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Setembro 2016

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Dazaranha: Ginga, Violino e o Hit “Vagabundo Confesso”

Da ginga da capoeira ao incomum uso do violino, o Dazaranha é um caso singular de empatia com SC

Dazaranha ocupa um pódio solitário na música catarinense. Nenhuma outra banda tem um disco de ouro no currículo – a placa dourada veio com as 50 mil cópias vendidas de Tribo da Lua. Dezoito anos depois, nenhum grupo do Estado chegou perto de repetir o feito. Mesmo se tornando referência, o legado desta placa dourada hoje se resume ao próprio Dazaranha – não houve nada parecido com um movimento musical mais amplo surgindo a partir da banda, a não ser grupos de estilos musicais distintos que viam no Daza um exemplo da possibilidade de viver de música.

O grupo de Florianópolis ficou famoso em Santa Catarina e também fora, principalmente no final dos anos 1990, pela mistura quase sincrética de influências, ritmos e instrumentos – da ginga da capoeira ao uso incomum do violino; da proclamação do mané beat a um estilo inclassificável; das letras impregnadas pela cultura local a um caso singular de empatia com o público.

– Quando ouvi Dazaranha notei que estava me envolvendo com algo diferente, que parecia estar em outro idioma. Eu, andarilho do rock, me surpreendi e me apaixonei muito – afirma o guitarrista Luiz Carlini, ex-Tutti Frutti e responsável pela produção de Tribo da Lua.

O trabalho conta com participações de Baixinho (Novos Baianos) e canja de Jorge Ben Jor, tornando-se em 11 faixas o mais emblemático álbum do rock catarinense.

O Dazaranha, que chegara a fazer shows pelo cachê de R$ 10, havia cruzado algumas fronteiras da música profissional e se firmava como referência no Estado. O próximo passo natural era trabalhar o disco Brasil afora. Hit para isso já existia: Vagabundo Confesso, composta por Nestor Capoeira e recriada por Moriel, se firmava como carro-chefe da banda.

– A gente estava fazendo 120 shows por ano. Para uma banda catarinense não é fácil. Mas botava a cara, ia atrás e cutucava o dia inteiro. Uma banda vive de shows, não de discos. E era uma época em que o rock ainda estava bombando. Tinha uma cena bacana no Brasil – descreve Zeca Carvalho, empresário da banda entre 1994 e 1999.

Dazaranha mantém identidade intacta em Afinar as Rezas

Foi por causa dessa cena que muitos músicos do Sudeste passaram por Florianópolis com suas bandas e acabaram levando na bagagem as fitas e discos do Dazaranha. Uma delas foi o Barão Vermelho, do líder e vocalista Roberto Frejat, que certa vez, por e-mail, descreveu a sonoridade do grupo como “uma bela mistura do rock com a sua regionalidade”.

Embora o Dazaranha não tivesse a intenção de deixar a cidade, o empresário e o produtor na época afirmam que os esforços eram pra torná-lo uma atração nacional. Preparando-se para isso, o grupo passa a fazer cada vez mais shows fora do Sul e colecionando admiradores. O grande estrondo, porém, nunca veio. Em 1999, Zeca sai da banda; em entrevista por telefone, Luiz Carlini diz que “o business envolve muita coisa”, mas a arte estava feita. Cinco anos depois, em 2004, o Dazaranha lança mais um disco pela gravadora Atração: Nossa Barulheira, com pré-produção de Carlini e vencedor do Prêmio Claro de Música Independente em 2006. Fez menos barulho que seu antecessor, e a banda se afasta da ideia de “estourar”. 

Em compensação, em uma cidade cheia de melindres culturais como Florianópolis, eles são uma das poucas certezas: de show gratuito no Terminal de Integração do Centro (Ticen) a apresentações noturnas na Life Club, público não falta. De acordo com oMusical Map: Cities of the World – um guia visual e interativo do serviço de streaming Spotify de como as pessoas ouvem música em diferentes cidades ao redor do mundo –, as três músicas mais ouvidas na Capital catarinense são do Daza: Céu Azul,Tribo da Lua e Rastaman.

E durante o verão, quando chegam a levar mais gente que o norte-americano Donavon Frankenheiter ao Riozinho do Campeche, ninguém levanta a mão para discutir o sucesso do Dazaranha.

Vagabundo Confesso é eterno

Embora a maioria das músicas tenha sido composta por integrantes do grupo, os mais famosos versos entoados pelo público são de autoria do carioca Nestor Capoeira – o que significa que o Vagabundo Confesso, elevado a uma espécie de hino da vida no litoral de Santa Catarina, está mais para Copacabana do que para Praia Mole. Nas mãos do guitarrista e compositor Moriel Costa, a canção original, uma ladainha de capoeira, foi complementada com o canto conhecido como puxada de rede, ganhando ritmo e melodia.

– O Moriel foi parceiro dessa canção, foi ele quem lapidou e deu arranjo, transformando aquilo em uma música. Embora ele não assine, para mim ele é coautor – destaca Luiz Carlini.

O hit ganhou diversas regravações de artistas brasileiros, entre eles Dora Vergueiro, Katia Nascimento e Ratto.

