Entrevista Mestre Jelon
06 Nov 2007

Entrevista Mestre Jelon

Jelon Vieira nasceu em Santo Amaro da Purificação, Bahia, em 1953. Aos 10 anos de idade começou a treinar Capoeira Angola, com

06 Nov 2007

Jelon Vieira nasceu em Santo Amaro da Purificação, Bahia, em 1953. Aos 10 anos de idade começou a treinar Capoeira Angola, com o mestre Emérito e posteriormente com mestre Bobô.

Em 1969 conheceu mestre Ezequiel com quem aprendeu Capoeira Regional ,tendo a honra de treinar na academia do mestre Bimba.

Em 1972 ingressou no “Viva Bahia”, dirigido pela Professora Emilia Biancadi de Ferreira, ocasião em que também aprendeu as danças Folclóricas da Bahia.

Em 1974, durante uma tournée de três meses do “Viva Brasil“, viajou para a Europa com mestre João Grande, mas resolveu deixar a companhia, fixando-se em Paris , e, em seguida, se mudou para Londres, com o objetivo de desenvolver um trabalho com a capoeira.

Em 1975 foi convidado para realizar um show nos Estados Unidos, e resolveu ficar em Nova Iorque. Seus primeiros trabalhos foram nas escolas públicas do Bronx aonde, pela primeira vez, conheceu o Break Dance . Em 1982 ingressou na “New York University” com o objetivo de aprimorar seu inglês.

Em 1980 fundou a “The Capoeira Foundation, Inc.” e em 1993 a “Fundação Ilé Bahia de Santo Antonio” no Texas, organizações que têm como objetivo a divulgação da cultura afro-brasileira nos Estados Unidos.

Em 1993, após regressar ao Brasil, fundou o “Instituto de Artes Urbana da Bahia”, sediado em Salvador, que visa realizar um trabalho de cunho social. No momento, desenvolve essas atividades na Boca do Rio, Salvador e Encarnação de Salinas, Bahia.

Como coreógrafo, Jelon colaborou com famosos compositores, entre eles: Marcelo Zarvos, Ramiro Musoto, Caetano Veloso, Tote Gira e Ciro Batista.

Atualmente coordena o trabalho em duas Escolas Publicas a KIPP AMP Academy em Brooklyn,NY e a Hoggetowne Middle School, em Gainesville, FL., tendo a Capoeira como tema principal no currículo dos alunos.
De 1982 a 1994 foi instrutor convidado no “Timothy Dwight College” na Universidade Yale, e de outros Colégios e Faculdades americanas, alem disso Jelon foi convidado a participar de muitos programas de TV em diversas emissoras americanas, recebendo inúmeras condecorações, prêmios e bolsas. No ano de 1990 entrou para o “Hall of Fame International” (corredor da fama) de Artes Marciais (ele foi um dos 20 mestres de artes marciais escolhido por Wesley Snipes para receber o titulo de “Mestres do Século 20” em 2000).

Este ano foi indicado pra receber o premio do Folk Culture to Life (o segundo mais importante concedido pelo governo Federal dos Estados Unidos) para realizar pesquisas sobre a Capoeira no Brasil. Mestre Jelon será o segundo capoeirista a receber essa condecoração, sendo que o primeiro foi João Grande.

1 – Qual foi seu 1º contato com a capoeira?

Aos 9 meses de idade, tive uma fratura nas pernas e não podia mais andar. Os médicos já haviam desenganado minha Mãe, dizendo que eu nunca mais voltaria a andar. Mas minha mãe nunca perdeu a fé, e com terapia caseira e muito trabalho espiritual aos 3 anos voltei andar. O médico sugeriu que eu me exercitasse com uma bola de futebol, mas sempre gostei de dar cambalhotas, andar nas minhas mãos (plantando bananeira) e fazer au, sem saber que eram movimentos da Capoeira.
Eu sentia a Capoeira antes mesmo de saber o que era, ou diria até que a Capoeira já estava me procurando, pois nasci na terra de Besouro, onde morei até os 9 anos de idade, e passei toda minha adolescência no Engenho Velho de Brotas, onde mestre Bimba nasceu. Então, Capoeira para min foi um contato espiritual.

