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Julho 2015

Vendo Artigos de: Julho , 2015

SP: Le-le ô A turma de Bimba chegou!

Grandes Mestres de Capoeira desembarcam em Guarulhos

Nos dia 15 de Agosto de 2015 o Centro Cultural Adamastor vai receber um dos maiores Mestres de Capoeira do Mundo, Manoel Nascimento Machado, conhecido no mundo da capoeiragem como Mestre Nenel, filho do maior mestre de todos os tempos, Mestre Bimba. Mestre Nenel é o detentor do legado de seu pai a “Capoeira Regional”. E não virá sozinho, juntamente com Mestre Boinha, discípulo de Mestre Bimba.

Ele irá ministrará uma vivencia de Capoeira Regional, para todos os níveis de praticantes, desde iniciantes até Mestres de Capoeira que queiram estar em contato com essa grande figura.

A organização do evento está sendo feita pela A.C.C.R. Quilombo dos Palmares, comandada por Paulo Afonso de Souza, conhecido mestre da cidade de Guarulhos como Mestre Peixe.

Os interessados devem entrar em contato com o próprio Mestre Peixe pelo telefone (11) 98156-3960 ou com Professor Periquito no telefone (11) 98335-5766 para mais informações sobre como participar.

Mestre Nenel

Convidado Especial – Mestre Nenel

Manoel Nascimento Machado, Mestre Nenel, nasceu em 26 de setembro de 1960, na cidade do Salvador, no Estado da Bahia. Filho de Manoel dos Reis Machado, o mestre Bimba, e de Berenice Conceição Nascimento. Desde muito cedo seguiu os passos do pai, acompanhando-o nas atividades diárias pelo seu mestre desenvolvidas nas escolas, localizadas no Nordeste de Amaralina e na rua das Laranjeiras no Terreiro de Jesus, principais núcleos de formação da Capoeira Regional na Bahia, nos anos 60 e inicio dos 70 do século passado. Nenelfoi membro ativo da Turma de Bimba, conjunto cultural famoso, participando de diversas apresentações de capoeira e outras manifestações tradicionais da cultura da Bahia, neste Estado e em outros do Brasil.
Em junho de 1967 foi formado, de acordo com o padrão do Centro de Cultura Física e Regional, recebendo, na ocasião, das mãos do próprio pai, o lenço azul.
Quando da mudança do Mestre Bimba para Goiás, Nenel acompanhou o pai e lá se tornou uma testemunha viva das agruras e sofrimentos pelos quais o criador da Capoeira Regional, seus familiares e outras pessoas que o acompanharam na mudança passaram. Aos 13 anos de idade com o irmão Dermeval, tentaram dar prosseguimento em Goiânia/Goiás, ao trabalho do pai que veio a falecer em fevereiro de 1974.
Em 1975, Nenel vai morar em Brasília, ano em que fundou a sua primeira escola de capoeira “Associação de Capoeira Regional Mestre Bimba Filho”, tendo como propósito dar continuidade à transmissão da Capoeira Regional. Em 1977, retorna a Salvador, onde mora até hoje. Nos primeiros anos após o retorno encontra dificuldades para se estabelecer como transmissor do legado do mestre Bimba e adota como meio de sustentação de vida outras atividades profissionais, entre elas, incluindo a participação em grupos folclóricos. Nos anos de 1977 e 1978 sagrou-se bi-campeão de capoeira, disputando o campeonato baiano, em moldes esportivos, pela Ginga Associação de Capoeira.
Em 25 de janeiro de 1990 o núcleo principal da Filhos de Bimba Escola de Capoeira Regional passou a funcionar no Liceu de Artes e Ofícios, fazendo parte do projeto de revitalização institucional do Liceu, destinado para jovens aprendizes, funcionando a capoeira como instrumento de educação e sociabilidade.
Alem de atender essas demandas, com os recursos disponibilizados por aquela instituição, tornou-se possível a propagação do trabalho executado pelo mestre Nenel para fora dos muros do Liceu, tornando-o conhecido no Brasil e no exterior como um modelo de transmissão das riquezas culturais da capoeira. Nesse sentido, fundamentaram as ações de Nenel, nos modos e maneiras tradicionais e inventivos da Capoeira Regional, razão, em muitos aspectos, da forma bem sucedida de como o projeto foi conduzido, novamente colocando em relevo histórico a robustez cultural, contida na forma de jogar, cantar, pensar e fazer a história da capoeira regional.
No impulso dessa revitalização histórica se criou outros núcleos de capoeira regional no Brasil e no exterior. Surgiram novas formas de ensino, ajustando-se o modelo original ás novas expectativas. Cursos de curta duração e pequenos circuitos passaram a serem realizados no Brasil e no exterior, para atender a procura que dia a dia vem se tornando mais freqüente.
Criou-se a Festa da Iúna, que trouxe para ativa antigos alunos do Mestre Bimba, para servirem de exemplo para as novas gerações. De maneira bastante efetiva se investiu na formação de novos capoeiras, dando prioridade ao trabalho de natureza social destinado para jovens e adolescentes. Neste aspecto merece referencia especial o Projeto Capoerê da Fundação Mestre Bimba, que nos anos 90 foi implantado em vários municípios do Estado da Bahia. Diante da dimensão tomada este projeto abriu-se á participação de outros grupos de capoeira, de modalidades diferentes. No auge do seu desenvolvimento o Capoerê beneficiou mais de três mil crianças e adolescentes.
Num período tumultuado da capoeira(anos 80 e 90) foi criada a Festa da Zumbimba, a festa da camaradagem, estabelecendo um ambiente favorável para a convivência de capoeiristas dos mais diversos grupos para vadiar, sambar, comer, bater papo, conforme o refinamento da tradição da cultura negra no Brasil.
O trabalho do mestre Nenel é hoje um dos mais distinguidos no universo da capoeira, sendo o mesmo bastante requisitado para ministrar cursos, abrilhantar eventos, realizar palestras e legitimar movimentos de capoeira.

 

Mestre Boinha

Boaventura Batista Sampaio, Mestre Boinha, nasceu em 11 de outubro de 1945, na cidade do Salvador, no Estado da Bahia, iniciou na Capoeira Regional no inicio da década de 60.

Em 1965 foi formado, de acordo com o padrão do Centro de Cultura Física e Regional, recebendo, na ocasião, das mãos de Mestre Bimba, o lenço azul.

Em 1966 passou a ministrar aulas com a supervisão de Mestre Bimba, e deu aulas no Colégio Santa Isabel no bairro da Barra, tradicional bairro de Salvador.

Participou de varias das tradicionais apresentações de Mestre Bimba.

Sempre acompanhando Mestre Bimba, sempre esteve ao seu lado até a partida do Mestre para Goiânia.

Mestre Boinha, apesar de todo o reconhecimento da sociedade capoeirística, não gosta de ser chamado de Mestre, por entender que Mestre foi somente Mestre Bimba, e sim discípulo de Mestre Bimba.

 

Hoje é um dos maiores representantes da Turma de Bimba, solicitado para sempre participar de cursos, abrilhantar eventos, realizar palestras, para contar sobre as tradições da Capoeira Regional e o a convivência com Mestre Bimba.

Memórias de um cidadão-capoeira

O livro de Umói: Memórias de um cidadão-capoeira

No meio de centena de milhares de carros que disputam um espaço no meio da tarde de nossa Capital Federal, a Brasília de nossas vidas comuns, de nosso começo, no início da estrada em que ele também viveu e representa no seu livro.

Os carros loucos buscam uma passagem, uma brecha por onde se jogar, por onde encaminhar sua vida, seus anseios e sua cavalgada, no trote dos minutos rápidos que passam sob a neblina desses passos que damos sem notar…

Ali exatamente eu começo a me lembrar do livro Capoeira, provocando a Discussão, que  meu amigo/irmão Mestre Umói,  de Souza, lançado recentemente na calma serrana de Sobradinho, quase no anonimato da vida oficial do planalto central do Brasil e que eu já tive o privilégio até mesmo de ler a versão pré formatada, antes de sair da gráfica e agora recebo o exemplar que me foi destinado por seus discípulos, dias após a sua impressão, já que ele se encontra na sua nova terra, nas proximidades de Dusseldorf, na Alemanha.

Nesse burburinho eu me lembro da importante verdade que podemos encontrar na capoeira e que Umói retrata no seu livro, de que nós somos embevecidos de uma calma privilegiada…  os capoeiristas são pessoas que conseguem ser tranqüilos, embora vivendo no meio de uma série de competições estereotipadas das cidades, da vida comum das pessoas,  onde se disputam coisas estranhas, escrotas, feias e sem brilho, transformando o ser humano num arquétipo de coisa nenhuma que povoa os lugares-comuns.

