03 Mar 2005

O PAPEL DA LUTA REGIONAL BAIANA

Em lugar do "Cinturão de Campeão"… o título de Doutor! Durante a terceira década deste século, isto é, em torno dos 7

03 Mar 2005

Em lugar do "Cinturão de Campeão"… o título de Doutor!

Durante a terceira década deste século, isto é, em torno dos 7 anos de idade, comecei a tomar conhecimento das dificuldades encontradas pelas atividades culturais africanas em Salvador.
Apesar da mestiçagem da minha origem sangüínea (indígena, africana, portuguesa e italiana) a linhagem cultural era nitidamente branca e pude perceber a repulsa sutil dos mais velhos aos costumes populares afro-brasileiros.

Os baianos aceitavam de bom grado a presença dos quitutes africanos na dieta e o trabalho humilde dos descendentes dos africanos, porém olhavam enviesado as suas manifestações culturais.
A proscrição à prática dos costumes e religiões africanas era evidente no samba, considerado como prática de malandros, marginais e desocupados e, sobretudo, na perseguição feroz ao candomblé e à capoeira.
Na revolução de 30 tomei conhecimento da fuga do temido Pedro Gordilho, feito temeroso pelo seu afastamento de cargo de Chefe de Polícia pelos revolucionários e pela consciência da injusta e desumana perseguição aos populares de Salvador e às suas manifestações culturais.

O fato foi mais notável aos meus olhos porque ouvi os fuxicos de haver o Comando da Região Militar encarregado meu pai da guarda, proteção e remoção do assustado ex-algoz do alcance da justa represália almejada pelas vítimas dos seus abusos de poder.
As referências desairosas Lídio, por ser tocador de pandeiro e sambador do largo da Saúde e a outros "malandros, desordeiros e desocupados", boêmios.

E as restrições se estendiam ao genial Dorival Caymi, cuja paixão pela música do nosso povo, à falta de transporte mais cômodo, o conduzia à pé para Itapoan a fim de cantar e tocar com os pescadores, donde surgiram suas maravilhosas criações de tonalidade iorubana, que era considerado companhia inconveniente ("mau exemplo", capaz de desencaminhar os mais jovens…) até para seu irmão mais moço Osvaldo, meu vizinho e companheiro de infância, em face da boêmia e intimidade com os costumes afro-brasileiros.
Ainda hoje oiço a vendedora apregoando, "mercando" dizíamos então, pontualmente às dez horas da noite pelas ruas da Saúde e do Godinho, seu canto de venda "Iê-êêê… acarajé…" com seu sotaque iorubano…

Este contraste entre a aceitação da culinária e recusa das manifestações culturais africanas modificou-se após a revolução de 30, graça à chegada a Salvador de dois cearenses, transformados em admiradores dos costumes africanos graças à capoeira e ao carisma de Manoel dos Reis Machado, Bimba.
Cisnando Lima, apaixonado pelas artes marciais, veio para Salvador a fim de estudar medicina, trazendo o desejo de aprender capoeira, cantada em verso e prosa nas lendas em sua terra natal. Aqui chegando permaneceu na vizinhança do Interventor Ten. Juracy Montenegro Magalhães, a quem devemos a grande revolução social que reconheceu a cultura africana como legítima em todas as suas manifestações, especialmente a capoeira e candomblé.

Cisnando que privava da intimidade do Interventor Juracy Magalhães, de cuja guarda pessoal tomava parte, propiciou uma demonstração privada de capoeira de Bimba e seus alunos ("brancos" , os acadêmicos e "do mato") que provocou a admiração, o respeito e a consideração da autoridade máxima do nosso estado pelo nosso Mestre e pela Capoeira, abrindo o caminho para a demonstração posterior para o Pres. Getúlio Vargas, a qual iniciou a fase final da integração da cultura africana em nosso país.
Assim é que Bimba, através Cisnando chegou a Juracy, que conduziu Bimba e seus alunos a Getúlio, que legalizou a capoeira, reconhecendo-a como a luta nacional brasileira, oficializando posteriormente a sua prática através o Ministério da Educação.
A aceitação da capoeira como prática legal deve-se portanto ao trabalho e ao carisma de Manoel dos Reis Machado, Mestre Bimba, o instrumento que iniciou a derrubada dos preceitos e preconceitos contra as manifestações culturais negras.

E pela entrada aberta pelo nosso Mestre com a ferramenta social da capoeira saíram da ilegalidade todas as demais práticas festivas, religiosas, profanas e desportivas afro-brasileiras. Inicialmente a liberação, mediante permissão da autoridade policial das manifestações culturais festivas e religiosas, ainda com limitação de horário (encerramento até às 22:00 horas) para o candomblé sob pretexto da perturbação do silêncio, sendo incluídas nesta mesma categoria todas as demais atividades similares.
Um passo importante na implantação da democracia em nosso país. Desde que a verdadeira democracia é baseada na igualdade de direitos e deveres entre homens unidos pelo respeito mútuo e amor fraterno.
Deste modo Bimba é um marco histórico tão importante quanto o Zumbi dos Palmares na evolução social da cultura negra na sociedade brasileira e da modernização da sociedade brasileira iniciada com a revolução de 1930.
Estes importantes fatos sofreram modernamente uma multiplicação pela atividade dos mestres contemporâneos que levaram a todos os recantos do nosso país e ao resto do mundo a mensagem libertadora e democratizante da capoeira.

É importante enfatizar que a despeito da evolução da dinâmica da "regional", acompanhada lenta e progressivamente pela turma de angoleiros, ao lado da modificação do conteúdo literofilosófico dos cânticos pela adaptação aos meios culturais em que foi implantada, à própria personalidade dos mestres contemporâneos e ao momento histórico atual do país e do mundo, o toque de berimbau mantém constante o axé da capoeira fazendo de cada capoeirista uma unidade no conjunto harmonioso da Capoeira.
Deste modo cada canto de capoeira é um hino de liberdade, de igualdade e de fraternidade, diriam os revolucionários franceses./>

Salve Bimba!
Paladino da raça negra!
Libertador da cultura africana!

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