“Diário de Bordo”: “Casal Aventura” descobre a capoeira em Santiago
14 Ago 2007

“Diário de Bordo”: “Casal Aventura” descobre a capoeira em Santiago

Maira Hora, uma de nossas colaboradoras, responsável pela editoria “CAPOEIRA MULHERES”, nos enche de orgulho ao fazer parte do projeto "Diário de

14 Ago 2007
Maira Hora, uma de nossas colaboradoras, responsável pela editoria "CAPOEIRA MULHERES", nos enche de orgulho ao fazer parte do projeto "Diário de Bordo" (Casal Aventura – Expedição Cone Sul).

De Santiago, Maira, que em breve estará voltando para as rodas de capoeira, nos escreve e nos conta sobre a matéria que está prestes a sair na Folha, um conceituado Jornal de São Paulo.

Confira a matéria do Casal Aventura:

 
O casal Flávio Prado e Maira Hora descobre a capoeira em Santiago. O relato faz parte da Expedição Cone Sul. Os dois vão conhecer as paisagens mais deslumbrantes da região, contando tudo para a Folha Online. A viagem começou em São Paulo e prevê passagens por cidades do sul do país, Argentina e Chile.
 
Confira o relato do quadragésimo sexto dia (15 de abril) da aventura:
 
Acordamos já com a missão de recebermos a família Clivati-Mora para um café da manhã no Hotel Panamericano. Assim que chegam nos encontramos no salão do café no hotel Panamericano e Leonor enlouquece com a mesa de frutas, por incrível que pareça esta é uma criança que gosta de frutas. Logo vai escolhendo o que quer e quais os sucos deseja, porque é claro que ela quer mais que um suco.
 
Joana, que está gravidíssima, curte cada pão, bolos, bolinhos, bolões, ou seja, é fartura total. Leonor, satisfeita e como qualquer criança em sua idade resolve explorar o local e logo descobre um aquário gigantesco com peixes exóticos indo de ponta a ponta. Ela delirava, corria, ria, contava o que tinha visto e logo voltava ao aquário para ver se algo tinha mudado, retornava emocionadíssima e falando tudo ao mesmo tempo e assim foi por todo o café que até parecia um "brunch", de tanto que demoramos.
 
Atravessamos um curto pedaço do Centro indo até o Centro Cultural Palácio de La Moneda, abaixo do próprio palácio onde também está a Fundação de Artesanato do Chile, infelizmente o casal ainda não conhecia por levar uma agitada vida de designers gráficos internacionais, o que lhes deixa pouco tempo para o lazer, mas enfim, como nós recomendamos tanto eles não resistiram e tiraram um dia de folga.
 
Leonor fica intrigada com tudo novo aos seus olhos, a arquitetura, a água descendo pela parede da escadaria, a porta de vidro e a escultura em frente, que olha curiosa, tentando entender do que se trata.
 
Assim que passamos a porta de vidro, Leo ganha a imensidão do Centro Cultural. Não sabe para onde corre e pede colo para observar do alto esta concreta arquitetura.
 
Logo entramos para ver a exposição da Fundação de Artesanias de Chile. Joa se envolve com as peças à venda. Flávio e Marcelo se ocupam com o mapa gigantesco e Flávio vai apontando todos os lugares por onde passamos até agora. Leonor me olha inquieta e indagativa sobre absolutamente todas as peças expostas. Lá vou eu com todo o prazer do mundo mostrar cada centímetro do salão com suas diversas vitrines.
 
Seus olhos brilham e ela vai de vitrine em vitrine perguntando o máximo que pode até chegar à vitrine de jóias Mapuches e me pergunta o que é. Eu a levanto e logo digo são jóias Mapuches. Leo, incrédula me responde: "- No, no, Papuche!" Foi hilário, porque Papuche é como ela chama seu pai, Marcelo Clivati Prado. É claro que não houve uma só pessoa em toda a exposição que a convencesse de que eram jóias Mapuches e não Papuches.
 
Paramos em frente a uma TV de LCD gigante e a mesma mostrava um apanhado do artesanato chileno e suas mais diversas regiões. Não é que a danadinha percebe se tratar de uma correlação de um país dividido em diversas regiões, no caso, do Chile, país onde esta pequenina catalã de dois aninhos está morando agora e logo me fala a seguinte frase: "A Tia Paula, o Vovô Ayrthon e a Vovó Antonieta moram em um outro país, chama Brasil".
 
Eu quase caí de costas, mas logo respondi que sim, o nome do país onde eles moram é Brasil. Nós adultos achamos que as crianças, especialmente as menores, não sabem muito e precisam de muitas explicações, mas na verdade tudo é bem diferente dos nossos "achismos". Gente me diz uma coisa, não é para agarrar esta pessoa e beijar até não agüentar mais?
 
