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O Capoeireiro

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Vadiando Entre Amigos: Rio, Europa e São Paulo

Esta crônica tem como foco principal apresentar o movimento Vadiando Entre Amigos, que nasceu no Rio de Janeiro, tem sido semeado pela Europa, e que chega ao Interior Paulista. É claro que toda história contada é meramente parte dela. Para contextualizar o enredo faz se necessário contar um pouco sobre da parte histórica de nossa arte. Em função disto temos consciência que o que se apresenta abaixo é uma parte sobrenadante das capoeiras e dos capoeiras que figuram em nosso cenário histórico e atual.

 

Vadiando: do Rio de Janeiro para o mundo

Ainda nos anos 90 muitos capoeiras do/no Rio de Janeiro assumiram a função de levar adiante os ensinamentos da capoeira angola. Sem a intenção de esgotar a lista, tomo a liberdade de citar alguns nomes. Começando pelos capoeiras do GCAP, que juntamente com Mestre Moraes foram importantes para o novo momento de luta. Mestre como Angolinha (Grupo de Capoeira Angolinha), M. Manel (Ypiranga de Pastinha), Carlão, Urubu (FICA), Dirceu Aquino (Liberdade de Vadiar), Cobrinha (FICA) e diversos outros “amarelo e preto” foram fundamentais para a consolidação da angola em terras cariocas. Mestre Arerê, com sua “Capoeira Raiz” também influenciou diversos capoeiras por aquelas paragens.

Mestre Camaleão, um Astro Rei nesta arte, hoje radicado em Marselle (Franca), bebeu e semeou muita capoeiragem pelo Rio 50 graus. Mestre Marrom e respectivos alunos (Guará, Ferradura, Forro, Fábio Chapéu de Coro, Garça…) também muito tem contribuído para a angola na cidade do sol brilhante e escaldante. Hoje, inclusive, muitos dos alunos de seu Anastácio já consagrados mestres (Guará na França, Ferradura no Rio), tem semeado angola por todas as bandas do mundo, principalmente Europa: França, Espanha, Finlândia, e por ai vai. Em Niterói, M. Formiga, discípulo do M. Zé Baiano (linhagem do M. Gato Preto, Berimbau de Ouro da Bahia), sempre desenvolveu um excelente trabalho de resgate para preservação de nossa arte.

Vai daí que, ainda nos anos 90, sentindo a necessidade de promover interações e solidificar as diferentes angolas (sim, há diferentes angolas!) em terras cariocas, alguns mestres deram início à realização de rodas itinerantes. O objetivo não era outro senão o de vadiar, promover troca de fundamentos e visões sobre nossa arte. Nasceu então o Vadiando Entre Amigos, um dos mais belos movimentos de capoeira angola, tendo como precursores os Mestres Marrom (Ladeira Ary Barroso do Copaleme), Formiga (Morro da Igrejinha, Pendotiba, Niterói) e Camaleão (Morro do Turano, Tijuca).

Tive o privilégio de participar e documentar muitas vadiações e vários Vadiandos, entres os anos de 1999 e 2002. Cada evento tinha duração de 3 a 6 horas de muita vadiagem. Nas palavras do M. André Lacé, com o revezamento de Mestres no comando (Angolinha, Russo de Caxias, Manel da Favela da Maré, Gegê – excelente cantador!), “aconteciam sucessivamente uma roda dentro de outras”, em uma harmonia fenomenal. Mestres consagrados e excelentes capoeiras sempre estiveram presentes: Nestor Capoeira, Dentinho, Touro, Urubu, Dirceu, Carlão, Itapuã Beiramar (filho do M. Nestor), Gato Felix, Urso, Negão do Gás,  Boa Vida, pessoal do Engenho da Rainha, e tantos outros, sempre estiveram presentes.

Confesso que, durante certo tempo, alguns angoleiros “mais puros” evitavam se achegar e mesmo não reconheciam os participantes como “de linhagem”. Mas a capoeira angola, mandinqueira é, foi dando uma rasteira aqui, outra ali, e passado o tempo hoje não há angoleiro “nato” que não queira dar umas voltas do mundo por um desses Vadiandos. A grande maioria já caiu “na tentação”.

 

Via crucis da vadiagem: capoeira de 6a feira à domingo

Alguns mestres foram fundamentais para que eu conhecesse a maravilhosa capoeira angola que acontecia na Cidade Maravilhosa. Pelo menos três vezes por ano (de 1999 a 2002), juntamente com os Mestres Dominguinhos, Noel & Sueli :-), Zé Baiano e Jequié, organizávamos idas ao Rio para vadiar nos espaços do Marrom, Camaleão e Formiga. A via sacra basicamente saia de São Sebastião, passando por Caraguatatuba e Ubatuba, até chegarmos na Ladeira Ary Barroso (Copaleme), onde M. Marrom nos aguardava para a Roda de 6af. Após a roda sempre rolavam papoeiras nos arredores do Arcos da Lapa, com a chance de molhar as palavras entre uma história e outra.