Lembro-me, como se fosse hoje, de um sábado à tarde em que sai para cortar o cabelo, e deparei com uma multidão de pessoas, foi quando tive o primeiro contato com o som do Berimbau, que o mestre Emérito estava tocando no fim da linha do Engenho Velho de Brotas. Não conhecia a palavra “mestre” e tão pouco sabia quem era mestre Emérito, até que perguntei a um garoto de minha idade (com o qual me senti à vontade) e ele respondeu que aquela era à roda do mestre Emérito, minha cabeça ficou mais confusa ainda e por isso resolvi assistir a tal roda e esqueci de cortar o cabelo. Fiquei encantado e me arrepiava todo ao ver o que acontecia dentro do círculo: dois homens saltavam, davam pernadas enquanto a multidão respondia ao coro que o mestre Emérito entoava. As horas passaram sem que eu percebesse, mas isso não importava porque tinha encontrado algo com o que me identifiquei e logo senti que era aquilo que eu queria efetivamente aprender, mesmo sem saber o nome dessa arte.

Logo depois conversei com o mestre Emérito e disse que gostaria de aprender a fazer aquelas pernadas e dar saltos. Ele riu e respondeu que aquilo era Capoeira de Angola, convidou-me para ir até a sua casa, aonde ele ensinava.
Naquele sábado, chegando em casa, minha mãe já estava muito preocupada pela minha demora e, após ter levado um sermão, fiquei de castigo. No dia seguinte disse-lhe que gostaria de aprender Capoeira, mas ela respondeu que não, porque Capoeira era coisa praticada por gente ruim. Assim a partir daquele dia, resolvi aprender capoeira escondido.
Fui até mestre Emérito e fiquei impressionado, pois toda a família praticava, porém era muito arriscado ir a casa dele porque era muito perto da minha e os filhos do mestre começaram a me procurar lá.

Decidi ser Escoteiro porque meu irmão era chefe de escoteiro e descobri um cidadão que dizia ser capoeirista, mas não era verdade, depois disso conheci um capoeirista chamado Carlinhos (que estava presente na primeira roda que assisti) contei-lhe que estava treinando com mestre Emérito, mas que não podia continuar porque corria o risco de ser pego pela minha mãe. Ele falou que daria aulas para mim e perguntou se poderia pagar, como eu já trabalhava desde os 10 anos de idade, respondi que não tinha problema, mas ele também não disse a verdade e somente me enrolou. Um dia de domingo influenciado por amigos, decidi assistir ao meu primeiro jogo de futebol. Ao descer a ladeira a caminho do jogo, ouvi um berimbau tocando e resolvi procurar de onde estava vindo o som. Foi o dia em que conheci mestre Bobó. Não fui mais assistir o jogo na Fonte Nova (e até hoje nunca fui), e para mim foi o dia mais feliz da minha vida.

Então, sinto que nasci para ser capoeirista assim como outras pessoas nascem para ser médico, advogado ou outra profissão qualquer. Claro que estudei, fiz outras atividades, tenho a profissão de coreógrafo, mas minha força e filosofia de vida sempre foram à Capoeira e agradeço aos meus ancestrais por tê-la colocado em meu caminho, porque nada acontece em vão.

2 – Fale um pouco sobre o seu primeiro Mestre.

Eu considero meu primeiro mestre aquele que realmente me ensinou e educou, portanto o meu mestre é o Mestre Bobó. Fui Angoleiro até os meus 17 anos de idade, mas também tinha interesse pela Capoeira Regional. Aos 15 anos assisti a uma demonstração feita pelos mestres Vermelho de Pastinha, Onias, Ezequiel outros que não me lembro, na Usina Itapetingui a 50 km de Salvador, quando voltei da viajem falei para mestre Bobó que gostaria de aprender Capoeira Regional, senti que ele não gostou, mas não fez nenhum comentário.

