11 Jun 2005

“A CAPOEIRA COMO ELEMENTO DE CULTURA”

A compreensão da condição histórica do povo brasileiro, em toda sua plenitude, vincula-se ao entendimento dos sistemas econômico-sociais que caracterizaram e caracterizam

11 Jun 2005

A compreensão da condição histórica do povo brasileiro, em toda sua plenitude, vincula-se ao entendimento dos sistemas econômico-sociais que caracterizaram e caracterizam o Brasil. Os porquês básicos desta condição referida, a trajetória e os grandes momentos da própria constituição do povo brasileiro perpassa pela questão cultural.

Esse assunto é aparentemente óbvio, mas, na realidade constitui verdadeiro bulício, por ocupar uma enorme dimensão. É portanto, uma questão que exige problematização com busca de pressupostos teóricos e explicativos para que não se fixe no senso comum e se depare com conceitos destituídos de conteúdo.

A dificuldade em analisar a cultura no Brasil começa com as divergências de vários estudiosos do tema sobre o que esta expressão abarca especificamente, tornando-se inevitável sua delimitação conceitual.

Segundo o linguista Aurélio Buarque de Holanda Ferreira:

" Cultura é o complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições, das manifestações artísticas, intelectuais, etc., transmitidas coletivamente, e típicas de uma sociedade. É um conjunto de conhecimentos adquiridos em determinado campo." ( FERREIRA, 1.997: 156 )

A perspectiva marxista trata a cultura homogeneamente como ideologia. Já a concepção gramsciana de ideologia tem uma abordagem flexível do fenômeno da cultura, uma vez que não reduz todo o imaginário das classes à subserviência ou alienação.

Na perspectiva gramsciana Marilena Chauí em " Conformismo e Resistência" (1.986) apresenta um conceito de cultura que se incorpora a oposição da subserviência às estratégias de contra-poder:

"…expressão dos dominados, buscando as formas pelas quais a cultura dominante é aceita, interiorizada, reproduzida e transformada, tanto quanto as formas pelas quais é recusada, negada e afastada implicitamente ou explicitamente, pelos dominados. Procuraremos abordá-lo como manifestação diferenciada que se realiza no interior de uma sociedade que é a mesma para todos, mas dotada de sentidos e finalidades diferentes para cada uma das classes sociais. Consideraremos os processos em que as diferentes classes sociais se constituem como tais pela elaboração prática e teórica, explícita ou implícita, de suas divergências, de seus antagonismos e de suas contradições" ( CHAUÍ, 1.986:24 ).

Assim, a cultura popular deve ser percebida como um complexo que atua dentro de uma cultura maior ( dominante ), mesmo que seja enquanto resistência cultural.

Na prática cotidiana podemos perceber a cultura pelas seguintes formas:

" A cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo. Homens de culturas diferentes usam lentes diferentes e, portanto, têm visões desencontradas das coisas" ( LARAIA,1.983:50 ).

Ou seja,

" Todos os homens são dotados do mesmo equipamento anatômico, mas a utilização do mesmo ao invés de ser determinada geneticamente depende de um aprendizado que consiste na cópia de padrões que fazem parte da herança cultural do grupo" ( LARAIA,1.983:54 )

Nesse sentido, a cultura condiciona a visão de mundo do homem.

A cultura pode interferir no aparato anatômico, como exemplo podemos mencionar a valorização de um comportamento individual em detrimento de um coletivo, ou a satisfação de necessidades básicas.

Todas as culturas possuem divisões de tarefas de acordo com a situação do indivíduo: sexo, idade, raça, condição social, etc., isso caracteriza a participação dos indivíduos diferentemente de sua cultura. Para exemplificar não poderíamos deixar de mencionar os " ritos de passagem" que são cerimônias que marcam diversas passagens na vida social, inclusive a que ocorre da infância para a vida adulta.

Cada cultura possui uma lógica própria, que deve ser buscada por quem a observa.