Do Arcos da Lapa seguíamos direto para o Morro do Turano, na Barra da Tijuca, onde M. Camaleão já havia preparado “seus meninos” para a gente dar umas voltinhas de sábado a tarde. Por fim, domingo é dia de ir à igreja. Íamos então ao Morro da Igrejinha, em Pendotiba, onde fica o Ilê de Angola do Mestre Formiga. Ali naquele terreiro, a capoeira, o candomblé e uma boa peixada sempre tinham seus espaços. Claro, cada coisa no seu tempo. A parte mais difícil era conseguir sair do samba que Mestre Formiga preparava para tentar evitar nosso retorno à São Paulo. Confesso que as vezes funcionava, e só na segunda-feira pegávamos o caminho da roça paulista.

 

Vadiando Entre Amigos: Rio, Europa e São Paulo

 

Vadiando entre amigos do interior

Depois de algum tempo fora do cenário capoeirístico, estou voltando de levinho. Vai dai que, conversando com alguns camaradas da região de Rio Claro, Piracicaba e São Carlos surgiu a idéia de promovermos rodas itinerantes com os mesmos propósitos do Vadiando do Rio. Pouco mais de um mês de planejamento, resolvemos por os planos em ação. Em Rio Claro nosso primeiro Vadiando aconteceu em maio de 2015, e já estamos nos aproximando da quinta edição. As rodas acontecem sempre no segundo domingo do mês. Ao mesmo tempo, em Piracicaba o CM. Vaguinho (Vagner de Farias) promove os encontros mensais (Circuito da Capoeira), e tem sido figura fundamental na consolidação de nossos vadiandos.

Em São Carlos os amigos Cabelo e Sagu também tem contribuído de forma impar, sempre participante das atividades, e mesmo promovendo eventos com finalidades semelhantes por aquelas bandas. Recentemente M. Roxinho, que hoje ensina pela Austrália, andou passando seus conhecimentos e conduzindo vadiações maravilhosas por São Carlos. Em Campinas, Mestre Topete e seu Grupo Resistência Capoeira, há 12 anos segura rodas semanais (Angola no Gueto!), e nas palavras do próprio mestre “estamos juntos para sermos mais fortes”. Localmente (Rio Claro) os camaradas Ivan Bonifácio (linhagem Espinho Remoso pelas mãos do M. Zé do Lenço), Márcio Folha (discípulo de M. Pinguim de M. Gato Preto), Fábio Pistão & Junior Nevada (capoeiras de M. Lua de Bobó), Rodrigo Garga, Antonio Parra, Bruno, Raphael Dread e Rafael Berimbau (discípulo de M. Jequié, linhagem de M. Paulo dos Anjos) tem sido fundamentais para que as vadiagens continuem fluindo bem.

Gratidão também aos discípulos de M. Zequinha, Paulo Meia Noite e Tintim, que tem participado de nossas rodas e contribuído de forma impar. Em sua quinta edição excelentes capoeiras já passaram por nosso Vadiando: Thércio, Baiano do Abada, Cleo M. Atitude, Wilson Cuíca, Manjuba Oliveira, Delito, Rômulo Mata Leão, Avando, Rodrigo Cyborg e a lista segue. Agradecimento especial aos mestres e contra-mestres Dominguinhos, Noel, Zé Baiano, Raimundinho, Topete, Xandão, Leo e Vaguinho, que de forma impar tem compartilhado seus axés para que possamos vadiar entre amigos.

Outro dia, por facebook me perguntaram quais são os próximos passos. Simples, estamos buscando identificar na cidade e região quem são os principais capoeiras que fizeram e fazem parte da histórica da capoeiragem na região, e tentando trazê-los novamente ao cenário atual de nossas rodas. Ao mesmo tempo, por iniciativas dos amigo Márcio Folha e Ivan Bonifácio, estamos buscando documentar em fotos, vídeo e áudio tantos os encontros do vadiando, como outras atividades de amigos que possam contribuir para, no futuro, organizamos documentários sobre as capoeiras da região.

E anotem, dia 13 de setembro vamos Vadiar Entre Amigos novamente, a partir das 10h00, no Centro Cultural de Rio Claro, logo após a Torre Eiffel, do lado esquerdo do Lago Azul. Não tem como errar, basta se achegar.

Mas antes disto, M. Camaleão vai conduzir mais um Vadiando no Rio, no próximo final de semana (28 a 30 de agosto). Como não estarei presente, encomendo ao aniversariante do mês, M. André Lacé, a cobrir o evento.

 

(fotos: Ivan Bonifácio)

Dois Livros e a Capoeira na Ponte Aérea Recife-São Paulo

O retorno do Aprendiz

Por email recebo duas ´chamadas de angola´ de uma só vez. Quando você vai voltar a escrever sobre a capoeira, indaga o camarada Marcos Lessa (foto), assíduo leitor de nosso saudoso Jornal do Capoeira;Não perca o lançamento do novo livro ´Capoeiras e valentões na historia de São Paulo (1830-1930)´” provocam os amigos Carlos Carvalho Cavalheiro – excelente historiador de Sorocaba-SP – e Mestre Jerônimo –  praticamente o introdutor da capoeiragem na terra dos cangurus. Fiquei sem saber como entrar ou sair. Mas a rasteira veio de dentro de casa: “Tem jeito não seu Miltinho, é hora do Aprendiz de Capoeireiro voltar a ação“, provoca Keila Brilhante, minha esposa. As chamadas funcionaram, iêê vamo simbora, camará.