Essa calma nos permite sair pela vida de uma maneira própria, colecionando pérolas que a estrada oferece para quem está com tempo para tal, para quem se presta e se empresta a essa jornada sem volta da vida, essa coleção de momentos eternizados na memória poética que habita os capoeiras, são rodas, são canções, são amigos, são momentos, são viagens, são pétalas de energia que são recolhidas com a calma dos caçadores de vida, num planeta já quase sem…

Nessa estrada que vai para um lugar incerto, ele não quer chegar em lugar nenhum, ele é qualquer um, é um de nós, é um Capoeira, seu caminho não tem fronteira, nem balela, tem o espírito que anda, como meu personagem favorito da infância O Fantasma, da revista em quadrinho que lia e relia mil vezes. Pelo caminho, na calma ele vai entoando os seus versos de poeta e de capoeira, com seu berimbau, em cada página, recheadas de alegrias e de tristezas, de beleza, de vidas que preencheram a sua vida. Umói respira o que o vento lhe traz em cada passo, celebrações e momentos cruéis são apenas paisagens de um guerreiro que sai vadiando pela vida, e rir ou chorar é parte da história, não há tempo para pausar a caminhada. O berimbau recomeça a próxima roda e a vida continua consumada em mais uma ladainha.

Ele partilha sua história de modo generoso e grato por tudo. Ele é um irmão de todos. É um de nós, como disse. De nosso mundo, valoriza as suas origens, sua história, sua cidade, seus amigos, seu povo, sua terra e seu bairro. É um exemplo da mais pura expressão de amor por tudo que se tem desse mundo e que brota no coração de quem ama o que faz. 

Egoísmo meu me sentir na história dele, na história da capoeira de Sobradinho, mas enquanto ele estava dando seus primeiros passos na Arte da Capoeira, eu também o fazia, somos contemporâneos do mesmo ano de 1974. Ele em Sobrado e eu no Plano Piloto, além de minhas próprias questões de órfão de mãe e pai, chegado a pouco do Rio de Janeiro onde aprendi bastante coisa, quando sai do interior de Minas e de lá pra Capital Federal, enfrentava o estranho vazio de povo, do que a vida de Umói era plena. Muito mais tarde eu descobri, quando fui para Fortaleza-CE, que a capoeira vem do povo, é dele, e não existe história verdadeira que não passe pelas aventuras e desventuras de um cidadão comum que virou capoeira.

No Plano as coisas ainda eram mornas para mim, só haviam as aulas e os eventos, não tinha a convivência de perto, do dia-dia com os camaradas da Academia. Local sagrado de conviver com bambas, mas ao sair porta afora a vida era outra, de trabalhador aprendiz da vida, as vezes a noite, mas sempre conciliando os deveres e a Academia Tabosa, a maior da cidade. Algum tempo depois, passados muitos anos, conheci Umói, já corda vermelha, por isso fui muitas vezes nos treinos no Bumba, nas rodas de sábado ou domingo. O lugar próximo a uma mata fechada era um convite para ir beber daquele axé maravilhoso, onde todos riam e brincavam de forma harmônica… Era maravilhoso ir lá, na Roda do União, rever e curtir pessoas como o Jeová, o Mariô, figura ímpar, única, eternamente ele só, na história de qualquer pessoa que o conheça.

A vida seguia em frente. Exatamente como conta o Mestre Umói. Os movimentos na Capital Federal eram cada vez mais intensos e os novos tempos acabaram por unir mais e mais a galera da periferia – no caso do DF, as cidades-satélites – aos capoeiras do Plano, forma resumida com que se entendia o Centro da Capital da República. 

Umói foi generoso também nisso. Compartilhou sua História com os daqui do Plano e de outras cidades-satélites, como ele frisa quando destaca sua admiração por capoeiristas que conviveu nos seus anos de aprendizado e de caminhada pelas estradas da Capoeira.

Depois dessa fase tão rica e envolvente, ele entra na difícil seara das verdades e inverdades, conversas fiadas, conversas sérias, parâmetros de autonomia dos grupos, esse modismo estranho que tenta pasteurizar a capoeira…

Umói debate e se debate com a falta de personalidade que assola os grupos de capoeira.

Ele desconfia de determinados modismos e das ideias que tenta definir os rumos da capoeira de acordo com os estereótipos e as verdades universais que as vezes se encontram nas práticas da capoeira.

Mais ainda, debate a questão internacional que envolve a capoeira na Europa, onde a cerca de 20 anos ele vive e professa sua arte.

Ele lembra certas premissas e condições inerentes ao aprendizado da capoeira, o idioma por traz e por dentro dessa arte. O aprendizado cultural brasileiro implícito na sua linguagem e todo desafio envolvido para que um estrangeiro se torne mestre da capoeira.

Livro Mestre Umoi

O seu debate vai bem longe. Vive dentro dessa questão. Conhece de perto em anos de convivência. 

Alguém pode até discordar de sua visão, mas nunca lhe negar a fala, a reflexão e deixar de levar em consideração suas questões. Ele sabe o que fala e o que pensa!

Umói demonstra sua indignação sem meias palavras. Tem sua tranquilidade em afirmar o que discorda e o que vê de deformação na capoeira. Tem a capacidade de transcrever com clareza sua percepção das questões da arte.

É um Mestre de Capoeira. Tem todo o direito de se manifestar.

Tem trabalho. Tem estrada. Tem credibilidade. Tem carisma. Tem as palavras que lhe saem mais do coração do que da mente! 

 

 

A Rua e a Escola

Cultura popular é um mundo cheio de elementos, histórias e contos com valores humanos, filosóficos, melódicos, poéticos, artísticos e rítmicos que transmitem prazer, diversão, conhecimentos, lazer e também brincadeiras de mau gosto, de perversidade, que resultam, por sua vez, em castigo, dor, humilhação, vergonha e até mesmo traumas.

Entendemos que a escola deve ceder o seu espaço para a cultura popular crescer, tomar forma e corpo. Cabe ao professor, juntamente com seus alunos, selecionar, modificar e/ou adaptar os seus conteúdos que devem ser utilizados como fator didático para o ensino, preocupando-se em favorecer a compreensão, desenvolver a memória, o senso-crítico, incentivar a fantasia entre outros objetos que informam, ilustram, como fonte de conhecimento dinâmico e mutável, o qual contribui de forma fundamental para o enriquecimento do aluno e interpretação da realidade.

No espaço escolar devem transitar elementos que identificam um povo, como é o caso da capoeira, atividade que já foi considerada marginal, e que teve o seu valor reconhecido como “luta, dança e arte, folclore, esporte, educação, lazer e filosofia de vida”, segundo Hélio Campos (in Capoeira na Escola pág. 21), ao que acrescentamos ainda como terapia corporal. Da mesma forma que a capoeira, o jogo de peteca, que surgiu e desenvolveu-se no estado de Minas Gerais e até se transformou em esporte.

Citamos estes dois exemplos, não por entender ser importante para a cultura popular “crescer ou virar esporte”, mas, por ser possível alastrar-se através do incentivo a sua prática, tendo a escola como um espaço adequado para isto acontecer e tornar-se um instrumento de lazer acessível a todos, e fundamental para uma educação completa.

A Educação Física dispõe de um manancial de atividades de domínio popular, para enriquecer o seu trabalho na escola. A nossa cultura formada pelos ritmos, cantos, danças e religiosidade africanas, portuguesas e indígenas, principalmente, coloca nas mãos do educador todas as condições para o desenvolvimento de um trabalho de primeira qualidade, onde se dê importância fundamental ao lúdico, às atividades naturais, as coisas da terra. 

Danças, jogos, músicas, competições e uma gama de atividades pertencentes ao dia-a-dia da criança na rua, podem e devem integrar o programa das escolas, pois constituem as formas básicas da criança interagir com o mundo, usando o seu maior e mais importante instrumento; o corpo. Vivenciando o cotidiano da rua na escola, as crianças estarão integrando a sua realidade concreta aos conceitos, muitas vezes abstratos, que lhes são colocados na educação formal.

Essa integração do lúdico com a educação formal dá-lhes a oportunidade de terem uma educação calcada na sua realidade, inserida no contexto onde mora. Esse trabalho deve ser desenvolvido de uma forma integrada, na qual o formal e o informal complementem-se, e cada um assuma características do outro. Assim sendo, a educação será mais lúdica, proporcionando maior liberdade na escolha de suas atividades e o popular ganhará nova roupagem, adaptando-se pedagogicamente, e de forma concreta, à práxis social.

O professor deve parar para pensar e fazer o aluno pensar e refletir sobre o próprio cotidiano, pois é a história em zig-zag, e nela estão carimbados signos sociais que devem ser considerados no currículo e valorizados, enquanto conhecimento, que dialeticamente é movimento e assim sendo gera mudanças, trocas, alternativas, o novo, novos conhecimentos, novos jogos, nova cultura, novo homem, novas relações sociais.

