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A “volta ao mundo” em capoeira

A “volta ao mundo” em capoeira

 

Dentre as diversas facetas do jogo da capoeira, à volta ao mundo talvez seja uma das mais emblemáticas, pois articula a convergência do imaterial com o plano material, ou, para os mais céticos desportistas, simplesmente representa um momento de reoxigenação muscular para quebra da Adenosina Trifosfato (ATP). Assim, de qualquer forma, este momento do ritual poderá ser determinante nos processos estratégicos constitutivos dos pares na disputa em roda.

É importante considerar que a capoeira possui uma matriz eminentemente afrodescendente, desta forma, diversos elementos simbólicos ritualísticos são oriundos de uma determinada matriz de leitura da realidade, portanto, muitos aspectos similares são perceptíveis nas práticas culturais do negro em território brasileiro.

A volta ao mundo em capoeira é perceptível quando em determinado momento do jogo, os capoeiras que hora disputavam a peleja corporalmente, interrompem o processo e circulam em sentido anti-horário pela parte mais extrema da roda. Neste sentido, “capoeiristicamente falando”, isso ocorre por diversos motivos, tais como:

  • Após um ataque perigoso e/ou forte, para acalmar quem atacou;
  • Após um ataque perigoso e/ou forte, para evitar o revide imediato;
  • Para acalmar o jogo;
  • Para pensar estratégias;
  • Para demonstrar conhecimento ritualístico;
  • Para entrar em conexão com o plano espiritual em busca de proteção.

Mesmo constatando uma infinidade de motivações para a volta ao mundo em capoeira, todas possuem um eixo comum, que é o fato das possibilidades se articularem com uma noção subjetiva de reconstrução da realidade, como se houvesse uma alternativa de se voltar no tempo e refazer os fatos já ocorridos.

A perspectiva descrita acima, obviamente, é uma metáfora subjetiva, pois materialmente, apesar dos estudos sobre a relatividade de Albert Einstein, ainda não temos registros oficiais de indivíduos que conseguiram voltar no tempo fisicamente, contudo, na imaterialidade do pensamento afrodescendente, este exercício é realizado constantemente para reavaliarmos atitudes e procedimentos de vida.

Quando estudamos a pratica do candomblé podemos perceber uma forte identidade entre a volta ao mundo da capoeira e o Xirê, que é uma parte do ritual em que o orixá é reverenciado com danças, toques e cantigas, de forma a se criar uma ambiência imaterial que invoque os mesmos a descerem do Orun, palavra que na mitologia Yoruba simboliza o céu ou o mundo espiritual, paralelo ao Aiye, mundo físico. Assim, a ordem mais comum é a passagem do plano material para o espiritual, sendo necessário para inverter esta lógica, no Xirê,, a dança em sentido anti-horário, criando-se a metáfora de `inversão`, fazendo com que o caminho seja feito do plano espiritual para o material.

A vinda do plano espiritual representa um contato com nossa ancestralidade, sendo este capitalizado por um processo ritualístico, mediado por uma circularidade anti-horária, com cantigas e toques percussivos, como em capoeira. Assim, tanto na volta ao mundo como no Xirê, percebemos a metáfora de inversão de lógicas, perdedor – ganhador, Orun – Aiyè, tempo que retrocede, dentre outras. Desta forma, possivelmente não é fruto do acaso tal semelhança, pois a capoeira foi desenvolvida a partir de uma teia cultural eminentemente africana, tendo em sua edificação ritualística diversos entrelaces com o povo negro.

É importante ressaltar que o reconhecimento de elementos comuns com o candomblé não atribui ao capoeira um caráter religioso exclusivo, nem tão pouco vincula sua pratica cotidiana em roda, mas, sem dúvidas, reafirma uma identidade cultural ancestral que precisamos conhecer e reconhecer.

 

Por: Mestre Jean Pangolin

“Capoeira Gospel” cresce e gera tensão entre evangélicos e movimento negro

“Capoeira Gospel” cresce e gera tensão entre evangélicos e movimento negro

 

Estavam presentes o berimbau, o atabaque, a ginga e os saltos mortais. Quase tudo fazia lembrar um jogo de capoeira típico, mas, em vez dos cânticos que enaltecem os orixás ou trazem referências à cultura negra, os versos faziam louvor a Jesus Cristo e a roda era alternada com momentos de pregação e oração.

“Não deixa seu barco virar, não deixa a maré te levar, acredite no Senhor, só ele é quem pode salvar”, cantavam as cerca de 200 pessoas, reunidas na quadra de uma escola para o “1º Encontro Cristão de Capoeira do Gama” (cidade satélite de Brasília), numa tarde de sábado.

Era mais um evento de capoeira evangélica, também chamada de capoeira gospel, vertente que ganha cada vez mais adeptos no Brasil, principalmente por meio da palavra e do gingado de antigos mestres que se converteram à religião.

Se antes a prática enfrentava resistência dentro de igrejas, agora, nessa nova roupagem, é cada vez mais considerada uma eficiente ferramenta de evangelização.

“Hoje é difícil você ir numa roda que não tenha um (capoeirista evangélico), e vários capoeiristas viraram pastores. É um instrumento lindo de evangelização porque é alegre, descontraído, traz saúde, benefícios sociais”, afirma Elto de Brito, seguidor da Igreja Cristã Evangélica do Brasil e um dos palestrantes do evento.

Praticante de capoeira há 40 anos e convertido há 25, Mestre Suíno é líder do movimento “Capoeiristas de Cristo”, que estima reunir cerca de 5 mil pessoas no país. Ele realiza encontros nacionais em Goiânia há 13 anos – a edição de 2018 será pela primeira vez em Brasília.

 

Veja o Video da BBC

O mestre calcula ainda que já existem cerca de 30 “ministérios” de capoeira, ou seja, grupos diretamente ligados a igrejas.

“Há um cuidado para não chocar com as visões da igreja. Cuidado com a roupa, com o linguajar, com as músicas, mas que “não necessariamente tem que ser só música que fala de evangelho, de Deus”, explica.

Críticas

O crescimento da prática, porém, tem gerado incômodo entre capoeiristas tradicionalistas e o movimento negro, que veem na novidade uma forma de apropriação cultural e apagamento da raiz afrobrasiliera da capoeira, prática que surgiu como forma de resistência entre escravos, a partir do século 18.

Eles também reclamam que em algumas dessas rodas haveria discursos de “demonização” contra a capoeira tradicional e as religiões do candomblé e da umbanda.

O Colegiado Setorial de Cultura Afrobrasileira, que faz parte do Conselho Nacional de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, chegou a divulgar em maio a “Carta de repúdio à ‘capoeira gospel’ e à expropriação das expressões culturais afrobrasileiras”.

