Roda de Rua ou Roda na Rua?
23 Mai 2005

Roda de Rua ou Roda na Rua?

Nesta crônica o autor apresenta ponto de vista sobre a utilização dos termos “roda de rua” e “roda na rua” A Verdadeira

23 Mai 2005
Nesta crônica o autor apresenta ponto de vista sobre a utilização dos termos “roda de rua” e “roda na rua”
A Verdadeira Roda de Rua
Roda de rua ou roda na rua?
Miltinho Astronauta
Jornal do Capoeira – maio/2005

É comum nas entrevistas realizadas por algumas revistas especializadas perguntar-se, em certo momento, se o interlocutor freqüenta Roda de Rua. O mais curioso é que, sem pensar duas vezes, a resposta é unânime:
“Claro que sim… com muita freqüência…
Em toda cidade que eu passo sempre participo de rodas de rua…”
Alguns chegam a dizer que viajam pelo mundo inteiro – Europa, Japão, Estados Unidos, Noruega etc – sempre participando de “Capoeira de Rua”. Ao que lhes pergunto: será que eles estão falando de “roda na rua” ou “roda de rua”? Existe uma (não tão) suave diferença essas duas condições.
Até onde a história demonstra, Roda de Rua é aquela que acontece tradicionalmente em locais públicos, sem vínculo direto com grupos, academias ou associações. São ambientes aonde capoeiras errantes vão se achegando, ninguém sabe quem vem da onde, pra que veio e o que acontecerá durante a Roda. Não se usa uniformes, tampouco regras pré-estabelecidas, sendo que a o único preceito a ser seguido é – ou pode ser – a ética da malandragem, o fundamento da mandinga e a astúcia de um bom Capoeira.
Roda na Rua, por outro lado, acontece geralmente entre mestres e alunos de grupos conhecidos, todo mundo uniformizado, simulando, muitas vezes, as condições de uma academia convencional, chegando, às vezes, até ter árbitros apitando para início e fim de jogo. Seria como se em um sábado à tarde, calor forte, um grupo convoca seus alunos, todos bem alimentados, bem trajados, escolhem uma praça, chamam dois ou três amigos, armam o berimbau e pronto: ai está o exemplo de uma roda na rua.
Quase ia me esquecendo: instrumentos e capoeiras seguem, geralmente, de carro, não tem que pegar trem, tampouco ônibus, pois a praça não é tão longe, mas se pode chegar melhor – e impressionará mais – chegando “montado”. Vez ou outra, integrantes de algum dos grupos, ou amigos visitantes, se empolgam quando vêem uma bela moça passando e, sem pensá nem imagina, resolvem mostrar serviço. Daí para um golpe com conseqüências maiores é um pulo – valendo ressaltar que, geralmente, o capoeira que sofre a pior é o mais fraco e menos experiente. Quando um dos alunos sofre um acidente, alguém, de pronto, grita:
“Eu não falei que Roda de Rua é perigoso”
(ou seria roda na rua?)

Vamos agora dar dois bons exemplos e Capoeira de Rua, ou como queiram chamar Roda de Rua de verdade.
1. A Roda de Rua da República, São Paulo
Na Praça da República, centro de São Paulo, desde as décadas dos 50/60 acontecia Capoeira de Rua da melhor qualidade. O auge da República, salvo engano, foi de meados dos anos 60 ao início da década dos 80. Neste momento (anos 80), as academias já estavam estabelecidas, diversos mestres já formados e ensinando de forma sistematizada, quando a Capoeira de Rua deixa de ser alternativa socialmente interessante para os grupos. Não era interessante por diversos motivos:
a)      Os mestres não queriam arriscar de seus alunos apanharem em rodas perante o publico assistentes;
b)      Os alunos dos grupos próximos à região central, muitas vezes de classes mais favorecidas econômico-socialmente, não se consideravam preparados para entrar em rodas de capoeiras errantes.
Mas, ali na República, e também na Praça da Sé e alguns outros pontos turísticos e populares da região central, acontecia Capoeira da melhor qualidade. Naquelas rodas não tinham representantes de academias ou grupos. Tinha-se, na verdade, um conjunto de Capoeiras que ali se encontravam, informalmente, para testarem suas Capoeiras – alguns eram especialistas em outras lutas e artes marciais. Outros ali se apresentavam para vadiar, ou para matar a saudade da Capoeira de sua Terra-Natal.
A nata da Capoeira Paulista, na sua maioria vinda do Rio ou da Bahia, se reunia para brilhar no Palco da República. Diversos capoeiras fizeram-se, ou foram imortalizados, naquelas rodas de rua: Paulo Limão, Djamir Pinatti, Miguel Machado, Paulo Gomes, Zé de Freitas, Brasília, Silvestre, Suassuna, Ananias, Joel, Gilvan  e muitos outros.
2. Roda de Rua de Caxias – Rio de Janeiro
Uma outra roda de rua internacionalmente conhecida é a Roda de Caxias, mais especificamente na Praça dos Pacificadores, Rio. Não é raro ali acontecer, além de muita capoeira, alguns “mini-congressos” entre os mestres e praticantes apaixonados pela arte.
Já estive vadiando por aquelas bandas, e o capoeira, para por ali chegar, tem que se garantir no jogo, na manha, na mumunha, e no ritual de uma capoeira cheia de malicia e malandragem, onde tudo mundo joga e se deixa jogar. É um lugar onde é bom ter noção de uma cantiga especial de Capoeira:
“Pisa caboclo
Quero ver você pisa
Pisa lá qu´eu piso cá
Quero ver você pisa”
Mestre Russo e seus discípulos do Grupo Kosmo Capoeira (Gato Félix e Uso, apenas para citar dois excelentes alunos), todos os domingos, estão com os instrumentos aquecidos para a Capoeira que acontece à tarde, não raramente passando pela noite adentro. Além de Mestre Russo, muitos outros mestres se achegam para vadiar e comandarem, juntos, aquela Roda de Rua! Mestres Casquinha, Levi, Camaleão, Marrom, Formiga, Angolinha, Bába são alguns dos grandes Capoeiras que por ali aportam – ou já aportaram. Seguramente Mestre Arerê – atualmente comandando rodas mensais espetaculares no Circo Voador, Lapa, todo segundo domingo do mês – certamente deve ter sua passagem registrada por aquela roda.
Para não ser injusto, cabe também  lembrar que Mestre Pedrinho de Caxias – o apelido já diz tudo! – foi “criado” naquela roda, e hoje mantêm seu “Terreiro Mandinga de Angola” (TMA) com representações na Argentina, México e alguns outros paises Latino-Americanos.
A própria Bahia mantém algumas rodas de rua que merecem ser conhecidas pelos capoeiras interessados. Mestre Dominguinhos, angoleiro formado por Mestre Jequié (discípulo de M. Paulo dos Anjos), conta diversas façanhas do valente e saudoso Mestre Dois de Ouro que, em termos de capoeira de rua, não deixava nada a desejar. O próprio Mestre Lua Rasta, discípulo de Mestre Canjiquinha, também organiza uma excelente roda de rua no Terreiro de Bogum.
Certamente, depois desta nossa crônica, alguns jovens mestres deixaram de dizer que vivem em rodas de rua, ao perceberem que roda de rua e na rua não é a mesma coisa.
“Uma capoeira
Que valia ouro
Que saudades
Do Mestres Dois de Ouro”
Miltinho Astronauta
Leave a comment
Mais Artigos
comentários
Comentário

oito − dois =