Verdadeiras lições de vida poderão ser reconhecidas, se forem derrubadas as paredes das salas de aula, abertas as portas e janelas e, principalmente nossos olhos, ouvidos e percepções outras, que nos farão ensinar e aprender, num processo dialético onde reconhecemos que somos, participativamente, com nossos alunos, a verdadeira Cultura Popular.

Brasília sedia encontro de mulheres capoeiristas

 
Debater a regulamentação da capoeira, a representação feminina e os impedimentos à cidadania plena da mulher dentro e fora dessa arte. Esses são os principais objetivos de roda de conversa que será realizada neste domingo (26), em Brasília, a partir das 10h, durante o quinto Encontro de Mulheres Capoeiristas.
 
Com apoio do Ministério da Cultura (MinC), o evento é promovido pelo Grupo Nzinga de Capoeira Angola e pelo Festival da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha, o Latinidades.
 
Participarão do debate mestras e contramestras de capoeira, além de professoras que se destacam dentro desse universo historicamente masculino e machista. Também estarão presentes representantes da Secretaria da Cidadania e da Diversidade Cultural do MinC, da Fundação Cultural Palmares e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), entre outros.
 
Um dos temas abordados na roda de conversa será a lei 9696/1998. A legislação criou o Conselho Federal de Educação Física (Confef), regulamentou a profissão de educador físico e determinou que todas as atividades físicas e esportivas devam ser orientadas por profissionais de educação física.  
 
Segundo o presidente do Confef, Jorge Steinhilber, a exigência não é mantida para a capoeira em seu viés “artístico e cultural, como em casos de apresentações em teatros ou em realizações coreográficas”, mas é válida para a capoeira realizada para fins esportivos e de condicionamento físico.  
 
“A educação física não quer dominar a capoeira”, brinca o presidente. “E a exigência não se deve por conta de reserva de mercado, mas por conta de defesa do praticante. A lei 9696 foi aprovada para proteger a sociedade, para que todas as pessoas sejam atendidas por pessoas que tenham qualificação técnica, científica, pedagógica, didática e ética profissional”, explica.  
 
A capoeirista Rosângela Costa Araújo, mais conhecida como mestra Janja, no entanto, explica que a comunidade capoeirista rejeita essa posição. “A primeira vista, um projeto que trata da regulamentação da capoeira pode parecer uma coisa boa, mas precisamos ficar atentos, ler as entrelinhas, entender a quem realmente ela favorece”, diz. “Não queremos institucionalizar o atleta profissional da capoeira como um jogador de futebol. A capoeira vai mais além. A comunidade tem uma proposta que reconhece o aspecto educacional e formativo, que cria parcerias com as escolas e permite a autonomia dos grupos”, explica. 
 
O diretor da Cidadania e da Diversidade Cultural do Ministério da Cultura (SCDC/ MinC), Alexandre Santini, também participará do debate. Ele defende a formação tradicional do capoeirista. “Há várias opiniões até conflitantes a esse respeito. O que defendemos é o reconhecimento do capoeirista tradicional, que haja uma formação tradicional, com estudo do saber transmitido pela oralidade, pela prática da capoeira. Quem reconhece o mestre é o outro mestre”, afirma. 
 

Patrimônio da Humanidade

 
Uma das manifestações culturais mais conhecidas no Brasil e reconhecidas no mundo, a Roda de Capoeira recebeu, em 2014, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. 
 
Originada no século XVII, em pleno período escravagista, a capoeira desenvolveu-se como forma de sociabilidade e solidariedade entre os africanos escravizados e como estratégia para lidarem com o controle e a violência. Hoje, é um dos maiores símbolos da identidade brasileira e está presente em todo território nacional, além de ter praticantes em mais de 160 países, em todos os continentes. 
 
A Roda de Capoeira e o Ofício dos Mestres de Capoeira tiveram o reconhecimento do Iphan como Patrimônio Cultural Brasileiro em 2008 e estão inscritos, respectivamente, no Livro de Registro das Formas de Expressão e no Livro de Registro dos Saberes.
 
Cecilia Coelho
Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura
http://www.cultura.gov.br/
 
 
Matéria sugerida por Nélia Azevedo
www.neliazevedo.com

Nota de Falecimento: Mestre Besouro Nicomédio

Nota de Falecimento: Mestre Besouro Nicomédio – Grupo Camunucerê de Capoeira
FAMÍLIA CAMUNUCERÊ DE LUTO PERDE SEU FUNDADOR

 

Berimbau chora com a perca do grande Mestre Besouro Nicomédio que deixará Saudades, mas acima de tudo deixará sua História seu Legado como grande Capoeirista e Disseminador de nossa Arte Luta.

José Nicomédio dos Santos Filho (MESTRE BESOURO), iniciou a capoeira no estado do Rio de Janeiro na década de 60, através de sua mãe Dona Irene (praticava pernada carioca e o samba de RODA-RJ nos anos 50) conheceu o Mestre Leopodina, no inicio dos anos 70 nos mudamos para o estado de São Paulo – Santo André no bairro de UTINGA, teve a oportunidade de treinar com o mestre VALDENOR, da Academia Nova Luanda em 1976 se formou. Em 1979 fui Campeão Paulista pela FEDERAÇÃO PAULISTA DE CAPOEIRA, (Gestão Mestre Pinatti) e em 1980, fui VICE-CAMPEÃO BRASILEIRO FPC e CBP, naquela época a capoeira ainda era subordinada a CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE PUGILISMO e ao conselho nacional de esporte.

Em 1977, inciou sua primeira academia de CAPOEIRA, na Associação Desportiva Amigos de Camilopolis em Santo André- SP, vários alunos passaram pela Associação. Como o trabalho com a CAPOEIRA CAMUNUCERÊ, havia crescido muito naquela região o Mestre Besouro, resolveu alugar um Grande São na Avenida da Paz, em UTINGA – Santo André, o seu talento e a sua habilidade em administrar a CAPOEIRA CAMUNICERÊ, fez com que em pouco tempo o Mestre saltasse sua quantidade de alunos de 35 para 280 alunos no período de 1979 e 1985.

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Mestre BESOURO, viajou muito para divulgar o seu trabalho e contribuir para a elevação da CAPOEIRA, enquanto desporto arte e cultura popular. Fizemos várias apresentações e eventos principalmente nas data cívicas e comemorativas do ABC…

“O ABC, jogar capoeira é na CAMUNUCERÊ,
ooô ABC jogar capoeira é na CAMUNUCERÊ;”

 

Os nossos mais sinceros pêsames.

Festival Internacional de Capoeira – Vou jogar Capoeira na Beira do Mar

Pelo oitavo ano consecutivo a Associação Capoeirarte – PT realiza um dos maiores eventos culturais, de arte e capoeira dos últimos anos. Trazendo praticantes de Capoeira dos mais diversos Países da Europa nomeadamente Espanha, Inglaterra, República Checa, Itália, França, Dinamarca e ainda da América do Sul nomeadamente do Brasil e claro de Norte a Sul de Portugal.

Serão realizados diversos Workshops, Rodas e Torneios de Capoeira, Workshops de Dança, Música, Yoga, Troca de graduações, Batizados, Palestras, Lançamento de livros e muito mais.

Este ano iremos contar, muito em especial com um momento especial, onde iremos assistir à formatura para Contra Mestre do Professor Pestana

O evento realizar-se-á na Póvoa de Varzim – Portugal nos próximos dias 23 a 26 de Julho. Não falte! Para mais informações consulte a página do evento em  www.facebook.com/events/827236530676238/ ou através do contacto 913506933.

“A E I O U” Vem Criança Vem Jogar

Rio de Janeiro – Grupo Igualdade Capoeira e o Projeto: “A E I O U” vem criança vem jogar

Porque cada ação… cada atitude… cada pessoa que tocamos, direta ou indiretamente, acaba por retribuir como uma onda, única, incondicional e avassaladora… na nossa vida, tudo volta…”

O Igualdade Capoeira inaugurou em abril o seu novo projeto “Capoeira para crianças e adolescentes” em Brás de Pina sobre a direção da professora Serena Michele.

No início pode parecer estranho que bebes a partir de dois anos façam uma arte tão complexa como a capoeira. Serena, formado em serviço social pela PUC-Rio, explica que a capoeira tem justamente o objetivo de colaborar na formação das crianças: “A Capoeira para bebes tem o objetivo de trabalhar a coordenação motora, socialização, integração, noção de espaço, autocontrole, ritmo e muito mais”.

As aulas não se limitam apenas as atividades físicas. Há também um pouco de história da cultura afro-brasileira. Com o passar das aulas a professora junto com os pais começo a detetar algumas mudanças positivas nos alunos. Como é o caso de Anthony. O garoto era tímido e desconfiado, quando começou a participar das aulas melhorou sua comunicação e integração social.

O Espaço foi cedido pela irmã da professora Serena e o projeto passa por algumas dificuldades estruturais: Faltam tatames, instrumentos e outros materiais didáticos que ajudariam nas aulas.

