Bahia: Mestres capoeiristas reclamam de falta de prestígio
05 Jan 2008

Bahia: Mestres capoeiristas reclamam de falta de prestígio

Considerada "presente de grego", homenagem da prefeitura no Carnaval sequer terá decoração específica Um presente de grego. É desta forma que os

05 Jan 2008

Considerada "presente de grego", homenagem da prefeitura no Carnaval sequer terá decoração específica

Um presente de grego. É desta forma que os mestres capoeiristas vêem a homenagem à capoeira que será feita pela prefeitura durante o Carnaval 2008. Até o presente momento, não está prevista decoração específica nos circuitos da festa momesca, que tem início marcado para 31 de janeiro. A Empresa de Turismo de Salvador (Emtursa) alega falta de recursos e de tempo hábil para que haja realização de concurso público de projeto de decoração nem dotação orçamentária para pagá-lo.

Banners espalhados por toda a cidade à semelhança da exposição Salvador negro amor, do fotógrafo Sérgio Guerra. Neles estariam fotos dos sábios capoeiristas que marcaram seu nome na história desta arte. Instalações que lembrassem os principais golpes de capoeira. Maior divulgação nos meios da comunicação sobre o tema receberiam as honras neste ano. Era assim que Jaime Martins dos Santos, mais conhecido como mestre Curió, 71 anos, espera ver a cidade a poucos dias do início do Carnaval. Ficou na frustração. “É um desrespeito muito grande com a capoeira. Uma homenagem de mentira”.

A escolha da capoeira como tema a ser homenageado no reinado de Momo foi feita através da internet, por decisão do Conselho do Carnaval. Os votos dos internautas foram ratificados na solenidade dos festejos em dezembro. Na oportunidade, foram divulgados como os símbolos da festa os mestres João Pequeno e doutor Decanio. Eles são, respectivamente, discípulos dos dois maiores ícones da mistura de arte marcial, dança e filosofia trazida à Bahia pelos escravos africanos: mestres Pastinha (capoeira angola) e Bimba (capoeira regional).

Mas nem os símbolos da festa sabem como desempenharão seus papéis durante o reinado de Momo. “Eu já telefonei para a Emtursa para saber como vai ser, se vai ter desfile, se a gente vai se apresentar e eles não souberam me responder. Eu nem posso falar mais algo sobre que eu não tenho informação alguma”, diz Angelo Augusto Decanio Filho, o mestre doutor Decanio. Médico e professor aposentado da Escola Bahiana de Medicina, ele é considerado o mais velho aluno ainda vivo de mestre Bimba. Completa oito décadas e meia de vida em fevereiro. “É muita desorganização”, critica.

Mestre DecanioMorador de uma modesta casa no bairro de Fazenda Coutos III, mestre João Pequeno também espera junto com sua família por maiores informações sobre sua participação. “Eles nos convidaram, mas há detalhes que não foram acertados”, diz a neta de João Pequeno, a também capoeirista, Cristina Miranda, a “Nani”. Ela afirmou ao Correio da Bahia que, se seu avô não receber cachê, ele não irá aparecer na quinta-feira de Carnaval (dia 31), no Campo Grande, quando está prevista a saída do bloco da capoeira, o Mangagá. “Um mestre de capoeira tem que ser respeitado, porque também é um artista. Há toda uma estrutura que nós temos que montar quando ele se desloca. Ele leva o nome da Bahia a todo lugar que vai. Todo ano, vêm dezenas de alunos do exterior só para conhecê-lo”. Doutor honoris causa por uma universidade mineira, João Pequeno completou 90 anos no mês de dezembro. Convidada para a festa, nenhum representante da Emtursa compareceu.

Filho do saudoso mestre Bimba, Manoel Nascimento Machado, o mestre Nenel, 47, não chega a ficar surpreso com este fato. Ele ainda acredita que algo pode ser feito para lembrar que a capoeira é a homenageada deste Carnaval. “Enquanto no exterior nós somos reverenciados, aqui na Bahia, berço da capoeira, ainda há este ranço”.

Descaso – “A Emtursa deu uma rasteira na capoeira. Do jeito que está sendo feito está muito pouco”, ironiza o historiador Jaime Sodré. Para ele, o órgão municipal deveria criar uma comissão especial para estabelecer de fato como serão feitas as homenagens aos mestres capoeiristas no Carnaval. Para Gilson Fernandes, mestre Lua Rasta, 57, falta senso de classe entre os capoeiristas para evitar esta “rasteira”. “Se a gente não ficasse com tanta picuinha, este tipo de coisa não aconteceria. O culpado somos nós mesmos”.

