Entrevista: Mestre Adilson
21 Ago 2013

Entrevista: Mestre Adilson

  Mestre Adilson concede entrevista a Mestre Kadu, no I Encontro Interno do Grupo Gunganagô, em dezembro de 2012.   Mestre Kadu:

21 Ago 2013

 

Mestre Adilson concede entrevista a Mestre Kadu, no I Encontro Interno do Grupo Gunganagô, em dezembro de 2012.

 

Mestre Kadu: MESTRE ADILSON, COMO O SENHOR VÊ A CONTRIBUIÇÃO DO ESCRAVO AFRICANO NA FORMAÇÃO DA CAPOEIRA?

Mestre Adilson: Existe uma grande diferença entre um pesquisador da área e alguém que apenas recebeu informações através de uma tradição oral. Eu me coloco nesta segunda categoria. Motivos: Eu me importava com a prática em si e não teria tempo para me dedicar às pesquisas sobre a história meio nublada da capoeira. Deixo isso para aqueles que têm tempo e interesse.  Posso inferir sobre algumas coisas de forma especulativa.  Primeiro: A capoeira realmente veio da África, ou se formou nessas andanças que o preto fez pelo mundo?  Não é difícil de imaginar a influência da cor de pele preta (e suas diluições) na origem desta capoeira que conhecemos desde criança. O humano de pele branca, amarela, vermelha também criou seus sistemas de defesa, os quais demonstram mais semelhanças do que diferenças. De qualquer forma existe um limite biomecânico nos movimentos humanos favorecendo essas similitudes. Quanto ao fato de ter sido criada com fins de libertação, eu deixo esse tópico para os pesquisadores.

 

MK: COMO O SENHOR ACHA QUE ISSO SE DEU?

MA: Penso que os ritos tribais, e o espírito aguerrido do ser humano (E de todos os seres vivos) criaram suas variantes culturais, num processo evolutivo do conhecimento, resultando no seu desenvolvimento e sistematização.

 

MK: QUANDO E COMO O SENHOR COMEÇA A PRÁTICA DA CAPOEIRA?

MA: Comecei aos 12 para 13 anos. Na verdade pratiquei antes o judô com o saudoso mestre Lhofei Shiozawa no colégio do setor leste Brasília DF. Eu era muito tímido, e isso é um “Prato-feito” para os Bullies (i.e: maioria da raça humana). Continuei o judô com o mestre Matsuchi no colégio Elefante Branco. Mas já praticava a capoeira. O judô era uma opção na cadeira de educação física, para aqueles que não gostavam de futebol. Do mestre Shiozawa eu guardei: belíssimos quedas que levei dele, a curiosidade de não existir o “D” no japonês (Meu nome escreve-se AGILSON) e o exercício de se levantar na bananeira a partir de um movimento do corpo em mata-borrão a partir de um decúbito ventral. Ele era dez anos mais velho que eu e um atleta excepcional. Do mestre Matsuchi, também instrutor da polícia federal e juiz mundial, recebi os maiores elogios vindos de um mestre de artes aparentemente diferentes. Ele contou-me que conheceu a capoeira no início de Brasília, mais especificamente na “Cidade livre”, hoje Núcleo Bandeirante. Ele esbarrou num Trabalhador braçal e reclamou em japonês pelo incidente. Não podia esperar que aquele mestiço maltrapilho fosse desferir-lhe uma certeira meia-lua de compasso na cabeça. Eu soube que era esse golpe por que ele me via treinando no “Aquário” do Elefante Branco e elogiava o meu desempenho, associando o trauma que recebeu com aquele movimento que eu mais praticava. Ele era um critico ferrenho dos outros capoeiristas em relação à eficiência apresentada como luta, mas elogiava-me quando permanecia, minutos parado, observando-me treinar. Grande honra ter ouvido essas críticas positivas vindo dele, e de saber que a modo como eu praticava a capoeira exercia certo respeito entre lutadores de outras modalidades de defesa pessoal.

