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Agosto 2017

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Boneca, capoeirista piauiense é destaque em competição mundial

Boneca, capoeirista piauiense é destaque em competição mundial

Anne Nathielly subiu ao pódio no 9º Campeonato Mundial de Capoeira do Muzenza

Pouco depois de uma semana que o Piauí virou notícia nacional com a escolha de Monalysa Alcântara como Miss Brasil, outra piauiense eleva o nome do Estado ao se tornar vice-campeã no 9º Campeonato Mundial de Capoeira Munzenza.

 

A jovem capoeirista Anne Nathielly, a Boneca, como é conhecida no mundo da capoeira, integrante do grupo Raízes do Brasil/JF-PI, competiu neste sábado 26 de Agosto no 9º Campeonato Mundial de Capoeira realizado pelo Grupo Muzenza, que aconteceu em Fortaleza-CE, com atletas do mundo inteiro.

 

Boneca, capoeirista piauiense é destaque em competição mundial Capoeira Mulheres Portal Capoeira

Maria Clara Melo acompanhada das capoeiristas que ficaram em 1° e 3° lugar na competição (A direita com a medalha de 2° lugar)

 

Boneca esteve representando José de Freitas a nível mundial e não voltará a sua terra de mãos vazias, pois a mesma consequiu medalhar, conquistando a terceira colocação, ficando entre as 3 melhores do mundo em sua categoria.

Contemplações: Capoeira e Política

Antes de começar, gostaria de falar diretamente à você, leitor (pelo menos, espero que tenha alguns). A vida de um colunista é meio isolada: a gente começa cada vez de novo com um papel em branco, e confìa nossas palavras ao mundo digital sem ver ou escutar a reação do público. Será que eles entenderam o que eu queria dizer? O que eles pensaram sobre isso? Será que eles lêem mesmo?

Então, aqui gostaria de dizer que como colunista, eu adoro ter reações, positivas ou críticas sobre os temas, das colunas. Isto pode ser feito no site mesmo, onde o Portal Capoeira tem a possibilidade de reagir, mas também em mensagem privada, por exemplo no capofilosofo[a]gmail. Eu acho que é importante ter feedback, para manter contato com o mundo em que a gente escreve.

Esses últimos dois meses eu estive (e ainda estou) viajando pelo Brasil, por razões óbvias: a capoeira. Ao lado de rever amigos, conhecer novos lugares, pessoas, escolas e estilos de capoeira, essa viagem também faz parte de uma pesquisa empírica que estou fazendo para o meu doutorado, que se trata de teoria política, educação e capoeira.

Viajando pelas cidades tenho encontrando várias pessoas, capoeirista ou não, envolvidas nos movimentos negros, feministas, anti-sexistas ou pela paz; estou vendo como estes assuntos também estão sendo tratados em vários grupos de capoeira. Porque, a capoeira é uma reflexão da sociedade onde ela está, pois não? Andando por um país onde a presidenta legítima, foi impedida de terminar seu mandato devido à um processo definido por muitas pessoas como um golpe de estado. Onde o presidente atual se encontra numa situação de impunidade, construída pelo próprio parlamento, apesar de várias denúncias. Num país, que se desdobra a corrupção, onde uma nova lei de trabalho é instalada, diminuindo ainda mais os direitos e condições dos trabalhadores; um país que é o berço da capoeira. Me lembrei de uma frase que ouvi em várias formas, e vários lugares: que “a capoeira não é – ou tem – política.”

 

Deixa-me primeiro esclarecer a última contestação: Eu acho bastante incoerente. Alguma coisa que podemos demonstrar facilmente com a história de capoeira: talvez a gente não consiga definir exatamente o que é a capoeira, mas a gente sabe qual foi a situação em que ela nasceu. Vários historiadores e antropólogos já pesquisaram e escreveram sobre a história da capoeira, e muitos livros e textos, acadêmicos ou não, já foram escritos tratando o assunto. Foi uma situação de cativeiro, de banzo, de opressão e de violência. Nada novo aqui.

É por isso que vários mestres falam que a capoeira nasceu de uma ânsia de liberdade; liberdade dessa opressão, da escravidão, e da violência. Nesse aspecto, é talvez contestável ver a capoeira em si como um movimento político, igual um partido político ou até um movimento popular como o abolicionista. Mas acho, que devemos ver a capoeira como uma manifestação política em si. E não só no Brasil. Agora, para poder abordar isto melhor, é necessário primeiro explicar o que eu entendo pela palavra ‘política’.