Primeiro livro: Valentões nos idos dos 1800

Por correio recebo, de presente, uma cópia autografada pelo próprio autor, Pedro Cunha, um magnífico exemplar do livro que recupera memórias da capoeiragem em terras paulistas entre 1830 e 1930. Mas o livro vem com uma recomendação explícita. Tem que ser lido “na reguinha”. E assim estou fazendo. Claro, o livro vem dar uma sacudidela no metiê dos capoeiras mais afoitos por literatura, pois até então tínhamos poucas obras buscando recuperar parte de nossa história paulista desta “nega mandingueira chamada Capoeira”

Vale citar o livro “O Mundo de Pernas pro Ar”, da colega Letícia Vidor, que retrata várias passagens da capoeira na Terra da Garoa (principalmente dos anos 60 em diante) e um conjunto de contribuições diversas peneiradas pelo camarada Cavalheiro, e publicadas como notas, crônicas e livros.

Voltando ao livro, logo de entrada, no prefácio assinado pela Dra. Cristina Wissenbach (Departamento de história da USP), cita-se a capoeira como parte do cotidiano da Academia de Direito de São Paulo, logo depois de sua fundação (1820), onde “estudantes e seus mestres denotando o fascínio que o jogo exercia, pela maestria dos movimentos e pela flexibilidade e agilidade dos corpos, capazes de vencer chicotes e armas” a praticavam. Sou obrigado a começar abrir caixas que cheias de materiais diversos que acomodo em meu home office, e que por uma década não mexia. Abri as caixas para me certificar-se que alguns livros, onde encontrei informações sobre a capoeiragem na Faculdade de Direito do Largo São Francisco (1850) estavam bem arquivados. Creio que a grande maioria do que tenho está já no livro cuidadosamente editado pelo Pedro Cunha, mas por segurança separei algumas coisas para ir acompanhando a leitura.

São Paulo-Recife & Fernando de Noronha

A trabalho embarco de Campinas-SP para Recife-PE. Claro, um bom capoeira não deixa de estabelecer seus contatos capoeirísticos. Vai daí que atentei para o fato de que a Profa. Ana Carolina Borges L. Silva, quem me receberia na Universidade Rural Federal de Pernambuco (UFRPE) era filha de Marieta Borges Lins e Silva (foto), uma pesquisadora e historiadora de cotidianos do Recife, mais precisamente, de Fernando de Noronha. Eis que ao chegar em Recife sou logo recebido pelo abraço fraterno de Marieta, que de pronto me presenteia com o livro “Fernando de Noronha, Cinco Séculos de História“. Quem conhece deve concordar que Marieta é uma dessas pessoas apaixonadas pelo que faz, e detém um acervo impressionante sobre sobre a ilha de Fernando de Noronha, e as múltiplas facetas que lhe foram atribuídas ao longo da história.

Para os que não sabem, Fernando de Noronha recebeu muitos capoeiras no final do século XIX, todos enviados do Rio de Janeiro para “limpar” as ruas e livrar a sociedade dos malesas que os capoeiras causavam nos idos de 1890 na Cidade Maravilhosa. Para mim felicidade, Marieta me foi apresentada pelo amigo Leopoldo Vaz, também historiador, mas de São Luis do Maranhão, sendo que tanto Marieta quanto Leopoldo foram colaboradores de nosso Jornal do Capoeira.

 Mestre André Lace e Esposa - Miltinho Astronauta e Bauru

O discípulo e os Mestres

Caminhando para o fim desta nossa crônica, uma pergunta que sempre me fazem é “Miltinho, qual sua linhagem e quem foi seu mestres”. De pronto respondo que sou filho da capoeira, e por ela criado, tive muitos professores me ensinado ao longo dessas quase três décadas de aprendizado, e continuo tendo aulas em todas oportunidades. Entretanto, dois grandes mestres merecem destaque. O primeiro, sem dúvida, é seu Claudival da Costa, o Mestre Cosmo, uma das figuras mais importantes da capoeira piracicabana, e que, ainda como professor dentro do grupo, assumiu a função de ser meu Mestre. Não menos importante, a segunda figura é o Mestre André Lacé (foto, ao lado da sergipana, Dna Arly), do Rio de Janeiro, detentor de um conhecimento inigualável, e que tornou-se meu tutor na área literária da capoeira. É com ele que aprendi, e aprendo, a importância do buscar o saber não só na roda da capoeira, mas também nas fontes históricas (documentais ou não).

Mestre Lacé é de quem “sou menino que aprende” na parte escrita de nossa capoeiragem. À esses dois Grandes Mestres agradeço de coração por todos ensinamentos. Aproveito para desejar um Feliz Aniversário para Mestre Lacé, quem em 6 de Agosto completará mais uma volta ao mundo. Com certeza a comemoração será regada a um bom vinho francês, samba de roda e, é claro, muita capoeira e muita sabedoria.