 

O documento, uma reação ao 3º Encontro Nacional de Capoeira Gospel convocado para junho deste ano, em João Pessoa (PB), reconhece que seguidores de qualquer credo podem praticar capoeira, mas cobra “respeito” a sua tradição.

“Temos lutado contra o racismo em suas diversas e perversas manifestações. A demonização perpetrada por pastores, mestres ou professores de ‘capoeira gospel’, ensinando o ódio e a intolerância contra as raízes da capoeira e contra seus praticantes não evangélicos, é um crime de ódio que fere a liberdade e a dignidade humana”, diz a carta.

 

 

 

Patrimônio

A capoeira, que no passado chegou a ser proibida, recebeu em 2014 o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da Unesco, órgão da ONU para educação. O Iphan, órgão responsável por sua “salvaguarda” no Brasil, reconhece em documento sua “ligação com práticas ancestrais africanas”.

A antropóloga Maria Paula Adinolfi, técnica do Iphan, diz que “não é possível impedir a capoeira gospel”, mas explica que o órgão está focado em “fortalecer ações que vinculam a capoeira à matriz africana” como “uma política de reparação do processo de apagamento da memória afrobrasileira e de genocídio do povo negro”.

 

Organizador do evento na Paraíba, Ricardo Cerqueira, o contramestre Baiano, recebeu, além da carta de repúdio, algumas ligações com críticas e até mesmo ameaças de processo. Seguidor da Igreja Batista, ele diz reverenciar os grandes mestres da capoeira, como os baianos Bimba, Pastinha e Waldemar, já falecidos, mas argumenta que a “capoeira não pertence à cultura africana”.

“O país é laico. Acho que cada um tem liberdade para fazer a sua capoeira da forma que quiser”, defendeu.

“Colocamos o nome gospel sem intenção de descaracterizar a capoeira, até porque nós usamos todos os instrumentos e cantamos também música secular”, disse ainda.

 

Diferenças

Além das músicas e orações, mais alguns detalhes diferenciam a capoeira evangélica da “capoeira do mundo”, explicou à reportagem Gilson Araújo de Souza, pastor evangélico e mestre capoeirista em Manaus.

Em geral, rodas evangélicas não chamam a troca de corda de “batismo” porque o termo deve ser usado apenas no seu sentido religioso, de se converter e receber o Espírito Santo. Além disso, alguns capoeiristas também evitam o uso de apelidos, que, segundo Souza, tem origem na época que a capoeira era perseguida.

“No mundo cristão, Deus nos chama pelo nome. Antes, eu era conhecido como mestre Gil Malhado, hoje sou chamado de mestre pastor Gilson. Não preciso me camuflar”, explica ele, que faz parte da Igreja de Cristo Ministério Apostólico.

 

“Anos atrás, eu enfrentei muita dificuldade para levar a capoeira para a igreja. O pastor batia a porta na minha cara, dizia que era coisa da macumba, que não podia. Hoje eu sou pastor e as portas se abriram”, conta também.

Segundo o mestre Suíno, a adoção do termo “gospel” fez parte desse processo de quebrar resistências. Era uma forma, observa, de convencer os pastores que a capoeira podia ser praticada dentro dos valores cristãos.

Hoje ele próprio repudia esse “rótulo” por causa da polêmica que tem gerado. Suíno afirma que, apesar de haver algumas práticas próprias da capoeira cristã, sua “essência” de capoeira é a mesma.

“Não existe capoeira gospel! Não queremos bagunçar a capoeira. Nós respeitamos os mestres, respeitamos os fundamentos da capoeira, respeitamos as tradições, e vamos defender porque quem não defende a capoeira não tem direito de ser capoeirista”, discursou, empolgado, durante o evento no Gama, cujo lema era “minha cultura não atrapalha a minha fé”.

 

Constante mutação

 

Diante da polêmica, o historiador da capoeira Matthias Röhrig Assunção ressalta que a prática já passou por muitas transformações desde seu surgimento.

Hoje, há três vertentes principais: a angola (mais lenta e gingada, tida como a mais próxima da “original”), a regional (mais acelerada, que incorpora movimentos de lutas marciais) e a contemporânea – uma mistura das duas primeiras que surgiu no Sudeste a partir dos anos 70 e foi o estilo que conquistou o mundo.

“Acho que capoeira tradicional não existe mais, todos (os estilos) são modernizados”, resume Assunção, que é professor do departamento de história da Universidade de Essex, na Inglaterra.

Embora não simpatize com a ideia de uma capoeira evangélica, o professor afirma que não se trata do primeiro processo de “apropriação” da prática.

“A capoeira gospel me parece ser mais uma estratégia desses grupos religiosos de ocuparem espaços e de ganhar adeptos, mas não vejo como parar isso, não tem como proibir”, observou.

“Historicamente, houve muitas apropriações da capoeira. Há uma apropriação nacionalista forte, rodas no exterior com as bandeiras do Brasil, o verde e o amarelo, por exemplo, em que a origem da capoeira, a história de resistência e a ligação com os africanos escravizados muitas vezes não têm destaque algum”, pondera.

 

Fonte: BBC – http://www.bbc.com/

MS: 4º Encontro Estadual de Salvaguarda da Capoeira

MS: 4º Encontro Estadual de Salvaguarda da Capoeira

 

Evento ocorre nos dias 4 e 5 no Campus da UFMS em Aquidauana

Com foco na valorização de um dos mais importantes elementos da identidade brasileira, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e o Governo do Estado, realizam nos dias 4 e 5 de novembro o 4º Encontro Estadual do Plano de Salvaguarda da Capoeira. As atividades acontecem no Campus da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) em Aquidauana.

O evento reunirá capoeiristas, pesquisadores e gestores públicos, que irão dialogar os aspectos culturais e históricos da arte e seu papel como manifestação cultural, comumente marginalizada, mas que ganhou grande destaque após ser registrada como Patrimônio Imaterial do Brasil e da Humanidade pela Unesco.

A Superintendência Estadual do Iphan tem promovido uma série de reuniões voltadas para a mobilização dos Capoeiristas e todos os integrantes de grupos e parceiros da Capoeira em Mato Grosso do Sul com vistas à construção coletiva da política de salvaguarda, valorização e incentivo a este bem cultural patrimônio do Brasil presente no estado.

– No sábado, 04 de novembro de 2017, busca-se como principal meta a composição do Comitê Gestor da Salvaguarda da Capoeira no MS – colegiado que terá por metas implementar o Plano de Salvaguarda.

– No domingo, 05 de novembro de 2017, passados 02 (anos) da existência do Fórum Estadual da Capoeira no MS, rediscutir seus estatutos e formação de coordenações e votar os próximos mandatos.