 

Fica aqui a chamada e um apelo para que esta onda esta ação toque os tambores do seu coração… venha fazer parte desta ação!!!

Visite: http://grupoigualdadecapoeira.blogspot.com.br/

Almirante Negro o Marinheiro Absoluto

João Cândido – A Luta pelos Direitos Humanos

Projeto Memória, em sua 11ª edição homenageia João Cândido, principal líder da Revolta da Chibata ocorrida em 1910.

Acreditamos na importância da valorização de personagens que contribuíram para a formação nacional brasileira – seja através de obras escritas, como de ações concretas, exemplos, palavras e gestos criativos e transformadores. Este livro fotobiográfico, distribuído para mais de 5 mil bibliotecas públicas em todo o país, resulta de pesquisa em importantes acervos documentais (textos e imagens) que trazem à tona a história, nem sempre bem divulgada, das condições de vida da maioria da população brasileira e dos caminhos encontrados para sobreviver e, mesmo, alterar tais situações. Está claro que não se pode mudar o que já passou, mas é possível modificar nossa percepção sobre este passado.

O Projeto Memória, uma iniciativa da Fundação Banco do Brasil em parceria com a Petrobras, associando-se neste ano à Associação

Cultural do Arquivo Nacional (ACAN), reconhece que a história de um país é ponto chave para compreendermos o presente e prepararmos o futuro. Trazer à tona a permanência das teias do passado (gerado, primordialmente, pelo trabalho escravo e baseado na grande agricultura monocultora de exportação) é tocar em preconceitos, desigualdades e violências ainda hoje mal resolvidos, apesar das conquistas e melhorias.

E tal escolha do tema aponta, sobretudo, para a disposição em transformar democraticamente tal realidade, valorizando a afi rmação dos Direitos Humanos no Brasil em suas variadas dimensões.

Tal iniciativa ocorre num momento em que o Estado nacional brasileiro começa a assumir postura expressiva diante do legado de

João Cândido e dos marinheiros que participaram da rebelião – e que pode ser resumida na concessão de anistia póstuma a estes personagens, aprovada por unanimidade no Congresso Nacional e sancionada pelo presidente da República em 23 de julho de 2008, além de outras iniciativas oficiais e, sobretudo, da sociedade civil.

É responsabilidade coletiva garantir que os Direitos Humanos sejam realidade para todos, independente de posição social, nível de instrução, gênero, religião, cor da pele, opção política, etc. 

Aproximando-se o centenário da Revolta da Chibata, podemos constatar que a vida de João Cândido traz muitas lições para aprendermos e ensinarmos: virar as páginas de sofrido passado em direção a um futuro melhor.

ACAN . PETROBRAS . FUNDAÇÃO BANCO DO BRASIL

 

Bio WiKi:

Nasceu em 24 de Junho de 1880, na então Província (hoje Estado) do Rio Grande do Sul, no município de Encruzilhada (hoje Encruzilhada do Sul), na fazenda Coxilha Bonita que ficava no vilarejo Dom Feliciano – o quinto distrito do Município Encruzilhada, que havia sido distrito de Rio Pardo até 1849. Filho dos ex-escravos João Felisberto e Inácia Cândido Felisberto, apresentou-se, ainda com treze anos, em 1894, na Companhia de Artífices Militares e Menores Aprendizes no Arsenal de Guerra de Porto Alegre com uma recomendação de atenção especial, escrita por um velho amigo e protetor de Rio Pardo, o então capitão-de-fragata Alexandrino de Alencar, que assim o encaminhava àquela escola. Em 1895 conseguiu transferência para a Escola de Aprendizes Marinheiros de Porto Alegre, e em dezembro do mesmo ano, como grumete, para a Marinha do Brasil, na capital, a cidade do Rio de Janeiro.

Desse modo, nos anos 1890, época em que a maioria dos marinheiros era recrutada à força pela polícia, João Cândido alistou-se com o número 40 na Marinha do Brasil em Janeiro de 1895, aos 14 anos de idade, ingressando como grumete a 10 de dezembro de 1895.

Em depoimento para a Anamnese do Hospital dos Alienados em abril de 1911 e para a Gazeta de Notícias de 31/12/1912, João Cândido afirma ter sido soldado do General Pinheiro Machado, na Revolução Federalista, em 1893, portanto antes de entrar para a escola de aprendizes do Arsenal de Guerra de Porto Alegre.

Teve uma carreira extensa de viagens pelo Brasil e por vários países do mundo nos 15 anos que esteve na ativa da Marinha de Guerra (17 anos, se contar os 2 anos de prisão, após a Revolta). Muitas delas foram viagens de instrução, no começo recebendo instrução, e depois dando instrução de procedimentos de um navio de guerra para marinheiros mais novos e oficiais recém-chegados à Marinha.

A partir de 1908, para acompanhar o final da construção de navios de guerra encomendados pelo governo brasileiro, centenas de marinheiros foram enviados à Grã-Bretanha. Em 1909 João Cândido também para lá foi enviado, onde tomou conhecimento do movimento realizado pelos marinheiros russos em 1905, reivindicando melhores condições de trabalho e alimentação (a revolta do Encouraçado Potemkin, que virou filme do diretor Sergei Einsenstein em 1925).

Tornou-se muito admirado pelos companheiros marinheiros, que o indicaram por duas vezes para representar o “Deus Netuno” na travessia sobre a linha do equador, e muito elogiado pelos oficiais, por seu bom comportamento, e pelas suas habilidades principalmente como timoneiro. Era o marinheiro mais experiente e de maior trânsito entre marinheiros e oficiais, a pessoa indicada para liderar a revolta, na opinião dos demais líderes do movimento.

 

Capítulo 10 – Veneno da Madrugada

 

CAPOEIRISTAS

PULP FICTION TROPICAL

 

Nestor Capoeira

capítulo 10

 

Finalzinho do capítulo 9 

Estes “homens de dinheiro” e politicos, semelhantes aos militares de 1964-1984, não têm competência, nem criatividade, nem visão, para instaurar a verdadeira democracia que nosso país merece. e que tem todas as possibilidades de ter devido às suas riquezas e potencialidades.

Fim do capítulo 9

 

capítulo 10

 

VENENO-DA-MADRUGADA

 

RICARDÃO

Naquela tarde, quando Veneno ainda era um pre-adolescente, o La Vai Bola deu um show no futebol de areia.

Quando os dois olheiros do Fluminense se aproximaram de Veneno e Carlinhos Piu-Piu – que comemoravam a vitória do La Vai Bola no calçadão da praia de Ipanema -, Ricardão, um jovem marrudo e arrogante, ficou na bronca da inveja.

Mas não podia bater de frente com Piu-piu, que era maior doidão mas que não dava mole pra Kojack; treinava capoeira na academia do Peixinho e jiujitsu com o Rickson Gracie. E, alem de tudo, era irmão do Delano Bule que, na época, já trabalhava na Polícia Civil.

Sobrou pra Veneno, que era praticamente um menino.

Ricardão se aproximou de Veneno, já dando esporro:

“O veadinho, tu tá muito deslumbrado, pivete. Presta atenção! Presta atenção! Quando eu disser ‘passa a bola’, é pra passar a bola. Não é pra tirar uma onda de Garrincha e sair driblando até a linha-de-fundo pra centrar pra pequena área.”

Ricardão deu um empurrão em Veneno que recuou uns 2 ou 3 passos.

A galera, em silêncio e de braços cruzados, assistia ao teatrinho.

Todos se conheciam desde criança e Ricardão já conquistara seu lugar e privilégios há muito tempo. Na verdade, não havia novidade pra ver: todo o mundo já tinha passado por aquilo quando, ainda garotos, tinham levado uma dura de alguem da turma dos mais velhos.

Era quase um ritual de iniciação:

– Veneno ia levar uns cascudos, botar o galho dentro;

– Ricardão ia se acalmar;

– e ia todo mundo encher a cara no Mau-Cheiro, um botequim na esquina da Rainha Elisabete com a praia, que tinha um chope super-gelado.

Ricardão deu outro empurrão em Veneno, que recuou mais alguns passos.

“Hoje tu deu sorte porque o Piu-piu consertou as merdas que tu fez. Mas se continuar assim, querendo tirar uma de estrela, tu não vai ser convocado e ainda por cima vou te dar umas porrada pra tu cair na real. Nós somos um time e o capitão desta merda sou eu. Tu não é porra nenhuma; ainda tem que comer muito feijão com arroz. Entendeu, seu merdinha?”

E Ricardão deu mais um passo a frente, já na intenção de dar mais outro empurrão, ou talvez um tabefe na orelha de Veneno.

Ora, Ricardão na época, tinha uns 23 anos, quase 10 a mais que Veneno; era uma cabeça mais alto, e uns 20 quilos mais pesado; tinha muita experiência de tatame, e também de briga de rua.

