Capoeira Mulheres – Entrevista: Virgínia Passos
17 Mai 2008

Capoeira Mulheres – Entrevista: Virgínia Passos

Até onde podemos chegar? Iê vamos simbora… Virgínia Passos – Instrutora de capoeira e professora de Educação Física   Virgínia Passos –

17 Mai 2008

Até onde podemos chegar?
Iê vamos simbora…


Virgínia Passos – Instrutora de capoeira e professora de Educação Física

 

Virgínia PassosVirgínia Passos
Virgínia Passos – Clique nas imagens para ampliar…

 

1) Como conheceu a capoeira e porque decidiu treinar?

Vi a capoeira pela primeira vez ainda criança na academia de Artes Marciais do Lutador campinense Ivan Gomes, que se localizava bem próximo da minha casa. Naquela época a capoeira era bastante marginalizada e esse 1º contato foi mínimo, na verdade eu não sabia do que se tratava, mas sentia que um dia iria praticar. Posteriormente, já adolescente conheci a capoeira nas ruas e voltei a sentir a energia positiva que a capoeira tem. A decisão de treinar aquela arte que me fascinava foi instantânea, o que não foi de imediato foi encontrar aonde treinar. Passei anos até encontrar um local onde poderia me matricular para conhecer melhor e aprender a capoeira.

2) Qual é sua relação com a capoeira?

No último mês de agosto fez 11 anos que tive a oportunidade de iniciar-me na capoeira. Desde lá eu vivo dentro dela. Eu respiro capoeira. Como diria o Mestre Pastinha: "Eu Como…", ou ainda, vivo nessa "Maldade", na sabedoria do Mestre Bimba.

Em dezembro de 1997 eu fiz um projeto para a Prefeitura do Município da minha cidade, Campina Grande, para colocar nossa arte como componente curricular, esse projeto era para beneficiar o meu antigo professor de capoeira. A proposta era para ele, mas o projeto era meu. A proposta foi aprovada desde que eu atuasse como monitora, pois eu era a proponente. Comecei então a trabalhar com capoeira. Atuava como auxiliar nas aulas do meu antigo professor e o resultado desta conquista foi que aprendi a dar aulas. Procurei me capacitar ao máximo, daí que senti a necessidade de um curso acadêmico, por isso optei pelo curso de Educação Física, minha Tese de Conclusão foi uma pesquisa sobre a história do Mestre Bimba. Por todos esses anos realizei e participei de alguns eventos: Batizados, Seminários, Festivais e Exibições, e assim, fiz muitos amigos, a cada evento, mais amigos. O que eu gosto mesmo é de aprender, de treinar, de sentar no chão e escutar. Não tenho pressa. Sei que vou devotar minha vida inteira à capoeira. Também não me preocupo com graduações, o capoeira vale pelo que ele é, e não, pelo que carrega na cintura. Além dos amigos a capoeira me dá oportunidade de conhecer outros lugares, outras cidades e costumes, permitindo assim, que eu seja capaz de aproveitar todos os bons momentos que a vida tem a me oferecer. Respeito toda diversidade que vejo, e todos os mestres, grupos, ideologias… Procuro entender cada filosofia, mas tenho a minha própria. Já levei muitas rasteiras, na roda e da vida. Sempre tem alguém tentando me derrubar, imobilizar ou até mesmo me afastar da capoeira. Mas como se canta em domínio público:

"Na vida se caí,
se leva rasteira,
quem nunca caiu,
não é capoeira…"

Levanto, dou à Volta ao Mundo e, nos Pés do Berimbau peço proteção a São Bento e volto para o jogo… A vida imita a capoeira e a capoeira imita a vida!!!
Graduei-me no antigo grupo no que fiz parte, onde passei 08 anos. Em 2002 conheci o Mestre Jelon, que também fazia parte do mesmo grupo e, meus valores melhoraram bastante. Foi sob a supervisão dele que realizei os quatro últimos Batizados. Quando o Mestrão resolveu fundar nossa própria identidade, eu não pensei duas vezes, "Meu Grupo é Meu Mestre…". Desliguei-me do antigo grupo sem nenhuma mágoa e tenho muito orgulho em dizer que já fui de lá.

3) Qual a atividade que você desenvolve com a capoeira?

