Luiz Fernando Goulart: Homenagem ao Grande Mestre do bem viver…
14 Fev 2006

Luiz Fernando Goulart: Homenagem ao Grande Mestre do bem viver…

Review: Edição especial de Aniversário – Matéria escolhida pela equipe Portal Capoeira, pela importância e pelo trabalho realizado pela capoeira por Angelo

14 Fev 2006
Review: Edição especial de Aniversário – Matéria escolhida pela equipe Portal Capoeira, pela importância e pelo trabalho realizado pela capoeira por Angelo Augusto Decanio Filho o Mestre Decanio. E também para colocar novamente sobre a luz do holofote o Filme: MESTRE BIMBA, A CAPOEIRA ILUMINADA de Luiz Fernando Goulart, que em breve estará participando de um festival internacional de cinema e logo logo será comercializado, segundo depoimento do próprio LFG:
Caro amigo e parceiro Luciano,
Primeiramente meus mais profundos votos de uma vida muito longa para você e para o aniversariante do dia, o nosso PORTAL CAPOEIRA. Me sinto um ser humano privilegiado por ter acompanhado tudo desde o início. Me lembro bem quando você me escreveu sobre o seu site orgulhoso dele já ter tido, àquela época, mais de 200.000 visitas, o que realmente era surpreendente dentro das condições com as quais você o administrava : do interior de Portugal e sem um nome que o identificasse imediatamente com a capoeira.

Depois, acompanhei de longe o seu crescimento, até chegar aos mais de 4.721.500 hits em um ano. Isso me mostrou não só a força da capoeira, que eu vi crescer muito nesses 12 meses, como a sua competência, credibilidade e paixão pela divulgação da capoeira nos 5 continentes onde ela está. Fui testemunha de cada passo dessa vitória e tenho muito orgulho de ter me tornado parceiro dessa aventura vitoriosa.

Conto muito com você agora que se aproxima o lançamento comercial do meu filme e gostaria que você acreditasse na minha férrea vontade de promovermos juntos o filme. Posso estar enganado mas acredito sinceramente que o filme virá a ter uma importância muito grande para a divulgação da capoeira em todo o mundo e espero muito que as pessoas entendam isso. Comercialmente, não ganho quase nada com isso pois o que eu tinha que receber já recebi fazendo o filme e foi pouco, creia. Mas estou numa luta grande pelo filme porque ele me mostrou o caminho da paixão pela capoeira e só por isso não deixei ainda os produtores lança-lo no mercado. Quero buscar apoios, e você sabe o como isso é difícil num país que criou a capoeira mas que não acredita nela, e reunir forças para termos uma repercussão forte no mercado. Isso, a meu ver, abrirá caminhos para outras produções brasileiras que envolvam a capoeira. É o meu sonho e conto muito com você para me ajudar a realizá-lo, como sempre contei desde o início e espero continuar contando.

Luiz Fernando Goulart
MESTRE BIMBA, A CAPOEIRA ILUMINADA

A minha admiração pelo grande mestre do bem viver Dr. Ângelo Decânio veio do meu envolvimento com o filme que dirigi, MESTRE BIMBA, A CAPOEIRA ILUMINADA. Chegando a Salvador para as filmagens, a produção havia marcado o depoimento de Decânio para o auditório da reitoria da UFBA e quando lá chegamos já estava lá o grande mestre. Com menos de dez minutos de conversa eu me encontrava totalmente hipnotizado pela sua personalidade.

Enquanto ele falava de Bimba senti que não seria ali que iríamos conversar mas na própria casa dele, com todo o tempo que ambos dispuséssemos.

Parei o depoimento e propus-lhe adiar para dali a três dias. O meu único rico era que ele não concordasse. Mas ele aceitou a minha proposta e eu senti que seria a partir dali que nasceria o filme que eu imaginava fazer sobre Bimba.
Hoje, devo a Decânio e à sua infinita paixão pela capoeira e pela figura de Bimba o fato de ter podido fazer o filme. Foi através dele que descobri a emoção de ser capoeirista e ter sido aluno de Bimba. Decânio, muito obrigado por tudo o que você representou iluminando o nosso caminho, permitindo-nos fazer um documentário sobre um dos dois maiores ícones da capoeira, Mestre Bimba.
 

