Lampião da capoeira
04 Mar 2005

Lampião da capoeira

Fonte: Correio da Bahia Manoel Henrique Pereira, o Besouro Mangangá, tinha fama de bandido e justiceiro no recôncavo baiano Praça Batista Marques,

04 Mar 2005

Fonte: Correio da Bahia

Manoel Henrique Pereira, o Besouro Mangangá, tinha fama de bandido e justiceiro no recôncavo baiano

Praça Batista Marques, antigo Largo da Cruz, onde Besouro enfrentou e debochou de 11 soldados, e conseguiu fugir , saltando da Ponte do Xaréu

O cabo José Costa saiu do quartel com passos firmes e apressados e tentou imprimir segurança à própria voz quando falou com os dez soldados que o acompanhariam na difícil missão que acabara de receber: prenderia Manoel Henrique vivo ou morto. A caminhada até o local onde o homem procurado estava pareceu estranhamente muito mais longa do que o comum, em parte devido ao calor escaldante de Santo Amaro da Purificação, em parte pelo nervosismo de cada um daqueles 11 homens. Sabiam que, ainda que estivessem armados, tinham uma tarefa quase impossível pela frente, e lutavam contra uma força que chegava a parecer sobrenatural. Talvez até a própria demora em chegar ao bar, no Largo da Cruz, fosse uma artimanha do tempo para proteger o temido Manoel.

Pode ser que o mesmo raio de sol que fez uma gota de suor escorrer pelo rosto do cabo José Costa tenha lançado um reflexo no fundo do copo de cachaça que Manoel Henrique entornava naquele instante. O certo é que ele pressentiu o perigo e, antes mesmo que o líquido transparente esquentasse seus músculos de lutador, já estava de pé, a tempo de escutar a ordem de prisão e lançar aos soldados seu inconfundível olhar de superioridade debochada. Antes que eles pudessem reagir, com movimentos rápidos e certeiros, rasteiras e rabos-de-arraia, desarmou um por um. O povo que assistia à cena, entre as frestas de janelas, e um ou outro que arriscou se aproximar foi testemunha de que Manoel largou as armas num canto e saiu andando tranqüilamente, com seu caminhar típico de capoeirista, deixando os soldados caídos no chão. Foi pior do que se os tivesse matado. Tanto que a vergonha dos policiais pela desonra foi mais forte que o medo. Levantaram-se rapidamente, a ponto de alcançarem o agressor quando passava exatamente pelo cruzeiro.

Quando ouviu os gritos e se virou, Manoel Henrique viu diante de si os 11 homens, agora com olhares sedentos de vingança, com armas empunhadas, prontos a atirar. Só teve tempo de, encostado na cruz de madeira, abrir os braços, numa entrega destemida à execução, corajoso até o fim. Não se ouviu nem mesmo a respiração das almas vivas quando abriram fogo sobre aquele que era o homem mais temido de todo o recôncavo, o único capaz de esvaziar ruas e feiras pelo simples mencionar de seu nome. Besouro Mangangá jazia no chão do Largo da Cruz. Mas qual não foi a surpresa quando os praças se aproximaram e viram Manoel se levantar, tão vivo quanto antes, e correr, em movimentos ágeis, pelo beco que leva à ponte do Xaréu. Sem hesitar, pulou da ponte, fazendo quase um vôo, e fugiu pelo mato.

Atrás de si, deixou policiais com uma expressão mista de raiva e surpresa, e um povo que, cada vez mais, se convencia de que estava diante não apenas do melhor e mais destemido capoeirista de todos os tempos, o único com coragem suficiente para – mais do que enfrentar – até debochar da polícia. Aqueles homens e mulheres começavam a acreditar que suas façanhas não eram apenas fruto de sua incrível agilidade e ousadia, mas de algo maior, uma espécie de sexto sentido, não explicado somente pelas forças que os homens conhecem. Já se comentava pelas redondezas de Santo Amaro que Besouro tinha o corpo fechado. Nenhuma arma de metal poderia atingi-lo mortalmente. O próprio apelido, aliás, vinha dessa crença: dizia-se que, quando se encontrava numa situação difícil, diante de inimigos numerosos demais, Manoel se transformava em besouro e saía voando.

