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O Capoeireiro

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Capoeira e informação ao longo da história

Capoeira e informação ao longo da história: A busca por conhecimento sobre a “nega mandingueira”

Em meados dos 80, quando a capoeiragem passou a fazer parte de minha vida, acesso a informação sobre nossa arte era algo quase que impossível. Quem tinha livro, disco, fita cassete, revista, cópia de jornal que aparecia a capoeira não emprestava. Tudo era “negociado” a peso de ouro.Em meados dos 80, quando a capoeiragem passou a fazer parte de minha vida, acesso a informação sobre nossa arte era algo quase que impossível. Quem tinha livro, disco, fita cassete, revista, cópia de jornal que aparecia a capoeira não emprestava. Tudo era “negociado” a peso de ouro.

Capoeira e informação ao longo da história Capoeira O Capoeireiro Portal Capoeira

Lembro-me quando Mestre Miguel Machado chegou em Piracicaba-SP com algumas poucas cópias do disco em vinil do Mestre Ezequiel. Em 5 minutos os que estavam em frente ao “escritório” (i.e. boteco da esquina) pegaram suas cópias. Lá estavam Mestre Valtão (Valter Farias), Mestre Boca (Oswaldo Negretti), Gabriel, eu e meu mano “Cabeludo”, Candinho que foi meu primeiro professor, diversos outros camaradas e, é  claro, nosso saudoso Mestre Cosmo. Tal disco influenciou muito nossa parte rítmica em cantada, pois desde então, diversos amigos “emprestaram” cópias em fita cassete. O jovem Mestre Vaguinho (Vagner Farias), discípulo de Mestre Valtão, até hoje ouve o disco. Tanto é que, Mestre Moreno (Almir José da Silva) [ou Morenias], chama Vaguinho de Ezequié Paulista.

Voltando ao assunto principal, para se conseguir um livro emprestado era um sacrifício. Lembro-me de quando Mestre Cosmo conseguiu um xerox do livro “Capoeira Angola – ensaio sócio-etnográfico” (1968) de Waldeloir Rego foi um deus nos acuda. Todos queriam ter cópia, mas faltava “cascaio”. Logo, “xerocávamos” apenas o capítulo introdutório, que já era um grande ganho. Tal livro, na época atual e hoje merecendo uma releitura, suscitou muitas discussões nas sucessivas reuniões “no escritório” da R. Voluntários.

A era das listas de discussões

Dando um salto cavalar na história sobre a busca por informações, por volta dos anos 2000, a moda era as Listas de Discussões. Ali se discutia de tudo sobre nossa arte: a) onde “nasceu” a capoeira; b) se um mestre era mestre mesmo ou não; c) se pertencia ou não a uma determinada linhagem; d) capoeira é esporte, cultura etc?;  e) se a capoeira iria ou não para as olimpíadas; f) qual a formação correta e quais os instrumentos da capoeira primitiva.. e la nave vá…

Duas grandes figuras neste processo foram os camaradas Mestre Jerônimo/Austrália e Alberto de Bauru (na época fazia parte da Confederação Brasileira de Capoeira-CBC). Jerônimo recarregava suas energias na Bondi Beach/Sydney, enquanto seu computador ficava 24h por dia recebendo mensagens. Chegava ele no computador e lá vinha algo para despachar. As vezes o repasse era tranqüilo, mas vez ou outra ele tinha que “matutar” se enviava ou não a mensagem. Ele mesmo dizia abertamente: Vocês fazem as besteiras com a capoeira ai no Brasa, e eu aqui na AUS que tenho que decidir se circulo ou não os assuntos? Bastava um clique e o ebó circulavam pelos sete mares por meses – tem mensagem que circula até hoje.

O Jornal do Capoeira e o Portal Capoeira

Em 2004 lancei o Jornal do Capoeira [1]. Foi uma experiência super gratificante, pois na ocasião estabelecemos uma rede de mais de 30 colaboradores espalhados pelo Brasil e pelos Brasis afora. André Lacé, Tonho Matéria, Benedito Bené, Vagner Astronauta, Luciano Milani, Leopoldo Gil Vaz, Sérgio Vieira (FICA), Mestre Squisito, Leticia Vidor, Marieta Borges Lins e Silva, Eurico Barreto Viana, Jose Luiz Cirqueira “Falcão”, e tantos outros.