Outro encontros:

  • 2014 – I Encontro Estadual de Salvaguarda da Capoeira no MS; principal resultado: de articulação e aproximação com diferentes grupos de capoeiristas;
  • 2015 – II Encontro Estadual de Salvaguarda da Capoeira no MS; principal resultado: formação do Fórum Estadual da Capoeira no MS;
  • 2016 – III Encontro Estadual de Salvaguarda da Capoeira no MS; principal resultado: redação do Plano de Salvaguarda da Capoeira no MS.

 

* Foto acervo PC

Boneca, capoeirista piauiense é destaque em competição mundial

Boneca, capoeirista piauiense é destaque em competição mundial

Anne Nathielly subiu ao pódio no 9º Campeonato Mundial de Capoeira do Muzenza

Pouco depois de uma semana que o Piauí virou notícia nacional com a escolha de Monalysa Alcântara como Miss Brasil, outra piauiense eleva o nome do Estado ao se tornar vice-campeã no 9º Campeonato Mundial de Capoeira Munzenza.

 

A jovem capoeirista Anne Nathielly, a Boneca, como é conhecida no mundo da capoeira, integrante do grupo Raízes do Brasil/JF-PI, competiu neste sábado 26 de Agosto no 9º Campeonato Mundial de Capoeira realizado pelo Grupo Muzenza, que aconteceu em Fortaleza-CE, com atletas do mundo inteiro.

 

Boneca, capoeirista piauiense é destaque em competição mundial Capoeira Mulheres Portal Capoeira

Maria Clara Melo acompanhada das capoeiristas que ficaram em 1° e 3° lugar na competição (A direita com a medalha de 2° lugar)

 

Boneca esteve representando José de Freitas a nível mundial e não voltará a sua terra de mãos vazias, pois a mesma consequiu medalhar, conquistando a terceira colocação, ficando entre as 3 melhores do mundo em sua categoria.

Contemplações: Capoeira e Política

Antes de começar, gostaria de falar diretamente à você, leitor (pelo menos, espero que tenha alguns). A vida de um colunista é meio isolada: a gente começa cada vez de novo com um papel em branco, e confìa nossas palavras ao mundo digital sem ver ou escutar a reação do público. Será que eles entenderam o que eu queria dizer? O que eles pensaram sobre isso? Será que eles lêem mesmo?

Então, aqui gostaria de dizer que como colunista, eu adoro ter reações, positivas ou críticas sobre os temas, das colunas. Isto pode ser feito no site mesmo, onde o Portal Capoeira tem a possibilidade de reagir, mas também em mensagem privada, por exemplo no capofilosofo[a]gmail. Eu acho que é importante ter feedback, para manter contato com o mundo em que a gente escreve.

Esses últimos dois meses eu estive (e ainda estou) viajando pelo Brasil, por razões óbvias: a capoeira. Ao lado de rever amigos, conhecer novos lugares, pessoas, escolas e estilos de capoeira, essa viagem também faz parte de uma pesquisa empírica que estou fazendo para o meu doutorado, que se trata de teoria política, educação e capoeira.

Viajando pelas cidades tenho encontrando várias pessoas, capoeirista ou não, envolvidas nos movimentos negros, feministas, anti-sexistas ou pela paz; estou vendo como estes assuntos também estão sendo tratados em vários grupos de capoeira. Porque, a capoeira é uma reflexão da sociedade onde ela está, pois não? Andando por um país onde a presidenta legítima, foi impedida de terminar seu mandato devido à um processo definido por muitas pessoas como um golpe de estado. Onde o presidente atual se encontra numa situação de impunidade, construída pelo próprio parlamento, apesar de várias denúncias. Num país, que se desdobra a corrupção, onde uma nova lei de trabalho é instalada, diminuindo ainda mais os direitos e condições dos trabalhadores; um país que é o berço da capoeira. Me lembrei de uma frase que ouvi em várias formas, e vários lugares: que “a capoeira não é – ou tem – política.”

 

Deixa-me primeiro esclarecer a última contestação: Eu acho bastante incoerente. Alguma coisa que podemos demonstrar facilmente com a história de capoeira: talvez a gente não consiga definir exatamente o que é a capoeira, mas a gente sabe qual foi a situação em que ela nasceu. Vários historiadores e antropólogos já pesquisaram e escreveram sobre a história da capoeira, e muitos livros e textos, acadêmicos ou não, já foram escritos tratando o assunto. Foi uma situação de cativeiro, de banzo, de opressão e de violência. Nada novo aqui.

É por isso que vários mestres falam que a capoeira nasceu de uma ânsia de liberdade; liberdade dessa opressão, da escravidão, e da violência. Nesse aspecto, é talvez contestável ver a capoeira em si como um movimento político, igual um partido político ou até um movimento popular como o abolicionista. Mas acho, que devemos ver a capoeira como uma manifestação política em si. E não só no Brasil. Agora, para poder abordar isto melhor, é necessário primeiro explicar o que eu entendo pela palavra ‘política’.

O uso popular da palavra política normalmente é entendido em um desses dois sentidos: o primeiro é o sistema governamental de um país, estado ou cidade, o segundo as interações entre pessoas e/ou institutos que são motivados por algum interesse material ou ideológico: o que é chamado, às vezes, também de jogo de poder.

Mas, se vemos o conceito de política que pensadores políticos de hoje como Jacques Rancière ou Alain Badiou dão à palavra política, fica difícil entender essas definições ainda como verdadeiramente política. Caso, a gente pense que a palavra ‘política’ deveria ser conectada com um conceito de verdade.

Um pequeno problema aqui, é a língua portuguesa: onde a palavra ‘política’ é tanto substantivo, adjetivo ou advérbio. Quando, por exemplo, no Inglês há ‘politics’ e ‘the political’, para indicar duas coisas diferentes. ‘Politics’, para o uso da palavra ‘política’, a qual eu considero o processo de governar um país, estado ou cidade; e as interações motivadas pelos interesses pessoais ou institucionais que acontecem em nosso dia-dia.

The political’, que aqui traduzo como ‘o político’ por falta de outras palavras, não tem nada a ver com essa definição. ‘O político’, seguindo autores como Rancière1 e Badiou2, é aquele que de repente aparece numa situação como algo que sempre pertencia numa situação, mas nunca era incluído em termos de consideração, porque não era contado como tal, era excluído. Como por exemplo, as pessoas refugiadas que ficam ilegais num país, não são incluídas na contagem de cidadãos deste país. Mas como eles pertençam a essa situação (eles estão lá), no momento em que eles aparecem, o aparecimento deles exige que eles sejam incluídos, e isso força a situação: dividindo a situação existente entre as partes que incluem esse ‘novo’ elemento, e aqueles que não o incluem. Assim, mudando a situação.

