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Nestor Capoeira – Capoeiristas, Pulp Fiction Tropical

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Capítulo 10 – Veneno da Madrugada

 

CAPOEIRISTAS

PULP FICTION TROPICAL

 

Nestor Capoeira

capítulo 10

 

Finalzinho do capítulo 9 

Estes “homens de dinheiro” e politicos, semelhantes aos militares de 1964-1984, não têm competência, nem criatividade, nem visão, para instaurar a verdadeira democracia que nosso país merece. e que tem todas as possibilidades de ter devido às suas riquezas e potencialidades.

Fim do capítulo 9

 

capítulo 10

 

VENENO-DA-MADRUGADA

 

RICARDÃO

Naquela tarde, quando Veneno ainda era um pre-adolescente, o La Vai Bola deu um show no futebol de areia.

Quando os dois olheiros do Fluminense se aproximaram de Veneno e Carlinhos Piu-Piu – que comemoravam a vitória do La Vai Bola no calçadão da praia de Ipanema -, Ricardão, um jovem marrudo e arrogante, ficou na bronca da inveja.

Mas não podia bater de frente com Piu-piu, que era maior doidão mas que não dava mole pra Kojack; treinava capoeira na academia do Peixinho e jiujitsu com o Rickson Gracie. E, alem de tudo, era irmão do Delano Bule que, na época, já trabalhava na Polícia Civil.

Sobrou pra Veneno, que era praticamente um menino.

Ricardão se aproximou de Veneno, já dando esporro:

“O veadinho, tu tá muito deslumbrado, pivete. Presta atenção! Presta atenção! Quando eu disser ‘passa a bola’, é pra passar a bola. Não é pra tirar uma onda de Garrincha e sair driblando até a linha-de-fundo pra centrar pra pequena área.”

Ricardão deu um empurrão em Veneno que recuou uns 2 ou 3 passos.

A galera, em silêncio e de braços cruzados, assistia ao teatrinho.

Todos se conheciam desde criança e Ricardão já conquistara seu lugar e privilégios há muito tempo. Na verdade, não havia novidade pra ver: todo o mundo já tinha passado por aquilo quando, ainda garotos, tinham levado uma dura de alguem da turma dos mais velhos.

Era quase um ritual de iniciação:

– Veneno ia levar uns cascudos, botar o galho dentro;

– Ricardão ia se acalmar;

– e ia todo mundo encher a cara no Mau-Cheiro, um botequim na esquina da Rainha Elisabete com a praia, que tinha um chope super-gelado.

Ricardão deu outro empurrão em Veneno, que recuou mais alguns passos.

“Hoje tu deu sorte porque o Piu-piu consertou as merdas que tu fez. Mas se continuar assim, querendo tirar uma de estrela, tu não vai ser convocado e ainda por cima vou te dar umas porrada pra tu cair na real. Nós somos um time e o capitão desta merda sou eu. Tu não é porra nenhuma; ainda tem que comer muito feijão com arroz. Entendeu, seu merdinha?”

E Ricardão deu mais um passo a frente, já na intenção de dar mais outro empurrão, ou talvez um tabefe na orelha de Veneno.

Ora, Ricardão na época, tinha uns 23 anos, quase 10 a mais que Veneno; era uma cabeça mais alto, e uns 20 quilos mais pesado; tinha muita experiência de tatame, e também de briga de rua.

Por isto ninguém reparou que, apesar do garoto manter uma expressão neutra e boba no rosto, e de ir recuando calado à medida que levava empurrão; um brilho mau tinha iluminado, por dentro, o olhar quase infantil de Veneno.

E talvez por Veneno ser tão jovem – 14 anos , ninguém lembrou que em casa de malandro, vagabundo não pede emprego.

 

A PANTERA NEGRA

Quando Ricardão começou a dar esporro, aquela coisa escura e terrível que morava dentro de Veneno acordou.

Veneno reconheceu-a imediatamente: o mesmo lance de dois anos atrás quando enfrentou Zeno, um pivete mais velho que disputava a liderança da turma da Estação de Trem Japeri – estação terminal de uma linha da Estrada de Ferro Central do Brasil.

Em Japeri, Veneno fingiu medo – “… calma meu irmão, não precisa esquentar”. E quando Zeno cresceu e baixou a guarda, Veneno entrou com tudo numa cabeçada na boca do estomago.

Zeno caiu esparramado no meio dos trilhos e Veneno, que já no início da discussão tinha localizado uma pedra de bom tamanho no chão, apanhou-a rapidamente e desceu a mão com pedra e tudo na cabeça de Zeno. O moleque caiu pra tras semi-desmaido.

Veneno ficou em pé imóvel, triunfante e excitado, os olhos brilhando de maldade, com o corpo do adversário estendido a seus pés.

Era como se, possuído por aquela coisa poderosa que o fazia sentir-se superior e invencível, visse o mundo de cima de uma alta Torre de Ébano Negro.

 

FOSFORECENTES OLHOS AMARELOS

Agora a mesma coisa, a mesma Força Escura.

O Predador, negro e reluzente como um grande felino, acordou, bocejou, e seus fosforecentes olhos amarelos olharam – de dentro para fora, através dos olhos quase infantis de Veneno – o mundo ao redor.

O brilho do sol da tarde de sábado ofuscou o Grande Felino por uma breve fração de momento, mas logo suas pupilas se adaptaram à inusitada claridade.

O Grande Felino Negro atravessou a folhagem tropical caminhando ondulando suavemente num tempo imemorial, num espaço desconhecido dos mortais, E aproximou seus olhos, por dentro, até quase tocarem as pupilas de Veneno. Então, com uma deliberada calma fria e curiosa, fixou seu amarelo olhar fosforecente na sua presa.

Veneno já não via Ricardão como um cara mais velho e mais forte; via apenas um otário que se aproximava cheio de marra e com a guarda baixa.

Quando Ricardão preparou o empurrão, sempre esbravejando, Veneno deu um rápido passo à frente, e soltou seu martelo de direita.

 

O MARTELO

Malhado, o sambista e malandro que dominava geral a Estação de Japeri, tinha sido um bom professor: todos pivetes da área eram instruídos na arte da tiririca – a capoeiragem carioca, herança das violentas maltas que tinham tocado o terror no Rio de Janeiro durante todos os 1800s. E, dentre eles, destacava-se o adolescente Veneno-da-Madrugada.

A perna de Veneno subiu rápida e certeira como se fosse uma lâmina de aço flexionada que subitamente é liberada.

O pé passou alto e veloz por cima do ombro esquerdo de Ricardão, já na intenção da orelha e da têmpora e do lado da cabeça.

Veneno, atento, a visão clara e cristalina, totalmente aqui e agora, esperava o desfecho: quando o pé explodisse na cabeça de Ricardão, o falastrão ia, ou cair apagado, ou então bambear e dar uns passinhos bêbados antes de desabar no chão. Era só ficar calmo, ver como ia terminar a novela, localisar uma brecha na confusão de braços e pernas do inimigo que se estabacava, e entrar com tudo, chutando novamente a cabeça do mané, finalisando a peleja.

Mas não foi isso que aconteceu.

Ricardão era um lutador experiente.

Mesmo pego totalmente de surpresa, seus reflexos reagiram. Desviou instintivamente a cabeça – mas não o suficiente -; e o martelo de Veneno não encaixou em cheio, pegou de revesguete.

Mas, mesmo assim, tinha sido um porradão. Ricardão balaçou, tonteou, mas não caiu.

Recuou dois passos trôpegos, mas já com a guarda de box fechada, protegendo o queixo e as têmporas.

Veneno ficou olhando, surpreso, mas sem perder o foco da situação.

Em volta, os dois times de futebol olhavam completamente boquiabertos: aquilo era algo totalmente inusitado e inesperado..

Carlinhos Piu-piu, que se amarrava em Veneno, se aproximou rápido e murmurou: “Vaza! Vaza, moleque! Cai fora!”

Veneno, sem saber o que fazer – fugir ou encarar? -, continuava ligado em Ricardão que, agora, ensaiava uns passinhos de box mas ainda sem partir para o ataque.

Aí, Veneno se lembrou  da pedra.

 

HAVIA UMA PEDRA NO MEIO DO CAMINHO

Veneno se lembrou da pedra.

Da pedra que tinha rachado a cabeça de Zeno.

E tambem do monte de pedra portuguesa deixado pelos operários que consertavam a calçada da rua Teixeira de Melo, logo ali pertinho.

Veneno recuou alguns passos.

Ricardão avançou devagar, cauteloso, sempre na guarda do box.

Aí, Veneno deu as costas, botou vinte no veado, e saiu correndo avoado.

Atravessou a mil a Avenida Vieira Souto se desviando dos carros, e só quando dobrou na Teixeira de Melo arriscou uma olhadela pra trás.

Ricardão, quando viu Veneno correr, sacudiu a chocolateira pra clarear as ideias, deu um grunhido de raiva, e partiu atrás.

Agora, Ricardão tinha acabado de atravessar a Vieira Souto e corria a toda. Entrou na Teixeira afobado, com medo que Veneno pudesse escapar.

Dobrou a esquina e, aí, deu um branco.

Ricardão não entendeu bem o que estava acontecendo: Veneno, em vez de estar correndo lá na frente, estava parado na calçada – imóvel no meio do quarteirão.

Ricardão não parou para raciocinar. Ao contrário, deu outro grunhido e engrenou uma terceira.

Não reparou no monte de pedras portuguesas atrás de Veneno.

Nem tampouco que o pivete segurava uma pedra – pedra negra e dura, com aquelas arestas de quase cubo – em cada mão.

Ricardão se aproximou na corrida.

Veneno deu uns 2 ou 3 passos largos, ritmados, e lentos na direção de Ricardão. Fez um movimento amplo que lembrava o dos lançadores do beisebol americano.

A pedra partiu e acertou Ricardão em cheio no meio da ideia.

Os braços de Ricardão continuaram a se movimentar. mas num movimento atabalhoado. As pernas amoleceram em plena corrida. Os olhos rolaram para cima. E o zé grandão desabou, se desmanchando pela calçada quase aos pés de Veneno.

 

MÁRMORE NEGRO

Anos depois, quando visitou um museu na Europa e deu de cara com a estátua de David segurando a funda com a pedra, pouco antes de seu combate com Golias; a primeira reação de Veneno foi de estranheza.

Alguma coisa estava errada.

O olhar era aquele mesmo; estava correto.

Não era o olhar de um pastor adolescente e otário subitamente iluminado por Jeovah.

Era o olhar ameaçador, frio, calculista, letal, de um homem jovem que conhece e tem intimidade com a violência e com as ferramentas da Guerra e da Morte.

Um homem jovem que decide arriscar a própria vida apostando numa  estratégia inesperada e um tanto louca: despir a armadura do rei que, apesar de proteger, iria tolher seus movimentos; esquivar-se das tres lanças de Golias; provacar o gigante fazendo pouco de sua competência.

E quando, enlouquecido pelo orgulho, Golias atacou sem se preocupar com a defesa; David usou a funda com a pedra.

O gigante tombou.

David cortou a cabeça do inimigo com a própria gigantesca espada dele; agarrou pelos cabelos o troféu ainda vertendo sangue aos borbotões; levantou alto a medonha cabeça, exibindo-a, arrogante e despudoradamente, ao estremecido exército inimigo.

O olhar de David estava correto – era aquilo mesmo -, mas alguma coisa estava errada.

Só então percebeu que estava pensando que a estátua deveria ser de mármore negro – negro como ele, Veneno, e não branco.

Sorriu, e finalmente pode curtir totalmente a beleza da obra de Michelangelo.

Mas foi na Praça Saint-Michel, em Paris, com a estátua de São Miguel Arcanjo em bronze – transfigurado num quase extase religioso -; e, caído aos seus pés, Lúcifer – Aquele Que Porta a Luz, o mais belo dos Anjos do Senhor já metamorfoseada em demônio -; foi ali que Veneno comprendeu total e profundamente uma das possibilidades da Obra de Arte.

A  Arte se torna magnífica quando retrata um Grande Momento que pode ser vivenciado pelo ser humano.

E Veneno se reconheceu no Arcanjo assim como tinha se reconhecido no David:

– igualzinho quando ficou no meio dos trilhos de Japeri com Zeno caído a seus pés;

– e igualzinho quando, Ricardão desmaiado com a boca aberta babando, Veneno tinha lentamente lentamente lentamente se aproximado do inimigo; abaixou-se e olhou-o de perto; e em quase êxtase, energisado pela adrenalina que corria loucamente pelas suas veias, ficou novamente em pé, o corpo todo tremendo levemente elétrico, e ergueu os deslumbrados olhos amarelos fosforecentes para o céu.

 

SARTORI / EPIFANIA

Isso tinha acontecido há muitos anos atras.

O tempo passou.

Quando Veneno, comendo uma moqueca de peixe num botequim no dia do jogo do Brasil, percebeu a troca de maletas entre Piu-piu e o Gringo Grandalhão, em frente ao Hotel Copacabana Palace, não teve dúvidas: compra de drogas, das pesadas.

Veneno entrou em alfa, e logo em beta, e gama e delta.

Sentiu calafrios.

Sentia o corpo arder em febre, os cabelos se arrepiaram.

Pouco depois, percebeu com o canto do olho que a luz da suite do terceiro andar do Copacabana Palace – a única que estava apagada – tinha acendido.

Tinha acendido no tempo que demoraria para o Gringo Grandalhão chegar ao seu quarto.

E com a luz que se acendeu na suíte, tambem fez-se luz na mente de Veneno.

Uma calma incomensurável se apossou dele – epifania, sartori.

Veneno, em 2 ou 3 segundos, percebeu tudo ao mesmo tempo:

– as ruas desertas;

– as pessoas nos apartamentos e bares completamente hipnotisadas pelo futebol na televisão;

– a noite que já tinha chegado – todos os gatos são pardos -;

– Piu-piu que partira de carro com as drogas, e o gringo que voltara para sua suíte com a grana de Piu-piu;

– a elegante arquitetura do Copa Palace, com suas colunas de estrias horizontais, quase como uma escada;

– percebeu, até mesmo, que estava vestindo uma roupa tipo moleton bege claro, da cor das paredes do Copacabana Palace – camuflagem perfeita -; e que, alem de tudo, tinha um capuz adendo ao casaco, que esconderia seu rosto.

O corpo de Veneno moveu-se por si só.

Qualquer um diria ser uma loucura escalar a parede do hotel cinco estrelas para entrar no quarto de, talvez, um mafioso grandalhão, atual dono da maleta de executivo que, talvez, estivesse cheia de dólares.

Outros diriam que o bom jogador faz a coisa certa no momento certo; mas só o verdadeiro mestre faz a coisa errada no momento certo.

Mas Veneno estava em outra. Ele era apenas um passageiro atento e lúcido transportado por aquela carcaça de ossos, músculos e sangue – seu próprio corpo -, que se movia rápido e  harmoniosamente por conta própria.

 

 

AS TORRES DAS IGREJAS

Veneno-da-Madrugada matutava com seus botões e relembrava os fatos recentes, acontecidos no Copacabana Palace, enquanto olhava a festa louca que rolava na Praça do Lido.

Alheio ao seu racional, seus pensamentos, aos poucos, recomeçaram a viajar nas lembranças das estórias de seus ancestrais mitológicos – os negros capoeiras, as maltas de 1800s, Manduca da Praia, os malandros de 1920, os mestres Bimba e Pastinha.

Entre estas lembranças havia uma que, naquele momento, o obcecava: é que, por volta de 1830 – época, como vimos, de muitas ocorrências -, pela primeira vez, aparecem relatos de capoeiristas escalando, por fora, as torres de igrejas e saltando sobre os sinos – com perigo de queda e morte -, cavalgando-os, fazendo-os soar inesperadamente de madrugada, ou em dias de festa e procissão, ante o olhar embabascado da multidão. 

As igrejas eram marcos nítidos e importantes das diferentes áreas e freguesias da cidade; e “dominá-las” era simbólico de dominar aquela freguesia.

Esta lembrança das igrejas, que girava e tornava a girar na cachola de Veneno, vinha provavelmente do texto de algum livro do iluminado e luminoso Frede Abreu ou de Waldeloir Rego; ou talvez de uma palestra de Muniz Sodré num evento de capoeira na academia de algum conhecido.

Pode ser.

Mas mesmo assim, Veneno sentia-se confuso e um pouco perturbado.

É que, ao escalar a fachada do Copacabana Palace sem nenhum esforço e sem nenhum preparo prévio, Veneno teve a nítida impressão de já ter realisado façanha semehante muitas vezes, há muito tempo atrás.

E aquela escalada naquele cenário difuso e distante tambem tinha uma trilha sonora: o bimbalhar de grandes sinos de bronze das igrejas de épocas remotas.

 

A CANÇÃO DE VENENO-DA-MADRUGADA

É, meu nome é Veneno,

Veneno-da-Madrugada.

De Iansã eu tenho o raio,

de Ogun tenho a espada.

 

Eu sou livre como o vento,

venho de uma linhagem nobre;

Só respeito o velho Tempo,

com o Tempo ninguem pode.

 

Na roda da capoeira

o meu golpe nunca falha;

Tenho fé no meu Axé

e no fio da navalha.

 

Galo cantou!

côro: Eh, galo cantou, camará!

 

(Nestor Capoeira, 2014; CD A balada de Noivo-da-Vida e Veneno-da-Madrugada)

 

 

INTERMEZZO

 

O bom de escrever livro é poder, a qualquer hora, mudar a estória, criar novos personagens, e até começar a bater papo com o leitor, ou a leitora.

Vejam bem o que está acontecendo:

 

VENENO

 Veneno, um cara firmeza, muito bom de porrada mas sempre na dele, entrou numa grana firme.

Eu diria que, com aquela grana, Veneno poderia curtir uns dois anos na maior. Ou até comprar um conjugado em Copa; ou um quarto-e-sala no Leme, no alto da Ladeira Ary Barroso pertinho da Babilônia e do Chapéu Mangueira, com vista para o mar – duvido muito que ele faça isto.

Fora o recente lance do dinheiro, Veneno sempre teve aquele “probleminha”: um predador alienígena, ou talvez de outra gira cósmica, mora dentro do cara.

Veneno tinha aqueles sartoris e êxtases quando embarcava na Violência. Em Paris – no A Balada de Noivo-da-Vida e Veneno-da-Madrugada -, por pouco ele não assassina o Dr. Turíbio pelo mero prazer de triscar a jugular do gordinho com sua Solingen.

Mas a Escola da Malandragem, e a Malícia da capoeira, fizeram a cabeça de Veneno: ele sabe que quem bate esquece e quem apanha lembra; que Valente sempre morre na mão de Otário; e que etc e tal.

Paradoxalmente, ou talvez deveríamos dizer “complementarmente”, Veneno é um filósofo nato; gosta de observar a vida e as pessoas, e gosta de observar a si próprio.

Sua concepção de vida lembra à de determinados filósofos gregos da antiguidade, que preconizavam a “sabedoria da ação”. Ou então, aos que procuravam determinar o Bem e os meios de alcançá-lo.

Neste momento, Veneno conquistou a possibilidade de viver alguns anos fazendo o que quiser; sem preocupações de dinheiro; no Brasil, ou no estrangeiro, que ele já conhece. Neste momento, Veneno esta livre, leve, e solto; com muita grana e sem compromissos, sem nenhum elo que o prenda à alguem ou a alguma coisa.

 

NOIVO

 Noivo, um jovem que inicialmente só queria ser “mais um jogador, solto no mundo e na vida”.

Mas com o lance da visão clarividente, previra o futuro, e foi mordido pela mosca azul do Poder: resolveu participar ativamente do devir, e “ajudar” o desenrolar dos acontecimentos. Era uma atitude tão Don Quixote que Toninho ria consigo mesmo das pretensões do amigo mais velho e experiente.

Até o dia em que Noivo explicou ao jovem Toninho: “imagina que você pode prever tudo o que vai acontecer; e que dinheiro não é problema; você não ia querer dar uma porrada firme nesta merda que está aí fora?”

Mudar, shapear, o futuro!

É seguramente o sonho de todo super-herói, de todo megalomaníaco, de todo artista!

Mas quando Noivo perdeu sua visão – e seus utópicos sonhos desabaram -, logo em seguida separou-se dos amigos, e finalmente desentendeu-se e se separou de Ingrid.

O mínimo que se pode dizer é que o cara tava fudido.

Mas eis que agora parece que Noivo tomou pé e vai encetar um novo movimento qualquer. O que será?

Uma volta aos ideais de liberdade de sua juventude?

Ou um sucedâneo para a malograda utopia de ajudar a melhorar o mundo?

 

TONINHO

Toninho Ventania amadureceu e se transformou num jovem e elegante Malandro.

Aprendeu as lições básicas sobre o sexo e a sensualidade com mestre Leopoldina, Mr. X, e inúmeros cafetões, cafetinas, gigolôs e putas. Está tendo um sucesso extraordinário com as mulheres.

Esta curtindo o lance, mas tambem esta preocupado.