A cultura é dinâmica:

" Cada sistema cultural está sempre em mudança. Entender essa dinâmica é importante para atenuar o choque entre gerações e evitar comportamentos preconceituosos. Da mesma forma que é fundamental para a humanidade a compreensão das diferenças entre os povos de culturas diferentes, é necessário saber entender as diferenças que ocorrem dentro do nosso sistema. Este é o único procedimento que prepara o homem para enfrentar serenamente este constante e admirável mundo novo do porvir" ( LARAIA,1.983:80 )

Nesse contexto surge a Capoeira, enquanto cultura de resistência, uma dança-luta que foi sistematizada e incorporada por padrões formais didáticos e pedagógicos, é ensinada em academias como uma apropriação formal e descentralizadora da resistência enquanto cultura.

 

" O escravo se mostrava evidentemente superior na luta corpo a corpo na capoeira, explicavam os da escolta, que diziam saber aplicar um jogo estranho de braços, pernas, cabeça e tronco, com tal agilidade e tanta violência, capazes de lhe dar superioridade estupenda. Espalhou-se, então, a fama do "jogo do capoeira", que ficou sendo a capoeiragem "( MARINHO, 1.980:66 )

 

" Comumente, o surgimento da Capoeira Regional tem sido identificado com o processo de descaracterização das tradições populares, na dinâmica de sua apropriação pelas classes dominantes. Assim, a Capoeira Regional já foi interpretada como uma adaptação "(…) que permitia uma melhor participação do branco, menos flexível (…) e portanto com mais dificuldade para a execução dos movimentos que são exigidos no jogo Angola" ( TAVARES,1.984.104 ). Outros mais enfáticos, afirmando que o processo de inserção da capoeira nos estratos sociais superiores, iniciado com Mestre Bimba e reforçado pela folclorização da prática pelos órgãos de turismo de Salvador, teria produzido uma capoeira que em certas situações se apresenta " totalmente prostituída " ( REGO, 1.968:362 ). Assim, interpretações dessa natureza tendem a considerar, de uma perspectiva nostálgica, a trajetória histórica da capoeira como um " embranquecimento " ( VIEIRA, 1.995:13-14 ).

 

No Brasil as concepções historiográficas da Revolução de 30 e os processos sociais que engendrou fizeram surgir as classes médias urbanas, também agentes sociais, produtores de ideologia que interferiram na formação da cultura, caracterizada pelo pensamento político enquanto expressão de um ideário de legitimação de uma cultura imposta, a sociedade é permeável à legitimação do Estado.

Deu-se a reestruturação dos valores, dos padrões de cultura, à partir daí afloraram variados níveis de expressão do imaginário popular que passaram a atuar como elementos da cultura organizada socialmente.

O Brasil conta com a influência de ameríndios, europeus e africanos em todos os setores de suas manifestações culturais, desde o vestuário, linguagem, músicas, danças, vida familiar e trabalho, alimentação e até mesmo a forma mística de ver o mundo.

A capoeira é também fruto dessa influência africana, trazida pelos negros africanos e hoje está associada aos valores consensuais da sociedade, emergente do pluralismo cultural brasileiro.

Esse estudo fica então caracterizado pela reflexão e resgate da memória cultural do nosso povo, repensando a capoeira enquanto elemento folclórico e cultural originado da fusão de diversas culturas.

 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BORNHEIM, Gerd. O Conceito de tradição .in Cultura Brasileira: tradição/contradição. FUNARTE. Rio de Janeiro. 1.987.

CHAUÍ, Marilena. Conformismo e Resistência. Aspectos da cultura popular no Brasil. São Paulo , Brasiliense, 1.986.

FERREIRA, Aurelio . Minidicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1.997.

LARAIA , Roque. Cultura. Um Conceito Antropológico. Rio de Janeiro. Zahar, 1.995.

LOPES, Helena. Negro e Cultura no Brasil. Rio de Janeiro. Unesco.1.987

LOPES, Nei. Bantos, Malês e identidade Negra. Rio de Janeiro. Forense. 1.988.

MARINHO, Inezil. Introdução ao Estudo do Folclore Brasileiro.Brasília: Horizonte, 1.980.

VIEIRA, Luiz Renato. O Jogo da Capoeira. Rio de janeiro. Sprint. 1.995

http://bahia.port5.com/terreiro/

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