Mestre Bobó era uma pessoa muito reservada e no mesmo tempo divertida e carismática, um perfeito líder. A voz do mestre e o berimbau nas rodas eram minha força. Não importava se eu estava cansado, quando eu ouvia ele cantar e o berimbau, todo cansaço ia embora, lá estava eu pronto para entrar na roda. O mestre tinha dois assistentes que eram o contra mestre Adilson e Lua de Bobó, dois capoeiristas que foram minha inspiração dentro da academia quando eu era adolescente.
Aprendi Capoeira em uma época na qual não tinha uniforme e fui o primeiro na academia “Cinco Estrelas” a comprar um saco de algodão para fazer minha calça de treino. Mestre Bobó ensinava puxando um por um na roda, não importa quantas pessoas estivessem. O número de alunos não eram tão grande, mas tinha quase 30 alunos e ele jogava com todos, no dia que o mestre bebia era dia que todos nós apanhávamos. O ensino começava saindo do pé do berimbau, e depois para os instrumentos, tempo bom que não volta mais !!!

Através dos ensinos do mestre aprendi muito sobre a vida, com ele aprendi a superar meus limites passar por cima de todos os obstáculos, e nunca me limitar a nada, ser humilde, ter respeito e responsabilidade. O Mestre era um grande filósofo, as frases que eu ouvi, ficaram comigo até hoje. Mestre Bobó foi um grande Angoleiro, cantador e tocador de berimbau, na minha opinião estava entre os melhores.

Quando deixei o Brasil no inicio de 1974, já não estava mais com o mestre Bobó, mas disse a ele que estaria viajando, ele então falou, “Cuidado, seja capoeirista, e não vacile, lembre-se: a roda é um pequeno mundo” foi quando entendi que por ser capoeirista, estaria mergulhando em uma fonte com diversas opções que a vida oferece.

3 – Um fato que lhe marcou positivamente dentro de sua vida na capoeira.

Vários fatos marcaram na minha vida. Um deles foi poder sair do Brasil durante a Ditadura Militar através da Capoeira. A Capoeira me deu régua e compasso (como diz Gilberto Gil), para eu traçar meu caminho.
Outro fato marcante e muito importante foi à criação do Capoeira Luanda para homenagear o meu mestre Ezequiel e unir duas gerações de Capoeiristas.

Tudo aquilo que consegui na vida foi com Capoeira, incluindo meus melhores amigos. Este ano fui indicado ao segundo premio mais importante dos EUA, se eu ganhar já que estou competindo com 10 pessoas, serei considerado um Tesouro Nacional dos EUA, e terei meu nome junto a muitos artistas que colaboraram com a cultura nos EUA.

Sem falar de outras condecorações que tenho recebido por causa da Capoeira. Estudei também através da Capoeira. Então, tudo que tenho foi dado pela minha luta e pela Capoeira (minha companheira).

4 – Em algum momento você pensou em desistir, achou que a capoeira não lhe satisfazia integralmente?

Claro que não, se eu parar com a Capoeira serei a pessoa mais infeliz da face da terra. Capoeira é a minha felicidade e alegria, como falei antes, ela tem sido minha expressão de vida.

Já pensei em parar de freqüentar ambientes de Capoeira por causa das energias ruins dentro das rodas. Mas como meu mestre sempre me falou, Capoeira é vida e na vida tem de tudo. Não tem nenhum problema com a Capoeira, mas sim com algumas pessoas que a praticam. A Capoeira está crescendo no mundo e evoluiu muito, então, os problemas são inevitáveis. Sou fiel a Capoeira e tenho uma missão e uma obrigação moral com meus mestres, então, parar de fazer Capoeira só quando eu morrer.

5 – Conte-nos como é a sua relação com a musica e como foi o processo de “Contextualização da Coreografia e da Dança dentro da capoeira?

Quando eu falo de Capoeira não costumo falar do meu trabalho com dança, mesmo se os dois são interligados. A Capoeira é minha filosofia de vida, e a dança minha profissão. Quando estou fazendo coreografias preciso estar muito presente na Capoeira, por que minha alegria está na roda, gosto de jogar, e sempre no dia seguinte estou mais relaxado e criativo e fico mais tranqüilo nos ensaios.

