“Há um fato notável na história dos negros do Brasil: a fundação da cidade de Palmares, em meados do século XVII. Cem anos antes, alguns grupos numerosos de negros fugidos se tinham reunido nas proximidades de Porto Calvo, na Província de Pernambuco, criando um aldeamento; mas foram logo dispersos pelos habitantes que ocupavam então Pernambuco. Isso não impediu que em 1650 se erguesse, na mesma região, uma nova aldeia de negros fugidos, com o nome de Palmares.
Raptaram todas as mulheres de que puderam se apossar, brancas ou de cor, e seu número logo cresceu de tal maneira que os colonos das províncias vizinhas, para se preservar de suas rapinas julgaram mais prudente tratar com eles, do que recorrer à violência. Assim os negros conseguiram obter armas e outras mercadorias da Europa em troca de produtos da floresta e das suas próprias plantações, e, pouco a pouco, a agricultura e a indústria substituíram o banditismo. Depois da morte de Hombé, seu primeiro chefe, organizaram um reino eletivo.
Sua religião era uma mistura de cristianismo e de seu antigo fetichismo. Após 50 anos de existência, a população de Palmares atingira 20 mil habitantes. Fortificações de madeira protegiam a cidade, cuja área era muito vasta, disseminando-se as casas, todas elas cercadas de plantações de seus proprietários. Esse desenvolvimento provocou a inquietação do governo português.
Em 1696, os governadores-gerais da Bahia e Pernambuco, João de Lencastro e Caetano Melo reuniram-se para uma expedição em conjunto contra Palmares. Um exército de mil homens atacou a cidade, mas como carecesse de artilharia viu-se repelido. Só foi possível bater os negros com a chegada de reforços e de artilharia pesada. A cidade foi tomada e destruída; escravizaram-se mulheres, as crianças e todos os que conseguiram escapar à carnificina do campo de batalha. O chefe dos negros e seus companheiros preferiram a morte: precipitaram-se todos ao alto de um rochedo a cujos pés se situava a cidade.”
(Johann-Moritz Rugendas. Viagens pitoresca através do Brasil. São Paulo, Martins-EDUSP, 1972. p. 160.)
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