Brasília: Dialogar para evoluir
04 Abr 2010

Brasília: Dialogar para evoluir

Papoeira Feminino estimula a reflexão e a troca de informações No mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, mulheres

04 Abr 2010

Papoeira Feminino estimula a reflexão e a troca de informações

No mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, mulheres capoeiristas, independentemente de estarem defendendo as bandeiras de seus grupos, realizaram no dia 28 de março, no Parque Urbano e Vivencial do Paranoá, o PAPOEIRA FEMININO, onde adolescentes, adultos e melhor idade, sem distinção de gênero, se reuniram e dialogaram sobre assédio moral, assédio sexual, violência contra a mulher, cada um expondo sua opinião, dando sua contribuição para buscar caminhos e posicionamentos que inibam esses acontecimentos entre os praticantes de capoeira.

O PAPOEIRA, criado no ano de 2000 pelo Sr. José Bispo Correia, o Mestre Pombo de Ouro, como forma de comunicação, integração e conscientização dos capoeiristas, nesta edição teve como tema central o FORTALECIMENTO DA CAPOEIRA FEMININA DO DISTRITO FEDERAL E ENTORNO e contou com uma excelente aula teórica sobre a importância do aquecimento e alongamento na Capoeira ministrada pela capoeirista Luiza de Alencar Dusi, conhecida como Bailarina.

A Bailarina, aluna do Centro Cultural Escola do Mundo Carcará Capoeira, mostrou-se satisfeita com o evento e acredita que o “Papoeira” deve ser realizado mais vezes. “Temos que disseminar essas idéias e informações através desse movimento que é tão interessante e tem metas úteis. São idéias diferentes, mas em prol do mesmo objetivo”, endossa. Ela acredita que os homens não podem ficar de fora dessa conscientização. “Alguns homens cismam que mulher só pode jogar capoeira com outra mulher, que acaba reagindo com agressividade. Temos que promover a igualdade com educação”, argumenta.

Essa também é a opinião de Ana Claudia Rodrigues de Araújo, a Cacau, da Associação de Cultura e Capoeira Adeptos da Bahia (ACCAB). “A maioria dos homens capoeiristas espera que a mulher seja masculinizada. Eu não sou assim até por causa das minhas limitações físicas. Eu treino capoeira porque tudo é contra a mulher, começando pela fragilidade do corpo”, diz. Contudo, Cacau afirma que a própria mulher é peça chave para a mudança do comportamento predominante no meio. “A nossa participação é que vai fazer mudar, com a conscientização sobre o nosso papel e o nosso valor. Sempre buscamos nosso espaço e o fundamental é o autoconhecimento e a própria valorização”, arremata.

Manoel Cardoso Magalhães, presidente da ONG Resgate da Vida, entidade que, juntamente com a equipe do Instituto Horizontes – Projeto Conscientizar, contribuiu para a realização do evento, explicou como surgiu a Lei Maria da Penha e buscou mostrar a importância da seriedade da sua utilização. “Às vezes a questão da violência começa já no namoro e a mulher tem que estar atenta a isso”, alerta. Segundo ele, é necessário que os homens também sejam inseridos nesse debate. “Não podemos parar o processo de evolução. Precisamos nos adaptar às mudanças do perfil feminino”, completa.

O criador do Papoeira, Mestre Pombo de Ouro, diz-se orgulhoso da iniciativa de defender as causas em favor da mulher. “Eu parabenizo isso. O Papoeira é, antes de tudo, exemplo de vida”, ressalta. Como resultado das proposições colocadas, foi acordado a realização de um Papoeira Feminino no mês de abril, desta vez coordenado pela capoeirista Bailarina, para a mobilização das capoeiristas do Distrito Federal e entorno. Essas manifestações estão sendo realizadas em prol de um evento feminino nacional de capoeira programado para ser realizado no segundo semestre de 2010, seguindo a mesma filosofia de conscientização e aprimoramento.

O encontro nacional terá como focos principais a valorização da mulher no meio capoeirístico (Direitos Humanos da Mulher), em forma de homenagens; a conscientização através de assuntos relacionados à violência contra a mulher (Lei Maria da Penha e desdobramentos práticos, assédio moral e assédio sexual); e assuntos relacionados com os conhecimentos tradicionais da capoeira (fundamentos, rituais de roda, instrumentação e canto), além de dar visibilidade aos movimentos femininos organizados, por meio de apresentações culturais das participantes.

Valdete Andrade de Souza, representante da ONG Resgate da Vida, apesar de não ser capoeirista, sentiu-se orgulhosa em participar de um evento onde a temática feminina está sendo trabalhada e de ver como a capoeira pode estimular esse tipo de iniciativa. “Eu acredito no esporte e no desenvolvimento da mulher. É preciso mostrar que estamos aqui para lutar, para defender os nossos direitos e cumprir também com os nossos deveres. Acredito na valorização da mulher, no seu potencial”, ressalta. A capoeirista Elissandra Cunha Cardoso, a Crocodila, também mostrou-se satisfeita com o resultado do evento. “Foi tudo positivo. É válido para as mulheres se conhecerem e aprenderem umas com as outras. Com essas iniciativas estamos vendo o preconceito ir embora e a mulher sabe que pode competir com o homem intelectualmente e tem várias formas de mostrar seu conhecimento”, elogia.

Para Márcia Regina Fabrício Dias, a Piquena Guerreira, aluna da Terreiro Capoeira, uma das organizadoras do evento, sócia-fundadora do Instituto Horizontes – Projeto Conscientizar e capoeirista há 10 anos, a mulher vem conquistando o seu espaço e torna-se imprescindível discutir o seu papel na sociedade, mostrar que elas devem lutar para a melhoria de sua qualidade de vida e das pessoas que a cercam. “Queremos mobilizar cada vez mais e contribuir de maneira ativa para difundir as questões referentes à mulher”, compromete-se.

A participação dos homens e das crianças no debate comoveu a capoeirista. “Nessas ocasiões, quando você escuta alguém como o sr. Domingos dar sua contribuição e dizer que viveu e se aposentou na agricultura, que nunca utilizou nenhum tipo de droga, parabenizando quem busca estudar para ter uma profissão e ao final agradecer por poder dizer aquelas palavras, pedindo licença para sair, é uma lição de educação!”, emociona-se. “Ouvir também um menino de 15 anos dizer orgulhosamente que há 7 anos pratica Capoeira, que perdeu o pai e que hoje considera o professor de capoeira como seu pai e dizer que vai praticar capoeira pelo resto de sua vida, é recompensador o trabalho das organizadoras e apoiadores para fazer o evento acontecer”, diz. Elas, eles, todos acreditam na preservação da Capoeira porque a escolheram como um importante instrumento de desenvolvimento pessoal e social.

Jornalista Suellem Mendes.
msn: sumendes10@hotmail.com

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