Desenvolvo com a capoeira uma atividade educacional com crianças e adolescentes em situação de risco social. O universo infantil e infanto-juvenil é demasiadamente complexo, por isso para um apoio real ao desenvolvimento psicomotor, cognitivo e afetivo dos mesmos é preciso ‘saber entrar’ neste universo. Boas vivências nessa fase podem ser a diferença entre o sucesso e o fracasso de um indivíduo na idade adulta. A capoeira, devido a sua ludicidade e toda sua gama de movimentos e musicalidade torna-se uma ferramenta eficaz na busca deste desenvolvimento. Eu acredito que a capoeira bem ministrada é uma atividade ímpar na formação de cidadãos, e esse é o meu maior desafio. Atualmente atuo com um projeto sócio-educacional na cidade de Aroeiras no interior da Paraíba, que fica a 56 km de Campina Grande, a cidade onde resido. Atendo as pessoas ligadas a Rede Municipal do Ensino Local e os assistidos pelo PETI (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil), os resultados eu encontro a cada dia, com o desenvolvimento e a capacidade que eles apresentam e, principalmente, nos relatos dos pais, coordenadores e da sociedade local que é gratificante, quanto à melhora no comportamento dos alunos que hoje fazem capoeira.

4) Como sua família lida com uma mulher capoeirista em casa?

Moro com meus filhos e eles são meus melhores amigos. Neles encontro apoio e conforto ao meu estilo de vida, e esse modo de ver deles, é o que me interessa. A opinião dos demais familiares em relação à capoeira é indiferente a minha forma de viver e pensar, é uma opinião oscilante, sem nenhuma base e justificativa. Capoeira é o que eu sou, portanto é meu cotidiano. Ser mãe e trabalhadora faz parte do dia-dia. Capoeira além de ser minha profissão, é também onde eu me realizo como ser humano.

5) Como você vê a importância da mulher na capoeira?

A importância da mulher na capoeira vai muito além de ‘beleza’ que proporcionamos e muitos só conseguem enxergar isso. A mulher conquistou todos os espaços na sociedade moderna e com a capoeira não podia ser diferente. Existem duas formas de atuarmos na capoeira. A primeira é a Mulher Capoeira, aquelas que dedicam sua vida à arte e vivem em harmonia com ela. São mulheres guerreiras e capazes, que provam à sociedade machista que de ‘sexo frágil’ não temos nada. Agimos nas rodas de capoeira e nas ‘Rodas das Idéias’ de igual para igual. Ministramos aulas, cursos, palestras, e, coordenamos trabalhos e grupos. A segunda atuação é nas administrações de grupos, associações e trabalhos onde afirmo que mais da metade da coordenação dos trabalhos com capoeira existentes pelo mundo está sob a administração de uma mulher, que algumas vezes é apenas a namorada, companheira, aluna, mãe ou esposa do ‘líder’ do grupo e ele é quem aparece como coordenador e leva todo o prestígio. Essas mulheres atuam por amor e de corpo e alma á capoeira, e muitas vezes, o amor pelo companheiro estende-se a arte. Deixo aqui os meus sinceros Parabéns a toda Mulher Capoeira, seja esta atuante direta ou uma ‘forte coadjuvante’.

6) Para você o que é ser Mestre de Capoeira, como é sua relação com o mestre e o que ele representa:

Eu tenho minhas concepções sobre ‘mestre’. No meu conceito mestre é aquele que ensina que Dar Lições; é também quem tem um trabalho reconhecido perante a sociedade e o meio capoeirístico e; finalmente, é um título, título de reconhecimento que se adquire com muito trabalho, e dedicação à capoeira acima de tudo. O capoeira que possui um destes itens é ou será um grande Mestre de Capoeira.

7) Quais são seus planos para o futuro?

Tenho como projetos futuros conquistar e conhecer novos espaços e lugares com a capoeira, realizando e participando de eventos. Tenho um projeto para um Campeonato Interno que pretendo realizar no primeiro semestre deste ano. Ampliar e melhorar cada vez mais o meu trabalho no meu Estado é um plano paro o futuro, estendendo-o a outras cidades, sob a orientação do meu Mestre e, por fim, a publicação da minha monografia como um pequeno livreto seria a concretização daquele trabalho.

Gostaria de deixar uma pequena mensagem aos capoeiras. A capoeira tem muitas verdades, e temos que aprender a respeitar as diferença. Além da responsabilidade que carregamos, todos nós temos um papel fundamental na construção da nossa arte e temos a nossa importância. Todo trabalho com a capoeira deve ser respeitável e respeitado. A qualificação também deve ser primordial para quem quer seguir esse caminho, o conhecimento é necessário. Deve ser adquirido através do saber popular dos capoeiras mais experientes, seja com um contato oral, prático ou escrito, paralelo ao conhecimento acadêmico. Essas iniciativas são fundamentais para a qualidade de qualquer trabalho.

Contato: virginiapassos@yahoo.com.br

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