algo inimaginável, quase um super-herói. Mas vários capoeiristas tambem desenvolvem estes prestígios. É como um engenheiro bonitão que conhece e domina o Cálculo Integral, Cálculo Diferencial, Cálculo Vetorial, Geometria Descritiva, etc. e tal.

O mais importante, o que tornava Toninho realmente excepcional, era sua cabeça. Ele era um malandro jovem, mas muito inteligente; entendia como as pessoas funcionavam, e o que as movia; analisava uma determinada e surpreendente situação em fração de segundo; e até Sorte o sacana tinha.

Mas este tipo de cara fora-de-série não é uma novidade no mundo da malandragem, da capoeira, e do samba.

Na verdade, estas atividades só conseguiram  sobreviver às duras perseguições policiais – que se tornaram mais agudas e estruturadas com a chegada de D. João VI e a criação da Guarda Real em 1806 -, devido a este tipo de personagem fora-de-série que aparecia, de tempos em tempos, às vezes até em magote.

Evidentemente, isto não acontece só nas classes desfavorecidas e nas suas expressões culturais. Pense naqueles caras que pintaram na MPB por volta de 1960: Vinicius de Moraes, Dorival Caymi, Tom Jobim, Chico Buarque; é uma turma de playboy cabeção.

 

A “CONSTRUÇÃO” DA CAPOEIRA

A “construção” da malícia – a “filosofia” e ética da capoeira -, e da própria capoeira, com seu gestual e golpes, começa, então,  no Rio de Janeiro com os pequenos grupos de escravos africanos ladinos, aqueles já adaptados ao Brasil (em oposição ao boçal recem chegado da Africa).

Depois as maltas absorveram os crioulos (negros nascidos no Brasil), os mulatos, os engajados e fadistas portugueses; e marinheiros desertores de todas as nacionalidades.

Na década de 1860 já temos notícias de caras excepcionais na capoeira; tanto das classes populares, como Manduca da Praia; como tambem playboys ricos, pertencentes à aristocracia; e até mesmo de “heróis” do Exército Brasileiro, a partir de 1965 e da Guerra do Paraguai. Estas figuras participaram deste processo, geração após geração, até chegarmos aos nossos dias.

 

 

O GUIA DA CAPOEIRA

Tanto foi assim que, mais tarde, em 1907 – como nos ensinou mestre Jair “Perigo” Moura -, quando a capoeira já era proibida por lei pela primeira constituição da República; surge dentro do próprio exército um “manual de capoeiragem”, O Guia da Capoeira ou Ginástica Brasileira, escrito por um “distincto official do exército brazileiro, mestre em todas as armas, proffessor de militares e habilissino na gymnastica deffensiva ou verdadeira arte do capoeira”, “ilustrado e destinado ao manuseio, ao uso, dos seus companheiros de farda”.

O libtreto – “Tendo-se esgotado, com rapidez, a primeira edição desta obrinha…” – abrangia cinco partes, que focalizam:

 I) – Posições;

II) – Negaças;

III) – Pancadas simples;

IV) – Defesas relativas;

V) – Pancadas afiançadas”.

 

 “Obviamente sinto-me afeiçoado ao ‘distincto oficial habilissino na gymnastica deffensiva’ que escreveu este primeiro manual prático, muito semelhante às partes de ‘treinamentos’ dos meus próprios livrinhos”; comentou Nestor Capoeira recentemente num Simpósio de escritores e estudiosos no sul da Bahia, organisado pelo prof. Antonio Liberac. “É no mínimo curioso”, prosseguiu Nestor, “que uma prática proibida por lei tenha encontrado guarida dentro  do próprio Exército Brasileiro”.

 

O AVÔ DO AUTOR

A prática (proibida) da capoeiragem, nas forças armadas, foi se tornando tão popular que o general Nestor Sezefredo dos Passos, Ministro da Guerra do presidente Washington Luis e autor de um projeto de lei para a Educação Física Brasileira, era um conhecido praticante de capoeira.

Em 1921, quando Nestor era um coronel de 49 anos de idade e comandava o Regimento Sampaio (RJ); o tenente Buys de Barros, de 22 anos, invadiu a sala do coronel Nestor, pistola numa mão e fuzil na outra, anunciando que estava tomando o Regimento junto com outros jovens oficiais; era mais um levante militar característico da época.