O uso popular da palavra política normalmente é entendido em um desses dois sentidos: o primeiro é o sistema governamental de um país, estado ou cidade, o segundo as interações entre pessoas e/ou institutos que são motivados por algum interesse material ou ideológico: o que é chamado, às vezes, também de jogo de poder.

Mas, se vemos o conceito de política que pensadores políticos de hoje como Jacques Rancière ou Alain Badiou dão à palavra política, fica difícil entender essas definições ainda como verdadeiramente política. Caso, a gente pense que a palavra ‘política’ deveria ser conectada com um conceito de verdade.

Um pequeno problema aqui, é a língua portuguesa: onde a palavra ‘política’ é tanto substantivo, adjetivo ou advérbio. Quando, por exemplo, no Inglês há ‘politics’ e ‘the political’, para indicar duas coisas diferentes. ‘Politics’, para o uso da palavra ‘política’, a qual eu considero o processo de governar um país, estado ou cidade; e as interações motivadas pelos interesses pessoais ou institucionais que acontecem em nosso dia-dia.

The political’, que aqui traduzo como ‘o político’ por falta de outras palavras, não tem nada a ver com essa definição. ‘O político’, seguindo autores como Rancière1 e Badiou2, é aquele que de repente aparece numa situação como algo que sempre pertencia numa situação, mas nunca era incluído em termos de consideração, porque não era contado como tal, era excluído. Como por exemplo, as pessoas refugiadas que ficam ilegais num país, não são incluídas na contagem de cidadãos deste país. Mas como eles pertençam a essa situação (eles estão lá), no momento em que eles aparecem, o aparecimento deles exige que eles sejam incluídos, e isso força a situação: dividindo a situação existente entre as partes que incluem esse ‘novo’ elemento, e aqueles que não o incluem. Assim, mudando a situação.

Nessa perspectiva, o político é algo que sempre discorda com a situação existente, porque foi excluído disto, não foi contado, mesmo pertencendo a ela. No momento que esse elemento surge e exige ser incluído, ele mexe com a nossa percepção da situação e da realidade, e a transforma. Porque se faz necessário o espaço de inclusão daquele elemento na nossa percepção. A partir desse conceito de “político”, vemos uma diferenciação com o que chamamos de política.

 

A capoeira tem bastante intimidade com a política: seja com as políticas internas dos grupos ou entre grupos, seja com os seus procedimentos e relacionamentos no campo governamental: as políticas municipais, estaduais, nacionais e até internacionais, como por exemplo o reconhecimento pela ONU como patrimônio cultural imaterial da humanidade, ou as tentativas de regulamentação da capoeira pela lei em vários países. Nesse aspecto, a capoeira não é política (e na minha opinião nem deveria ser), mas interage com, e às vezes está sujeita à, ela.

No segundo conceito, “o político”, a capoeira é um “político” sim, ou pelo menos oferece espaço para ele aparecer: como manifestação popular e cultural, ela sempre deu palco e representou o marginalizado, o excluído, aquele/a que não foi contado, mas pertencia à sociedade. Hoje em dia ela ainda tem essa função como plataforma, como um lugar onde “o político”, o oprimido, pode se manifestar.

Eu acho, que é por esta razão, que hoje em dia existe uma simbiose entre movimentos como o movimento negro, feminista, ou da paz, e a capoeira. Porque ela, a capoeira, sempre foi e será uma manifestação do “político”, que no momento foco nesses movimentos.

Mas se ela é uma plataforma para “o político”, talvez seja a hora de a gente começar a pensar como se posicionar diante ela. Porque “o político” pode aparecer, mas para poder mudar algo, ele precisa de um sujeito: aquela/e que dá continuação naquilo que apareceu e que foi visto.

