Madame Satã
04 Fev 2005

Madame Satã

Madame Satã de mito, homossexual e malandro para as telas do cinema…   A Hisória:   O Pernambucano João Francisco dos Santos

04 Fev 2005
Madame Satã de mito, homossexual e malandro para as telas do cinema…
 
  • A Hisória:
 
O Pernambucano João Francisco dos Santos (1900-1976), o mítico Madame Satã, era uma espécie de bandido chique. Dizia ser filho de Iansã e Ogum e devoto da cantora americana Josephine Baker. Homossexual assumido em plenos anos 30, ele reinava como camareiro, cozinheiro, transformista, leão-de-chácara e ladrão no submundo da Lapa, bairro boêmio do Rio de Janeiro. Negro, pobre e analfabeto, João dos Santos ganhou o apelido de Madame Satã por causa de uma fantasia que usou no bloco carnavalesco Caçadores de Veados em 1942.
  Madame Satã foi especial pela infinita capacidade de transformação. Nunca aceitou um único papel. Homossexual, se vestia com o chapéu de panamá e linho apurado de bom malandro, a despeito das sobrancelhas feitas. Jamais admitiu homem se casar com homem e chegou a ter rumorosos casos com meninas de 12 anos. Lutador, viveu quase 28 anos preso em lendária tranqüilidade. Negro, usava os cabelos longos e alisados e comprava briga para ir aonde bem entendesse.
  Para entender quem foi Madame Satã, é preciso compreender quem foi João Francisco dos Santos e o que foi a Lapa dos anos 30, território-livre da malandragem que resistiu ao bota-abaixo do Centro do Rio, promovido pelo prefeito Pereira Passos. O desmanche de morros, a abertura de avenidas e a demolição de cortiços foi uma tentativa de assepsia da capital federal que, no início do século 20, contava com 800 mil habitantes, 200 mil deles desocupados de todas as espécies, de baleiros a biscateiros, desempregados, rufiões, prostitutas e jogadores de capoeira, entre eles o próprio João dos Santos.
   Foi nesse tipo de ambiente que surgiu Madame Satã. Vinte anos depois da Abolição, o menino trabalhava como escravo em Itabaiana, na Paraíba, antes de fugir para o Rio. Depois passou para as mãos de Catita, uma cafetina de 180 quilos que comandava um dos bordéis mais animados da cidade e tornou-se freqüentador de célebres bares e cabarés da mitologia carioca: Colosso, Capela, Imperial, Bahia, Apolo, Royal Pigalle, Viena Budapest, Casanova e Cu da Mãe. Era um tempo de uma marginalidade pré-industrial, com raras armas de fogo, quando um negro forte podia criar fama no tapa e na navalha, antes de se lambuzar com um "boneco" de cinco gramas de cocaína comprado na farmácia mais próxima.
  Ao todo, João Francisco contabilizou 27 anos e oito meses de cadeia, 29 processos, 3 homicídios e cerca de 3 mil brigas. Ágil lutador de capoeira e mestre no manuseio da navalha – contam que ele sempre trazia uma presa na sola do sapato –, Madame Satã só recorria ao revólver em situações extremas, a exemplo da vez em que desfechou um tiro num soldado, na esquina da rua do Lavradio com a avenida Mem de Sá. Na famosa entrevista concedida ao histórico tablóide O Pasquim, em 1976, com seu deboche habitual o malandro afirmou ter sido preso injustamente, alegando que a arma disparara de forma casual. “A bala fez o buraco, quem matou foi Deus”, afirmou. Dizia que não brigava, se defendia.
 
 
  • O Filme:
 
 
Rio de Janeiro, 1932. No bairro da Lapa vive encarcerado na prisão João Francisco (Lázaro Ramos), artista transformista que sonha em se tornar um grande astro dos palcos. Após deixar o cárcere, João passa a viver com Laurita (Marcélia Cartaxo), prostituta e sua "esposa"; Firmina, a filha de Laurita; Tabu (Flávio Bauraqui), seu cúmplice; Renatinho (Felippe Marques), sem amante e também traidor; e ainda Amador (Emiliano Queiroz), dono do bar Danúbio Azul. É neste ambiente que João Francisco irá se transformar no mito Madame Satã, nome retirado do filme Madam Satan (1932), dirigido por Cecil B. deMille, que João Francisco viu e adorou.
 
Ficha técnica:
 
Título Original: Madame Satã
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 105 minutos
Ano de Lançamento (Brasil): 2002
Site Oficial:
www.madame.com.br
Estúdio: Videofilmes / Wild Bunch / Lumière / Dominant 7
Distribuição: Lumière
Direção: Karim Aïnouz
Roteiro: Karim Aïnouz
Produção: Isabel Diegues, Maurício Andrade Ramos e Walter Salles
Música: Marcos Suzano e Sacha Amback
Fotografia: Walter Carvalho
Direção de Arte: Marcos Pedroso
Edição: Isabela Monteiro de Castro
 
 
Elenco
 
Lázaro Ramos (João Francisco dos Santos / Madame Satã)
Marcélia Cartaxo (Laurita)
Flávio Bauraqui (Tabu)
Felippe Marques (Renatinho)
Emiliano Queiroz (Amador)
Renata Sorrah (Vitória dos Anjos)
Floriano Peixoto (Gregório)
Gero Camilo (Preso)
 
Premiações
 
– Ganhou 5 prêmios no Grande Prêmio Cinema Brasil, nas seguintes categorias: Melhor Ator (Lázaro Ramos), Melhor Atriz (Marcélia Cartaxo), Melhor Figurino, Melhor Maquiagem e Melhor Direção de Arte. Recebeu ainda outras 10 indicações, nas seguintes categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante (Emiliano Queiroz e Flávio Bauraqui), Melhor Atriz Coadjuvante (Renata Sorrah), Melhor Roteiro Original, Melhor Trilha Sonora, Melhor Montagem, Melhor Fotografia e Melhor Som.
– Recebeu 2 indicações ao Prêmio Adoro Cinema 2002, nas categorias de Melhor Ator (Lázaro Ramos) e Melhor Ator Revelação (Lázaro Ramos).
 
Curiosidades
 
– Madame Satã foi inteiramente rodado em locações na Lapa e arredores.
– Foi exibido na Mostra Un Certain Regard, no Festival de Cannes.
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