Capoeira e Identidade Cultural
22 Abr 2009

Capoeira e Identidade Cultural

O assunto é: Capoeira e Cultura:   Roda de Capoeira em comemoração ao Dia da Cultura e da Ciência. Roda Realizada no

22 Abr 2009
O assunto é: Capoeira e Cultura:
 
Roda de Capoeira em comemoração ao Dia da Cultura e da Ciência. Roda Realizada no Distrito Federal no Ministério da Culutra. O Ministro Gilberto Gil, toca berimbau, canta na roda e fala da Importância da capoeira como elemento de divulção da nossa cultura pelo mundo e também como elemento formador de nossa identidade cultural.
 
Nosso ativo parceiro Fábio Moreira de Araújo (Mestre Onça) nos envia uma matéria sobre o tema com uma abordagem bastante atual, dentro deste contexto remomendamos que assistam ao video e saboreiem o texto.
 
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Capoeira e Identidade Cultural

Para compreendermos um pouco mais a importância da capoeira como elemento formador das nossas raízes culturais, é necessário fazermos um retrospecto histórico para entendermos o contexto do seu surgimento e de outros elemento culturais como o carnaval e a música.  Em análise ao contexto histórico,  da situação do indígena brasileiro, observamos a sua importante contribuição na formação étnica do nosso povo. Notamos que no caso particular  dos indígenas, houve uma destruição dos seus valores  culturais que os identificavam como seres humanos.  Os europeus (portugueses), ao chegarem à América, encontraram esta terra habitada por seres humanos: milhões de índios. Por pensar que  estavam chegando as Índias, deram  a esses habitantes o nome de índios. Essa denominação permanece até hoje, mesmo depois de ter percebido o engano. Perguntas que muita gente faz até hoje é: Qual a sua origem? Como foi o seu contato com os brancos? “ A verdade consiste no seguinte: quando os portugueses chegaram já havia toda uma organização social dos indígenas, mesmo não sendo  grupos totalmente homogêneos. Os indígenas já dominavam conhecimentos nas áreas  de astronômia, ecologia, veneno de caça e pesca, tapiragem, borracha. Nas artes tinham conhecimento sobre a pintura corporal, plumagem, arte em pedra, madeira, cerâmica, desenho, música e dança”. (1)

“… Existiu todo um processo colonizador do qual os índios brasileiros foram vítimas. Primeiro foram cativados para o trabalho de exploração do Pau Brasil, em seguida a sua troca por objeto que exerciam fascínios e por último, veio a escravização e a tentativa de fazê-lo trabalhar na lavoura da cana-de-açucar…” ( Galleano apud, Piletti 1991. P. 20 ).  Dentro desse processo de aculturação, muitos índios que conseguiam sobreviver eram submetidos  a um processo de descaracterização  cultural  através da catequese e da própria convivência com o branco. Dessa forma, muitos foram perdendo a sua identidade cultural, substituindo seus valores, crenças e costumes pelos valores, crenças  e costumes do colonizador europeu.  Transformaram-se em seres marginalizados e explorados dentro da sociedade dos brancos.

(01)PILETTI, Nelson. História do Brasil. Ed. ÁTICA, 1991. Pp. 18/19.

Os índios dos Brasil perderam  a sua identidade, mas sempre-se rebelaram contra os colonos que tentavam escarvizá-los e muito desses grupos foram quase que totalmente exterminados. Em várias regiões mais rica do país, os senhores de engenho resolveram trazer escravos africanos para suas plantações.  Por volta de 1.550 teve início a presença negra no Brasil (chegaram da África os primeiros navios negreiros com escravos, aportando-se  em várias regiões do país). O tráfico tornou-se  uma atividade bastante lucrativa e milhares de negros foram trazidos para o  novo continente. Iniciou-se  um longo processo de formação da população étnica brasileira. “… A formação  da população brasileira originou-se  de três grupos  o indígena, o branco e o negro.  Do cruzamento entre esses diferentes grupos resultou o elemento étnico que genericamente chamamos de mestiço ( caboclo, mulato e cafuzo). O mestiço constitui-se  a origem do povo brasileiro. O caboclo é o resultado do cruzamento  do branco com o índio, o mulato é o cruzamento do branco com o negro e o cafuzo e o cruzamento do negro com o índio…”(2)

Dessa forma, o Brasil vai se  transformando num verdadeiro mosaico étnico cultural. Começam  a surgir as tradições  e lendas do nosso folclore.  A palavra folclore vem do inglês FOLK-LORE   “Pensamento popular”, criada pelo estudioso William Thomas. Folclore é a maneira de sentir, agir e pensar de um determinado povo. Entre  as principais brincadeiras e lendas ligadas ao nosso folclore temos: A brincadeira de vaqueiros, a vaquejada, o bumba meu boi, o carimbó, a caatira, caipora, curupira, mula sem cabeça, saci-pererê, lobisomem. “ Temos as festas populares na Bahia como o afoxé, que é o sagrado participando do profano. Essa é a única festa religiosa que os membros do candomblé (de origem jeje-nagô) terão que cumprir.


(02) COELHO, Marcos Amorim. Geografia do  Brasil. ED. Moderna, 1992. P. 101.