Ah! Já ia me esquecendo.  Eu comecei praticando a capoeira sozinho através de livros, como o de Lamartine Pereira da Costa da Ediouro. Eu precisava de algo que me permitisse criar e me oferecesse mais recursos nos combates de rua.  As histórias sobre a capoeira vinham da Bahia, de onde diziam que qualquer moleque de rua, tinha a capacidade de vencer um adulto com facilidade, principalmente através dos golpes desequilibrantes. Pensei comigo: “Esse é o caminho”! .  Existia no colégio Elefante Branco um grupo liderado pelo saudoso mestre Arraia. Eu era muito novo para poder ir sozinho aos treinos e não tive nenhum incentivo dos meus pais. Eram pessoas humildes, as quais não vislumbravam qualquer futuro nessas coisas, além do preconceito também, que a capoeira carregava na sociedade. Tive que me contentar com as informações que obtinha através de livros como a Enciclopédia Barsa e alguns impressos de jornais. Isso me desenvolveu um traço autodidata cuja manifestação se propagou por toda a minha vida.  A Super Quadra 209 sul possuía apenas dois blocos de apartamentos para acolher militares do exército e suas famílias.  O mestre Claudio Danadinho morava com seus pais num deles. Certa vez eu estava me exercitando no gramado da quadra 409 sul, em frente ao bloco onde os alunos do mestre Arraia se reuniam. Estive algumas vezes com eles porque me chamavam de longe ao me verem praticando sozinho meus movimentos incipientes, do outo lado da rua.

Infelizmente eu nunca me encontrei com o mestre Arraia nestas rodas. O pessoal jogava com grande desenvoltura e eu me sentia retraído diante deles. Convidavam-me para aparecer no Elefante Branco, mas eu sabia que nunca meus pais permitiriam.  Nesse tempo eu praticava o que conseguia assimilar com as informações que eu obtinha, inclusive com eles.  Lembro-me que certa vez, quando eu retornava das aulas do Ginásio do setor Leste , decidi soltar uma meia-lua de compasso para me exibir entre os colegas. Era sobre um chão de barro e eu não entendia ainda o fundamento dos golpes rodados.  Hoje sabemos que esses movimentos consistem numa entrada com uma das pernas, que servirá de pivô, ou num recuo daquela que golpeará.  Em seguida uma rotação do tronco sobre a cintura de modo a criar um efeito-mola que produzirá um giro de 180 graus ou mais, até o alvo.  No meu caso, o resultado foi engraçado, porque não dizer, desastrado, como vocês podem imaginar. Com as duas pernas paralelas diante do alvo, (sem entrada), o giro da cintura, dirigirá a perna para o lado e não para diante, pela falta desse conhecimento básico.  O giro, de qualquer forma, era muito forte, mas faltavam esses conhecimentos biomecânicos que poderiam ser ensinados empiricamente por qualquer um iniciado na arte.  E assim permaneci por muito tempo até começar a “Consertar” o que não aprendi com alguém. Nesse aprendizado lento e árduo, eu fui construindo o que imaginava ser a capoeira.  Quando eu aprendia um novo golpe, exercitava-o inúmeras vezes objetivando uma grande velocidade e potência, como se fosse o único existente. O golpe era então, mais importante do que o jogo, pela raridade com a qual ocorriam as rodas naquela época. A capoeira era para mim, antes de tudo, uma luta e não um jogo folclórico de camaradas. Meu comportamento era proporcional à reação do “Adversário”. Se o cara fosse mandingueiro, e camarada, o jogo fluía sem maiores incidentes. Do contrário, golpe ligeiro desmontava qualquer esquema, contrariava qualquer ritmo.  Pode parecer um certo convencimento da minha parte dizer isso, mas creio que a capoeira que pratiquei e ensinei no início, por não sofrer as influências clássicas e extramuros, procurou mais a objetividade da luta do que a herança folclórica.

 

MK: QUAIS OS CAPOEIRAS QUE LHE SERVIRAM DE INSPIRAÇÃO OU LHE INFLUENCIARAM?

MA: Mestres: Claudio Danadinho, Tabosa e Fritz.

 

MK: QUAIS FORAM AS INFLUÊNCIAS DA CAPOEIRA CARIOCA E BAIANA RESPECTIVAMENTE NA FORMAÇÃO DA CAPOEIRA DE BRASÍLIA?

MA: Os alunos do mestre Arraia tiveram a influência da capoeira baiana através das aulas que eram ministradas no colégio Elefante Branco. O Rio de Janeiro apesar de ter produzido inesquecíveis capoeiras nunca teve em seus cartões postais qualquer imagem relacionada à capoeira. Quando se falava em capoeira, falava-se na Bahia. Porém sabemos da forma como a capoeira foi praticada no Rio de Janeiro e da sua repercussão histórica no país, através de publicações de conceituados pesquisadores. Mas infelizmente, em função de sua própria história, a capoeira do Rio de Janeiro, não pode contar com mestres e escolas difusoras da arte, como aconteceu com a Bahia. O Rio de Janeiro produziu uma das capoeiras mais violentas, atestado por suas maltas e pelos ritos de passagem agressivos na formação dos novos capoeiras.

