Capoeira & Frevo, Savate e Mestre Artur Emídio
28 Mar 2007

Capoeira & Frevo, Savate e Mestre Artur Emídio

Tenho três crônicas prontas – (1) Capoeira de Pernambuco, (2) Capoeira e Savate e (3) Capoeiragem no Rio de Janeiro, no Brasil

28 Mar 2007
Tenho três crônicas prontas – (1) Capoeira de Pernambuco, (2) Capoeira e Savate e (3) Capoeiragem no Rio de Janeiro, no Brasil e no Mundo (quarta edição). Mas, como diria Mestre Camões – “Cesse tudo o que a Musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta” – pois estamos no mês de aniversário do grande Mestre Artur Emídio de Oliveira.
Entendam a citação de Lusíadas como homenagem aos capoeiras de Portugal, nas pessoas dos Mestres Umoi e Milani, dois grandes batalhadores, “cada qual no seu cada qual”.
 
Para mais uma vez homenagear Seu Artur utilizo o espaço deste mês transcrevendo velha e sempre renovada crônica que sobre ele escrevi, publicada inicialmente no meu livro “A Volta do Mundo da Capoeira” e já transcrita em várias revistas e sites.
 
Antes, porém, preparando os leitores para as próximas crônicas, um pequeno resumo dos temas acima selecionados, até mesmo para justificar o título da matéria de hoje.
Capoeira & Frevo
 
O Jornal do Commercio, de Pernambuco, na edição de 15 de março de 2007, publica extraordinário artigo de Leonardo Dantas Silva – Capoeira & frevo. Mas uma irrefutável prova de que, também sem a brava capoeira de Pernambuco, não será possível escrever a verdadeira História da Capoeiragem no Brasil.
Tema de um dos nossos próximos artigos.
 
Savate
 
João Cláudio, filho mineiro de João Fontes, velho capoeira, líder comunitário aqui no Leblon, em muito boa hora, recebo excelente artigo sobre o assunto: “Savate, em linguagem popular (França) significa “sapato” ou “bota”. Era o termo usado, sobretudo pelos parisienses vadios, lutadores de rua a que usavam, agressivamente, todas as partes do corpo como armas – cotovelos, joelhos, cabeça, punhos e, sobretudo, os pés. Golpes que eram desferidos com violência e perícia, sempre direcionados aos pontos vitais do(s) oponente (s)”. Não consegui ainda saber a fonte, o nome da revista, pesquisarei.
 
Coincidentemente, também da França, Mestre Camaleão (parabéns pela Mademoiselle Yara!) envia excelente trabalho de pesquisa sobre o Chausson. Segundo alguns pesquisadores, o Chausson era praticado, em Marselha, pelos marinheiros. Mesmo em viagem, para tanto, muitas vezes, por causa do balanço do navio, usavam o recurso de lutar apenas com
os pés utilizando as mãos para garantir o equilíbrio junto a algum ponto seguro do convés.
 
Colocações que merecem boas pesquisas, muito embora, na instigante foto que ora publicamos (Joseph Charlemont,1899), as mãos fazem também parte da luta.
 
Cordel, Quarta Edição
 
Como defende a Dra. Arly Silva e Lisboa, de modo sempre inteligente e simpático, “não se trata mais de um cordel, mas de algum outro tipo de literatura, que inclui um pequeno ensaio sobre o mote escolhido”.
 
Maneira amiga, certamente, de dizer que abusei das Apresentações, quase tão extensas quanto o resto do cordel. Mas se fazia necessário um esclarecimento definitivo para acabar com discussões inúteis e propor reflexões e caminhos mais condizentes com esse “lamentável, mas inexorável processo de institucionalização da Arte-Afro-Brasileira da Capoeiragem”. Concentrei o foco em dois pontos de vital importância: Luta de Capoeira & Fator Negritude.
 
Fui obrigado, também, a mudar a capa, já que as demais, como parece ser rotina e mau hábito de alguns, já foram plagiadas, também.
 
A quarta Edição será lançada no fim deste mês, justamente com o meu primeiro romance (já registrado) “Marraio Ferido Sô Rei”.
 
 
Com vocês, o prato principal, meus parabéns e agradecimentos ao meu bom amigo Mestre Artur Emídio de Oliveira pelo extraordinário serviço que vem prestando à nossa Capoeiragem.
 
A CAPOEIRA DO MESTRE ARTUR
– uma justa homenagem – (*)
 
Não fosse banalizar ainda mais assunto já bastante banalizado, eu advogaria um plebiscito (**), também, para a extraordinária Capoeira do Mestre Artur Emídio de Oliveira. Só para esclarecer, afinal, o seu verdadeiro “sobrenome”. Seria “capoeira tradicional”, “capoeira utilitária”, “capoeira de rua”, “capoeira de Itabuna”, capoeira baiana”, “capoeira angola”, capoeira regional”, capoeira angonal”, “capoeira regionola”? Que sobrenome, afinal, terá a extraordinária capoeira que Mestre Artur jogou e tão bem ensinou?
A resposta é extremamente fácil, pois a espetacular capoeira de Artur não tem sobrenome algum, é pura e simplesmente… CAPOEIRA!
 
