Documento Histórico: Cadernos de Folclore – Capoeira – Édison Carneiro – 1975
14 Ago 2006

Documento Histórico: Cadernos de Folclore – Capoeira – Édison Carneiro – 1975

O site Portal Capoeira tem, ao cabo de um ano, prestado relevantes serviços à cultura brasileira, especialmente à capoeira. O altruismo de

14 Ago 2006

O site Portal Capoeira tem, ao cabo de um ano, prestado relevantes serviços à cultura brasileira, especialmente à capoeira. O altruismo de Luciano Milani, seu idealizador, tem feito chegar a muita gente informações valiosas que com certeza seriam difíceis de serem acessadas pela grande maioria das pessoas que utilizam o site. Isto é democratizar conhecimento.

A tarefa (estimulante) de comentar esta obra de Edison Carneiro, uma das mais expressivas figuras da cultura nacional, muito me envaidece. É sem dúvida uma grande responsabilidade que Milani, amigo que é, colocou para mim. Espero que estas linhas sirvam para estimular a leitura do referido livro, ao tempo em que parabenizo o organizador do site pela iniciativa.
 

CAPOEIRA – Cadernos de Folclore
Edison Carneiro (1912-1972)

Advogado de formação, folclorista, historiador, jornalista, professor, etnólogo e escritor, Edison Carneiro teve a sua vida pautada pela defesa da cultura negra que à sua época era por demais perseguida pelas autoridades policiais e políticas, e discriminada pela sociedade que exaltava os valores eurocêntricos. Negro e carente de recursos materiais, como os valores que defendia, Carneiro teve muita dificuldade para ter o seu trabalho reconhecido pela sociedade em virtude do preconceito racial de que foi vítima. Criou a Comissão Nacional do Folclore e o Museu do Folclore dentre outras ações que visavam a preservação do nosso patrimônio imaterial (folclore), em particular da Capoeira Angola, que atinge esta condição especial por ser uma manifestação popular muito cara ao povo brasileiro.

Juntamente com intelectuais do quilate de Jorge Amado e Carybé, freqüentadores da academia de Mestre Pastinha e ainda o folclorista Manuel Querino, representou o esteio acadêmico sobre o qual a Angola se sustentou da rasteira social que a Regional de Bimba lhe aplicou, quando, como um rolo compressor, arrebatou a preferência popular em detrimento da arte de Pastinha. Fato este que quase a levou ao desaparecimento ao fim da primeira metade do século XX, tal como aconteceu de novo ao fim da década de 70. Vem deste apoio elitizado a condição de “capoeira mãe”, expressão muito usada ainda hoje que, em tese, lhe empresta uma superioridade cultural em relação à Regional.

Na obra em questão, Carneiro não esconde a sua preferência pela Capoeira Angola e toda vez que se refere à capoeira o faz em referência à este estilo. Para ele a Regional não é capoeira, aliás, ele não se refere à Bimba em nenhum momento como mestre. À página 14, em uma das raríssimas vezes em que Bimba é citado neste seu livro, ele o reconhece apenas como: “O capoeira Bimba, virtuoso tocador de berimbau” para logo adiante, desmerecendo o valor do seu trabalho dizer: “A capoeira popular, folclórica, legado de Angola, pouco, quase nada tem a ver com a escola de Bimba” pág. 14.

Nem como um bom capoeirista, ou ao menos como um capoeirista conhecido, ele coloca aquele que repesenta um ícone para centenas de milhares de capoeiristas no mundo inteiro:

“Os bons capoeiristas da Bahia eram, até poucos anos, o pescador Samuel Querido de Deus e o estivador Maré, ambos da capital, e Siri do Mangue, de Santo Amaro. Outros capoeiristas conhecidos eram “o capitão” Aberrê, Juvenal, Polu, Onça Preta, Barbosa, Zepelin…”  pág.14

Em oportunidade anterior (pág. 7) afirma: “Os ases da capoeira na Bahia eram o pescador Samuel Querido de Deus e o estivador Maré” deixando bem clara a sua opinião sobre insignificância de Bimba no cenário geral da capoeira.

Preferências à parte, este registro histórico nos evidencia aspectos interessantes da sua visão sobre a arte, que difere da forma que usamos hoje. À página 9, por exemplo, ele se refere a vários “estilos” de capoeira como segue:

“Os capoeiras distinguem vários estilos de vadiação – pelo jeito de jogar, pela música, pela disposição dos jogadores. Assim temos
– Capoeira de Angola
– Angolinha
– São Bento Grande
– São Bento Pequeno
– Jogo de Dentro
– Jogo de Fora
– Santa Maria
– Conceição da Praia
– Assalva Sinhô do Bonfim”

Como podemos observar ele coloca a Capoeira Angola não como um estilo de jogo (talvez porque se assim o fizesse ele teria que considerar a Regional de Bimba como tal), mas como um jogo característico de certo tipo de toque.

Outro aspecto interessante e que serve como registro histórico são os detalhes com os quais ele diferencia a capoeira nas três cidades onde a cultura negra é mais evidente e que à época eram os mais destacados centros de capoeira: Salvador, Rio de Janeiro e Recife. As características de uso de armas brancas, a ligação com o frevo, a dissolução das maltas tudo isso enriquece e valoriza este importante registro.

A musicalidade no jogo também representa um aspecto contemplado por Carneiro. Sobre este tema ele tece diversos comentários sobre o significado das suas letras, origem, relação com o Candomblé, complexidade da composição dentre outros, sempre exemplificando com o texto musical para um melhor entendimento da leitura.

O berimbau ocupa lugar de destaque quando ele lhe dispensa 6 (seis) páginas de um total de 17 (desessete) páginas de texto. Aí são tecidos comentários que bem explicam as suas várias utilidades, algo em torno de 35% da obra. A riqueza de detalhes e informações sobre seu uso dentro e fora da capoeira, formas de confecção e registros de livros e autores que lhe fazem menção é de um valor inestimável.

A edição também é bem ilustrada com belas imagens que registram o jogo da capoeira nas ruas de Salvador, tendo como artífice o povo simples, herdeiro direto dos criadores dessa nossa arte/luta e como pano de fundo o mar, inspiração de músicos e poetas e freqüentemente local de trabalho e lazer dos capoeiras da Cidade da Bahia. Infelizmente a autoria destes registros fotográficos não é devidamente citada na obra, ficando assim uma lacuna a ser preenchida, dentro de uma visão crítico-acadêmica.

Por tudo isso, recomendo a leitura de “Cadernos de Folclore – Capoeira” de Edison Carneiro tanto para pessoas que se interessem por uma leitura lúdica, quanto para aqueles (as) que pretendam ter um conhecimento mais específico sobre a nossa arte maior.

No mais, reitero os agradecimentos à Milani pela oportunidade de comentar este importante registro da capoeira e espero que vocês tenham uma boa leitura. 
 

Para Baixar este DOCUMENTO DE GRANDE VALOR HISTÓRICO, Clique aqui.


Cadernos de Folclore - Capoeira - Édison Carneiro - 1975 * O professor e pesquisador Acúrsio Esteves, é formado em Educação Física pela UCSal, com mestrado em Gestão de Organizações UNEB/UNIBAHIA e é professor da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Salvador. Leciona também nas Faculdades Jorge Amado e Fundação Visconde de Cairu, respectivamente nos cursos de Educação Física e Turismo, sendo também autor dos livros Pedagogia do Brincar e A “Capoeira” da Indústria do Entretenimento.
 

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