Toninho se lembra de um período que passou em PortoBelo Road, em Londres; ele, Veneno, Noivo, grana, e muita mulher.

E aconteceu que, no final da gira, e no final da grana, Noivo e Veneno tinham saído fora numa boa. Mas Toninho, que estava curtindo um lance de machão super-potente, tinha ficado bem caído, de saúde e de cabeça.

Mas o próprio Toninho sacava que o problema era que, apesar de conhecer a teoria, apesar de ter posto a teoria em prática numa boa; ele não tinha, naquela época, se livrado de determinados aspectos e fantasias da cultura machista na qual tinha sido criado – no lar, na escola, enfim, no Mundo dos Otários onde eu e você caro leitor, prezada leitora, habitamos.

Será que agora Toninho já tinha crescido o suficiente para viver a vida como um verdadeiro Malandro, e aguentar os retrancos com os quais as mulheres, as pessoas, a sociedade, e todo o Sistema, certamente iriam lhe responder?

Existem, sempre, as respostas “materias” do Sistema; dentre essas, evidentemente, a Polícia era uma instituição com a qual Toninho teria de tomar especial cuidado. Os maridos violentos, idem. Mas esta parte não era tão complicada assim, bastava pisar no chão devagarinho.

O problema maior era saber se ele, ele próprio, já estava livre dos esquemas mentais que castram a liberdade dos indivíduos: a necessidade excessiva de ter Poder, de ser admirado e paparicado, de ter status; a vaidade, o orgulho;  a falta de visão e comprensão a respeito das pessoas e situações.

Será que Toninho já estava “feito”?

 Gato escaldado tem medo de água fria.

 

ESTRANHAS “MEMÓRIAS”

E tem estes lances das “memórias” e “lembranças” dos 3 heróis: as maltas cariocas dos 1800s, os sinos da igreja, as praças como centros nevrálgico-sociais, Manduca da Praia e Sampaio Ferraz, o Cavanhaque de Aço.

Muito estranho.

Tudo bem; são os ancestrais mitológicos do capoeira, e tudo o mais. Mas, mesmo assim, é tudo, tudo muito estranho.

 

OS ESTRANHOS

E tem o Encantado – o Mão de Faca.

E o Predador; o Felino Negro, de uma outra dimensão, que mora dentro de Veneno.

Serão entidades diferentes mas da mesma “área”, da mesma forma que existem diferentes Orixás no Candomblé, e difrentes Anjos e Arcanjos e Demônios na Igreja Católica?

E a visão de Noivo?

Seus planos de intervir no Destino?

Sera que isto tambem não é sinal de algo extra-natural?

E, por outro lado, o extraordinário sucesso que Toninho tem com as mulheres; sera que o Encantado, que está na Terra para curtir os prazeres e desafios da materialidade, está pegando uma caroninha ao acaso com aquelas quatro mineiras maravilhosas?

 Lembrem-se do que Toninho Ventania comentou: “… incendiárias!”.

 

CAINDO NA REAL

Isto está até parecendo aqueles romances de batalhas de Arcanjos e Querubins, misturado com Guerra nas Estrelas, e Carie, a Estranha.

Não é.

Ou, ao menos, espero que não seja.

Pode até querer ser um pouco Matrix.

Pode querer ter aqueles flashbacks, que vão ao passado e voltam, do Pulp Fiction de Quentin Tarantino.

Querer ser um épico tipo trilogia Godfather – tanto nos filmes do Coppola, quanto nos escritos do Mario Puzzo.

Certamente gostaria que este livrinho tivesse a mesma magia que, tiveram na minha infância e pre-adolescência:

– os livros de Tarzan do Edgar Rice Burroughs – coleção Terra-mar-e-ar – ;

– o Sherlock Holmes de Conan Doyle, com seu violino Stradivarius, seus inacreditaveis picos de morfina e cocaína para administrar o tédio, e seus cachimbos de ópio;

– as belíssimas estórias-em-quadrinhos do Príncipe Valente, com os extraordinários  desenhos de Hal Foster;

– e Jack London com o Livro da Jangal, e Caninos Brancos.

Infelizmente não conheci Monteiro Lobato e Mark Twain, na infância.

Quando, adulto,  revisitei aquela ala da galeria, só brilharam alguns do Jack London e os desenhos do Hal Foster.

Já no final da adolescência, na saída dos anos de teenager:

– os Capitães da Areia do Jorge Amado,

– a Trilogia Encarnada do Henry Miller,

– a enciclopédica História dos povos de lingua inglesa do Winston Churchil,

– o Tender is the night e o Great Gatsby do Scott Fitzgerald,

-o Velho e o mar do Hemingway.

Mas já era tarde demais. Eu curti aqueles livros, é verdade. Mas nunca mais re-encontrei a magia das leituras dos livros de aventuras da infância.

Depois, é verdade tive a sorte de conhecer a Grande Arte do Rubens Fonseca, e os livros do Bukowvsky.

Estou divagando.

E apesar de não dever nada a ninguem. Nem de ter de escrever em determinado estilo (pois meus livros anteriores não fizeram um grande sucesso, que seria algo que aprisionaria o escritor àquilo que deu grana). A verdade é que não consigo escrever na maior, sem nenhuma restrição.

Tenho um grande medo.

Medo de ser chato.

Demos uma escorregadinha, é verdade, nos últimos parágrafos deste Intermezzo.

Mas já passou.

E não doeu tanto assim.

 

 

A ESTRATÉGIA DA ESQUIVA

Placido de Abreu foi um jornalista e escritor do fim dos 1800s. Era um intelectual fascinado pela capoeiragem, na época em que as maltas se agrupavam em dois grandes grupos: os Guaiamus e os Nagoas.

Placido de Abreu realmente viveu intensamente a capoeira, seus meandros e infra-estrutura, e nos deixou um livro – Os capoeiras (1886) – que nos proporciona surpreendentes insights do Império da Navalha – tiulo dado, pelos jornais e tablóides, ao conglomerado formado pelos políticos do fim do Império com as maltas de capoeira.

 Há pouco tempo o bando Guaiamu costumava ensaiar os noviços no morro do Livramento, no lugar denominado Mangueira.

Os ensaios faziam-se regularmente nos domingos de manhã e constavam dos exercícios de cabeça, pé, e golpe de navalha e faca.  Os capoeiras de mais fama serviam de instrutores.

… se os chefes (de maltas inimigas, ligadas aos Guaimus e aos Nagoas) decidiam que uma questão fosse resolvida em combate singular, enquanto os dois representantes das cores vermelha e branca se batiam, as duas maltas conservavam-se à distância e, fosse qual fosse o resultado, de ambos os lados rompiam aclamações ao triunfador.

A chegada da polícia desarticulava os dois grupos que fugiam de forma organizada.

Já existia, em 1886, não somente a capoeira com uma identidade e filosofia – a malícia -, mas também um método de ensino racional e estruturado para transmitir, não somente as técnicas – “constavam dos exercícios de cabeça, pé, e golpe de navalha e faca” -, como também o axé e o saber – “os capoeiras de mais fama serviam de instrutores”.

Já existia também uma “ética”: “se os chefes decidiam que uma questão fosse resolvida em combate singular, as duas maltas conservavam-se à distância e, fosse qual fosse o resultado, de ambos os lados rompiam aclamações ao triunfador”.

Além disto, vejam bem: “… os dois grupos fugiam de forma organizada”.

Certamente, além do Valente – um tipo social que existe em todos países do mundo -, já podemos sentir uns ares de malandragem – um tipo de estratégia social inicialmente carioca, e em seguida brasileira -; e de malandragem “organizada”!

Aliás, esta “fuga organizada”, que já é parte da malícia naquela época, vai ser citada por mestre Bimba como característica da capoeira baiana quase cem anos depois, en 1960:

“Quem aguenta tempestade é rochedo”

Ou seja, o capoeirista, que é um homem e não um rochedo, foge quando a parada é dura demais.

Então esta “fuga organizada”, que é citada por Plácido de Abreu em 1886, e também é mencionada por mestre Bimba por volta de 1960, foi incorporada definitivamente à malícia e vai dar na “estratégia da esquiva”, que prefiro chamar, carinhosamente, de A Arte da Esquiva . Em oposição à uma estratégia de “bater de frente”, ou de “bloquear”, de várias artes marciais; algo que tambem vemos no quotidiano extremamente competitivo do mundo Ocidental.

A esquiva, assim como a rasteira (o capoeira desce se esquivando, ao mesmo tempo que derruba o adversário), é parte do jogo; e também da maneira do capoeirista lidar com os “ataques” que sofre no seu dia-a-dia.

Esta Arte da Esquiva tambem poderia constituir parte de “uma maneira de ser brasileira”, poderia constituir um dos fundamentos de uma “Escola Filosófica Brasileira”.

 

 

Fim do capítulo 10

Capítulo 9 – Toninho Ventania

 

CAPOEIRISTAS

PULP FICTION TROPICAL

 

Nestor Capoeira

capítulo 9

 

Finalzinho do capítulo 8 

Zequinha foi até o pé-do-berimbau; Noivo seguiu-o; e Zequinha, sem se benzer nem cumprimentar o estranho, deu um aú e um sensacional salto-mortal aterrisando no meio da roda onde começou a gingar com competência e confiança.

Fim do capítulo 8

 

capítulo 9

 

TONINHO VENTANIA

 

 

A GORDINHA COM ASCENDENTE EM AQUARIUS

Tinha esta gordinha, bem mais moça que a geração das minhas balzacas – chamava-se Leticia Efigenia Fulustreca de Tal. O pai era um médico cirurgião famoso, a mãe era dona de uma loja de moveis finos e tapetes orientais; tinham tambem uma fazenda de gado – herança de família -; gente de posição mas sem ser milionário.

Era bonitinha, mas sempre tinha sido gorda numa cidade onde faltava homem e sobrava mulher. Entrou numa de estudar, os pais bancaram: administração de empresas, mestrado em São Paulo, etc e tal.

Eu conheci a Leticia na festa de aniversário do dono de uma das duas boatezinhas chiques e avançadas de Belô, a Toy Toy.

A casa estava abarrotada de minas e de casaizinhos love story dançando; os poucos homens livres se agrupavam, bebendo, falando da bolsa de Wall Street e de futebol. Eu me acabava na pista de dança junto a minha balzaca número um – Lucia -, uma cavalona tipo italiana, 42 de idade, que dominava os circuitos sociais da alta alternativa.

“Meu amor”, falou Lucia, “vou ter de sair mais cedo, amanhã tenho um business meeting as nove horas. Detesto te deixar sozinho no meio dessas vadias”.

Lucia era a única que saia comigo abertamente. Eu, se estava com uma mulher, não ficava galinhando, nem dando mole pra concorrência que ficava mandando olhares calientes, beijinhos, e até bilhetinhos pelo garçon – eu valorisava as minhas minas.

“Sem problemas, meu amor”, eu ronronei no ouvidinho dela, “amanhã vou na piscina do Fulaninho, podemos nos encontrar lá as duas da tarde”. O amanhã era um sábado.

Aí a Lucia viu a Letícia que estava dançando num grupo de tres outras moças, perto de nós.

“Letícia! Letícia! Vem cá!”

A gordinha, que tambem era altona, chegou cheia de animação alcoólica fazendo umas coreôs tipo Saturday Night Fever – acho, até, que a música era aquela do filme.

“Letícia, esse é o Antonio”, a Lucia nunca me chamava de Toninho, “tenho de ir embora e não quero deixá-lo sozinho e abandonado. Sera que você tomava conta dele para mim?”

Dançamos de montão, as amigas dela se achegaram, foi a maior onda.

No fim da noite ficamos batendo papo na mesa do aniversariante até as 10 da manhã. Ela imaginou que eu fosse mais um retardado mental e começou com uns papo tati-bi-tati dela ter ascendente em Aquarius; mas logo depois da segunda vez que o baseado rodou na nossa mão, trocamos altas ideias.

Na sequência nos encontramos várias vezes, ainda mais pela Lucia ser amiga dela e saber que não havia perigo com a Gordinha; ela não era, nem de longe, concorrência.

 

TOY TOY

Uma ou duas semanas depois, estava sozinho dançando no Toy Toy – na real, as noturnas boas eram o Toy Toy ou o Hanoy – e encontrei a Leticia Gordinha.

“Estou  cançada de ser gorda”.

“Agora que você falou, reparei que voce deu uma emagrecida legal”

“Você notou?”

“Claro? Quantos quilos você perdeu? Três? Quatro?”

”Na verdade, foram seis.”

“Seis?”

“Seis. Eu estava muito gorda, por isto não dá pra notar”.

“Parabens. Dou o maior valor. É muito difícil a gente dizer ‘não’ pras vontades. Tá sendo muito difícil?”

“Até que não. Fui no dr. Alberto; ele é muito conhecido aqui em  Belô; tem um método que une umas pilulas que você toma três vezes ao dia, com dieta.”

“Tres vezes ao dia? Sei…”, bem que eu tinha notado que Leticia, alem de emagrecer, estava mais acelerada que de costume. Tava ligadona de anfeta sem nem saber disso.

“É, três vezes. Já vai fazer um mes”.

“Tou vendo que está funcionando. Voce esta muito bem”.

“Obrigado. Mas, imagina; nem estou seguindo a dieta. Não preciso. Não tenho fome nenhuma.”

“É mesmo?”

“É. E ando com uma disposição danada. Trabalho 11 horas por dia, caio na balada, durmo pouco, e estou sempre cheia de disposição. Fechei tantos contratos no mes passado que vou  ser promovida”.

“Que bom, as pílulas estão funcionando de verdade”.

“E junto com as pílulas, tem uma dieta preparada pela nutricionista. É uma dieta que varia de acordo com o perfil de cada paciente”.

“Haute couture, nada de pret-a-porter. Deve custar uma grana.”

Leticia riu. “Pret-a-porter! Você é engraçado! Sempro me esqueço que você morou na França e destrói no francês. Só me lembro de você jogando capoeira…”, aí ela enrubesceu, “lá na Praça da Liberdade”.

 

Eu soube, naquele momento que, alem de estar ligadona – nos 1960s e 70s, os médicos receitavam pílula da pesada para tudo; ninguem considerava a pilula do dr. como “droga” -, ela tambem estava doida pra me dar. É uma coisa curiosa. mas uma mina que nunca te deu muita bola, quando pela primeira vez te ve jogando, muita vezes gama.

Sério.

Paixonite mesmo.

Eu guardei a informação num escaninho na Torre de Pensamento.

Eu tinha minhas quatro balzacas que me davam vida mole mas  nunca se sabe o dia de amanhã. O futuro a Deus pertence. A verdade é que a Gordinha tinha um puto emprego, a família tinha grana, e alem de tudo era uma moça cem por cento legal; contra fatos, não há argumentos.

 

Pois nessa mesma noite que rolou esse papo abobrinha, um playboy local entrou numa comigo.

“Rebola, neguinha; mexe esse cuzinho”, dizia o mané olhando pra mim enquanto eu  dançava na pista com a Leticia e mais umas duas amigas delas.

Eu fingia que não ouvia; o cara já estava meio bebum, e eu não era otário de me meter em confusão, logo ali, na Toy Toy, minha área de caça e playground da jeunesse doreé.

 

TIROTEIO

Mas inesperadamente o babaca pulou na minha frente, fez uns movimentos made in Hong Kong tipo Bruce Lee com os braços, e mandou um socão direto. Eu estava distraído e por pouco o cara não me arrebenta a boca.

Desviei no susto e, sem pensar, enfiei-lhe uma cabeçada no meio dos cornes.

Ele saiu cambaleando tipo marcha ré; se estatelou no chão; levantou e saiu da buate.

Foi um lance tão rápido e inesperado que não houve nem comoção. Pouca gente sacou que ele tinha levado uma porrada; pensaram que ele tinha caído de bêbado.

Eu continuei a dançar com as três minas como se nada tivesse acontecido. Elas, por sua vez, não  entenderam nada; mas vendo que eu continuava na boa de antes, reataram a dancinha – elas eram umas gracinhas, gentís e tudo o mais; mas ligeiramente retardadas. E aquele lance – acontecer alguma coisa extraordinária, mas as pessoas fingirem que não tinha rolado nada -, aquilo era bem típico da high society de Belô, e as minas tinham sido educadas naquela escola desde nenem.

Eu continuei a dançar aparentemente descontraído mas fiquei numa posição que podia ver a porta de entrada. Todo mundo sabe: quem bate esquece, quem apanha, lembra; e eu é que não ia marcar nenhuma bobeira básica.

Não deu outra.

O babaca entrou numa, pegou um revólver que sempre levava no carrão importado, e voltou a boate já lascando o dedo.

Eu vi ele entrar porta adentro todo agitado e levantar o braço com o  revólver na mão. Quase que não acreditei. Mas me abaixei desaparecendo no meio da rapaziada que  dançava ao meu redor.

O play me errou e acertou a Leticia na clavícula.

Uma gritaria danada; e eu, abaixadinho, saí pelo lado da pista, contornei algumas mesas me desviando das pessoas que se levantavam alvoroçadas; e me mandei.

Foi um tititi da porra, saiu no jornal e o  caralho.

O cara disse na polícia que eu  era traficante e tinha querido vender maconha pra ele. Mas ele não sabia meu nome. Ninguem sabia, eu era apenas o “Toninho”.

Leticia e as amigas, mineiras espertas, disseram não saber de nada; estavam na pista dançando quando ouviram o tiro, e viram a Leticia berrar de dor.

E  eu, que já estava em Belô dando um tempo do Rio, ao ler as manchetes do jornal na manhã seguinte, saquei que tinha de sartar fora. Peguei meu berimbau na sua capa de couro, e uma maleta com tres pisantes invocados e algumas altas becas que as minas estavam sempre me presenteando, fui ate a rodoviária e embarquei para São Paulo.

 

 

OS ENTENDIDOS EM MANDINGA

 

Como vemos, Toninho Ventania estava se tornando um malandro bem falante e elegante.

Não se enganem, não é uma tarefa fácil.

Malandro tem de ter excepcionalidade ou então, para sobreviver, acaba virando esperto, golpista, descuidista, 171, escroque, cafetão, e até entra pra turma da pesada e vai assaltar banco.

Ou então, mesmo se não tiver um talento excepcional numa determinada área, talvez o malandreco tenha sorte, ou padrinho – quem tem padrinho não morre pagão.

Arranja um emprego de escrevente no Jogo do Bicho; escriturário ou fiscal nas docas – essa é uma boa, dá pra participar de uns contrabandozinhos com um risco mínimo -; chofer numa repartição pública – o falecido Camisa Preta, contramestre do Roque Cachaça no morro do Pavão  e Pavãozinho em Copacabana em 1970, era chofer da Comlurb, a companhia da limpeza pública no  Rio de Janeiro.

Mas não era o caso  de Toninho Ventania.

O cara era uma fera na capoeira, um craque nos instrumentos musicais de percussão – berimbau, atabaque, e mandava bem em qualquer peça da bateria de Escola de Samba -, dançava pra caralho, era alto e boa pinta, cantava bem, entendia de sexo e mulher, e era bom de porrada – diziam, nas internas, que era um perigo com a navalha.

Para um cara classe média, Toninho seria algo inimaginável, quase um super-herói. Mas vários capoeiristas tambem desenvolvem estes prestígios. É como um engenheiro bonitão que conhece e domina o Cálculo Integral, Cálculo Diferencial, Cálculo Vetorial, Geometria Descritiva, etc. e tal.

O mais importante, o que tornava Toninho realmente excepcional, era sua cabeça. Ele era um malandro jovem, mas muito inteligente; entendia como as pessoas funcionavam, e o que as movia; analisava uma determinada e surpreendente situação em fração de segundo; e até Sorte o sacana tinha.

Mas este tipo de cara fora-de-série não é uma novidade no mundo da malandragem, da capoeira, e do samba.

Na verdade, estas atividades só conseguiram  sobreviver às duras perseguições policiais – que se tornaram mais agudas e estruturadas com a chegada de D. João VI e a criação da Guarda Real em 1806 -, devido a este tipo de personagem fora-de-série que aparecia, de tempos em tempos, às vezes até em magote.

Evidentemente, isto não acontece só nas classes desfavorecidas e nas suas expressões culturais. Pense naqueles caras que pintaram na MPB por volta de 1960: Vinicius de Moraes, Dorival Caymi, Tom Jobim, Chico Buarque; é uma turma de playboy cabeção.

 

A “CONSTRUÇÃO” DA CAPOEIRA

A “construção” da malícia – a “filosofia” e ética da capoeira -, e da própria capoeira, com seu gestual e golpes, começa, então,  no Rio de Janeiro com os pequenos grupos de escravos africanos ladinos, aqueles já adaptados ao Brasil (em oposição ao boçal recem chegado da Africa).

Depois as maltas absorveram os crioulos (negros nascidos no Brasil), os mulatos, os engajados e fadistas portugueses; e marinheiros desertores de todas as nacionalidades.

Na década de 1860 já temos notícias de caras excepcionais na capoeira; tanto das classes populares, como Manduca da Praia; como tambem playboys ricos, pertencentes à aristocracia; e até mesmo de “heróis” do Exército Brasileiro, a partir de 1965 e da Guerra do Paraguai. Estas figuras participaram deste processo, geração após geração, até chegarmos aos nossos dias.