Até hoje, há gente como Aloísio Lima, 92 anos, que garante ter assistido à cena relatada acima. Mais do que isso, seu Belo, como é conhecido em Maracangalha, afirma ter visto a cruz de madeira na qual Besouro se escorou, que hoje não existe mais, cravejada de balas.

Figura lendária

Existem diversas versões – algumas mais, outras menos espetaculares – para o episódio do Largo da Cruz. Mas essa é apenas uma das histórias que se contam sobre Manoel Henrique Pereira, o Besouro Mangangá. Difícil saber quais delas aconteceram de verdade, e, sobretudo, de que maneira aconteceram. Mais difícil ainda é descobrir como esse homem negro e pobre, nascido no fim do século XIX, numa época em que ser praticante de atividades ligadas à herança africana era considerado um crime, se tornou a figura mais respeitada no universo da capoeira. Sua fama cruzou os limites do recôncavo, chegou à capital baiana, ao restante do país e alcançou os quatro cantos do mundo.

Capoeirista corajoso num tempo em que não havia a divisão entre os estilos angola e regional, muito menos escolas de ensino da arte-luta, Besouro Cordão de Ouro – como também era conhecido – conseguiu a façanha de hoje ser um herói tanto para os seguidores do mestre Bimba, criador da regional, quanto para os discípulos de mestre Pastinha, líder máximo da capoeira angola. Mais impressionante ainda: teve menos de 30 anos de vida para construir toda essa fama, antes de ser assassinado, em 1924.

Hoje, não há nome mais cantado nas rodas de capoeira. Besouro inspirou a música Lapinha, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, vencedora do Festival de Música da TV Record, na voz da cantora Elis Regina. Serviu de fonte também para um dos capítulos do livro Mar Morto, de Jorge Amado, e para o filme Besouro capoeirista, com o ator baiano Mário Gusmão. O curioso é que a mesma coragem e valentia lembradas nas canções, que o transformaram num herói, fizeram com que, em vida, tivesse fama de arruaceiro e fosse perseguido pela polícia em inúmeras ocasiões.

Mas como entender esse homem que ainda hoje provoca discussões apaixonadas? Um homem que é tido por alguns como um criminoso ousado, um fora-da-lei, e, ao mesmo tempo, é considerado por outros um justiceiro, protetor dos oprimidos? Não é à toa que há quem diga que Besouro representou para a capoeira o que Lampião foi para o cangaço.

Para tentar entender a história de Manoel Henrique, é preciso ter os olhos desconfiados e os ouvidos atentos de um capoeirista. Os casos de suas façanhas são contados por pessoas antigas, algumas que conviveram com ele, outras que ouviram falar de sua rebeldia. Entre uma roda e outra de capoeira, foi saveirista, vaqueiro e amansador de burro brabo. Chegou a ser soldado do Exército. Apesar da fama de violento, "não se tem notícia de que ele tenha matado alguém", afirma Antonio Reinaldo Lima dos Santos, o Lampião, capoeirista santo-amarense que desenvolve uma pesquisa sobre a vida de Manoel Henrique.

Até hoje, sua personalidade permanece envolta em mistério, fortalecendo ainda mais o mito em torno de seu nome. Sua certidão de nascimento nunca foi encontrada, nem documentos de identidade. Também não há qualquer imagem – seja fotografia ou pintura – dele. Besouro não deixou filhos conhecidos, nem mulher, nenhum grande amor que tenha ouvido suas confidências naquelas noites antigas. Seus amigos já partiram deste mundo. Sua única irmã viva não chegou a conhecê-lo: temia o próprio irmão.

Houve até quem desconfiasse da existência de Besouro. Sua passagem por esse mundo só foi comprovada há alguns anos, através de dois documentos encontrados no Arquivo Público da Bahia, em Salvador, e no de Santo Amaro. Neste último, Besouro é acusado por um crime cometido na Fazenda Rio Fundo, onde ele vivia como empregado de um poderoso proprietário da região. É naquele amplo terreno, em meio aos canaviais, que Besouro caminha, com seu inseparável facão. É lá, nas terras do poderoso José Antonio Rodrigues Teixeira, que começa nossa viagem em busca do mistério escondido no olhar daquele que Muniz Sodré afirmou ser tido como "o mestre dos mestres".


Fonte: Correio da Bahia

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