Joana faz suas compras, Flávio e Marcelo conversam e eu e Leonor nos divertimos explorando mais este moderno edifício.
 
Saímos do Palácio de La Moneda, demos uma passadinha no hotel e daí fomos direto para a casa de Lillian, deixamos Leonor e Joana.
 

Capoeira

Flávio, eu e Marcelo seguimos a um restaurante no Shopping Las Condes e depois fomos passear na Plaza Itália para conhecer o Café Literário. Não é que quase em frente ao café vejo algo muito conhecido dos brasileiros? Capoeira.

 
Estamos despretensiosamente andando pela grama e de longe vejo um grupo de pessoas uniformizadas jogando capoeira. Pirei. Sou apaixonada por capoeira e durante alguns anos joguei esta dança, arte e esporte tão complexo e tão brasileiro. Minha brasilidade me puxou para perto do treino, realizado ali mesmo, em frente ao Café Literário.
 
Fomos conhecer aqueles jovens, que tão longe do Brasil faziam as pessoas pararem em volta para admirar seus atrevidos movimentos como se tivessem asas. Era inacreditável o quanto estes meninos saltavam e se movimentavam rápido. Uma armada para cá, uma meia lua para lá e só para mostrar que brasileiro tem ginga a rasteira passa perto, mas quem tem manha sabe cair com classe e levantar no contra golpe.
 
É impressionante como junta gente em volta para entender do se trata.
 
Assim que enxerguei uma oportunidade fomos nos apresentar e logo descubro que o brasileiro responsável por divulgar um pouco da nossa cultura é um contra-mestre, residente em Santiago, M. Muniz Gama, conhecido como contra-mestre Badogue no Grupo Raça, dos mestres Medicina e Magrelo.
 
Flávio Prado/Folha ImagemBadogue, este baiano de Itabuna, está em Santiago há quase dez anos. Desde 2000 dá aulas de capoeira e cultura afro-brasileira em duas universidades de Santiago, a Universidade Alberto Hurtado e a Universidade USACH e também no Centro de Estudos Brasileiros fazendo um trabalho sócio educativo pioneiro no Chile com crianças e mulheres e no departamento da infância e adolescência de Santiago.
 
Ainda na Bahia, Badogue desenvolvia uma parceria com o Governo, a Unicef e algumas empresas que recebiam suas apresentações de capoeira em troca de um convênio que possibilitava estágios aos adolescentes que praticavam capoeira com este atleta.
 
A inserção da capoeira na vida de alguns chilenos trouxe uma verdadeira revolução. Um destes exemplos transformadores é personificado em Sony, aluno mais antigo de Badogue, que por ter se dedicado à capoeira hoje colhe seus bons frutos sendo chamado para diversos comerciais, como por exemplo, de água mineral, achocolatados e já fez até um filme de artes marciais, é dublê de seriado de TV e faz parte da primeira companhia de dublês da América do Sul.
 
Flávio Prado/Folha ImagemMas o mais encantador de tudo isto é ver gente de outros países cantando em português casos e acontecimentos da cultura afro-brasileira. Nas palmas e vozes de alguns de seus alunos Açúcar, Gorila, Pacheco e Sony, sentimos a presença de um aplicado e dedicado filho do Brasil. Badogue, parabéns pelo trabalho desenvolvido, levando nossa cultura além de nossas terras. Ficamos emocionados, mesmo, com a curiosidade do chileno em relação à nossa cultura e é bom saber que gente competente faz um bom trabalho divulgando nossa história através dos fundamentos da capoeira.
 

Saímos da Plaza Itália direto para o bairro de Nuñoa, vamos agora para a casa de Lillian Mora à tempo de um chá e mais conversa divertida com a família Mora. Hoje Renato Mora, um engenheiro aposentado nos abre seu atelier de marcenaria e pintura. Observamos tudo muito cuidadosamente e eis que em seus quadros reconheço forte influência de Giorgio De Chirico. Identifiquei-me totalmente, pois durante a faculdade de Desenho Industrial lembro que este era o meu pintor predileto, eu vivinha reproduzindo seus quadros de cenários arquitetônicos solitários e enigmáticos. Ficamos conversando e discutindo suas obras noite adentro.

Flávio Prado/Folha ImagemMaira e Flávio têm o apoio da Lenovo, da TIM Roaming Internacional e da Virtual Track.

Acompanhe a Expedição Cone Sul dia a dia: http://www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2007/diariodebordo/cone_sul-calendario.shtml

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