 


1 Ler por exemplo Rancière, J. (2010) Dissensus: On Politics and Aesthetics, transl. S. Corcoran, London, Continuum.

2 Ler por exemplo Badiou, A. (2005) Metapolitics, transl. J. Barker, London, Verso.

Capoeira e informação ao longo da história

Capoeira e informação ao longo da história: A busca por conhecimento sobre a “nega mandingueira”

Em meados dos 80, quando a capoeiragem passou a fazer parte de minha vida, acesso a informação sobre nossa arte era algo quase que impossível. Quem tinha livro, disco, fita cassete, revista, cópia de jornal que aparecia a capoeira não emprestava. Tudo era “negociado” a peso de ouro.Em meados dos 80, quando a capoeiragem passou a fazer parte de minha vida, acesso a informação sobre nossa arte era algo quase que impossível. Quem tinha livro, disco, fita cassete, revista, cópia de jornal que aparecia a capoeira não emprestava. Tudo era “negociado” a peso de ouro.

Capoeira e informação ao longo da história Capoeira O Capoeireiro Portal Capoeira

Lembro-me quando Mestre Miguel Machado chegou em Piracicaba-SP com algumas poucas cópias do disco em vinil do Mestre Ezequiel. Em 5 minutos os que estavam em frente ao “escritório” (i.e. boteco da esquina) pegaram suas cópias. Lá estavam Mestre Valtão (Valter Farias), Mestre Boca (Oswaldo Negretti), Gabriel, eu e meu mano “Cabeludo”, Candinho que foi meu primeiro professor, diversos outros camaradas e, é  claro, nosso saudoso Mestre Cosmo. Tal disco influenciou muito nossa parte rítmica em cantada, pois desde então, diversos amigos “emprestaram” cópias em fita cassete. O jovem Mestre Vaguinho (Vagner Farias), discípulo de Mestre Valtão, até hoje ouve o disco. Tanto é que, Mestre Moreno (Almir José da Silva) [ou Morenias], chama Vaguinho de Ezequié Paulista.

Voltando ao assunto principal, para se conseguir um livro emprestado era um sacrifício. Lembro-me de quando Mestre Cosmo conseguiu um xerox do livro “Capoeira Angola – ensaio sócio-etnográfico” (1968) de Waldeloir Rego foi um deus nos acuda. Todos queriam ter cópia, mas faltava “cascaio”. Logo, “xerocávamos” apenas o capítulo introdutório, que já era um grande ganho. Tal livro, na época atual e hoje merecendo uma releitura, suscitou muitas discussões nas sucessivas reuniões “no escritório” da R. Voluntários.

A era das listas de discussões

Dando um salto cavalar na história sobre a busca por informações, por volta dos anos 2000, a moda era as Listas de Discussões. Ali se discutia de tudo sobre nossa arte: a) onde “nasceu” a capoeira; b) se um mestre era mestre mesmo ou não; c) se pertencia ou não a uma determinada linhagem; d) capoeira é esporte, cultura etc?;  e) se a capoeira iria ou não para as olimpíadas; f) qual a formação correta e quais os instrumentos da capoeira primitiva.. e la nave vá…

Duas grandes figuras neste processo foram os camaradas Mestre Jerônimo/Austrália e Alberto de Bauru (na época fazia parte da Confederação Brasileira de Capoeira-CBC). Jerônimo recarregava suas energias na Bondi Beach/Sydney, enquanto seu computador ficava 24h por dia recebendo mensagens. Chegava ele no computador e lá vinha algo para despachar. As vezes o repasse era tranqüilo, mas vez ou outra ele tinha que “matutar” se enviava ou não a mensagem. Ele mesmo dizia abertamente: Vocês fazem as besteiras com a capoeira ai no Brasa, e eu aqui na AUS que tenho que decidir se circulo ou não os assuntos? Bastava um clique e o ebó circulavam pelos sete mares por meses – tem mensagem que circula até hoje.

O Jornal do Capoeira e o Portal Capoeira

Em 2004 lancei o Jornal do Capoeira [1]. Foi uma experiência super gratificante, pois na ocasião estabelecemos uma rede de mais de 30 colaboradores espalhados pelo Brasil e pelos Brasis afora. André Lacé, Tonho Matéria, Benedito Bené, Vagner Astronauta, Luciano Milani, Leopoldo Gil Vaz, Sérgio Vieira (FICA), Mestre Squisito, Leticia Vidor, Marieta Borges Lins e Silva, Eurico Barreto Viana, Jose Luiz Cirqueira “Falcão”, e tantos outros.

