Capítulo 8 – Manduca da Praia
04 Mai 2015

Capítulo 8 – Manduca da Praia

  CAPOEIRISTAS PULP FICTION TROPICAL   Nestor Capoeira capítulo 8   Finalzinho do capítlo 7 Certamente tambem foram fortemente influenciadas por inesquecíveis

04 Mai 2015

 

CAPOEIRISTAS

PULP FICTION TROPICAL

 

Nestor Capoeira

capítulo 8

 

Finalzinho do capítlo 7

Certamente tambem foram fortemente influenciadas por inesquecíveis e impressionantes personagens que realmente existiram e flanaram pelas ruas do Rio nos 1800s e início dos 1900s.

 

Entre estes, certamente se destacou o Manduca da Praia.

 

capítulo 8

 

MANDUCA DA PRAIA

 

INSPIRAVA TEMOR E CONFIANÇA

Eis o que Moraes Filho contou no seu livro, Festas e Tradições Populares do Brasil, de 1888. : 

Por volta de 1850, Manduca “iniciou sua carreira de rapaz destemido e valentão, agredindo touros bravos sobre os quais saltava, livrando-se”.  Dotado de enorme força física e “destro como uma sombra”, Manduca cursou a escola de horário integral da malandragem e da valentia das ruas do Rio na época de perigosos capoeiras como Mamede, Aleixo Açougueiro, Pedro Cobra, Bem-te-vi e Quebra Coco. 

Desde cedo destacou-se no uso da navalha e do punhal; no manejo do Petrópolis – um comprido porrete de madeira-de-lei, confeccionado na cidade de Petrópolis, companheiro inseparável dos valentões da época -; na malícia da banda e da rasteira; e com o soco, a cabeçada e o rabo-de-arraia tinha uma intimidade a toda prova.

 

O PETRÓPOLIS

O jogo de pau era a arma tradicional de auto-defesa praticada por camponeses e pastores do norte de Portugal, especialmente na província do Minho, mas também na Galícia espanhola e nos Azores – exatamente as áreas de onde vieram, para o Brasil, a maioria dos imigrantes pobres portugueses a partir de 1850 aproximadamente – os engajados.

No norte de Portugal, os homens jovens sempre carregavam um bastão de cerca de 1,60m. de comprimento.  Técnicas de luta eram transmitidas de geração em geração, e no final dos 1800s também eram ensinados nos quintais das casas.

Quando as rivalidades entre homens jovens, ou mesmo entre vilarejos, explodiam nos dias de mercado, nas festas de santos padroeiros ou nas peregrinações, o bastão era a arma principal usada nestes conflitos; nos conta Camara Cascudo (citado por Mathias Assunção, 2005).

Muitos dos jovens engajados, que trabalhavam em condições duríssimas na cidade do Rio de Janeiro, pulavam o muro e acabavam juntando-se ás maltas de capoeiras, que anteriormente – antes de 1850 – eram compostas quase que exclusivamente de negros escravos e libertos. 

O jogo de pau português, e a navalha do capoeira carioca, eram tão emblemáticos, que Aluizo de Azevedo romanceia a luta do mulato capoeira Firmo – com sua navalha -, com o português Jerônimo – com seu bastão -, numa cena do romance O Cortiço (1890).

Mathias Assunção comenta, em relação às técnicas de luta no Rio de Janeiro, por volta de 1870:

… havia a combinação de cinco técnicas de luta complementares: cabeçada, chute, taponas (de mão), técnicas de faca e pau.  Nenhuma fonte sugere que este tipo de combinação jamais tenha existido na África

…  a transformação do contexto social inevitavelmente tem impacto nos aspectos formais da prática da capoeira.

A capoeira “creolizou-se”; isto é, partindo das raízes africanas tornou-se algo diverso, característico do novo local. Mathias comenta que isto pode ser visto, mais ainda, “pelas mudanças substanciais  que afetaram seu significado cultural e político na segundo metade do século XIX”; quando as maltas fortalecem seus laços com políticos e homens de poder, justamenta a época em que Manduca da Praia viveu.

Por outro lado, as técnicas de luta com pau – de diferentes tamanhos e formatos – são uma constante em toda a Africa. Então, os negros que compunham as maltas tambem estavam acostumados com estas técnicas; as novidades introduzidas pelos jovens engajados portugueses vieram para sofisticar o arsenal da rapaziada.

 

 

CHAMPAGNE

Manduca não era um “filósofo da capoeira” como, bem mais tarde, foi mestre Pastinha; nem um lutador e “revolucionário da capoeira”, como mestre Bimba que criou a capoeira regional e a primeira academia na década de 1930; nem um “capoeirista de raiz e fundamento” como os atuais mestres João Pequeno (recentemente falecido) e João Grande; e nem tampouco um representante do espírito da “malandragem alto astral”, como foi mestre Leopoldina. 