“ O afoxé é  um candomblé adequado ao carnaval. Temos também o candomblé que é um ritual ou culto africano, trazido pelos escravos negro durante o período colonial. Temos também na Bahia a festa de Iansã ou  Santa Bárbara, a festa da Conceição da praia no dia 08 de dezembro, a procissão de nosso Senhor Bom Jesus dos Navegantes, a festa da Ribeira, festa de Iemanjá, Pesca do  xaréu ( nas praias de amaralina e itapuã), lavagem do Bonfim, que é a Segunda maior festa popular da Bahia depois do carnaval e acontece na manhã  da terceira Quinta feira do mês de janeiro”. (3)

Roberto Mamata (1993), na sua obra intitulada “ Carnavais, Malandros e Heróis”,  faz uma análise sucinta e detalhada dos valores e atitude  das pessoas. Segundo o autor da obra existem dois tipos de pessoas que identificam a nossa brasilidade. O primeiro é a figura de  do malandro (estudada sobre a figura de pedro malassartes). Aqui o malandro é um ser deslocado de regras formais da estrutura social, fatalmente excluído do mercado de trabalho, aliás definido como totalmente individualizado e avesso ao trabalho. E o segundo é o renunsciador (Augusto Matraga, personagem de Guimarães Rosa). Este se fecha num mundo totalmente seu, deixando de lado prazeres e valores sociais.

Roberto Damata (1993) apud Reis (1996), A música popular é cheia de representações, são manifestações concretas, elabora, reflete, representa e dramatiza certos valores da sociedade brasileira, tornando-os importantes, e cheios de sentido e intencionalidade. A capoeira, o carnaval e a música são elementos importantes na formação  da nossa cultura. Nesse pequeno ensaio, não vamos fazer um estudo minuncioso e detalhado de todos os seus aspectos, buscaremos as relações e contribuições desses elementos na formação da nossa identidade cultural. A música popular brasileira tem participação importante enquanto elemento de expressão popular. Em análise ao dálogo existente nas cantigas dos negro Ortiz (1951) apud, Rego (1968), examinou seus vários aspectos mostrando sua importante contribuição como elemento formador das  nossas raízes culturais.

(3) AMADO, Jorge. Bahia de Todos os Santos – Guias de ruas e Mistérios,  Ed. Record, 1986. Pp. 128-143.

“ O conceito de “cultura popular” se confunde, pois, com a idéia de conscientização.  Subverte-se dessa forma o antigo significado que assimilava a tradição à categoria de cultura popular.  “ Cultura Popular”, não é, pois, uma concepção de mundo das  classes subalternas, como e para Gramsci e para certos folcloristas que se interessam pela mentalidade do povo” (4)

Hermano Vianna (1995) apud Reis (1996), faz uma análise da história do samba como expressão  cultural e  identidade nacional brasileira.  A partir da década de 30, começa  um processo de reconhecimento de identidade  de povo “sambista”. Existia ainda uma tendência de transformar o samba em rítimo nacional do brasileiro. O samba passaria então de rítimo subversivo da ordem à música nacional e oficialmente aceita. As músicas cantadas nas rodas de capoeira tem valor historicamente consagrados para a vida social do brasileiro, seja do ponto de vista etnográfico, histórico e cultural. Essas cantigas falam da vida do negro (as senzalas,  a escravidão, os quilombos etc…). A capoeira surge dentro desse contexto como uma manifestação cultural brasileira. Essa  era a única arma que o negro  dispunha para livrar-se do sistema opressor, que lhe retirava toda essência como ser humano.

Segundo Ortiz (1995), existe na história da intelectualidade brasileira uma tradição em que diferentes momentos histórico procurou definir-se a identidade em termos de caráter  brasileiro. Sérgio B. Holanda buscou as raízes do brasileiro na “cordialidade”, Cassiano Ricardo na  “bondade” e Paulo Prado na “tristeza”, outros estudiosos procuram encontrar a brasilidade em eventos sociais ou ainda na índole malandra do ser nacional com fez Damatta.

(04) ORTIZ, Renato. Cultura Brasileira & Identidade Cultural. Ed. Brasiliense, 1995. P. 72

“… Se por um lado a identidade cultural preservada se apresenta como uma questão de sobrevivência em oposicão a uma estrutura excludente, por outro lado surge o problema da possibilidade da preservação dessa identidade no contexto da modernização…” (5). Sabemos que a cultura é um processo dinâmico, influencia e sofre influências constantemente. A capoeira como parte importante de nossas manifestações culturais não pode ficar imune a essas transformações. Hoje a capoeira está sofrendo um processo de massificação aceleradíssimo , que pode estar levando-a a descaracterização enquanto arte-luta. Seria  possível, hoje, praticar aquela capoeira do passado com todos os seus rituais? Achamos que é importante analisarmos, entendermos e conhecermos a sua tradição cultural, ligada as suas raízes  para que possamos criar e recriar, inventar e reinventar, não deixando acontecer o mesmo que aconteceu com as sociedades indígenas. Preservando assim, as suas essências, sem descaracterizá-la como manifestação  autêntica da cultura do nosso povo.

(05) VIEIRA, Luiz Renato, Cultura Popular e Marginalidade, in  Revista de Educação e Filosofia –  Vol. 04 nº 08 jan/jun 90.

 
Um abração,
Mestre Onça
Beribazu-DF

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