Aqui vai uma pequena amostra do que ele nos disse naquele dia inesquecível, em sua casa, onde conversamos por mais de cinco horas seguidas :

(sobre sua paixão pelo povo brasileiro)
Esse anseio pela liberdade. Essa capacidade que tem o brasileiro de absorver tudo. Criar e recriar. Sempre uma coisa nova. O que eu acho fabuloso no povo brasileiro é o sorriso. Está sempre rindo.
(sobre Bimba)
Bimba não tem tempo, ele está existindo acima da gente. Muito mais do que em nós, ele está no mundo inteiro. Ele hoje é um mito, é um padrão. Ele não morreu. Ele está vivo em cada um de nós.
(sobre a capoeira hoje)
Eu nunca imaginei, que fosse essa coisa linda. A capoeira hoje ela é linda. É outro estilo, que não o meu. Nós queríamos pegar o outro, hoje você quer mostrar o jogo, só. E exibir, o que você sabe fazer. Mas perde um pouco do espírito. Mas a mensagem é a mesma. É Cidadania. Escola de cidadania. Hoje eu digo, a capoeira é uma escola de cidadania. Ela não é luta, não é esporte, não é coisa nenhuma. É uma escola de vida. Uma escola de cidadania. Convivência pacífica.
(dá a sua versão sobre o nascimento da capoeira na Bahia)
Então em Cachoeira, que era um porto de exportação e Santo Amaro que era um porto de exportação também, tinha que ter escravos para carregar o barco. Ora, só se pode carregar um barco no recôncavo, com a maré seca? Não, só se pode quando a maré está cheia. Por quê? Porque quando a maré está seca, o barco aderna. Ninguém pode arrumar a carga enquanto o barco está adernado. Depois, um homem sozinho já afunda no mangue. A depender da estrutura, até o meio da perna ou até o joelho. Se botar um saco de 50 quilos na cabeça, ele afunda até o pescoço. Então, só se pode carregar com a maré cheia, encostando na beira do cais do porto e botando uma rampa de tábua para carregar. Logo, toda a população portuária, carregador, estivador, ajudante, só pode trabalhar de meia vazante a meia enchente. E com uma certa dificuldade pra trabalhar. E o que é que essa população vai fazer? Vai voltar pra senzala? É muito longe. Ela permanece de folga. E preto com cachaça e folga de tempo, preto gosta de fazer o quê? … Batucar, marcar compasso e mostrar suas habilidades, como qualquer criança e esses homens eram positivamente inocentes. Eles não tinham a perversidade que cultura dá a eles. A capacidade que a cultura empresta à gente, que é dominar os outros. A criança quer é brincar. Eles querem o quê? Dançar. E nesse dança pra cá e dança pra lá, cada um quer mostrar mais habilidade do que o outro. De vez em quando empurra o outro. Desse embate pra tomar o lugar, pode ter nascido, deve ter nascido, a capoeira. Como? Você querendo mostrar que pode dominar o outro. É esse o espírito da capoeira. Mas, por quê você não pode machucar o outro? Você tem que jogar com cuidado, respeitando o outro pra você não ser punido adiante. Então nasce o quê? Uma brincadeira, que é ao mesmo tempo uma exibição de valentia, de coragem, de habilidade, de força, de superioridade, uma competição pra dominar o outro através de engodos, artimanhas, mas sempre com respeito à integridade física do outro. Cada um procurando manifestar o que tem de melhor. É isso que é a capoeira. Eu achei essa origem, é a origem mais consetânea com a realidade.
(sobre a capoeira e o capoeirista, ao tempo de Bimba)
