03 Mar 2005

ACADEMIA DE JOÃO PEQUENO DE PASTINHA CENTRO ESPORTIVO DE CAPOEIRA ANGOLA

Importância sócio-culural da Academia de João Pequeno de Pastinha A Academia de João Pequeno de Pastinha foi inaugurada em 2 de maio

03 Mar 2005

Importância sócio-culural da Academia de João Pequeno de Pastinha

A Academia de João Pequeno de Pastinha foi inaugurada em 2 de maio de 1982, com a finalidade de retomar a linha de transmissão da Capoeira Angola, da maneira como ela foi preservada pela Academia do Mestre Pastinha. Esta linha de transmissão foi interrompida quando a Academia do Mestre Pastinha foi desativada, após a sua morte, em 1981. A vinculação da Academia do Mestre João com a do Mestre Pastinha não se limitou exclusivamente às formas de ensino e de jogo, mas também ao espírito associativista, na medida em que o Mestre João Pequeno reabilitou o Centro Esportivo de Capoeira Angola, uma entidade criada pelo Mestre Pastinha, com a finalidade de agregar os angoleiros para utilizarem instrumentos comuns de preservação e de expansão da Capoeira Angola, assim como meios de amparo social aos capoeiristas. É necessário frisar que, no momento em que o Mestre João Pequeno reabilitava o referido Centro, velhos mestres da capoeira estavam passando por dificuldades socioeconômicas; alguns deles morreram como indigentes, inclusive Pastinha.
A inauguração da Academia de João Pequeno não se configurou como frutode uma idéia particular e isolada dos seus fundadores. Para o seu surgimento houve demandas históricas. Surgiu como recomendação da própria comunidade da capoeira baiana, dos movimentos negros, de instituições govemamentais de cultura como o Departamento de Assuntos Culturais da Prefeitura de Salvador, a Fundação Cultural do Estado da Bahia, a Bahiatursa, o IPAC – Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural e o Pró-Memória, que juntos participaram do 1?? Seminário Regional de Capoeira, realizado em Salvador, no ano de 1980. No elenco das recomendações desse seminário havia indicações para que as instituições públicas facilitassem o surgimentos de novos espaços para a prática da capoeira, com a participação dos velhos mestres, que passariam a ter oportunidades para abrir suas academias.
Nos anos 80, já estava em andamento na cidade do Salvador um processo cultural de grande vitalidade, tendo como principal mola propulsora a cultura popular de procedência afio-baiana, que nos dias de hoje se tomou hegemônica. Tem sido ela capaz de transformar Salvador num centro cultural de referência intemacional. Neste cenário, a capoeira assim como o candomblé, a música e a dança afio se constituíram em atividades de ponta, e nele (cenário) a Academia de João Pequeno tem um papel de grande importância em diversos aspectos./>

Importância na revitalização da Capoeira Angola

Nos anos 60 e 70, os movimentos de folclorização e esportização da capoeira, apesar de contribuírem moderadamente para a afirmação social e expansão desta manifestação, alteraram, com prejuízos, a forma tradicional de se jogar capoeira integrando diversos aspectos (como a dança, a música, a luta, a poesia) e não apenas elegendo um dos seus variados aspectos. A esse fato prejudicial se soma a concorrência que os velhos mestres da capoeira, herdeiros legítimos da tradição, tiveram que enfrentar em termos de mercado cultural, perdendo espaços (e às vezes nem se quer tendo possibilidade de acesso a eles) para os empresários do ramo do folclore e para os esportistas com condições socioeconômicas de se estabelecerem de acordo com as exigências mercadológicas. Esse contexto parecia dar razão ao que previra Edison Cameiro em 1937: "Apesar de tudo, – apesar da maior aclimação do negro ao meio social do Brasil, apesar da reação policial, ‘apesar do adiantado processo de decomposição e de simbiose da capoeira em face de outras formas de luta – a capoeira, e em especial a capoeira de Angola, revela uma enorme vitalidade. O progresso dar-lhe-á, porém, mais cedo ou mais tarde, o tiro de misericórdia. E a capoeira, junto aos demais elementos do folclore negro, recuará para os pequenos lugarejos do litoral…" 
No início dos anos 80, a Capoeira de Angola estava resumida a duas ou três academias na cidade do Salvador, que estavam realmente comprometidas com a difusão do seu ensino e não simplesmente interessadas na formação de grupos folclóricos. Essa escassez de academias comprometia gravemente o processo de renovação dos angoleiros, na época resumidos a um número pequeno.
A Academia de João se instalou, neste contexto, para combater essa tendência, reverter o quadro restritivo e se transformar num elemento impulsivo da revitalização da Angola, retomando a linha do Mestre Pastinha.
A legitimidade de João para conduzir este processo foi delegada pelo próprio Pastinha, segundo se deduz desta sua afirmação: "Eles (se referindo a João Pequeno e João Grande, seus dois contramestres de então) serão os grandes capoeiras do futuro, e para isso trabalhei e lutei com eles e por eles. Serão mestres mesmos, não professores de improviso como existem por aí e que só servem para destruir nossa tradição que é tão bela. A estes rapazes ensinei tudo o que sei, até o pulo do gato. Por isso tenho as maiores esperanças em seu futuro"(Diário de Notícias 3/10/1970).
Ao se estabelecer, a Academia de João Pequeno se dinamizou como organização, de forma a não perder seus laços tradicionais, mas procurou modernizar-se em relação à do Mestre Pastinha, nos termos da prestação de serviços: aula, rodas, exposições, seminàrios, fábrica de berimbaus, posto de comercialização, de acordo com as novas exigências que a capoeira enfrentava. Satisfazendo este aspecto, ela se transformou na principal referência da capoeira angola, e o seu modelo de funcionamento se transformou numa matriz multiplicadora de outros modelos. Em pouco tempo, a Academia de João Pequeno se constituiu numa das maiores de Salvador em número de alunos e a de maior freqüência em termos de visitantes para assistirem suas rodas de capoeira e participarem de outras atividades que realizava.
Em relação à Academia do Mestre Pastinha, duas novidades foram introduzidas: 1) a criação de um eficiente método de ensino para atender a um número grande de alunos por aulas (antigamente, na Academia de Pastinha, segundo João seu principal trenel, no máximo havia 3 ou 4 alunos por aula). 2) Diferentemente da Academia do Mestre Pastinha, que era fechada culturalmente, para assim defender a capoeira Angola e evitar que ela se descaracterizasse influenciada por outras práticas de capoeira, as rodas de capoeira da Academia de João passaram a ser freqüentada por praticantes dos mais variados estilos de capoeira.
Através deste contato, João passou a influenciar outras práticas da capoeira e se constituiu numa referência não só para a Capoeira Angola, mas às demais.
Enquanto desenvolvia essas frentes de atuação, João permaneceu atento ao processo de renovação da Capoeira Angola, dedicando especial atenção aos jovens e ao processo de formação de agentes multiplicadores da sua prática.
Deve-se ainda acrescentar que dois dos mais importantes grupos que viriam se destacar no processo de revitalização da Angola se organizaram aqui em Salvador, dentro da Academia de João: o GCAP e a Academia de Curió./>

