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Novembro 2017

Vendo Artigos de: Novembro , 2017

O Mestre de Capoeira

O Mestre de Capoeira

O Mestre de Capoeira é a Semente

Mestre não é somente uma palavra,
A palavra é um símbolo que se revela como uma incógnita,
Procurando seu significado mais profundo.

O Mestre é a substancialização do verbo gingar.

O concreto que reveste a armação.

Ele é a essência e o resultado de uma longa história,
A semente que produz a raiz e a árvore.

O jovem mestre ainda não é o Mestre,
E a estrada o chama para sua própria revelação.

O Mestre é atemporal, é acrônico.
Ele sintetiza do TODO.

Analogamente a célula de qualquer tecido ou órgão de um corpo
Releva a identidade do todo.
Ela decifra o código, a similaridade.
Ela não é somente uma célula, ela a é a síntese.

O TODO é o significado da capoeira em nossas vidas, na vida de cada um.

Um Mestre é a célula do TODO, ele revela a sua similaridade com o TODO.
Ele não é somente uma “célula”, ele é a síntese, um código, a identidade, a semente.

Os mestres jovens não são a síntese,
Eles estão no caminho
E esse caminho é o Mestre.

Os mestres jovens não são a semente,
Pois no Mestre habita a sabedoria, forjada a ferro e a fogo.

Os mestres jovens não são a identidade da capoeira,
Portanto há neles o DNA, o legado.

O carimbo, a marca, o signo a essência está no corpo, na alma e nos olhos dos Mestres.

Ambos são contemporâneos, entretanto, de gerações distintas.

Andam, jogam e cantam nas mesmas rodas.
Todavia , um anda, joga e canta há muito mais tempo.

Eles fizeram e ainda fazem o que os jovens ainda não fizeram.
Eles testemunharam o que os jovens não viram,
E construíram a estrada para que os jovens,
Possam transpô-la com segurança.

Eles são a bússola e os jovens os pés, a procura do caminho.

O jovem é inquieto, impaciente, audaz, ousado e impulsivo,
E isso é natural, por sua natureza.

O Mestre é tranqüilo, observador, contido, equilibrado
E isso é natural, por sua natureza.

Há no Mestre um significado de vida,
Na consecução de uma jornada concluída.

Os Mestres antigos representam o passado e o presente.
Os mestres jovens representam o presente e o futuro.
Quando existe a conexão entre estes dois
Substancializa-se o significado histórico da Capoeira.

Toda criança se torna jovem
Todo jovem se torna adulto.
Todo adulto envelhece.

 

O Mestre de Capoeira é a síntese, o significado, a essência, o gênesis, a semente.

 

Adelmo Lima – Capoeirista

 


Entrevista com Mestre Adelmo

 

 

  • Facebook: https://www.facebook.com/mestreadelmo

Contemplações: A Violência e a Capoeira 1ª Parte

Contemplações: A Violência e a Capoeira 1ª Parte

Vendo as rodas onde eu fui e vou, ouvindo os discursos de vários mestres, grupos e estilos que encontro, uma coisa me parece mais e mais clara: a relação entre violência e capoeira é bem ambígua.

Há golpes e quedas numa roda que são violentos, ao mesmo tempo que em outras rodas não são; há discursos que falam da não-violência, e lutam pela paz; existem tapas educados e comportamentos brutos. Se fala que um estilo de capoeira é mais violento que o outro; que hoje em dia a capoeira já não é mais tão violenta que já era (nos anos ‘80s e ‘90s), ou até mais violenta mas menos perigosa (o saudoso mestre João Pequeno), e que não deveria bater no aluno, porque aluno cresce (então pode bater no professor?).

Há mestres que dizem que capoeira é luta até a morte, e há outros que querem eliminar dela qualquer signo de violência. Há buscas de influências das outras artes marciais, e capoeiristas que querem se meter nas lutas de ringue. E há movimentos ‘pelo paz’, literalmente – como o ‘Ginga pela paz’ – e outros influenciados pelas teorias e práticas não violentas como a de Rosenberg.[1]

Capoeira é dito um jogo, e a gente diz que quando se torna briga, para de ser capoeira. Mas capoeira também é um arte marcial – talvez a arte marcial com a relação mais problemática à violência – então é luta também. E luta não tem violência não? Então, como é que é?

Contemplações: A Violência e a Capoeira - Capoeira Portal CapoeiraPara tentar entender, voltamos primeira para a história da nossa arte: A relação entre a capoeira e a violência na história sempre parece ser de ambiguidade. capoeira nasceu de uma situação violenta, que era a opressão e exploração do cativeiro. A gente conhece as histórias; capoeira é luta, ela precisava se adaptar ao contexto, até que no início de desenvolvimento dela, usava golpes simples mas violentos, como a cabeçada, o coice e a banda, fora das várias armas às vezes usadas também. Era uma coisa violenta mesma, que precisava ser, para sobreviver.