E preto é moleque de rua, preto é ladrão, preto é soldado, preto é trabalhador braçal. O povo em si na Bahia, era afastado, como indigno, por preconceito. E na Bahia, você respira capoeira. Na Bahia a música está no ar. Na Bahia, a África está no ar. E essa paixão corresponde à raiz da capoeira. A capoeira é filha mística musical, rítmica, do candomblé. É o ritmo chamado ijexá, que se toca pra Oxalá, pra Logum Nedé. A alma da capoeira é a liberdade. E se o Brasil tem alma, a alma do Brasil é a capoeira. Esse anseio pela liberdade. Essa capacidade de absorver tudo. De recriar e recriar sempre uma coisa nova.
(sobre seu sentimento sobre Bimba)
Se eu tivesse que perguntar quem foi Bimba? Eu diria : capoeira encarnada. Ele é a própria capoeira, em forma de gente. E pra mim, só tem no meu altar, dois mestres : Jesus e Bimba. Eu sou o que sou, graças a ele. Se o Bimba não tivesse existido, eu era outra coisa. E, você não vai encontrar ninguém, que tenha tocado na camisa dele, na calça dele, apertado a mão dele, se encontrado com ele, acompanhado ele, que fale diferente. Ele marca a gente a ferro e fogo, na fibra mais escondida do coração. Lá tem uma cicatrizinha. Aqui morou Bimba. Ele é o dono desse coração.
(sobre a primeira vez que ouviu falar de Bimba)
A primeira vez que eu ouvi falar de Bimba, foi no jornal. A notícia no jornal A Tarde. Quando ele brigou com sete soldados. Houve a festa do Odeon, ele ganhou o campeonato de capoeira e, agora, aí entra Bimba : Bimba me disse depois, me explicando o fato quando eu conversei com ele, que Cabo Lúcio, que era um amigo dele, compadre dele, apostou nos outros. Não acreditou em Bimba. E perdeu o dinheiro todo. Então Bimba tinha uma amante né? lá no alto do Engenho Velho de Brotas, e vinha descendo a ladeira do Corropio, que é a ladeira de Vila América hoje, correndo pra pegar o bonde. E Cabo Lúcio estava no caminho, com sete soldados. Ele bateu em todo mundo, tomou as armas e levou no dia seguinte para A Tarde, saiu uma nota. Foi aí que eu conheci Bimba. No jornal, vi o retrato de Bimba, deu porrada em 7 soldados. Numa patrulha de soldados. Tocado, tomou as armas todas e ainda levou pro jornal. esse homem é um grande… um grande ídolo, né?
(sobre a juventude de Bimba)
Com 16 anos Bimba já era muito alto e muito forte, palavras dele, desceu pro porto pra trabalhar, como ajudante de carregador, estivador ele nunca foi. Se Bimba pegasse mesmo de estivador, ele ia deixar perder o emprego de estivador? Nunca foi burro.
(sobre a criação a capoeira regional)
A história começa pra mim, quando Sisnando chegou na Bahia. Uma parte já era do conhecimento dele. Quando Sisnando chegou na Bahia correu as rodas de capoeira porque queria aprender capoeira baiana. Que não tinha no Ceará. Mas ele já veio com uma noção de organização de arte marcial. Ele treinou jiu-jitsu com Takeoyama. E ele era cearense, como Juracy Magalhães. E ficou, na guarda pessoal de Juracy, nos anos 30. Ele corre os capoeiristas. Só encontrou um que ele respeitou: que era um negão que era carvoeiro na Liberdade. Que era Bimba. Ele pediu a Bimba pra lhe ensinar, e tal e coisa. Consentiu em ensinar. Não foi assim… Isso não é coisa pra branco não. Isso é coisa de preto. – Mas eu quero aprender e tal e coisa… – se você agüentar 5 minutos no colar de força, botou a cabeça aqui e apertava, eu lhe ensino. Sisnando agüentou. E aí não teve jeito. Daí é que começa Bimba a aparecer porque até então ele era um carvoeiro, na Liberdade, anônimo, que tinha uma roda de capoeira. Não era nem roda. Tinha uma capoeira. Porque roda de capoeira é coisa recente.
(sobre a expressão Roda de Capoeira)
