Mestre Capixaba enfrenta uma velha sina capixaba
19 Ago 2013

Mestre Capixaba enfrenta uma velha sina capixaba

Quem esteve no Sítio Histórico Porto de São Mateus em 2007 se emocionou com uma histórica roda de capoeira. Dentro jogavam dois

19 Ago 2013

Quem esteve no Sítio Histórico Porto de São Mateus em 2007 se emocionou com uma histórica roda de capoeira. Dentro jogavam dois monumentos: João Grande e João Pequeno. Este faleceu em 2011. João Grande, que em fevereiro fez 80 anos, há muito vive em Nova Iorque, ensinando a luta brasileira na multicultural Manhattan.

Essa bela página da história da capoeira foi escrita durante a primeira edição do Encontro Internacional e Jogos Abertos Acapoeira, organizado pelo Mestre Capixaba. Apesar disso, seis anos depois, o encontro chega à quinta edição tropegamente.

O evento deste ano, que acontece em Itaúnas (Conceição da Barra) entre os dias 21 e 25 de agosto, recebeu um único apoio oficial, oriundo da Secretaria de Estado da Cultura. Mesmo assim, via emenda parlamentar (do deputado estadual Sérgio Borges, do PMDB).

Realizado desde 2007, o encontro reflete uma interessante característica de seu organizador: o trânsito que ele tem por mais de 30 grupos. Por uma questão, digamos, cultural, grupos de capoeira são como que organizações que tendem a não estabelecer laços entre si. Os integrantes de um grupo só jogam com seus pares.

Mas aí, para Capixaba, não há vivência. Desde aluno, em meados dos anos 70, ele se movimentava entre os grupos rivais de Vitória. Hoje ele trabalha para a aproximação entre os grupos, processo que o encontro catalisa. Sua filosofia sustenta que laços mais estreitos significam intercâmbio cultural e, portanto, enriquecimento da capoeira.

Por isso o Encontro Internacional e Jogos Abertos atrai praticantes do Brasil e do mundo inteiro, de vários grupos, sem discriminar graduação. Já veio gente da EUA, Canadá, Alemanha, Áustria, Suécia, Espanha, Suíça, França, Hungria, República Techa, Colômbia.

Para esta edição estão previstas as participações de mestres e professores dos EUA, Áustria, Suíça, Espanha, Alemanha, Colômbia e Hungria: Mestre Preguiça (EUA), Professor Tapioca (Áustria), Professor João de Barro e Professora Bela (Suíça), Professor Bala (Espanha), Professor Pit Bull e Professora Pérola (Alemanha), Instrutor Tigrinho (Colômbia), Mestre Paulão (Hungria).

A principal atração será a formatura dos professores Rafael (Rio de Janeiro) e Sururu (Minas Gerais). É sempre comovente o solene momento em que as portas da capoeira se abrem para novos mestres. Rafael e Sururu acompanham Mestre Capixaba há quase três décadas. A ideia, agora, é viajar com os dois para alguns países e aprimorar com eles o ensino da capoeira.

Entre o final de maio e o final de junho deste ano Mestre Capixaba iniciou pela Espanha sua peregrinação de 30 viagens anuais. Grécia, Holanda e Alemanha vieram a seguir. De volta ao Brasil, mais avião: Rio Grande do Sul, São Paulo, Piauí, Roraima e Fortaleza. No final de setembro, já há compromisso agendado nos Estados Unidos.

Mestre Capixaba é um dos capoeiristas mais requisitados do mundo. Ao lado dos mestres João Grande (EUA), Camisa (RJ), Preguiça (EUA), Itapoã (BA), Tabosa (DF), Di Mola (Suécia) e Sabiá (BA), é um dos principais difusores dessa arte marcial genuinamente brasileira.

São 35 anos enfrentando viagens longas e rotinas exaustivas para levar um patrimônio imaterial brasileiro aos quatro cantos do globo – ele não sabe quantos países já visitou – e a incontáveis cantos e recantos do Brasil. Mas se diz cansado. Tanto que planeja um 2014 diferente: programou apenas duas viagens ao exterior, Austrália e Inglaterra, dois países ainda não visitados.

Fosse apenas as viagens que lhe provocassem os achaques do cansaço, ok, ótimo. Mas não. O mestre é mais uma ilustre vítima de um mal genuinamente capixaba. Fora das fronteiras estaduais, banham-lhe em honras, láureas, reconhecimento e respeito. Cá dentro, paira o silêncio.