Não é sempre fácil conciliar os dois, principalmente quando estou em fase de batizado, mas tenho uma equipe de instrutores, professores e contra-mestres, e conto com o apoio deles nos momentos nos quais não posso estar presente nos eventos.

A capoeira é uma fonte de inspiração dentro do meu trabalho. O “Dance Brazil”(cia que dirijo), não é um grupo Folclórico, é um grupo de dança contemporânea que desenvolve trabalhos baseados em temas brasileiros. O capoeirista que trabalha comigo tem que ser um artista mais amplo, não é suficiente só saber capoeira, maculelê ou samba, ele deve receber meu treinamento, pois estudei outras técnicas de dança e trago dentro do meu trabalho toda essa experiência. Mesmo usando a capoeira como base das coreografias, procuro fazer meus trabalhos bem diferentes de todas as cia de dança, acho que é por isso que o “Dance Brazil” está sempre fazendo sucesso, por causa dessa riqueza da cultura afro-brasileira que está presente nas minhas coreografias.

Estou sempre explorando o lado musical da capoeira dentro do meu contexto coreográfico, todos os balés que tenho criado tem o berimbau presente nas musicas. Por exemplo, esse ano trabalhei com Ramiro Musotto (compositor e percussionista), e fiz questão que ele compusesse algo com o berimbau para o balé “Ritual” outro exemplo é que um dos músicos que trabalha comigo criou um instrumento com 10 berimbaus chamado “Biraarpa” para ser usado nesse trabalho.
Dentro do meu trabalho você não vai ver uma roda tradicional, mas com certeza vai sentir o espírito, a força e a alma da capoeira através da energia transmitida pela musica e pela coreografia.

Mesmo na Capoeira incentivo todos os meus alunos a divulgar a nossa cultura, e não só a ensinar a Capoeira, mas sim apresentar a diversidade da cultura baiana, pois a maioria dos professores tiveram essa experiência trabalhando no “Dance Brazil”.

6 – A Capoeira como “ferramenta de resistência”, A Capoeira como “meio de subsistência” até A “Capoeira Business”… Qual é a sua postura e visão em relação a estes processos?

Com a globalização nesse mundo capitalista e consumista a comercialização da capoeira já era esperada. Eu venho acompanhando esse processo desde a década dos anos 80 com a formação de grupos. O Grupo Senzala foi o primeiro na década de 60 a ter essa estrutura, mas o objetivo não foi de comercializar a Capoeira, mas sim, uma forma de organizá-la.
Capoeira não é mais uma “ferramenta de resistência”, é uma ferramenta de formação de cidadãos e de divulgação da cultura afro-brasileira, e se tornou o seu mais forte veiculo de expressão.

Na minha opinião capoeira está em risco, porque existe muita gente não preparada (não generalizando) que está ensinando, não somente nos EUA como na Ásia, África e Europa (continentes que já visitei e aonde testemunhei essa situação). Essas pessoas compraram a graduação com mestres que não estão preocupados com a qualidade. Eu fui vitima dessa situação: ex-alunos meus compraram diploma de mestre de 1º grau no Brasil quando nem tinham a graduação de instrutor. Isso também é uma forma de comercializar a Capoeira para dizer que o tal mestre tem alunos em tal país. Nós capoeiristas temos que se preocupar com o futuro da Capoeira.

Eu vejo a Capoeira também como business, mas precisa de lógica. Não tem para onde correr, quem quer viver de capoeira tem que ser organizado, profissional e ter um bom senso de responsabilidade com as pessoas e com a cultura brasileira. Porque como Mestres e professores de Capoeira nós nos tornamos embaixadores do Brasil.

Mas esse problema está sendo superado graças á formação e ao profissionalismo de vários capoeiristas sérios, com fundamentos e que estão rodando o mundo e ajudando na globalização da capoeira de uma forma positiva. Porque para mim, quanto mais capoeiristas de qualidade e com fundamentos ensinarem fora do Brasil, melhor será para Capoeira.

7 – No tocante à sua experiência de coreógrafo/ dançarino e capoeirista, diga-nos como (e quando) essas atividades se permitiram concomitância harmônica e como (e quando) elas se incompatibilizaram.