Essa palavra roda quem começou a usar fui eu. Porque eu não quis fazer, quando Pascoal Segretto me pediu pra organizar o regulamento de capoeira eu não quis fazer no quadrado. O capoeirista tem que estar em movimento, sempre circular. Então a forma normal é a roda. E como roda é a melhor maneira de assistir o espetáculo. Por isso o Coliseu, os teatros antigos e o circo é em roda, pra dar mais visibilidade, nós botamos o nome de roda.
(sobre o Bimba professor)
Bimba não foi um capoeirista. Foi um pedagogo. Ele foi um psiquiatra. Ele foi educador. Foi uma máquina de fabricar homem. Transformava vermes, como você e eu, em gente. Esse foi o valor de Bimba. Pedagogia que ensina o homem a se manifestar o que ele é. Mas a grande surpresa, foi maior ainda, quando eu envelheci. Hoje eu estou vendo criança jogar capoeira, dentro da noção de cidadania que ele ensinou. O capoeirista é um irmão. Todos nós somos irmãos. Essa é a grande mensagem dele. Temos que considerar o outro sempre como irmão, mas sempre na defensiva e na esquiva. Porque até um irmão pode matar o outro, como Abel matou Caim.
(sobre as formaturas de Bimba)
Ele escolhia a dedo aqueles que iam passar. Uma coisa também culturalmente africana. Só a confiança e o respeito permitem o ensino. Porque eles sabem, os mestres sabem, que o que ele ensinar ao aluno, vai crescer como a cauda do cometa. Só que ele é o responsável, pelo rastro de luz que o outro deixar.
(sobre a descriminalização da capoeira)
Fez a demonstração para Juracy, Juracy gostou, aprovou e começou a facilitar. Facilitou como? Olhando para o outro lado. Não percebendo que existia capoeira. O que que ele fez? Permitiu que tivessem festas de capoeira, desde que cessassem às oito horas da noite e não incomodassem a vizinhança. Pagava-se uma taxa à polícia e de seis às oito ou coisa que o valha. É o que Bimba chama : – Tirei a capoeira debaixo da pata do cavalo. Essa é a porta por onde a capoeira saiu da marginalidade e depois virou elegância. Hoje a capoeira simboliza mais o Brasil no mundo inteiro que o futebol.
(sobre os ensinamentos de Bimba)
E eu aprendi com ele a respeitar os mais velhos, a respeitar criança, a respeitar o colega. Sobretudo quando ele não bata num capoeirista. Capoeira não foi feito pra brigar com capoeira. Foi feita pra pegar os otários.
(sobre a liderança de Bimba na Academia)
Nunca, nenhum de nós teve a ousadia de pensar em desobedecer a Bimba. Ele dizia : – Faça e a gente fazia. Isso chama-se liderança, carisma. Então, meu deus, chama-se Bimba. Vocês me desculpem, meu pai, chama-se Bimba, meu ídolo chama-se Bimba. Se eu tivesse nascer, como a pessoa mais importante de minha vida, eu queria nascer Bimba.
(sobre os ensinamentos de Bimba)
Ele ensinava mais a gente, com a palavra, do que com o berimbau. Eu devo mais a ele aos papos, que sentava na rede, com o charuto apagado, e começava a gente a conversar. Isso não tinha limite. Eu largava tudo pra ir pra casa dele. Mas tem uns ditados dele porretas: Malandro burro morre antes da hora. O Miranda, um aluno dele, deu um tapa num soldado na subida da ladeira, perto de um quartel. O quartel do Quarto Grupamento Móvel de Artilharia de Costa. Deu um tapa no soldado e foi pra casa de Bimba. Subiu e foi pro nordeste. – Dei um tapa num soldado… Bimba lhe diz : – Pra fora, filho da puta. Você dá um tapa num soldado e vem pra cá. Não se dá tapa num soldado. Se dá na farda. Tem mais mil lá dentro. Valente burro.
Bem, eu teria mais de 5 horas de Decânio para mostrar mas o espaço e o tempo são pequenos. Que fique o gosto de uma conversa com um dos mais interessantes seres humanos que conheci em toda a minha vida e ao qual serei eternamente grato.
Luiz Fernando Goulart

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