Por isto ninguém reparou que, apesar do garoto manter uma expressão neutra e boba no rosto, e de ir recuando calado à medida que levava empurrão; um brilho mau tinha iluminado, por dentro, o olhar quase infantil de Veneno.

E talvez por Veneno ser tão jovem – 14 anos , ninguém lembrou que em casa de malandro, vagabundo não pede emprego.

 

A PANTERA NEGRA

Quando Ricardão começou a dar esporro, aquela coisa escura e terrível que morava dentro de Veneno acordou.

Veneno reconheceu-a imediatamente: o mesmo lance de dois anos atrás quando enfrentou Zeno, um pivete mais velho que disputava a liderança da turma da Estação de Trem Japeri – estação terminal de uma linha da Estrada de Ferro Central do Brasil.

Em Japeri, Veneno fingiu medo – “… calma meu irmão, não precisa esquentar”. E quando Zeno cresceu e baixou a guarda, Veneno entrou com tudo numa cabeçada na boca do estomago.

Zeno caiu esparramado no meio dos trilhos e Veneno, que já no início da discussão tinha localizado uma pedra de bom tamanho no chão, apanhou-a rapidamente e desceu a mão com pedra e tudo na cabeça de Zeno. O moleque caiu pra tras semi-desmaido.

Veneno ficou em pé imóvel, triunfante e excitado, os olhos brilhando de maldade, com o corpo do adversário estendido a seus pés.

Era como se, possuído por aquela coisa poderosa que o fazia sentir-se superior e invencível, visse o mundo de cima de uma alta Torre de Ébano Negro.

 

FOSFORECENTES OLHOS AMARELOS

Agora a mesma coisa, a mesma Força Escura.

O Predador, negro e reluzente como um grande felino, acordou, bocejou, e seus fosforecentes olhos amarelos olharam – de dentro para fora, através dos olhos quase infantis de Veneno – o mundo ao redor.

O brilho do sol da tarde de sábado ofuscou o Grande Felino por uma breve fração de momento, mas logo suas pupilas se adaptaram à inusitada claridade.

O Grande Felino Negro atravessou a folhagem tropical caminhando ondulando suavemente num tempo imemorial, num espaço desconhecido dos mortais, E aproximou seus olhos, por dentro, até quase tocarem as pupilas de Veneno. Então, com uma deliberada calma fria e curiosa, fixou seu amarelo olhar fosforecente na sua presa.

Veneno já não via Ricardão como um cara mais velho e mais forte; via apenas um otário que se aproximava cheio de marra e com a guarda baixa.

Quando Ricardão preparou o empurrão, sempre esbravejando, Veneno deu um rápido passo à frente, e soltou seu martelo de direita.

 

O MARTELO

Malhado, o sambista e malandro que dominava geral a Estação de Japeri, tinha sido um bom professor: todos pivetes da área eram instruídos na arte da tiririca – a capoeiragem carioca, herança das violentas maltas que tinham tocado o terror no Rio de Janeiro durante todos os 1800s. E, dentre eles, destacava-se o adolescente Veneno-da-Madrugada.

A perna de Veneno subiu rápida e certeira como se fosse uma lâmina de aço flexionada que subitamente é liberada.

O pé passou alto e veloz por cima do ombro esquerdo de Ricardão, já na intenção da orelha e da têmpora e do lado da cabeça.

Veneno, atento, a visão clara e cristalina, totalmente aqui e agora, esperava o desfecho: quando o pé explodisse na cabeça de Ricardão, o falastrão ia, ou cair apagado, ou então bambear e dar uns passinhos bêbados antes de desabar no chão. Era só ficar calmo, ver como ia terminar a novela, localisar uma brecha na confusão de braços e pernas do inimigo que se estabacava, e entrar com tudo, chutando novamente a cabeça do mané, finalisando a peleja.

Mas não foi isso que aconteceu.

Ricardão era um lutador experiente.

Mesmo pego totalmente de surpresa, seus reflexos reagiram. Desviou instintivamente a cabeça – mas não o suficiente -; e o martelo de Veneno não encaixou em cheio, pegou de revesguete.

Mas, mesmo assim, tinha sido um porradão. Ricardão balaçou, tonteou, mas não caiu.

Recuou dois passos trôpegos, mas já com a guarda de box fechada, protegendo o queixo e as têmporas.

Veneno ficou olhando, surpreso, mas sem perder o foco da situação.

Em volta, os dois times de futebol olhavam completamente boquiabertos: aquilo era algo totalmente inusitado e inesperado..

Carlinhos Piu-piu, que se amarrava em Veneno, se aproximou rápido e murmurou: “Vaza! Vaza, moleque! Cai fora!”

Veneno, sem saber o que fazer – fugir ou encarar? -, continuava ligado em Ricardão que, agora, ensaiava uns passinhos de box mas ainda sem partir para o ataque.

Aí, Veneno se lembrou  da pedra.

 

HAVIA UMA PEDRA NO MEIO DO CAMINHO

Veneno se lembrou da pedra.

Da pedra que tinha rachado a cabeça de Zeno.

E tambem do monte de pedra portuguesa deixado pelos operários que consertavam a calçada da rua Teixeira de Melo, logo ali pertinho.

Veneno recuou alguns passos.

Ricardão avançou devagar, cauteloso, sempre na guarda do box.

Aí, Veneno deu as costas, botou vinte no veado, e saiu correndo avoado.

Atravessou a mil a Avenida Vieira Souto se desviando dos carros, e só quando dobrou na Teixeira de Melo arriscou uma olhadela pra trás.

Ricardão, quando viu Veneno correr, sacudiu a chocolateira pra clarear as ideias, deu um grunhido de raiva, e partiu atrás.

Agora, Ricardão tinha acabado de atravessar a Vieira Souto e corria a toda. Entrou na Teixeira afobado, com medo que Veneno pudesse escapar.

Dobrou a esquina e, aí, deu um branco.

Ricardão não entendeu bem o que estava acontecendo: Veneno, em vez de estar correndo lá na frente, estava parado na calçada – imóvel no meio do quarteirão.

Ricardão não parou para raciocinar. Ao contrário, deu outro grunhido e engrenou uma terceira.

Não reparou no monte de pedras portuguesas atrás de Veneno.

Nem tampouco que o pivete segurava uma pedra – pedra negra e dura, com aquelas arestas de quase cubo – em cada mão.

Ricardão se aproximou na corrida.

Veneno deu uns 2 ou 3 passos largos, ritmados, e lentos na direção de Ricardão. Fez um movimento amplo que lembrava o dos lançadores do beisebol americano.

A pedra partiu e acertou Ricardão em cheio no meio da ideia.

Os braços de Ricardão continuaram a se movimentar. mas num movimento atabalhoado. As pernas amoleceram em plena corrida. Os olhos rolaram para cima. E o zé grandão desabou, se desmanchando pela calçada quase aos pés de Veneno.

 

MÁRMORE NEGRO

Anos depois, quando visitou um museu na Europa e deu de cara com a estátua de David segurando a funda com a pedra, pouco antes de seu combate com Golias; a primeira reação de Veneno foi de estranheza.

Alguma coisa estava errada.

O olhar era aquele mesmo; estava correto.

Não era o olhar de um pastor adolescente e otário subitamente iluminado por Jeovah.

Era o olhar ameaçador, frio, calculista, letal, de um homem jovem que conhece e tem intimidade com a violência e com as ferramentas da Guerra e da Morte.

Um homem jovem que decide arriscar a própria vida apostando numa  estratégia inesperada e um tanto louca: despir a armadura do rei que, apesar de proteger, iria tolher seus movimentos; esquivar-se das tres lanças de Golias; provacar o gigante fazendo pouco de sua competência.

E quando, enlouquecido pelo orgulho, Golias atacou sem se preocupar com a defesa; David usou a funda com a pedra.

O gigante tombou.

David cortou a cabeça do inimigo com a própria gigantesca espada dele; agarrou pelos cabelos o troféu ainda vertendo sangue aos borbotões; levantou alto a medonha cabeça, exibindo-a, arrogante e despudoradamente, ao estremecido exército inimigo.

O olhar de David estava correto – era aquilo mesmo -, mas alguma coisa estava errada.

Só então percebeu que estava pensando que a estátua deveria ser de mármore negro – negro como ele, Veneno, e não branco.

Sorriu, e finalmente pode curtir totalmente a beleza da obra de Michelangelo.

Mas foi na Praça Saint-Michel, em Paris, com a estátua de São Miguel Arcanjo em bronze – transfigurado num quase extase religioso -; e, caído aos seus pés, Lúcifer – Aquele Que Porta a Luz, o mais belo dos Anjos do Senhor já metamorfoseada em demônio -; foi ali que Veneno comprendeu total e profundamente uma das possibilidades da Obra de Arte.