Durante o processo o amigo Luciano Milani, que começou a capoeira em São Paulo nos idos dos 80, na época radicado em Mogadouro, Portugal, entra em contato e faz uma proposta. Ele, mestre nas artes internéticas, tinha um projeto audacioso: criar um portal multifuncional para documentar nossa arte. Foi uma grata surpresa, pois embora o Jornal do Capoeira funcionasse como um “semanário” da capoeira – sim, toda 2a feira uma nova “edição” virtual ia ao ar – ele estava limitado a textos e fotos. Foram meses de interação com o amigo Milani até que PortalCapoeira [2] “pegou”. E pegou para ficar! Em 2006, por motivos de estudo de doutorado, meu projeto Jornal do Capoeira [com suas mais de 1000 matérias, crônicas, notícias, clássicos da literatura etc] precisou ser paralisado.

E desde então, tanto as listas de discussões por emails, alimentadas pelos Mestres Jerônimo, quanto o PortalCapoeira.com são as fontes mais “sólidas” de informação acessível a todos “pelo mundo afora, camará..”.

Vez ou outra, quando surge alguma dúvida, é no Jornal do Capoeira, no PortalCapoeira ou nas Listas de Discussões (todas tem repositórios arquivados continuamente) que busco primeiro as informações.

Capoeira: estudar é preciso

Capoeira e informação ao longo da história Capoeira O Capoeireiro Portal Capoeira 1

Hoje pela manhã, enquanto revisava um artigo científico de um de meus alunos de doutorado sobre conservação do Mico Leão Dourado, recebo um questionamento do Prof. Verga (Ederson Renato), responsável pelo ensino de jovens capoeiras do projeto “Brincando de Gingar”, da entidade Legião Mirim/São Pedro-SP, sob coordenação de Waldir Campos:

“Miltinho, onde eu busco mais informações sobre a influência do samba de roda, samba de recôncavo e outras vertentes musicais sobre a musicalidade da/na capoeira?”

E complementa: “Estou aqui navegando entre o Jornal do Capoeira e PortalCapoeira com meus alunos, mas gostaríamos de adentrar mais no assunto”

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Como ponto de partida sugeri adquirir o livro-CD-DVD “A cartilha do Samba Chula”, ouvirem as gravações “O Recôncavo Baiano: Samba em Roda” [3] e “Samba de Dona Dalva Damiana”. Claro, tem muita fonte riquíssima e que deve ser pesquisada. Mestre Raimundinho, um excelente cantador da Capoeira Angola no Estado de São Paulo, lembra que seu amor pela arte de cantar veio da infância, quando ele ainda criança se reunia na casa de amigos de seus pais para recitar contos vindo da literatura de cordel. Fica a dica!

Enquanto finalizo esta crônica sou interrompido pelo porteiro eletrônico. Por correio, recebo –em primeira mão um– um exemplar do livro “Capoeira: uma Arte Indígena do Brasil – Fundamentos e Tradições”, de autoria do Contramestre Pelicano (Douglas Tessuto), Grupo Muzenza de Santa Gertrudes. Claro, o assunto é bem provocativo, o que, certamente, vai suscitar inúmeras discussões nas próximas décadas. Voltarei ao assunto tão logo tenha lido o livro.

Capoeira e informação ao longo da história Capoeira O Capoeireiro Portal Capoeira 3

O livro é uma compilação de informações que Pelicano reuniu em mais de 20 de pesquisa, e tudo respaldado por entrevistas e documentos históricos. O lançamento oficial vai ocorrer em breve durante o Mundial Muzenza, em Fortaleza/CE.