O método de aprendizado foi sem dúvidas, um legado do mestre Bimba e em grau menor do mestre Pastinha. Não digo isso por diferenças entre os dois tipos de capoeira, mas pelo apoio maior que o mestre Bimba teve de alunos ilustres que o ajudaram a sistematizar a sua prática e a fundi-la como escola.

No aspecto evolutivo a capoeira não poderia ficar estática, exceto se considerarmos apenas seu aspecto folclórico. A forma como eu pratiquei a capoeira é um exemplo disso.   O grupo senzala contribuiu muito para o seu aprimoramento. Qualquer área do conhecimento é eternamente sujeita à alternância entre confirmações e contestações científicas.

O grupo senzala me influenciou bastante, apesar de suas características revolucionárias em termos de aprimoramento da capoeira já estarem presentes nos mestre pioneiros de Brasília, mesmo antes deles fazerem parte daquele importante grupo de pesquisa.

 

MK: O QUE O SENHOR PODERIA NOS CONTAR SOBRE ME. BIMBA?

MA: Conheci o mestre Bimba em Goiânia em 72/73. Não tive oportunidade de conhecê-lo em Salvador, porque como já disse outras vezes, não tinha idade nem dinheiro para me deslocar nem mesmo pelas cidades satélites de Brasília.  Num de nossos contatos, na academia do falecido mestre Osvaldo, tive a oportunidade de jogar numa roda dirigida por ele com o berimbau em punho, e o mestre Gigante com o pandeiro. O mestre Onça, seu filho de criação, era um Jovem como eu naquela época. Chamou-me para jogar e eu aceitei. Ele era mais alto que eu e fazia tudo para me envolver e derrubar. Como eu já sabia que eles gostavam muito de aplicar vingativas, entrei num giro alto simulando uma armada, o que foi prontamente respondido com uma vingativa. Era uma finta onde eu interrompi o giro na metade do caminho deixando-o pensar que havia encaixado o golpe. Eu bloqueei a sua entrada, segurando e levantando com as duas mãos a sua perna direita. Ele ficou apoiado no chão com seu pé esquerdo. Depois encaixei minha perna direita por trás de sua perna esquerda de apoio, derrubando-o para trás e ainda caindo por cima dele. Eu já havia aplicado antes o mesmo movimento no Ferrugem, ex – aluno do saudoso mestre Paulo Gomes, numa roda em frente à central do Brasil, no carnaval de 1972.  Nesta mesma roda eu saí à francesa após ter dado um martelo certeiro no irmão do Mentirinha por causa de um galopante que ele me aplicou. Mas isso são outras histórias e vamos voltar ao assunto principal. O Onça resmungou bastante para o mestre Bimba, como quisesse dizer que aquilo que eu fiz, não era capoeira. Quando ele era novo, era meio gordinho e com um timbre de voz meio agudo. Segurei-me para não rir. Mas ao mesmo tempo eu fiquei meio sem graça diante da situação, esperando uma bronca do mestre, principalmente por ser um estranho entre seus alunos.  Mas eu não poderia ter feito de outro modo.  Ninguém quis me comprar. Em seguida o mestre Bimba parou a roda e retirando os seus óculos de aros arredondados, fitou-nos por alguns segundos. Depois voltou a tocar como se nada houvesse acontecido. Minha preocupação foi pela possibilidade de ser repreendido em público por ter derrubado um de seus discípulos. Mas a partir daí, eu passei a conhecer e admirar aquele grande homem isento de parcialidades preconceituosas e despido de emoções partidárias. O valor para ele estava no homem e  suas virtudes, independente de quem fosse. Perguntou várias vezes ao mestre Osvaldo, por um aluno meu de nome Leonides (Diabo louro), o qual fez seu nome numa roda da qual não fiz parte. Perguntava assim: “Cadê aquele galego aluno daquele menino que dá aulas no colégio Urso Branco em Brasília? (Elefante Branco, diga-se de passagem!) Mas me fez rir bastante quando o soube. Tive também o privilégio de receber seu elogio, quando retirei minha CNH em Goiânia. Parabenizou-me com um aperto de mão, pela aquisição de mais um importante “Documento”.