Nestor Sezefredo colocou seu cinto com coldre e revólver em cima da mesa, levantou-se, e delicadamente perguntou ao tenente os motivos da rebelião. O jovem tenente empolgou-se com a teoria e descuidou-se das armas em riste.  O general foi se aproximando pensativo e, súbito, aplicou uma violenta e traiçoeira rasteira na mais perfeita tradição capoeirista, jogando pro alto o tenente, o revóver, o fuzil, e a ideologia. E em poucos minutos reassumiu o controle do Regimento Sampaio.

O “Nestor”, nome do general, e também do autor deste livrinho, não é mera coincidência: Nestor Sezefredo foi o avô paterno do atual Nestor Capoeira.

 

O GUERREIRO BRASILEIRO

O mito do “guerreiro (capoeirista) brasileiro” se manteve durante décadas entre determinados círculos de oficiais e praças das Forças Armadas.

Por exemplo, em 1968, o jovem capoeirista Dick Fersen só conseguiu organizar o 1º Simpósio Nacional de Capoeira devido ao apoio que teve da Força Aérea Brasileira, que forneceu as passagens de avião para os mestres de outros estados, arrumou alojamento para mais de 50 participantes, e cedeu o auditório na Base Aérea do Campos dos Afonsos.

Não parece muita coisa hoje, em pleno século XXI; mas em 1968 foi uma coisa extraordinária. Pela primeira vez, professores e mestres de diferentes estados se reuniam no mesmo local; inclusive com a presença de mestre Bimba, na época com 68 anos.

A ideia era criar uma única nomenclatura dos golpes, um único uniforme para os alunos, uma única graduação. Enfim: o retorno da ideia de criar uma Luta Nacional, semelhante ao Japão com o Judo e o Karate.

Nada disso rolou. Os pontos-de-vista divergiam etc. e tal. Muitos consideraram o Simpósio um fracasso total. Mas Nestor Capoeira, que esteve lá, afirmava que “aquilo pirou o cabeção da rapaziada; saimos de lá fortificados, e com mais certeza que a Capoeira iria vencer no futuro, à médio prazo”.

Este curioso e inusitado apoio a uma atividade cultural muito discriminada em 1968 – “coisa de malndro, coisa de negro” -, em plena ditadura militar – 1964-1984 -, deve ter acontecido devido ao fascínio de algum velho coronel ou brigadeiro pelo mito do “guerreiro brasileiro”.

 

A GUERRA DO PARAGUAI

Em 1865, o Brasil, a Argentina e o Uruguai entraram em guerra com o Paraguai e seu caudillo mestiço, Solano López.

Dizem que a Inglaterra, que era a fodona da época, agenciou a Triplice Aliança contra o Paraguai; o Paraguai estava na contra-mão da política e economia inglesas – um lance parecido com o que rolou nos 1960s, com os Estados Unidos bloqueando economicamente Cuba.

O exército brasileiro formou batalhões de capoeiras; muitos foram agarrados à força nas ruas do Rio. No entanto, estes marginais revelaram-se combatentes tão admiráveis que, aos poucos, foi se formando, no exército, o mito do capoeira ser o “guerreiro brasileiro”.

O mito, no entanto, não é sem fundamento: os capoeiras do Batalhão de Zuavos, especialistas em tomar as trincheiras inimigas na base da arma branca, fizeram misérias na Guerra do Paraguai (1865-1870).

Destacam-se dois capoeiras nos combates corpo-a-corpo: o alferes Cezario Alves da Costa – posteriormente condecorado com o hábito da Ordem do Cruzeiro pelo marechal Conde d’Eu -, e o alferes Antonio Francisco de Melo, também tripulante da já citada corveta Parnahyba que, entretanto, teve sua promoção retardada devido ao seu comportamento, observado pelo comandante de corpos:  “O cadete Melo usava calça fofa, boné ou chapéu à banda pimpão, e não dispensava o jeito arrevesado dos entendidos em mandinga” [p.79]. (42)  

Já havia claramente, em 1865, uma maneira de se vestir, de falar, e de ser, “dos entendidos em mandinga”. Já havia, até mesmo, a ligação entre a “mandinga” (algo relacionado a magia, mas também um sinônimo da malícia) e a capoeira.