“Um turista que chegue a Salvador não vai saber que a capoeira vai ser homenageada no Carnaval. Nós que lutamos por isso e não fomos nem chamados para opinar”, reclama o produtor cultural Geraldo Badá. Durante quatro anos, ele enviou propostas à Emtursa para que a arte fosse tema da folia soteropolitana. Mas quando finalmente foi atendido, se vê frustrado.

Badá critica ainda o que chama de falta de apoio do poder público para os blocos independentes que também prestarão homenagens à capoeira no circuito carnavalesco. O único a ser beneficiado seria o Mangangá, capitaneado pelo cantor e compositor, e também mestre de capoeira, Tonho Matéria. “O bloco do Tonho Matéria não poderia ser o único até este tipo de apoio”.

De modo sutil, Tonho Matéria contesta Badá. Ele afirma que o Mangangá está orçado em R$230 mil e deste valor ele teria conseguido R$15 mil junto à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Secult). E a Emtursa teria pago o aluguel do trio elétrico, algo em torno de R$35 mil. Para bancar o resto, ele estaria correndo atrás de patrocínio de empresários.

 
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Emtursa alega falta de recursos

O presidente do Conselho do Carnaval, Reginaldo Santos, afirmou que um projeto de decoração foi encomendado à Associação de Artistas Plásticos da Bahia. Mas foi considerado inviável, já que a Emtursa alegou incapacidade de bancar os cerca de R$1,5 milhão exigidos para que ele fosse levado a cabo.

Santos declara que outras alternativas foram pensadas, mas esbarraram no mesmo motivo: a falta de recursos financeiros. “Nós ficamos frustrados com o fato de não ter decoração. Queríamos que a cidade ficasse linda para o Carnaval, mas não há como contrapor uma alegação como esta da Emtursa”. Segundo o presidente do conselho, uma das alternativas para o próximo ano é as entidades entrarem com projetos através das leis de incentivo cultural para assegurar que outros carnavais tenham a decoração garantida.

Por sua vez, o presidente da Emtursa, Misael Tavares, afirmou que não houve tempo hábil para seleção pública de um projeto e nem dotação orçamentária que a decoração fosse realizada. “Eu também gostaria que a cidade estivesse toda decorada com a capoeira, mas nós estamos lidando com o dinheiro público. Eu não poderia aprovar um projeto de mais um R$1 milhão sem orçamento para tanto e sem fazer um concurso público”. Mesmo assim, Tavares considera que a capoeira terá visibilidade durante o Carnaval, já que o bloco Mangagá vai sair no circuito. “Nós não podemos agradar a todos os segmentos dos capoeiristas”.

Ligada à Secult, a diretoria do Pelourinho Cultural informou que a decoração de Carnaval no Centro Histórico, que terá obviamente motivos de capoeira, ficará a cargo do estado. Ela será feita pelo cenógrafo Euro Pires. A previsão é que esteja pronta até o dia 27, quatro dias antes da festa.

Depoimentos de mestres

“Tudo que é em prol da capoeira recebe meu apoio, mas é preciso que seja muito bem-feito. E eu não estou vendo isto acontecer. Deveria ter painéis na cidade contando a história da capoeira e dos mestres mais antigos”.
Mestre Boca Rica, 71 anos

“Sinceramente, eu acho que é uma forma de racismo, de discriminação. Uma total falta de respeito com a cultura afrodescendente. Alunos meus de vários países estão vindo para cá justamente porque a capoeira é o tema do Carnaval”.
Mestre Boa Gente, 62

“É uma espécie de homenagem torta. Não é assim que deveria ser feito. A capoeira não é apenas só uma luta. É toda uma filosofia de vida que precisa ser tratada com todo o cuidado”.
Mestre Moa do Katendê, 54

“Nós estamos cansados de tapinhas nas costas. Cansados de vermos a capoeira ser usada por quem não merece. Nós somos bem tratados em qualquer lugar, mas aqui ainda há este preconceito contra a capoeira”.
Mestre Gildo Alfinete, 68

“Qual a preocupação que as autoridades têm com os mestres? Que apoio nos dão nos nossos projetos sociais? A gente faz um trabalho numa escola estadual e tem de esperar meses para receber o pagamento. O que eles vão fazer no Carnaval é usar o nome da capoeira e não homenageá-la”.
Mestre Curió, 71

 

Fonte: Flávio Costa
Correio da Bahia – Salvador – Brasil
http://www.correiodabahia.com.br

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