11 Set 2006

Portugal: O negócio da escravatura ontem e hoje

Aconteceu no último dia 23 de Agosto, em Portugal, uma conferência onde foi abordado o tráfego de escravos. O evento comemora o Dia

11 Set 2006

Aconteceu no último dia 23 de Agosto, em Portugal, uma conferência onde foi abordado o tráfego de escravos. O evento comemora o Dia Internacional de Recordação do Tráfego de Escravos e da sua Abolição,  e ao mesmo tempo faz lembrar a triste mancha deste processo.

Participaram diversas autoridades e historiadores assim como também capoeiristas que apresentaram a nossa "Dança-Arte-Luta" que tem as suas mais antigas raízes dentro deste contexto do processo escravista…

Luciano MIlani


Decorreu na Sala da Lareira da Vila Beatriz, no passado dia 23 de Agosto, uma conferência, seguida de um workshop de capoeira, para comemorar o Dia Internacional de Recordação do Tráfego de Escravos e da sua Abolição. A jornada, subordinada ao título “Escravatura – Histórias do Passado. 
 

Realidades do Presente”, contou com a participação de Joana Morais e Castro, responsável, na área jurídica, do Centro Nacional de Apoio ao Imigrante (CNAI), que abordou várias das facetas que compõem a realidade actual do tráfico de pessoas, e de Diogo Pinho, jovem capoeirista da Associação Capoeira Lagoa da Saudade II, que antes da exibição da sua escola nos jardins da Vila Beatriz, com que encerrou a jornada, falou das origens da capoeira, das suas virtualidades e da sua realidade actual.

LC

Eunice Neves, da Agência para a Vida Local da Câmara Municipal de Valongo, abriu a jornada, para assinalar quer a importância da data e a permanência do tráfico de pessoas, quer para agradecer a presença dos dois convidados e o programa que se seguiria às suas intervenções, quer para apresentar a própria agência e dar notícia do recebimento do Prémio Agostinho Roseta (ver notícia na página 9). Saudou, finalmente, a presença de Artur Pais e Antonino Leite, presidentes da Junta e Assembleia de Freguesia de Ermesinde.

O actual tráfico de escravos:
mão-de-obra, mulheres e crianças

Coube então a vez a Joana Morais e Castro esclarecer um pouco sobre as actuais vertentes do tráfico de pessoas – mão-de-obra, mulheres e crianças, cujas práticas são, em grande parte, similares às da escravatura clássica. Para o seu combate, sobretudo no tráfico de mão-de-obra e mesmo de mulheres, a técnica do CNAI aconselhava a criminalização dos tráficos, as concessões de residência, o reforço dos controlos de entrada, a protecção às vítimas, e campanhas de informação na origem.
Como factores potenciadores do tráfico de mão-de–obra (e de mulheres) apontou, entre outros, a globalização económica, a melhoria das telecomunicações, a falta de recursos dos povos.
Colocadas em situações em que, muitas vezes, dependem directamente para a sua sobrevivência, dos próprios traficantes, as pessoas não reconhecem facilmente serem vítimas, o que dificulta o combate ao tráfico.
Aliás, nos casos de exploração sexual, seria frequente que pessoas de relacionamento próximo das vítimas fossem agentes activos da exploração.
Joana Morais e Castro esclareceu também que nos fenómenos actuais do tráfico de pessoas, agora de natureza ilegal – ao contrário do que foi no passado –, era frequente os grupos criminosos possuírem estruturas hierarquizadas e infiltradas, indo esta infiltração até às forças policiais, à magistratura e ao poder político.
Quanto ao tráfico de crianças, a técnica do CNAI referiu que uma estimativa recente da OIT (de 2003) apontava para 1,2 milhões o número de crianças vítimas anualmente.
Ainda quanto ao tráfico de pessoas, a jurista avisou, também, que não se devia confundir aquele com imigração ilegal, que eram realidades de natureza diferente.
A uma pergunta do público sobre a real actividade do Estado no combate ao tráfico, a técnica respondeu que, por exemplo, quando decretadas, não há dinheiro para concretizar as expulsões. Ao mesmo tempo, os actuais centros de acolhimento são prisões e não verdadeiros centros de acolhimento.
 