Cinco anos depois – 1870 -, os sobreviventes da Guerra do Paraguai voltaram como heróis. 

Muitas destas feras, agora transformados em “heróis”, engrossaram as fileiras das maltas cariocas; vários ingressaram na polícia (sem necessariamente abandonar as maltas).

Esta infiltração – das classes perigosas nos meios militares e, especialmente, na instituição policial -, nos meados dos 1800s, é uma das causas históricas que explicam a contemporânea corrupção policial, a intimidade grotesca, e a falta de uma fronteira nítida, entre muitos policiais cariocas contemporâneos e os traficantes de armas e drogas. Uma outra causa, óbvia, da corrupção que impera nas instituições policiais, é serem parte de um sistema político/econômico que sempre, desde seus primórdios, foi corrupto e extremamente injusto. 

Talvez a corrupção no Brasil seja tão evidente porque sempre fomos uma “colônia” – dos portugueses, dos ingleses, dos norte-americanos, das multinacionais. E nossos dirigentes e homens-de-poder-e-dinheiro foram, e são, em grande parte, os testa-de-ferro e gerentes de interesses alienígenas.

Enfim, estes “homens de dinheiro” e politicos – na verdade otários com grana e poder – são homens de visão muito curta, deslumbrados com as “luzes da Europa” ou com o “dinheiro e a modernidade dos Estados Unidos”; homens que ainda se apoiam num modelo do tipo “massa de trabalhadores ignorantes de baixo custo”, e que não têm culhões, nem competência, nem criatividade para instaurar uma “nova ordem” em nosso país.

 

fim da capítulo 9

Capítulo 8 – Manduca da Praia

 

CAPOEIRISTAS

PULP FICTION TROPICAL

 

Nestor Capoeira

capítulo 8

 

Finalzinho do capítlo 7

Certamente tambem foram fortemente influenciadas por inesquecíveis e impressionantes personagens que realmente existiram e flanaram pelas ruas do Rio nos 1800s e início dos 1900s.

 

Entre estes, certamente se destacou o Manduca da Praia.

 

capítulo 8

 

MANDUCA DA PRAIA

 

INSPIRAVA TEMOR E CONFIANÇA

Eis o que Moraes Filho contou no seu livro, Festas e Tradições Populares do Brasil, de 1888. : 

Por volta de 1850, Manduca “iniciou sua carreira de rapaz destemido e valentão, agredindo touros bravos sobre os quais saltava, livrando-se”.  Dotado de enorme força física e “destro como uma sombra”, Manduca cursou a escola de horário integral da malandragem e da valentia das ruas do Rio na época de perigosos capoeiras como Mamede, Aleixo Açougueiro, Pedro Cobra, Bem-te-vi e Quebra Coco. 

Desde cedo destacou-se no uso da navalha e do punhal; no manejo do Petrópolis – um comprido porrete de madeira-de-lei, confeccionado na cidade de Petrópolis, companheiro inseparável dos valentões da época -; na malícia da banda e da rasteira; e com o soco, a cabeçada e o rabo-de-arraia tinha uma intimidade a toda prova.

 

O PETRÓPOLIS

O jogo de pau era a arma tradicional de auto-defesa praticada por camponeses e pastores do norte de Portugal, especialmente na província do Minho, mas também na Galícia espanhola e nos Azores – exatamente as áreas de onde vieram, para o Brasil, a maioria dos imigrantes pobres portugueses a partir de 1850 aproximadamente – os engajados.

No norte de Portugal, os homens jovens sempre carregavam um bastão de cerca de 1,60m. de comprimento.  Técnicas de luta eram transmitidas de geração em geração, e no final dos 1800s também eram ensinados nos quintais das casas.

Quando as rivalidades entre homens jovens, ou mesmo entre vilarejos, explodiam nos dias de mercado, nas festas de santos padroeiros ou nas peregrinações, o bastão era a arma principal usada nestes conflitos; nos conta Camara Cascudo (citado por Mathias Assunção, 2005).

Muitos dos jovens engajados, que trabalhavam em condições duríssimas na cidade do Rio de Janeiro, pulavam o muro e acabavam juntando-se ás maltas de capoeiras, que anteriormente – antes de 1850 – eram compostas quase que exclusivamente de negros escravos e libertos. 