 

 

O GUIA DA CAPOEIRA

Tanto foi assim que, mais tarde, em 1907 – como nos ensinou mestre Jair “Perigo” Moura -, quando a capoeira já era proibida por lei pela primeira constituição da República; surge dentro do próprio exército um “manual de capoeiragem”, O Guia da Capoeira ou Ginástica Brasileira, escrito por um “distincto official do exército brazileiro, mestre em todas as armas, proffessor de militares e habilissino na gymnastica deffensiva ou verdadeira arte do capoeira”, “ilustrado e destinado ao manuseio, ao uso, dos seus companheiros de farda”.

O libtreto – “Tendo-se esgotado, com rapidez, a primeira edição desta obrinha…” – abrangia cinco partes, que focalizam:

 I) – Posições;

II) – Negaças;

III) – Pancadas simples;

IV) – Defesas relativas;

V) – Pancadas afiançadas”.

 

 “Obviamente sinto-me afeiçoado ao ‘distincto oficial habilissino na gymnastica deffensiva’ que escreveu este primeiro manual prático, muito semelhante às partes de ‘treinamentos’ dos meus próprios livrinhos”; comentou Nestor Capoeira recentemente num Simpósio de escritores e estudiosos no sul da Bahia, organisado pelo prof. Antonio Liberac. “É no mínimo curioso”, prosseguiu Nestor, “que uma prática proibida por lei tenha encontrado guarida dentro  do próprio Exército Brasileiro”.

 

O AVÔ DO AUTOR

A prática (proibida) da capoeiragem, nas forças armadas, foi se tornando tão popular que o general Nestor Sezefredo dos Passos, Ministro da Guerra do presidente Washington Luis e autor de um projeto de lei para a Educação Física Brasileira, era um conhecido praticante de capoeira.

Em 1921, quando Nestor era um coronel de 49 anos de idade e comandava o Regimento Sampaio (RJ); o tenente Buys de Barros, de 22 anos, invadiu a sala do coronel Nestor, pistola numa mão e fuzil na outra, anunciando que estava tomando o Regimento junto com outros jovens oficiais; era mais um levante militar característico da época.

Nestor Sezefredo colocou seu cinto com coldre e revólver em cima da mesa, levantou-se, e delicadamente perguntou ao tenente os motivos da rebelião. O jovem tenente empolgou-se com a teoria e descuidou-se das armas em riste.  O general foi se aproximando pensativo e, súbito, aplicou uma violenta e traiçoeira rasteira na mais perfeita tradição capoeirista, jogando pro alto o tenente, o revóver, o fuzil, e a ideologia. E em poucos minutos reassumiu o controle do Regimento Sampaio.

O “Nestor”, nome do general, e também do autor deste livrinho, não é mera coincidência: Nestor Sezefredo foi o avô paterno do atual Nestor Capoeira.

 

O GUERREIRO BRASILEIRO

O mito do “guerreiro (capoeirista) brasileiro” se manteve durante décadas entre determinados círculos de oficiais e praças das Forças Armadas.

Por exemplo, em 1968, o jovem capoeirista Dick Fersen só conseguiu organizar o 1º Simpósio Nacional de Capoeira devido ao apoio que teve da Força Aérea Brasileira, que forneceu as passagens de avião para os mestres de outros estados, arrumou alojamento para mais de 50 participantes, e cedeu o auditório na Base Aérea do Campos dos Afonsos.

Não parece muita coisa hoje, em pleno século XXI; mas em 1968 foi uma coisa extraordinária. Pela primeira vez, professores e mestres de diferentes estados se reuniam no mesmo local; inclusive com a presença de mestre Bimba, na época com 68 anos.

A ideia era criar uma única nomenclatura dos golpes, um único uniforme para os alunos, uma única graduação. Enfim: o retorno da ideia de criar uma Luta Nacional, semelhante ao Japão com o Judo e o Karate.

Nada disso rolou. Os pontos-de-vista divergiam etc. e tal. Muitos consideraram o Simpósio um fracasso total. Mas Nestor Capoeira, que esteve lá, afirmava que “aquilo pirou o cabeção da rapaziada; saimos de lá fortificados, e com mais certeza que a Capoeira iria vencer no futuro, à médio prazo”.

Este curioso e inusitado apoio a uma atividade cultural muito discriminada em 1968 – “coisa de malndro, coisa de negro” -, em plena ditadura militar – 1964-1984 -, deve ter acontecido devido ao fascínio de algum velho coronel ou brigadeiro pelo mito do “guerreiro brasileiro”.

 

A GUERRA DO PARAGUAI

Em 1865, o Brasil, a Argentina e o Uruguai entraram em guerra com o Paraguai e seu caudillo mestiço, Solano López.

Dizem que a Inglaterra, que era a fodona da época, agenciou a Triplice Aliança contra o Paraguai; o Paraguai estava na contra-mão da política e economia inglesas – um lance parecido com o que rolou nos 1960s, com os Estados Unidos bloqueando economicamente Cuba.

O exército brasileiro formou batalhões de capoeiras; muitos foram agarrados à força nas ruas do Rio. No entanto, estes marginais revelaram-se combatentes tão admiráveis que, aos poucos, foi se formando, no exército, o mito do capoeira ser o “guerreiro brasileiro”.

O mito, no entanto, não é sem fundamento: os capoeiras do Batalhão de Zuavos, especialistas em tomar as trincheiras inimigas na base da arma branca, fizeram misérias na Guerra do Paraguai (1865-1870).

Destacam-se dois capoeiras nos combates corpo-a-corpo: o alferes Cezario Alves da Costa – posteriormente condecorado com o hábito da Ordem do Cruzeiro pelo marechal Conde d’Eu -, e o alferes Antonio Francisco de Melo, também tripulante da já citada corveta Parnahyba que, entretanto, teve sua promoção retardada devido ao seu comportamento, observado pelo comandante de corpos:  “O cadete Melo usava calça fofa, boné ou chapéu à banda pimpão, e não dispensava o jeito arrevesado dos entendidos em mandinga” [p.79]. (42)  

Já havia claramente, em 1865, uma maneira de se vestir, de falar, e de ser, “dos entendidos em mandinga”. Já havia, até mesmo, a ligação entre a “mandinga” (algo relacionado a magia, mas também um sinônimo da malícia) e a capoeira.

Cinco anos depois – 1870 -, os sobreviventes da Guerra do Paraguai voltaram como heróis. 

Muitas destas feras, agora transformados em “heróis”, engrossaram as fileiras das maltas cariocas; vários ingressaram na polícia (sem necessariamente abandonar as maltas).

Esta infiltração – das classes perigosas nos meios militares e, especialmente, na instituição policial -, nos meados dos 1800s, é uma das causas históricas que explicam a contemporânea corrupção policial, a intimidade grotesca, e a falta de uma fronteira nítida, entre muitos policiais cariocas contemporâneos e os traficantes de armas e drogas. Uma outra causa, óbvia, da corrupção que impera nas instituições policiais, é serem parte de um sistema político/econômico que sempre, desde seus primórdios, foi corrupto e extremamente injusto. 

Talvez a corrupção no Brasil seja tão evidente porque sempre fomos uma “colônia” – dos portugueses, dos ingleses, dos norte-americanos, das multinacionais. E nossos dirigentes e homens-de-poder-e-dinheiro foram, e são, em grande parte, os testa-de-ferro e gerentes de interesses alienígenas.

Enfim, estes “homens de dinheiro” e politicos – na verdade otários com grana e poder – são homens de visão muito curta, deslumbrados com as “luzes da Europa” ou com o “dinheiro e a modernidade dos Estados Unidos”; homens que ainda se apoiam num modelo do tipo “massa de trabalhadores ignorantes de baixo custo”, e que não têm culhões, nem competência, nem criatividade para instaurar uma “nova ordem” em nosso país.

 

fim da capítulo 9

Capítulo 8 – Manduca da Praia

 

CAPOEIRISTAS

PULP FICTION TROPICAL

 

Nestor Capoeira

capítulo 8

 

Finalzinho do capítlo 7

Certamente tambem foram fortemente influenciadas por inesquecíveis e impressionantes personagens que realmente existiram e flanaram pelas ruas do Rio nos 1800s e início dos 1900s.

 

Entre estes, certamente se destacou o Manduca da Praia.

 

capítulo 8

 

MANDUCA DA PRAIA

 

INSPIRAVA TEMOR E CONFIANÇA

Eis o que Moraes Filho contou no seu livro, Festas e Tradições Populares do Brasil, de 1888. : 

Por volta de 1850, Manduca “iniciou sua carreira de rapaz destemido e valentão, agredindo touros bravos sobre os quais saltava, livrando-se”.  Dotado de enorme força física e “destro como uma sombra”, Manduca cursou a escola de horário integral da malandragem e da valentia das ruas do Rio na época de perigosos capoeiras como Mamede, Aleixo Açougueiro, Pedro Cobra, Bem-te-vi e Quebra Coco. 

Desde cedo destacou-se no uso da navalha e do punhal; no manejo do Petrópolis – um comprido porrete de madeira-de-lei, confeccionado na cidade de Petrópolis, companheiro inseparável dos valentões da época -; na malícia da banda e da rasteira; e com o soco, a cabeçada e o rabo-de-arraia tinha uma intimidade a toda prova.

 

O PETRÓPOLIS

O jogo de pau era a arma tradicional de auto-defesa praticada por camponeses e pastores do norte de Portugal, especialmente na província do Minho, mas também na Galícia espanhola e nos Azores – exatamente as áreas de onde vieram, para o Brasil, a maioria dos imigrantes pobres portugueses a partir de 1850 aproximadamente – os engajados.

No norte de Portugal, os homens jovens sempre carregavam um bastão de cerca de 1,60m. de comprimento.  Técnicas de luta eram transmitidas de geração em geração, e no final dos 1800s também eram ensinados nos quintais das casas.

Quando as rivalidades entre homens jovens, ou mesmo entre vilarejos, explodiam nos dias de mercado, nas festas de santos padroeiros ou nas peregrinações, o bastão era a arma principal usada nestes conflitos; nos conta Camara Cascudo (citado por Mathias Assunção, 2005).

Muitos dos jovens engajados, que trabalhavam em condições duríssimas na cidade do Rio de Janeiro, pulavam o muro e acabavam juntando-se ás maltas de capoeiras, que anteriormente – antes de 1850 – eram compostas quase que exclusivamente de negros escravos e libertos. 

O jogo de pau português, e a navalha do capoeira carioca, eram tão emblemáticos, que Aluizo de Azevedo romanceia a luta do mulato capoeira Firmo – com sua navalha -, com o português Jerônimo – com seu bastão -, numa cena do romance O Cortiço (1890).

Mathias Assunção comenta, em relação às técnicas de luta no Rio de Janeiro, por volta de 1870:

… havia a combinação de cinco técnicas de luta complementares: cabeçada, chute, taponas (de mão), técnicas de faca e pau.  Nenhuma fonte sugere que este tipo de combinação jamais tenha existido na África

…  a transformação do contexto social inevitavelmente tem impacto nos aspectos formais da prática da capoeira.

A capoeira “creolizou-se”; isto é, partindo das raízes africanas tornou-se algo diverso, característico do novo local. Mathias comenta que isto pode ser visto, mais ainda, “pelas mudanças substanciais  que afetaram seu significado cultural e político na segundo metade do século XIX”; quando as maltas fortalecem seus laços com políticos e homens de poder, justamenta a época em que Manduca da Praia viveu.

Por outro lado, as técnicas de luta com pau – de diferentes tamanhos e formatos – são uma constante em toda a Africa. Então, os negros que compunham as maltas tambem estavam acostumados com estas técnicas; as novidades introduzidas pelos jovens engajados portugueses vieram para sofisticar o arsenal da rapaziada.

 

 

CHAMPAGNE

Manduca não era um “filósofo da capoeira” como, bem mais tarde, foi mestre Pastinha; nem um lutador e “revolucionário da capoeira”, como mestre Bimba que criou a capoeira regional e a primeira academia na década de 1930; nem um “capoeirista de raiz e fundamento” como os atuais mestres João Pequeno (recentemente falecido) e João Grande; e nem tampouco um representante do espírito da “malandragem alto astral”, como foi mestre Leopoldina. 

No entanto, Manduca tinha algo que o destacava e diferenciava de seus contemporâneos – facínoras, valentes, vadios e rufiões -: uma inteligência fria, calculista e implacável; uma sede de poder, de status e de dinheiro; aliadas a uma visão de comerciante e de homem de negócios. 

Manduca tornou-se uma lenda viva e, mais tarde, um mito cantado e celebrado até os dias de hoje.

Manduca – dizem a lenda e cronistas da época -, “não recebia influências da capoeiragem local nem de outras freguesias, fazendo vida à parte, sendo capoeira por sua conta e risco”.

Era capanga e guarda-costas de ilustres políticos.  

No entanto, também temos notícias dele misturado à malta Flor da Gente, da freguesia da Gloria, na época das eleições. Nas eleições do bairro de São José, dava as cartas, “pintava o diabo com as cédulas. Nos esfaqueamentos e sarilhos próprios do momento, ninguém lhe disputava a competência”. 

O Manduca “respondeu a 27 processos por ferimentos leves e graves, saindo absolvido em todos eles pela sua influência pessoal e de seus amigos”. 

Manduca ficou mais célebre ainda com a chegada, no Rio, do deputado português Santana que, segundo o escritor Mello Moraes:

… era um cavalheiro distintíssimo e invencível jogador de pau, dotado de uma força muscular prodigiosa.  Santana, que gostava de brigas, que não recuava diante de quem quer que fosse, tendo notícia do Manduca procurou-o.  Encontrando-se os dois, houve desafio, acontecendo àquele (ao Santana) saltar nos ares ao primeiro camelo do nosso capoeira, depois do que beberam champagne ambos, e continuaram amigos.

 

BUSINESMAN

Mas nem só de valentia e de champanhe, de mumunhas com os políticos, de esfaqueamentos na época das eleições, vivia nosso personagem. 

Manduca, como dissemos, além da inteligência de predador tinha também o senso dos negócios.  Valendo-se de seu prestígio e de seus conhecimentos nas altas esferas do poder, “montou uma banca de venda de peixe na praça do Mercado, era liso em seus negócios, ganhava bastante e tratava-se com regalo”. 

Quando Mello Morais – o escritor – conheceu-o, há mais de cem anos atrás, Manduca já era um homem maduro:

… alto e reforçado, usava uma barba crescida e em ponta, grisalha e cor de cobre… nunca dispensava o casaco grosso e comprido, e a grande corrente de ouro de que pendia o relógio… de olhos injetados e grandes, de andar compassado e resoluto, a sua figura tinha alguma coisa que infundia temor e confiança.

Manduca da Praia, e outros de seu feitio, vivendo com um pé na marginalidade e o outro na sociedade estabelecida, “sendo capoeira por sua própria conta e risco”, foi um dos ancestrais mitológicos de Veneno, Toninho, e Noivo-da-Vida, e de todos capoeiristas da nossa era. 

 

NOIVO-DA-VIDA

 

Noivo-da-Vida, de banho tomado e beca nova – calça branca, camiseta de algodão riscada de vermelho e branco -, saiu da bucólica pracinha cruzando calmamente, sem dar a menor bola, com a patrulhinha que vinha investigar a denúncia de um “homem nú tomando banho no chafariz”.

Enquanto caminhava, examinou suas reservas monetárias vindas da caixa registradora do botequim do portugues – nada mal -, e ao levantar os olhos reparou que estava em frente a uma modesta barbearia.

Entrou, fez a barba, cortou as unhas das mão e dos pés; deixou o cabelo longo, mas aparado.

Estava descalço; não tinha importância: na década de 1970 os hippies ainda faziam um certo sucesso no Brasil e andar descalço e, ao mesmo tempo, embecado, não era nada excessivamente  estranho.

 

“Tem mar aqui perto?”, perguntou ao barbeiro.

“Tem, sim sr. O sr. é carioca?”

“Ocasionalmente. Onde fica a praia?”

 

VAMOS A LA PLAYA

Noivo já sacolejava há quase duas horas no ônibus desconjuntado quando sentiu o cheiro de maresia.

A cidadezinha à beira-mar era um daqueles paraísos tropicais que inicialmente tinha sido descoberta pelos hippies, semelhante ao que aconteceu com Porto Seguro e Arraial da Ajuda. Alguns anos depois, aos poucos, estava se tornando um centro turístico da classe média.

Noivo desembarcou e rumou na direção da praia.

Deu de cara com uma rapaziada de abadá e camiseta branca com o logo da academia – no mais perfeito estilo das academias de “sucesso” do Rio e São Paulo.

Começaram a tirar seus berimbaus de dentro de 2 carros e armaram uma roda.

Noivo entendeu rapidamente o enredo: havia um núcleo de uns 10 ou 12 capoeiras locais e, dentre estes, um ou dois se destacavam. E havia o mestre, que vinha ocasionalmente de outra cidade – provavelmente uma cidade maior e mais rica -, para dar aulas.

Daquela vez, o mestre – um garotão saudável, uns 30 anos de idade, com pinta de classe média bem sucedida – tinha trazido uma meia dúzia de alunos com ele.

Hoje em dia, isto é normal, mas nos 1970s era uma raridade: a capoeira praticamente só existia na Bahia; numas poucas academias no Rio e em São Paulo; e um movimento incipiente em Belô e Brasília. Era difícil encontrar capoeira fora destes grandes centros urbanos.

 

A RODA

A roda começou.

Uma galera se reuniu ao redor para assistir.

Noivo ficou na dele, assistindo aos jogos e ocasionalmente batendo palmas com o resto da plateia.

Mas o jovem mestre, que se chamava Zequinha, não tirava os olhos de Noivo. Existe alguma coisa na maneira de ser do jogador que cria uma espécie de vibração, ou aura; e Zequinha intuitivamente tinha captado aquela irradiação em Noivo sem nunca te-lo visto antes.

De repente, a corda de um dos berimbaus quebrou. Zequinha passou o instrumento ao seu filho – um menino de uns 6 anos de idade -:

“Guarda lá no carro, pro papai”.

Pouco depois o menino voltou, com o berimbau armado com uma corda nova, e afinado, pronto para ser usado.

“Quem trocou a corda do berimbau?”, perguntou um espantado Zequinha, pois encordoar uma biriba não é tarefa para um inciante.

“Foi o moço”.

“O moço?”

“É”, respondeu o menino apontando timidamente para Noivo que já tinha voltado para o meio da plateia e continuava a assistir aos jogos com cara de sonso.

“O moço perguntou se tinha arame. Eu mostrei, e ele consertou o berimbau”.

Zequinha ficou sem saber o que fazer.

Naquela época, com a popularização da capoeira, e com o aumento do número de alunos e de dinheiro de mensalidades, estava começando um período de competividade que muitas vezes degenerava em porradaria entre professores de academias diferentes, no meio dos jogos, no meio da roda.

Mas Zequinha tinha fé no taco dele e resolveu tomar a inciativa. Na sequência, conforme o que rolasse, ele decidiria o que fazer.

“Afinal de contas”, pensou com seus botões, “estou com seis alunos e mais uma dúzia de locais”. Mediu  Noivo disfarçadamente com o olhar. “Alem de tudo, o cara parece estar sozinho, não é daqui da área”.

Entregou o berimbau para um aluno graduado  tocar; rodeou a roda pelo lado de dentro, parou em frente a Noivo e perguntou em meio à zoada do São Bento Grande:

“O sr. quer jogar?”

“Será um prazer.”

“Que ritmo o sr. prefere?’, perguntou Zequinha, querendo descobrir se Noivo era da Regional – escolheria um ritmo rápido como o que estavam tocando agora -; ou se Noivo era da Angola – provavelmente Noivo escolheria um ritmo mais lento e maliciado.

“En não conheço nada, nem ninguem”, respondeu Noivo, como se lesse os pensamentos de Zequinha,”a roda é sua, o sr. é quem sabe qual é a melhor opção”.

Zequinha ficou com a pulga atrás da orelha. Já lamentava ter convidado aquele estranho, um tanto misterioso, tão calmo e na dele – “o sr. isso, o sr. aquilo” -, para jogar.

Mas agora era tarde.

E, afinal,  quem esta na chuva é pra se molhar.

Zequinha olhou dentro dos olhos de Noivo, procurando um traço de maldade ou violência; ou talvez um eco de inquietude, ou receio por estar ali, sozinho, no meio de uma turma de desconhecidos numa cidade estranha; ou, quem sabe, Noivo era um daqueles caras bobocas, que não mede as consequências dos próprios atos, e até desconhece seus próprios limites e possibilidades.

Nada.

Nem um tremor, nem uma reação.

Os olhos do descohecido apenas retribuiram o olhar de Zequinha, sem animosidade, sem tentaiva de amizade – nada. Uma esfinge.

Os lábios, pensou Zequinha, esboçaram o mais leve dos sorrisos. Mas talvez fosse apenas impressão.