De outra vez, numa apresentação na feira da pecuária em Goiânia, os organizadores perguntaram – lhe quantas pessoas iriam jantar. Ele chegou perto de mim e pegou-me com o seu braço me incluindo no grupo. Eu confesso que estava com muita fome e creio que ele lembrou-se de mim.  Depois ficou sensibilizado, quando ofereci meu pulôver para o seu netinho que estava no colo de sua filha. Estava fazendo um frio danado, mas valeu o sacrifício, mesmo se não fosse seu neto.  Aliás. Onde andará esse menino de quase quarenta anos? Dias depois eu recebi um telefonema dizendo que meu pulôver estava no Cruzeiro novo onde morava a sua filha.

Lembro-me que ele dizia que o nome correto era “TAMBAQUE “e não atabaque. E também que não era “Pai de Santo”, mas sim, “Zelador de Encantado“.

Fui algumas vezes, junto com o mestre Osvaldo na residência onde o mestre Bimba morava em Goiânia com sua família, para deixar grande quantidade de compras de supermercado.

Era característica a sua paciência em pegar nas mãos dos alunos para ensinar a ginga. Sua roupa folgada e seu boné com listras. Seu andar cadenciado, seus ombros atrofiados (Deltóides) e sua desproporção, tronco – membros inferiores, característica essa última existente desde a juventude.    Em resumo era uma pessoa sábia, ponderada e lógica.

 

MK: O SENHOR CHEGOU A PARCEBER UMA REAL CONTRIBUIÇÃO DE ME. BIMBA PARA A CAPOEIRA DE GOIÂNIA E INDIRETAMENTE DE BRASÍLIA?

MA: Sem dúvida a vinda dele para Goiânia foi um incremento na colocação de Goiás no âmbito capoeirístico nacional. Apesar de sabermos que a capoeira já fazia escola no centro-oeste, com o mestre Osvaldo e conosco daqui de Brasília.

 

MK: ATÉ ONDE O SR. VE A CONTRIBUIÇÃO DE BIMBA E PASTINHA PARA A CAPOEIRA ATUAL?

MA: Todos nós fomos direto ou indiretamente influenciados por eles, assim como pelas contribuições do mestre Camisinha para a evolução da capoeira como prática desportiva.

 

MK: PODE NOS CONTAR UM POUCO SOBRE A FORMAÇÃO DA CAPOEIRA E DOS GRUPOS EM BRASÍLIA?

MA: Dos grupos que ensinavam sob um teto e também divulgavam a capoeira através de apresentações naquela época, eu só posso falar da existência do Mestre Tabosa e da minha academia (Inicialmente no Colégio do Setor Leste e depois no Elefante Branco).  Os demais capoeiristas vieram depois. Alguns capoeiras foram originados do mestre Arraia, depois que ele voltou da Bahia. Foi este, o mestre Arraia que conheci e do qual tenho algumas fotos participando de apresentações juntamente comigo e o mestre Tabosa. Este foi o mestre Arraia que conheci e que os demais descendentes dele também. Na época que ele dava aulas no Elefante Branco, nem eu mesmo o conheci naquela época. Tive o orgulho de receber um elogio, no dia em que ele retornou a Brasília e foi levado à minha roda no Elefante Branco pelo mestre Tabosa. Ele disse que na Bahia existia muita malícia no jogo, porém não viu nada comparável a potencia dos nossos golpes. Com o tempo fui percebendo nele traços de instabilidade emocional que não encaixavam com a descrição que me faziam dele na época em que lecionava no Elefante Branco. Estava bastante fora do peso ideal e não apresentou qualquer resquício da agilidade que tanto o afamou. Se era por estar mais velho, não me parecia convincente, haja vistas o mestre Tabosa estar mais ou menos com a mesma idade e mesmo assim mostrar uma agilidade indiscutível. Suas divagações filosóficas também me preocupavam bastante. De qualquer forma, valeu o seu elogio à nossa velocidade. Modéstia à parte, às nossas meias luas as quais nos identificaram por esse mundo afora.  Outras influências à capoeira de Brasília também foram incluídas, mais tardiamente, através do mestre Sabú de Goiânia com sua presença nos fins de semana, como comerciante de produtos capoeirísticos na feira da torre de televisão. Sua influência atingiu os capoeiristas de Sobradinho e adjacências.  Esta cidade satélite também foi incentivada através de um aluno meu chamado Sergio-Maluco. Outro aluno chamado de Abadá ministrou aulas também no início da década de 70 no colégio Rosário em BSB e onde compareceram alunos do mestre Arraia, depois que ele voltou à Brasília, para beber da nossa fonte.

