Capoeira: A Fábrica de Neurotransmissores
29 Set 2009

Capoeira: A Fábrica de Neurotransmissores

Atividades prazerosas com a arte capoeira otimizam o bem estar, a alegria e o mais importante: viciam! Diversos estudos e comprovações científicas

29 Set 2009

Atividades prazerosas com a arte capoeira otimizam o bem estar, a alegria e o mais importante: viciam!

Diversos estudos e comprovações científicas (e porque não também empíricas; ou seja; baseada na prática e na vivência) em relação aos benefícios das práticas corporais e atividades físicas planejadas apontam para a necessidade de tal estilo de vida para as pessoas ou ao menos um esforço para cumprir a meta de 30 minutos de exercícios ininterruptos 03 ou 04 vezes por semana. Ainda neste sentido, a OMS (Organização Mundial da Saúde) preconiza que para a pessoa não se caracterizar sedentária, ela deve dar no mínimo 10.000 passos diários. Então, adquira um pedômetro (aparelho que monitora distância e passos) e veja se consegue atingir tal marca. Imaginando o estilo de vida das pessoas atualmente, em principal nas grandes metrópoles, esta resposta nem precisaria de aferição. Seria NÃO. Levando-se em consideração as tecnologias advindas do capitalismo (Karl Marx já previa isto há tempos) e a escassez de tempo das pessoas.

Estranho é que mesmo com tanto incentivo e informação, um número significativo de pessoas, ou seja, uma parcela enorme da sociedade, ainda não se deu conta da tamanha necessidade de em se realizar atividades físicas planejadas e levão um padrão de vida parcialmente ou totalmente sedentário. Parcial, pois existem os “boleiros por uma noite” que justificam o seu sedentarismo relatando jogar aquele futebol uma vez por semana com os colegas. Dois tempos de 20 minutos, a maior parte do tempo fatigado (cansado) e ainda correndo um risco enorme de uma lesão muscular ou ainda de uma parada cardíaca súbita (o que não é raro de se ver nas famosas quadras society espalhadas pelo mundo) e depois do jogo muita carne vermelha, álcool e cigarro. Será que isto não é ser sedentário? E os totalmente imóveis, que até para comer não saem do carro. Preferem as longas filas onde se pede a “refeição” (no geral lanches e refrigerantes) e come-se ali mesmo olhando o pára-brisa do automóvel. Estes possuem uma rotina diária que alterna carro, elevador, mesa, computador, elevador, carro, sofá e cama. Leia novamente com calma: carro, elevador, mesa, computador, elevador, carro, sofá e cama e agora pense se não funciona assim mesmo! E no dia seguinte a mesma rotina e os mesmos problemas causados pelo stress da vida agitada, má alimentação, hipocinética (ausência de movimentos) e escassez de lazer e recreação.

Vamos ser realistas aqui, certamente que houve um aumento de praticantes regulares de atividades físicas planejadas e periódicas. Hoje, os parques e as praças estão sendo mais freqüentadas, as academias ganham a cada dia mais adeptos, as praias estão repletas de pessoas realizando algum tipo de exercício físico e mesmo as ruas estão sendo usadas e adaptadas para práticas corporais como caminhadas, corridas, ciclismo ou qualquer outra prática que movimente o corpo. Mas se fossemos dimensionar isto, certamente a parcela de acomodados e sedentários seria muito, mas muito maior em ralação aos ativos.

Todos nós sabemos que o tempo hoje em dia é um vilão para muitas pessoas. Jornadas incansáveis de trabalho, o trânsito das grandes metrópoles, as responsabilidades financeiras e sociais e o apego fiel a moderna “caixinha” ou “caixona” que liga o cidadão ao mundo; a TV. E agora outro sonho de consumo que está cada dia menor (em tamanho) e maior (em vendas); os PC´s; sedutores e altamente envolventes!

Incrível como se ouve por ai as mil e uma desculpas para não se iniciar um programa de exercícios ou até mesmo um encontro com amigos para uma simples caminhada.                 Prorroga-se ao máximo aquela matricula na academia, o compromisso de estar três ou quatro vezes por semana no parque para caminhar e quando se vai empurrando isto literalmente com a barriga, que certamente a esta altura já deve estar bem grande, espera-se o primeiro dia do ano para dizer: a partir do ano que vêm em janeiro, começarei a me cuidar. E de janeiro passa para fevereiro e daí para março e por ai vai até aguardar pelo próximo ano. Certamente, estas pessoas ainda não sentiram na pele (e na mente) a agradável sensação de bem estar, conforto e alegria proporcionados por uma boa aula de caráter aeróbio ou uma sessão de trabalhos com pesos.