Isto não parou depois da abolição – a capoeira se encontrou sempre nos períodos e situações violentas: as maltas de Rio de Janeiro, as bandas no Recife, a guerra do Paraguai, a proibição da prática durante o Império, os valentões, e a própria marginalidade em que ela se desenvolveu e dentro ela sempre se movimentava, mesmo depois a divulgação dela fora das classes populares e a expansão pelo mundo.

Como um arte marcial, como luta pela liberdade, capoeira sempre teve uma ligação forte com a violência, será a violência do opressor, de estado ou da rua. E é por isso que os golpes dela primeiramente eram eficaz antes de ser bonito, e um capoeirista não era qualquer um: deveria poder lidar com a violência que ela(e)encontrava no percurso. Foi uma razão principal do porque o mestre Bimba decidiu desenvolver a luta regional Baiana; porque achava que a capoeira da sua época não podia mais enfrentar esta violência real, nem a competição das outras artes marciais estrangeiras que fizeram fama no Brasil na época.

Só que isto não é a história toda. Porque antes de fugir a senzala, de lutar com o opressor, o escravo também precisava viver e suportar a sua situação. Quer dizer que além de ser luta, a capoeira também é visto com uma forma de resistência cultural, uma expressão Afro-Brasileira que reforça a identidade e o espírito do Africano capturado, trazido para Brasil nas condições horríveis e destinado para fazer trabalhar forçado até o morte. Uma expressão cultural como a do candomblé e o samba. Expressões que ajudavam ele(a) a suportar essa condição e de não entregar a alma.

Uma resistência de alma, ou de espírito, não se faz com a violência; ela é uma resistência contra a violência física, muitas vezes por falta das outras medidas. É uma resistência do oprimido, do submetido. Então a estratégia deve ser diferente. É por isto que nesta interpretação – ou perspectiva – da capoeira, a violência é muitas vezes visto como algo alheia, algo de uma sociedade opressora que deveria se batalhar de outras formas. Algo que não deveria se copiar, para não incorporar o estado espiritual de opressor. Vem de lá a interpretação da capoeira como jogo, onde o lúdico virou um elemento muito mais importante. Porque a gargalhada desarma qualquer poder opressivo.

Os desenvolvimentos mais recentes de capoeira mostra uma flutuação entre essas duas interpretações: Quando a capoeira era mais violenta e marcial nos anos ’80 e ’90, nas últimas décadas vimos mais foco na perspectiva do jogo e o lúdico. Hoje em dia acho que podemos ver essas duas linhas de pensamento e interpretação nos vários estilos e tradições de capoeira. Sempre entrelaçadas; não há uma capoeira que é só lúdico, sem nenhum aspecto marcial, nem uma capoeira que é só de bater. Porque nos dois extremos costumamos dizer que ‘não é mais capoeira’.

Tudo bem. Mais então é isto? O estilo e a interpretação da capoeira determinam a relação com a violência dentro a capoeira? E um estilo é então quase nunca violento, e o outro quase sempre? Talvez é um pouco mais complicado que isto. Voltamos na próxima.

 


[1] Rosenberg, M.B. (2015) Non-Violent Communication: A language of life. Third Edition, Encinitas, PuddleDancer Press.

Uma História para partilhar… E se fosse você?

Uma História para partilhar… E se fosse você?

Essa é a história de Louise. Mas também é a sua, a minha, a de todos nós.

Quem nunca se machucou numa roda de Capoeira?

Qual capoeirista nunca foi a um hospital após um acidente no treino ou na roda?

Quem nunca chorou por estar impossibilitado de jogar devido a uma lesão?

↘️Quantas vezes já escutamos que uma pessoa machucada por um chute ou uma queda era culpada porque “deveria ter esquivado” ou então porque não havia “treinado o suficiente”?

↘️Quantas vezes já vimos pessoas saírem lesionadas das rodas e terem que se virar, indo sozinhas a um pronto-socorro, impossibilitadas de trabalhar no dia seguinte e precisando gastar dinheiro com remédios?

 É hora de pensar no que queremos para a Capoeira.

Assista o vídeo, emocione-se, reflita.

Comente e compartilhe.