O mestre é ao mesmo tempo causa e efeito do fenômeno internacional em que se transformou a capoeira: hoje são cerca de 10 milhões de praticantes no mundo e um dos mais praticados no Brasil. É um dos muitos capoeiristas que deixaram a terra natal para semear as sementes da capoeira mundo afora. E, aí, cada lugar o levou a outro e mais outro e mais outro.

Ano que vem Mestre Capixaba celebra 40 anos de devoção à capoeira. Aprendeu os primeiros golpes com o irmão mais velho, numa época em que Vitória era dividida em grupos (Praia do Canto, Centro, Jucutuquara, agregando ainda Vila Velha), de capoeiristas ou não, que não podiam se cruzar. Do contrário, era briga.

Quem amainou as disputas e de certa forma aproximou os grupos chama-se Diabo-Louro, mestre baiano que chegou ao estado no início dos anos 70. Diabo-Louro transitava entre os grupos, dando aula em Jucutuquara e no Praia Tênis Clube. Outra iniciativa que quebrou o gelo foi a organização do 1° Campeonato de Capoeira.

Foi embora pouco depois, em meados da década, e deixou alunos para Mestre Binho, seu aluno mais graduado. Binho foi o primeiro mestre de Capixaba.

Quase 40 anos depois, Mestre Capixaba ainda insiste para que o santo de casa faça milagre. Mesmo experimentando o gosto da glória que o gênero conheceu de algumas décadas para cá, como expressão cultural legitimamente brasileira (algo que o mundo globalizado adora, como o samba, o choro, o carnaval), ele ainda não conseguiu.

Mestre Capixaba conhece os dois lados da capoeira: a marginalização e a celebração. No Espírito Santo, parece viver os séculos em que cada meia-lua escrevia no ar a história animalesca da escravidão colonial-imperial ou do preconceito republicano, quando em 1890 um decreto federal proibiu a capoeira, situação que só teve bom termo em 1935.

Demorou bastante para essa arte-marcial nascida nas senzalas e quilombos cativar os milhões pelo mundo que hoje a praticam. Esse é o lado bom da história, que Mestre Capixaba felizmente conhece bem. A ponto de ter vivido episódios marcantes no exterior.

Em Israel, a capoeira só perde para o Krav Magá em número de praticantes. Há alguns anos, uma universidade de Israel precisava da assinatura de um mestre de brasileiro para autenticar a cadeira de capoeira. Mestre Capixaba foi o responsável. O país não lhe era estranho: o grupo que integrava possuía representantes ministrando cursos e workshops por lá, dada a popularidade da capoeira em Israel.

Em 1989, a atriz Brook Shields, então um dos rostos mais venerados de Hollywood, lançou Brenda Starr, filme de aventura em que vive a destemida repórter homônima à película. Parte da história se passa no Brasil e a produção queria capoeiristas.

Jelon Vieira, pioneiro na introdução da capoeira nos Estados Unidos, mostrou um vídeo com Mestre Capixaba e Mestre Boneco (o ex-ator global Beto Simas). Assim Capixaba fez uma ponta no filmão hollywoodiano, distribuindo pernada em grandalhões russos.

Ainda nos Estados Unidos, ministrou workshop na respeitada academia de luta de Dan Inosanto, discípulo direto de Bruce Lee.

A longa experiência internacional conferiu a Mestre Capixaba o privilégio de ter discípulos atuando em diversos países. Nos Estados Unidos, os mestres Ary Ranha, Carioca e Bom Jesus; na Espanha, o Professor Bala; na Alemanha, os professores Arisco, Pitbull, Tapioca, Papa Léguas; na Áustria, o Professor Paçoca; na Suécia, o Professor Tim-Tim; na França, o professor Ticum; na Colômbia, o professor Felino; no Chile, o professor Urutum. Sem contar outros tantos instrutores.

Embora seja um dos grandes semeadores da capoeira no mundo, Mestre Capixaba optou por permanecer na terra natal. Mora em São Mateus, no norte do estado, desenvolvendo projetos sociais em escolas do município e da vizinha Conceição da Barra. A confiança nos benefícios físicos e morais da capoeira inspira ainda projetos em Itaúnas e nos quilombos de Angelim e São Domingos, tudo em Conceição da Barra.

A residência em São Mateus recobre-se também de um ato de reverência. Ali viveu o escravo Tedororinho Trinca-Ferro, apontado como criador da Capoeira Angola, ainda quando o município, como todo um naco do norte capixaba, pertencia à Bahia. Não deixa de ser uma atitude de resgate da ideia de que a Capoeira Angola carrega DNA capixaba.

 

Capoeirista, que não sabe quanto países já visitou, é um dos mais solicitados do mundo, mas ainda é ignorado na terra natal

 

Fonte: http://www.seculodiario.com.br

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