Jundiaí: História de vida em roda de capoeira
12 Out 2010

Jundiaí: História de vida em roda de capoeira

Um dos capoeiristas mais respeitados da cidade, que fez história nos EUA, mestre Rã demonstra paixão e envolvimento com o esporte A

12 Out 2010

Um dos capoeiristas mais respeitados da cidade, que fez história nos EUA, mestre Rã demonstra paixão e envolvimento com o esporte

A correria da rua do Retiro esconde um recanto de paz e espiritualidade. O ritmo agitado de pessoas pela rua é bem marcado pelo berimbau e pandeiro da Academia de Capoeira do Mestre Rã, um dos maiores nomes do esporte na cidade.

O jundiaiense  é referência na capoeira nacional e internacional, sendo professor nos Estados Unidos.

A história de Cássio Martinho, o nome de batismo do mestre, com a capoeira começou logo cedo. Aos 14 anos, quando ele e mais dois amigos, um deles capoeirista, resolveram fugir de casa.

“O objetivo era ir para o Acre para virar índio. Nós éramos contra o sistema”, conta o mestre, que não chegou ao estado do Norte – o seu máximo foi morar na Bahia.

A ‘loucura’ durou poucos meses, depois voltou para Jundiaí, mas o amor pela capoeira já tinha tomado conta do jovem. “Gostava muito de assistir as rodas de capoeira.”

De volta à terrinha jundiaiense, mestre Rã conheceu o seu mentor e um dos ícones do esporte na cidade, o mestre Galo, fundador da primeira academia de capoeira de Jundiaí.

“Ele me atraiu pelas suas atitudes”, afirma.

Entretanto, mestre Rã não apreciava a prática da capoeria dentro das academias. “Eu achava que era coisa de homens frouxos”, lembra.

Com o passar dos anos, mestre Rã foi crescendo no esporte e foi dar aulas junto com o seu mentor. “Ele era um cara das ruas, como eu. Me ensinou várias coisas”, recorda.

APELIDO/ Se falarmos Cássio Martinho, pouca gente deve conhecer, no entanto mestre Rã tem muita história para contar. Esse apelido ele ganhou de mestre Galo no dia em foi batizado em uma cerimônia no Grêmio. Ele lembra que naquela noite estava muito nervoso e ansioso para sua luta.

“Minha estreia foi bem marcante. Eu entrei na roda pulando e dando piruetas. E o pessoal na hora começou a tirar sarro falando que eu parecia uma rã. Aí o apelido pegou”, brinca.

Saltando de lá para cá, Mestre Rã chegou até aos Estados Unidos, onde coordena cursos e participa de eventos de batismo de outros capoeiristas. A princípio ele iria ficar só três semanas no exterior, mas fez seu nome em 17 anos lá fora.

Quem é e o que faz:
Nome_ Cássio Martinho
Idade_ 51 anos
Profissão_ mestre de capoeira
Clubes_ Academia de Capoeira do Mestre Rã

Capoeira toma conta  dos Estados Unidos
A vida do mestre Rã começou a tomar rumos diferentes em 1988, quando o Grupo de Capoeira Cordão de Ouro o chamou para ministrar um curso sobre o esporte nos Estados Unidos.

A princípio, Mestre Rã iria ficar fora do país somente por três semanas. “Esse era o meu pensamento. Dar as aulas e voltar”, lembra.

Mas não foi bem assim que aconteceu. “No final fiquei mais de 17 anos.”

Nos Estados Unidos, Mestre Rã – antes de se tornar um famoso capoeirista -, fez de tudo um pouco. Trabalhou em diversos setores muito diferentes do esporte. “Fiz trabalhos de turista mesmo”, lembra.

Como em uma roda de capoeira em que se cai e levanta, mestre Rã conheceu um outro capoeirista, o mestre Arcodeon, com quem fez grande parceria e difundiu o esporte em solo americano.

“Nós fazíamos um espetáculo legal, com danças tipicamente brasileiras”, diz.

E nos arcordes do berimbau a capoeira se espalhava pelos Estados Unidos e mestre Rã, acostumado a formar professores, estava jogando a capoeira com um pouco mais de sotaque, mas sem perder a ginga de um bom brasileiro.

“Os americanos têm ginga, isso é mito. Só falta um pouco da malandragem”, afirma.

O sucesso do esporte africano foi enorme. Mestre Rã ajudou a fundar várias academias de capoeira pelo país, em diversos estados e  cidades importantes.

“Eu vou umas cinco vezes por ano para os Estados Unidos, para os batizados”, diz o mestre que já tem passagem comprada para dezembro deste ano.

“Vou ver o pessoal de Miami, eles têm uma academia linda”, diz o professor, que também promoveu o intercâmbio entre as culturas. “Uma vez eu trouxe para cá 78 capoeiristas americanos”, conta.

 

Projeto Social

De volta ao Brasil em 2005, mestre Rã também usa a sua academia na rua do Retiro para promover ações sociais com crianças carentes de Jundiaí.

“Eu uso a capoeira como formação do caráter da pessoa. Esse é um dos objetivos do esporte”, afirma.

Ao todo, ele auxilia mais de 60 crianças de vários bairros da periferia  e percebe o desenvolvimento dos jovens.

“Dá para ver que a criança se esforça e consegue fazer os movimentos. Isso é muito legal”, afirma. Para o trabalho, o mestre conta com a ajuda de voluntários.

Mestre Rã aproveita também para cobrar uma ajuda da prefeitura nesse projeto social. “A prefeitura poderia ao menos dar o transporte. Isso já ajudaria muito”, afirma.

Mestre Rã está dividido entre os seus alunos e sua filha Joana Idalina, de seis meses. Segundo ele, a filha já tem a capoeira no sangue. “Trago ela em todas as aulas, ela gosta muito do clima”, afirma. A pequena Joana, desde cedo, está se acostumando com os instrumentos típicos da capoeira, como o berimbau e o pandeiro.

“Quando o berimbau para de tocar ela chora”, comemora o pai.

Leave a comment
Mais Artigos
comentários
Comentário

6 − six =