No entanto, Manduca tinha algo que o destacava e diferenciava de seus contemporâneos – facínoras, valentes, vadios e rufiões -: uma inteligência fria, calculista e implacável; uma sede de poder, de status e de dinheiro; aliadas a uma visão de comerciante e de homem de negócios. 

Manduca tornou-se uma lenda viva e, mais tarde, um mito cantado e celebrado até os dias de hoje.

Manduca – dizem a lenda e cronistas da época -, “não recebia influências da capoeiragem local nem de outras freguesias, fazendo vida à parte, sendo capoeira por sua conta e risco”.

Era capanga e guarda-costas de ilustres políticos.  

No entanto, também temos notícias dele misturado à malta Flor da Gente, da freguesia da Gloria, na época das eleições. Nas eleições do bairro de São José, dava as cartas, “pintava o diabo com as cédulas. Nos esfaqueamentos e sarilhos próprios do momento, ninguém lhe disputava a competência”. 

O Manduca “respondeu a 27 processos por ferimentos leves e graves, saindo absolvido em todos eles pela sua influência pessoal e de seus amigos”. 

Manduca ficou mais célebre ainda com a chegada, no Rio, do deputado português Santana que, segundo o escritor Mello Moraes:

… era um cavalheiro distintíssimo e invencível jogador de pau, dotado de uma força muscular prodigiosa.  Santana, que gostava de brigas, que não recuava diante de quem quer que fosse, tendo notícia do Manduca procurou-o.  Encontrando-se os dois, houve desafio, acontecendo àquele (ao Santana) saltar nos ares ao primeiro camelo do nosso capoeira, depois do que beberam champagne ambos, e continuaram amigos.

 

BUSINESMAN

Mas nem só de valentia e de champanhe, de mumunhas com os políticos, de esfaqueamentos na época das eleições, vivia nosso personagem. 

Manduca, como dissemos, além da inteligência de predador tinha também o senso dos negócios.  Valendo-se de seu prestígio e de seus conhecimentos nas altas esferas do poder, “montou uma banca de venda de peixe na praça do Mercado, era liso em seus negócios, ganhava bastante e tratava-se com regalo”. 

Quando Mello Morais – o escritor – conheceu-o, há mais de cem anos atrás, Manduca já era um homem maduro:

… alto e reforçado, usava uma barba crescida e em ponta, grisalha e cor de cobre… nunca dispensava o casaco grosso e comprido, e a grande corrente de ouro de que pendia o relógio… de olhos injetados e grandes, de andar compassado e resoluto, a sua figura tinha alguma coisa que infundia temor e confiança.

Manduca da Praia, e outros de seu feitio, vivendo com um pé na marginalidade e o outro na sociedade estabelecida, “sendo capoeira por sua própria conta e risco”, foi um dos ancestrais mitológicos de Veneno, Toninho, e Noivo-da-Vida, e de todos capoeiristas da nossa era. 

 

NOIVO-DA-VIDA

 

Noivo-da-Vida, de banho tomado e beca nova – calça branca, camiseta de algodão riscada de vermelho e branco -, saiu da bucólica pracinha cruzando calmamente, sem dar a menor bola, com a patrulhinha que vinha investigar a denúncia de um “homem nú tomando banho no chafariz”.

Enquanto caminhava, examinou suas reservas monetárias vindas da caixa registradora do botequim do portugues – nada mal -, e ao levantar os olhos reparou que estava em frente a uma modesta barbearia.

Entrou, fez a barba, cortou as unhas das mão e dos pés; deixou o cabelo longo, mas aparado.

Estava descalço; não tinha importância: na década de 1970 os hippies ainda faziam um certo sucesso no Brasil e andar descalço e, ao mesmo tempo, embecado, não era nada excessivamente  estranho.

 

“Tem mar aqui perto?”, perguntou ao barbeiro.

“Tem, sim sr. O sr. é carioca?”

“Ocasionalmente. Onde fica a praia?”

 

VAMOS A LA PLAYA

Noivo já sacolejava há quase duas horas no ônibus desconjuntado quando sentiu o cheiro de maresia.

A cidadezinha à beira-mar era um daqueles paraísos tropicais que inicialmente tinha sido descoberta pelos hippies, semelhante ao que aconteceu com Porto Seguro e Arraial da Ajuda. Alguns anos depois, aos poucos, estava se tornando um centro turístico da classe média.

Noivo desembarcou e rumou na direção da praia.

Deu de cara com uma rapaziada de abadá e camiseta branca com o logo da academia – no mais perfeito estilo das academias de “sucesso” do Rio e São Paulo.

