Lobisomem: Capoeira e Cordel
31 Jul 2007

Lobisomem: Capoeira e Cordel

Histórias populares, no mundo inteiro, são sempre maniqueístas, variações de lutas entre um bem e um mal, moralidades rígidas por um lado

31 Jul 2007
Histórias populares, no mundo inteiro, são sempre maniqueístas, variações de lutas entre um bem e um mal, moralidades rígidas por um lado mas suficientemente elásticas por outro para incluir mau-caratismos e espertezas várias quando se trata de um “fraco” vencer um “forte”.

E aí vem o Brasil, a capoeira e a literatura de cordel, e o bem e o mal começam a negociar.

No cordel de apresentação de seu personagem, Lobisomem, o capoerista e cordelista Victor Alvim Itahim Garcia, do grupo Abadá Capoeira, diz a respeito de si mesmo: ninguém lá é perfeito. Ele lê este verso e começa a jogar sua capoeira dançada, uma negociação entre investidas e defesas. Mais (ou menos) do que uma luta, uma longa conversa de pernas e pés com seu oponente-parceiro.

Dele também, os versos de abertura do cordel Zumbi & Bimba:

É claro que não podemos
Nunca generalizar
A minha intenção não é
De querer polemizar
Pois todos têm liberdade
Pra sua versão contar

Ou, no cordel em que ele homenageia Mestre Camisa, fundador do grupo:

Como todo ser humano
Muitos defeitos tem
Como ninguém é perfeito
Ele erra muito também
Mas a sua intenção
É sempre fazer o bem

É uma distância grande em relação a, por exemplo, os contos de fada originados na Europa, onde um desfile de fracos-bons e fortes-ruins têm, depois de várias crueldades de parte a parte, seu destino modificado graças à intervenção sobrenatural. Ou aos contos hollywoodianos contemporâneos, que seguem o mesmo molde.

Lobisomem: Victor Alvim Itahim Garcia, do grupo Abadá Capoeira

Relatos populares têm finalidades precisas. São ensinamentos de sobrevivência e resistência para situações limites e, dentro dessa estratégia, são também instrumentos de integração universalistas. Neles, personagens locais se ligam a arquétipos universais e o indivíduo, eivado de estereótipos psicológicos e sociais – heróis, cenários específicos como encruzilhadas ou estradas, e um tempo colocado em um passado distante ou, no caso hollywoodiano um futuro igualmente distante – se transforma em um ator que exerce sua subjetividade como em um teatro. O problema é que tal linguagem anuncia a crítica e ao mesmo tempo a cancela. Ao se tornar uma encenação que se repete, mesmo se variando detalhes do rito, o relato mostrará uma crítica não mais sobre o poder que oprime o grupo social naquele momento, mas a partir de um poder, o do mito.

O que o sotaque brasileiro traz de interessante é que, ao tornar falível o bem e palatável o mal, não abre espaço para o conceito de que haja algo perfeito de antemão, algo que nós, humanos, devemos nos esforçar para alcançar e uma vez lá, não mais modificar. Sem perfeição à mão, entra obrigatoriamente a negociação.

Viva nóis.

 
Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras

Fonte: Aguarrás – http://aguarras.com.br/

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