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Uma Roda de Capoeira à Francesa…!??

Uma Roda de Capoeira à Francesa…!??

No meu Caminho do Berimbau, a vida vai se desdobrando em grandes saltos, onde o aprendizado sobre nossa Arte vem o tempo todo em grandes e densas doses de surpresas e novos entendimentos dessa que parece ser uma Arte de infinitos saberes: a Capoeira!

Uma das ultimas e inusitadas paradas foi na pequena e linda Cidade de Albi, ao Sul da França, mais conhecida por sua imensa Catedral, feita há mais de trezentos anos, toda em tijolos de barro, uma obra surpreendente, sem dúvida. Fica a oitenta quilômetros de Toulouse, uma das grandes cidades francesas.

Nessa cidade fui surpreendido por uma incrível experiência, onde muitos conceitos em que acreditava se desmoronavam irremediavelmente…!

Até então, fui sempre acometido de um paradigma nacionalista e limitante (hoje admito!) de que a Capoeira depende de nossos obstinados, fortes e dedicados professores e mestres, que emprestam sua energia de maneira quase invisível aos olhos menos atentos, para que a Capoeira ande e se instale mundo afora, pelos quatro cantos do planeta!

Nunca alguém poderia lhes tirar esse mérito: o de serem os grandes protagonistas da expansão e da explosão que a capoeira teve nas últimas décadas, se incorporando aos mais estranhos e exóticos lugares e culturas do mundo!
É incrível, verdadeiramente, que possamos ter chegado tão longe!

Em outros artigos, já cheguei a comparar – e fiz essa afirmação perante a comunidade angolana de capoeiristas e escritores, que a Capoeira se tornou a Nova Diáspora da mensagem afro-brasileira pelo mundo, se incorporando aos costumes de comunidades instaladas em lugares inimagináveis, com temperaturas baixíssima, como na Noruega, ou na Finlândia, se tornando uma opção de povos que não conseguem – no primeiro momento – falar uma única palavra em Português – mas que vão se envolvendo de maneira irreversível às nossas palavras, nossos gestos, nossa História, numa simbiose impressionante, onde após algum tempo, não mais se reconhece as pessoas que originalmente se iniciaram na Capoeira e a incorporaram, tornando-a sua própria forma de vida.

Nesses recônditos lugares, quase sempre, até então, eu sempre via ou soube de um guerreiro e incansável capoeira, seja uma pessoa que já circula há longos anos, ou outros mais jovens, que se aventuraram pelo mundo, levando no coração uma missão, na mente uma ideologia e na alma um guerreiro sem medo de abandonar suas raízes e se atirar no desconhecido de outras culturas levando seu berimbau, sua Arte e sua vontade de levar as mensagens que aprendeu com seu mestre.

Conheci e a cada dia conheço inúmeros desses inveterados e obstinados guerreiros, mensageiros de nossa Capoeira. Sempre e com toda razão, cheios de orgulho de sua própria História de vida e do sucesso de seu trabalho e de sua missão.

Esses capoeiras são, com absoluta e irrefutável razão, os grandes responsáveis pelo fato de a Capoeira ter se espalhado como uma grande malha humana que une culturas e povos, elimina barreiras, supera dificuldades como idiomas, como limitações financeiras e se tornam, via de regra, grandes e consagrados representantes de nossa Capoeira por onde andam.

Após conhecer inúmeras realidades até aqui, sentia e via sempre associado ao sucesso da difusão da Capoeira, esses brasileiros mencionados, aos quais jamais será negado esse mérito.

Mas, como é um velho hábito dos pensadores, sempre acredito em perguntas mais do que em respostas…!
Por isso, me ocorreu uma grande questão: onde e como ficaria a nossa Capoeira, após sua assimilação profunda pelos nossos queridos estrangeiros? Será que eles teriam sempre a dependência de algum brasileiro que os mantivessem alinhados com nossos ideais e velhos rituais de roda?