Pós-exercício, o corpo tende a liberar diversos neurotransmissores que ativam a produção de hormônios destacando entre esses a beta endorfina, a serotonina, a noradrenalina e a dopamina que proporcionam diversas sensações ligadas ao prazer, alegria e bem estar corporal. É comum também, em conseqüência ao programa de exercícios realizados, a melhora do descansar, do repouso e do sono. O corpo busca por um equilíbrio maior, regulando diversas funções enquanto nos encontramos em estado de metabolismo basal, ou seja, em sono profundo.

Outro fator importante que observamos quando se adere às práticas de exercícios físicos dirigidos é a atenção voltada para a alimentação. A pessoa passa a se preocupar mais em se alimentar de maneira adequada eliminado alguns exageros e prestando a atenção ao que ingere pré treino, pós treino e também no decorrer do dia. Só não se pode neste momento achar que após uma sessão de exercícios, pode-se ingerir aquele pedaço recheado de bolo ou aquele lanche com muitas calorias só porque acabou de malhar. Mero engano. Se a pessoa gastou 500 calorias em sua sessão de exercícios e logo após ingere 700 ou 800 calorias entra em saldo positivo. Positivo! Que bom não é? Não! Saldo positivo de calorias; e conseqüentemente de tecido adiposo, ou seja: gordura visceral e também subcutânea. Se ingerir mais calorias do que se gasta, é esta a conseqüência: aumento na balança. Mas não de massa muscular magra, mas sim de gordura; a vilã. Mas será que é mesmo tão vilã assim?

Certamente não, a gordura tem função primordial no organismo. Além de fornecer energia (calorias/combustível) para as práticas rotineiras, ela também tem função termo regulatória e de transporte de nutrientes em especial de vitaminas. Desempenha também papel primordial quanto à produção hormonal e todos os seres humanos dependem dela sim. Só que de maneira balanceada. Ao contrário, ela pode se transformar em sobrepeso ou ainda obesidade mórbida o que não é raro de se ver hoje em dia. Aliás, é bem comum. São as pessoas que já encontram dificuldade de mobilidade/locomoção e os órgãos internos já se encontram com o funcionamento prejudicado em decorrência de tanta gordura corporal (visceral e subcutânea). Aí que entram as famosas cirurgias para redução estomacal, lipoaspirações e demais técnicas incisivas de controle de peso. Em muitos destes casos a questão está ligada com problemas de produção hormonal e fogem um pouco do controle das próprias pessoas. Eu disse um pouco porque muitos demoram a fazer um diagnóstico médico e assim estabilizar esta questão com medicações específicas, a realização de uma dieta balanceada sem excessos e o início a um programa de exercícios dirigidos.

Trabalhar com práticas corporais com esta população (obesos/obesos mórbidos) requer muito conhecimento, em razão da falta de condicionamento físico, a dificuldade de mobilidade, a debilidade de certos órgãos vitais e a sobrecarga nas articulações, tendões e ossos ocasionada pelo grande volume de massa corporal. Qualquer erro na prescrição de exercícios pode levar a lesões e assim prejudicar ainda mais o paciente/aluno. O certo é que esteja bem ou mal diante da balança, não se pode vacilar.

O lance é realizar um “auto-investimento” e aderir o mais rápido possível á um programa de exercícios físicos. Leia novamente. Um programa de exercícios físicos, planejado e periódico e não qualquer atividade física única, solta e solitária. Algo que conte com certo planejamento realizado por um profissional da área médica que tenha continuidade. Falaremos desta tal “continuidade” à frente!

Este investimento certamente trará inúmeros retornos positivos como bem-estar e também a sobrevida. Quem não quer ganhar alguns anos a mais hein?

Uma dificuldade que as pessoas geralmente encontram ao começar um plano de exercícios é a falta de vontade em realizar este programa. Certamente, se a pessoa vai forçada, ela irá desistir. Se não sente prazer em levantar pesos, irá parar. Se não gosta de esteiras e bicicletas ergométricas, também irá parar. Se não curte as aulas de caráter aeróbio incrementadas com ritmos alucinantes, não seguirá. Veja, são inúmeras opções e cabe a pessoa encontrar o que gosta e o que sente prazer em realizar. Se não gosta de pesos, encontre alternativa trabalhando com o próprio peso do corpo. Se não gosta de correr em esteiras, procure um local ao ar livre como opção.