O jogo de pau português, e a navalha do capoeira carioca, eram tão emblemáticos, que Aluizo de Azevedo romanceia a luta do mulato capoeira Firmo – com sua navalha -, com o português Jerônimo – com seu bastão -, numa cena do romance O Cortiço (1890).

Mathias Assunção comenta, em relação às técnicas de luta no Rio de Janeiro, por volta de 1870:

… havia a combinação de cinco técnicas de luta complementares: cabeçada, chute, taponas (de mão), técnicas de faca e pau.  Nenhuma fonte sugere que este tipo de combinação jamais tenha existido na África

…  a transformação do contexto social inevitavelmente tem impacto nos aspectos formais da prática da capoeira.

A capoeira “creolizou-se”; isto é, partindo das raízes africanas tornou-se algo diverso, característico do novo local. Mathias comenta que isto pode ser visto, mais ainda, “pelas mudanças substanciais  que afetaram seu significado cultural e político na segundo metade do século XIX”; quando as maltas fortalecem seus laços com políticos e homens de poder, justamenta a época em que Manduca da Praia viveu.

Por outro lado, as técnicas de luta com pau – de diferentes tamanhos e formatos – são uma constante em toda a Africa. Então, os negros que compunham as maltas tambem estavam acostumados com estas técnicas; as novidades introduzidas pelos jovens engajados portugueses vieram para sofisticar o arsenal da rapaziada.

 

 

CHAMPAGNE

Manduca não era um “filósofo da capoeira” como, bem mais tarde, foi mestre Pastinha; nem um lutador e “revolucionário da capoeira”, como mestre Bimba que criou a capoeira regional e a primeira academia na década de 1930; nem um “capoeirista de raiz e fundamento” como os atuais mestres João Pequeno (recentemente falecido) e João Grande; e nem tampouco um representante do espírito da “malandragem alto astral”, como foi mestre Leopoldina. 

No entanto, Manduca tinha algo que o destacava e diferenciava de seus contemporâneos – facínoras, valentes, vadios e rufiões -: uma inteligência fria, calculista e implacável; uma sede de poder, de status e de dinheiro; aliadas a uma visão de comerciante e de homem de negócios. 

Manduca tornou-se uma lenda viva e, mais tarde, um mito cantado e celebrado até os dias de hoje.

Manduca – dizem a lenda e cronistas da época -, “não recebia influências da capoeiragem local nem de outras freguesias, fazendo vida à parte, sendo capoeira por sua conta e risco”.

Era capanga e guarda-costas de ilustres políticos.  

No entanto, também temos notícias dele misturado à malta Flor da Gente, da freguesia da Gloria, na época das eleições. Nas eleições do bairro de São José, dava as cartas, “pintava o diabo com as cédulas. Nos esfaqueamentos e sarilhos próprios do momento, ninguém lhe disputava a competência”. 

O Manduca “respondeu a 27 processos por ferimentos leves e graves, saindo absolvido em todos eles pela sua influência pessoal e de seus amigos”. 

Manduca ficou mais célebre ainda com a chegada, no Rio, do deputado português Santana que, segundo o escritor Mello Moraes:

… era um cavalheiro distintíssimo e invencível jogador de pau, dotado de uma força muscular prodigiosa.  Santana, que gostava de brigas, que não recuava diante de quem quer que fosse, tendo notícia do Manduca procurou-o.  Encontrando-se os dois, houve desafio, acontecendo àquele (ao Santana) saltar nos ares ao primeiro camelo do nosso capoeira, depois do que beberam champagne ambos, e continuaram amigos.

 

BUSINESMAN

Mas nem só de valentia e de champanhe, de mumunhas com os políticos, de esfaqueamentos na época das eleições, vivia nosso personagem. 

Manduca, como dissemos, além da inteligência de predador tinha também o senso dos negócios.  Valendo-se de seu prestígio e de seus conhecimentos nas altas esferas do poder, “montou uma banca de venda de peixe na praça do Mercado, era liso em seus negócios, ganhava bastante e tratava-se com regalo”. 