Nessa perspectiva, o político é algo que sempre discorda com a situação existente, porque foi excluído disto, não foi contado, mesmo pertencendo a ela. No momento que esse elemento surge e exige ser incluído, ele mexe com a nossa percepção da situação e da realidade, e a transforma. Porque se faz necessário o espaço de inclusão daquele elemento na nossa percepção. A partir desse conceito de “político”, vemos uma diferenciação com o que chamamos de política.

 

A capoeira tem bastante intimidade com a política: seja com as políticas internas dos grupos ou entre grupos, seja com os seus procedimentos e relacionamentos no campo governamental: as políticas municipais, estaduais, nacionais e até internacionais, como por exemplo o reconhecimento pela ONU como patrimônio cultural imaterial da humanidade, ou as tentativas de regulamentação da capoeira pela lei em vários países. Nesse aspecto, a capoeira não é política (e na minha opinião nem deveria ser), mas interage com, e às vezes está sujeita à, ela.

No segundo conceito, “o político”, a capoeira é um “político” sim, ou pelo menos oferece espaço para ele aparecer: como manifestação popular e cultural, ela sempre deu palco e representou o marginalizado, o excluído, aquele/a que não foi contado, mas pertencia à sociedade. Hoje em dia ela ainda tem essa função como plataforma, como um lugar onde “o político”, o oprimido, pode se manifestar.

Eu acho, que é por esta razão, que hoje em dia existe uma simbiose entre movimentos como o movimento negro, feminista, ou da paz, e a capoeira. Porque ela, a capoeira, sempre foi e será uma manifestação do “político”, que no momento foco nesses movimentos.

Mas se ela é uma plataforma para “o político”, talvez seja a hora de a gente começar a pensar como se posicionar diante ela. Porque “o político” pode aparecer, mas para poder mudar algo, ele precisa de um sujeito: aquela/e que dá continuação naquilo que apareceu e que foi visto.

 


1 Ler por exemplo Rancière, J. (2010) Dissensus: On Politics and Aesthetics, transl. S. Corcoran, London, Continuum.

2 Ler por exemplo Badiou, A. (2005) Metapolitics, transl. J. Barker, London, Verso.

Capoeira e informação ao longo da história

Capoeira e informação ao longo da história: A busca por conhecimento sobre a “nega mandingueira”

Em meados dos 80, quando a capoeiragem passou a fazer parte de minha vida, acesso a informação sobre nossa arte era algo quase que impossível. Quem tinha livro, disco, fita cassete, revista, cópia de jornal que aparecia a capoeira não emprestava. Tudo era “negociado” a peso de ouro.Em meados dos 80, quando a capoeiragem passou a fazer parte de minha vida, acesso a informação sobre nossa arte era algo quase que impossível. Quem tinha livro, disco, fita cassete, revista, cópia de jornal que aparecia a capoeira não emprestava. Tudo era “negociado” a peso de ouro.

Capoeira e informação ao longo da história Capoeira O Capoeireiro Portal Capoeira

Lembro-me quando Mestre Miguel Machado chegou em Piracicaba-SP com algumas poucas cópias do disco em vinil do Mestre Ezequiel. Em 5 minutos os que estavam em frente ao “escritório” (i.e. boteco da esquina) pegaram suas cópias. Lá estavam Mestre Valtão (Valter Farias), Mestre Boca (Oswaldo Negretti), Gabriel, eu e meu mano “Cabeludo”, Candinho que foi meu primeiro professor, diversos outros camaradas e, é  claro, nosso saudoso Mestre Cosmo. Tal disco influenciou muito nossa parte rítmica em cantada, pois desde então, diversos amigos “emprestaram” cópias em fita cassete. O jovem Mestre Vaguinho (Vagner Farias), discípulo de Mestre Valtão, até hoje ouve o disco. Tanto é que, Mestre Moreno (Almir José da Silva) [ou Morenias], chama Vaguinho de Ezequié Paulista.

Voltando ao assunto principal, para se conseguir um livro emprestado era um sacrifício. Lembro-me de quando Mestre Cosmo conseguiu um xerox do livro “Capoeira Angola – ensaio sócio-etnográfico” (1968) de Waldeloir Rego foi um deus nos acuda. Todos queriam ter cópia, mas faltava “cascaio”. Logo, “xerocávamos” apenas o capítulo introdutório, que já era um grande ganho. Tal livro, na época atual e hoje merecendo uma releitura, suscitou muitas discussões nas sucessivas reuniões “no escritório” da R. Voluntários.

A era das listas de discussões

Dando um salto cavalar na história sobre a busca por informações, por volta dos anos 2000, a moda era as Listas de Discussões. Ali se discutia de tudo sobre nossa arte: a) onde “nasceu” a capoeira; b) se um mestre era mestre mesmo ou não; c) se pertencia ou não a uma determinada linhagem; d) capoeira é esporte, cultura etc?;  e) se a capoeira iria ou não para as olimpíadas; f) qual a formação correta e quais os instrumentos da capoeira primitiva.. e la nave vá…

Duas grandes figuras neste processo foram os camaradas Mestre Jerônimo/Austrália e Alberto de Bauru (na época fazia parte da Confederação Brasileira de Capoeira-CBC). Jerônimo recarregava suas energias na Bondi Beach/Sydney, enquanto seu computador ficava 24h por dia recebendo mensagens. Chegava ele no computador e lá vinha algo para despachar. As vezes o repasse era tranqüilo, mas vez ou outra ele tinha que “matutar” se enviava ou não a mensagem. Ele mesmo dizia abertamente: Vocês fazem as besteiras com a capoeira ai no Brasa, e eu aqui na AUS que tenho que decidir se circulo ou não os assuntos? Bastava um clique e o ebó circulavam pelos sete mares por meses – tem mensagem que circula até hoje.

O Jornal do Capoeira e o Portal Capoeira

Em 2004 lancei o Jornal do Capoeira [1]. Foi uma experiência super gratificante, pois na ocasião estabelecemos uma rede de mais de 30 colaboradores espalhados pelo Brasil e pelos Brasis afora. André Lacé, Tonho Matéria, Benedito Bené, Vagner Astronauta, Luciano Milani, Leopoldo Gil Vaz, Sérgio Vieira (FICA), Mestre Squisito, Leticia Vidor, Marieta Borges Lins e Silva, Eurico Barreto Viana, Jose Luiz Cirqueira “Falcão”, e tantos outros.

Durante o processo o amigo Luciano Milani, que começou a capoeira em São Paulo nos idos dos 80, na época radicado em Mogadouro, Portugal, entra em contato e faz uma proposta. Ele, mestre nas artes internéticas, tinha um projeto audacioso: criar um portal multifuncional para documentar nossa arte. Foi uma grata surpresa, pois embora o Jornal do Capoeira funcionasse como um “semanário” da capoeira – sim, toda 2a feira uma nova “edição” virtual ia ao ar – ele estava limitado a textos e fotos. Foram meses de interação com o amigo Milani até que PortalCapoeira [2] “pegou”. E pegou para ficar! Em 2006, por motivos de estudo de doutorado, meu projeto Jornal do Capoeira [com suas mais de 1000 matérias, crônicas, notícias, clássicos da literatura etc] precisou ser paralisado.