Importância na recuperação do Centro Histórico de Salvador

Desde o seu nascimento, a Academia de João esteve comprometida com a recuperação do Centro Histórico Ue Salvador. Concretamente, isso pode ser exposto da seguinte forma: nos anos 80, o IPAC criou o Centro de Cultura
Popular (CCP) no Foile de Santo Antônio Além do Carmo, onde até hoje funciona a Academia de João Pequeno de Pastinha e o Centro Esportivo de Capoeira Angola. Esta iniciativa do IPAC foi responsável pela criação de uma série de atividades culturais que tiveram ampla repercussão na vida cultural baiana como: eventos, ensaios de blocos (Ilê Aiyê), formação de grupos culturais (Os Negões), feiras de artesanato, shows musicais, exposições…
A Academia de João contribuiu para que o Forte não ficasse sendo de uso exclusivo dos moradores do bairro de Santo Antônio, onde está localizado; e se convertesse num "palco de acontecimentos" de toda a comunidade baiana. Com a ajuda de João, o CPC passou a ser conhecido nacional e internacionalinente.
Para estudar capoeira na Academia de João constantemente veiu gente de outros Estados brasileiros e de outros países. Sua presença foi importante para a animação do referido Centro, dos eventos patrocinados pelo IPAC e de outros grupos culturais que se estabeleceram dentro do Forte de Santo Antônio Além do Carmo, participando sempre gratuitainente das atividades.
Através dele e da sua Academia. foi veiculada uma imagem positiva do Centro de Cultura Popular na mídia (televisão, vídeo, filmes, livros, jornais e revistas). Em função disso, IPAC sempre tratou o mestre João Pequeno com a reverência merecida e valorizou o programa cultural da sua Academia. Mesmo com o processo de decomposiçào fisica e social do Forle de Santo Antônio, onde funcionou o Centro de Cultura Popular, a Academia do Mestre resistiu e manteve-se em funcionamento, embora tenha sofrido bastante com esse processo. Atualmente, apesar de toda a degradação do Forte, a Academia de João mantém um aspecto fisico salutar, permite a formação e capacitação de agentes multiplicadores e as suas atividades continuam sendo a mais importante referência da Capoeira Angola na Bahia.
O mestre João, pelo reconhecimento do seu trabalho, continua sendo alvo de homenagens na Bahia, no Brasil e no exterior. Ele é constantemente convidado a realizar cursos, participar de palestras e jogar capoeira.

Importância no reconhecimento da Bahia como um centro cultural de referência internacional

o cenário nacional, a Bahia, em termos econômicos, não está classificada entre os estados de maior expressão, sendo, contudo, em termos culturais um dos mais importantes. Para isto contribui de forma decisiva a originalidade da sua cultura popular que faz desse Estado um centro cultural de referência internacional. Essa cultura popular é possuidora de uma dinâmica que tem possibilitado o surgimento de uma indústria cultural, que vai se reforçando cada vez miais, e rendendo dividendos culturais e econômicos para o Estado.
Isso se registra num período histórico em que a cultura, em escala globalizada, ganha uma dimensão muito grande, se prestigia socialmente, possibilita e aproxima os povos.
Como uma das mais importantes manifestações da cultura popular, a capoeira tem se transformado numa atividade de ponta. Ela se faz presente em todos os Estados brasileiros e em muitos países como uma prática regular. É motivo de interesse acadêmico, haja vista a quantidade de estudantes brasileiros e estrangeiros que atualmente estudam a capoeira.
Neste aspecto, a Academia de João Pequeno atuou de forma bastante destacada: se fazendo presente em diversos eventos intemacionais e em tours culturais nos continentes americanos e europeus, conseguindo atrair muitos estrangeiros e pessoas de outros Estados que vêem à Bahia para praticar capoeira com o Mestre.

 

Luís "Vitor" Castro Junior

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