Vai daí que, a leitura do livro, é um ótimo ponto de partida para todos os membros da Liga Rioclarense de Capoeira. Afinal, não é sempre que alguém “da região” publica algo que pode dar um “sacode” na historiografia de nossa arte.

 

Capoeira e informação ao longo da história: A busca por conhecimento sobre a “nega mandingueira”

 

Iê dá volta ao mundo. Iê dá volta ao mundo, camará…

 


  • [1] www.capoeira.jex.com.br
  • [2] http://portalcapoeira.com/
  • [3] https://www.youtube.com/watch?v=eeTeLqMhOdY
  • [4] https://www.youtube.com/watch?v=LpT0SDz-gx0

 

Capoeira e Suas Gravações Sonoras Históricas

Capoeira e Suas Gravações Sonoras Históricas

Regional, São Bento Grande de Angola e Reco-Reco

O fenômeno da capoeiragem é algo fascinante. Enquanto a parte da musicalidade avança cavalarmente, com novas roupagens rítmicas e cantadas – nem a Capoeira Angola escapa– vamos deixando para trás muitos registros sonoros históricos inexplorados. Na região de Rio Claro (SP), os amigos Prof. Pelicano e Prof. Guerreiro (Luis Lima), ambos do Grupo Muzenza, iniciam uma importante conversa em torno de uma dessas preciosidades sonoras: a gravação de Lorenzo Dow Turner [1]: “Então, São Bento Grande de Angola faz parte da Regional ou não?”. Segundo matéria do Portal Capoeira do camarada, de autoria do camarada Teimosia [2], além de Lorenzo Dow Turner, Franklin Frazier também foi responsável pelas gravações. Os registros foram feitos por volta de 1940, quando, em tese, a Luta Regional Baiana já estava “formatada”. Abem da verdade, meu primeiro contato com esses registros foi em 2006, quando a Dra. Leticia Vidor e colaboradores organizaram um curso de Extensão Universitária “A Capoeira na Academia”. Foi um curso fantástico, onde semanalmente vários temas eram exaustivamente debatidos por mestres e simpatizantes da capoeiragem em geral. Participaram Mestres Kenura, Alcides, Eli Pimenta, Janja, Emilio Careca, Cm Cenorinha, o saudoso Mestre Ananias, Mestre Marrom de Taboão da Serra, além de diversos representantes da “academia”. Até o Brincante Antonio Nobrega nos brindou com uma excelente palestra teórico-prática sobre a manifestação cultural “Cavalo Marinho”, e sua rica musicalidade e gestualidade. Foi emocionante ver como representantes de nossa cultura e arte podem alavancar toda uma trajetória cultural. Sem exaurir a lista de participantes, tivemos uma excelente aula de musicalidade com Mestre Dinho Nascimento, o Berimbau Blues do Morro do Querosene, região do Butantã, São Paulo.

Pois bem, retornando ao tema central dessa crônica, as gravações de Lorenzo e Franklin trazem reflexões interessantes. Para começar, tal registro apresenta Mestre Bimba e sua charanga cantando a Capoeira Regional, mas também conta com a participação do Mestre Cabecinha do grupo Estrela Capoeira Angola. Talvez uma das primeiras vezes em que Angola e Regional compartilham – de forma harmoniosa – um mesmo palco nos tempos antigos. Tempos em que a Regional buscava se firmar como uma nova forma de se praticar a capoeira da Bahia. Quando digo da Bahia é porque considero que também aconteceram outras Capoeiras, como a Capoeira-Luta de Sinhosinho no Rio Antigo, a de Pernambuco, que acabou enveredando para o Frevo, a Tiririca de Geraldo Filme, Toniquinho Batuqueiro, Pato Nagua em São Paulo, e outras que devemos tê-las perdido ao longo do tempo antes mesmo de ter a chance de conhece-las melhor.

Mestre Bimba e seu conjunto contribuiu com 4 faixas registradas no documentário e Mestre Cabecinha completou adicionando outras 6 contribuições, num total de 10 faixas.