 

MK: COMO ERA ORGANIZADA A CAPOEIRA NOS ANOS 60 E 70?

MA: Como eu te falei anteriormente. O mestre Tabosa se encarregava de fazer a sua roda tradicional, tanto na sua academia no Plano Piloto ou na da UnB. Eu nunca gostei desses compromissos de organizar rodas e preferia frequentar à roda do amigo e prestando-lhe todo o apoio logístico que fosse necessário. Treinávamos em locais com o respaldo daquelas instituições. Tentei colocar a capoeira nos anos 70 como atividade física curricular, incentivado pelo querido professor Saber Abreu, mas fui barrado por más-influências políticas de apadrinhados do senador Sarney.

 

MK: COMO SURGIU A IDÉIA DE SE MONTAR UM GRUPO?

MA: A idéia de um grupo é a intenção gregária de manter seus integrantes sob uma mesma ideologia. Existe um certo corporativismo com suas regras rígidas e invioláveis. Mas de qualquer forma o grupo representa no mínimo a intenção de difundir a arte. A capoeira precisa de uma orquestra e pelo menos duas duplas para que aconteçam os jogos e se revezem entre si. Isto já é um grupo incipiente.

 

MK: COMO O SENHOR DESENVOLVEU SUA METODOLOGIA DE ENSINO?

MA: Minha não, mas daqueles que me antecederam. A diferença como já frisei, estava na valorização da luta, dos golpes bem executados, da verdadeira simulação de um combate, mas guardando também o respeito aos nossos camaradas. Sempre disse aos meus alunos que eles precisariam ter a arma escondida “e só utilizá-la quando for preciso. Se eles se acostumassem apenas aos rituais folclóricos, com certeza se arrependeriam quando fossem solicitados num combate verdadeiro. Isto incomodou muito os puristas que comentavam como “Comadres”, que eu estava desvirtuando os fundamentos da capoeira.

 

MK: HOUVE ALGUM MOMENTO NOS ANOS 80/90 QUE A SUA METODOLOGIA DE ENSINO TEVE QUE SER MODIFICADA/ADAPTADA OU SEMPRE FOI A MESMA?

MA: Antes era treinar por treinar. Depois houve uma preocupação maior com a massificação do ensino. Era preciso maior quantidade de alunos para sustentar o professor. Acompanhando esse aumento da procura, começou-se também a preocupação com a manutenção por mais tempo na academia desses mesmos alunos. Começou-se a criar estratégias para diminuir a evasão de alunos.  Comparo atualmente com o sistema de ensino onde o aluno é mimado, para encobrir a consciência da natureza humana e dizer que o aproveitamento encontra-se em níveis mundialmente aceitáveis.

 

MK: PODERIA NOS CONTAR SOBRE SEU LENDÁRIO JOGO COM ME. ARCODEON?

MA: O mestre Acordeom sempre demonstrou grande habilidade e malícia nos jogos que tive oportunidade de ver. Suas negaças desequilibravam os adversários, que caíam facilmente com simples bandas de frente.  Certa vez o mestre Tabosa disse-me que eu iria enfrentá-lo no próximo campeonato brasileiro, e que eu me cuidasse porque o mesmo estaria treinando muito para me pegar. Era exagero do mestre Tabosa, com o objetivo de me irritar e talvez fazer com que eu treinasse mais. Isso me sacudiu de uma certa forma e atingiu o objetivo desejado. Treinei quase todos os dias seguindo a minha metodologia e princípios, com relação à capoeira combativa.  Meus treinos consistiam de sequências curtas de golpes, onde predominava o objetivo da finalização, fosse esta através de golpes desequilibrantes ou traumáticos. Fiz duas lutas apenas. Uma delas com um atleta do Paraná que mais parecia um armário de tão grande. Ganhei por pontos e tive o prazer de sair jogando com ele na capa da revista ARTES MARCIAIS de 1977. Depois fui jogar com o Acordeom. Este mostrava toda a confiança do mundo, acrescentada de um deboche explícito à minha pessoa. Fazia parte aquela encenação para diminuir as tensões e desequilibrar-me emocionalmente. Se era para encenar, eu também fiz uma bananeira ao pé do berimbau, subindo a partir da posição de queda-de-rins. A plateia que compareceu ao Mourisco em Botafogo me deu uma leve vaiada pela exibição, mas levei tudo na gozação.  A composição do local compreendia uma mesa central, uma roda desenhada no solo, a orquestra e dois juízes laterais (Bandeirinhas) e um central.