 

Fonte: http://dc.clicrbs.com.br/

Aos 48 anos, Rosa Costa se torna a primeira mestra de capoeira de Santa Catarina

Mesmo com 35 anos no esporte, ela enfrentou dificuldade para conseguir a graduação

A primeira mestra de capoeira de Santa Catarina é natural de Florianópolis e moradora de São José. Rosa Cristina da Costa tem 48 anos, 35 deles se doando ao esporte e 18 ensinando crianças, jovens e idosos. O evento de graduação ocorre neste sábado (24), no Encontro Nacional de Capoeira, em São José, onde Rosa trocará a corda roxa e vermelha – de contramestra da escola Capoeira, Educação, Cultura e Arte – pela branca.

Há oito anos a roda de capoeira e o ofício do mestre de capoeira são reconhecidos como patrimônio cultural brasileiro pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Além disso, um projeto de lei do vereador Andrino de Brito está tramitando na Câmara de Vereadores de São José para criar o Dia Municipal da Capoeira, do Mestre e da Mestra de Capoeira na mesma data em que Rosa vai se formar.

O primeiro contato de Rosa da Costa com a capoeira foi aos 13 anos, incentivada por um cunhado, quando assistiu a uma roda na Berimbau de Ouro, academia pioneira no ramo em Florianópolis, pertencente ao mestre Pop. Ela sempre gostou de esporte, e quando decidiu fazer capoeira a família entendeu como sendo “só mais um”. Mas a diversão tomou outros rumos, e hoje, além de esporte, é a profissão e a vida da capoeirista.

O jogo/luta/brincadeira é originário do século 17 e um dos maiores símbolos da identidade brasileira, presente em todo território nacional, além de ser praticado em mais de 160 países, segundo o Iphan. Em Florianópolis, a capoeira chegou na década de 1970, e nessa época, a mesma em que Rosa começou, apenas três mulheres praticavam – e a inspiraram. Depois disso, suas referências passaram a ser masculinas, porque as mulheres não resistiam nos grupos, já que o esporte é predominantemente masculino.

Depois de treinar até o final dos anos 80, Rosa se arriscou no bicicross, se formou em pedagogia e educação física, fez pós-graduação e começou a dar aulas. Ela não aguentou ficar longe da capoeira, e ainda viu que o esporte poderia ser ensinado dentro das escolas. Nesse período, a capoeirista passou pelos grupos Nação, Au e pelo projeto Capoeira na Escola.

Atualmente, a até então contramestra dá aulas de capoeira na Apae de São José, no CAT (Centro de Atenção à Terceira Idade) e em seis escolas do município, e cada grupo ela afirma proporcionar um aprendizado diferente. “Meu público é diversificado, nos idosos é maravilhoso ver uma senhora de 70 anos brincando em uma roda. É claro que ela não vai ser uma exímia capoeirista, no formato que a sociedade impõe, mas ela está ali, inserida, se sentindo importante, as pessoas olhando para ela com carinho, respeitando, o que para mim não tem preço que pague”, justifica ela. Na Apae, a proposta é diferente. “Eles dão uma lição na gente o tempo inteiro, trazem alegria, é uma energia sincera, tem muito amor naquelas pessoas. Quando eu comecei tive receio sobre como atuar, mas foi algo fenomenal que eu não quero parar”, diz.

Mas é na escola que Rosa vê um retorno direto do que faz, muito além da profissão como educadora, mas como ser humano. “Minha alegria é ver aquela criança que passou pelas minhas mãos dizer que o que eu falei na aula ela levou para a vida. Que está estudando, trabalhando, nunca se envolveu com drogas, sabe discutir política, é honesta e respeita os outros. É incrível saber que você colaborou de alguma forma usando a capoeira como ferramenta para auxiliar alguém”, sintetiza.

Dúvidas e muito preconceito

Rosa Cristina da Costa afirma que o caminho até o título de mestra não foi fácil. Prova disso é que um homem capoeirista chega ao título máximo com 15 anos de experiência, enquanto ela, após 35 anos no esporte, ainda vê pessoas que conhecem seu trabalho duvidando do merecimento que reclama e persegue. “Ainda existe uma exigência muito grande do homem em enxergar a mulher no mesmo nível que ele, sentar na mesma mesa, conversar com igualdade, cantar, tocar, é muito preconceito. Por isso, poucas mulheres resistem às barreiras, como confrontar com o homem na roda para eles falarem que é boa e treinada. Poucas aguentam esse confronto diário”, aponta.

O título finalmente chegou este mês, pois, segundo ela, com o tempo o trabalho vai sendo reconhecido, divulgado, e aí chega um momento em que a sociedade capoeirística começa a chamar de mestre. “Acontece também de um mestre que te conhece e acompanha o teu trabalho falar que está na hora. Quem me chamou e disse isso foi o mestre Gringo, de Lages, que tem mais de 40 anos de experiência”, explica.

Rosa é determinada, afirma que confronta os homens, discute na roda e isso os incomoda, mas diz que é preciso se mostrar firme para provar que também tem qualidade, que estuda, que viaja o país pela capoeira e que procura passar as informações para os alunos da maneira mais adequada.

Perguntada sobre o que vai mudar com o título em mãos, Rosa diz que a responsabilidade será sempre a mesma, a diferença é que agora ela vai poder sentar à mesa de um evento com vários homens mestres e colocar sua opinião. “Sempre falo que agora é que eu vou aprender. Agora, não chegou o fim de nada. Agora é a parte mais difícil, o começo de tudo”, conclui.

 

Fonte: http://ndonline.com.br

KARIN BARROS, FLORIANÓPOLIS