Zequinha foi até o pé-do-berimbau; Noivo seguiu-o; e Zequinha, sem se benzer nem cumprimentar o estranho, deu um aú e um sensacional salto-mortal aterrisando no meio da roda onde começou a gingar com competência e confiança.

 

 

fim do capítulo 8

Capítulo 7 – Veneno da Madrugada

 

CAPOEIRISTAS

PULP FICTION TROPICAL

 

Nestor Capoeira

capítulo 7

 

Finalzinho do capítlo 6/Intermezzo

Uma pena; era uma coroa gostosona e, apesar de não sacar porra nenhuma, era inteligente nos papos.

Fim do cap. 6

 

capítulo 7

 

VENENO-DA-MADRUGADA

 

FUTEBOL DE AREIA

Veneno conheceu os dois filhos do ilustre senador, Carlinhos Piu-Piu e Delano Bule, na primeira vez que veio a Copacabana com sua mãe, cozinheira num apê perto da rua Inhanga. Isto foi por volta de 1958, e Veneno tinha uns 12 de idade.

Nos fins de semana, o patrão e a patroa viajavam com a família pra Friburgo, e Veneno vinha de Japeri passar os feriados com a mãe.

Veneno era um menino negro, morava num longíncquo subúrbio, completamente desenturmado; era impossível imaginar que, dez anos depois – aos 20 e poucos de idade -, ele já seria uma lenda urbana entre os jovens da movimentada Zona Sul carioca.

Foi o futebol de praia que inicialmente abriu as portas de Copacabana para Veneno.

No começo, acostumado a jogar em campo de terra batida, em terreno baldio, estranhou a areia; a bola não rolava, era difícil dar um drible, correr na areia macia era desgastante. Mas assim que pegou a manha, rapidamente se tornou um destaque das peladas infanto-juvenis.

Começou a disputar o Campeonato de Praia Junior; jogava no Lá Vai Bola; e logo – tinha apenas 12 anos, mas era um garoto alto e taludo – já disputava vaga no time dos adultos.

Dois anos depois, no subúrbio, Veneno já era “o rei do comércio de amendoin e bala puxa-puxa” da linha de trem Central-Japeri.

Paralelamente, num outro universo de fins-de-semana, começava a se destacar como uma das promessas do futebol de praia semiprofissional da rica Zona Sul.

Num fim de tarde de sábado, após um jogo na praia de Ipanema na altura da Praça General Osório, Veneno começou a fazer nome: arreganhou o Ricardão, capitão do Lá Vai Bola, primo do Carlinhos Piu-piu e do Bule, e respeitado como playboy porradeiro em toda Copacabana, Leme, e até mesmo Ipanema – box na academia Santana, jiujitsu com os Gracies, capoeira de Sinhô.

 

LEILA DINIZ

Ipanema, nos 1960s, é lembrada e cultuada por ser o lar da Bossa Nova – Tom Jobim, João Gilberto, Vinicius de Moraes, Nara Leão -; do Cinema Novo – Rogerio Esganzela, Glauber Rocha -; pela sua carismática musa, a luminosa atriz Leila Diniz de Todas as mulheres do mundo, do Domingos de Oliveira; por sua praia; e principalmente por seus bares e butequins frequentados por diferentes gerações de artistas talentosos e iluminados boêmios – o Jangadeiros, o Veloso, o Zepelin.

Mas quem, na juventude, viveu aquela Ipanema; certamente vai se lembrar de outras mumunhas.

Na década de 1960, a zona sul carioca – aliás, a zona norte tambem – era dividida em gangues de adolescentes da classe média e alta. Em Ipanema, entre outras, tínhamos a turma da (rua) Barão da Torre; em Copacabana, a da Miguel Lemos e a da Praça do Lido; logo ao lado, a turma do Leme; e por aí afora.

A rapaziada, especialmente nas noturnas de sexta e sábado, ficava pelas esquinas trocando ideia, bebendo cerveja em pé na porta do botequim; alguns tomavam bolinha – anfetaminas tipo Pervertim -; outros já subiam o morro e compravam uma mutuca de maconha que vinha embrulhada em papel de jornal – a cocaína ainda era pouco conhecida.

Dali, do papo na esquina, os mais cascudos saiam para roubar carro e fazer pega de madrugada nas ruas desertas. Mas a maioria ia curtir alguma festinha; se a festa era em terra inimiga, era certo que a porrada ia comer. O arsenal da rapaziada incluia canivete de mola, soco inglês, e chicote de fio de aço; mas os mais famosos primavam pela porrada mano-a-mano com algum cara de destaque da turma inimiga.

Surgiram nomes como Rodolfo Hermany, um desportista que mais tarde foi campeão sul-americano de judô; Rickson Gracie, talvez  o maior lutador de jiujitsu brasileiro de todos os tempos.

E tambem aqueles com um pé na boêmia e na marginalidade como Cirandinha. E, mais tarde, já em 1970 no período da ditadura militar 1964-1984, Mariel Mariscott, um policial civil com pinta de galã italaiano, chefe dos Homens de Ouro – um esquadrão da morte (o que, hoje, chamamos “milícia”) que dominava as noites, as drogas, e a prostituição de Copacabana, e era informalmente ligado à Escuderie LeCoq formada por policiais e afins barra-pesados que homenageavam o lendário e recentemente falecido detetive LeCoq.

Era no fim daquelas lutas mano-a-mano memoráveis que a violência se alastrava pela plateia composta, em sua maioria, pelos jovens das gangues antagônicas. O barulho só terminava com a chegada da radio-patrulha chamada pelo telefone por algum respeitável morador escandalisado – “Meu Deus! Isto é uma total falta de respeito! A decadência dos valores morais e familiares! Onde isto tudo vai parar?”.

Os jornais, o rádio, e a incipiente televisão – que tinha estreado alguns anos antes, na década de 1950 -, faziam eco; ressoavam em harmonia alarmista apontando os perigos da Juventude Transviada, algo que já tinha até rendido um filme de Holywood com ninguem menos que Marlon Brando no papel principal de um motoqueiro rebel without a cause.

Muitos dos jogadores de futebol de areia pertenciam a uma dessas turmas. Aliás, não era raro a porrada rolar, até mesmo, nos jogos oficiais do campeonato.

 

UMA INSTITUIÇÃO DE GENTIS-HOMENS

Outra instituição curiosa da Ipanema e Copacabana dos 1960s eram as bichas velhas.

Homens cultos, educados, ricos, fluentes em várias línguas, verdadeiros cavalheiros, filhos solteirões de famílias tradicionais que transitavam nesta Faixa de Gaza entre o submundo do crime, o futebol de areia, o novo cinema e a nova música, os caretésimos e elegantes e bregas clubes exclusivos e excludentes – Country Club, Hípica, Caiçaras -, os chás com as velhas tias rococós nas tardes de quinta-feira.

Alguns eram ligados ao teatro ou à opera ou ao ballet; outros eram antiquários, especialistas nas artes plásticas; e por aí afora.

Era uma instituição – as bichas velhas – perseguida pela mentalidade machista, estigmatizada pelos preconceitos vitorianos, maldita pelos padres católicos apesar de vários serem pedófilos. Seus “afiliados” e membros muitas vezes apareciam nos jornais como vítimas de tragédias e eventos sangrentos, macabros, e hediondos.

E qual o terrível crime destes senhores?

Nenhum, exceto o de serem total e loucamente apaixonados pela pele bronzeada e pela carne dura daqueles bad boys de araque da tal Juventude Transviada.

Muitos daqueles delicados e alienados gentlemen acabaram bancando garotões da classe média baixa; enfiando-os quase à força na PUC, a caríssima universidade católica da classe média alta e da burguesia; casando o “sobrinho” com alguma dondoquinha deslumbrada e arranjando-lhe um emprego com o sogro reticente:

– O Cesário Alexandrijo me falou muito bem do namorado da Cristiana.

– Eu não te falei, Alfredo Romualdo? Você ve maldade em tudo. O rapaz é trabalhador, sério, bem-educado e, o mais importante, esta completamente apaixonado pela nossa filha.

– É… pode ser. Mas eu acho o Cesário Alexandrijo meio esquisito.

– Como assim?

– Meio estranho. Essa mania do ballet clássico, das noites de estreia no Teatro Municipal… não sei não.

– Não sabe, não? Claro que voce não sabe, Alfredo Romualdo. Voce não sabe de nada. É um grosso, um retrógado, só sabe ganhar dinheiro; não tem a mínima sensibilidade para as artes, para a cultura, para as coisas refinadas da vida. Aí fica inventando estas histórias, como se o Cesário Alexandrijo fosse um pervertido, um – Deus que me perdoe! – um homosexual.

– Eu não disse isto, meu amor…

– Não disse, é verdade; mas insinuou, que é muito pior. Voce sabe onde o Cesário Alexandrijo vai celebrar o aniversário de 46 anos? Na casa da Estelita Estella!

– ?

– Tá vendo! Voce não sabe nem quem é a Estelita Estella! É a mulher do Doutor Rivelino Roberto de Souza Transcepto! É, ele mesmo! Aquele que voce vive bajulando mas não arranja nada. Aposto que se o Cesário Alexandrijo murmurar uma palavrinha a teu favor, a música vai ser outra.

– Voce acha? De verdade?

 

Como vemos, havia uma grande diferença entre o Rio de Janeiro – com sua praia, seus intelectuais, músicos e artistas -; e Belo Horizonte – com sua Família, Tradição e Propriedade (onde Toninho Ventania estava vivendo, naquele momento). Mas, num ponto, a suingante metrópole a beira-mar coincidia com a canhestra e interiorana capital das finadas minas de ouro: o preconceito e a perseguição às bichas.

Preconceito que se estendia aos crioulos, aos paraíbas, etc etc etc. Embora, é  verdade, o preconceito era menor no Rio devido a influência da mentalidade e dos valores de uma boêmia ilustrada e luminosa que durou, infelizmente, somente até aproximadamente 1980/85.

Já em 1990, vemos, se hoje olharmos retrospectivamente, o aparecimento de uma outra gira no Rio – e tambem no Brasil, e em muitas parte do mundo. Um outro lance cuja face mais óbvia e visível e o computador, a Internet, e os telefones celulares.

E assim caminha a humanidade.

 

BOSSA NOVA NA AREIA

Naquele sábado memorável em 1960, apesar do futebol de areia ser oficialmente “amador”, havia um generoso prêmio em dinheiro para ser distribuido entre a equipe vencedora – cortesia de Cesário Alexandrijo, um elegante senhor de cabelos grisalhos e olhos azuis, filho de uma tradicional família carioca.

 

Cesário Alexandrijo, apesar do calor, assistia ao jogo vestido calças de flanela inglesa branca, blazer azul-marinho com botões dourados, um chiquérrimo foulard de seda francês enrolado no pescoço, sapatos de amarrar de camurça cor de gelo feitos sob medida em Milão, e um fino Pateck-Phillip de ouro com correia de legítima pele de crocodilo no pulso – esse negócio de ecologia, de espécies ameçadas, e buraco de ozônio ainda era algo distante, lá longe além do horizonte.

O mordomo havia trazido cadeiras de praia de vime e um enorme guarda-sol. Numa mesinha de armar via-se um enorme balde de prata cheio de gelo para resfriar os martinis que Cesário Alexandrijo degustava intercalados com canapés de salmão defumado, caviar, e patê foi-grass.

Veneno, com 14 anos, era o caçula do time de futebol de areia, o resto da rapaziada tinha entre 18 e 30 de idade.

Apesar de não ser canhoto, jogava de ponta-esquerda; Piu-piu era o talentoso centro-avante; Delano Bule e Ricardão – capitão da equipe – jogavam no meio-da-campo.

Curiosamente – embora isto não tenha nada a ver com nossa estória – Tom Jobim, que tinha sido aluno de capoeira de Sinhozinho em Ipanema, atuava de beque recuado, e no segundo tempo atacou de goleiro; e Vinicius de Moraes bebia seu uísque escocês – o “cachorro engarrafado” – sentado à sombra do para-sol de Cesário Alexandrijo – Vinicius foi adido cultural em Paris na época em que o pai de Cesário era embaixador.

Naquele dia, Carlinhos Piu-piu estava em tarde de sábado inspirada, balançou a rede quatro vezes; o Lá Vai Bola ganhou de goleada.

No final da pelada, Piu-piu foi carregado em triunfo até o calçadão; ao chegar lá abraçou Veneno – que tinha lhe servido três gols de bandeja – e urrava: “Esse é um verdadeiro veneno! Um verdadeiro veneno!”.

Um conhecido olheiro do  Fluminense se aproximou da dupla e trocou uma ideia.

 

 

MANDUCA DA PRAIA

 

O extraordinário e, muitas vezes, cinematográfico perfil de alguns capoeiristas – “não havia índios, só caciques” – não é uma característica recente. Aparentemente sempre foi assim.

Vejam só o caso do Manduca da Praia, um capoeira que tocou o terror no Rio de Janeiro por volta de 1860; cem anos antes do jogo de futebol de areia que estávamos relatando.

No meu Rio de Janeiro,

se a minha memória não falha,

o maior capoeira foi Manduca da Praia.

Mandingueiro!

      – côro: era Manduca da Praia!

O corte da navalha!

      – côro: era Manduca da Praia!

O golpe que não falha!

      – côro: era Manduca da Praia!

Mandingueiro!

      – côro: era Manduca da Praia!

 

Por volta de 1860, as maltas já se agrupavam em dois grandes grupos, os Guaiamús e os Nagoas.

Mas, além dos “pequenos grupos que passam a ser encarados como aglomerados criminogênicos”; e além das “maltas associadas aos políticos e homens de poder”; existia também “o negro individualisado”.  Dentre todos, o que ficou mais famoso foi Manduca da Praia, imortalizado em várias canções de capoeira.

Alexandre Mello Moraes Filho (1844-1919) viveu há cerca de cem anos no Rio de Janeiro e conheceu pessoalmente o terribilíssimo Manduca da Praia. 

O escritor Moraes Filho faz parte do grupo, denominado por Líbano Soares, de “cronistas e pioneiros”, e “sua obra tem o tom da contemporaneidade mesclado com a ideia de ‘luta nacional’, que vai dar o ritmo da produção literária (sobre capoeira) nos 40 anos seguintes”.

 

A LUTA NACIONAL

A  ‘luta nacional’  é a ideia da capoeira como “capoeira-luta-esporte”, castrada de suas origens culturais negras e marginais:

– Fez a cabeça de muitos intelectuais e jovens militares cariocas no começo dos 1900; a maioria dos cronistas da época vão primar em “resgatar” a capoeira de seu passado, de “maltas e navalhas”, de “negros e mulatos”, transformando-a na “Luta Nacional”;

– A ideia da Luta Nacional  teve sequência durante 1930-1950 com Getúlio Vargas  e sua retórica do corpo, que privilegiava a Educação Física.

Na décda de 1940, através um decreto de Vargas, a capoeira saiu da marginalidade e pode ser ensinada “em recinto fechado, e com alvará de polícia”, inaugurando a atual era das academias. Getúlio imaginava que a capoeira poderia ser transformada numa “ferramenta pedagógica popular de apoio” ao trabalho da Educação Física; corpos jovens, disciplinados e saudáveis, para alimentar um Estado moderno como uma máquina.

– A concepão de capoeira como a Luta Nacional reviveu, mais uma vez, durante a ditadura militar de 1964-1984, com a aprovação de ilustres figuras como o pof. Inezil Pena Marinho que, ainda sob as diretrizes gerais da “retórica do corpo” de Vargas, publica em 1945 o seu Subsídios para o estudo da metodologia e treinamento da capoeiragem (RJ, Imprensa Nacional).

– Chegou até nossos dias – a ideia da Luta Nacional – defendida por vários mestres, ilustres professores como o prof. Oscaranha da Educação Físca da UFRJ, e tambem pela CBC (Confederação Brasileira de Capoeira, um orgão oficial do governo que pretende “orientar e divulgar a capoeira”).

– Esta concepção de “como a capoeira deve ser praticada e ensinada” – uma Luta Nacional com campeonatos, juízes, cronometragem dos rounds, etc. – sempre esteve em oposição à ideia de uma “capoeira-arte”, e/ou à “capoeira-cultura”, defendidas por outras facções de mestres.

 

OS CRONISTAS E O CAVALEIRO DAS TREVAS

Mas nem todos cronistas do Brasil Império estavam total e completamente motivados pela criação de uma capoeira-luta brasileira. Por exemplo, Luis Edmundo (1878-1961), no Rio de Janeiro do tempo dos Vice Reis:

O capoeira, sem ter do negro a compleição atlética, ou sequer a fisionomia rígida e sadia do fidalgo potuguês, é no entanto um ser que toda gente teme e a própria justiça, por cautela, respeita.  Encarna o espírito da aventura, da malandragem, da fraude; é sereno e arrojado… 

Toda sua força reside nesta destreza elástica que assombra e adiante da qual o tardo europeu vacila e atônito o africano se transtroca.

As descrições barrocas, góticas, dark, notívagas, de Luis Edmundo, são dignas dos modernos roteiros de filmes comerciais épicos, e de ação, do tipo “Batman, o cavaleiro das trevas”. 

 

(O capoeira) encarna o espírito da aventura, da malandragem e da fraude; é sereno e arrojado, e na hora da refrega ou da contenda, antes de pensar na choupa ou na navalha, sempre ao manto cozida, vale-se de sua esplêndida destreza, com ela confundindo e vencendo os mais armados e fortes contendores.

… neste manejo inopinado e célere a criatura é um ser que não se toca, ou não se pega, um fluido, o imponderável.  Pensamento. Relâmpago.  Surge e desaparece…

É cavalheiresco para com as mulheres.  Defende os fracos… 

Por vezes, quando a sombra da madrugada ainda é um grande capuz sobre a cidade, está ele de joelhos compassivo e piedoso, batendo no peito, beijando humildemente o chão em prece, diante de um nicho iluminado qualquer.  Esta rezando pela alma do que sumiu do mundo, do que (ele, o capoeira) matou.

 

Todas estas, um tanto alucinadas, “viagens” – Luta Nacional, “Cavaleiro  das trevas”, etc. -, que já rolavam na imaginação dos malucos-beleza dos 1800s, não nasceram exclusivamente das fantasias e da imagiação de seus autores. Certamente tambem foram fortemente influenciadas por inesquecíveis e impressionantes personagens que realmente existiram e flanaram pelas ruas do Rio nos 1800s e início dos 1900s.

Entre estes, certamente se destacou o Manduca da Praia.

 

 

Fim do capítulo 7

Capítulo 6 – Toninho Ventania

 

CAPOEIRISTAS

PULP FICTION TROPICAL

 

Nestor Capoeira

capítulo 6

 

Finalzinho do capítlo 5

O nome deste Encantado no mundo espiritual é Mão de Faca.

Fim do cap. 5

  

TONINHO VENTANIA

Sou da Linha dos Malandros,
viajante e jogador;
Nada melhor que a vida
com suíngue e muito amor.

Mas se o céu escurece,
e o positivo falha;
Levo no meu calcanhar
a peçonha do rabo-de-arraia. 

(Nestor Capoeira, 2014; CD A balada de Noivo-da-Vida e Veneno-da-Madrugada)

 

A FEITURA DE UM JOVEM MALANDRO

Entendam a dinâmica daqueles meus seis meses em Belô.

Eu tinha treinado com Leopoldina desde criança.

Jovem adolescente, conheci Veneno-da-Madrugada e Noivo-da-Vida; perambulei com eles alguns anos pela Europa e Estados Unidos. Voltamos ao Brasil e, nos anos seguintes, armamos o “exército de teleguiados” de Noivo.

Aí, Noivo perdeu sua visão clarividente e a coisa desmanchou – tudo que é sólido se desmancha no ar.

Então, na verdade, Belo Horizonte foi o meu primeiro vôo solo. Anteriormente, apesar de todas as aventuras, eu sempre estava acompanhado de jogadores mais velhos e experientes.

Os insights que eu tive jogando e ensinando capoeira aos iniciantes mineiros; e os relacionamentos sensuais e sexuais – e, por que não dizer toda a verdade: relacionamentos sensuais e sexuais e amorosos -, com aquelas quatro mulheres; fizeram definitivamente a minha cabeça.

Estas duas vertentes – insghts ensinando capoeira, e as mulheres – é que foram minha dissertação de mestrado, e tese de doutorado, no Mundo da Malandragem Alto Astral.

 

O AMADURECIMENTO

No lance com as 4 minas, não me refiro a um amadurecimento devido especificamente à “técnica” do sexo. Esta parte eu já dominava desde a adolescência através dos papos com Leopoldina e outros malandros como Mr. X – o negócio do clitóris e tudo o mais.

Meu amadurecimento veio do relacionamento, simultâneo, durante o mesmo período de tempo, com quatro mulheres muito diferentes. A amizade, as curtições, os papos, as inseguranças e ciúmes e estratégias femininas, o lance de la dona eh mobile, e por aí vai; com cada uma, era tudo diferente.