Quando eu e o finado mestre Loremil viemos realizar um trabalho a convite da Professora Emilia nos EUA, decidimos permanecer no mesmo, estávamos em um país totalmente estranho, não falávamos a língua e não conhecíamos ninguém, tínhamos só duas coisas: a capoeira e a inteligência. A capoeira era realmente como diz o mestre Suassuna “Capoeira para estrangeiro é mato…”.

Chegamos em abril de 1975, no meio de conflitos e protestos contra a guerra do Vietnam e da febre de Bruce Lee. Precisávamos ser criativos para sobreviver, por que não iríamos convencer ninguém de que a Capoeira era Arte Marcial. Todos estavam ligados em kung Fu, Karate Tae Kwon Do e etc. Claro que depois, mostramos a força da Capoeira como uma Arte Marcial, mas isso levou tempo.

Além de lecionar, montamos um grupo de dança “The Capoeiras of Bahia”. Esse era composto por mim, mestre Loremil e mais três pessoas. Tocávamos os instrumentos, cantávamos e jogávamos, como fazíamos tudo isso não me perguntem!
Meu mestre sempre dizia “o capoeirista tem que ser esperto.” como nos já tínhamos uma noção de dança por causa do trabalho com o “Viva Bahia” começamos a fazer experiências com a capoeira e a dança, por que se tivesse só o jogo em todos os shows, o público perderia o interesse e assim com muito trabalho e criatividade fizemos o nosso nome.
A partir disso me interessei pela dança moderna e aprendi outras técnicas, adquiri conhecimentos de como preparar o corpo, da importância do alongamento em qualquer atividade física e da consciência corporal que os capoeiristas da minha geração não tinham.

Ganhei bolsa para fazer cursos em grandes escolas de dança como Alvin Ailey e Martha Graham. Todas as informações adquiridas me deram a oportunidade de criar uma fusão com a Capoeira, a dança afro-brasileira e a dança contemporânea para expressar minhas idéias.

Em seguida Mestre Loremil parou de ensinar Capoeira e continuou ensinando a dança afro-brasileira e nos continuamos a trabalhar juntos nos shows, eu continuei estudando dança e lecionando Capoeira e naquela época eu já tinha alguns alunos trabalhando comigo.

Como fazia pouco tempo que tinha saído do Brasil, a lembrança mais forte era a da cruel ditadura militar, e influenciado por esse sentimento comecei a fazer trabalhos que abordassem a resistência contra tudo aquilo que eu não acreditava. A dança se tornou uma importante forma de expressão do meu imaginário.
Através dos gestos da movimentação da Capoeira, as atitudes e os olhares dos Angoleiros, eu criava balés para mostrar a minha interação com o mundo, pondo pra fora a minha revolta com a situação no Brasil, aonde perdi dois amigos torturados no antigo DOPS.

A capoeira já é um processo dinâmico coreográfico desenvolvido por duas pessoas durante um jogo. E é isso que eu exploro dentro do meu trabalho, tenho ela como “dança que luta e luta que dança”, expressão inédita que não se encontra em nenhum outro trabalho coreográfico, a não ser que o coreógrafo seja capoeirista também.

Dentro dessas necessidades de criar coisas novas a capoeira me ensinou a ganhar ou perder num propósito de seguir o meu destino, permitindo enfrentar as adversidades que se interpõem em minha jornada, sem desviar da minha missão. A dança é energia que transforma o corpo em uma dinâmica que fala todas as línguas sem precisar de palavras. Então, para mim, a capoeira e a dança fazem parte da mesma roda com vozes que podem mudar os fardos das condições humanas.

8 – Existe uma ampla discussão a respeito das tradições dentro da capoeira, as diversas formas em que se apresentam, o modo de preservá-las e a importância em divulgar às novas gerações de maneira coerente e séria a história, os personagens, os causos e toda a infinidade de elementos inerentes da capoeira. De que maneira o “Mestre Jelon” encara esta missão e qual seria a melhor forma de trabalhar neste contexto?