Começamos a luta com uma desconfiança mútua. Os primeiros movimentos foram de estudo das reações de cada um.  Pelo espaço reduzido da roda, limitei-me a não soltar as meias luas, porém acertei-lhe um martelo diretamente no seu tórax, o que obrigou-o a ajoelhar-se sobre uma das pernas para recuperar-se do impacto. O juiz central prontamente veio me repreender pela violência do movimento. Acabou o round e fomos para o pé do berimbau. Diversas vezes retornamos ao mesmo lugar, inclusive por queixa do juiz por nossa falta de combatividade. Disse-lhe no pé do berimbau que iria atingir seu tórax desta vez, com o pé esquerdo. Ele deu uma risada, menosprezando o meu potencial. Cumpri o prometido e novamente fui repreendido pelo juiz.  Depois ocorreram dois fatos dignos de nota: Num deles eu apliquei-lhe uma bênção com sucesso, mas ao mesmo tempo fui derrubado por uma rasteira. Foi cada um para o lado oposto.  Noutro episódio ele me aplicou uma ponteira nos meus órgãos genitais. Ainda bem que eu consegui diminuir o impacto com a mão esquerda bloqueando o seu pé, mas conferindo-me uma lesão ligamentar no polegar que produziu um grande inchaço nesta mão. Caí no solo pela dor que me causou na genitália e curiosamente apareceu uma pessoa que se dizia massagista do evento e que queria colocar gelo dentro da minha calça. Com toda a dor eu ainda tive forças para impeli-lo de fazer tal ato ridículo, além de perceber que o juiz não manifestou qualquer atitude repreensiva em direção ao Acordeom.

Quando recuperei-me, retornamos ao pé do berimbau para mais uma prorrogação.  Neste tempo ele desceu de seu pedestal e elogiou-me, dizendo que eu era muito bom e porque ele tinha gabarito para dizê-lo.

Quando chegou a hora do resultado da luta, a plateia já se encontrava excitadíssima ante a possibilidade de eu ser aclamado vencedor.

Os juízes laterais empataram a luta. Caberia agora ao juiz central definir o vencedor. A vitória foi-me dada. O público invadiu o local entusiasmado em poder me cumprimentar. A delegação da Bahia, composta na época por mestres como o falecido Sena, mestre Itapoan entre outros correram para a mesa central para criticar o resultado. Minutos depois vieram anunciar a inversão do resultado, fato este que provocou uma grande desordem no local pela revolta da maioria dos presentes. Deram como resposta o fato de eu ter colocado acidentalmente um dos pés fora dos limites da roda, atitude esta irreparável mesmo diante da notoriedade da minha vitória. Além, é claro da voz do povo.

Num evento do mestre Elias em Teresópolis, durante o café da manhã, repleto de mestres perguntei ao mestre Itapoan porque haviam me roubado a vitória.  Ao que ele respondeu que o Acordeom teria me derrubado numa tesoura. Talvez por falta de memória ele tenha respondido com um argumento que realmente não ocorreu. Mas é isso aí!!!!

 

MK: PARA O SENHOR, QUAL A IMPORTÂNCIA DA CANTIGA DE CAPOEIRA?

MA: O canto, a música, o ritmo são componentes do JOGO da capoeira. Elas estimulam a cadência dos jogos, conferindo até um certo ponto uma disciplina através do ritmo.  Outro aspecto a ser mencionado relaciona-se à preservação  da história através da divulgação dos feitos dos grandes mestres . Elas trazem também muitas frases de cunho filosófico que obrigam- nos praticantes, a pensar e com isso melhorar nosso aprendizado de vida.

 

MK: QUANDO O SENHOR COMEÇA A COMPOR?

MA: Não me considero um compositor. Escrevo mas não canto. Sem subestimar a inteligência de ninguém, não considero o conteúdo de meus versos compatíveis com o momento esperado pelos participantes das rodas. As músicas mais cantadas são aquelas que realmente sacodem o grupo através de um ritmo transcendental. Na capoeira, as músicas dirigidas para a RODA, não podem exceder em complexidade. Devem apenas unir os seus integrantes em torno daquele momento ímpar.

 

MK: COMO FOI O SEU APRENDIZADO NOS INSTRUMENTOS DA CAPOEIRA E SEUS DOMÍNIOS?

