O trigo da capoeira e o joio da violência
12 Set 2006

O trigo da capoeira e o joio da violência

Mano Lima, o autor do Dicionário da Capoeira, vem se firmando como um forte parceiro e colaborador do Portal Capoeira, em nossa última

12 Set 2006
Mano Lima, o autor do Dicionário da Capoeira, vem se firmando como um forte parceiro e colaborador do Portal Capoeira, em nossa última conversa o Jornalista propôs participar de forma mais atuante no Portal como um colaborador oficial, mantendo uma coluna.
Desta forma damos as boas vindas ao camarada Mano Lima que além de escrever este ótimo texto, ainda nos ofereceu dois exemplares autografados do "Dicionário de Capoeira" 2ª edição ampliada e revisada, para serem sorteados no início de Outubro pelo Portal Capoeira.
 
Para participar desta promoção basta estar inscrito em nosso Boletim Informativo – Habilite-se, voce só tem a ganhar!!!
 
Muito Obrigado Mano Lima pela participação, envolvimento e por nos brindar com sua preciosa ajuda… como voce mesmo diz: " Um abraço quebra costelas"
 
Luciano Milani

O trigo da capoeira e o joio da violência
 
 
“As famílias brasileiras têm uma certa aversão a capoeiragem porque não sabem o valor inegualável que este bello jogo contêm para a defesa pessoal do homem. Como disse acima, as famílias tremem, bramam, desesperando-se com os filhos que têm a feliz idéia de aprender este estupendo jogo. Ah! que bello seria se todos os verdadeiros brasileiros tivessem a iniciativa de aprendel-a, estudando os menores segredos que este jogo puramente brasileiro tem, fazendo-a uma arma, uma defesa própria, um sport como os demais, orgulhando-se de possuir a melhor arma, o mais bello jogo, o mais inteligente sport. Ah! se todos seguissem esta idéa, os brasileiros futuros seriam respeitados, temidos, forte e orgulhar-se-iam de saber os segredos do jogo mais sabio até hoje conhecido”. (**)
 
(trecho da obra “Gymnastica Nacional (Capoeiragem methodizada e regrada)”, publicada por Aníbal Burlamaqui em 1928) 
A violência talvez seja o maior flagelo desses primórdios de século XXI. Ela tem origens difusas e está presente em todas as partes do Planeta. É reflexo da injustiça social, da xenofobia, do terrorismo, do individualismo exacerbado, do ódio diante do que é diferente. O mundo pós-moderno deixou como legado a violência nas ruas, na política, no trânsito, no campo e na cidade. A violência não tem credo religioso, matiz política ou face ideológica. Essa se espalhou como praga numa sociedade marcada pela disputa exacerbada dos recursos naturais, do solo e dos postos de trabalho.
 
O sentimento de impotência dos cidadãos diante da banalização da violência cria um dos seus efeitos mais nocivos: a indiferença e a incapacidade das pessoas se indignarem e reagirem. Essa resignação, aliás,  só acaba quando a violência bate à nossa porta e faz vítimas. Foi o que aconteceu em Brasília no final de agosto de 2006, quando a população foi às ruas protestar contra mais um crime brutal, desses tantos que enchem as páginas dos noticiários policiais das grandes cidades. Agredido por cinco capoeiristas depois de uma discussão fútil na saída de uma boate, o promotor de eventos Ivan R. Costa morreu depois de uma lenta agonia de nove dias.
 
A tragédia de Brasília deixou outras marcas. Uma delas é o preconceito que se espalha contra os próprios capoeiristas quando um episódio desse ocorre. Em carta ao jornal Correio Braziliense, o contramestre Eurico Neto expressou a preocupação com o fato de atitudes como essa colocarem a sociedade contra a capoeira. Com muita propriedade, Eurico destaca que “não foi a capoeira que levou esses jovens a cometer essa brutalidade, tampouco qualquer outra luta marcial”. O capoeirista assinala que todas as lutas “têm como finalidade o autocontrole, a disciplina, a união entre corpo e mente, a formação e a evolução do praticante como um ser completo”.Para ele o uso da violência pelos desportistas resulta de um treinamento equivocado, onde a competição e o fortalecimento do ego são o objetivo principal. A palavra violência rima com truculência e com arrogância, mas não rima com esporte. O uso da destreza física, mesmo a empregada nas artes marciais, contra indivíduos indefesos, é gesto covarde que macula o trabalho sério feito por milhares de capoeiristas que atuam em todas as partes do Brasil e nos cinco continentes.
 