 

A charanga da Regional sendo lapidada

Algo que também chamou a atenção é que, na época, as 4 faixas de Mestre Bimba utilizaram o São Bento Grande de Angola como base principal de ritmo. Inexplicavelmente, mais tarde – principalmente em seus 2 discos (1962 e 1969) – este toque deixaria de fazer parte do cardápio de Mestre Bimba, quando o mesmo introduz seus “7 toques da Regioná”. O amigo Prof. Verga (Ederson Renato), exímio pesquisador e responsável pelo grupo Capoeira Fundamento Ancestral de São Pedro (SP) avaliou minuciosamente os registros, e também concluiu que a base das gravações de M. Bimba foi SBG de Angola. Aliás, Prof. Verga tem algumas teorias interessantes sobre o que pode ter acontecido na época. Sugiro aos amigos da região convidá-lo para uma Surra de Arame, e ouvi-lo a respeito.

Sobre as gravações, a própria charanga de Mestre Bimba tem uma peculiaridade. Diferentemente do que hoje se vende como “Charanga da Capoeira Regional”, os instrumentos não se limitavam a 2 pandeiros e um berimbau. Tanto é que um dos instrumentos marcantes nas gravações é o reco-reco, que pode ser observado nitidamente em todas as faixas. Confirmando como a cultura é algo sempre em transformação, e no caso da “Regioná”, a mesma ainda estava em “formatação” por volta dos 1940.

Um outro ponto interessante é velocidade da charanga. Observando a faixa 1 da gravação é possível contar pelo menos 63 marcações completas do “tá tum tá” do pandeiro por minuto. Já nas gravações dos 2 discos de Mestre Bimba, os ritmos são bem mais cadenciados (por exemplo, o São Bento Grande do disco de 1969 tem 48 batidas de “tá tum tá” do pandeiro por minuto, sugerindo que ao longo do temo a Regional pode ter curiosamente “desacelerado”, adotando um ritmo mais manhoso e cadenciado. O que contraria muitos discursos de jovens mestres que advogam que a Regional veio para subir o ritmo porque a Angola era muito lenta.

Mas Mestre Bimba dá uma lição para não ser esquecida. Lá pela faixa 4, assim fala o narrador:

Ao som do Pandeiro, e do Berimbau e do Caxixi, cantará Bimba e seu conjunto, interpretando Angola, num momento em que relembra seus antepassados.

O mestre sabia muito bem suas origens, e não teria porque negar a importância da capoeira angola na base fundamental de sua luta regional baiana. Boa parte das próprias “quadras” e “corridos” entoados por Mestre Bimba nessa gravação, e mesmo suas “louvações”, se confunde com a musicalidade corrente da época – ver os registros de Mestre Cabecinha e do Mestre Juvenal.

 

O que chama ainda mais a atenção é que, se compararmos a musicalidade, cadência, e a forma de “louvação” que Bimba utiliza na gravação, Mestre Cabecinha vai na mesma toada, demonstrando o quanto aquelas capoeiras ainda não estavam tão dissociadas.

É hora de mergulharmos em águas mais profundas da história da capoeiragem. E é com alegria que vejo localmente os Capoeiras se reunindo para debater o universo de nossa arte, o que deve ser feito de forma tranquila e aberta, sem amarras e despidos de pré-conceitos (pré no sentido de conceito a priori). Vai daí que iniciativas como esta da Confraria Rioclarense de Capoeira pode ser um ótimo palco para tais conversas. Com certeza os Mestres da região de Rio Claro estão pensando nas principais temáticas a serem discutidos. E a musicalidade está, sem dúvidas, no cardápio. Parabéns Prof. Guerreiro, Mestre Cuica (Wilson Santana), Prof. Maxi, Prof. Milton Soares e demais “confrários” pela iniciativa. Todos ganharão muito com esta iniciativa.

