Doce de encanto de um velho felino
08 Set 2008

Doce de encanto de um velho felino

Bimba é Bamba Estilo àgil do capoeirista atraía multidão ao ringue armado na Praça da Sé, palco de lutas e apostas que

08 Set 2008

Bimba é Bamba

Estilo àgil do capoeirista atraía multidão ao ringue armado na Praça da Sé, palco de lutas e apostas que levavam soldados, estivadores e estudantes ao Parque Odeon.

Soldados, estivadores, estudantes e operários se paertavam nos bancos emtorno do ringue armado na Praça da Sé. Um cheiro forte de suor inundava a noite de inauguração do Parque de Odeon, um verdadeiro parque de lutas e apostas, naquele 6 de Fevereiro de 1936. Cercada pelas sombras das Igrejas centenárias, chegava a hora da luta mais esperada da noite, a que valia pelo título de campoeão baiano de capoeira. Enquanto os lutadores – Manoel dos Reis Machado, o Bimba, e Henrique Bahia – subiam no tablado, a multidão gritava em êxtase: “Bimba ´é bamba”. Numa das filas, um grupo de americanos se impressionava com o jogo cadênciado, cheio de passes de agilidade e contorções felinas de Bimba, que projectou seu adversário no chão com uma benção no peito, antes mesmo do final do primeiro round.

No dia seguinte, os jornais da capital baiana noticiavam com destaque a vitória. Esses mesmo jornais, um mês antes, haviam publicado, a pedido de Bimba, um desafio dele a todos os capoeiristas baianos no ringue. E as lutas no Parque Odeon continuaram. Em Março, Bimba venceu José Custódio dos Santos, o Zeí, em uma noite que teve público recorde. O jornal O Imparcial publicou: “Bimba é o favorito em vista de sua técnica inigualácel”. No mesmo mês, enfrentou o angoleiro Vitor Lopes, o Vitor H.U., que para surpresa do público, abandonou o ringue depois de receber de Bimba, logo no começo do combate, um galopante – nome técnico para um violento murro na cara – que o fez cair e sangrar. “Assim não vale!” gritou, apavorado. Bimba respondeu: “Isto aqui é luta, não é roda”, e foi apoiado pelo juiz. Sobre as disputas no ringue, anos depois Bimba diria, com orgulho: “O que mais durou ficou um minuto e meio.”

O Parque Odeon, apesar do sucesso, durou pouco tempo e foi desactivado em Julho do mesmo ano. Já a fama de Bimba, essa apenas começava a se alastrar e já trazia consequências, como contou um dos seus mais antigos discípulo, o Mestre Atenilo, morto em 86. “Perguntavam: é discipulo de Bimba? Bimba não ensina capoeira, ensina barulho”. O grupo de alunos, aos poucos, foi sendo banido da maioria das rodas da cidade. “A gente ficava na Roça do Lobo (onde Bimba dava aula), jogando uns com os outros, não tinha mais onde jogar.” No livro O relâmpago da capoeira regional, do Metsre Itapoan, Atenilo conta que, ao contrário do que muita gente pensava, Bimba e Pastinha (o grande Mestre de capoeira angola) tinham um bom relacionamento. “Pastinha tomou muita amizade com Bimba, que ele também tinha o segredo da capoeira”.

Um segredo que Bimba relutou em passar adiante, mas começou a compartilhar quando um jovem cearense branco, chamado Sisnando, foi procurá-lo em seu depósito de carvão no Curuzu, querendo aprender capoeira. O Mestre foi logo dizendo que aquilo não era coisa para branco, mas como o jovem insistiu, Bimba lançou o desafio: “Se você resistir por três minutos a uma gravata no pescoço dada por mim, eu te ensino”. Sisnando, que lutava jiu-jítsu, aceitou e, para surpresa de Bimba, resistiu bravamente. Era o começo de uma parceria que teve papel importante na criação da capoeira regional.

Mistérios da luta

Se antes os negros tinham que passar pelo suplício do tronco levados por mãos brancas, agora um negro desafiava com a sua força o branco que quisesse aprender os mistérios da capoeira. Teriam que provar que eram “raçudos”, suportando uma gravata no pescoço. Uma vez aprovados, seguiam os padrões de uma organização negra, a comando de um mestre negro. Integrantes de famílias influentes – Sisnando, por exemplo, era amigo do interventor Juracy Magalhães – “eles contribuíram para que Bimba oficializasse a primeira academia, difundisse seu método de ensino, penetrasse nos salões, ensinasse nas escolas e nos quartéis, profissionalizasse o seu ofício, viabilizasse economicamente os serviços da capoeira, se aproximasse do poder político”, explica Frede Abreu.

