Capoeira, arte, história e educação
13 Nov 2006

Capoeira, arte, história e educação

Nascida da ânsia de liberdade dos negros escravos que aportaram no Brasil, a capoeira tem como mote ser uma expressão popular brasileira.

13 Nov 2006
Nascida da ânsia de liberdade dos negros escravos que aportaram no Brasil, a capoeira tem como mote ser uma expressão popular brasileira. Sua mistura de dança, luta e música atrai pessoas do mundo todo a conhecê-la e praticá-la.
 
A maioria dos grupos de capoeira – aqueles que são entidades sérias – busca despertar na comunidade o interesse pela arte que veio da África. Há um processo de formação onde os alunos aprendem, além dos movimentos, a entender sua origem, evolução e transformações. Busca-se também resgatar a história e rituais quase esquecidos. Os mestres capoeiristas não concentram seu trabalho apenas no ensinamento da arte marcial ou da dança. Há, paralelamente o aprendizado do maculelê e outras manifestações folclóricas, cujo objetivo é valorizar a capoeira como forma de arte e expressão popular cultural genuinamente brasileira, mas com raízes africanas bem expostas.
 
No âmbito desportivo, o objetivo de quem ensina a arte da capoeira é oferecer a melhor técnica para treinamento da parte acrobática, sempre visando diminuir o risco de lesões e aumentar o rendimento técnico dos capoeiristas.
 
A grande mudança no ensino da capoeira aconteceu após a promulgação da Lei 10.639, no dia 9 de janeiro de 2003. A lei torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileiras nos níveis fundamental e médio. Os currículos devem incluir "o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política (…)".
 
Apesar de alguns educadores e historiadores não serem favoráveis à criação de um dispositivo legal – portanto obrigatório – para o ensino dessa parte importante dos valores de nosso povo, os mestres da capoeira vêem nesta decisão a oportunidade de divulgar seu trabalho e resgatar, ainda que tardiamente, um conteúdo fundamental da história nacional.
 
Há que se colocar nessa conta o viés de educação e formação que a capoeira tem. Ela serve como elemento de integração social e valorização das questões culturais, artísticas e folclóricas, despertando o caráter de identidade cultural em nossas crianças. Hoje, são desenvolvidas e aplicadas metodologias de treinamento da capoeira para crianças onde se busca a melhor resposta às suas necessidades de desenvolvimento motor, cognitivo, afetivo e social.
 
Mas, o que é melhor? Discutir a lei ou evitar que se perpetue a ignorância quase generalizada que o povo brasileiro tem – sobretudo as crianças e adolescentes – em relação à participação africana em nossa formação? Essa ignorância é influenciada por preconceitos muito arraigados, que vieram da sociedade escravista e foram mantidos por grande parte da elite nacional.
 
A capoeira é apenas um dos elementos da “africanidade” que devem ser mostrados aos estudantes no longo processo de retificação do solitário papel que foi legado ao homem africano.
 
Existem cantigas e lendas africanas que podem ser trabalhadas com as crianças do ensino fundamental. A rica culinária da África, tão presente em nosso dia-a-dia, pode ser mostrada aos alunos das aulas de Estudos Sociais. Nas aulas de História, o continente africano não deve ser lembrado apenas como aquele de onde vieram os escravos que iriam enriquecer os homens brancos de outras terras. Na África está o Egito e seus cinco mil anos de história contemplados por Napoleão Bonaparte.
 
Este novo enfoque pode proporcionar o debate sobre o surgimento do racismo e, a médio ou longo prazo, permitir que os estudantes entendam e discutam a desigualdade racial brasileira.
 
A exemplo do que é feito há décadas nas aulas de capoeira, muito pode ser feito nas salas de aulas das escolas para diminuir a distância entre a África e o Brasil. Seria uma Pangéia ao revés, o começo da reaproximação entre duas culturas separadas por um Oceano Atlântico de erros históricos e preconceitos.
 
Alex Charles Rocha (Alex Carcará) é Mestre de Capoeira e fundador do Centro Cultural Escola do mundo e também do Grupo Chibata de Capoeira. Formado em Educação Física, foi Campeão Brasileiro de Capoeira em 1999.
 
http://www.bb.com.br/appbb/portal/bb/ctr/art/ArtigoCompl.jsp?&Artigo.codigo=1941
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