Teriam eles a competência de organizar um evento de Capoeira sem perder nenhum dos inúmeros detalhes exigidos para tal, como seja: o lugar adequado; instrumentos afinados e suficientes; uma programação capaz de manter os participantes ocupados e animados com o evento; alegria e axé em volume e distribuição pelos três ou quatro dias que durasse o evento, etc.

E o mais difícil para nós, mesmo no Brasil ou mesmo na presença de muitos e diferentes mestres: fazer uma roda com a grandeza que esperamos dela…!?

Essa roda teria que ter muitos elementos para atender a tantos requisitos que nós, capoeiristas, nos acostumamos a medir: musicalidade, volume de jogos, nível vibracional, nível técnico, participação de todos os presentes, equilíbrio emocional – para segurar os ânimos quando alguém se exaltasse – e enfim, teria o axé que a sustentaria todo o tempo do evento!?

Quem não está acostumado a conviver com capoeiristas, não tem ideia da quantidade de critérios que eles trazem no seu alforje de especialista! Um capoeirista vê e distingue vários e distintos tons de jogo, os diferentes níveis técnicos dos participantes, o axé, como genericamente a gente se refere ao padrão de uma boa roda!

Mas esses são apenas os mais óbvios questionamentos de um bom Capoeira! Os Mestres tem outros tantos níveis de percepção das coisas e mesmo o grau de entrosamento dos participantes não lhe escapa aos olhos.
Enfim, ali estava um capoeirista com uma bagagem de mais de quarenta anos de estrada, em sua humilde tranquilidade de nunca exigir muito de ninguém, ou seja, não ser muito critico com as diversas realidades já conhecidas. Não tentar corrigir gratuitamente ninguém, ou interferir sem a devida vênia dos presentes, em nada que não fosse absolutamente necessário. Ouvir muito mais e falar muito pouco. As palavras são nosso maior risco. Um observador discreto e despretensioso.

Por costume e pelo pequeno aprendizado dessa vida, tenho a mania de chegar em terra alheia e me colocar bem longe de qualquer pretensão minha de julgar, ou seja, pisar sempre devagar!

Além de ter aprendido também que em casa alheia, como o que me derem, como já ouvi muitos sábios dizerem, na voz corrente da sabedoria e da ciência de vida, ensinada pela Capoeira.

Uma primeira e agradável surpresa, foi a infinita gentileza com que as pessoas me cercaram nessa Petit Ville, como dizem os franceses. Eu recebi tanta atenção e tanto acolhimento por todos que tive o meu coração invadido por uma gratidão extrema! Logicamente isso veio acompanhado da minha grande vontade de também ser generoso e de me doar totalmente àquelas pessoas, aquele povo simples, sem opulências, sem nenhum traço exterior de riqueza material… Apenas aqueles abraços e aqueles olhos me enterneciam de um sentimento de grande emoção e de uma gratidão imensa.

 

Começa o evento…! 

 

É noite de sexta-feira e será feita uma roda de recepção apenas, para as boas vindas aos participantes, como é de praxe nos eventos. Muita gente chegando e a festa começa a ganhar seu tom…! Cada novo participante que chegava trazia sempre um sorriso… e oferecia um forte abraço aos que ali já estavam.

Começa a roda, inicio do entrosamento e preparação para os três dias que se seguiriam. A roda teve bons momentos e uma energia tranquila e equilibrada.

Para aquele primeiro momento era mais que o suficiente. Muita gente ainda chegaria no dia seguinte, pessoas que trabalhavam ou tinham outros compromissos.

Até a manhã de sábado as coisas estavam ainda mornas, como é costume em todo evento. Seguir os passos do aquecimento. A revelação dos talentos, até então contidos na expectativa de um clima que os liberte, assim como dizia sempre o Mestre Decânio, da segunda turma da Capoeira Regional de Mestre Bimba, esperar para que o transe capoeirano possa acontecer em cada um.

Não havia um plano muito rígido a ser seguido, explicava o promotor do evento, denominado WEC2k17, ou seja, Week-end Capoeira 2017, um simples fim de semana prolongado.