E desde então, tanto as listas de discussões por emails, alimentadas pelos Mestres Jerônimo, quanto o PortalCapoeira.com são as fontes mais “sólidas” de informação acessível a todos “pelo mundo afora, camará..”.

Vez ou outra, quando surge alguma dúvida, é no Jornal do Capoeira, no PortalCapoeira ou nas Listas de Discussões (todas tem repositórios arquivados continuamente) que busco primeiro as informações.

Capoeira: estudar é preciso

Capoeira e informação ao longo da história Capoeira O Capoeireiro Portal Capoeira 1

Hoje pela manhã, enquanto revisava um artigo científico de um de meus alunos de doutorado sobre conservação do Mico Leão Dourado, recebo um questionamento do Prof. Verga (Ederson Renato), responsável pelo ensino de jovens capoeiras do projeto “Brincando de Gingar”, da entidade Legião Mirim/São Pedro-SP, sob coordenação de Waldir Campos:

“Miltinho, onde eu busco mais informações sobre a influência do samba de roda, samba de recôncavo e outras vertentes musicais sobre a musicalidade da/na capoeira?”

E complementa: “Estou aqui navegando entre o Jornal do Capoeira e PortalCapoeira com meus alunos, mas gostaríamos de adentrar mais no assunto”

Capoeira e informação ao longo da história Capoeira O Capoeireiro Portal Capoeira 2

Como ponto de partida sugeri adquirir o livro-CD-DVD “A cartilha do Samba Chula”, ouvirem as gravações “O Recôncavo Baiano: Samba em Roda” [3] e “Samba de Dona Dalva Damiana”. Claro, tem muita fonte riquíssima e que deve ser pesquisada. Mestre Raimundinho, um excelente cantador da Capoeira Angola no Estado de São Paulo, lembra que seu amor pela arte de cantar veio da infância, quando ele ainda criança se reunia na casa de amigos de seus pais para recitar contos vindo da literatura de cordel. Fica a dica!

Enquanto finalizo esta crônica sou interrompido pelo porteiro eletrônico. Por correio, recebo –em primeira mão um– um exemplar do livro “Capoeira: uma Arte Indígena do Brasil – Fundamentos e Tradições”, de autoria do Contramestre Pelicano (Douglas Tessuto), Grupo Muzenza de Santa Gertrudes. Claro, o assunto é bem provocativo, o que, certamente, vai suscitar inúmeras discussões nas próximas décadas. Voltarei ao assunto tão logo tenha lido o livro.

Capoeira e informação ao longo da história Capoeira O Capoeireiro Portal Capoeira 3

O livro é uma compilação de informações que Pelicano reuniu em mais de 20 de pesquisa, e tudo respaldado por entrevistas e documentos históricos. O lançamento oficial vai ocorrer em breve durante o Mundial Muzenza, em Fortaleza/CE.

Vai daí que, a leitura do livro, é um ótimo ponto de partida para todos os membros da Liga Rioclarense de Capoeira. Afinal, não é sempre que alguém “da região” publica algo que pode dar um “sacode” na historiografia de nossa arte.

 

Capoeira e informação ao longo da história: A busca por conhecimento sobre a “nega mandingueira”

 

Iê dá volta ao mundo. Iê dá volta ao mundo, camará…

 


  • [1] www.capoeira.jex.com.br
  • [2] http://portalcapoeira.com/
  • [3] https://www.youtube.com/watch?v=eeTeLqMhOdY
  • [4] https://www.youtube.com/watch?v=LpT0SDz-gx0

 

Intercâmbio Intercultural Educacional e Esportivo Iê!

Intercâmbio Intercultural Educacional e Esportivo Iê!

O camarada e compoterraneo Gugu Quilombola, discipulo de Mestre Paulão – Quilombolas de Luz Capoeira, cria da capoeiragem paulistana,  está completendo 25 anos de caminhada na capoeiragem e para comemorar este ano tem feito diversas atividades…

As festividades começaram em janeiro, em São Paulo, mais precisamente no bairro da Bela Vista onde o Grupo mantém um Projeto Social e continuam em Setembro e Outubro na Alemanha, além do trabalho social Gugu também pretende ajudar a “causa” da Casa Mestre Ananias.

 

Intercâmbio Intercultural Educacional e Esportivo Iê!

Interkultureller Sport- und Bildungsaustausch Iê!

Intercultural Exchange in Sports and Education Iê!

A capoeira, é uma das mais importantes e genuínas expressões afro-brasileira  manifestando-se ade forma multifacetada através de expressões como a dança, jogo, luta, etc, nos dias atuais, vem derrubando as barreiras culturais, já é praticada nos cinco continentes e, é reconhecida como patrimonio imaterial da humanidade e está em todos os níveis de nossa sociedade (clubes, creches, escolas, universidades, praças, empresas, etc) atendendo a todas as faixas etárias.

Buscando a integração dos capoeiristas e amantes desta arte-luta a proposta de Gugu Quilombola, Quilombolas de Luz Capoeira é tornar esta evento uma verdadeira manifestação da capoeiragem na europa.

 

Com a palavra Gugu Quilombola:

Intercâmbio Intercultural Educacional e Esportivo Iê! Capoeira Portal Capoeira 1

Neste Ano vai esquentar!

Já iniciamos em Janeiro a nossa grande festa na Bela Vista, São Paulo e está energia continuará em Nürtingen, Alemanha!

Estamos comemorando meus 25 anos de aprendizado na Arte da Capoeira e 15 anos transmitindo e partilhando com meus alunos e discípulos!

Ainda estamos ajustando alguns detalhes, mas já temos agendado o nosso ginásio para o evento, o salão de festas e os treinos já estão no gás total!

Hoje abrimos o convite e chamada a todos! Venha e traga seu axé! Receba o nosso axé e traga os amigos e familiares!

O que vai acontecer? Um rico evento com percussão, samba, puxada de rede, dança afro, musicalidade, espetáculos e naturalmente muita capoeira com grandes representantes da Capoeiragem do Brasil e do mundo!

O que esperamos? Aprendizado conjunto, vivências inesquecíveis na mais alta alegria!

 

IEEEI – Intercâmbio Intercultural Educacional e Esportivo Iê – QLC/2017

Video chamada dos Mestres Amigos do nosso primeiro evento na Europa !
crédito de imagens e edição – Marcel e Ale QLC, música do cdo pedir o Axé do Mestre Acordeon na voz de Mestre Joel !!

