Acanne: O samba botou fogo na feijoada!
08 Dez 2009

Acanne: O samba botou fogo na feijoada!

Evento da Acanne reuniu samba de roda e capoeira angola pela consciência negra Deuses e santos, orixás, inquices e voduns permitiram que

08 Dez 2009

Evento da Acanne reuniu samba de roda e capoeira angola pela consciência negra

Deuses e santos, orixás, inquices e voduns permitiram que a 7ª Feijoada da Associação de Capoeira Angola Navio Negreiro fosse um sucesso. Pela primeira vez em versão ampliada, a programação teve como fio condutor um amplo debate sobre a consciência negra e experiências históricas de luta por libertação. Reunindo núcleos do grupo da Bahia, Rio Grande do Sul e Estados Unidos, o evento “O Sabor do Saber Ancestral” contou com uma série de treinamentos diários, além de aulas de percussão na capoeira e no samba.

A abertura do encontro aconteceu na quarta-feira, dia 11 de Novembro, com a palestra “O intelectual senegalês Cheikh Anta Diop e sua teoria do Egito negro-africano” pela professora colombiana Paola Vargas Arana (mestre em Estudos Africanos por El Colégio de México). Historiador, Cheikh Anta Diop estudou química e física nuclear para comprovar a antiguidade do Egito e fundamentar seus estudos que apontam ter sido ali a primeira civilização do mundo. Ao provar que a humanidade nasceu na África e que o Egito negro foi o berço de todas as civilizações, inclusive da Grécia, Diop foi perseguido e continua sendo boicotado. Seus livros ainda não têm tradução em português, mas servem de inspiração para movimentos negros do mundo todo.

Na sexta a roda foi bem animada, e na segunda-feira as atividades prosseguiam com a exibição do filme “Um Grito de Liberdade” (Cry Freedom – Direção: Richard Attenborough, Inglês, 1987). O filme retrata a luta de Steve Biko contra o apartheid na África do Sul, a partir da ótica de um jornalista branco que, em meio às contradições do lugar social privilegiado que ocupava, se solidariza e dá apoio ao movimento. Dentre inúmeras outras questões, o filme mostra o papel eminentemente político e subversivo do futebol naquelas terras (ao contrário do Brasil, onde continua fazendo parte da velha política do “pão e circo”). Já que comícios e reuniões políticas eram proibidos, Steve Biko e outros militantes negros discursavam durante os jogos, organizando o povo para a luta social.    

Na terça-feira, dia 17, o moçambicano Benvindo Maloa (mestrando em Psicologia pela UFBA) falou sobre “O processo de colonização e a Independência de Moçambique”. Como ex-colônia portuguesa, Moçambique compartilha conosco uma série de similaridades históricas, mas ao contrário do Brasil, conquistou sua independência através da luta popular. Com ajuda russa e cubana, Moçambique passou por uma experiência de transição ao socialismo que não chegou a se consolidar (em parte pela falta de quadros técnicos e baixo nível de industrialização). Com um elevado índice de infecção de HIV/AIDS, há inúmeras famílias do meio rural chefiadas por crianças, amparadas pelas tradicionais redes de solidariedade africana. Hoje o país vive os dilemas de como construir uma nação multicultural, com uma série de etnias e idiomas.
Palestra

Quarta-feira Christianne Vasconcellos (mestre em História Social pela UFBA) apresentou a palestra “Filosofia da Consciência Negra de Stephen Biko e o Movimento na África do Sul”. Christianne situou historicamente a chegada dos europeus na África do Sul, suas guerras e o acordo que deixou de fora toda a população originária de pele negra, sem acesso à terra nem direito de ir e vir livremente. Os negros eram confinados nos “bantustões”, precisavam de autorizações especiais para entrar na cidade (apenas em determinados horários) e tinham que portar seus cartões de identificação no pescoço, podendo ser presos a qualquer momento. Steve Biko ressaltava a necessidade da população negra se orgulhar de sua história e cultura, libertando a mente da dominação ideológica para lutar pelo poder e por uma sociedade mais justa e igualitária. Em suas palavras, “A arma mais poderosa nas mãos do opressor é a mente do oprimido”.

No dia 19, quinta-feira, o jornalista Paulo Magalhães (mestrando em Ciências Sociais pela UFBA) falou sobre “Capoeira Angola: Luta, Identidade e Tradição”. Traçando um breve histórico da capoeira e suas relações com o Estado, Paulo apontou como as idéias atuais sobre tradição e identidade na capoeira angola baiana foram construídas numa relação dialética entre capoeiristas, intelectuais e o Estado. A partir de notícias de jornais, expôs fragmentos da luta pela definição da tradição entre os mestres angoleiros, e sugeriu reflexões em torno do caráter de luta da capoeira angola: os capoeiras de ontem corresponderiam aos capoeiristas de hoje? A capoeira continua sendo uma luta de libertação? De quem? Contra o quê?

Na sexta-feira, 20 de novembro, o Centro de Salvador estava em polvorosa, repleto de atos, passeatas e manifestações. A africanidade saltava à flor da pele: torsos e turbantes, tranças e dreads, batas e amarrações, black-powers e palavras de ordem exprimiam a luta pela igualdade e o orgulho da beleza e ancestralidade negra. À noite a roda veio aquecer os angoleiros e abrir os caminhos para a feijoada do dia seguinte.

Feijão, canela, samba e axé

Sábado, 21 de novembro, 10h da manhã: os angoleiros reunidos em círculo esperavam ansiosamente pelo início do ritual. A roda foi intensa, com muito dendê e axé, proporcionando a manifestação de corpos libertos em preparação para a grande roda da vida. Depois do derradeiro Iê do Mestre Renê, outro Mestre (este, do mundo espiritual) veio conduzir o samba. Segredos e mistérios só compreendidos pelos iniciados ou intuídos por aqueles sensíveis às manifestações do plano sutil. O samba ferveu por horas, temperado pela canelinha de Iansã que era servida para todos em um único copo de barro, par da moringa em que a bebida gelada era guardada. Após a abertura da feijoada por sete homens, todos foram servidos em seus pratos de najé, comendo de mão e ganhando forças para voltar ao samba.
Tocadores

Realizada anualmente em agradecimento a Ogum, a feijoada conta com uma participação livre e aberta. Cobra-se apenas respeito daqueles que compartilham de outras crenças: em tempos de intolerância religiosa, o universo da capoeira continua sendo um quilombo de resistência ao preconceito, ao racismo e à dominação capitalista. Uma prática inclusiva de expressão da diversidade, respeito às diferenças e combate às desigualdades.

Para quem não participou neste ano, ano que vem tem mais. E mais: em 2010 a Acanne fará uma série de retiros na Ilha de Maré, com oficinas e rodas de capoeira angola, filmes, debates e palestras. Tod@s estão convidados. Axé!!!    

Paulo A. Magalhães Fº

Jornalista, mestrando em Ciências Sociais
http://lattes.cnpq.br/9776286470259455

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