Falar de tradição com essa geração é complicado por que a capoeira evoluiu muito e muita gente não está conseguindo acompanhar. Tradição é uma coisa que já se perdeu em muitas culturas e comunidades. Até dentro da própria família não tem mais tradição, devido ao ritmo de vida que levamos nesse mundo moderno. Quando se fala de família tradicional, geralmente costuma-se falar de uma família rica e com um sobrenome nobre.

Eu vim de uma família de muita tradição, com o costume de pedir a benção a minha mãe e aos mais velhos, de ver todos sentados na mesa para tomar café da manhã, almoço e jantar, de rezar juntos todos os dias antes de dormir e fazer novena aos sábados, de honrar o nome da família em todos os termos. Por exemplo, quando os adultos estavam conversando, tinha que se retirar.

Tudo isso desapareceu com tempo e não vejo ninguém dar seguimento. Assim é também a capoeira! Até os mal informados já falam que capoeira não é brasileira, imagina a tradição?

Quando eu era um adolescente tive um choque cultural dentro da capoeira ao conhecer outra tradição que eu não conhecia, aprendi capoeira Angola com mestre Bobó, e aos 15 anos fui apresentado à tradição da capoeira Regional na academia que o mestre Acordeon tinha no fundo de sua casa (na Boa Vista de Brotas em Salvador). Dentro da capoeira Angola, eu era acostumado a ouvir 3 berimbaus, 2 pandeiros, reco-reco, atabaque, agogô, palmas e longas ladainhas e rodas em todas as aulas. Era um jogo por cada ladainha e corridos. Não podia-se cantar outro corrido até o mestre chamar os capoeiristas no pé do berimbau para falar algo ou finalizar o jogo. Mais ricas ainda ficavam as rodas que o mestre organizava na beira do Dique, todos os domingos à tarde, quando sempre apareciam grandes mestres como Mão de Onça, Burro Inchado, Trairá, Canjiquinha, De Mola entre outros. Além da roda do mestre Bobó tinha outras rodas famosas para escolher como aquelas dos mestres, Pastinha no Pelourinho, Valdemar no Pero Vaz, Boca Rica na Lapinha, Virgilio no Retiro e outras mais.

Quando comecei a aprender capoeira Regional com o mestre Ezequiel, senti a diferença, pois na roda ele usava um berimbau e não cantava, se conseguia fazer só um jogo, só alguém com muita sorte jogava 2 vezes. O mestre só usava os pandeiros na roda do sábado na Vila Militar onde ele lecionava, aqui havia um berimbau e dois pandeiros e tinha os cantos que eram chamado de quadras e corridos.

Essa mudança foi um choque para meus ouvidos, porque a bateria do mestre Bobó (o conjunto de instrumentos da capoeira de Angola ele chamava assim) não saia dos meus pensamentos. Mas com o tempo fui me acostumando e entendendo o que era a capoeira Regional. Depois descobri que o mestre Ezequiel também conhecia a tradição da capoeira Angola porque ele, assim como o mestre Bimba, antes de criar a capoeira Regional, já tinha sido praticante.

Então minha missão é passar para meus alunos a tradição e os fundamentos que aprendi com meus mestres, e o respeito e a responsabilidade acima de tudo. Naquela época, o mestre Bobó já reclamava da falta de respeito com a tradição. Lembro que um dia dois capoeiristas se pegaram na roda e saíram da tradição do jogo, o mestre acabou a roda falando da falta de respeito pelos mestres aí presentes, e disse: “vocês são o reflexo do que vejo no futuro da capoeira”. Sempre acontecia isso quando tinha a presença dos capoeiristas que praticavam capoeira Regional.

A formação dos instrumentos e o ritual da roda no Capoeira Luanda é baseado em uma adaptação da tradição do mestre Bobó. Até o próprio mestre Ezequiel antes de falecer, já usava nas aulas os 3 berimbaus, o atabaque e o pandeiro.

Hoje em dia temos a Capoeira Contemporânea com a formação de instrumentos da tradição da Capoeira Angola, A Capoeira Angola e a Capoeira Regional. A geração atual pode se confundir, se não tiver um mestre de fundamentos e conhecimento das tradições para explicar essas diferenças. Podemos chegar à conclusão de que a capoeira é uma só bandeira, e é preciso aprender a conviver com as diferenças.