Capoeira , Maculêle, Samba de roda, Dança Afro Brasileira, Jongo, Afoxé, Frevo, Forró e muito mais !!

 

Mestres e contramestres confirmados !!

 

Convidados :

Mestre Paulão
Mestre Cacá
Mestre Macaco
Mestre Nelsinho
Mestre Saguin
Mestre Chicote
Mestre Tico
Mestre Gaiola
Mestre Primo
Mestre Cabeça
Mestre Pelezinho
Mestre Tourinho
Mestre Marcha Lenta
Mestre Jorjão
Mestre Juninho ( á confirmar)
Mestre Pim-Pim
Mestre Joel Dias
Mestre Pinha
Mestre Cueca
Mestre Cigano
Mestre Marco

Contramestre Cabeça
Contramestra Mel
Contramestre Máscara
Contramestre Eletrodo
Contramestre Desenhado
Contramestre Tamarindo
Contramestre Pirulito
Contramestre Calanguinho
Contramestre Marcelo
Contramestre Cebolinha
Contramestre Pepeu
Sabiá Senzaleiro
Contramestre Ceguinho
Contramestre Bobby
Contramestre Jari
Contramestre Avião
Contramestre Baiano
Contramestre Macumba
Contramestre Som
Contramestre Izol
Contramestre Milani

Em breve mais informações!

https://www.ieeei.org/unterst%C3%BCtzung/

Um grande abraço!
Gugu Quilombola!

Intercâmbio Intercultural Educacional e Esportivo Iê! Capoeira Portal Capoeira

 

 

Capoeira e Suas Gravações Sonoras Históricas

Capoeira e Suas Gravações Sonoras Históricas

Regional, São Bento Grande de Angola e Reco-Reco

O fenômeno da capoeiragem é algo fascinante. Enquanto a parte da musicalidade avança cavalarmente, com novas roupagens rítmicas e cantadas – nem a Capoeira Angola escapa– vamos deixando para trás muitos registros sonoros históricos inexplorados. Na região de Rio Claro (SP), os amigos Prof. Pelicano e Prof. Guerreiro (Luis Lima), ambos do Grupo Muzenza, iniciam uma importante conversa em torno de uma dessas preciosidades sonoras: a gravação de Lorenzo Dow Turner [1]: “Então, São Bento Grande de Angola faz parte da Regional ou não?”. Segundo matéria do Portal Capoeira do camarada, de autoria do camarada Teimosia [2], além de Lorenzo Dow Turner, Franklin Frazier também foi responsável pelas gravações. Os registros foram feitos por volta de 1940, quando, em tese, a Luta Regional Baiana já estava “formatada”. Abem da verdade, meu primeiro contato com esses registros foi em 2006, quando a Dra. Leticia Vidor e colaboradores organizaram um curso de Extensão Universitária “A Capoeira na Academia”. Foi um curso fantástico, onde semanalmente vários temas eram exaustivamente debatidos por mestres e simpatizantes da capoeiragem em geral. Participaram Mestres Kenura, Alcides, Eli Pimenta, Janja, Emilio Careca, Cm Cenorinha, o saudoso Mestre Ananias, Mestre Marrom de Taboão da Serra, além de diversos representantes da “academia”. Até o Brincante Antonio Nobrega nos brindou com uma excelente palestra teórico-prática sobre a manifestação cultural “Cavalo Marinho”, e sua rica musicalidade e gestualidade. Foi emocionante ver como representantes de nossa cultura e arte podem alavancar toda uma trajetória cultural. Sem exaurir a lista de participantes, tivemos uma excelente aula de musicalidade com Mestre Dinho Nascimento, o Berimbau Blues do Morro do Querosene, região do Butantã, São Paulo.

Pois bem, retornando ao tema central dessa crônica, as gravações de Lorenzo e Franklin trazem reflexões interessantes. Para começar, tal registro apresenta Mestre Bimba e sua charanga cantando a Capoeira Regional, mas também conta com a participação do Mestre Cabecinha do grupo Estrela Capoeira Angola. Talvez uma das primeiras vezes em que Angola e Regional compartilham – de forma harmoniosa – um mesmo palco nos tempos antigos. Tempos em que a Regional buscava se firmar como uma nova forma de se praticar a capoeira da Bahia. Quando digo da Bahia é porque considero que também aconteceram outras Capoeiras, como a Capoeira-Luta de Sinhosinho no Rio Antigo, a de Pernambuco, que acabou enveredando para o Frevo, a Tiririca de Geraldo Filme, Toniquinho Batuqueiro, Pato Nagua em São Paulo, e outras que devemos tê-las perdido ao longo do tempo antes mesmo de ter a chance de conhece-las melhor.

Mestre Bimba e seu conjunto contribuiu com 4 faixas registradas no documentário e Mestre Cabecinha completou adicionando outras 6 contribuições, num total de 10 faixas.

 

A charanga da Regional sendo lapidada

Algo que também chamou a atenção é que, na época, as 4 faixas de Mestre Bimba utilizaram o São Bento Grande de Angola como base principal de ritmo. Inexplicavelmente, mais tarde – principalmente em seus 2 discos (1962 e 1969) – este toque deixaria de fazer parte do cardápio de Mestre Bimba, quando o mesmo introduz seus “7 toques da Regioná”. O amigo Prof. Verga (Ederson Renato), exímio pesquisador e responsável pelo grupo Capoeira Fundamento Ancestral de São Pedro (SP) avaliou minuciosamente os registros, e também concluiu que a base das gravações de M. Bimba foi SBG de Angola. Aliás, Prof. Verga tem algumas teorias interessantes sobre o que pode ter acontecido na época. Sugiro aos amigos da região convidá-lo para uma Surra de Arame, e ouvi-lo a respeito.

Sobre as gravações, a própria charanga de Mestre Bimba tem uma peculiaridade. Diferentemente do que hoje se vende como “Charanga da Capoeira Regional”, os instrumentos não se limitavam a 2 pandeiros e um berimbau. Tanto é que um dos instrumentos marcantes nas gravações é o reco-reco, que pode ser observado nitidamente em todas as faixas. Confirmando como a cultura é algo sempre em transformação, e no caso da “Regioná”, a mesma ainda estava em “formatação” por volta dos 1940.

Um outro ponto interessante é velocidade da charanga. Observando a faixa 1 da gravação é possível contar pelo menos 63 marcações completas do “tá tum tá” do pandeiro por minuto. Já nas gravações dos 2 discos de Mestre Bimba, os ritmos são bem mais cadenciados (por exemplo, o São Bento Grande do disco de 1969 tem 48 batidas de “tá tum tá” do pandeiro por minuto, sugerindo que ao longo do temo a Regional pode ter curiosamente “desacelerado”, adotando um ritmo mais manhoso e cadenciado. O que contraria muitos discursos de jovens mestres que advogam que a Regional veio para subir o ritmo porque a Angola era muito lenta.