Aliás, “tudo” diferente é exagero; todas tinham um pouco do la dona eh mobile: a mulher diz uma coisa num dia, mas na semana seguinte já esta “sentindo” algo diferente; e, mais uma semana, ela volta ao lance inicial.

Não é uma porra-louquice, como os otários gostam de acusar. É mais semelhante às fases da lua, tem uma racionalidade feminina, diferente da masculina, que não é difícil de compreender. E se a maioria dos homens diz que as “mulheres são imcompreensíveis”, é porque o pior tipo de cego é aquele que não quer ver.

Alem do la dona eh mobile, acho que as “estratégias femininas” daquelas quatro gostosuras tambem tinham muita coisa em comum.

Na verdade, quando eu me lembrava dos meus romances de adolescente no Rio – com jovens minas, e algumas coroas, dos subúrbios cariocas -; e mesmo os romances da Europa – uma outra cultura, e mulheres de todas as idades -; eu ficava surpreso ao constatar que as mulheres eram muito diferentes entre si, mas as estratégias que usavam, nos Jogos do relacionamento, eram parecidas com as estratégias das minhas quatro maravilhosas balzacas mineiras.

Maior loucura.

 

OS ENSINAMENTOS

Você, caro leitor, caríssima leitora, talvez tenha curiosidade sobre os ensinamentos da malandragem  a respeito do sexo. Provavelmente já até classificou-os segundo o atual código do politicamente correto: papo machista.

É um pouco mais complicado.

Decididamenterte o tal “ensinamento”, por parte da malandragem, não é um enfoque que louva o matrimônio ou a monogamia; mas, em vários aspectos, é o oposto do machismo.

Mas antes de entregar o ouro; antes mesmo de mostrar o mapa da mina; de ensinar o caminho das pedras; seria interessante que eu apresentasse o Malandro, uma figura básica do Imaginário Brasileiro, mas que sempre é confundido com o Esperto, o Golpista, o 171, etc.

 

O MALANDRO COM “M” MAIÚSCULO

O Malandro é o aristocrata, o filósofo, o PhD da escória do submundo; e ele se orgulha disto.

O Malandro é um solitário. Seus iguais são os homens e mulheres formados na malandragem – e só.

Entre os malandros não existe amizade, apenas respeito; “e o respeito vem do medo”, dizia Madame Satã – um famoso malandro que dominou a noite do Rio entre 1930 e 1950.

Muitos malandros dizem que “Malandro não existe”. O que existe é a Escola da Malandragem, a Filsofia da Malandragem. Isto é básico. Se voce não entender isto, vai sempre ficar perguntando se “fulano é malandro, ou não”.

Malandro não existe.

O próprio Zeca Pagodinho, um dos mais afamados músicos brasileiros da atualidade, décano da malandragem, afirma:

“Malandro? Eu? Que  é isso! Sou apenas um otário com sorte”. E otário com sorte é malandro duas vezes.

É como se o Malandro fosse uma figura utópica, uma meta, uma direção na qual os “aprendizes de malandro” caminham.

Poucos conseguem se diplomar pois, além de tudo, exige que o estudante seja extremamente talentoso em algum lance – música, esporte, carteado, bilhar, mulher, capoeira. Se o candidato não tem alguma excepcionalidade, ele é obrigado a dar golpes para sobreviver e se torna um mero golpista, um 171, etc.

E um esperto, um golpista, um estelionatário, é o oposto do malndro: “para o bom malandro, o bom negócio tem de ser bom pra todo o mundo”, dizia mestre Leopoldina. 

 

A ESCOLA

Existem muitas “escolas” na marginalidade brasileira; algumas bem barra-pesada, como a dos assaltantes de banco, ou a do tráfico de drogas.

Outras “escolas” são mais artísticas. A capoeira era uma delas, antes da “era das academias” que começa na década de 1930; o samba, idem; a malandragem tambem.

Especificamente em relação à capoeira/malandragem, note-se o golpe:

– Não é suficiente dar um golpe, como a “dobradinha” numa gringa loura e rica, ou o “bilhete premiado” num otário ganancioso, para ser um verdadeiro Malandro. Quem dá golpe é golpista.

– Não é suficiente dar um golpe, um rabo-de-arraia ou uma rasteira e detonar um Maciste, para ser um verdadeiro Capoeira. Quem dá golpe é lutador.

Os Malandros talentosos; que não precisam dar golpes para sobreviver; que “vivem de seus prestígios”; que não precisam se enquadrar, nem mesmo, nas regras dos locais onde faturam sua grana; são admirados por todos. Voce certamente conhece alguns deles: determinados músicos como Zeca Pagodinho e Paulinho da Viola, capoeiristas como Mestre Leopoldina, alguns desportistas, etc.

Mas os Malandros talentosos são poucos, e a generalização “todo malandro (com ‘m’ minúsculo) é um artista” não é real.

Cavalo tem muito, São Jorge é um só.

 

O MALANDRO E A VIOLÊNCIA

Mas não se iludam.

Apesar de abominar o confronto fisico e a violência; e no caso de conflito, sempre resolver a coisa “na conversa”; o Malandro sempre tras – afiada e reluzente -, no bolso do terno de linho branco, ou talvez por baixo de sua camisa de seda vermelha, ou até mesmo enfiada no cós da calça ou escondida na faixa de seu chapéu panamá, a temível navalha que é manejada com destreza se ele for encurralado e não houver outra escapatória.

E então o Malandro se torna um adversário fatalmente perigoso, atacando inesperada e traiçoeiramente – um único golpe letal na jugular e, antes que alguém se de conta do sucedido, o oponente já está no chão agonisando, e o Malandro já se foi.

É algo semelhante a uma das ideias daquele livro milenar, O caminho da Guerra: se voce eh um cara pacífico, se voce deseja viver em paz; voce deve estar preparado. e muito bem preparado, para a Guerra.

Mas o Mundo dos Otários interpreta isto erroneamente. Vejam o caso da URSS: se “preparou” tanto para a Guerra; investiu tanta grana; que acabou indo à falência.

 

O MALANDRO E AS MULHERES

O Malandro é um homem, ou mulher, das ruas, da noite, da boemia, dos puteiros, do carteado e da sinuca, das casas de jogo e de dança, onde ele exibe suas habilidades, seus prestígios, e exerce sua sedução.

Com as mulheres, em público, o Malandro é sempre um cavalheiro. Ele oferece flores, murmura doces palavras no ouvido. Quando está com dinheiro, presenteia jóias, perfumes, e roupas vistosas.

O Malandro é um mão aberta; nunca se preocupa com o amanhã, o amanhã se resolve amanhã. Mas quando esta duro, lhes toma o dinheiro sem a mínima consideração, e vai gastá-lo em farras, talvez com outras mulheres.

É comum que velhos malandros, cafetinas, jogadores, prostitutas, tomem “jovens de talento” sob sua proteção. Seria uma pena se aquele jovem, com tanta potencialidade, terminasse como traficante, assaltante, ou pistoleiro.

 

POSSE E CIÚME

Na verdade, os “grilhões da armadilha” que existem no sexo e no amor – posse e ciúme – deveriam afetar somente quem optou por viver, e seguir as regras, do Mundo dos Otários – ou seja, da Sociedade Estabelecida, do Sistema. Sejam eles os manés monogâmicos, que levam no dedo anular da mão esquerda o “bambolê de otário”; ou fossem eles os “espertos” afeitos ao machismo, que se consideram malandros, mas na verdade são meros “malandro-agulha” (toma no buraco sem perder a linha).

O  sentimento de posse e o ciúme não deveriam ser um perigo para um “verdadeiro” Malandro “cabeça feita”; que sabe que “ninguém é de ninguém; cada um faz o que quer com seu corpo”; nas palavras do falecido Mestre Leopoldina.

Ou seja: Leopoldina não pertencia à nenhuma mulher, não lhes devia “fidelidade conjugal”. Por sua vez, as mulheres também não deviam a tal “fidelidade” ao Leo (em oposição à maneira de pensar machista).

Esta concepção – “cada um faz o que quer com seu corpo” – tambem significa, para o Malandro, que a pessoa ser homosexual ou heterosexual é uma escolha, ou uma característica daquela pessoa, e ninguem tem nada a ver com isso.

Este discurso não é para ser moderninho ou feminista.

O discurso existe porque, qualquer perspectiva de “posse” de uma mulher, limita a liberdade do malandro. Mr. X dizia que o sentimento de posse é semelhante ao caso do macaquinho aprisionado.

O caçador amarra um pedaço  de doce dentro de uma cabaça semelhante à do berimbau. A abertura feita na cabaça é larga o suficiente para o macaquinho enfiar a mão dentro da cabaça e pegar o doce. Mas com o doce dentro do punho fechado, a abertura da cabaça não é larga o suficiente para o macaquinho retirar sua mão fechada. A cabaça esta amarrada numa estaca fincada no chão.

O macaquinho ouve o caçador que, ao longe, vem se aproximando.

O macaquinho grita, pula, faz caretas, esbraveja, esperneia. Mas não abre a mão, não larga o doce.

Acaba no zoológico ou coisa pior.

Existe, tambem, uma razão histórica para a preferência, do malandro, pelo relacionamento amoroso/sexual  não-monogâmico.

O Malandro começou a se cristalisar no Rio de Janeiro no começo dos 1900s. Entre as duas Grandes Guerras Mundiais que destroçaram a Europa, e levaram os Estados Unidos à posição que anteriormente pertencia ao orgulhoso Império Britânico. No tempo em que determinadas (então) novidades tecnológicas estavam se tornando corriqueiras e populares: a luz elétrica, os carros, o avião, o telefone, o rádio. No ocaso da época dos Grandes Impérios regidos pela Realeza; na época da fundação do Comunismo na Rússia, e da ascenção do Capitalismo Selvagem disfarçado de Democracia liderado pelos USA.

E tambem na época de reformas radicais na cidade do Rio de Janeiro, capitaneadas pelo prefeito Pereira Passos, que vai botar abaixo áreas do centro da cidade – onde habitava a rude plebe, que vai se refugiar nas favelas -, e construir uma moderna e espetacular “Paris Tropical”, com a Cinelândia, a Avenida Rio Branco, o Teatro Municipal, e a Biblioteca Nacional.

O Malandro é o desdendente dos capoeiristas das maltas, que foram dizimadas com a perseguição levada à cabo pelo primeiro chefe de polícia da recem-proclamada República Brasileira, Sampaio Ferraz, o Cavanhaque de Aço – ele, tambem, um praticante de capoeira.

Ora, por volta de 1900/1920, somente as mulheres da vida frequentavam as noturnas. Mulher “direita” não frequentava dancing e cabaré, que eram o habitat do malandro. Então, era com as putas, com as artistas de teatro que ocasionalmente faziam michê, que o malandro se relacionava. E, evidentemente, ele não podia exigir a monogamia da mulher, pois em muitos casos, ele vivia da grana que ela faturava.

 

O MALANDRO E O MACHISMO

A filosofia da malandragem encara com ironia o machismo.

O machista pensa que pode comer todo mundo, mas ninguém pode comer a mulher dele.

Nem tampouco comer suas amantes, irmãs, filhas, nem mesmo sua vovó ou mamãe. Nem mesmo o papai do machista pode comer a mamãe dele, veja-se a problemática do Édipo levantada por Sigmund Freud.

O machista se acha “dono” dessas mulheres, especialmente a “sua” esposa, noiva, namoradas e amantes. A possibilidade que uma delas possa traí-lo – “côrno!” -, é uma fonte constante de preocupação, pois o machista é refém da opinião pública, em especial a dos outros homens.

 

AS CAFETINAS, OS CAFETÕES, OS GIGOLÔS

Mas além desta infra-estrutura “psicológica”, que acabamos de apresentar e que enfoca o sentimento de posse, o machismo, etc.;  existe também, caro leitor e gentil leitora, um aprendizado prático do sexo, como já havíamos comentado antes de “apresentar” o Malandro, e diferenciá-lo de outros atores, não tão nobres, do cenário da marginalidade.

E, apesar das cafetinas e cafetões não serem necessariamente Malandros – são comerciantes capitalistas -, seus ensinamentos práticos lançam uma certa luz, embora geralmente de forma grosseira e rude, sobre a desconhecida arte do sexo – algo básico nos ensinamentos da Escola da Malandragem.

Na intimidade, o Malandro coloca em ação  seu conhecimento sexual e sensual; muitas vezes aprendido com velhas cafetinas e prostitutas de ilimitada experiência, quando ele ainda era um adolescente.

Estas distintas senhoras vestem seu protegido com roupas vistosas, brilhantina no cabelo, e um exagero de perfume; enfeitam-no com muitos anéis, grossas pulseiras e cordões de ouro; formam o jovem malandreco na prática e na teoria do sexo e das mulheres.

 

O CLITÓRIS

Mas qual o teor prático deste aprendizado sexual?

O ensino básico se refere ao clitóris.

Ouvi uma velha megera escolando um de seus protegidos:

“Quem gosta de pau duro é viado; mulher gosta é de siririca (masturbação) e dinheiro!”

Em outra ocasião, ouvi um experiente e bem sucedido gigolô – que na adolescência, antes de fazer seu upgrade, tinha sido cafetão -, pontificar um discurso para um grupo de neófitos. Este Malandro, até certo ponto, relatisava a falta de importância do “pau duro”, explicitado pela velha cafetina. 

Os aprendizes ouviam-no atentamente e em silêncio, podia-se literalmente ouvir uma môsca voando. O prestígio deste gigôlo tinha fundamentos evidentes: estava sempre rodeado de mulheres; de todos os tipos – “quem de tudo come, está sempre mastigando” -; e de todas classes sociais – era um verdadeiro socialista e democrata.

“Homem tem medo de brochar, então quando fica de pau duro vai logo metendo a piroca na mulher.

 Eles acham que “ser homem” é dar uma porção de pirocada com força na buça da mina. Aí o cara goza. A mina faz aquele teatrinho, e finge que gozou também.

Se ela não fingir que gozou, o mané vai sair dizendo que ela ‘é frígida’.

E a próxima mina que o mané comer vai ficar com fama de ‘gostosa e quente’ se fizer bastante alarde e teatro, dizendo que gozou.

Mulher não está aí pra botar azeitona na empada de uma outra vadia qualquer. Então, ela finge que gozou; apesar de não ter tido tempo, nem preparação – a siririca -, para gozar.

Foda é que nem jogo de futebol.

Os primeiros 45 minutos é só lingua e dedo no grelinho (clitoris); a mina vai ficar toda molhada, vai gozar na tua boca, vai implorar pra voce meter nela.

Mas você não mete.

No máximo fica tateando, só com a pontinha da pica, a entradinha da buceta dela, enquanto continua a bater a siririca com o dedo.

Presta atenção, mané, que dedo não é Bom-bril (palha de aço para limpar panela), e o grelo da mina não é frigideira enferrujada. Passa o dedo de leve, de preferência molhado de cuspe, ou se voce for um perfeicionista, use vaselina. Se a mina, mais adiante, e já enlouquecida, quiser que voce esfregue com mais força; ela vai te pedir com palavras, ou vai guiar a tua mão.

O pau-nas-buças só entra em campo pra dar a goleada nos 45 minutos do segundo tempo.

Mas, aí, o jogo já está ganho.

Mesmo assim, a pica dura tem seu valor. Valor físico na hora da foda, e tambem nas mentalidades da mina.

Se voce tiver a sorte de ter um pau de tamanho mediano, ou um pouco maior que o mediano; na segunda vez que voce for comer a mina, ela vai ficar gulosa do teu pau. Ela sonhou e viu aquele pau duro nas fantasias da imaginação dela, depois que voce deu aquela primeira surra de siririca e de pica na creatura.

Aí, um garotão que estava entre os ouvintes, com uma expressão de descrença crítica no rosto, comentou:

“Eu não entendo essa mania de querer comer todas as mulheres do mundo. Eu tenho minha namorada, gosto muito dela, e ela é apaixonada por mim. Pra que eu vou perder meu tempo comendo uma porção de mulheres. Acho tudo isto um sinal de muita carência afetiva, de muita insegurança”.

O ex-cafetão ficou olhando pensativamente para o jovem, finalmente deu de ombros, e respondeu.

“Faz o seguinte: arma um time que tenha umas mulheres gostosas, umas mulheres bonias, umas inteligentes, outras com suíngue e personalidade. Come estas minas uns dois ou tres anos; depois compara com o período que voce passou junto a namorada que te ama tanto. Aí, a gente conversa”.

O garotão levantou uma sobrancelha, naquela de desafio. Neste momento ia passando,  na rua, uma senhora bem tipo classe média. O malandro, irônico, comentou, indo diretamente ao cerne da questão:

“Aí, acho que tua mãe tá te procurando”.

 

SAINDO BATIDO

Meus relacionamentos com as quatro balzaquianas de Belo Horizonte eram um lance meio perigoso, apesar de apenas uma delas ainda ser casada e morar com o marido.

É que eu era um mulato jovem. E, para irritar mais ainda os racistas de plantão – que não eram poucos -, eu era boa pinta, dançava bem pra caralho – era um sucesso nas boatezinhas avant garde.

Então, meus encontros com aquelas gostosas eram sempre em ambiente fechado. E não podia nem ser num dos poucos motéis da cidade; seria um escândalo, a começar pelo porteiro – a dondoca com o mulato.

Ou então a coisa rolava numa das duas buatezinhas frequentadas por jovens ricaços doidões, artistas plásticos de araque, jornalistas e colunistas sociais descolados, aspirantes à literato, várias bichas talentosas da alta costura, e mais algumas outras que eram donos de antiquário ou de galeria de arte. Ali, naquele ambiente escurinho regado a uísque escocês, as mentalidades eram mais arejadas e em sintonia com os lances que rolavam nos círculos prafrentex de New York e da Europa.

Eu transitava livre e tranquilamente pelos ambientes modernosos de Belô: mandava bem o francês e inglês, arranhava alemão.

Nas tranzas com as minas, nos vários anos de Europa, tinha aprendido – europeia adora civilizar um primitivo! – quem era Picasso e VanGogh; Coco Chanel e Saint Lauren; Jung e Freud; Banhaus e Andy Warhol; Baudelaire e Nitzsche; Kerouac e Jim Morison. Não era preciso sacar nada em profundidade, só uma meia dúzia de clichês superficiais e rastacueras; e, então, eu era o cara!

Mas mesmo nesses guetos de riquinhos e descolados rolava um racismozinho.

E foi num desses, quando eu já estava instalado e curtindo a maior onda, que a vaca foi pro brejo.

 

Fim do capítulo 6

Capítulo 5 – Noivo da Vida

CAPOEIRISTAS

PULP FICTION TROPICAL

 

Nestor Capoeira

capítulo 5

 

Finalzinho do capítlo 4

Nos 20 anos seguintes, até a morte do Senador em circunstâncias um tanto misteriosas – murmurava-se: “queima de arquivo” -, Piu-piu e Bule viveram vida de Príncipe. 

Fim do cap. 4

  

NOIVO-DA-VIDA

 

Eu cresci na malandragem, tirei meu diploma no asfalto.
Da cobra conheço o bote, da onça conheço o salto,
do tamanduá o abraço, do escorpião a peçonha;
Dos homens, a mesquinhez e a maldade medonha.

Meu nome é Noivo-da-Vida, mas na roda da brincadeira
do Jogo de Capoeira, meu apelido é Liberdade.
E já tarda demais o amanhecer.

(Nestor Capoeira, 2014; CD A balada de Noivo-da-Vida e Veneno-da-Madrugada)

 

O MENDIGO NO ESPELHO

Noivo aremessou com raiva a garrafa que se espatifou numa árvore. Levantou-se, atravessou a praça e se embrenhou numa rua onde algumas lojas ainda estavam abrindo as portas.

Ia murmurando frases imcomprensiveis; e então lembrou-se:

“A maçaroca de notas…”

Noivo enfiou as mãos nos bolsos e, satisfeito, achou as notas amarfanhadas.

Entrou num botequin, os clientes espalhavam-se pelas mesas tomando o café da manhã.

Noivo bateu com a mão espalmada de dinheiro no balcão de alumínio.

“Ô mané, vê uma cachaça. Capricha na dose.”

“Teu dinheiro aqui não vale nada. Não tem nada de cachaça pra mendigo bebum e safado.”

Mendigo?

Noivo surpreso olhou o espelho atrás do balconista do outro lado do balcão. Constatou que, realmente, havia um mendigo imundo – a barba de meses; a roupa suja e esmolambada em pedaços, mal cobrindo o corpo.

Mas o que é que ele, Noivo-da;Vida, ttinha a ver com isso?

Noivo se virou já exorcizando – “sai fora…” -; mas não há ninguem ali . Noivo ve com asco que o mendigo é a sua própria imagem refletida no espelho.

“É isso mesmo”, diz o gordo e parrudo dono do bar, “sai fora. Vai curtir a tua cachaça em outro lugar antes que eu te arrebente a cabeça”. E puxou um grosso porrete de trás da caixa registradora.

 

PULO-DO-GATO

Noivo finalmente cai na real: mendigo bebado, imundo e ensebado.

Um murmúrio estrangulado de raiva e desgosto escapa de sua garganta.

