Tradições, Rituais e Estilos
13 Jun 2010

Tradições, Rituais e Estilos

Mestre Oto Malta, com mais de 50 anos de capoeira, começou a treinar com Mestre Bimba na Rua das Laranjeiras, em 1958, com 14

13 Jun 2010

Mestre Oto Malta, com mais de 50 anos de capoeira, começou a treinar com Mestre Bimba na Rua das Laranjeiras, em 1958, com 14 anos de idade. Nenel, hoje Mestre Nenel, filho de Bimba, não era nascido e Nalvinha, a filha, tinha um ano de idade. “Carreguei-a ainda de fralda mijada”, relembra Oto. “Tenho o privilégio da amizade de alguns alunos do Mestre Bimba que se formaram pouco tempo depois de mim, dedicaram-se ao ensino da capoeira e hoje são os Mestres Acordeon, Itapoan, Camisa Roxa, Saci, Xaréu e Salário”, declara. Mestre Oto continuou treinando capoeira regularmente até os 25 anos quando as “atribuições da vida”- profissão, família, viagens – foram reduzindo o tempo disponível para os períodos de treino. Deu aulas de capoeira em academias de amigos e na década de 1970 na sua própria residência, em Barra Grande, na ilha de Itaparica. No final da década de 1980 foi para São Paulo de onde só retornou em 2004 quando fez contato com o Mestre Nenel, voltando a jogar capoeira na Fundação Mestre Bimba. Para ele “a capoeira em si já é muito abrangente (arte, luta, dança, filosofia, visão de mundo) e no caso da Regional (capoeira regional) não é possível sintetizar o que os ensinamentos do Mestre Bimba significaram para todos os seus alunos. Mestre Oto é graduado em Administração de Empresas e pós-graduado em Marketing com Mestrado em Gestão Empresarial. Atualmente ensina na Faculdade IBES – ISEC.

 

TRADIÇÕES, RITUAIS E ESTILOS.

 

Antes de tudo, é necessário estabelecer o ordenamento conceitual.

As polêmicas, divergências e contradições que sempre surgem quando se trata de analisar origens e evolução da capoeira poderiam ser evitadas, existindo definição objetiva do que é tradição, ritual e estilo.

 

TRADIÇÕES.

São maneiras de pensar e agir relacionadas com a essência da capoeira, suas razões de ser:

1º A SOCIALIZAÇÃO – os africanos trazidos pelos portugueses para o Brasil eram de várias etnias (bantos, sudaneses, mandingas, malés, etc), não falando a mesma língua, com costumes e religiões diferentes; sem direitos de cidadania e em terra estranha surgiu a tendência do relacionamento e convivência para fortalecimento do grupo heterogêneo em defesa dos interesses comuns.

Até hoje, os capoeiristas de diversas procedências tendem a criar “irmandades” nos seus relacionamentos de aprendizado.

2º A RESISTÊNCIA À DOMINAÇÃO – não se trata do confronto aberto, que seria suicídio, mas da não aceitação da condição de escravo. Sobreviver na situação de dificuldade estrema, pensar a longo prazo nas próximas gerações, miscigenação, sincretismo religioso, quilombos, capoeira.

Hoje o afro descendente está integrado à sociedade e fica o exemplo para todo cidadão, independente da cor da pele, para a não aceitação de qualquer tipo de dominação, seja social, econômica ou política.

3º O DIVERSIONISMO – mais fácil de entender em campo de batalha: o exército menor cria uma estratégia de fuga ou falso ataque em um local para atrair o exército maior adversário a uma emboscada. A capoeira com suas gingas e negaças está sempre tentando iludir o oponente para levá-lo à derrota.

OBSERVAÇÃO:

Todo o processo cultural – do qual a capoeira faz parte – é evolutivo.

Afirmar que as tradições não mudam não está inteiramente correto. As tradições não mudam em função do Mestre, da Escola ou Academia, de ser Regional ou Angola.

As tradições se mantêm na sua essência e evoluem em função do tempo, como a socialização entre os colegas de capoeira e a resistência à dominação que sempre vão existir. A capoeira defensiva, a comunicação e o relacionamento que antes ocorriam entre os escravos nos engenhos, evoluíram para os contra ataques dos tripulantes das embarcações e os trabalhadores dos cais dos portos e espalhou-se pela zona urbana com maior iniciativa de ataque.

A troca de idéias e experiências de forma secreta na senzala, passou a ser feita hoje em eventos, conferências, publicações literárias, via internet.

Mas a essência do companheirismo, da camaradagem, bem como o propósito de repelir qualquer tentativa de manipulação ou dominação continuam sem alteração.

 

RITUAIS.

O ritual consiste em uma série de atitudes e ações sucessivas e pré estabelecidas, criadas para orientar um evento, cerimônia ou “rito”.

Mudam em função dos criadores e praticantes que podem ser o Mestre, o grupo que coordena uma escola, os discípulos mais antigos, os seguidores de um estilo, etc.

Entende-se como ritual o “batizado” a “formatura” a “troca de cordão”, a “chamada” de Angola, o jogo de formados com toque de Iúna da Regional.

 

ESTILOS.

Regional, Angola, Abadá são estilos.

Cada capoeirista também pode desenvolver um estilo próprio. A maneira de gingar, a forma de mover os braços, a altura da cintura, o ângulo do tronco com a cintura, tudo faz parte de uma maneira individual, um estilo próprio de jogar capoeira.

OBSERVAÇÃO:

A “sequência” da Regional não é ritual nem estilo, trata-se de uma metodologia, uma sistemática de ensino desenvolvida por Mestre Bimba.

 

* Elaborado por: Mestre Oto

Leave a comment
Mais Artigos
comentários
Comentário

eleven + 5 =