Crônica: “DO GIGA BYTE AO PANDEIRINHO”
19 Out 2006

Crônica: “DO GIGA BYTE AO PANDEIRINHO”

A dura missão de levar a rua para dentro da escola.  Alguns dias atrás o Pedro Henrique, aluno do infantil, me explicou

19 Out 2006
A dura missão de levar a rua para dentro da escola.
 
Alguns dias atrás o Pedro Henrique, aluno do infantil, me explicou o que era um "giga byte". O quanto àquela unidade numérica suportava de informação e como era complexa a sua função no mundo dos chips.
Tudo em ordem, se não fosse o fato do Pedro estar com 05 ou 06 anos de idade. Ele brinca muito! Brinca quase quatro horas por dia. Brinca de entrar na internet, brinca de desmontar placas de computador e depois as monta. Brinca com o seu mundo office, world wide web e de mega bytes! 
 
Observei muito o Pedro nas últimas aulas de capoeira e percebi a sua dificuldade em realizar movimentos motores de caráter grosso, que no geral são mais simples que os de características fina, que ele já deveria estar executando. Os pais dele, após assistirem uma apresentação na unidade de educação infantil, o matricularam na capoeira com a intenção de diversificar a maneira de brincar do pequeno Pedro. Ele ainda corre com pouca coordenação, salta com grande deficiência, quase não pula e rolar ainda é um mundo desconhecido para o Pedro assim como os “giga bytes” são para mim. O testei, colocando uma série de figuras, personagens e objetos ao seu reconhecimento. Cerca de 20 imagens dentre elas a foto de Edson Arantes, o Pelé; Zumbi dos Palmares e de instrumentos musicais como o berimbau e o agogô. Ele reconheceu somente o Chaves, do seriado infantil, os Rebeldes fruto da cultura de massa musical e o ícone tecnológico do internet explorer. Eu não poderia esperar mais! Estou propondo á ele novas brincadeiras e jogos adaptados para a capoeira e tenho realizado uma leitura de seu comportamento motor e afetivo.
 
Em relação à valência física de coordenação motora, observamos a capacidade de dissociação da criança no primeiro momento, para planejar o seu desenvolvimento. Esta valência está na prática de associar movimentos de membros inferiores, juntamente com movimentos de membros superiores e do tronco. As crianças apresentam muitas diferenças neste aspecto, contudo o nosso Pedrinho mal conseguia erguer um braço e a perna do mesmo lado simultaneamente. Casos assim são rotineiros dentro da educação corporal de crianças em primeira infância que contempla dos 02 aos 06 anos de idade. Não sendo a idade a única balizadora deste período. Uma criança de 05 anos nunca será igual à outra em vários aspectos só porque possuem a mesma idade. Contudo, não é raro encontramos casos similares ou ainda mais complicados como do Pedro. 
 
A maioria das crianças nos grandes centros urbanos vive em seus apartamentos, comendo fast food e jogando play station. Nunca rodaram um pião, jamais empinaram uma raia, nem sabem o que é uma fubeca ou até mesmo não avistaram a sua frente um pé de frutas para subirem em seu tronco. Nós educadores temos a dura missão de trazer a rua para dentro da escola. Nuca será a mesma coisa. São ambientes bem distintos. Mas diante da difícil situação em que se encontram nossos pequenos, o brincar de pique esconde dentro da escola, se tornou mais presente do que as tabuadas e a gramática  dos nossos pequenos prisioneiros. E isto talvez seja um ponto positivo referente à pedagogia na educação infantil da atualidade. 
 
Nosso saudoso Jean Piaget, no seu inesquecível O Nascimento da Inteligência na Criança de 1978, acreditava que nossa gestação no útero materno é muito curta, apenas nove meses. Comparados aos outros animais, nascemos muito grandes a antes do tempo. Os bebezinhos recém-nascidos, ainda apresentam feições de feto, como se a formação biológica devesse ainda algum desenvolvimento a eles. João Batista Freire, no seu livro Educação como Prática Corporal de 2003, afirma que esta continuidade no processo de “gestação” se dá no “útero cultural”. Ou seja, nesta segunda gestação, aprendemos o que não foi aprendido na barriga da mãe. Ela acontece através da cultura e pelo resto da vida, especialmente durante a juventude. Somos, portanto, animais com extremo talento para aprender. Considerando que o meio em que vivemos não é natural, mas cultural, e que a cultura humana se altera a cada instante, precisamos, para dar conta de viver nele, aprender permanentemente. 
 
Crianças no Projeto Beija-FlorA nossa missão então, é fazer com que o nosso querido Pedro Henrique, seja visto como uma criança e nada mais. Um ser que não se apresenta, fragmentado ou fatiado em dados momentos; como um ser psicológico, um ser motor, um ser intelectual e um ser moral. Mas sim um ser único que deverá ser educado de corpo inteiro (FREIRE; SCAGLIA, 2003). Oferecer a ele uma “outra gestação” ampla culturalmente e bem diversificada socialmente. Uma criança que não deveria ficar quatro horas em frente á uma tela de computador e nem mesmo quatro horas gingando e dando piruetas. Alguém que não suporta ficar durante horas sentado em uma sala de aula, em frente á um quadro negro e enfileirado como um soldado do exército. A visão que se tem é que não há respeito pela imobilidade e inquietação da criança em razão de nossa imposição por padrões estabelecidos. Querer que uma criança fique quieta, sem se mexer e sem levantar durante um período de aula é anular o que ela tem de mais belo, que é a sua capacidade criativa e de improvisação em jogos, brinquedos e brincadeiras. Nós adultos, temos características de imobilidade perante aos pequenos e achamos que eles devem seguir o nosso raciocínio. 
 
Neste ponto, as atividades corporais, de cultura, de expressão e o lazer entram com uma grande importância dentro dos primeiros anos de aprendizado. Invertem a situação estática antes mencionada. As danças, lutas e também a capoeira está a cada dia mais presente dentro das atividades oferecidas pelas escolas de educação infantil. Em geral, se bem planejadas pelo educador, são bem aceitas por pais e alunos. Só devemos entender que este seja talvez o principal período de construção de conhecimento para estas crianças. Todo repertório motor está sendo constituído nesta fase, bem como o processo de maturação biológica e concepções afetivas.
 
Então, a responsabilidade de quem trabalha com crianças é grande e não depende apenas de boa vontade, mas também de conhecimento no assunto e amor. Há algum tempo a informação é de fácil acesso aos educadores, só esperamos que haja busca neste sentido. Senão, nós capoeiristas em particular, não poderemos dizer a que viemos e porque fazemos de uma arte tão bela uma poderosa ferramenta pedagógica. 
{jgquote}Talvez os “giga bytes” um dia o ajudem, mas agora só queremos que ele viva como um garoto. Um garoto de cinco anos de idade que hoje viu o mundo com as pernas para o alto.{/jgquote} 
E voltando ao pequeno Pedro Henrique, nesta manhã ele conseguiu fazer uma bananeira. A mãe dele me disse que ontem ele usou pouco o computador e construiu um pandeirinho com sucata que encontrou em casa. Talvez os “giga bytes” um dia o ajudem, mas agora só queremos que ele viva como um garoto. Um garoto de cinco anos de idade que hoje viu o mundo com as pernas para o alto. 
 
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Crianças no Projeto Beija-Flor diante da roda de capoeira:
atenção em razão da beleza cultural e não pela imposição
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