Quando Mello Morais – o escritor – conheceu-o, há mais de cem anos atrás, Manduca já era um homem maduro:

… alto e reforçado, usava uma barba crescida e em ponta, grisalha e cor de cobre… nunca dispensava o casaco grosso e comprido, e a grande corrente de ouro de que pendia o relógio… de olhos injetados e grandes, de andar compassado e resoluto, a sua figura tinha alguma coisa que infundia temor e confiança.

Manduca da Praia, e outros de seu feitio, vivendo com um pé na marginalidade e o outro na sociedade estabelecida, “sendo capoeira por sua própria conta e risco”, foi um dos ancestrais mitológicos de Veneno, Toninho, e Noivo-da-Vida, e de todos capoeiristas da nossa era. 

 

NOIVO-DA-VIDA

 

Noivo-da-Vida, de banho tomado e beca nova – calça branca, camiseta de algodão riscada de vermelho e branco -, saiu da bucólica pracinha cruzando calmamente, sem dar a menor bola, com a patrulhinha que vinha investigar a denúncia de um “homem nú tomando banho no chafariz”.

Enquanto caminhava, examinou suas reservas monetárias vindas da caixa registradora do botequim do portugues – nada mal -, e ao levantar os olhos reparou que estava em frente a uma modesta barbearia.

Entrou, fez a barba, cortou as unhas das mão e dos pés; deixou o cabelo longo, mas aparado.

Estava descalço; não tinha importância: na década de 1970 os hippies ainda faziam um certo sucesso no Brasil e andar descalço e, ao mesmo tempo, embecado, não era nada excessivamente  estranho.

 

“Tem mar aqui perto?”, perguntou ao barbeiro.

“Tem, sim sr. O sr. é carioca?”

“Ocasionalmente. Onde fica a praia?”

 

VAMOS A LA PLAYA

Noivo já sacolejava há quase duas horas no ônibus desconjuntado quando sentiu o cheiro de maresia.

A cidadezinha à beira-mar era um daqueles paraísos tropicais que inicialmente tinha sido descoberta pelos hippies, semelhante ao que aconteceu com Porto Seguro e Arraial da Ajuda. Alguns anos depois, aos poucos, estava se tornando um centro turístico da classe média.

Noivo desembarcou e rumou na direção da praia.

Deu de cara com uma rapaziada de abadá e camiseta branca com o logo da academia – no mais perfeito estilo das academias de “sucesso” do Rio e São Paulo.

Começaram a tirar seus berimbaus de dentro de 2 carros e armaram uma roda.

Noivo entendeu rapidamente o enredo: havia um núcleo de uns 10 ou 12 capoeiras locais e, dentre estes, um ou dois se destacavam. E havia o mestre, que vinha ocasionalmente de outra cidade – provavelmente uma cidade maior e mais rica -, para dar aulas.

Daquela vez, o mestre – um garotão saudável, uns 30 anos de idade, com pinta de classe média bem sucedida – tinha trazido uma meia dúzia de alunos com ele.

Hoje em dia, isto é normal, mas nos 1970s era uma raridade: a capoeira praticamente só existia na Bahia; numas poucas academias no Rio e em São Paulo; e um movimento incipiente em Belô e Brasília. Era difícil encontrar capoeira fora destes grandes centros urbanos.

 

A RODA

A roda começou.

Uma galera se reuniu ao redor para assistir.

Noivo ficou na dele, assistindo aos jogos e ocasionalmente batendo palmas com o resto da plateia.

Mas o jovem mestre, que se chamava Zequinha, não tirava os olhos de Noivo. Existe alguma coisa na maneira de ser do jogador que cria uma espécie de vibração, ou aura; e Zequinha intuitivamente tinha captado aquela irradiação em Noivo sem nunca te-lo visto antes.

De repente, a corda de um dos berimbaus quebrou. Zequinha passou o instrumento ao seu filho – um menino de uns 6 anos de idade -:

“Guarda lá no carro, pro papai”.

Pouco depois o menino voltou, com o berimbau armado com uma corda nova, e afinado, pronto para ser usado.

“Quem trocou a corda do berimbau?”, perguntou um espantado Zequinha, pois encordoar uma biriba não é tarefa para um inciante.

“Foi o moço”.

“O moço?”

“É”, respondeu o menino apontando timidamente para Noivo que já tinha voltado para o meio da plateia e continuava a assistir aos jogos com cara de sonso.