A este ponto o leitor deve estar se perguntando: O que este texto faz em um site específico de capoeira. Resposta: esta modalidade é uma fantástica opção para as pessoas que encontram dificuldade em dar seqüência a um plano de exercícios (a tal continuidade). A capoeira envolve ludicidade com esporte, ritmo com malhação e o mais importante: é periódica; tem seqüência. Os treinos ocorrem três ou quatro vezes por semana com duração de uma hora á uma hora e meia (para os menos empolgados) e traz consigo aquela disciplina que as pessoas na verdade querem de um programa de exercícios. Vejo pessoas que furavam treinos em sala de musculação semanalmente e que após iniciarem as aulas de capoeira mudaram radicalmente de conduta, com poucas faltas e maior compromisso de presença nas aulas. Lógico que isto não funciona a todos. Nem caberiam todos em nossas salas de treino Há pessoas que preferem trabalhos de musculação, outras lutas, outras aulas predominantemente aeróbias com acompanhamento musical. Mas o segredo é encontrar algo que a pessoa goste; que sinta falta e que tenha continuidade. A continuidade e o prazer na realização é fundamental para um programa de exercícios entrarem no hábito da pessoa. Se a desistência ocorrer logo nas primeiras sessões, certamente esta pessoa terá dificuldade em tentar novamente.

Atualmente, já presenciamos que alguns métodos de treinamento, em especial, ginásticas ritmadas com coreografias, se baseiam em alguns movimentos das lutas para comporem um sistema de exercícios aeróbios de alta intensidade. Com a capoeira não foi diferente. Seus movimentos, em especial os mais básicos, como a ginga e algumas variações de chutes e esquivas mais simples já estão sendo utilizadas em programas de aulas padronizados por empresas de fitness. O que pode mobilizar o praticante a buscar mais afundo os exercícios e movimentos da arte capoeira por uma questão lógica de curiosidade, encanto ou porque simplesmente funciona bem no processo de supercompensação (adaptação do organismo aos treinos).

Para os “capoeiras” mais tradicionais, ver alguns de nossos movimentos inclusos em  aulas que  nada tem a ver com um curso de capoeira é extremamente perturbador. Sinceramente não vejo problemas, pois isto de certa maneira divulga a nossa arte e pode despertar o interesse das pessoas para praticar a modalidade na sua íntegra com todos os fundamentos e tradições que encantam e envolvem as aulas de capoeira. Quem não viveu muitos anos envolvido com a capoeira e não esteve ali dentro no círculo mágico (na roda) nunca conseguirá conduzir uma aula rica e fundamentada. Então estes métodos de ginástica geral ajudam o nosso “marketing”.

Voltando aos treinos e seqüências nos treinamentos, se há disposição e certo tempo hábil, o ideal seria mesclar algumas modalidades para se obter uma resposta mais efetiva ainda. Uma ótima combinação; planejada e dividida ao longo da semana envolveria, por exemplo, trabalhos com pesos na sala de musculação, aulas periódicas de capoeira e trabalhos de natação e hidroginástica na piscina. Tudo isto voltado para cada indivíduo com treinamentos divididos e separados para não haver sobrecarga no trabalho corporal. Esta “meia verdade” de que “quanto mais melhor” nas práticas do corpo pode levar o indivíduo a exaustão com aulas de longa duração, excessos de pesos, distúrbios psicológicos como a vontade de realizar diversas modalidades no mesmo dia e tudo ao mesmo tempo (pasmem; há pessoas que passam incríveis 04 horas dentro de uma academia por dia!), o que atrapalha em muito a resposta dos exercícios ocorrendo efeito inverso em relação aos benefícios que as práticas corporais podem proporcionar. É onde entra a opinião do profissional para orientar e auxiliar o indivíduo a achar algo prazeroso e contundente para a sua saúde. E com todo este movimento pró-exercícios e qualidade de vida, a capoeira tem lugar em destaque. Basta o profissional que lida com esta modalidade atentar para os seus benefícios e oportunizá-la afinal capoeira meu camarada é tudo que a boca come! Salve.

Ricardo Augusto da Costa – Beija-Flor

Jornalista, Professor de Educação Física e Colunista do Portal Capoeira

Blog: bfcapoeira.vilabol.com.br

e-mail: beijaflor@portalcapoeira.com

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