MA: Eu pensava que tocava berimbau até descobrir que faltava uma nota a ser executada para que a harmonia se completasse. Fui aprender essa nota com um mestre, policial civil, com um olho apenas e que dava aulas no bairro da Piedade no RJ. Ele era também mestre do RUSSO, um outro mestre bem alto e que me convidou no final dos anos sessenta a fazer uma demonstração com seu grupo na antiga TV TUPY na Urca.  Esse mestre, do qual não me lembro mais o nome, mostrou-me exatamente como executar a nota que me faltava na execução do berimbau. Era apenas o som que se produzia com o encostar da moeda na corda que estava ainda vibrando. Mágico não?  Os outros instrumentos, além do pandeiro, não me faziam a cabeça.

 

MK: O QUE O SENHOR ACHA QUE NÃO SE PODE RETIRAR DA CAPOEIRA, POIS DESTA FORMA ELA PERDE SUA CARACTERÍSTICA?

MA: O jogo, para que  os movimentos continuem durante mais tempo e produza mais efeitos como exercício organizado e salutar. Com o respeito à ÉTICA do jogo teremos maior tempo de desfrutar de todas as nuanças relacionadas à capoeira.  O combate é necessário porque as situações de sobrevivência requerem um tempo exíguo para a execução dos movimentos traumáticos. É um treino que precisa existir para completar a formação dos capoeiristas, mas não podem existir sempre por motivos óbvios. O bom jogador tem por obrigação, conduzir o seu camarada mesmo que ele seja mais experiente.

 

MK: NO CONTEXTO DA CAPOEIRA HOJE, COMO O SENHOR ACHA QUE  DEVE SE CARACTERIZAR O CAPOEIRISTA PARA SER CONSIDERADO COMO UM BOM CAPOEIRA E BOM MESTRE?

MA: Bom capoeirista é aquele que joga muito, ao mesmo tempo em que é querido por todos. Se você age sempre como lutador, definidor provavelmente você não será bem vindo aos eventos mais importantes, pois aí estarão presentes também os familiares dos alunos, os quais buscam virtudes e não espetáculos de MMA.

O bom mestre tem que possuir o dom da Empatia. Seu trabalho deverá ser pautado em direção à formação ou pelo menos ao direcionamento de seus atletas para um comportamento aceitável dentro da sociedade.  O bom mestre nega sua maestria.

 

MK: O SR. VE DIFERENÇAS ENTRE OS ALUNOS DE ANTIGAMENTE E OS ATUAIS, QUANTO AOS OBJETIVOS QUE ELES BUSCAM NA CAPOEIRA?

MA: Os objetivos que qualquer um procura são:

1)  Reforçar o espírito guerreiro . Todos no reino animal trazem uma característica de combate, de luta pela sobrevivência, tanto para se manter nutrido, como para preservar suas características genéticas nas novas gerações.

2) Num nível mais consciente, elevado, após a racionalização  das impressões imediatas , o indivíduo terá mais afinidade pela capoeira quando conhecer a sua riqueza, seus propósitos, seus princípios.  Ontem e hoje a razão da busca pelos motivos que atraem as pessoas para a capoeira, são os mesmos.  Na minha época e na minha situação, a busca era essencialmente por uma forma de defesa pessoal que me inserisse com destaque no meio em que eu vivia.

Como eu expliquei acima, o modo como eu treinava e como interpretava a capoeira, assustava os puristas e conservadores. Eu me fazia respeitado pelos praticantes de outras modalidades e isso de certa forma me envaidecia. O que o mestre Pastinha cantava na sua famosa música: “O que eu faço brincando, você não faz nem zangado….” eu parafraseava como – “ Não se meta à besta porque senão a meia lua ou o martelo entra “.

Não quero dizer com isso que o jogo da capoeira se transformava em uma arena, mas meus atletas deveriam estar preparados, tanto para o “Jogo de camaradas” como para uma definição rápida.

Atualmente existe muita capoeira por todo o mundo e a facilidade de conhecer esses diversos grupos também é muito grande. Com essa globalização, os mestres tiveram que se adaptar às diversas solicitações de seus alunos.  Muitos procuram o bailado da capoeira, evitando qualquer situação de combate. Eles dizem que para luta, existem outras formas e, portanto, não é isso que desejam aprender. Outros buscam transportar o que vêem para os seus trabalhos artísticos nas músicas, esculturas, pinturas etc. Portanto a capoeira oferece um leque muito amplo de oportunidades do indivíduo se manifestar.