Apoia as duas mãos no balcão e, num pulo de gato, já esta em pé na superficio de aluminio. Ele aterisa no balcão num só pé e, no mesmo movimento, chuta a cara do balconista com o outro pé, num movimento sincronisado, harmônico, perfeito.

O dono do bar cai para tras, braços abertos, esparramando-se nas prateleiras, derrubando um monte de garrafas que se espatifam no chão.

Noivo, em pé no balcão, sólido como uma rocha, murmura roucamente mais alguma coisa; gira lentamente a cabeça e circula o olhar vermelho e ensandecido pela duzia e meia de comensais que o olham boquiabertos e estupefatos.

Noivo subitamente, leve e preciso como um gato, pula  por cima do corpo estatelado do dono do bar; pega uma coxinha de galinha e a devora de um só golpe, pega outra – idem. Abre a caixa registradora e pega as notas de dinheiro; enfia nos bolsos imundos. Agarra uma garrafa de cachaça e toma dois longos goles e vai sair… mas subitamente para.

Olha longamente seu reflecxo no espelho.

Murmura mais algumas palavras imcompreensíveis.

Vai ate a pia e pega uma barra de sabão de coco que tambem enfia no bolso. E – garrafa na mão -, sai do bar sem olhar sequer mais uma vez os apavorados fregueses.

É como se ele estivesse sozinho em sua própria casa e, agora, sai calmamente e ganha a rua.

As pessoas, ainda temerosas, aproximam-se lentamente da porta do bar e olham tímidos para fora.

Noivo já esta dobrando a esquina.

Um jovem comenta com seu amigo:

– Voce viu o Samurai Louco do Shaolin? Foi programa duplo com As Peitudas que Fazem de Tudo por Trás, lá no Odeon. Uns caras matam a mulher do samurai, ele enlouquece e sai pelo mundo afora caçando os caras e cortando as cabeças deles.

 

O SAMURAI LOUCO DO SHAO-LIN

Noivo dobrou a esquina e sem diminuir a marcha recolheu uma calça branca e uma camiseta riscada de vermelho que estavam penduradas num cabide tipo mostruário em frente a uma das lojas recem abertas.

Vai andando seu andar empinado, calmo, resoluto, ligeiramente gingado, a cabeça levantada e o olhar no horizonte; algo que destoa completamente do visual das roupas e da imundíce de mendigo.

Se alguem tivesse a curiosidade de olhar o corpo que transparece por baixo dos farrapos imundos, ficaria mais surpreso ainda com a musculatura trabalhada e recortada por anos a fio de treinos e jogo.

Noivo vai murmurando consigo mesmo.

Cheguemos mais perto.

Aos poucos, a algavaria ininteligivel vai se condensando lentamente, na mesma medida em que o olhar, injetado e alucinado, tambem vai clareando em lampejos de lucidez.

“Eles pensam que estou derrotado, definitivamente caído. Podem pensar o que quiserem, bando de filhos-da-puta, Mas ainda não estou acabado. Longe disso. Eles vão ver a volta que o mundo deu, e a volta que o mundo dá. Eles vão ver que eu ainda não esqueci o pulo-do-gato.”

 

VOU ONDE A VIDA LEVAR

Se voce leva uma vida seguramente balizada e sinalizada; trilhando por caminhos de seguros projetos de estudos, de trabalho; é normal que voce encontre dificuldades e obstáculos – assim é o viver.

Mas em condições normais de temperatura e pressão, o obstáculo é vencido. E mesmo que não se consiga tudo aquilo do nosso sonho e desejo – you can’t always get what you want -, vamos chegar em algum lugar onde, mesmo que intimamente insatisfatório, podemos levantar um olhar arrogante. sentado ao volante do novo carro recem comprado e mentir. Fingir estar plenamente satisfeito com a vida:

– Estou numa boa! Numa ótima! I am a winner!

Assim é o viver do proletariado bem pago; assim é o viver da classe mérdia, e da  burguesia, no mundo do dinheiro e da tecnocracia em tempos de condições normais de temperatura e pressão.

Mas se voce vai onde a vida te leva; se voce vai onde a vida levar; seguramente vai encontrar muitas encruzilhadas que desembocam em um número sem fim de trilhas e caminhos.

Cuidado!

Alguns conduzem ao abismo.

Mas, anime-se, tambem é verdade que a sorte é fada madrinha dos corações aventureiros.

 

A CANÇÃO DE NOIVO-DA-VIDA

Eu  sou Noivo-da-Vida,
angola e regional;
Já rodei o mundo
tocando meu berimbau.

Vi o sol da meia-noite
e a noite fria do deserto,
poeira de muita estrada,
amores lá longe e aqui perto.

 

(Nestor Capoeira, 2014; CD A balada de Noivo-da-Vida e Veneno-da-Madrugada)

 

NEW LOOK

Noivo dobrou a esquina e sem diminuir a marcha recolheu uma calça branca e uma camiseta riscada de vermelho que estavam penduradas num cabide tipo mostruário em frente a uma das lojas recem abertas.

Voltou à pracinha, tirou a roupa, ficou nú, entrou no laguinho e começou a se lavar com o sabão de coco. Tomou um banho longo, lento, sem pressa, enquanto ouvia o cantar dos passarinhos.

Depois deitou-se ao comprido, de barriga para cima, num dos bancos de madeira, para secar ao suave sol matinal, e cochilou.

Sentia-se bem naquela praça com suas enormes árvores centenárias e seu velho chafariz rococó despejando água por oito bocas de bronze.

Não se dava conta de sua nudez.

 

PRAÇAS COM CHAFARIZES

Noivo sonhou um daqueles sonhos vívidos, coloridos, com enredo mais racional que seriado americano de televisão.

O cenário era o Rio Antigo dos 1800s, aquele mesmo Rio que muitos viajantes estrangeiros compararam a uma das grandes metrópoles africanas a baira-mar, e que Libano Soares tão bem descreveu:

“Uma cidade do Rio de Janeiro coalhada de africanos, atravessada por limbambos de negros acorrentados, persigangas flutuantes carregadas de condenados, pelourinhos espalhados pelas praças, onde, por muitos anos, os capoeiras sofreram o flagelo do açoite, do vergalho, cercados de quitandeiras e de negros de ganho, moradores dos zungus”.

As maltas de capoeiras dos 1800s dominavam áreas da cidade; e o capoeira se filiava a uma, ou a outra, não necessariamente por morar naquela freguesia mas por uma escolha pessoal.

 Os pontos principais de encontro eram:

– os adros de igrejas e a própria igreja; militares não entravam armados nas igrejas para prenderem delinquentes ou capturar desertores do exército e da marinha;

– determinadas tabernas que os capoeiras denominavam fortalezas;

– os zungus; casas de angu, locais onde negros moravam e se reuniam; tanto os libertos, quanto os escravos negros de ganho que saiam de manhã para o trabalho freelancer e de noite tinha de entregar uma determinada quantia a seu senhor;

– os cortiços, ocupados por mulatos e brancos pobres;

– a zona potuária; a estiva, as docas, os locais frequentados por marítmos e marinheiros nacionais e estrangeiros; local de muitas trocas culturais. 

Mas o principal ponto de encontro eram as praças com chafarizes, lugares de convivência explosiva onde os escravos – as vezes, de maltas diversas – iam constantemente buscar água para abastecer a casa senhoril. 

A capoeira era o meio de estabelecer hierarquias e áreas de domínio dentro do próprio universo escravo; algo que se via diariamente nas filas para buscar água, nas praças.

Mais do que uma “forma de resistência contra a opressão senhorial” – como desejariam alguns puristas adeptos da versão heróica dos fatos -, a capoeira foi uma ferramenta na disputa do domínio de diferentes áreas da cidade, pelas diferentes maltas.

Após a sesta, ou o almoço, e principalmente de noite e de madrugada, os negros capoeiras sorrateiramente esgueiravam-se da casa senhorial e aproveitavam a maior liberdade para dominar as vias mais importantes da cidade. O encontro de duas maltas frequentemente deixava saldo de mortos e feridos.

Vimos que esta disputa se perpetuou, até mesmo em nossos dias, com a luta pela hegemonia entre estilos, cidades, e entre os próprios mestres. Por exemplo, a transformaçãoção dos 1960s, com João Grande e João Pequeno; Peixinho, Suassuna, Acordeon e outros.

 

CRONOMETRAGEM HARMÔNICA

 Noivo acordou confuso: o sonho lembrava os lampejos de clarividência durante a época em que, junto com Veneno e Toninho Ventania, tinha armado os pelotões de seu “exército”.

Lentamente, ainda murmurando para si mesmo, vestiu a roupa nova e limpa – ao fundo, o chilrear dos passáros, e o múrmurio de água corrente -; e saiu da praça exatamente no momento da chegada de uma patrulhinha que vinha averiguar a denúncia de um homem peladão tomando banho no chafariz.

 

UMA CIDADE DENTRO DA OUTRA

Em que medida a disputa, e este “domínio”  da urbe, que a massa escrava exercia cotidianamente na cidade do Rio de Janeiro duranre o Brasil Império, nunca se manifestou numa revolução aberta; num levante generalizado, como tinha acontecido no Haiti, ou em Salvador na Revolta dos Malês de 1833?

“Assoviando e portando paus, cometendo desordens na maioria das vezes sem nenhum razão”; em 1817, o Intendente de Polícia, Paulo Fernandes Viana, faz questão de mencionar a aparente “falta de objetivos” dos capoeiras, pois não se dedicavam primordialmente ao furto e ao roubo.

Mas Libano Soares no seu Capoeira Escrava explica brilhantemente a motivação: a construção de “uma cidade dentro da outra”:

“Primordialmente, a existência de um grande aparato militar…e a heterogeneidade étnica e cultural (dos escravos que vinham de diferentes regiões da Africa) era contrária à um levante geral… as maltas de capoeira eram a concretização possivel deste inconformismo escravo.

Ao invés de reinvindicarem uma unidade dos cativos, as maltas lutavam por espaços limitados, restritos, pedaços do estreito mundo urbano colonial. Os conflitos com agentes do Estado colonial, ou imperial, não eram incoerentes com a guerra crônica entre as maltas de escravos: tanto uns quanto outros (os policiais e as outras maltas) eram invasores, beligerantes, se bem que em planos diferentes…

A cidade era sua, mas não toda a cidade, ou toda de uma vez… eles forjaram uma cidade dentro da outra.”

 

 O MÃO DE FACA

 

He was looking for the card
that is so high and wild
he’d never need to deal another.

(Leonard Cohen)

Nossa estória – além de Veneno-da-Madrugada, Noivo-da-Vida, e Toninho Ventania; além dos mestres Bimba e Pastinha; de João Grande e Pequeno, Decânio e Jair Mora; Peixinho e Acordeon e Suassuna -, tambem é a estória de um destes raros Encantados de Alta Hierarquia que resolveu encarnar e viver uma longa vida terrena.

E fez isto mais de uma vez.

A curtição deste Encantado não é, nem nunca foi, desempenhar um papel como, por exemplo, o de Alexandre Magno ou Genghis Khan, que com seus exércitos dominaram a quase totalidade do mundo “civilizado”.

Nem tampouco um Ghandi que, sozinho, enfrentou, derrotou, e tomou a Índia das mãos do arrogante e violento Império Britânico – the sun never sets over the British Empire – sem dar um ünico bofetão. 

Este Encantado preferiu atuar em papéis menores, muitas vezes “dentro” e perto do núcleo dos principais acontecimentos da época; e outras vezes, nem tanto.

Por outro lado, este Encantado não deletou completamente as personalidades das crianças na qual encarnou. O Encantado “conviveu” – dentro do corpo e da mente e do espírito – com aquelas crianças; e mais tarde, com os adolescentes e adultos que elas se tornaram. Algo que é visto quase como uma obscenidade no Mundo Espiritual.

Quer dizer, nos Mundos Espirituais Médio e Não-tão-Alto, pois lá tambem existem estes prolegômenos,  estas regrinhas de “devemos nos comportar assim ou assado”.

No entanto, nos níveis mais elevados da Hierarquia… tanto faz, como tanto fez; o que realmente interessa é o Axé, a força criativa e de realização de determinado Ser.

 

MEU BRASIL BRASILEIRO

O Encantado escolheu o Brasil mais de uma vez.

Porque?

Difícil dizer.

Tim Maia dizia que, no Brasil, puta goza, cafetão se apaixona, e traficante é viciado. Parece que o nosso espaço é um tanto especial.

A tal ponto que, embora a última encarnação de qualquer humano, antes de deixar a Gira Terreste para encarnar em outras mais evoluidas, sempre ser na Índia; depois, ele ainda vem mais uma vez, a passeio, dar um rolê no Brasil.

O Encantado provavelmente escolheu o Brasil devido à geografia, ao clima, e à concentração excepcional e única de energias locais que permitiram que ele curtisse ao máximo os melhores aspectos e paradoxos e prazeres do material world.

Alem disto, apesar do Nelson Rodrigues afirmar, com razão, que a função das massas é parir o gênio e, depois que o pariu, voltavam a babar na gravata; a verdade é que até mesmo as massas daqui – miseráveis, proletários, classe mérdia, pequena e alta burguesia – tem um certo suíngue. A figuração do filme é boa.

O Encantado escolheu o Brasil, mas sempre depois de 1800: aquele negócio de vida de índio, de Brasil Colônia, e até mesmo o mundo aristocrata de D. Pedro I e de D. Pedro II, realmente nunca foi a sua onda. Se, por acaso, ele tambem esteve por aqui no Brasil Império, foi somente para curtir a chegada dos 1900s e, mais especificamente, as últimas décdas do século e a entrada dos 2000.

 

O nome deste Encantado no mundo espiritual é Mão de Faca.

 

Fim do capítulo 5

Capítulo 4 – Veneno da Madrugada

CAPOEIRISTAS

PULP FICTION TROPICAL

 

Nestor Capoeira

capítulo 4

 

Finalzinho do capítlo 3

E o Encantado nunca perde.  Afinal de contas, quando seu corpo terrestre morre – jovem ou matusalem -, o Encantado volta, feliz e saudável, ao Plano Espiritual onde habita.

Nossa estória tembem é a estória de um destes raros Encantados de Alta Hierarquia que resolveu encarnar e viver uma longa vida terrena.

 

Fim do cap. 3

 

VENENO-DA-MADRUGADA

 

Quiseram me matar

na porta do cabaré;

Eu vivo lá, noite e dia,

só não mata quem não quer.

 

Ê, meu nome é Veneno,

Veneno-da-Madrugada;

de Iansã, eu tenho o raio,

de Ogun, ferro e espada.

 

Eu sou livre como o vento,

venho de uma linhagem nobre;

Só respeito o velho Tempo.

que com o Tempo ninguem pode.

 

Ê, galo cantou.
côro: Ê, galo cantou, camará!

(Nestor Capoeira, 2014; CD A balada de Noivo-da-Vida e Veneno-da-Madrugada)

 

MATUTANDO FILOSOFIAS

Veneno, encostado num balcão de bar na Praça do Lido, em Copacabana, bebendo uma gelada, olhava a festa louca que rolava na rua e matutava com seus botões.

Ele tinha passado em casa.

Guardou o dinheiro roubado num mocó sigiloso.

Meteu uma beca diferente – bermuda de linho azul claro; camiseta regata branca sem mangas, colada no corpo; sapato mocassin italiano importado de couro preto macio combinando com o cinto e, no pescoço, um fino cordão de ouro com um Cinco Salomão pendurado.

Deu dois numa beata vadia. Saiu do kitchinete, desceu de elevador, e ganhou a rua.

E, agora, Veneno matutava suas filosofias.

“Crime perfeito. Aliás, quase perfeito: faltava deschavar o conjunto de moleton bege numa lixeira longe de casa”.

Alguem poderia ter visto Veneno – “… um negro de moleton bege” -, quando escalava o Copacabana Palace

 

O CINCO SALOMÃO

No Brasil, a magia e a feitiçaria são muito populares. Algo veio com os africanos; algo dos índios brasileiros; algo dos europeus, incluindo os judeus.

O Cinco Salomão (signo de Salomão) é a estrela de cinco pontas do rei judeu, Salomão, a respeito do qual lemos na Bíblia.

Na Europa medieval, a estrela de cinco pontas -talvez originalmente da cabala judia – estava ligada a diferentes rituais e simbolismos da “magia branca”. Quando era desenhada de cabeça para baixo, significava “magia negra”.

No Brasil, o Cinco Salomão  é usado como amuleto protetor para “fechar o corpo”.

João do Rio o menciona numa de suas crônicas, de maneira tão familiar que não deixa dúvidas quanto à popularidade do amuleto desde, pelo menos, o início dos 1900s.

Muitas vezes, a estrela é um amuleto feito de metal – ouro, prata, ferro – pendurado no pescoço; outras vezes, é usado juntamente com ervas, infusões, banho de fumaça, rezas mágicas; pode tambem ser usado como ponto riscado, desenhado no chão.

O Cinco Salomão simboliza um homem de braços e pernas abertas.

Leonardo daVinci, que também era alquimista, fez um conhecido desenho da estrela e seu simbolismo. A estrela/homem é circundada por um círculo para proteção contra o mal físico, mental ou espiritual.

No Brasil, o círculo vem, muitas vezes, encimado por uma cruz. É a cruz do Cristo; mas também é a cruz das encruzilhadas, local de tomada de decisões que pertence a Exú – o mensageiro entre deuses e homens que carrega o axé (energia vital) a tiracolo numa cabaça pontuda.

O Cinco Salomão é o signo protetor do capoeirista.

Dizem que fecha o corpo contra faca, navalha, bala de revólver; protege contra emboscada; fortalece o  espírito contra mandinga e olho grande.

Na academia de mestre Bimba, em Salvador (1930 em diante), adotaram um logotipo que chamaram de Cinco Salomão. Mas, na verdade, era a estrela de seis pontas do rei  Davi, outro símbolo muito poderoso entre os antigos alquimistas da Europa.

 Os dois triângulos entrelaçados, um apontando para baixo e outro para cima, tinham diversos significados:

– “o que está acima é como o que está abaixo”;

–  o mundo material (cá em baixo) seria um reflexo dos eventos do mundo espiritual (lá em cima);

– o positivo e o negativo, o bem e o mal, caminham entrelaçados e compõe uma única coisa, etc.

Mestre Decânio, braço direito de Bimba na década de 1940, me contou que a estrela de seis pontas tinha sido escolhida, ao invés do tradicional Cinco Salomão de cinco pontas, porque entre outras coisas, mostrava o entrelaçamento entre o jogo em pé (no alto) e o jogo no chão (em baixo).

 

COLHER-DE-CHÁ

Veneno, no  bar da Praça do Lido, matutava com seus botões.

Tem que correr atrás.

Ficar esperando o mar pegar fogo pra comer peixe frito raramente funciona.

No entanto, vez por outra, a vida sorri – dá uma colher-de-chá. Os chineses aconselham: “agarre as oportunidades pelos cabelos, elas ficam carecas rapidamente”.

Basta o cara estar atento aos sinais; reconhecer o momento de agir; entrar no fluxo; agir sem pestanejar, no tempo, rápido, mas lúcido e com calma.

E depois – e isto era importante -, fechar a parada cuidadosamente com chave de ouro. E Veneno se lembrou que ainda faltava deschavar a roupa de moleton bege longe de casa.

Para um jogador de capoeira experiente a situação – “agarrar as oportunidades” – não era uma novidade: acontecia em todo jogo, acontecia em toda roda.

“Viver é uma arte”, sentenciava mestre Angolinha, “mas nem todos são artistas”.

 

TOME CUIDADO PARA NÃO ME ACORDAR

“O dia tinha começado bem”, pensou Veneno, “e, agora, com a grana já guardada, o Brasil vencendo o jogo, e a festa rolando na rua; o dia ia terminar melhor ainda”.

Veneno tinha acordado cedo: a mina da noite anterior tinha de sair para trabalhar.

Ele levou-a até a porta, enfiou uma grana na mão dela: “pra pegar um taxi”. Ela recusou, estranhando a situação como se dissesse “não sou nenhuma vagabunda”. Veneno beijou-a na boca ternamente e insistiu: “você vai chegar atrasada; pega um taxi”. Ela aceitou e partiu duplamente feliz, embolsando a grana.

Veneno voltou pra cama e sorriu ao se lembrar de uma chula de Nestor Capoeira:

“Amanhã,

quando você for trabalhar, tome cuidado

para não me acordar:

eu durmo tarde,

 a noite é minha companheira”.

 

SINAIS DO DESTINO

Depois que a mina saiu, Veneno se lembrava que tinha apagado e só acordou novamente no comecinho da tarde; sentia-se leve e novo como um bebê.

Botou uma sunga, óculos escuros, pegou uma grana. Tomou um suco de laranja e comeu uma esfirra na lanchonete da esquina, e andou dois quarteirões até a praia de Copacabana.

Deu um corridão de uns 40 minutos na areia dura perto do mar até o Posto 6; enfiou os óculos escuros dentro da sunga, junto com a grana, e voltou nadando.