O lamentável acontecimento nos remete a duas reflexões. A primeira delas diz respeito à conduta de alguns setores da imprensa. Em alguns veículos de comunicação prevalece o entendimento de que “notícia boa” é “notícia ruim”. Nessa mídia degenerada, capoeiristas alcoolizados e enfurecidos que tiram a vida de um cidadão desprotegido sempre terão espaço mais generoso que projetos de inclusão social gestados a partir da capoeira. E no Brasil existem centenas dessas experiências. Na Bahia, o projeto Axé tira crianças das ruas e lhes ensina a confeccionar instrumentos de percussão. Em Manaus, crianças pobres atendidas no programa Sementes do Amanhã encontram na capoeira um novo referencial de vida e se livram da influência nefasta dos traficantes. No Guarujá, em São Paulo, deficientes físicos atendidos pela Apae encontram na capoeira a alegria de viver. Em Brasília, no Pará e em outras partes do país, grupos de terceira-idade descobrem em terapias adaptadas da capoeira a “cura” para o sedentarismo, a solidão e o estresse.
 
A outra reflexão está relacionada com a própria origem da capoeira e com a sua relação com o Estado e a sociedade. Perseguida e discriminada até meados do século XX, a capoeira enfrentou a violência estatal e a perseguição. Por esse e por outros fatores, a identificação histórica da capoeira com os escravos e com as populações marginalizadas dos grandes centros urbanos deu-lhe um claro conteúdo de resistência e a transformou em instrumento de luta por liberdade e justiça social. Verdade seja dita, não são poucos, também, os episódios em que os capoeiristas foram agentes da violência. As maltas cariocas do período anterior a Proclamação da República são um exemplo disso. Nesse momento, inclusive, os capoeiristas se dividiam: demonstrando a sua agilidade corporal em conflitos de rua, uns lutavam pela queda da monarquia, outros em favor da sua manutenção. Filmes como “Madame Satã”, dentre outros, ilustram o cenário de turbulência e o submundo do crime em que viveram muitas gerações de capoeiristas. Na década de 1980, um assassino em série conhecido como Mestre Cão violentou e matou diversas mulheres do Rio de Janeiro usando golpes de capoeira. Em Brasília, um conhecido capoeirista está foragido desde o ano passado, acusado de envolvimento no assassinato de um adolescente.
 
Os agressores, cujas faces a imprensa de Brasília estampou ao lado da manchete “capoeiristas assassinos”, atuavam como “educadores” em escolas públicas, onde ensinavam a “arte” da capoeira a crianças. Quando solicitaram autorização para usar o espaço escolar apresentaram um vídeo com experiências de inclusão social. Quando indivíduos que têm como missão ensinar as técnicas, os fundamentos e os princípios de uma prática esportiva promovem atos bárbaros, ocorre um processo semelhante a um vendaval que assola um campo de cultivo. A violência do vento mistura grãos nobres com espécies estéreis. A capoeira é trigo: ela educa, germina, engrandece, liberta. A violência é joio:  espalha-se como praga, embrutece os homens e lhes rouba o bom senso. Separar o joio do trigo é impedir que o gesto inconseqüente de uns sirva de pretexto para impedir que outros continuem a semear e a colher os bons frutos do seu trabalho.
 
 
(**) nesse texto foi mantida a ortografia original.
 

Mano Lima é jornalista, editor da revista Capoeira em Evidência e autor das obras “Dicionário de Capoeira” e “Gibi da Capoeira”
 

 
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