Capoeira e Suas Gravações Sonoras Históricas Capoeira Portal Capoeira 1

Aproveitando o “adeus adeus” desta crônica, se preparem que logo o Prof. Pelicano, de Santa Gertrudes-SP, vai nos brindar com um novo livro. O tema não é outro senão possíveis origens indígenas de algumas vertentes de nossa arte. Com certeza, uma obra para ler na reguinha. E claro, tudo que é novo amplia debates e suscita novas discussões. Prof. Pelicano, estamos no aguardo do lançamento do livro. Tanto a Confraria Rioclarense, quanto o Vadiando Entre Amigos serão palcos para os primeiros eventos de lançamento do livro.

 

Sobre as gravações sonoras históricas, logo voltamos ao assunto. Tem muito tempero neste guisado para ser apreciado.

 

Referências:
[1] https://www.youtube.com/watch?v=65SGEOFow7I
[2] http://portalcapoeira.com/tag/lorenzo

Vadiando Entre Amigos: Rio, Europa e São Paulo

Esta crônica tem como foco principal apresentar o movimento Vadiando Entre Amigos, que nasceu no Rio de Janeiro, tem sido semeado pela Europa, e que chega ao Interior Paulista. É claro que toda história contada é meramente parte dela. Para contextualizar o enredo faz se necessário contar um pouco sobre da parte histórica de nossa arte. Em função disto temos consciência que o que se apresenta abaixo é uma parte sobrenadante das capoeiras e dos capoeiras que figuram em nosso cenário histórico e atual.

 

Vadiando: do Rio de Janeiro para o mundo

Ainda nos anos 90 muitos capoeiras do/no Rio de Janeiro assumiram a função de levar adiante os ensinamentos da capoeira angola. Sem a intenção de esgotar a lista, tomo a liberdade de citar alguns nomes. Começando pelos capoeiras do GCAP, que juntamente com Mestre Moraes foram importantes para o novo momento de luta. Mestre como Angolinha (Grupo de Capoeira Angolinha), M. Manel (Ypiranga de Pastinha), Carlão, Urubu (FICA), Dirceu Aquino (Liberdade de Vadiar), Cobrinha (FICA) e diversos outros “amarelo e preto” foram fundamentais para a consolidação da angola em terras cariocas. Mestre Arerê, com sua “Capoeira Raiz” também influenciou diversos capoeiras por aquelas paragens.

Mestre Camaleão, um Astro Rei nesta arte, hoje radicado em Marselle (Franca), bebeu e semeou muita capoeiragem pelo Rio 50 graus. Mestre Marrom e respectivos alunos (Guará, Ferradura, Forro, Fábio Chapéu de Coro, Garça…) também muito tem contribuído para a angola na cidade do sol brilhante e escaldante. Hoje, inclusive, muitos dos alunos de seu Anastácio já consagrados mestres (Guará na França, Ferradura no Rio), tem semeado angola por todas as bandas do mundo, principalmente Europa: França, Espanha, Finlândia, e por ai vai. Em Niterói, M. Formiga, discípulo do M. Zé Baiano (linhagem do M. Gato Preto, Berimbau de Ouro da Bahia), sempre desenvolveu um excelente trabalho de resgate para preservação de nossa arte.

Vai daí que, ainda nos anos 90, sentindo a necessidade de promover interações e solidificar as diferentes angolas (sim, há diferentes angolas!) em terras cariocas, alguns mestres deram início à realização de rodas itinerantes. O objetivo não era outro senão o de vadiar, promover troca de fundamentos e visões sobre nossa arte. Nasceu então o Vadiando Entre Amigos, um dos mais belos movimentos de capoeira angola, tendo como precursores os Mestres Marrom (Ladeira Ary Barroso do Copaleme), Formiga (Morro da Igrejinha, Pendotiba, Niterói) e Camaleão (Morro do Turano, Tijuca).

Tive o privilégio de participar e documentar muitas vadiações e vários Vadiandos, entres os anos de 1999 e 2002. Cada evento tinha duração de 3 a 6 horas de muita vadiagem. Nas palavras do M. André Lacé, com o revezamento de Mestres no comando (Angolinha, Russo de Caxias, Manel da Favela da Maré, Gegê – excelente cantador!), “aconteciam sucessivamente uma roda dentro de outras”, em uma harmonia fenomenal. Mestres consagrados e excelentes capoeiras sempre estiveram presentes: Nestor Capoeira, Dentinho, Touro, Urubu, Dirceu, Carlão, Itapuã Beiramar (filho do M. Nestor), Gato Felix, Urso, Negão do Gás,  Boa Vida, pessoal do Engenho da Rainha, e tantos outros, sempre estiveram presentes.