Encontrou uma rapaziada jogando bola na praia em frente a Praça do Lido; bateu uns 20 minutos de bola. O jogo acabou, deu um mergulho para refrescar a carcaça. Saiu da água se espreguiçando satisfeito.

Veneno estava em forma.

 Aí, a fome apertou.

Passou em casa, tomou uma ducha, meteu um conjunto bege claro – destes de moleton que a rapaziada usa pra correr no calçadão -, apertou e deu dois num baseado, e foi rangar um peixe num boteco da rua Rodolfo Dantas.

 Foi por causa da fome, e da vontade de comer peixe – vejam bem como a vida é curiosa -, que Veneno acabou escalando o Copacabana Palace, e embolsano a grana do gringo gangster.

A rua estava elétrica, breve, no fim da tarde, ia rolar a semifinal da Copa do Mundo e o Brasil tinha chances de vencer e ser finalista.

Veneno pediu a muqueca de peixe à capixaba – aquela que usa, em vez do azeite de dendê, o azeite de oliva temperado com a semente de urucum. O urucum – uma semente vermelha, muito usada pelos índios brasileiros – tem de ser cozinhado, sem ferver, no próprio azeite de oliva. Para temperar o peixe, use tambem pouca pimenta e um quase nada de leite de côco.

Veneno deu um gole numa ótima cachaça mineira, esfriou a garganta com um gole de cerveja super gelada, e provou a muqueca. Estava ótima.

Mas Veneno lembrava que tinha pensado: “está ótima, mas a verdade é que não chega nem aos pés da muqueca do Marcelo Peixinho”.

 

MUQUECA AO URUCUM

Peixinho foi um dos (então) adolescentes que fundaram o Grupo Senzala de Capoeira do Rio de Janeiro, no começo dos 1960s.

A Senzala se tornou hegemônica nos 1970s e 1980s, tanto no estilo de jogo, quanto na nova infra-estrutura de um (então) moderno grupo de capoeira. E, junto com alguns baianos que se radicaram em São Paulo, como Suassuna e Acordeon, foi uma das principais locomotivas de divulgação no Rio, e depois em todo o Brasil – são 25.000 professores no Brasil, hoje em dia -; e também, a partir de 1971, no exterior – a capoeira já esta com 5.000 professores em mais de 150 países.

Nesta virada, que começou por volta de 1960 – de Salvador para o Rio e São Paulo, e daí para o mundo -, a capoeira sofreu mais uma transformaçao.

Uma transformação tão profunda quanto a do final dos 1800s: das violentas maltas cariocas; para a capoeira jogada na roda ao som do berimbau, da cidade de Salvador.

Veneno-da-Madrugada, assim como Peixinho e mais uma dúzia que ainda esta na ativa, viveram e foram os vetores deste upgrade de 1960. 

O Peixinho – melhor diríamos, o mestre Peixinho – era um craque na capoeira, no frescobol na Praia do Diabo, no selim da sua potente motocileta, e na muqueca à capixaba.

Na muqueca era imbatível: mergulhava e fisgava os peixes com arpão; e depois preparava a sua obra de arte usando facas japonesas de aspecto letal, e panelões de barro artesanais. Isso acontecia, para gáudio da rapaziada, num casarão que Peixinho tinha alugado na fronteira do Bairro de Santa Teresa com as favelas do Curvelo e da Coroa que viviam trocando tiro pois eram dominadas por duas facções diferentes do tráfico de drogas – por causa do tiroteio, o aluguel do casarão era uma mixaria.

Esta nova turma – Peixinho e Veneno e outros, da mudança de 1960 – era muito diferente dos capoeiristas da geração mais velha, como João Grande e João Pequeno – discípulos do venerando mestre Pastinha, criador e cultor da capoeira angola. A maioria dos jogadores da geração mais velha eram negros e mulatos de baixa escolaridade, baianos dos estamentos economicamente desfavorecidos.

Nesta geração mais velha tambem haviam brancos da classe média, como Angelo Decânio – que se tornou  médico e professor da Universidade Federal da Bahia – e Jair Perigo Moura – cineasta, jornalista e escritor. Mas devido aos compromissos da vida profissional, esta turma parou de jogar capoeira cedo, com 30 ou 35 de idade; continuando, todavia, a acompanhar o que acontecia no universo da capoeira, escrevendo livros, artigos para jornais, filmando documentários. A maioria era aluno de mestre Bimba, o criador da capoeira regional; o homem que “inventou” a academia de capoeira – inaugurando uma nova era, após o período da escravidão, e o da marginalidade -, e criou o método de ensino que é a base de todos os métodos, de todos os estilos atuais.

Curiosamente, e felizmente para a capoeira, nunca houve ruptura nem estranhamento entre as gerações: João Grande e João Pequeno, Decânio e Jair Perigo, assim como a geração ainda mais antiga – os mestres Bimba e Pastinha -, eram os ídolos dos jovens capoeiristas, do Rio e São Paulo, dos 1960s.

No entanto, isto não impedia a luta pela hegemonia entre os estilos – a geração mais velha (João Grande, João Pequeno, etc.) era de angoleiros, e a turma mais nova (dos 1960s) era de regionais.

Tambem havia a luta pela hegemonia entre cidades – Rio, São Paulo, Salvador e, mais tarde, inúmeras outras metrópoles.

E tambem a luta pela hegemonia “individual”, pessoal, entre os próprios mestres de um mesmo estilo, indiferente às idades, à côr da pele, e às classes sociais.

Era uma tribo onde não havia índios, só caciques.

Todos eles, até mesmo aqueles que originariamente eram otários de quatro costados do proletariado ou da classe média, acabaram formados na mandinga; na arte da esquiva; no suíngue da malandragem alto-astral.

 

SINAIS EXTRASENSORIAIS

Veneno terminou a moqueca – “estava boa, mas a do Peixinho é melhor” -; mandou descer mais uma mineira e uma gelada.

O botequim começou a encher; as ruas ficaram desertas e o jogo de futebol começou.

Uma hora e meia depois, o jogo 2×2, Veneno reparou num carro que tinha parado em frente ao Hotel Copacabana Palace do outro lado da rua deserta e, para sua surpresa, Carlinhos Piu-piu desceu carregando uma maleta de executivo de metal prateado.

“Porra, Carlinhos Piu-piu era Botafoguense doente. Era fanático por futebol. Como é que não estava assistindo o jogo?”

Veneno sentiu, muito lá no fundo, imperceptível talvez para quam não era ligado no lance, um arrepio esquisito.

Sinais.

De repente – assim, vindo de nada – lembrou que, depois que a mina tinha saído de manhã para trabalhar, ele tinha sonhado com uma maleta igualzinha, cheia de dollar – sinais!

Um gringo grandão saiu do Hotel carregando uma maleta, dessas de companhia de aviação. Veneno, mesmo sem querer, ficou ligadão.

O gringo e Piu-piu trocaram de maletas, deram uma olhada cuidadosa no interior – ali mesmo, calmamente, na maior cara-de-pau, em plena Avenida Atlântica.

Apertaram  as mãos.

Piu-piu voltou ao carro e partiu; o gringo grandão voltou para o hotel.

 

OS FILHOS DO SENADOR

Ora, Veneno conhecia Carlinhos Piu-piu desde garoto.

Carlinhos e o irmão, o Delano Bule, eram filhos de um esperto que tinha sido vereador, deputado, vice-prefeito, senador. Moravam num puta apartamento na Avenida Barata Ribeiro.

O Bule tinha se formado advogado e hoje era um respeitado e sofisticado Delegado de Polícia, disputado pelos canais de televisão onde pontificava com elegância e sabedoria sobre os problemas da violência nos grandes centros urbanos; o Piu-piu era talvez o maior tranzeiro da classe média alta de Copacabana e adjacências.

Quando adolescentes, Piu-piu e o irmão iam frequentemente para os USA, inicialmente para Miami, para a Disneylândia – foi lá que, aos 13 e 14 de idade, fumaram o primeiro baseado.

Mais tarde, quando já era surfista nas ondas da praia do Arpoador, Piu-piu descobriu a California, os hippies, e o LSD – que começou a trazer para o Brasil, e vender para os amigos.

Quando a onda hippie declinou, Carlinhos Piu-piu ficou desempregado, mas logo descobriu um novo filão – ecstasy. 

Tudo isso era bancado por eu e por você, caro leitor, gentil leitora; pois era com o dinheiro público que o papai dos dois pilantrinhas patrocinava as viagens para Piu-piu e Delano terem contato com uma “cultura mais evoluida”, inclusive aprendendo a falar inglês.

Piu-piu era um cara inteligente: nunca se meteu no negócio de maconha, e menos ainda no de cocaína; tinha muito cachorro grande disputando a parada e a barra podia derepentemente ficar muito pesada.

Com as costas quentes  – pai deputado e, mais tarde, irmão delegado -, Piu-piu nunca tinha entrado numa fria e, em poucos anos, formou uma rede de vendedores – patricinhas e mauricinhos de grana – que frequentavam as praias e as buates da moda.

É verdade que quando um ramo das Forças Armadas Brasileira – radical de direita, e bastante limitado em matéria de visão e inteligência – deu aquele golpe em 1964; Sua Excelência, o então Nobre Deputado e pai dos dois pivetes, ficou sem saber qual era, perdeu o chão, ficou a ver navios.

Mas quando percebeu que Roberto Marinho – o chefão do jornal e da televisão Globo – tinha se alinhado com os militares linha-dura e, junto com ele, uma corja de canalhas do tipo do banqueiro mineiro Magalhães Pinto, dos latifundiários nordestinos José Sarney e Collor de Melo – pai do futuro presidente Fernando Collor, de triste memória -, do político baiano Antonio Carlos Magalhães, do estelionatário naturalisado paulista Paulo Maluf, e alguns outros; o pai de Piu-piu e Bule não teve mais dúvidas, e tambem se alinhou com a ditadura.

Nos 20 anos seguintes, até a morte do Senador em circunstâncias um tanto misteriosas – murmurava-se: “queima de arquivo” -, Piu-piu e Bule viveram vida de Príncipe.

Capítulo 3 – Toninho Ventania

CAPOEIRISTAS

PULP FICTION TROPICAL

 

Nestor Capoeira

capítulo 3

 

 finalzinho do capítulo 2

… Um grupo de quatro ou cinco colegiais passa do outro lado da rua e, ao verem Noivo com a garrafa, apressam o passo, cochicham entre si, dão risadinhas, e desviam o olhar.

“Qual é? Vão cuidar de suas vidas! É isso aí! Vão correndo pra não chegar atrasadinhos na bosta do colégio!”.

Noivo aremessa com raiva a garrafa que se espatifa numa árvore, levanta-se, atravessa a praça e se embrenha numa rua onde algumas lojas ainda estão abrindo as portas.

FIM do cap. 2

 

capítulo 3

 

TONINHO VENTANIA

 

O meu nome é Toninho,

o apelido é Ventania.

Gosto do cheiro de mato,

de mulher e maresia.

(Nestor Capoeira, 2014; CD A balada de Noivo-da-Vida e Veneno-da-Madrugada)

 

DISNEYLÂNDIA

Ipanema.

Rio de Janeiro.

Brasil.

Eu adentrei as Dunas do Barato.

Era um lindo dia ensolarado de verão, o sol brilhava glorioso no alto do céu. A praia estava atapetada de mocinhas bronzeadas de bundinha arrebitada, e garotões que jogavam frescobal ou “futebol altinho” na beira do mar.

Tirei meu baseado de dentro da sunga e, entre um “alô” aqui e um “tudo bem?” acolá, acendi o charutão enquanto caminhava sem pressa na direção da água.

Eu era um “local” da área.

Mais do que isso: era um daqueles caras que tinha livre acesso às diferentes turminhas e tribos que frequentavam as areias daquele pedaço de Ipanema, quase chegando no Arpoador – o Pier, com suas Dunas do Barato -: doidões da classe média alta e da burguesia, jovens artistas de teatro e televisão, uma nova geração de músicos de rock brasileiro que em breve iam estourar com grande sucesso na mídia.

O mais curioso era que estávamos em plena ditadura militar 1964-1984 e, no entanto, aquele pedaço de praia parecia Amsterdam ou San Francisco, capitais mundiais do movimento hippie.

Eu ia passando e fingia que não ouvia as pessoas murmurando:

– Esse aí é o Toninho Ventania, um bamba da capoeira. Passou uns anos rodando pela Europa e Estados Unidos, fazendo show, dando aula, comendo as gringas. É o maior cabeção.

No começo dos 1970s as passagens de avião para o estrangeiro eram caríssimas; era coisa para quem tinha muita grana. Ou então, uma meia dúzia de caras da Bossa Nova – Tom Jobin e aquela turma de feras – que tinham feito sucesso no Carnegie Hall alguns anos antes, e agora viajavam ocasionalmente para fazerem shows no exterior.

A capoeira ainda estava se firmando no Rio e em São Paulo; um capoeirista, jovem, mulato, que tinha passado “uns anos rodando pela Europa e Estados Unidos”, era algo totalmente inusitado; causava surpresa e admiração.

Aquela rapaziada, quando muito, tinha passado uma semana na Disneylândia, quando garotos, bancados pelo papai ou pela vovó cheia da grana.

 

CHÁ DE SUMIÇO

Depois daquela encenação, alguns anos atrás, da morte de Noivo e Veneno – que eu narrei no A Balada de Noivo-da-Vida e Veneno-da-Madrugada -; Noivo se mandou para o Planalto Central atrás de Ingrid; Veneno retornou a Nova Yorque; e eu tomei um chá de sumiço.

Afinal de contas,  o Dr. Turibio era o diretor do Projeto Javali e fazia parte da gangue de políticos, homens de dinheiro, e militares que mandava e desmandava no Brasil entre 1964 e 1984.

 

BELÔ

Dei um rolê até Belo Horizonte onde o Cavaliere, o Jacaré, e uma meia dúzia de garotões armavam um incipiente movimento de capoeira com uma roda, aos sábados, na feira hippie da Praça da Liberdade.

Belo Horizonte era dominada por uma elite altamente careta naquela época da ditadura. Basta dizer que o logo da cidade era: “Família, Tradição, e Propriedade”.

Mas já haviam vários núcleos, em diferentes camadas sociais, de uma juventude que já estava noutra; a cidade fervilhava com uma multitude de butecos e barzinhos.  A cachaça mineira, diferente do que acontecia nos bares da classe mérdia e burguesia em outros estados onde imperava o whisky e a vodka, reinava absoluta.

E o mais importante: Belô é uma das cidades brasileiras que tem mais mulher. Não é cascata, não. Basta ler os números do Censo Nacional do IBGE – será que é IBGE? Ou é IBOPE?

Não interessa.

Tem mulher pra caralho.

 

A MULHER MINEIRA

A mulher mineira, de Belo Horizonte, tem um lance muito meigo, muito carinhoso; e são lindas. Na cama, são incendiárias, piromaníacas da melhor espécie.

Deve ser por causa daquelas montanhas todas: tem um anel de montanhas recheadas de minério de ferro rodeando a cidade. Dizem que todo aquele ferro, atravessado pelo campo magnético da Terra, acaba criando um lance como um imã gigantesco; é por isso que Belô tem um dos mais altos índices de tempestade de raios do mundo.

Incendiárias, vai por mim.

Com aquela rodinha de capoeira todo sábado na Feira Hippie, chovia mulher.

A feira ainda era uma novidade na década de 1970 e ficava lotada de mocinhas de cabelos longos, sorrisos simpáticos, e calças jeans atochadas no rabo e nas coxas.

Sem falar das balzaquianas gostosérrimas, de 30 e 40 anos de idade que desfilavam, em grupos de 3 ou 4, de vestidos justos de seda estampada revelando as generosas curvas do corpo.

Mulheres “modernas”, “independentes” – apesar de algumas morarem com o pai e a mãe -, com trabalho certo e bom ordenado.

Mulheres que não tinham arranjado marido. Ou tinham se casado e logo separado do mané, muitas vezes pelo fato do cara encher a cara, chegar em casa doidão de birita, e descer a porrada na esposa. Devido à repressão geral, à moral castradora da classe média e da burguesia mineira, tinha muito este tipo de cara; problemático, de cuca fundida, mas fazendo aquele teatrinho que estava tudo bem e mantendo a fachada.

 

FAZENDO A CABEÇA EM BELÔ

Fiquei uma temporada em Belô.

Foi onda.

Eu ia treinar diariamente com os 10 ou 15 jovens apaixonados por capoeira. Treinos puxados, de 3 horas ou mais; e nos sábados e domingos, as rodinhas na Praça da Liberdade. Eu fiquei afiado, em grande forma.

Era muito bom ver que, coisas do Jogo que para mim eram primárias, pare eles eram revelações divinas.

E, aí, aquilo me forçava a olhar com mais cuidado, com o ponto-de-vista de um outsider, para aquilo que eu considerava uma coisa “normal”, um clichê. Mais de uma vez, isto me levou a profundos e curiosos insights:  eu cheguei a entender o núcleo, a razão de ser – e até mesmo o desenvolvimento através do tempo e das gerações -, de um movimento, de um golpe, de uma queda, ou de uma determinada posição de corpo.

Muito legal.

E, é claro, como eu já tinha dito: as mulheres.

Sempre tinha um plantel de jovencitas lindinhas. Mas aquilo dava um trabalho danado. Muito brilho mas pouca substância. Aí, eu dispensava.

Ficava todo mundo de bobeira, sem entender qual era a minha. Porque muitas daquelas minas eram das famílias mais ricas, e o golpe do baú é um clássico na high society mineira: o garotão bonitinho de boa família, mas de pouca grana, que namora uma mina feinha e ricaça – lembrem-se que a cidade tem pouco homem e muita mulher, e arranjar um maridinho bonitão de boa família era uma conquista. 

O cara se casava e ia trabalhar na firma do pai da mina.

Ou, então, fazia uns netinhos e vivia numa boa, com a grana que a esposa constantemente recebia do papai e da mamãe; frequentando o Iate Club – é isso aí, Belô não tem mar mas tem Iate Club -; e só tendo de aturar os comentários do sogrão com os amigos nos lautos almoços de domingo – “… quando é que esse merdinha vai tomar vergonha e começar a trabalhar?”

 

 A MALANDRAGEM ALTO-ASTRAL

Mas eu não estava numa de alpinista, e menos ainda de ascensorista social.

Eu sempre estive noutra.

Sempre estive num lance que, mais tarde, descobri  ser  um vago, longíncquuo, intuitivo, e primitivo esboço da filosofia da malandragem.

Iluminado por Leopoldina – meu primeiro mestre -, e tambem outros malandros clássicos alto astral que fui conhecendo, aos poucos uma maneira diferente de pensar e viver foi se revelando, igual a uma flor que desabrochasse em frente aos meus fascinados olhos.

 

O SEGREDO DE TUDO

Então, sem fazer isto conscientemente, me dediquei especificamente às mulheres mais maduras de 38, 45 anos de idade. Nada de casamento, nada de golpe do baú; só sexo e muita curtição.

E, logo, estava com um time de 4 balzacas de primeiríssima qualidade.

Eu curti muito aquelas minas, que eram consideradas pejorativamente como “solteironas” por aquela sociedade de imbecis auto-reprimidos e repressores.

E, hoje, olhando aquele período retrospectivamente, posso ver que naqueles seis meses eu amadureci na sensualidade e no sexo. Em consequência, amadureci como ser humano. E finalmente me formei como um elegante e jovem malandro na linhagem que passa por Sinhô, Noel Rosa e Geraldo Pereira, Wilson Batista, Zé Keti, João Nogueira, Mestre Leopoldina, e nos chega nas figuras de Paulinho da Viola e Zeca Pagodinho.

Entendi que, se por acaso existir um “segredo” que rege as ações dos indivíduoa da raça humana, este segredo é o sexo e a sensualidade.

O resto – poder, status, dinheiro, sucesso, realizações profissionais, família, bens materiais, amizade, fé religiosa, ideologia, arte -, é tudo sucedâneo; é tudo secundário. São coisas que, evidentemente tem seu valor; mas, na real, são super valorisadas. Na verdade, vem apenas substituir o sexo e a sensualidade quando estes não são praticados e vividos em profundidade e com apaixonada constância.

Curiosamente, mas de uma maneira fácil de entender, estas coisas secundárias acabam se tornando lances de primeira importância no Universo dos Otários.

 

 O MÃO DE FACA

 

A VAIDADE HUMANA

Muitos daqueles humanos que tem um Encantado “encostado”, são tão vaidosos e vulgarers que imaginam que a extraordinária vida que vivem é unicamente consequência de seu valor pessoal.

No entanto, outros seres humanos que tambem foram “visitados” por um Encantado, realmente nasceram com uma compreensão e visão das coisas e do mundo, com um Axé, com uma força, ou um talento  extraordinários.