As origens da capoeira

Seguiu-se a intervenção de Domingos Pinho, da Associação de Capoeira Lagoa da Saudade II (o II deriva do facto de estar instalada em Portugal, enquanto a sua inspiradora permanece no Brasil).
Domingos Pinho identificou a origem da capoeira na resistência negra.
Tendo o tráfico negreiro assumido enormes proporções pelas necessidades dos engenhos de açúcar e outras indústrias – de extracção e cultura intensiva – os escravos, que eram trazidos nos porões dos navios nas condições mais degradantes – cerca de 60% perdia-se nas viagens, precisou Domingos Pinho – vinham, muitas vezes de zonas diferentes, não conhecendos muitos deles as línguas uns dos outros.
Assim, não só adoptaram a língua do traficante, como também desenvolveram uma forte linguagem corporal de origem africana, expressa na luta e na dança (que muitas vezes era estilização da luta para passar despercebida).
A capoeira ter-se-á desenvolvido sobretudo nos quilombos – comunidades de escravos fugidos, que se organizavam socialmente formando aldeamentos rebeldes, alguns de grande dimensão.
A abolição da escravatura em 13 de Maio de 1888, nos últimos anos do Império progressista brasileiro e a proibição da capoeira, a 11 de Outubro de 1890, por Deodoro da Fonseca, no primeiro ano da República reaccionária, marcaram a sua história. A capoeira foi proscrita em Recife, Rio de Janeiro, Bahia, dando aí origens a expressões musicais distintas.
O reconhecimento veio mais tarde, já no século XX, com a escola de Mestre Bimba a ser reconhecida oficialmente. Getúlio Vargas reconheceu a capoeira como o único desporto verdadeiramente brasileiro. Esta corrente, iniciada por Mestre Bimba é a chamada Regional, na qual se insere a Lagoa da Saudade.
Esta não é, todavia, a única expressão da capoeira, distinguindo-se também a corrente de Mestre Pastinha, dita Angola, mais tradicionalista ou pura, pondo a tónica não na arte marcial, mas na expressão cultural.

 

O quilombo de Palmares

O quilombo de Palmares terá sido, provavelmente, o maior quilombo alguma vez criado no Brasil. Têm-se a propósito dele os primeiros registos, em 1580, a propósito de vários acampamentos de escravos fugidos para a serra da Barriga, zona de difícil acesso. Mas o quilombo – estes acampamentos devem entretanto ter-se unido – iria crescer exponencialmente com as lutas pelo controlo comercial entre as grandes potências europeias da época.
A luta da União Ibérica contra os holandeses (Portugal estava então sob domínio dos Filipes) levou a que se desse a alforria a muitos escravos que, ao invés de irem lutar contra os holandeses fugiram para se juntar ao quilombo de Palmares. O quilombo estruturou-se, cresceu e viria a sobreviver por mais de um século, derrotando repetidamente o exército português – o seu líder, o rei Zumbi, foi morto numa emboscada em 1695 .
O grande escritor, ligado ao movimento surrealista francês Benjamin Péret é autor de um livro, “O Quilombo de Palmares”, ed. Fenda), em que se explica a grande importância desta nação negra rebelde. O historiador autodidacta Edgar Rodrigues, um dos maiores especialistas da história dos movimentos sociais e operários do Brasil e Portugal, coloca o Quilombo de Palmares como um dos momentos mais altos da história utópica da humanidade.
O facto de não existir um poder hierárquico de facto, pese embora o prestígio de Zumbi na época mais avançada do quilombo, remetia a estrutura do poder para uma expressão mais circular, o que evoca a criação da roda na capoeira, onde todos os participantes são iguais, não se distinguindo – inclusive homens e mulheres – na sua participação. É uma pista para o surgimento da roda na capoeira. LC
 
 

Fonte: Jornal Regional
http://www.jornalregional.com

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