Uberlândia – Capoeira: Arte – Esporte – Dança
17 Set 2007

Uberlândia – Capoeira: Arte – Esporte – Dança

Crianças e adolescentes defendem a capoeira como um esporte que, além de saúde, traz muitos conhecimentos culturais    Ele tem apenas 8

17 Set 2007

Crianças e adolescentes defendem a capoeira como um esporte que, além de saúde, traz muitos conhecimentos culturais 
 
Ele tem apenas 8 anos, faz a 2ª série e freqüenta assiduamente as rodas de capoeira. Mateus Rodrigues Gonzaga iniciou a prática do esporte neste ano e já se descreve como um apaixonado pela arte. Espera um dia se tornar ?mestre?.

Mateus pertence a uma turma de centenas de crianças e adolescentes beneficiadas pelo trabalho voluntário de Geilson da Silva, monitor Simbad, que oferece aulas de capoeira gratuitamente a qualquer interessado nas escolas municipais Gladsen Guerra, no bairro Canaã, e Professor Leôncio do Carmo Chaves, no bairro Planalto.

Simbad, como prefere ser chamado, explicou que enfrenta grandes dificuldades para realizar seu projeto. No entanto, as recompensas valem o sacrifício. Ele contou que começou na capoeira quando tinha 12 anos e também teve a oportunidade na escola. Por isso ele faz questão de transmitir seus conhecimentos nestes espaços. O monitor ressaltou que até agora obteve total apoio das direções das instituições para colocar seu projeto em prática. Ele conseguiu autorização para ministrar suas aulas e abre a oportunidade para qualquer interessado, seja este aluno da escola ou não. É o caso de Rayldo Rodrigues Silva, de 13 anos. Ele faz a 5ª série na Escola Estadual Teotônio Vilela e freqüenta as aulas de capoeira na EM Professor Leôncio do Carmo Chaves.

Os alunos de Simbad foram unânimes ao falar da oportunidade, todos consideram esse aprendizado muito positivo. "Não tenho palavras para descrever o quanto foi bom participar deste projeto. Aprendi muita coisa da nossa cultura, a capoeira está presente na história do Brasil, já sei tocar berimbau, pandeiro, atabaque e agogô e isso sem falar na saúde, que melhorou", resumiu Thiago Antônio Pereira Bernardes, 14 anos, que é aluno de Simbad desde o ano passado.

O garoto garantiu que não há o que ele não goste na capoeira e foi apoiado pelos colegas. Já Mateus Gonzaga, ou Sombrinha, afirmou que o melhor nas aulas é treinar os saltos. "Eu gosto muito de saltar", disse.

Identificação de capoeirista

Você sabia que ao ingressar em um grupo de capoeira as pessoas recebem apelidos que se tornam suas identificações? É isso mesmo. Percebeu que Geilson é Simbad, Mateus é Sombrinha? Aliás, o pequeno lembrou que sua real identificação é Sombra. Os colegas o chamam de Sombrinha porque ele é o menor da turma, mas quando crescer será simplesmente o Sombra; e ele não vê a hora de isso acontecer.

Essas identificações são sempre bastante inusitadas. Dener Fernandes Oliveira Souza, 14 anos, é Gnomo; Thaislene Gonçalves Ribeiro, 14, é Pitanga; Rayldo Rodrigues, 13, é Morceguinho; e, Thiago Bernardes,

14, é Pé de Pato. Na roda, eles costumam se comunicar apenas pelo nome de guerra.

Simbad explicou que essa é uma tradição que se mantém desde a época dos escravos. Para dificultar a identificação dos envolvidos, os negros utilizavam então os apelidos.