Começaram a tirar seus berimbaus de dentro de 2 carros e armaram uma roda.

Noivo entendeu rapidamente o enredo: havia um núcleo de uns 10 ou 12 capoeiras locais e, dentre estes, um ou dois se destacavam. E havia o mestre, que vinha ocasionalmente de outra cidade – provavelmente uma cidade maior e mais rica -, para dar aulas.

Daquela vez, o mestre – um garotão saudável, uns 30 anos de idade, com pinta de classe média bem sucedida – tinha trazido uma meia dúzia de alunos com ele.

Hoje em dia, isto é normal, mas nos 1970s era uma raridade: a capoeira praticamente só existia na Bahia; numas poucas academias no Rio e em São Paulo; e um movimento incipiente em Belô e Brasília. Era difícil encontrar capoeira fora destes grandes centros urbanos.

 

A RODA

A roda começou.

Uma galera se reuniu ao redor para assistir.

Noivo ficou na dele, assistindo aos jogos e ocasionalmente batendo palmas com o resto da plateia.

Mas o jovem mestre, que se chamava Zequinha, não tirava os olhos de Noivo. Existe alguma coisa na maneira de ser do jogador que cria uma espécie de vibração, ou aura; e Zequinha intuitivamente tinha captado aquela irradiação em Noivo sem nunca te-lo visto antes.

De repente, a corda de um dos berimbaus quebrou. Zequinha passou o instrumento ao seu filho – um menino de uns 6 anos de idade -:

“Guarda lá no carro, pro papai”.

Pouco depois o menino voltou, com o berimbau armado com uma corda nova, e afinado, pronto para ser usado.

“Quem trocou a corda do berimbau?”, perguntou um espantado Zequinha, pois encordoar uma biriba não é tarefa para um inciante.

“Foi o moço”.

“O moço?”

“É”, respondeu o menino apontando timidamente para Noivo que já tinha voltado para o meio da plateia e continuava a assistir aos jogos com cara de sonso.

“O moço perguntou se tinha arame. Eu mostrei, e ele consertou o berimbau”.

Zequinha ficou sem saber o que fazer.

Naquela época, com a popularização da capoeira, e com o aumento do número de alunos e de dinheiro de mensalidades, estava começando um período de competividade que muitas vezes degenerava em porradaria entre professores de academias diferentes, no meio dos jogos, no meio da roda.

Mas Zequinha tinha fé no taco dele e resolveu tomar a inciativa. Na sequência, conforme o que rolasse, ele decidiria o que fazer.

“Afinal de contas”, pensou com seus botões, “estou com seis alunos e mais uma dúzia de locais”. Mediu  Noivo disfarçadamente com o olhar. “Alem de tudo, o cara parece estar sozinho, não é daqui da área”.

Entregou o berimbau para um aluno graduado  tocar; rodeou a roda pelo lado de dentro, parou em frente a Noivo e perguntou em meio à zoada do São Bento Grande:

“O sr. quer jogar?”

“Será um prazer.”

“Que ritmo o sr. prefere?’, perguntou Zequinha, querendo descobrir se Noivo era da Regional – escolheria um ritmo rápido como o que estavam tocando agora -; ou se Noivo era da Angola – provavelmente Noivo escolheria um ritmo mais lento e maliciado.

“En não conheço nada, nem ninguem”, respondeu Noivo, como se lesse os pensamentos de Zequinha,”a roda é sua, o sr. é quem sabe qual é a melhor opção”.

Zequinha ficou com a pulga atrás da orelha. Já lamentava ter convidado aquele estranho, um tanto misterioso, tão calmo e na dele – “o sr. isso, o sr. aquilo” -, para jogar.

Mas agora era tarde.

E, afinal,  quem esta na chuva é pra se molhar.

Zequinha olhou dentro dos olhos de Noivo, procurando um traço de maldade ou violência; ou talvez um eco de inquietude, ou receio por estar ali, sozinho, no meio de uma turma de desconhecidos numa cidade estranha; ou, quem sabe, Noivo era um daqueles caras bobocas, que não mede as consequências dos próprios atos, e até desconhece seus próprios limites e possibilidades.

Nada.

Nem um tremor, nem uma reação.

Os olhos do descohecido apenas retribuiram o olhar de Zequinha, sem animosidade, sem tentaiva de amizade – nada. Uma esfinge.

Os lábios, pensou Zequinha, esboçaram o mais leve dos sorrisos. Mas talvez fosse apenas impressão.

Zequinha foi até o pé-do-berimbau; Noivo seguiu-o; e Zequinha, sem se benzer nem cumprimentar o estranho, deu um e um sensacional salto-mortal aterrisando no meio da roda onde começou a gingar com competência e confiança.

 

 

fim do capítulo 8

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