Essa geração é tão responsável pela capoeira quanto eu ou outro mestre mais velho, por que ela que vai dar continuidade á capoeira. Então, é de grande importância que essa geração pesquise, leia e aproveite tudo que a capoeira oferece. Essa é uma forma de se aprofundar mais na arte para descobrir o tesouro que eu estou procurando há muitos anos… “Capoeira é vida e vida é bem maior do que todos nós”.

9 – Os historiadores divergem sobre a origem do termo capoeira. Para você qual é o verdadeiro significado, não do termo, mais sim da “CAPOEIRA”.

Se perguntar para 10 pessoas o que significa “capoeira”, com certeza vai ter 10 respostas diferentes. Porque capoeira é vida, e se manifesta em formas diferentes na vida de cada pessoa. Nas palavras de mestre Pastinha “Capoeira era tudo que a boca come”. Só vim entender isso na minha fase adulta.

Eu falo da capoeira aquilo que eu sinto, sendo amante e praticante há 44 anos. Capoeira abriu uma janela para o meu “ver” e perceber desde cedo as complicações da vida e ter tolerância por aquilo que não posso mudar.

Uma certa vez, minha amiga enviou-me uma tese que alguém escreveu sobre a Capoeira aonde tinha uma frase com a qual me identifiquei “…através da capoeiragem, podemos ver a imagem que inspira o herói dentro de nós a empreender nossa caminhada …” Achei isso fantástico, porque sempre falei para meus alunos que a capoeira é um desafio e contém os conflitos do dia a dia com o qual temos que conviver.

A capoeira me deu a possibilidade de ajudar muita gente e também ter um bom senso de comunidade. Uma das lições que eu aprendi foi me relacionar com o outro desconhecido dentro de mim, que só foi despertado através da relação com o outro lá fora, é isso que a roda ensina. Dentro da roda se aprende a detectar intenções, a observar, saber fazer amigos e a sabedoria de viver. Por isso que também digo que capoeira é a arte de viver!

Capoeira é o que eu sou. É minha filosofia de vida. Com a arte da capoeira eu aprendi sobre a vida e a liberdade. Por causa da capoeira eu fico em contato com meus ancestrais e a com a minha cultura. Ela mantém meu corpo e a minha mente sadios e me dá uma forte conexão com meu espírito, permitindo que eu seja capaz de aproveitar todos os bons momentos que a vida tem a me oferecer.

Capoeira me ensinou a ter um imenso respeito pela vida e me mantém focado em minha jornada, buscando ser um ser humano melhor.

10 – Fale-nos sobre seu trabalho, suas expectativas e objetivos:

Capoeira já esta incluída no sistema de educação de vários países. Mas isso já vem acontecendo nos EUA desde da década de 80. Gostaria de ver o Brasil também valorizando a capoeira como um instrumento de educação. Claro, que já esta bem melhor do que era. A capoeira como uma arte afro-brasileira poderia estar circulando nas escolas públicas há muito tempo. Fiquei feliz de ver o número de pessoas defendendo teses sobre a capoeira. Os departamentos de Educação Física já tem a presença da capoeira, já temos até Faculdade dedicada a Capoeira. O Carnaval da Bahia está dedicando o tema de 2008 a Capoeira. Isso é uma vitória. Espero que façam uma homenagem a todos os grandes mestres!

Já lecionei em inúmeras Universidades e Faculdades nos EUA, mas a que mais marcou foi o trabalho que fiz na Yale University com o Professor Robert Ferris Thompson onde ensinei por 11 anos, a Capoeira fazia parte do curso que ele ensinava.

A outra foi na Florida University onde Capoeira fez parte de 5 matérias, música, dança, filosofia, educação física e estudos afros. Recebi o titulo de “Professor Emérito” devido aos anos de experiência com a Capoeira.

Estou supervisionando duas escolas públicas, uma em Nova Iorque, e a outra em Gainesville, FL. Essas escolas são dedicadas 100% a Capoeira tanto no currículo como no tema escolar. Os jovens aprendem tudo sobre a historia do Brasil e a língua portuguesa. Devido ao interesse dos pais e do sucesso acadêmico, já estamos pensando em fundar outra escola com o nível de segundo grau para que esses jovens possam dar continuidade aos ensinos e conhecimento da Capoeira.