Mestre BimbaMas este “branqueamneto” e elitização da capoeira fez muita gente torcer o nariz para Bimba. Um exemplo da discriminação em relação ao criador da regional foi o 2º Congresso Afrobrasileiro, que foi considerado, nos anos 30, um dos mais importantes acontecimentos relacionados com os estudos do negro brasileiro. Durante o congresso, foi prevista a fundação da União dos Capoeirístas da Bahia, que não se concretizou, e houve apresentações do que se chamou do “melhor grupo de capoeira da Bahia, chefiado por Samuel Querido de Deus”. Na época foram divulgadas pelo pesquisador Edison Carneiro e pelo jornal Estado da Bahia listas com os nomes dos principais capoeiristas baianos, mas o nome de Bimba (e de qualquer outro praticante da regional) não aparecia em nenhuma delas.

O Mestre Waldemar da Paixão, senhor do conhecido reduto de angoleiros localizado no Corta-Braço, o Barracão de Waldemar, reconhecia o valor de Bimba, mas o questionava por ter abandonado a angola. “Ele abandonou a cor dele. Mas sabe o que é? O preto, para dar uma miçanga ao mestre, é um deus-nos-acuda. Não tinha dinheiro para pagar. O branco dava boa vida a Bimba”, afirma, em um depoimento no livro O Barracão do , de Mestre Waldemar, de Frede Abreu.

O exame de admissão à força foi dando lugar, nos tempo da academia, a um outro tipo de selecção: para aprender capoeira era preciso estar estudando ou trabalhando. Foi o que aconteceu com Jair Moura, que até hoje se recorda da primeira vez que viu Bimba jogando capoeira, em uma apresentação promovida pelo grémio do colégio onde estudava, o Carneiro Ribeiri, em 1947. “Aquilo me marcou muito, fiquei impressionado com os golpes magistrais, e como a minha turma tinha rivalidade com outros meninos do bairro, a capoeira me interessava por motivos práticos”, conta. Bimba, como era de praxe, exigiu uma autorização dos pais por escrito, mas o garoto Jair sabia ser impossível a façanha de conseguir tal permissão, afinal a capoeira ainda era vista com desconfiança pela sociedade. Só alguns anos depois, em 53, é que conseguiu entrar no grupo de Bimba, e onde só saiu em 1960, quando se mudou para o Rio de Janeiro.

Assim como Jair, mais e mais pessoas apareciam para aprender a capoeiragem com Bimba, em grande medida porque ele foi o primeiro a criar um método de ensino pedagógico para a capoeira. O começo de tudo, ainda na primeira aula, era um momento inesquecível para os futuros capoeiristas: Bimba pegava na mão do iniciante para ensiná-lo a gingar. Era quando o aluno sentia em si mesmo a energia do Mestre. Essa mesma forma de passar a experiência vem sendo seguida até hoje por um de seus filhos, Mestre Nenel, em sua academia no Pelourinho, que tem as paredes cheias de fotografias de discípulos de Bimba. “Aqui vêm pessoas do mundo inteiro, chegam entrevadas e em poucos dias estão em condições de jogar”.

Mestre BimbaSe há algo em comum entre todos os ex-alunos de Bimba é que não há um deles que não tenha ficado marcado pela personalidade do Mestre. “A academia era como se fosse uma extensão da casa da gente e ele era como se fosse um paizão, o cara que dizia o que era, como era, quais as atitudes a tomar na rua, como viver em sociedade, os perigos que tinha, toda aquela coisa da malandragem”, recorda outro discípulo de Bimba, o Mestre Itapoan. Ele conta que conseguiu o dinheiro para se matricular no judô, mas foi levado por um amigo para assistir à aula do Mestre, na academia do Centro Histórico e, na mesma hora, se matriculou na capoeira. “Ele era aquela figura forte, a academia lotada e ele sozinho, com o berimbau, comandando aquilo tudo, um respeito retado. Como eu tinha perdido o meu pai, aquela figura dele me encantou realmente”.

A simples presença do Mestre impunha respeito: quando ele entrava na sala, todos se calavam e esperavam sua ordem. Outras vezes, quando os alunos estavam brincando, ele só fazia olhar, que a brincadeira cessava. “Era um negócio muito forte”, afirma Itapoan, deixando perceber nas entrelinhas que a figura de Bimba ainda hoje lhe causa um certo arrepio, um nome que soa quase como um mito. Uma imagem que corresponde à que Mestre Acordeon, outro discípulo de Bimba, que hoje dá aulas nos Estados Unidos, projectou em uma de suas músicas em homenagem a Bimba: “Ele era forte na alma, tinha uma faca no olhar, que cortava agente de cima a baixo, quando ensinava a jogar”.

Artigo da Revista "Memórias da Bahia II" – Mestre Bimba – Rei Negro

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