A  Arte se torna magnífica quando retrata um Grande Momento que pode ser vivenciado pelo ser humano.

E Veneno se reconheceu no Arcanjo assim como tinha se reconhecido no David:

– igualzinho quando ficou no meio dos trilhos de Japeri com Zeno caído a seus pés;

– e igualzinho quando, Ricardão desmaiado com a boca aberta babando, Veneno tinha lentamente lentamente lentamente se aproximado do inimigo; abaixou-se e olhou-o de perto; e em quase êxtase, energisado pela adrenalina que corria loucamente pelas suas veias, ficou novamente em pé, o corpo todo tremendo levemente elétrico, e ergueu os deslumbrados olhos amarelos fosforecentes para o céu.

 

SARTORI / EPIFANIA

Isso tinha acontecido há muitos anos atras.

O tempo passou.

Quando Veneno, comendo uma moqueca de peixe num botequim no dia do jogo do Brasil, percebeu a troca de maletas entre Piu-piu e o Gringo Grandalhão, em frente ao Hotel Copacabana Palace, não teve dúvidas: compra de drogas, das pesadas.

Veneno entrou em alfa, e logo em beta, e gama e delta.

Sentiu calafrios.

Sentia o corpo arder em febre, os cabelos se arrepiaram.

Pouco depois, percebeu com o canto do olho que a luz da suite do terceiro andar do Copacabana Palace – a única que estava apagada – tinha acendido.

Tinha acendido no tempo que demoraria para o Gringo Grandalhão chegar ao seu quarto.

E com a luz que se acendeu na suíte, tambem fez-se luz na mente de Veneno.

Uma calma incomensurável se apossou dele – epifania, sartori.

Veneno, em 2 ou 3 segundos, percebeu tudo ao mesmo tempo:

– as ruas desertas;

– as pessoas nos apartamentos e bares completamente hipnotisadas pelo futebol na televisão;

– a noite que já tinha chegado – todos os gatos são pardos -;

– Piu-piu que partira de carro com as drogas, e o gringo que voltara para sua suíte com a grana de Piu-piu;

– a elegante arquitetura do Copa Palace, com suas colunas de estrias horizontais, quase como uma escada;

– percebeu, até mesmo, que estava vestindo uma roupa tipo moleton bege claro, da cor das paredes do Copacabana Palace – camuflagem perfeita -; e que, alem de tudo, tinha um capuz adendo ao casaco, que esconderia seu rosto.

O corpo de Veneno moveu-se por si só.

Qualquer um diria ser uma loucura escalar a parede do hotel cinco estrelas para entrar no quarto de, talvez, um mafioso grandalhão, atual dono da maleta de executivo que, talvez, estivesse cheia de dólares.

Outros diriam que o bom jogador faz a coisa certa no momento certo; mas só o verdadeiro mestre faz a coisa errada no momento certo.

Mas Veneno estava em outra. Ele era apenas um passageiro atento e lúcido transportado por aquela carcaça de ossos, músculos e sangue – seu próprio corpo -, que se movia rápido e  harmoniosamente por conta própria.

 

 

AS TORRES DAS IGREJAS

Veneno-da-Madrugada matutava com seus botões e relembrava os fatos recentes, acontecidos no Copacabana Palace, enquanto olhava a festa louca que rolava na Praça do Lido.

Alheio ao seu racional, seus pensamentos, aos poucos, recomeçaram a viajar nas lembranças das estórias de seus ancestrais mitológicos – os negros capoeiras, as maltas de 1800s, Manduca da Praia, os malandros de 1920, os mestres Bimba e Pastinha.

Entre estas lembranças havia uma que, naquele momento, o obcecava: é que, por volta de 1830 – época, como vimos, de muitas ocorrências -, pela primeira vez, aparecem relatos de capoeiristas escalando, por fora, as torres de igrejas e saltando sobre os sinos – com perigo de queda e morte -, cavalgando-os, fazendo-os soar inesperadamente de madrugada, ou em dias de festa e procissão, ante o olhar embabascado da multidão. 

As igrejas eram marcos nítidos e importantes das diferentes áreas e freguesias da cidade; e “dominá-las” era simbólico de dominar aquela freguesia.

Esta lembrança das igrejas, que girava e tornava a girar na cachola de Veneno, vinha provavelmente do texto de algum livro do iluminado e luminoso Frede Abreu ou de Waldeloir Rego; ou talvez de uma palestra de Muniz Sodré num evento de capoeira na academia de algum conhecido.

Pode ser.

Mas mesmo assim, Veneno sentia-se confuso e um pouco perturbado.

É que, ao escalar a fachada do Copacabana Palace sem nenhum esforço e sem nenhum preparo prévio, Veneno teve a nítida impressão de já ter realisado façanha semehante muitas vezes, há muito tempo atrás.

E aquela escalada naquele cenário difuso e distante tambem tinha uma trilha sonora: o bimbalhar de grandes sinos de bronze das igrejas de épocas remotas.

 

A CANÇÃO DE VENENO-DA-MADRUGADA

É, meu nome é Veneno,

Veneno-da-Madrugada.

De Iansã eu tenho o raio,

de Ogun tenho a espada.

 

Eu sou livre como o vento,

venho de uma linhagem nobre;

Só respeito o velho Tempo,

com o Tempo ninguem pode.

 

Na roda da capoeira

o meu golpe nunca falha;

Tenho fé no meu Axé

e no fio da navalha.

 

Galo cantou!

côro: Eh, galo cantou, camará!

 

(Nestor Capoeira, 2014; CD A balada de Noivo-da-Vida e Veneno-da-Madrugada)

 

 

INTERMEZZO

 

O bom de escrever livro é poder, a qualquer hora, mudar a estória, criar novos personagens, e até começar a bater papo com o leitor, ou a leitora.

Vejam bem o que está acontecendo:

 

VENENO

 Veneno, um cara firmeza, muito bom de porrada mas sempre na dele, entrou numa grana firme.

Eu diria que, com aquela grana, Veneno poderia curtir uns dois anos na maior. Ou até comprar um conjugado em Copa; ou um quarto-e-sala no Leme, no alto da Ladeira Ary Barroso pertinho da Babilônia e do Chapéu Mangueira, com vista para o mar – duvido muito que ele faça isto.

Fora o recente lance do dinheiro, Veneno sempre teve aquele “probleminha”: um predador alienígena, ou talvez de outra gira cósmica, mora dentro do cara.

Veneno tinha aqueles sartoris e êxtases quando embarcava na Violência. Em Paris – no A Balada de Noivo-da-Vida e Veneno-da-Madrugada -, por pouco ele não assassina o Dr. Turíbio pelo mero prazer de triscar a jugular do gordinho com sua Solingen.

Mas a Escola da Malandragem, e a Malícia da capoeira, fizeram a cabeça de Veneno: ele sabe que quem bate esquece e quem apanha lembra; que Valente sempre morre na mão de Otário; e que etc e tal.

Paradoxalmente, ou talvez deveríamos dizer “complementarmente”, Veneno é um filósofo nato; gosta de observar a vida e as pessoas, e gosta de observar a si próprio.

Sua concepção de vida lembra à de determinados filósofos gregos da antiguidade, que preconizavam a “sabedoria da ação”. Ou então, aos que procuravam determinar o Bem e os meios de alcançá-lo.

Neste momento, Veneno conquistou a possibilidade de viver alguns anos fazendo o que quiser; sem preocupações de dinheiro; no Brasil, ou no estrangeiro, que ele já conhece. Neste momento, Veneno esta livre, leve, e solto; com muita grana e sem compromissos, sem nenhum elo que o prenda à alguem ou a alguma coisa.

 

NOIVO

 Noivo, um jovem que inicialmente só queria ser “mais um jogador, solto no mundo e na vida”.

Mas com o lance da visão clarividente, previra o futuro, e foi mordido pela mosca azul do Poder: resolveu participar ativamente do devir, e “ajudar” o desenrolar dos acontecimentos. Era uma atitude tão Don Quixote que Toninho ria consigo mesmo das pretensões do amigo mais velho e experiente.

Até o dia em que Noivo explicou ao jovem Toninho: “imagina que você pode prever tudo o que vai acontecer; e que dinheiro não é problema; você não ia querer dar uma porrada firme nesta merda que está aí fora?”

Mudar, shapear, o futuro!

É seguramente o sonho de todo super-herói, de todo megalomaníaco, de todo artista!

Mas quando Noivo perdeu sua visão – e seus utópicos sonhos desabaram -, logo em seguida separou-se dos amigos, e finalmente desentendeu-se e se separou de Ingrid.

O mínimo que se pode dizer é que o cara tava fudido.

Mas eis que agora parece que Noivo tomou pé e vai encetar um novo movimento qualquer. O que será?

Uma volta aos ideais de liberdade de sua juventude?

Ou um sucedâneo para a malograda utopia de ajudar a melhorar o mundo?