Eu não sou o único hoje em dia que faz essas atividades nas escolas, vários outros capoeiristas trabalham em escolas públicas ensinado capoeira como recriação. Mas fui o primeiro a iniciar todo esse movimento, recentemente assinei um contrato com a Secretaria de Educação do Estado de Nova Iorque para levar a capoeira às escolas como uma disciplina. Eu já desenvolvia esse projeto na década de 80, esse trabalho me facilitava em trazer muitos capoeiristas do Brasil para trabalhar comigo. Atualmente não tem mais essa necessidade por que já temos muitos capoeiristas radicados nos EUA, e esse trabalho melhorou muito o relacionamento entre muitos grupos. Hoje pela maioria carregamos a bandeira da capoeira independentemente de grupo.

Paralelamente a tudo isso, meu coração está em Salinas de Encarnação, Bahia, aonde desenvolvo um trabalho com a comunidade cujos integrantes são na maioria filhos/as de pescadores. Essa comunidade é um exemplo de vida que não vejo mais em lugar nenhum. Eles têm capoeira como um processo permanente de mudanças pela sobrevivência. Nessa comunidade, eu vejo a África.

Já fiz parte de dois grandes grupos (Senzala e Capoeira Brasil) onde fiz vários amigos, mas com o tempo senti a necessidade de formar meu próprio trabalho com meus alunos.

Levamos um ano trabalhando nesse processo. Não queria apenas só formar um grupo de capoeira, queria fazer algo para dar continuidade e possibilitar aos meus alunos uma base para eles possam lecionar e fazer seu próprio trabalho, dentro de uma organização que tenha apoio e também uma voz e expressão de liberdade.

Então, já que os contra-mestres Guerreiro e Apache estavam na mesma situação resolvemos unir as forças. Fazendo essa união, mostramos que a capoeira precisa de aproximações de gerações e de pessoas com postura de respeito pelas tradições, pelos fundamentos, pelos mais velhos, isso é a nossa filosofia. O Capoeira Luanda logo se transformou numa família, em uma unidade fundamental indissolúvel á qual todos se orgulham de pertencer. Já estamos presentes em vários estados brasileiros e em 6 países, mas isso não é o mais importante. O Importante é nosso objetivo: divulgar e procurar desenvolver todos os aspectos da Capoeira. Temos excelentes instrutores e professores com nível universitário que ajudam muito na evolução do Capoeira Luanda.

Minhas expectativas são de ver o Capoeira Luanda somar dentro do mundo da Capoeira.

11 – Gostaria que nos deixasse uma mensagem pessoal para todos os visitantes e leitores do Portal Capoeira:

Eu gostaria que a minha geração tivesse tido acesso a tudo o que essa geração tem, poder adquirir informações através de site como o Portal Capoeira, consultar muitas publicações como: Revista Capoeira, e a revista Praticando Capoeira e todas as informações encontrada na internet, é fantástico! Infelizmente, não tive nada disso, mas sempre vivi mais próximo a essência da Capoeira.

Por eu acreditar em educação estou sempre incentivando a todos meus alunos a estudar, por que educação é conhecimento, poder e o veículo mais importante da comunicação. Eu fico imaginando se nossos jovens brasileiros tivessem acesso à educação como todos os jovens do 1º mundo tem, talvez a situação política do Brasil, não seria a mesma, porque um povo educado não é enganado por ninguém.

Jogar Capoeira é importante, mas cuidar da cabeça é mais ainda. Capoeira é vida, mas a vida é bem maior do que a Capoeira. Todos nos temos uma responsabilidade com o desenvolvimento da Capoeira, mas essa missão só pode ser cumprida através de conhecimentos.

Mestre Jelon e Alunos

Passe menos tempo no Youtube e MSN e se aprofunde mais à leitura e tenha mais contato com os mestres da velha guarda, porque um dia eles não vão estar mais aqui para responder suas perguntas. Lembre-se, eles são as árvores e nós somos os frutos.

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