São pessoas que excedem a nossa vã filosofia: Sidarta o Buda, Alexandre o Magno, Jesus Cristo, Genghis Khan, DaVinci, MichelAngelo, Ghandi, Noel Rosa, Einstein, Pixinguinha, Jorginho Guinle, Mestre Bimba, Mestre Pastinha, Charlie “Bird” Parker, Mané Garrincha, Zeca Pagodinho, são alguns destes que, alem de terem muito talento, alem de terem um dom pessoal, viveram – imgino eu – suas vidas e fantasias reforçadas pelo poder de um Encantado.

No caso de Zeca Pagodinho – músico brasileiro -, ele próprio afirma: “fiz tudo errado mas no final deu tudo certo”.

 

ENCARNANDO NO PEDAÇO

Em ocasiões excepcionalmente excepcionais, um destes Encantados decide, não apenas, se “encostar” num humano para curtir os lances da vida no planeta; mas, sim, tambem se materializar totalmente na forma de um homem, ou mulher – as Encantadas -, aqui na Terra.

 

Um Encantado, de hierarquia mediana, encarnado na Terra, geralmente tem vida breve, 20 ou 30 anos, e seu corpo morre jovem – reparem no montão de artistas de grande sucesso que embarcam com seus 30 e poucos de idade.

No entanto, algums vezes, ninguem sabe porque, pode chegar até mesmo aos 100 com a saudavel aparência de um atleta de 40 anos de idade.

Mas se por acaso, algo mais raro ainda, o Encantado ocupa uma alta posição na hierarquia cósmica, então sua trajetória como homem terrestre será extraordinariamente muito mais longa.

 

ALTAS HIERARQUIAS

O Encantado da Alta Hierarquia escolhe, a dedo, o próprio pai e mãe –  pessoas humanas extraordinárias em um ou vários aspectos (fôrça, inteligência, beleza, talento, sorte).

Escolhe tambem o momento e o local de nascimento; êle deseja curtir um determinado período num local  específico da História da Humanidade.

Na verdade, este Encantado, antes de “nascer” na Terra, pode influenciar, até certo ponto, a vida de seus futuros pais para melhor atender seus propósitos.

Mas nem sempre isto é bom para os inocentes progenitores que, por exemplo, morrem pouco depois do nascimento daquele carismático bebê: os pais tinham sido convenientes para fornecer o DNA, a forma do corpo, a fôrça vital, a inteligência, o talento, a sorte, a beleza, a visão abrangente do mundo; mas iriam tolher e querer orientar a vida do Encantado enquanto êle fosse criança. E esta outra função – criar o Encantado criança – poderia ser feita por alguém mais conveniente.

 

COISA DE CRIANÇA

Com seis meses e, mais definitivamente, com um ano, a criança-Encantado-de-alto-nível já tem uma vaga consciência de que é um Encantado que resolveu baixar e viver uma vida na Terra. Aos três anos de idade, êle já poderia saber quem é.

Mas nem sempre isto acontece:

– a parte humana se recusa a acreditar numa hipótese tão inacreditável;

– ou então, a parte humana inconscientemente recusa a viver uma vida que certamente será “complicada”, uma “vida que não é a sua” (mas, esta recusa não adianta nada);

– alem disto, aquele Encantado/criança tem de manobrar a situação no sapatinho, fingindo que é um humano “normal”,  pois seu corpo e sua posição na sociedade ainda são muito fracos e vulneráveis; e esta estratégia inicial de sobrevivência pode se enraizar na maneira de ser do humano que cresce ignorando a existência do Encantado.

Apesar do Encantado dar uma força e uma dimensão excepcionais ao seu corpo humano – no nível físico de um atleta Campeão Olímpico, no nível artístico e intelectual de um grande artista ou cientista, no nível de beleza de um grande astro de cinema, no nivel de sorte de um vencedor da loteria -; ele não é immortal e está sujeito a todo tipo de ferimento e doença que aflige os humanos.

O Encantado curte esta “fragilidade” como se fosse parte de um jogo: apesar de poder viver  bem mais de cem anos, e de manter o corpo num processo de envelhecimento muito lento, isto só acontecerá se ele for hábil e tiver sorte.

E o Encantado nunca perde.  Afinal de contas, quando seu corpo terrestre morre – jovem ou matusalem -, o Encantado volta, feliz e saudável, ao Plano Espiritual onde habita.

Nossa estória tembem é a estória de um destes raros Encantados de Alto Nível que resolveu encarnar e viver uma longa vida terrena.

Fim do capítulo 3

HQ: A Balada de Noivo da Vida e Veneno da Madrugada

As aventuras, viagens e amores de Noivo-da-Vida e Veneno-da-Madrugada, capoeiristas e viajantes, heróis imbatíveis de corpo fechado em pleno século XX, tais como foram contadas por Toninho Ventania.

  • Autor: Nestor Capoeira Versão BD / HQ

 

Mestre Nestor Capoeira que agora faz parte da nossa Equipe de Colaboradores, nos brinda com mais uma “fantástica viagem criativa” os personagens do Livro A Balada de Noivo da Vida e Veneno da Madrugada, se transformam em heróis da Banda Desenhada (HQ).

Uma deliciosa leitura repleta de malandragem e magia ilustrada pelo próprio Nestor…

Vale a pena a leitura!!!

“Oi Luciano blza?

Aqui, na maior.. com o verão já bombando!

Estoria em Quadrinhos que faz parte do CD que acompanha o livro “A Balada de Noivo-da-Vida e Veneno=da=Madrugada” (Rio, Ed. Record, 1997).

Esta EQ é a quadrinização da 1ª parte do livro “Balada”. Como os personagens são os mesmos (“Capoeiristas” é a continuação do “Balada”), talvez fosse legal colocar a EQ no Portal.”

Nestor Capoeira

A Balada de Noivo da Vida e Veneno da Madrugada

Capítulo 2 – Atratores Estranhos

CAPOEIRISTAS

PULP FICTION TROPICAL

 

Nestor Capoeira

capítulo 2

 

 

ATRATORES ESTRANHOS

Falei da “desordem cósmica”.

Será que, aqui, eu deveria falar dos Atratores Estranhos dos Estados Caóticos?

Não, não se trata de filme de ficção científica; trata-se da Teoria do Caos, um importante desdobramento da Física moderna; algo mais ou menos da mesma ordem da Teoria da Relatividade ou da Física Quântica.

A Teoria do Caos não se propõe à explicar o Caos, como poderíamos pensar. A Teoria do Caos estuda e explica os Estados Caóticos, ou Sistemas Caóticos, que são aqueles que, regidos por leis (como os demais), são frutos de tantas variaveis que, no passado, pensávamos que eram regidos pela Sorte, pela Chance, pela vaidade dos Deuses, ou pelo Caos Total.

Um exemplo de um Sistema Caótico são as espirais de fumaça que saem da ponta em brasa de um baseado: como conseguir as equações matemáticas para prever todas as circum-evoluções daquele fumacê?

Outro Sistema Caótico seria, por exemplo, o namôro e a paixão entre dois adolescentes.

Na verdade, a Teoria do Caos é um afastamento da Física dos 1800s, regida pela Aritmética, Geometria, Álgebra; coisas que ainda faziam sentido para o nosso “senso comum”; onde a entropia era a “medida da desorganização”.

Este ponto de vista, da entropia, já tinha derrubado a anterior Teoria de Newton – a Lei da Ação e Reação, etc. -, que não definia a irreversibilidade (e assim, em teoria, uma chícara que cai no chão poderia voltar, inteira, para cima da mesa).  Mas, apesar da evolução em relação a Newton, a entropia não conseguia mais resolver certos problemas que foram pintando nos 1900s e então surgiram outras loucuras científica e, entre elas, a Teoria do Caos com seus atratores estranhos.

 

ABRINDO SUA PRÓPRIA ACADEMIA

Vamos sair do mundo da Física, para o mundo do dia-a-dia. Especificamente para o meu mundo que gira, em grande parte, em torno da capoeira.

Poderíamos pensar, por exemplo, que estes atratores estranhos dos estados caóticos (que são forças estranhas que existem na natureza) poderiam atuar, atraindo os jovens professores de capoeira para um determinado e específico tipo de ação: abandonar seu mestre, e abrir a sua própria academia.

Isto, evidentemente, é um desgaste para a academia de origem.

Mas este desgaste, esta “desorganização local” – como ensina a Teoria do Caos -, propicia uma “organização geral”. Uma nova “organização geral” que, muitas vezes, é mais forte e mais completa que a organização anterior.

Ou seja: o mestre perdeu um aluno, ou um professor graduado; mas o universo da capoeira ganhou mais uma academia com uma ideologia e praxis diferente. E sabemos que a diversidade (tão em moda nos nossos dias, após a “descoberta” da Ecologia pelo Sistema) é um fator essencial à evolução, e à própria sobrevivência dos humanos no Planeta Terra.

 

ORGANISANDO O GERAL

Os atratores estranhos dos estados caóticos são estruturas dissipativas; mas o que dissipa as energias também é vida.

O modelo de equilíbrio não vigora absoluto.

O ser vivo e o clima não tendem ao equilíbrio.

Não se trata de imaginar uma coisa linear, de pequenos desgastes que levam, finalmente à morte; que é o pensamento “normal” do “senso comum”. Trata-se de outra coisa: de pequenas “desorganizações locais” que organizam o geral.

Os atratores estranhos dos estados caóticos são (algo misterioso) que, justamente, agenciam estas pequenas “desorganizações locais”.

Parece papo de doidão chapado?

Talvez.

Mas é (sem duplo sentido) baseado em “papos” como este que foi possível desenvolver a tecnologia para colocar o homem na lua; para construir os computadores e telefones celulares e ipads e ipods que o sr. e a sra. e a simpaticíssima srta. tanto apreciam.

 

VIVENDO A VIDA ALHEIA

Mas, deixa isto pra lá e vamos voltar ao roteiro.

O que interessa ao Encantado é a possibilidade de “acessar” aquele humano, e pegar carona na vivência da vida daquela pessoa.

Evidentemente isto aumenta o Axé, a força vital, e o poder daquele humano; mas aquele humano pode não ter (uma total e clara) consciência da presença do Encantado.

Voces devem ter notado que o nome deste segundo capítulo é O Mão de Faca.

Quem será este Mão de Faca?

O Mão de Faca é, justamente, um destes Encantados aos quais nos referíamos.

Um Encantado da mais Alta Hierarquia.

Um destes Encantados que, de tempos em tempos, sentia saudades dos prazeres e paradoxos da vida material no planeta Terra.

 

NOIVO-DA-VIDA

 

Meu nome é Noivo-da-Vida,

com a vida é meu compromisso;

Não me prende parede,

não me amarra feitiço.

 

Vou onde a vida me leva;

vou onde a vida levar;

Meu nome é Noivo-da-Vida,

sou filho de Oxalá.

(Nestor Capoeira, 2014; CD A balada de Noivo-da-Vida e Veneno-da-Madrugada)

 

 

 

SUAVE NA NAVE

Noivo-da-Vida acordou lentamente tipo suave na nave.

Não abriu imediatamente os olhos; sentia-se maravilhosamente bem, quase eufórico, e ficou curtindo aquela região morna e macia entre o sono e a vigília.

Uma brisa matinal acariciava seu rosto e a pele do corpo, uma luminosidade difusa ocasionalmente atravessava suas pálpebras, ouvia o múrmurio de água corrente e o alegre e animado gorjeio de pássaros.

“Deve ser começo de primavera”, pensou preguiçosamente.

Entreabiu lentamente os olhos sem se mexer, sem nem mesmo espreguiçar, e ficou ligeiramente confuso: não se lembrava daqule lençol verde brilhante que forrava sua cama.

Focou o olhar – “uma formiga?” -; não, várias formigas em teimosa e atarefada labuta.

Franziu o cenho e levantou o corpo parcialmente.

Para sua surpresa, estava deitado no gramado do que parecia a bucólica e arborisada praça de uma pequena e pacata cidade interiorana; passáros chilreavam e pulavam de galho em galho nas árvores que filtravam a suave luz matinal do sol; uma fonte esguichava jatos de água através bocas de leões de uma velha estátua de bronze; e numa coisa Noivo estava certo – era realmente o começo da primavera.

 

TUDO QUE É SÓLIDO SE DESMANCHA NO AR

Queixo-me às rosas;

que bobagem, as rosas não falam.

As rosas simplesmente exalam

o perfume que roubam de ti.

(Cartola, As rosas não falam)

Aí, Noivo viu a garrafa de cachaça caída na grama; quase ao alcance da mão; quase vazia.

Não era à toa que se sentia tão bem e eufórico: ainda estava bêbado do dia anterior. A brutal ressaca só ia pintar lá pelo fim da manhã.

Num repente lembrou de tudo; os meses que perambulava sem rumo, enlouquecido, sem saber onde estava nem como ali tinha chegado.

Noivo lembrou-se da perda de sua visão, o desmoronar dos alucinados planos que tinham orientado e sustentado sua vida durante os últimos anos, a despedida de Veneno-da-Madrugada e Toninho Ventania.

O reencontro com Ingrid no Planalto Central perto de Brasília, os meses de amor e paixão.

E então, o vazio, a desilusão, e a ferida que não cicatrizava.

Ingrid.

 

LUTANDO CONTRA O DESTINO

“… e vi longe, adiante no tempo

que, com seus vales e colinas,

cambiante,

ondulava à minha frente.”

(Noivo-da-Vida)

Noivo, adolescente, tinha lutado contra seu destino:

“Quero ser apenas mais um; mais um capoeirista solto no mundo e na vida”.

Mas um dia, em Amsterdam, na época em que ele e Veneno e Toninho Ventania andavam fugindo do Dr. Turíbio e seus asseclas, Noivo teve mais um surto de clarividência – desta vez, uma visão tão clara e definitiva que não tinha jeito de voltar atrás.

“O lance todo está podre”, Noivo explicava, naquela época, à Toninho Ventania sob o olhar irônico e cínico de Veneno – que chamava Noivo de “nosso Mao Tse Tung de araque”.

“Você não viu o lance dos hippies  em Woodstock nos USA?”, perguntava Noivo.

“Voce não estava lá em Paris em maio de 68?”, e dava um sorrizinho misterioso, talvez lembrando-se de alguma estrepolia cometida no confronto com os gendarmes.

“Pois vai pintar um novo lance que vai botar os 1960s no chinelo; a gente vai apenas dar uma forcinha, aparar umas arestas”.

E aí, Noivo começou a criar seu exército de “teleguiados”.

Uns 20 jovens e promissores capoeiristas, bancados por Noivo para abrir academia e dar aulas nas 20 favelas mais punk do Rio. Tudo bancado com a grana que Noivo ganhava – sem fazer fôrça – na roleta, nas cartas, no Jockey, e eventualmente até na loteria (sua visão estava, cada dia, mais poderosa).

“Quem é que vai desconfiar de umas academiazinhas mambembes de subúrbio? E, daqui a 30 anos, quando o fruto estiver maduro e o bicho pegar, nós estaremos prontos.”

 

30 ANOS

Dentro de 10 anos, cada um dos 20 “teleguiados” já teria formado, no mínimo, 5 novos professores – seriam 120 caras na área.

Mais 10 anos: cada um dos 120 formando mais 5 professores – 720 malucos dando aula.

Ainda mais 10 anos, na época em que “chegasse o momento”, mais de 3.500 professores, cada um com uns 15 a 20 alunos cada – uns 50.000 jovens empolgados, com o corpo trabalhado na capoeira, e a cabeça feita pela malícia do Jogo e pelas ideias utópicas e alucinadas de Noivo-da-Vida.

Naquele momento final, Noivo e Veneno já estariam com uns 60 de idade, e Toninho com uns 50.

Mas, 60 anos para quem vive a capoeira diariamente, dia-a-dia, ano-a-ano, não é a mesma coisa dos 60 de um cara relativamente sedentário. Basta lembrar da forma física dos mestres Bimba e Pastinha aos 60; e, mais recentemente, Leopoldina que, aos 72, jogava com 4 ou 5 jovens, um atrás do outro, e dava show de bola na rapaziada; ou então do atual mestre Acordeon que em 2013, aos 69 de idade, saiu de bicicleta de San Francisco, na California, e um ano depois chegou a Salvador, na Bahia, Brasil.

 

SAPATINHO

“O único problema é querer por pra quebrar antes do tempo”, pontificava nosso Mao tropical.

“Temos de agir no sapatinho: todas as coisas e fatos e pessoas estão interligados no Tempo e na tapeçaria do devir. Por isso não  podemos fazer lances bruscos, radicais, no presente… pois certamente isto iria alterar o cenário do futuro”.

Dessa maneira, Noivo tambem explicava porque sempre acertava na roleta – “preto dezessete!” -, e no jogo de cartas – “valete de ouros!” -; mas, por outro lado, acertava menos nos cavalos, e menos ainda na loteria ou no Jogo do Bicho.

Noivo via um resultado. Mas entre o ver, e o apostar, e finalmente acontecer o lance – roleta, carta, corrida de cavalo, loteria -, rolava um tempo. Este intervalo de tempo, na roleta e nas cartas, era pequeno. Mas na loteria, por exemplo, passavam alguns dias entre comprar o bilhete e o sorteio; e nestes “alguns dias” rolavam  eventos e aconteciam fatos que se concretizam no presente, alterando toda a estrutura do porvir, uma vez que estava tudo interconectado.

Então o negócio, segundo Noivo, era “fazer tudo no sapatinho”; lentamente e sem dar bandeira. Nem os “teleguiados” mais chegados podiam saber dos alucinados planos do nosso Ghandi brasileiro.

Os “teleguiados” deveriam pensar que “éramos apenas mais um Grupo de Capoeira; um grupo de sucesso, e em expansão”, sob o inspirado e competente comando de Noivo e Veneno, e tambem do jovem Toninho Ventania.

 

TRES LONGOS GOLES

Mas o Tempo é foda, meu amigo; e as coisas não se passaram como Noivo tinha previsto

Agora, alguns anos depois, separado de seus camarás, perdida a sua  visão clarividente, desiludido e ferido por seu grande amor – Ingrid -; Noivo, sentado na grama da pracinha no suave sol da manha de primavera, esvaziou a garrafa de cachaça em três longos goles.

 

FLASH BACK

Noivo recordou, em lampejos de flah-back, o rosto rude e violento de um homem que lhe falava de algo do qual ele não tinha a mínima ideia – “… por bem ou por mal, sabendo ou não, tu vai me pagar essa grana”.

Quando teria acontecido?

Ontem?

Um mês atrás?

Noivo lembrava que estava completamente embriagado e, alem de tudo, tinha acabado de fumar um grosso baseado. E aí deu um branco.

Um daqueles brancos que acontecem quando o cara está completamente alcoolisado de cachaça e chapadão de maconha.

Noivo recordou que, quando voltou à realidade, havia o tal estranho à sua frente; violento, gritando “tu vai me pagar essa porra dessa grana”.

Noivo tinha saído do ar – alguns segundos? minutos? horas? -; mas o Tempo não parou. E, ao que tudo indicava, as coisas tinham rolado indiferentes à presença ou ausência de Noivo no mundo real.

Noivo lembrou-se de um brilho selvagem nos olhos do estranho; e. então, sua visão voltou num breve lampejo e Noivo previu o futuro imediato.

Noivo viu, junto com o brilho nos olhos do estranho, um brilho da faca. Noivo viu, a si mesmo, descendo rápido na rasteira, a queda do inimigo; Noivo num aú, perfeito todo aberto, contornando o corpo que rola no chão; uma banda na mão do homem que tentava se levantar, mais uma queda; uma violenta calcanheira por baixo do queixo, o estranho caindo desmaiado.

Praticamente em seguido à visão, as coisas aconteceram igualzinho, como se fossem um dejá vu.

Finda a ação, Noivo olhou ao redor:

“Mais alguem, ‘por bem ou por mal’?”

As pessoas afastaram-se temerosas, mas com olhar de espantada admiração.

Seria difícil alguem que tivesse conhecido o elegante e cool Noivo-da-Vida, tempos atrás, reconhece-lo nesta sua nova persona de Dr.Jekyl e Mr. Hyde; brutal, arrogante, o olhar ensandecido. 

Mais um branco.

Noivo ia e vinha, saindo e voltando da realidade, apesar de seu corpo continuar a agir.

Uma maçaroca de notas de dinheiro na mão de Noivo; o estranho continuava caído no chão, mas com os bolsos das calças revirados para fora.

Noivo olha novamente ao redor, as pessoas afastavam-se mais um pouco, mas agora com um olhar de reprovação – “algum problema?” -, e a pequena plateia vai se dispersando.

Quando tinha sido isto?

Semanas atrás, ou ontem?

 

DE VOLTA `A PRACINHA

Noivo, sentado na pracinha, relembra os eventos; sua mente está confusa.

Um grupo de quatro ou cinco colegiais passa do outro lado da rua e, ao verem Noivo com a garrafa, apressam o passo, cochicham entre si, dão risadinhas, e desviam o olhar.

“Qual é? Vão cuidar de suas vidas! É isso aí! Vão correndo pra não chegar atrasadinhos na bosta do colégio!”.

 

Noivo aremessa com raiva a garrafa que se espatifa numa árvore, levanta-se, atravessa a praça e se embrenha numa rua onde algumas lojas ainda estão abrindo as portas.

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