ILUSTRAÇÃO: NÚBIA MOTA Um longo caminho

A turma de capoeiristas mirins compartilha um sonho: chegar o mais longe que puderem no esporte. Todos querem se tornar ?mestres? e pretendem ainda multiplicar o trabalho começado por Geilson. Todos eles garantiram que, se puderem, no futuro também vão transmitir os conhecimentos a outras crianças. Para o monitor Simbad, essa energia e essa força de vontade perceptíveis em crianças e adolescentes constituem o combustível que o faz persistir no trabalho voluntário. Porém, o professor enfrenta sérias dificuldades. "Não conseguimos patrocínio facilmente. Para levar um atleta para participar de qualquer campeonato, o investimento sai do bolso do aluno e do professor. Aconteceu um evento em Jataí e não tive condições de levar ninguém. Essa é uma realidade que desestimula bastante essas crianças. Gostaria que fosse diferente", desabafou.

As dificuldades existem, mas os alunos não deixam o professor desistir. Estão preparando um encontro de capoeira para acontecer em dezembro aqui, em Uberlândia. Será em nível nacional. Esperam conseguir todos os recursos necessários para que ele realmente aconteça e mais, pretendem se esforçar ao máximo para a realização do sonho de se tornar mestres.

Curiosidades

Assim como em algumas artes marciais, em que a cor da faixa determina o nível de conhecimento do atleta, na capoeira há essa distinção entre as cores de cordas. E essas cores são repletas de simbolismos.

A primeira corda é a crua, representa uma criança engatinhando e significa que o atleta dá os primeiros passos na capoeira. Em seguida vem a crua/amarela, é o período de preparação para a corda apenas amarela, que simboliza o ouro. Na seqüência, a próxima corda é a amarela/laranja, que também é usada como intermediária para a corda só laranja, que simboliza o pôr-do-sol. Após a corda laranja, vem a laranja/azul. Esta é a última corda de duas cores e também a última para quem está no nível de aluno. Assim que o capoeirista conquista a corda azul, que simboliza os oceanos, ele já pode ser monitor. Em seguida vem a corda verde, que representa as florestas. A corda seguinte é a roxa, que simboliza misticismo e diz que o capoeirista pode ser instrutor. A marrom representa a terra e que o atleta é professor. A corda seguinte é a vermelha, simboliza a pedra rubi e que seu usuário é mestrando. A última corda é a branca, simboliza o diamante e que, finalmente, o capoeirista se tornou mestre.

História

 
A história da capoeira, essa expressão cultural que mistura esporte, luta, dança, cultura popular, música e brincadeira, desenvolveu-se com a história da escravidão no Brasil, uma violência sem limites contra os negros. Ela é fruto da cultura dos povos africanos e foi desenvolvida para ser uma defesa. É caracterizada por movimentos ágeis, feitos com freqüência junto ao chão ou de cabeça para baixo. Essa arte era praticada e ensinada nos engenhos da cana-de-açúcar pelos escravos que fugiam e eram novamente capturados. Para não levantar suspeitas, os movimentos da luta foram adaptados às cantorias e músicas africanas para que parecessem uma dança. A capoeira se desenvolveu, cercada de segredos, como forma de resistência. Do campo para a cidade a capoeira foi incorporando outros elementos típicos. Em Salvador, capoeiristas organizados em bandos provocavam arruaças nas festas populares e reforçavam o caráter marginal da luta. Por este motivo, durante décadas a capoeira foi proibida no Brasil. A liberação da sua prática deu-se apenas na década de 30, quando uma variação da capoeira, a chamada regional, foi apresentada ao então presidente Getúlio Vargas.

A capoeira regional foi criada por Manuel dos Reis Machado, o Bimba, que não se caracterizou, exclusivamente, como uma nova forma de jogar capoeira, mas sim pela modificação dos modos de relacionamento do esporte com a sociedade que a reprimia. Ganhou proteção jurídica, estendeu as possibilidades para a sua prática e penetrou em espaços sociais, como, por exemplo, as escolas e academias.

Hoje em dia, a capoeira está dividida nessas duas correntes: a angola, o estilo mais antigo, e a regional, cujo jogo é um pouco mais rápido, acrobático e atlético.

 

Jornal Correio – http://www.correiodeuberlandia.com.br

PRISCILLA MELO – revistinha@correiodeuberlandia.com.br – FOTOS: PRISCILLA MELO – ILUSTRAÇÃO: NÚBIA MOTA

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