Durante o processo o amigo Luciano Milani, que começou a capoeira em São Paulo nos idos dos 80, na época radicado em Mogadouro, Portugal, entra em contato e faz uma proposta. Ele, mestre nas artes internéticas, tinha um projeto audacioso: criar um portal multifuncional para documentar nossa arte. Foi uma grata surpresa, pois embora o Jornal do Capoeira funcionasse como um “semanário” da capoeira – sim, toda 2a feira uma nova “edição” virtual ia ao ar – ele estava limitado a textos e fotos. Foram meses de interação com o amigo Milani até que PortalCapoeira [2] “pegou”. E pegou para ficar! Em 2006, por motivos de estudo de doutorado, meu projeto Jornal do Capoeira [com suas mais de 1000 matérias, crônicas, notícias, clássicos da literatura etc] precisou ser paralisado.

E desde então, tanto as listas de discussões por emails, alimentadas pelos Mestres Jerônimo, quanto o PortalCapoeira.com são as fontes mais “sólidas” de informação acessível a todos “pelo mundo afora, camará..”.

Vez ou outra, quando surge alguma dúvida, é no Jornal do Capoeira, no PortalCapoeira ou nas Listas de Discussões (todas tem repositórios arquivados continuamente) que busco primeiro as informações.

Capoeira: estudar é preciso

Capoeira e informação ao longo da história Capoeira O Capoeireiro Portal Capoeira 1

Hoje pela manhã, enquanto revisava um artigo científico de um de meus alunos de doutorado sobre conservação do Mico Leão Dourado, recebo um questionamento do Prof. Verga (Ederson Renato), responsável pelo ensino de jovens capoeiras do projeto “Brincando de Gingar”, da entidade Legião Mirim/São Pedro-SP, sob coordenação de Waldir Campos:

“Miltinho, onde eu busco mais informações sobre a influência do samba de roda, samba de recôncavo e outras vertentes musicais sobre a musicalidade da/na capoeira?”

E complementa: “Estou aqui navegando entre o Jornal do Capoeira e PortalCapoeira com meus alunos, mas gostaríamos de adentrar mais no assunto”

Capoeira e informação ao longo da história Capoeira O Capoeireiro Portal Capoeira 2

Como ponto de partida sugeri adquirir o livro-CD-DVD “A cartilha do Samba Chula”, ouvirem as gravações “O Recôncavo Baiano: Samba em Roda” [3] e “Samba de Dona Dalva Damiana”. Claro, tem muita fonte riquíssima e que deve ser pesquisada. Mestre Raimundinho, um excelente cantador da Capoeira Angola no Estado de São Paulo, lembra que seu amor pela arte de cantar veio da infância, quando ele ainda criança se reunia na casa de amigos de seus pais para recitar contos vindo da literatura de cordel. Fica a dica!

Enquanto finalizo esta crônica sou interrompido pelo porteiro eletrônico. Por correio, recebo –em primeira mão um– um exemplar do livro “Capoeira: uma Arte Indígena do Brasil – Fundamentos e Tradições”, de autoria do Contramestre Pelicano (Douglas Tessuto), Grupo Muzenza de Santa Gertrudes. Claro, o assunto é bem provocativo, o que, certamente, vai suscitar inúmeras discussões nas próximas décadas. Voltarei ao assunto tão logo tenha lido o livro.

Capoeira e informação ao longo da história Capoeira O Capoeireiro Portal Capoeira 3

O livro é uma compilação de informações que Pelicano reuniu em mais de 20 de pesquisa, e tudo respaldado por entrevistas e documentos históricos. O lançamento oficial vai ocorrer em breve durante o Mundial Muzenza, em Fortaleza/CE.

Vai daí que, a leitura do livro, é um ótimo ponto de partida para todos os membros da Liga Rioclarense de Capoeira. Afinal, não é sempre que alguém “da região” publica algo que pode dar um “sacode” na historiografia de nossa arte.

 

Capoeira e informação ao longo da história: A busca por conhecimento sobre a “nega mandingueira”

 

Iê dá volta ao mundo. Iê dá volta ao mundo, camará…

 


  • [1] www.capoeira.jex.com.br
  • [2] http://portalcapoeira.com/
  • [3] https://www.youtube.com/watch?v=eeTeLqMhOdY
  • [4] https://www.youtube.com/watch?v=LpT0SDz-gx0