 

Texto originalmente partilhado no Facebook do nosso amigo e colaborador Mestre Ferradura – Omri Ferradura Breda


Nota do Editor:

Pois é meu amigo Omri Ferradura Breda… Acho que o vídeo é fundamental para que possamos perceber que esta conexão tem uma nuclear necessidade de se fazer valer… Todos nós já passamos por isso… De forma mais leve ou até mais difícil… Este tipo de postura é reflexo da nossa vida…

Ajudar, preocupar, querer bem… É algo que infelizmente não é comum dentro do nosso contexto…

E só quem já passou por isso, só quem sentiu na pele, nos dentes, no nariz, nas costelas… Só quem passou horas no hospital é que entende… O tapinha nas costas… O tá tudo bem… O levanta não foi nada… Tá atrapalhando a roda…

Deveríamos refletir sobre isso com urgência e carinho… Capoeira ajuda Capoeira…

Luciano Milani

Lançamento do livro : Favela, o mundo desconhecido

Lançamento do livro : Favela, o mundo desconhecido

Trecho do livro de Marcelo Santos < Mestre Pulmão – Grupo Senzala >

Marina desligou o telefone e pensou com ela mesma: Preciso voltar para Honório Gurgel agora!

Tudo está acontecendo naquele lugar!; alguma coisa me diz que esse dia vai ser inesquecível na minha vida!; este meu sentido de jornalista ainda vai me trazer muitos problemas, ou talvez vai me dar o prêmio de melhor jornalista do ano!; é!, preciso voltar lá agora!

– Chefe!, por favor, me arruma um motorista pra me levar em Honório Gurgel? – Marina, você acabou de chegar de lá…!

 

Favela, o mundo desconhecido

  • Para você que trabalha com projetos sociais
  • Para você que quer saber mais das vidas das crianças de ruas
  • Para você que quer saber mais sobre a minha história

 

 

Quando: Terça-feira, 21 de Novembro às 19:00 UTC-02

Onde: Multifoco Bistrô Av. Mem de Sá, 126, 20230152 Rio de Janeiro

 

Fonte: Marcelo Santos < Mestre Pulmão – Grupo Senzala >

 

 

Núcleo SP de Capoeira Semente do Jogo de Angola comemora 15 anos

Núcleo SP de Capoeira Semente do Jogo de Angola comemora 15 anos

O evento dos 15 anos será nos dias 10, 11 e 12 de novembro. Veja a programação e saiba como se inscrever!

O Núcleo SP do Grupo Semente do Jogo de Angola irá comemorar seus 15 anos de Capoeira com diversas atividades no próximo final de semana (10, 11 e 12 de novembro). Toda a programação acontecerá no local do Semente, próximo ao viaduto da Washington Luís, na Avenida Vereador João de Lucca, 41, Zona Sul de São Paulo.

Na sexta-feira, as atividades serão gratuitas, com a recepção a partir das 19h. Depois, a noite se adentra com Roda de Capoeira, Samba de Roda e Sarau da Madrugada Especial dos 15 anos de Semente/SP.

No sábado e domingo, as atividades tem o valor de 120 reais ou 160 com almoço incluído. Serão aulas, bate-papo, rodas e confraternização. As inscrições devem ser feitas nesse link.

  • Veja a programação detalhada:

 

Núcleo SP de Capoeira Semente do Jogo de Angola comemora 15 anos Capoeira Portal Capoeira

Anotaí!

O quê?

Aniversário de 15 anos do Semente do Jogo de Angola SP

Inscrições pelo link: Inscrição
Quando? 10, 11 e 12 de novembro
Onde? Núcleo SP do Semente do Jogo de Angola: Avenida Vereador João de Lucca, 42.
Avenida Vereador João de Lucca, 42.

Capoeira Angola e Regional

CAPOEIRA ANGOLA E REGIONAL

Fugindo da aparência e ressaltando a essência.

 

O diálogo que propomos aqui faz referência ao universo das aparências no mundo da capoeira, ou seja, queremos tratar sobre os equívocos em relação à tradição herdada da obra de Bimba e Pastinha, que vez ou outra, são citadas como forma de justificarem ou validarem práticas que em muito se distanciam da realidade dos estilos desenvolvidos no processo histórico da capoeiragem.

Iniciaremos abordando um pouco sobre o conceito de “Tradição em Capoeira”, pois este tem sido mal compreendido e utilizado de forma errônea para validar posturas que em nada se relacionam com os ensinamentos básicos da arte. Neste sentido, precisamos entender que a tradição não pode ser encarada como algo imutável e/ou verdade única, pois sempre estará se desenvolvendo como fruto de cada tempo histórico e suas necessidades. Assim, em se tratando da capoeira, a grande maioria das coisas que chamamos de tradição atualmente foi inventada por volta da década de trinta, fato que comprova a mutabilidade do tradicional, contudo, não podemos negligenciar o valor destas transformações, ainda que recentes, para justificar inovações atuais incoerentes com os princípios capoeiristicos, pois aí estaríamos cada vez mais nos distanciando do potencial educativo simbólico de nossa arte.