Bem que muitos mestres tentaram lhe comprar o passe, mas Artur não aceitou inventar um passado diferente do verdadeiro. No que fez muito bem, um belo e raro exemplo.
 
SavateVamos a sua história.
 
Artur nasceu e passou sua juventude em Itabuna, no sul da Bahia, onde completou o curso
ginasial no Colégio Divina Providência e fez o serviço militar no Tiro de Guerra local. Filho de Emídio Lindolfo de Oliveira e Leocádia Maria de Oliveira, Artur veio para o Rio em l953. Trazendo consigo totalmente pronta para ser usada sua fascinante (e surpreendente) capoeira que começou a aprender com sete anos de idade, na sua cidade natal, com “Paisinho” (Teodoro
Ramos), seu único mestre.
No Rio formou excelentes mestres e, durante muito tempo, sua academia funcionou como uma
espécie de “quartel general” da capoeira praticada ao som do berimbau. Visita obrigatória para todo e qualquer capoeira ou estudioso interessado em ver
uma Roda de capoeira exemplar. Com todo respeito ao Mestre Artur, método de ensino utilizado por cada mestre, inclusive pelos velhos mestres de angola e, por razões óbvias, o método da Capoeira Utilitária (Sinhozinho!), Artur tinha um dos melhores métodos de ensino para ensinar os segredos da capoeiragem.
 
A velha guarda da capoeira, no Rio de Janeiro e na Bahia, sabe muito bem que Artur foi um dos maiores talentos de todos os tempos. Fez pela capoeira o que, até hoje, todos nós, reunidos, ainda não fizemos. Bira Acordeom, corajosamente, registrou, em seu livro (Capoeira, a Brazilian Art Form”, pág. 49. North Atlantic Books) o extraordinário talento de Artur: “Em 1963, passei algumas semanas no Rio de Janeiro onde conheci Artur Emídio, um baiano de Itabuna. Fiquei impressionado com sua velocidade e com sua técnica. Aprendi com ele algumas …”.
 
Com o guerreiro e saudoso mestre Djalma Bandeira, Artur Emídio deu, décadas atrás, sua "volta do mundo", levando a capoeira para o exterior, fazendo sucesso em Buenos Aires, Acapulco, Nova Iorque, Paris e tantas outras cidades famosas do mundo. Eram os dois uma espécie de versão moderna e capoeirística, de Dom
Quixote e Sancho Pança.
 
Se brilhou no palco – e capoeira é também uma arte – enfrentou no ringue diversos lutadores como Rudolf Hermanny (RIO), Robson Gracie (RIO), Carlos Coutinho (Bahia, Fonte Nova), Carbono (RIO) e Edgard Duro (São Paulo, especialista em luta livre, com algumas vitórias sobre alunos de Mestre Bimba). Quem até hoje
repetiu tal façanha, quem aceitou ou aceita tais desafios?
Savate
 
Estivesse ainda jogando e ensinando, Mestre Artur Emídio de Oliveira estaria praticamente morando em aviões, viajando pelo mundo todo, mostrando sua extraordinária capoeira. Apenas isto – Capoeira – sem sobrenome, apenas CAPOEIRA.
 Savate
Não sem motivo, portanto, Artur está também na versão francesa do meu cordel “L`art de la Capoeira a Rio de Janeiro, au Brésil et dans lê Monde”:
 
 
SavateArtur Emidio de Oliveira
à Bonsucesso faisait sensation
les dimanches tous allaient voir le
champion
dans son académie de Capoeira
 
Artur Emidio magistral
était un maître génial
ni Angola, ni Regional
Capoeira sans rien de spécial
 
Tous venaient lui demander conseil
pour savoir comment s’améliorer
mais aujourd’hui ça n’est pas pareil
beaucoup préfèrent encore l’ignorer (H.R)
 
Artur talvez não se lembre, mas, certa vez, comentou comigo a falsa sapiência de alguns “mestres”. Não sei se Artur também cultivava o bom hábito, como Sinhozinho (o único que conseguiu criar uma metodologia realmente eficaz para a capoeira na sua feição exclusivamente LUTA, sem berimbau) de ler revistas européias, mas o fato é que ele repetiu o pensamento sábio de Claude Bernard: “É o que nós pensamos que sabemos que nos impede de aprender”;

(*) Com base no artigo publicado no Jornal dos Sports (26.mar.93).
(**) Plebiscito: Consulta genérica feita em linha direta aos eleitores sobre questões políticas relevantes ou polêmicas. Ao legislativo cabe, em seguida, detalhar e regulamentar a alternativa vencedora.
 
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