 

TONINHO

Toninho Ventania amadureceu e se transformou num jovem e elegante Malandro.

Aprendeu as lições básicas sobre o sexo e a sensualidade com mestre Leopoldina, Mr. X, e inúmeros cafetões, cafetinas, gigolôs e putas. Está tendo um sucesso extraordinário com as mulheres.

Esta curtindo o lance, mas tambem esta preocupado.

Toninho se lembra de um período que passou em PortoBelo Road, em Londres; ele, Veneno, Noivo, grana, e muita mulher.

E aconteceu que, no final da gira, e no final da grana, Noivo e Veneno tinham saído fora numa boa. Mas Toninho, que estava curtindo um lance de machão super-potente, tinha ficado bem caído, de saúde e de cabeça.

Mas o próprio Toninho sacava que o problema era que, apesar de conhecer a teoria, apesar de ter posto a teoria em prática numa boa; ele não tinha, naquela época, se livrado de determinados aspectos e fantasias da cultura machista na qual tinha sido criado – no lar, na escola, enfim, no Mundo dos Otários onde eu e você caro leitor, prezada leitora, habitamos.

Será que agora Toninho já tinha crescido o suficiente para viver a vida como um verdadeiro Malandro, e aguentar os retrancos com os quais as mulheres, as pessoas, a sociedade, e todo o Sistema, certamente iriam lhe responder?

Existem, sempre, as respostas “materias” do Sistema; dentre essas, evidentemente, a Polícia era uma instituição com a qual Toninho teria de tomar especial cuidado. Os maridos violentos, idem. Mas esta parte não era tão complicada assim, bastava pisar no chão devagarinho.

O problema maior era saber se ele, ele próprio, já estava livre dos esquemas mentais que castram a liberdade dos indivíduos: a necessidade excessiva de ter Poder, de ser admirado e paparicado, de ter status; a vaidade, o orgulho;  a falta de visão e comprensão a respeito das pessoas e situações.

Será que Toninho já estava “feito”?

 Gato escaldado tem medo de água fria.

 

ESTRANHAS “MEMÓRIAS”

E tem estes lances das “memórias” e “lembranças” dos 3 heróis: as maltas cariocas dos 1800s, os sinos da igreja, as praças como centros nevrálgico-sociais, Manduca da Praia e Sampaio Ferraz, o Cavanhaque de Aço.

Muito estranho.

Tudo bem; são os ancestrais mitológicos do capoeira, e tudo o mais. Mas, mesmo assim, é tudo, tudo muito estranho.

 

OS ESTRANHOS

E tem o Encantado – o Mão de Faca.

E o Predador; o Felino Negro, de uma outra dimensão, que mora dentro de Veneno.

Serão entidades diferentes mas da mesma “área”, da mesma forma que existem diferentes Orixás no Candomblé, e difrentes Anjos e Arcanjos e Demônios na Igreja Católica?

E a visão de Noivo?

Seus planos de intervir no Destino?

Sera que isto tambem não é sinal de algo extra-natural?

E, por outro lado, o extraordinário sucesso que Toninho tem com as mulheres; sera que o Encantado, que está na Terra para curtir os prazeres e desafios da materialidade, está pegando uma caroninha ao acaso com aquelas quatro mineiras maravilhosas?

 Lembrem-se do que Toninho Ventania comentou: “… incendiárias!”.

 

CAINDO NA REAL

Isto está até parecendo aqueles romances de batalhas de Arcanjos e Querubins, misturado com Guerra nas Estrelas, e Carie, a Estranha.

Não é.

Ou, ao menos, espero que não seja.

Pode até querer ser um pouco Matrix.

Pode querer ter aqueles flashbacks, que vão ao passado e voltam, do Pulp Fiction de Quentin Tarantino.

Querer ser um épico tipo trilogia Godfather – tanto nos filmes do Coppola, quanto nos escritos do Mario Puzzo.

Certamente gostaria que este livrinho tivesse a mesma magia que, tiveram na minha infância e pre-adolescência:

– os livros de Tarzan do Edgar Rice Burroughs – coleção Terra-mar-e-ar – ;

– o Sherlock Holmes de Conan Doyle, com seu violino Stradivarius, seus inacreditaveis picos de morfina e cocaína para administrar o tédio, e seus cachimbos de ópio;

– as belíssimas estórias-em-quadrinhos do Príncipe Valente, com os extraordinários  desenhos de Hal Foster;

– e Jack London com o Livro da Jangal, e Caninos Brancos.

Infelizmente não conheci Monteiro Lobato e Mark Twain, na infância.

Quando, adulto,  revisitei aquela ala da galeria, só brilharam alguns do Jack London e os desenhos do Hal Foster.

Já no final da adolescência, na saída dos anos de teenager:

– os Capitães da Areia do Jorge Amado,

– a Trilogia Encarnada do Henry Miller,

– a enciclopédica História dos povos de lingua inglesa do Winston Churchil,

– o Tender is the night e o Great Gatsby do Scott Fitzgerald,

-o Velho e o mar do Hemingway.

Mas já era tarde demais. Eu curti aqueles livros, é verdade. Mas nunca mais re-encontrei a magia das leituras dos livros de aventuras da infância.

Depois, é verdade tive a sorte de conhecer a Grande Arte do Rubens Fonseca, e os livros do Bukowvsky.

Estou divagando.

E apesar de não dever nada a ninguem. Nem de ter de escrever em determinado estilo (pois meus livros anteriores não fizeram um grande sucesso, que seria algo que aprisionaria o escritor àquilo que deu grana). A verdade é que não consigo escrever na maior, sem nenhuma restrição.

Tenho um grande medo.

Medo de ser chato.

Demos uma escorregadinha, é verdade, nos últimos parágrafos deste Intermezzo.

Mas já passou.

E não doeu tanto assim.

 

 

A ESTRATÉGIA DA ESQUIVA

Placido de Abreu foi um jornalista e escritor do fim dos 1800s. Era um intelectual fascinado pela capoeiragem, na época em que as maltas se agrupavam em dois grandes grupos: os Guaiamus e os Nagoas.

Placido de Abreu realmente viveu intensamente a capoeira, seus meandros e infra-estrutura, e nos deixou um livro – Os capoeiras (1886) – que nos proporciona surpreendentes insights do Império da Navalha – tiulo dado, pelos jornais e tablóides, ao conglomerado formado pelos políticos do fim do Império com as maltas de capoeira.

 Há pouco tempo o bando Guaiamu costumava ensaiar os noviços no morro do Livramento, no lugar denominado Mangueira.

Os ensaios faziam-se regularmente nos domingos de manhã e constavam dos exercícios de cabeça, pé, e golpe de navalha e faca.  Os capoeiras de mais fama serviam de instrutores.

… se os chefes (de maltas inimigas, ligadas aos Guaimus e aos Nagoas) decidiam que uma questão fosse resolvida em combate singular, enquanto os dois representantes das cores vermelha e branca se batiam, as duas maltas conservavam-se à distância e, fosse qual fosse o resultado, de ambos os lados rompiam aclamações ao triunfador.

A chegada da polícia desarticulava os dois grupos que fugiam de forma organizada.

Já existia, em 1886, não somente a capoeira com uma identidade e filosofia – a malícia -, mas também um método de ensino racional e estruturado para transmitir, não somente as técnicas – “constavam dos exercícios de cabeça, pé, e golpe de navalha e faca” -, como também o axé e o saber – “os capoeiras de mais fama serviam de instrutores”.

Já existia também uma “ética”: “se os chefes decidiam que uma questão fosse resolvida em combate singular, as duas maltas conservavam-se à distância e, fosse qual fosse o resultado, de ambos os lados rompiam aclamações ao triunfador”.

Além disto, vejam bem: “… os dois grupos fugiam de forma organizada”.

Certamente, além do Valente – um tipo social que existe em todos países do mundo -, já podemos sentir uns ares de malandragem – um tipo de estratégia social inicialmente carioca, e em seguida brasileira -; e de malandragem “organizada”!

Aliás, esta “fuga organizada”, que já é parte da malícia naquela época, vai ser citada por mestre Bimba como característica da capoeira baiana quase cem anos depois, en 1960:

“Quem aguenta tempestade é rochedo”

Ou seja, o capoeirista, que é um homem e não um rochedo, foge quando a parada é dura demais.

Então esta “fuga organizada”, que é citada por Plácido de Abreu em 1886, e também é mencionada por mestre Bimba por volta de 1960, foi incorporada definitivamente à malícia e vai dar na “estratégia da esquiva”, que prefiro chamar, carinhosamente, de A Arte da Esquiva . Em oposição à uma estratégia de “bater de frente”, ou de “bloquear”, de várias artes marciais; algo que tambem vemos no quotidiano extremamente competitivo do mundo Ocidental.