No sábado as coisas já foram mais animadas e, como todo bom evento, as pessoas foram se entrosando enquanto o dia corria, entre um treino, uma aula, um lanche, e o normal entrosamento cada vez mais sólido.
Então tudo seguiu seu rumo como tradicionalmente acontece no andar dos eventos.
Até então tudo pareceu seguir o mais tradicional andamento da maioria dos eventos que já estive (aproximadamente uns setecentos, nos meus quarenta e tal anos de estrada).

As rodas começaram a me chamar a atenção.

Ficava curioso com a ideia de que ali não havia outro brasileiro que não a minha pessoa.
Então comecei a prestar mais atenção ao que acontecia durante o andamento das rodas que iam acontecendo durante aquele evento, que contou com mais de uma centena de pessoas, sendo todos eles aculturados na língua francesa e a grande maioria de nacionalidade também francesa.

Como é uma roda com tanta gente, onde não há nenhum capoeirista brasileiro?

Até que ponto eu estaria vendo uma manifestação verdadeira e inquestionável da nossa Velha Arte, da Capoeira?
Aquelas pessoas teriam o domínio de todos os elementos que compõem, no minimo, uma roda?

O ritmo cresceria ao ponto de exigir um grande esforço para manutenção do equilíbrio daquela energia que pulsava no acelerar do ritmo do berimbau na execução do São Bento Grande, de Angola?

Aqueles capoeiristas, teriam o domínio da energia da roda suficiente para segurar os ânimos quando alguém se perdesse no axé da roda e quisesse se confrontar?
Não. Ninguém tinha ideia de que tudo aquilo se passava pela minha cabeça…! Nem eu!
Não estava julgando ninguém…!

Essas perguntas me ocorreram agora, enquanto escrevo o que vi, me lembrando o máximo possível dos detalhes.
Tais perguntos, eventualmente, poderia ser feitas por quem, diante de alguma incredulidade, tentasse julgar todo aquele movimento dos cidadãos franceses para com a capoeira…!

Alguns, certamente, com a intenção de emitir algum tom de crítica ao que aconteceu ali!
Nós, os brasileiros em geral e os capoeiristas em particular, temos uma vocação horrível de falar sempre só a parte ruim das coisas!!

Aquele clima, aquelas pessoas,aquela experiencia, não teria nada que ver de ruim!
Nada pode ser mais importante do que a parte boa das coisas. Eu acredito nisso.
Não só por isso, as impressões que ficaram em mim foram maravilhosas!

Aquelas Capoeiristas todos, vivendo de uma maneira integra e completa para e da Capoeira, uma das nossas mais importantes culturas populares dos últimos tempos, que tem nos transportado para nos tornar uma cultura da humanidade, como decretou a própria Unesco… Esse momento poderia ser uma boa hora para se perceber o porque dessa aclamação.

Por que a Capoeira se tornou um Patrimônio Cultural da Humanidade!?

Por que todos esses anos de sua história ela não foi devidamente desvinculada de nossa cultura popular brasileira, então?!

Mal podemos imaginar que seria possível uma unica roda acontecer sem a presença de um capoeirista brasileiro para coordenar as coisas fazer acontecer o clima que esperamos de uma roda!!
Muitos de nós mantem estrangeiros cativos de sua presença, intimidando-os para não tenham competência própria para se organizar e crescer…!

Mas a Capoeira é Mágica!
Ela chega onde é chamada!
Dialoga com qualquer realidade!

Se os franceses não tem os nossos problemas para justificar algumas coisas que fazermos acontecer através da Capoeira, como reintegrar socialmente pessoas, ajudar pessoas de comunidades pobres,, tornando a Nossa Arte uma das esperanças que essas pessoas precisam, para dar sentido a suas vidas!

Ou se nós temos hoje uma quantidade tão grande de mestres e de graduados na capoeira, que os eventos são praticamente feitos  para eles!

Desde há muitos anos, tenho falado na pirâmide social da capoeira, no Brasil pelo menos, onde a maioria dos presentes são mestres ou graduados.. onde isso cria uma estranha competição entre tantas pessoas importantes naquele momento, naquela roda!