Confesso que, durante certo tempo, alguns angoleiros “mais puros” evitavam se achegar e mesmo não reconheciam os participantes como “de linhagem”. Mas a capoeira angola, mandinqueira é, foi dando uma rasteira aqui, outra ali, e passado o tempo hoje não há angoleiro “nato” que não queira dar umas voltas do mundo por um desses Vadiandos. A grande maioria já caiu “na tentação”.

 

Via crucis da vadiagem: capoeira de 6a feira à domingo

Alguns mestres foram fundamentais para que eu conhecesse a maravilhosa capoeira angola que acontecia na Cidade Maravilhosa. Pelo menos três vezes por ano (de 1999 a 2002), juntamente com os Mestres Dominguinhos, Noel & Sueli :-), Zé Baiano e Jequié, organizávamos idas ao Rio para vadiar nos espaços do Marrom, Camaleão e Formiga. A via sacra basicamente saia de São Sebastião, passando por Caraguatatuba e Ubatuba, até chegarmos na Ladeira Ary Barroso (Copaleme), onde M. Marrom nos aguardava para a Roda de 6af. Após a roda sempre rolavam papoeiras nos arredores do Arcos da Lapa, com a chance de molhar as palavras entre uma história e outra.

Do Arcos da Lapa seguíamos direto para o Morro do Turano, na Barra da Tijuca, onde M. Camaleão já havia preparado “seus meninos” para a gente dar umas voltinhas de sábado a tarde. Por fim, domingo é dia de ir à igreja. Íamos então ao Morro da Igrejinha, em Pendotiba, onde fica o Ilê de Angola do Mestre Formiga. Ali naquele terreiro, a capoeira, o candomblé e uma boa peixada sempre tinham seus espaços. Claro, cada coisa no seu tempo. A parte mais difícil era conseguir sair do samba que Mestre Formiga preparava para tentar evitar nosso retorno à São Paulo. Confesso que as vezes funcionava, e só na segunda-feira pegávamos o caminho da roça paulista.

 

Vadiando Entre Amigos: Rio, Europa e São Paulo

 

Vadiando entre amigos do interior

Depois de algum tempo fora do cenário capoeirístico, estou voltando de levinho. Vai dai que, conversando com alguns camaradas da região de Rio Claro, Piracicaba e São Carlos surgiu a idéia de promovermos rodas itinerantes com os mesmos propósitos do Vadiando do Rio. Pouco mais de um mês de planejamento, resolvemos por os planos em ação. Em Rio Claro nosso primeiro Vadiando aconteceu em maio de 2015, e já estamos nos aproximando da quinta edição. As rodas acontecem sempre no segundo domingo do mês. Ao mesmo tempo, em Piracicaba o CM. Vaguinho (Vagner de Farias) promove os encontros mensais (Circuito da Capoeira), e tem sido figura fundamental na consolidação de nossos vadiandos.

Em São Carlos os amigos Cabelo e Sagu também tem contribuído de forma impar, sempre participante das atividades, e mesmo promovendo eventos com finalidades semelhantes por aquelas bandas. Recentemente M. Roxinho, que hoje ensina pela Austrália, andou passando seus conhecimentos e conduzindo vadiações maravilhosas por São Carlos. Em Campinas, Mestre Topete e seu Grupo Resistência Capoeira, há 12 anos segura rodas semanais (Angola no Gueto!), e nas palavras do próprio mestre “estamos juntos para sermos mais fortes”. Localmente (Rio Claro) os camaradas Ivan Bonifácio (linhagem Espinho Remoso pelas mãos do M. Zé do Lenço), Márcio Folha (discípulo de M. Pinguim de M. Gato Preto), Fábio Pistão & Junior Nevada (capoeiras de M. Lua de Bobó), Rodrigo Garga, Antonio Parra, Bruno, Raphael Dread e Rafael Berimbau (discípulo de M. Jequié, linhagem de M. Paulo dos Anjos) tem sido fundamentais para que as vadiagens continuem fluindo bem.

