Cultura e Tradição: Capoeira muda a vida de crianças em Fortaleza
02 Dez 2009

Cultura e Tradição: Capoeira muda a vida de crianças em Fortaleza

“Exu é o senhor do movimento, então tudo que está quieto e parado ele tenta movimentar, assim é o próprio mundo. Ele

02 Dez 2009

“Exu é o senhor do movimento, então tudo que está quieto e parado ele tenta movimentar, assim é o próprio mundo. Ele tem um chapéu metade preta e metade vermelha”.

O relato continua. “Dois reis que se tratavam como irmãos realizavam sempre um festival de confraternização entre os reinos e Exu passava e presenciava sempre a mesma coisa, todos amigos a vida toda. No festival, os tronos ficavam lado a lado e o povo confraternizando. Em uma festa, Exu se traveste de príncipe e passa no meio dos dois tronos, cumprimenta os reis e some no meio da festa. Eles comentam sobre a beleza e o chapéu do príncipe, no caso Exu disfarçado, e divergem das cores que cada um viu. Para os reis a palavra era incontestável e um deles ficou ofendido daí se agridem e começam um embate que vira uma guerra que dura anos. Quando os dois reinos estão quase destruídos, os reis sentam para negociar uma trégua e Exu refaz o trajeto ao contrário e cumprimenta novamente. Os reis vendo cores contrárias do que viram da primeira fez, se voltam um ao outro pedindo desculpas e selando a paz novamente”. Essa história reflete a composição da dialética, a tese, a antítese e a síntese. É a sabedoria africana contada pelo Mestre Armando Leão ao grupo de crianças que fazem parte da Capoeira Angola e moram no Campo do América em Fortaleza.

Angola no Campo do América

Os instrumentos são os mesmos, mas a dança da Capoeira Angola é diferente da Capoeira Regional. A Angola é constituída por movimentos complexos misturando ritmo e luta, sendo o estilo que mais se aproxima da forma dançada pelos negros africanos. A expressão cultural chegou ao Campo do América após relatos da realidade vivida pela comunidade, que é cercada pelos prédios de luxo da Aldeota e que divide espaço com alguns problemas sociais como drogas, exploração sexual na Avenida Beira-Mar. A atividade despertou a curiosidade entre as crianças que além de aprender Capoeira, têm também aulas de arte e cultura africana através de uma linha pedagógica, com base na contação de histórias.

O Mestre Armando afirma que muitos quando chegam pra conhecer a Capoeira Angola, trazem a ideia do senso comum da existência de uma única capoeira e alguns se decepcionam porque querem dar saltos entre outros golpes, então quando percebem que o ritual é diferente ficam frustrados.

Durante as aluas, as crianças aprendem a tocar os instrumentos de percussão (reco-reco, agogô, pandeiros, berimbaus – gunga, médio, viola – e atabaque). A ladainha cantada e a dança são ensaiadas e assim se preparam para além de viver com a influência dos ensinamentos africanos também se apresentarem em eventos.

Adversidade para a realização do trabalho

A iniciativa de ensinar esses valores não é algo fácil, já que a realidade de Fortaleza se configura em um cenário em que igrejas católicas e protestantes disputam os fiéis e criticam a prática da Capoeira Angola atribuindo ser “coisa do demônio”. Além disso, existem as dificuldades financeiras que o grupo enfrenta para manter o mínimo de estrutura. Mestre Armando diz que não existe perspectiva de ser um projeto social com apoio institucional. O que conseguiram até agora foi resultado da coletividade e algumas atividades financeiras que propiciaram a compra dos uniformes padronizados da Capoeira Angola (calça preta e blusa amarela). O grupo realizou passeios culturais onde as crianças já conheceram os museus ao redor do Dragão do Mar, visitaram um projeto no bairro Serviluz que desenvolve trabalho de fotografia com crianças, Praça Adahil Barreto e a Praça Luiza Távora (Pracinha da Cearte).

Histórias de infâncias roubadas

Algumas realidades vistas no local são de abandono. Porque os pais têm que trabalhar, muitas crianças passam parte do dia nas ruas por não ter nenhuma atividade e ficam sujeitas a todos os tipos de violências e assédios. Há muitas crianças com um potencial de agressividade por consequência da falta de oportunidade ou por não conhecer carinho familiar. Todas, porém, convivem com a propaganda da vida de luxo de alguns que moram nos prédios da vizinhança. São relatos que para o Mestre “afasta o diálogo entre os pais e filhos e com as rodas de conversa durante a Capoeira aos poucos vai contribuindo para o retorno dessa aproximação, tendo em vista uma convivência mais harmoniosa e respeitável,” enfatiza.

Após as aulas que acontecem na Matriz Criativa Núcleo de Ação e Desenvolvimento, as crianças são levadas em casa e o Mestre conversa com os pais sobre a criança ou sobre algo que possa vir a contribuir com o desenvolvimento psicológico e afetivo. O Mestre relata que uma vez foi à casa de uma aluna que, por volta de três horas da tarde, estava sem ter ingerido nenhum alimento. Ao perguntar por que ela ainda não tinha se alimentado, ela respondeu que se alimentava sempre depois que a mãe chegava do trabalho após as cinco horas ou quando um tio levava alguma coisa. Histórias de vida como essa, de crianças que crescem com dificuldades em meio às ofertas do tráfico, fazem parte do cotidiano do Campo do América. Isso para o Mestre Armando é um desafio para se desconstruir e é possível através dos ensinamentos africanos e da prática da capoeira.

Absorção de conhecimento

Além da dança e da música, as crianças escutam as histórias e podem recontar em outras aulas e assim os conhecimentos são repassados. E uma dessas ferramentas é a encenação, metodologia que, segundo o Mestre Armando, contribui para estimular a imaginação infantil. Ele relata que muitos quando escutam histórias sobre Ogum, Olorum entre outras, identificam-se e isso faz com que eles entendam a dinâmica do mundo a partir de outra visão.

Para o Mestre Armando o trabalho por ele desenvolvido é uma necessidade religiosa e ancestral, um dever que tem de repassar os seus conhecimentos. “Os alunos precisam saber viver bem, concebendo a capoeira. Todo esse esforço é para que isso influencie na vida das crianças e que elas consigam viver daqui pra frente a partir da tradição da Capoeira Angola”, conclui.

De Fortaleza,
Ivina Carla (Acadêmica de Jornalismo)

http://www.vermelho.org.br

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