A esquiva, assim como a rasteira (o capoeira desce se esquivando, ao mesmo tempo que derruba o adversário), é parte do jogo; e também da maneira do capoeirista lidar com os “ataques” que sofre no seu dia-a-dia.

Esta Arte da Esquiva tambem poderia constituir parte de “uma maneira de ser brasileira”, poderia constituir um dos fundamentos de uma “Escola Filosófica Brasileira”.

 

 

Fim do capítulo 10

Waldeloir Rego e o seu “Capoeira Angola”

O livro Capoeira Angola, da autoria de Waldeloir Rego, e publicado na Bahia em 1968, é geralmente reconhecido como um livro fundamental para o estudo da capoeira.

 

Waldeloir Rego, reconhecido estudioso da cultura afro-baiana, nasceu no dia 25 de agosto de 1930, na cidade de Salvador, e faleceu na mesma cidade no dia 21 de novembro de 2001.

O seu Capoeira Angola, de 1968, é geralmente reconhecido como um livro fundamental para o estudo da capoeira. Infelizmente, não é fácil encontra-lo. Esgotada a esperança de ver Capoeira Angola — ensaio sócio-etnográfico reeditado pelo autor ou mesmo reimpresso, não podendo entregar cópia digital à comunidade devido à continuação dos direitos autorais, só podemos incentivar a procura em bibliotecas públicas colocando aqui um índice detalhado do livro e a conclusão (capítulo XVII. Mudanças Sócio-Etnográficas na Capoeira), esta na sua integra.

 

Mudanças Sócio-Etnográficas na Capoeira

Primitivamente a capoeira era o folguedo que os negros inventaram, para os instantes de folga e divertirem a si e aos demais nas festas de largo, sem contudo deixar de utilizá-la como luta, no momento preciso para sua defesa. As festas populares eram algo de máximo na existência do capoeira, era o instante que tinha para relaxar o trabalho forçado, as torturas e esquecer a sua condição de escravo, daí farejarem os dias de festas com uma volúpia inconcebida, pouco se lhes importando se a festa era religiosa, profana ou profano-religiosa. As procissões com bandas de música eram o chamariz para os capoeiras e, se tinham um pretexto para arruaças, faziam-no sem a menor preocupação de estarem perturbando um ato religioso. A propósito desses momentos, lembra Gilberto Freyre que:– “As vezes havia negro navalhado; moleque com os intestinos de fora que uma rede branca vinha buscar (as redes vermelhas eram para os feridos; as brancas para os mortos). Porque as procissões com banda de música tornaram-se o ponto de encontro dos capoeiras, curioso tipo de negro ou mulato de cidade, correspondendo ao dos capangas e cabras dos engenhos”. Vivia assim o capoeira em seu status social sem nenhuma simbiose com outro, capaz de modificar a sua estrutura.

[p. 360]

Com o passar dos tempos e cada vez mais crescente a sua fama de lutador e de implantar grandes desordens em fração de segundos, sem possibilidade de ser molestado, conseqüentemente ficando oculto, para quem estava a serviço, o capoeira passou a ser a cobiça de políticos. Serviria de instrumento de luta ora para a nobreza, que dava os seus últimos suspiros, ora para os republicanos, que lutavam encarniçadamente para obterem a vitória sobre o trono, daí os graves acontecimentos que abalaram o país, nos fins do século passado, já anteriormente estudados neste ensaio e registrados por Gilberto Freyre, ao fazer a história da decadència do patriarcado rural e o desenvolvimento do urbano. Com isso, a capoeira, um folguedo por propósito, começa a sofrer mudanças de caráter etnográfico, em sua estrutura — a luta que era um acontecimento passou a ser um propósito. Por outro lado, isso acontecia justamente num período em que a sociedade brasileira chegava ao auge nas suas transformações de base por que vinha passando e “com essa transformação verificada nos meios finos ou superiores, deu-se a degradação das artes e hábitos mestiços que já se haviam tornado artes e hábitos da raça, da classe e da região aristocrática, em artes e hábitos de classes, raças e regiões consideradas inferiores ou plebéias. Foram várias essas degradações; e algumas rápidas”. Como se vê, a capoeira, por uma determinação sociológica, não poderia estar imune a essas transformações.

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Esse estado de coisas veio se arrastando e se desenvolvendo até 1929, com o advento de Mestre Bimba, que tira a capoeira dos terreiros e a põe em recinto fechado, com nome e caráter de academia, onde os ensinamentos passaram a ter um cunho didático e as exibições possibilitaram a presença de outras camadas sociais superiores. Desse modo os quadros da capoeira passaram por modificações profundas. A classe média e a burguesia para lá acorreram, a princípio para assistirem às exibições e depois para aprenderem e se exibirem a título de prática de educação física, daí a 9 de julho de 1937 o governo oficializar a capoeira, dando a Mestre Bimba um registro para sua academia. Um status social superior ao dos capoeiras invade as academias e os afugenta. Os que resistem, por minoria, se esforçam para se enquadrarem no modo de vida do invasor, porém sendo tragados por ele, começando assim a sua alienação e decadência como capoeira. Forçando uma compostura de rapaz-família, exibem-se somente em recintos fechados, salões burgueses, palácios governamentais e jamais onde primitivamente se exibiam, como por exemplo nas festas de largo. Como já tive oportunidade de salientar, em virtude de nenhuma academia querer exibir-se nas festas populares, o órgão oficial de turismo municipal da Bahia convidou várias academias para comparecerem às referidas festas pagando-lhes as exigências. Então houve um cafuso, mestre de uma academia, que, ao saber da finalidade do convite, declinou, alegando ser sua academia freqüentada por uma casta já referida, não podendo misturar-se com o povo de festa de largo.

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Mas o agente negativo no processo de decadência da capoeira, sociológica e etnograficamente falando, foi o órgão municipal de turismo. Detentor de ajuda financeira, material e promocional, corrompeu o mais que pôde. Embora o referido órgão tenha por norma a preservação de nossas tradições, os titulares que por ele têm passado, por absoluta ignorância e incompetência, fazem justamente o contrário, direta ou indiretamente. Lembro-me bem de presenciar um deles interferir na indumentária das academias e os seus responsáveis acatarem pacatamente; e infeliz do que não procedesse assim — estaria banido da vida pública para sempre. Houve época em que as academias eram fantasiadas como verdadeiros cordões carnavalescos, cada qual disputando cores mais berrantes e variadas em suas camisas e calças. Já falei também de um mestre de capoeira que foi consultar um dos diretores de turismo da possibilidade de colocar número nas costas de seus discípulos, como se fossem jogadores de futebol, mas que em boa hora o bom-senso baixara na cabeça do referido diretor, proibindo terminantemente. O fato é que, quanto mais palhaçada faz a academia essa é a preferida do órgão público. No momento em que escrevo este ensaio existe uma academia com amparo financeiro, material, promocional e ainda com direito a se exibir no próprio Orgão, até muito tempo com exclusividade, em detrimento de outras, porém hoje apenas a coisa é mascarada com a presença de uma outra, quando em realidade o órgão não deveria promover exibições dessa espécie, em seu próprio e sim escoar os turistas para as diversas academias. Pois bem, essa academia, que por sinal possui um grande mestre e excelentes discípulos, está totalmente prostituida. Com a preocupação de não perder o ponto, em detrimento de outra, a dita faz misérias, em matéria de descaracterização. A certa altura da exibição, o mestre perde a sua compostura de mestre, diz piadas, conta anedotas, faz sapateado com requebros e apresenta alguém para fazer um ligeiro histórico da capoeira, onde as maiores aberrações são ditas. Depois faz um samba de roda ao som dos instrumentos musicais da capoeira, vindo para a roda sambar, cabrochas agarradas de última hora, passista de escola de samba ou profissional amigo do mestre, que por acaso aparece no local. De certa feita, perguntei-lhe o porquê daquilo, ao que me respondeu que era pra não ficá monoto (ele queria dizer monotono) e o turista ir-se embora. A grande lástima é que essas coisas continuam a ter a cobertura oficial.

Lamentavelmente, o quadro atual das academias de capoeira é esse, variando apenas a intensidade das mudanças sociológicas, etnográficas e o grau de decadência. Nos bairros bem afastados, longe das tentações ventiladas e também talvez porque jamais tenham acesso a elas, existem capoeiristas que praticam o jogo apenas por divertimento, no maior estado de pureza e conservação possíveis e enquadrados no seu status social.

 

Waldeloir Rego
Capoeira Angola – ensaio sócio-etnográfico

 

Rego, Waldeloir, Capoeira Angola – ensaio sócio-etnográfico,
Editora Itapoan, Salvador, 1968 – Obra publicada com a colaboração da Secretaria de Educação e Cultura do Governo do Estado da Bahia. In-8.vo de 400 páginas. Ilustrações de Hector Júlio Paride Bernabó (Carybé).

 

Fonte: http://www.capoeira-palmares.fr/