Gratidão também aos discípulos de M. Zequinha, Paulo Meia Noite e Tintim, que tem participado de nossas rodas e contribuído de forma impar. Em sua quinta edição excelentes capoeiras já passaram por nosso Vadiando: Thércio, Baiano do Abada, Cleo M. Atitude, Wilson Cuíca, Manjuba Oliveira, Delito, Rômulo Mata Leão, Avando, Rodrigo Cyborg e a lista segue. Agradecimento especial aos mestres e contra-mestres Dominguinhos, Noel, Zé Baiano, Raimundinho, Topete, Xandão, Leo e Vaguinho, que de forma impar tem compartilhado seus axés para que possamos vadiar entre amigos.

Outro dia, por facebook me perguntaram quais são os próximos passos. Simples, estamos buscando identificar na cidade e região quem são os principais capoeiras que fizeram e fazem parte da histórica da capoeiragem na região, e tentando trazê-los novamente ao cenário atual de nossas rodas. Ao mesmo tempo, por iniciativas dos amigo Márcio Folha e Ivan Bonifácio, estamos buscando documentar em fotos, vídeo e áudio tantos os encontros do vadiando, como outras atividades de amigos que possam contribuir para, no futuro, organizamos documentários sobre as capoeiras da região.

E anotem, dia 13 de setembro vamos Vadiar Entre Amigos novamente, a partir das 10h00, no Centro Cultural de Rio Claro, logo após a Torre Eiffel, do lado esquerdo do Lago Azul. Não tem como errar, basta se achegar.

Mas antes disto, M. Camaleão vai conduzir mais um Vadiando no Rio, no próximo final de semana (28 a 30 de agosto). Como não estarei presente, encomendo ao aniversariante do mês, M. André Lacé, a cobrir o evento.

 

(fotos: Ivan Bonifácio)

Dois Livros e a Capoeira na Ponte Aérea Recife-São Paulo

O retorno do Aprendiz

Por email recebo duas ´chamadas de angola´ de uma só vez. Quando você vai voltar a escrever sobre a capoeira, indaga o camarada Marcos Lessa (foto), assíduo leitor de nosso saudoso Jornal do Capoeira;Não perca o lançamento do novo livro ´Capoeiras e valentões na historia de São Paulo (1830-1930)´” provocam os amigos Carlos Carvalho Cavalheiro – excelente historiador de Sorocaba-SP – e Mestre Jerônimo –  praticamente o introdutor da capoeiragem na terra dos cangurus. Fiquei sem saber como entrar ou sair. Mas a rasteira veio de dentro de casa: “Tem jeito não seu Miltinho, é hora do Aprendiz de Capoeireiro voltar a ação“, provoca Keila Brilhante, minha esposa. As chamadas funcionaram, iêê vamo simbora, camará.

Primeiro livro: Valentões nos idos dos 1800

Por correio recebo, de presente, uma cópia autografada pelo próprio autor, Pedro Cunha, um magnífico exemplar do livro que recupera memórias da capoeiragem em terras paulistas entre 1830 e 1930. Mas o livro vem com uma recomendação explícita. Tem que ser lido “na reguinha”. E assim estou fazendo. Claro, o livro vem dar uma sacudidela no metiê dos capoeiras mais afoitos por literatura, pois até então tínhamos poucas obras buscando recuperar parte de nossa história paulista desta “nega mandingueira chamada Capoeira”

Vale citar o livro “O Mundo de Pernas pro Ar”, da colega Letícia Vidor, que retrata várias passagens da capoeira na Terra da Garoa (principalmente dos anos 60 em diante) e um conjunto de contribuições diversas peneiradas pelo camarada Cavalheiro, e publicadas como notas, crônicas e livros.