Mas Mestre Bimba dá uma lição para não ser esquecida. Lá pela faixa 4, assim fala o narrador:

Ao som do Pandeiro, e do Berimbau e do Caxixi, cantará Bimba e seu conjunto, interpretando Angola, num momento em que relembra seus antepassados.

O mestre sabia muito bem suas origens, e não teria porque negar a importância da capoeira angola na base fundamental de sua luta regional baiana. Boa parte das próprias “quadras” e “corridos” entoados por Mestre Bimba nessa gravação, e mesmo suas “louvações”, se confunde com a musicalidade corrente da época – ver os registros de Mestre Cabecinha e do Mestre Juvenal.

 

O que chama ainda mais a atenção é que, se compararmos a musicalidade, cadência, e a forma de “louvação” que Bimba utiliza na gravação, Mestre Cabecinha vai na mesma toada, demonstrando o quanto aquelas capoeiras ainda não estavam tão dissociadas.

É hora de mergulharmos em águas mais profundas da história da capoeiragem. E é com alegria que vejo localmente os Capoeiras se reunindo para debater o universo de nossa arte, o que deve ser feito de forma tranquila e aberta, sem amarras e despidos de pré-conceitos (pré no sentido de conceito a priori). Vai daí que iniciativas como esta da Confraria Rioclarense de Capoeira pode ser um ótimo palco para tais conversas. Com certeza os Mestres da região de Rio Claro estão pensando nas principais temáticas a serem discutidos. E a musicalidade está, sem dúvidas, no cardápio. Parabéns Prof. Guerreiro, Mestre Cuica (Wilson Santana), Prof. Maxi, Prof. Milton Soares e demais “confrários” pela iniciativa. Todos ganharão muito com esta iniciativa.

Capoeira e Suas Gravações Sonoras Históricas Capoeira Portal Capoeira 1

Aproveitando o “adeus adeus” desta crônica, se preparem que logo o Prof. Pelicano, de Santa Gertrudes-SP, vai nos brindar com um novo livro. O tema não é outro senão possíveis origens indígenas de algumas vertentes de nossa arte. Com certeza, uma obra para ler na reguinha. E claro, tudo que é novo amplia debates e suscita novas discussões. Prof. Pelicano, estamos no aguardo do lançamento do livro. Tanto a Confraria Rioclarense, quanto o Vadiando Entre Amigos serão palcos para os primeiros eventos de lançamento do livro.

 

Sobre as gravações sonoras históricas, logo voltamos ao assunto. Tem muito tempero neste guisado para ser apreciado.

 

Referências:
[1] https://www.youtube.com/watch?v=65SGEOFow7I
[2] http://portalcapoeira.com/tag/lorenzo

Livro Mandinga em Manhattan: Como a Capoeira se espalhou pelo mundo

Livro Mandinga em Manhattan: Como a Capoeira se espalhou pelo mundo

Quando, a hoje jornalista, escritora, fotojornalista e capoeirista Lucia Correia Lima vivia seus 15 anos, o Brasil vivia em plena ditadura militar. Em 1968 foi levada por colegas do Movimento Estudantil Secundarista para treinar capoeira, na escola do Mestre Suassuna, no centro de São Paulo, aonde chegou “exilada” com seus pais militantes humanistas, fugidos da Bahia para abrigo na imensidão da maior cidade da América do Sul. A luta-arte afro-brasileira era uma “arma” para enfrentar os tempos cinzentos que se instalou no país por vinte e cinco anos.

Semelhante aos pioneiros capoeiras do século XIX, Lucia é presa com 16 anos, pois alguns de seus colegas aderem a romântica e suicida “luta armada”, contra a ditadura. Muitos foram mortos, exilados ou presos. Seu mestre Suassuna, um deles. Mas Lucia discorda da luta armada vai trabalhar na revista Realidade, da Editora Abril, quando na equipe da edição Amazônia, recebe o prêmio Esso de Jornalismo. Em seguida inicia carreira na chamada imprensa alternativa, quando compondo a equipe da revolucionária revista Bondinho, recebe o Esso de “contribuição à imprensa”. De volta à Bahia, atua nos principais jornais de Salvador, como a Tribuna da Bahia e Correio da Bahia, assina textos e fotos. Deixa na imprensa baiana sua marca quando opta pelo fotojornalismo. Período em que passa pela sucursal baiana de O Globo e retorna à capoeira.

Indo morar no Centro Histórico da primeira capital do Brasil, se inscreve para as aulas do lendário mestre João Pequeno de Pastinha. Lá surge o livro Mandinga em Manhattan. A escola do velho mestre estava repleta de jovens de todos os continentes. A capoeira, já no meio da década de 1990, trazia ao Brasil jovens de todo o mundo, mas, poucos sabiam que junto ao Candomblé e o Samba, havia se transformado uma das mais importantes manifestações da cultura brasileira.

A capoeirista e jornalista vive esta expansão, realizada sem nenhuma ajuda governamental, embora a UNESCO recentemente tomba a “roda de capoeira” como patrimônio mundial. No período em que Lucia Correia Lima pensa o livro, este tema era uma extravagância. Lucia teve que dar uma rasteira no preconceito e transforma sua ideia em um documentário: cria o título Mandinga em Manhattan e recebe o prêmio nacional DOCTV. Do Mistério da Cultura. Em 2008.

A ideia do livro retorna com a transcrição das longas entrevistas do documentário. Com o mesmo título, a publicação é selecionada pelo edital Capoeira Viva, também do MinC. Depois de novas entrevistas e enfrentamento da burocracia nos órgãos públicos, finalmente o trabalho é editado. Contem vinte e uma entrevistas com os pioneiros mestres responsáveis pelo espalhar a capoeira pelo mundo. Além de estudiosos como o Dr. Ubiratan Castro, do escritor Ildázio Tavares; da etnomusicóloga Emília Biancardi, da etnolingüista Yeda Pessoa de Castro, dos ex-ministros Gilberto Gil e Juca Ferreira, entre outros.

Fundamental no livro de Lucia são os depoimentos dos mestres que fizeram da capoeira sua fonte de trabalho e pesquisa. Jelon Vieira, abre a primeira escola de capoeira em Nova York em 1975. Entra para a história da luta-arte afro-brasileira; o Mestre e médico Decâneo, dá sua última entrevista em vida; Camisa é um “boing” que viaja pelo mundo, sendo recebido com reverência; Suassuna perdeu a conta de quantos grupos tem fora do Brasil; mestre Amém, levou a capoeira para a poderosa indústria do cinema de Hollywood; Acordeom colocou a capoeira nas mais tradicionais universidades da Califórnia, e muitos outros. Entre as falas dos estrangeiros estão o sociólogo Kenned Dossar, o antropólogo Greg Downey, aluno de mestre João Grande, recebido na Casa Branca, para homenagem.