Por isso muitas disputas acontecem. Muitas vezes em desequilibro emocional visível.
Mas não se trata da ausência de alguém para ensinar!!!

Se trata de dizer até mesmo que esses capoeiristas tiveram excelentes professores e mestres!!
Alguns já bem antigos na prática da Capoeira se tornam naturalmente os lideres daquele evento, destacando-se os indiscutíveis méritos do organizador daquele evento, o Furrupa, uma pessoa que merece um capitulo a parte, que vamos tratar mais abaixo.

Estou falando de um grupo de capoeiristas mais antigos que ali estavam, todos eles empenhados e dando o seu melhor, para que a Capoeira estivesse à altura de qualquer outra roda no Brasil… ou em qualquer outro lugar!
O evento, como qualquer outro, teria que ter uma sustentação de capoeiristas mais graduados. Essa foi uma das coisas mais incríveis que presenciei:
– espontaneamente, as pessoas foram se envolvendo e os mais graduados, independente o titulo que tivessem – professor, monitor, instrutor, etc;
– os papéis existentes numa roda de Capoeira, normalmente representados por uma única pessoa, que coordena e cobra as ações que deem suporte ao momento, são inúmeras, pois a Capoeira é uma cultura coletiva, inclusiva e integrativa…! todo mundo vai ocupando seus lugares em volta da roda, dentro dela, fora dela, jogando ou simplesmente fazendo o coro para que outras pessoas possam jogar, alguém precisa preparar os instrumentos, outros precisam cuidar da retaguarda, outros da limpeza, da administração, dos microfones, do lanche, do almoço, etc… são infinitas pessoas que cuidam de tudo que é necessário para que aconteça uma boa roda, um bom evento.

Ali eu presenciei todos esses papéis acontecerem sem nenhum comando aparente…!

O organizador do evento, Furrupa, parecia mais um grande incentivador do clima todo e da alegria ali reinante, além, é claro de usufruir bastante também naquelas rodas todas que aconteceram!

Sua parceira e também capoeirista, conhecida como Cha-Chá, era uma das forças invisíveis que operava o milagre de todo aquele evento!

Ela era discreta e efetiva! Trazia sempre alguma solução debaixo do braço e não parecia perder nada do que acontecia, ou seja, as rodas as aulas, os números que foram preparados e depois apresentados e que encantaram a todos os presentes, inclusive me tocando profundamente… era uma grande presença… suave e constante! Acordando super cedo para ir buscar pessoas que chegavam… organizando espaços para acomodar todos os convidados… fazendo compras e organizando as refeições dos participantes…!

Outros destaques só foram percebidos, porque fiquei o tempo que pude como observador, depois que me dediquei a resgatar da memória todas essas perspectivas que aqui coloco.

Capoeira de corpo e alma, que joga vivendo e vive gingando

Os capoeiristas, em geral, são apaixonados por essa Arte e se dedicam a ela longos anos de sua vida, alguns a sua vida todas. Isso pode ser verificado com inúmeros casos de mestres que entregaram sua vida à prática e a divulgação da capoeira, além de muitas outras formas de sua produção, como músicas, textos, instrumentos, palestras, livros e, principalmente, ensinar outras pessoas.

No entanto, existem pessoas que, mais do que amar, se tornam a si mesmos, a própria Capoeira!
Essas pessoas são tão estritamente associadas à capoeira, que transformam suas vidas em uma dedicação extensiva à Capoeira. Pessoalmente conheço muitas pessoas assim e admiro profundamente a capacidade de se doar a própria vida para aprender e serem porta-vozes da Capoeira. Essa arte parece cativar de modo irremediável incríveis personalidades, fortes, criativas, dedicadas, disciplinadas, expressivas, artistas, poetas, pensadores, estudiosos, enfim, pessoas que entregam toda sua energia vital a essa Arte.
E elas não recuam diante de dificuldades… nem restrições… nem competições… nem falta de apoio… nem nada…!!!
Essas pessoas ampliam ainda mais o seu carisma, quando impregnadas da capoeira em seu corpo e em sua alma!
No Brasil existem muitos capoeiristas assim!