Voltando ao livro, logo de entrada, no prefácio assinado pela Dra. Cristina Wissenbach (Departamento de história da USP), cita-se a capoeira como parte do cotidiano da Academia de Direito de São Paulo, logo depois de sua fundação (1820), onde “estudantes e seus mestres denotando o fascínio que o jogo exercia, pela maestria dos movimentos e pela flexibilidade e agilidade dos corpos, capazes de vencer chicotes e armas” a praticavam. Sou obrigado a começar abrir caixas que cheias de materiais diversos que acomodo em meu home office, e que por uma década não mexia. Abri as caixas para me certificar-se que alguns livros, onde encontrei informações sobre a capoeiragem na Faculdade de Direito do Largo São Francisco (1850) estavam bem arquivados. Creio que a grande maioria do que tenho está já no livro cuidadosamente editado pelo Pedro Cunha, mas por segurança separei algumas coisas para ir acompanhando a leitura.

São Paulo-Recife & Fernando de Noronha

A trabalho embarco de Campinas-SP para Recife-PE. Claro, um bom capoeira não deixa de estabelecer seus contatos capoeirísticos. Vai daí que atentei para o fato de que a Profa. Ana Carolina Borges L. Silva, quem me receberia na Universidade Rural Federal de Pernambuco (UFRPE) era filha de Marieta Borges Lins e Silva (foto), uma pesquisadora e historiadora de cotidianos do Recife, mais precisamente, de Fernando de Noronha. Eis que ao chegar em Recife sou logo recebido pelo abraço fraterno de Marieta, que de pronto me presenteia com o livro “Fernando de Noronha, Cinco Séculos de História“. Quem conhece deve concordar que Marieta é uma dessas pessoas apaixonadas pelo que faz, e detém um acervo impressionante sobre sobre a ilha de Fernando de Noronha, e as múltiplas facetas que lhe foram atribuídas ao longo da história.

Para os que não sabem, Fernando de Noronha recebeu muitos capoeiras no final do século XIX, todos enviados do Rio de Janeiro para “limpar” as ruas e livrar a sociedade dos malesas que os capoeiras causavam nos idos de 1890 na Cidade Maravilhosa. Para mim felicidade, Marieta me foi apresentada pelo amigo Leopoldo Vaz, também historiador, mas de São Luis do Maranhão, sendo que tanto Marieta quanto Leopoldo foram colaboradores de nosso Jornal do Capoeira.

 Mestre André Lace e Esposa - Miltinho Astronauta e Bauru

O discípulo e os Mestres

Caminhando para o fim desta nossa crônica, uma pergunta que sempre me fazem é “Miltinho, qual sua linhagem e quem foi seu mestres”. De pronto respondo que sou filho da capoeira, e por ela criado, tive muitos professores me ensinado ao longo dessas quase três décadas de aprendizado, e continuo tendo aulas em todas oportunidades. Entretanto, dois grandes mestres merecem destaque. O primeiro, sem dúvida, é seu Claudival da Costa, o Mestre Cosmo, uma das figuras mais importantes da capoeira piracicabana, e que, ainda como professor dentro do grupo, assumiu a função de ser meu Mestre. Não menos importante, a segunda figura é o Mestre André Lacé (foto, ao lado da sergipana, Dna Arly), do Rio de Janeiro, detentor de um conhecimento inigualável, e que tornou-se meu tutor na área literária da capoeira. É com ele que aprendi, e aprendo, a importância do buscar o saber não só na roda da capoeira, mas também nas fontes históricas (documentais ou não).

Mestre Lacé é de quem “sou menino que aprende” na parte escrita de nossa capoeiragem. À esses dois Grandes Mestres agradeço de coração por todos ensinamentos. Aproveito para desejar um Feliz Aniversário para Mestre Lacé, quem em 6 de Agosto completará mais uma volta ao mundo. Com certeza a comemoração será regada a um bom vinho francês, samba de roda e, é claro, muita capoeira e muita sabedoria.