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O trabalho da baiana foi produzido pela Fundação Gregório de Matos, de Salvador, está sendo distribuído por diversos países via os grupos internacionais. Foi lançado em Salvador; na escola do MST de Vitória da Conquista, em Inhambupe e será apresentado em evento internacional com capoeiras de mais de 60 países, de 9 a 13 de agosto deste ano, nos 50 anos da escola Cordão de Ouro em São Paulo. No clube da Eletropaulo, com programação no site. No dia 11, sexta feita as 15hs Lucia Correia Lima fará palestra sobre a concepção do livro e documentário Mandinga em Manhattan, este um prêmio do DOCTV, administrado pela Fundação Padre Anchieta de São Paulo. No Rio de Janeiro, o livro será apresentado na escola Abadá Capoeira de 23 a 27 de agosto. O trabalho deve ser relançado em Salvador ainda em 2017. Ainda em agosto deste ano a autora foi convidada para lançar seu trabalho em Santo André, também com palestra e exibição do documentário.

 

Jolivaldo Freitas – Jornalista

DRT: 1241-BA

Festival de Capoeira de Santos – 2017

Festival de Capoeira de Santos – 2017

A Capoeira vem sofrendo um processo de pluralidade cultural ao longo do tempo,  em  Santos, uma cidade histórica  que ressalva o patriarca da independência José Bonifácio ou o Quilombo do Jabaquara,  o segundo mais populoso do Brasil, liderado pelo Major Quintino de Lacerda é um exemplo disso.
Necessidade do negro escravizado no Brasil Colonial, transformado em cultura popular, esporte, hoje trmos um viés que respeita toda a ancestralidade dos brilhantes precursores Mestre Sombra, Mestre Bandeira/Corisco reunindo o saber popular com o saber acadêmico educacional.
Convidamos a todos que gostam e querem ver essa atividade cada vez mais desenvolvida em todo segmento da sociedade a conhecer nossa programação, que terá oficinas com mestres renomados como José Andrade, Valdenor, Parada, Ribas, Elias (USA), Gladson, Pedro Cunha e Márcio.
Festival de Capoeira de Santos - 2017 Capoeira Eventos - Agenda Portal Capoeira 1

 

PROGRAMAÇÃO FESTIVAL DE CAPOEIRA DE SANTOS 2017

17/7-15h: Pré-Abertura “Circuito Lúdico Técnico de Capoeira”
Equipe Capoeira Escola

17h: Aula Aberta “Capoeira de São Paulo para o Mundo ”
Mestre Zé de Andrade

Centro de Atividades Integradas De Santos  (CAIS Vila Mathias)

19h: Abertura Oficial
“A relação, as influências  e as contribuições recíprocas da Capoeira de Santos, do ABC e de São Paulo”.
Mestre Zé Andrade
Mestre Valdenor
Mestre Gladson
Mestre Santana
Mestre Parada
C. Mestre Zé Luiz
Mestre Ricardo Hadad

Câmara Municipal de Santos

18/07-10h “Aeroginga Funcional ”
Equipe Capoeira Escola
Praça das Bandeiras – Praia do Gonzaga

19h-“Capoeira de Arte Criminalizada a Desporto de Criação Nacional”
Oficina com Mestre Valdenor e Profa. Lisandra Cortes Pingo
Ginasio Dale Coutinho/Centro Esportivo da Zona Noroeste
Ingresso: 1kg de alimento

19/07-15h: “Capoeira na 3.° Idade”
Equipe Capoeira Escola
Espaço Idoso/Aparecida

19h: “Capoeira Santista ”
Oficina com  Mestre Ribas
Ginásio Antônio Guenagua “Rebouças
Ingresso: 1 brinquedo em bom estado

20/07-10h: “HidroCapoeira”
Equipe Capoeira Escola
Piscina do Centro Esportivo da Zona Noroeste

19h: “Capoeira da Senzala- Iê Viva Mestre Bahia”
C. Mestre Chininha e C.Mestre Valter Complexo Esportivo M. Nascimento
Ingresso: 1 produto de higiene pessoal

21/07-15h: “Capoeira Artesanal”
Equipe Capoeira Escola
Horto Florestal Chico Mendes

19h: “A capoeira e sua evolução no Mundo ”
Mestre Parada e Mestre Elias (USA)
Ingresso: 1 produto de limpeza

22/07-9h30: “Caminhada com Musicalidade e Roda”
Posto 2 à Concha Acústica

15h: “A interdisciplinaridade da Capoeira”
Mestre Márcio
Sesc Santos

23/07-15h: “Capoeira Para Todos”
Mestre Márcio
Sesc Santos

20h: “Festival Cultural”
1.Federação Paulista de Capoeira
2.Capoeira Santista
3.Capoeira Progresso
4. Capoeira Escola
(50 convites por grupo)
Ingresso: 1kg de alimento

24/07 -Capacitação 1
17h: Contexto Histórico “Brasil Colonial”
Prof.° Dr. Alberto Schineider
19h30: “Capoeira e os benefícios de sua Musicalidade ”
Prof.° Ms. Rogério Gogó de Ouro

FEFIS UNIMES
Ingresso: 1 agasalho

25/07-Capacitação 2
17h: ” Contexto Histórico Os Capoeira e valentões de São Paulo”
Prof.° Ms. Pedro Cunha
19h30: A Capoeira como ferramenta psicomotora de cidadania”
Mestre Gladson/C.Mestre Vinicius Heine
FEFIS UNIMES
Ingresso: 1 produto de higiene pessoal

26/07-Capacitação 3
17h: “A interdisciplinaridade da Capoeira como ferramenta inclusiva”
Mestre Márcio
19h30: Encerramento “Roda Para Todos”
FEFIS UNIMES
(Vagas limitadas para capacitações, 50 vagas, apenas mais graduados  e educadores)

Convites para o Festival Cultural e Capacitação:
www.facebook.com/festivalcapoeirasantos ;

Alguns destaques:

Abertura com diversos secretarios de Santos e principais mestres do Estado de SP 17/07 19h na Câmara Municipal.

Capoeira para Terceira Idade 19/07 as 15h no Espaço Idoso

Capoeira Para Todos com Inclusão de pessoas com deficiências  domingo 23/07 14h no Sesc Santos

Oficina Mestre Parada e Mestre Elias (USA) na Fefis 21/07 19h

Festival Cultural com 5 apresentações no Teatro Guarany 19h30 23/07.

Capacitação na Unimes de 24 a 26/07 18h em diante

Contamos com sua divulgação e cobertura…por favor.
Atenciosamente,  Mestre Marcio
Coordenador do Festival de Capoeira de Santos.