Quanto à comparação dos alunos antigos com os atuais, seria o mesmo que comparar a capoeira de ontem e de hoje. A evolução ocorreu através da crítica humana e da colaboração do conhecimento científico para a melhoria do desempenho dos atletas. Os recordes estão constantemente sendo quebrados em campeonatos mundiais, olimpíadas etc. A capoeira como parte do conhecimento humano não poderia ficar de fora. Os atletas de hoje são sem duvidas melhor preparados do que os de antigamente. Do contrário, é como dizem “Folclore não evolui“.

 

Mestres Kadu e Adilson - GN 2012

MK: E SOBRE A BUSCA DA MESTRIA E A MANEIRA QUE OS CAPOEIRAS ENXERGAM A FIGURA DO MESTRE HOJE, O SR. VE DIFERENÇAS DE ANTIGAMENTE?

MA: Sempre observei uma disciplina maior entre os indivíduos das classes menos favorecidas. Eu costumava dizer aos meus alunos, que tomassem cuidado com os meninos da periferia da cidade, principalmente porque eles praticavam a arte com maior dedicação. Afinal de contas, eles possuíam muito pouco, onde pudessem se destacar numa sociedade injusta. Os chamados “Filhinhos de papai “tinham inúmeras opções de diversão que não os faziam mais aderidos aos treinos. Uma cantiga que diz: “Capoeira é uma arte, que mexe com o corpo e a cabeça, faz o pobre virar nobre…….” reflete bem o que quero dizer.  Além do mais, os meninos de classe mais abastada, não relacionavam os seus conhecimentos adquiridos, com o futuro. Na minha época, eram eles os mais desordeiros. Faziam a bagunça, sabendo que mais adiante seus futuros estariam dissociados da capoeira.

E nesse sentido eu posso afirmar que o respeito pelo mestre era maior do que atualmente. O grupo era pequeno e havia mais tempo para transmitir conhecimentos tête-à-tête.

 

MK: NA SUA VISÃO, O QUE É NECESSÁRIO PARA QUE O CAPOEIRISTA SEJA CONSIDERADO UM MESTRE?

MA: Mestre é aquele que dá aulas para um salão vazio. Este salão pode ser o “Aquário “do Elefante Branco ou mesmo a sua consciência, sua capacidade de transformar.  Espera-se que ele tenha passado pelas diversas fases do conhecimento dos fundamentos da capoeira e que seja seguido. A sua flauta de Hammelin é o produto e o resultado deste trabalho, já reconhecido  entre outros que por ele passaram.  O mestre abre portas, mas não diz o caminho. O mestre está constantemente aprendendo, e confirmando ou contestando as suas convicções. E nesse sentido ele se considera também um eterno aluno e duvida de sua maestria.

 

MK: COMO O SENHOR PERCEBE A CAPOEIRA HOJE?

MA: Eu estou meio afastado por força da minha profissão, mas sempre que vejo os eventos, observo uma grande organização e profissionalismo. Os atletas estão preocupados com a repercussão de suas habilidades e a oportunidade que elas lhes darão para alçarem vôos Mais altos.

 

MK: O QUE O SENHOR PODE NOS DIZER SOBRE QUAL A IMPORTÂNCIA E COMO O SENHOR ACHA QUE DEVE SER A LIDERANÇA DE UM GRUPO DE CAPOEIRA?

MA: Liderar é administrar. Administrar é conhecer um pouco dos problemas de cada um e não deixar que eles interfiram no grupo. Os componentes devem ser como aqueles do cirque du soleil: – Exerçam suas funções da melhor maneira possível, porque a fila anda. Aquela idéia de que o atleta tenha de ser fiel ao grupo, penso seja obsoleta. O próprio ser humano não é fiel. O que devemos fazer é recomendar a cada participante que desempenhe o seu papel dentro da associação da melhor maneira possível, elogiando suas qualidades em público e criticando-os à parte. Investindo nos novatos, pois esses, além da vontade de se destacar no grupo, permanecerão por mais tempo também.  Explicar aos mais velhos, que as portas estarão sempre abertas caso venham a se descontentar com o grupo. O amor é assim: – Você os tem na palma da mão ABERTA.

 

MK: O QUE UM CAPOEIRA PODE FAZER PARA TER LONGIVIDADE NA ARTE (PRATICA) DA CAPOEIRA?

MA: Eu sou um exemplo do estrago que as articulações podem sofrer com o tempo e com uma sobrecarga de movimentos. Se desejar ser um “Flash” em qualquer movimento, saiba que isso terá um preço a pagar mais adiante.

 

* Kadu Duarte é um dos colaboradores do Portal Capoeira, Pesquisador e Mestre de Capoeira – mkgunganago@gmail.com

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