Pesquisa: Desistência da mulher da capoeira
03 Abr 2008

Pesquisa: Desistência da mulher da capoeira

ANA LUIZA SILVA CORRÊA Professora de Educação física e instrutora de capoeira Em sua monografia de conclusão do curso de graduação apresentou

03 Abr 2008

ANA LUIZA SILVA CORRÊA
Professora de Educação física e instrutora de capoeira

Em sua monografia de conclusão do curso de graduação apresentou um trabalho sobre a mulher na capoeira, procurando entender os motivos do ingresso e do abandono, com o intuito de contribuir com mestres, responsáveis por grupos e associações, professores e alunas, incentivando a permanência e a evolução da mulher na capoeira, apontando os problemas e tentando solucioná-los da melhor maneira, visto que há pouca literatura sobre o tema em questão.

O que te motivou em fazer essa pesquisa?

Iniciei minhas atividades capoeirísticas em agosto de 1994; o intuito era apenas pela prática esportiva e ciclo de amizades, mas acabei me envolvendo com tudo que a Capoeira tem para oferecer (música, ginga de corpo, dança, malícia…) e em pouco tempo passei a ter sentimentos mais definidos com relação à essa arte-luta.
Havia muitas mulheres iniciantes e pouca presença de professoras. Com o passar do tempo comecei a acompanhar a evolução de muitas meninas, vendo-as se tornarem professoras e contramestra.

No segundo semestre do ano 2000, com seis anos de prática e uma visão mais ampla sobre a capoeira, tomei a decisão de cursar a Faculdade de Educação Física.

     Encontro Feminino
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O que leva uma menina a se aproximar de uma disciplina como a capoeira?

Trabalhei com base em hipóteses (Ingresso e Evasão). Assim, através de um questionário com 12 perguntas, procurei entender o motivo da aproximação e do abandono da capoeira.

Ingresso

Por modismos;
Porque o namorado, vizinha ou colega da escola pratica a capoeira;
Para conhecer pessoas diferentes;
Porque viu alguma roda de capoeira ou foi a algum evento e achou bonito/interessante;
Porque precisa fazer algum exercício físico / emagrecer / estética;
Para arrumar namorado.

Evasão

Começou a trabalhar e o horário de trabalho choca com o horário de treinamento e/ou chega em casa cansada e não tem ânimo para treinar;
Não consegue conciliar trabalho, escola e treinamento;
Casou-se ou teve filhos;
Os pais ou o namorado proibiram;
Machucou-se ou descobriu algum problema de saúde;
Sentiu alguma dificuldade e por isso desmotivou-se;
Terminou um relacionamento amoroso dentro da academia em que treina a capoeira;

Quais os fatores que dificultam a mulher em desenvolver um trabalho com a capoeira? E quais os fatores que podem ajudar a sua permanência na capoeira até se tornar professora?

Conforme preceitua a cantiga, capoeira é pra “home, minino e mulhé”, e apesar do grande número de mulheres que iniciam a prática, o que podemos verificar concretamente é que ainda há uma predominância maciça de indivíduos do sexo masculino no campo da capoeira. Isso pode ser confirmado pelo irrisório número de mulheres que conquistaram o grau de mestre. Esta supremacia dos homens é, entre outras possibilidades, fruto da divisão social do trabalho no Brasil, que, ao longo de séculos tratou a mulher de forma discriminada.

Quanto aos fatores que levam as mulheres a abandonar a capoeira, meu trabalho teve como objetivo específico verificar qual seria a opinião das mulheres que estão envolvidas com a luta e já passaram ou têm visão das dificuldades que as mulheres enfrentam quando praticam algum esporte, e traçam dentro dele, metas a serem cumpridas, sejam como professoras e mestras ou como praticantes assíduas.

Através de um questionário feito com mulheres de vários grupos da Cidade de Goiânia, Aparecida de Goiânia e até Portugal, pôde-se analisar que a mulher realmente gosta e quer se tornar algo mais (Professora ou Mestra) na capoeira e sabe que faz toda a diferença dentro da roda, vencendo obstáculo e preconceito encontrado no universo da capoeira; apesar de todas as dificuldades enfrentadas, ainda consegue ministrar os afazeres do lar, filhos, esposo, trabalho e estudo.

A mulher consegue dedicar-se à prática da capoeira, principalmente quando tem o apoio da presença masculina dentro da capoeira, que inclusive a incentiva ao retorno à prática devido à maternidade ou à recuperação de lesões, pois todas as mulheres que responderam o questionário proposto e deixaram a prática por algum motivo têm vinculo familiar dentro da capoeira ou são casadas com professor ou mestre. Ou seja, realmente a presença masculina contribui para a permanência da mulher dentro da capoeira. São como duas faces, aquele que discrimina nas rodas (não são todos) é o mesmo que a incentiva e apóia.

Elas manifestam o desejo de não ser mais conceituadas como frágeis e que sua participação em rodas onde há presença de homens não contenha discriminações e preconceitos verificados até mesmo nas cantigas comumente entoadas nas rodas.
E que os concorridos “Encontros Femininos”, promovidos por diversos grupos em eventos de âmbito nacional e internacional, em que se intensificou a participação da mulher na capoeira, não sejam somente o único caminho que as mulheres têm para mostrar que são capazes de planejar e executar seu próprio evento e, sim, uma troca de experiência com mulheres de outras regiões.

Dentro do contexto histórico a capoeira e a mulher se assemelham, desde os primórdios dos tempos, na luta pela conquista do respeito, reconhecimento e igualdade social. Abre-se então um leque de oportunidades para outros estudos no ramo da capoeira relacionados à mulher, pois este é um pontapé inicial, e muito ainda se tem a descobrir.

(Inst. Analuiza)

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