Grupos intitulados atualmente de Angola ou Regional, tem apresentado um disparate metodológico e de fundamentos, quando investigamos a matriz do estilo que se dizem defensores, pois estes tentam fundamentar suas práticas em uma simbologia superficial e negligenciam princípios fundamentais das escolas tradicionais, ou seja, temos observado situações absurdas que estão paulatinamente confundindo os mais jovens e ainda criando paradigmas e verdades absolutas que em nada se relacionam com os trabalhos de Bimba, Pastinha e outros antigos mestres.

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No caso da Regional, temos observado a redução deste estilo a simples utilização das seqüências, da bateria com um berimbau médio e dois pandeiros surdos, balões, uso da marca alusiva ao signo de Salomão numa camisa e principalmente ao “abuso” em relação aos ensinamentos de Bimba e outros fatores, fato que consideramos lamentável, pois não vemos os mesmos grupos preocupados em desenvolver os laços afetivos entre seus membros da mesma forma fraterna e respeitosa da tradição Regional, sendo seus praticantes apenas “peças” da engrenagem de negócio no mundo atual. Os capoeiristas desta “New Regional” esquecem de investigar a sistematização do estilo e a relevância oral dos mais antigos que fizeram parte da convivência para construção deste processo, desconsiderando que cada símbolo estrutural da Regional só ganhará sentido se considerado num determinado contexto e quando associado a todo o conjunto da obra, ou seja, usar a bateria não basta, usar as seqüências não basta, falar de Bimba todo o tempo não basta, pois a verdadeira forma de revitalizar seu legado seria, em minha humilde opinião, considerar toda a complexidade daquilo que não está descrito no manual da Luta Regional Baiana e sim na subjetividade das relações sociais dos praticantes e nos fundamentos iniciáticos dos ancestrais mantidos por Manoel dos Reis Machado.

Na Angola, o processo não está muito diferente da Regional, pois se vestir amarelo e preto, mesmo sem saber de onde vêm estas cores, jogar de forma acrobática e sem gingar muito, cantar de forma difícil de decifrar a letra e ainda ficar com trejeitos exóticos com “caras e bocas”, talvez só assim você seja considerado um “New Angoleiro” e possa vender o seu “produto” para alguém alienado por sua propaganda falaciosa. Absurdo, mas este tem sido o retrato da Angola no mundo, salvo os grupos sérios existentes e seus grandes mestres, que na maioria das vezes não estão no circuito internacional espetacularizado dos mega grupos.

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Alguns grupos de angola, tem se comportado metodologicamente, como aqueles ditos “contemporâneos”, espetacularizando à prática, mercadorizando as vivências sob a forma de seqüências, que de tempos em tempos são modificadas como uma aeróbica na academia de ginástica, garantindo aos mestres/mercado o dinheiro do circuito internacional. Assim, pouco a pouco, a arte capoeira tem perdido lugar para uma prática “DENOREX”, ou seja, aquilo que parece ser e não aquilo que de fato representa, pois hoje existe uma “indústria” estereotipada de modelos de mestres e praticantes, que tem transformado tudo e todos em algo possível de ser consumido, desvalorizando, o aprender-fazendo, o respeito, a diversidade e a valorização do Ritmo, Respeito e Ritual como princípios geradores da vadiagem.

Queremos ressaltar que nossa intenção não se articula com a depreciação da capoeira Angola e Regional, mais sim pela reafirmação da beleza e contribuição destes estilos para capoeiragem, pois acreditamos que o potencial simbólico da capoeira tem sido negligenciado pelas armadilhas da busca desenfreada por notoriedade e concorrência de mercado de grupos perdidos/encontrados na total obscuridade das perspectivas transformadoras para um mundo mais crítico, criativo e autônomo.

Acreditamos que existem sim possibilidades a luz dos mais antigos e da obra dos que já se foram deste plano de existência, pois trabalhos como da FUMEB, do Mestre João Pequeno, Lua de Bobo e muitos outros, ainda representam um repositório dos fundamentos de nossa arte e neste sentido convocamos toda comunidade para um pensamento crítico e investigativo sobre as “verdades” da capoeira e seus falsos detentores, os quais lamentavelmente têm se multiplicado pelo mundo, considerando principalmente nossa inércia subserviente e desinformação sobre os princípios da capoeiragem na Bahia.