“O moço perguntou se tinha arame. Eu mostrei, e ele consertou o berimbau”.

Zequinha ficou sem saber o que fazer.

Naquela época, com a popularização da capoeira, e com o aumento do número de alunos e de dinheiro de mensalidades, estava começando um período de competividade que muitas vezes degenerava em porradaria entre professores de academias diferentes, no meio dos jogos, no meio da roda.

Mas Zequinha tinha fé no taco dele e resolveu tomar a inciativa. Na sequência, conforme o que rolasse, ele decidiria o que fazer.

“Afinal de contas”, pensou com seus botões, “estou com seis alunos e mais uma dúzia de locais”. Mediu  Noivo disfarçadamente com o olhar. “Alem de tudo, o cara parece estar sozinho, não é daqui da área”.

Entregou o berimbau para um aluno graduado  tocar; rodeou a roda pelo lado de dentro, parou em frente a Noivo e perguntou em meio à zoada do São Bento Grande:

“O sr. quer jogar?”

“Será um prazer.”

“Que ritmo o sr. prefere?’, perguntou Zequinha, querendo descobrir se Noivo era da Regional – escolheria um ritmo rápido como o que estavam tocando agora -; ou se Noivo era da Angola – provavelmente Noivo escolheria um ritmo mais lento e maliciado.

“En não conheço nada, nem ninguem”, respondeu Noivo, como se lesse os pensamentos de Zequinha,”a roda é sua, o sr. é quem sabe qual é a melhor opção”.

Zequinha ficou com a pulga atrás da orelha. Já lamentava ter convidado aquele estranho, um tanto misterioso, tão calmo e na dele – “o sr. isso, o sr. aquilo” -, para jogar.

Mas agora era tarde.

E, afinal,  quem esta na chuva é pra se molhar.

Zequinha olhou dentro dos olhos de Noivo, procurando um traço de maldade ou violência; ou talvez um eco de inquietude, ou receio por estar ali, sozinho, no meio de uma turma de desconhecidos numa cidade estranha; ou, quem sabe, Noivo era um daqueles caras bobocas, que não mede as consequências dos próprios atos, e até desconhece seus próprios limites e possibilidades.

Nada.

Nem um tremor, nem uma reação.

Os olhos do descohecido apenas retribuiram o olhar de Zequinha, sem animosidade, sem tentaiva de amizade – nada. Uma esfinge.

Os lábios, pensou Zequinha, esboçaram o mais leve dos sorrisos. Mas talvez fosse apenas impressão.

Zequinha foi até o pé-do-berimbau; Noivo seguiu-o; e Zequinha, sem se benzer nem cumprimentar o estranho, deu um aú e um sensacional salto-mortal aterrisando no meio da roda onde começou a gingar com competência e confiança.

 

 

fim do capítulo 8

Tondela: Acampamento e Treinamento de Capoeira

 

VAMOS VADIAR E TRAGA SEU AXÉ
100% CAPOEIRA – 03 – 04 e 05 de Julho

Acampamento e Treinamento de Capoeira em Tondela, a ideia continuam a mesma, treinar e ter momentos de lazer, sempre em um ambiente agradável entre amigos e saudável.

Este ano teremos mais grupos participantes além do grupo AGBARA, fazendo com que o intercâmbio seja uma grande troca de experiências entre Mestres, Contra/Mestre, alunos e graduados.

O objetivo é fazer com que, as experiências vividas por todos neste Acampamento, fiquem guardadas em suas memórias para o resto da sua vida. A programação terá uma relação direta com a temática escolhida:

AULAS DE CAPOEIRA, BATIZADO, TROCA DE GRADUAÇÕES, BERIMBAU, MÚSICAS, CORRIDA NA PARTE DA MANHÃ E AULA DE MACULELÊ etc.

O valor para participar deste Acampamento e Treinamento Pedagógico de capoeira é de 45 euros, com alimentação e t-shirt. Todos terão que respeitar as regras estabelecidas.

Todos têm que trazer suas tendas.

 

AGBARA: ARTE E GINGA BRASILEIRA DE ATIVIDADE RECREIO E ANIMAÇÃO

 

Mestre Nininho – versatilagbara@hotmail.com