O que foi uma grande e grata surpresa foi encontrar pessoas com essa personalidade capoeirista tão absolutamente destacada, cidadãos não brasileiros, que falam corretamente o idioma, dominam a arte, se entregam sua vida a aprender e a divulgar a Capoeira…!

Encontrei diversas dessas pessoas durante esse tempo na França!

Quero deixar registrado aqui o nome de alguns deles, me perdoem os que eu não mencionar, o que se dá exclusivamente pela limitação da minha memória…!!

Entre eles quero destacar:
Furrupa, um capoeirista de corpo e alma! Grande responsável pelo evento e que se tornou o pivô de toda a grandiosidade do mesmo! Gratidão e reconhecimento! Furrupa dedica sua vida totalmente à capoeira! Tornou-se Capoeirista independente desde quando percebeu que estava limitado em sua necessidade de crescer e de se integrar com outros movimentos e outras escolas de capoeira. É pilhado ao extremo e tem uma hiperatividade visível! Tem uma veia critica e criativa e não admite erros básicos como o desrespeito aos alunos, assédio ou outras formas de macular a Capoeira, como uma Arte de Família, de todas as idades. Furrupa é super produtivo e tem diversas atividades dentro da Capoeira, como dar aulas, criar músicas, manter um programa na internet, um vídeo-blog onde ele debate abertamente, em francês, as questões da capoeira que ele percebe e que vive (ver link abaixo).
Ferrugem: um grande capoeirista, grande pessoa e que tem um dom em particular o de manter o equilíbrio das energias na roda… Toda vez que um pequeno desequilíbrio começava a se formar, o Ferrugem rapidamente comprava o jogo, impedindo a evolução para um problema maior! Grande pessoa, bem-humorado e gente boa!
Porco-Espinho: capoeirista sério, com um grande domínio do ritmo e do axé da roda, sempre que pegava o berimbau fazia as coisas ganharem novo fôlego na roda. Excelente capoeira. Longos anos de aprendizado.
Mestre Bem-ti-vi: Um dos primeiros mestres estrangeiros que conheço! Tem um português perfeito, ao ponto de eu perguntar se ele era brasileiro! Um dos maiores exemplos que o Bem-ti-vi deu durante o evento, foi se manter tranquilamente, exatamente como eu, sem interferir nas coisas! Essa atitude é difícil de se ver, pois quase sempre nossos graduados tentam dominar as coisas e se tornarem os grandes responsáveis pelos eventos!
Medusa – um capoeirista excelente, de uma presença forte e segura, que foi muito presente nas rodas, nas aulas e que apresenta uma grande e natural liderança por onde chega e onde anda!
Esses e outros tantos que ali estavam mantiveram uma incrível atmosfera durante todo o evento e me pareceram muito próximos entre eles!

Alunos e participantes do WEC2k17: todos merecem o meu aplauso, mas escolhi alguns dos momentos foram emocionantes durante o evento! Um deles estou compartilhando o link abaixo, quando as capoeiristas apresentaram um lindo teatro da capoeira no contexto da escravidão no Rio de Janeiro e depois fizeram uma linda interpretação de músicas de capoeira usando um violoncelo, um teclado e um acordeon! simplesmente sensacional! Confiram no link!

Conclusão…

Após tantas percepções aqui registradas, posso afirmar que a Capoeira cumpre seu papel onde ela chega! Destaco, novamente, o papel das pessoas que ensinaram essas pessoas foi cumprido! Eles transpiram capoeira da maneira mais nobre, mais fiel, mais entusiasmada, mais dedicada e mais contagiante!
Posso perceber que uma roda à Francesa, é uma roda de capoeira de valor!

Posso ainda, para finalizar, me apropriando da percepção de meu amigo Mestre Jean, com quem comentei esse texto, que os franceses encontraram uma saída á francesa para os problemas que enfrentamos na capoeira no Brasil! Gente graduada demais disputando as rodas, os comandos, os jogos, onde os egos se multiplicam e competem entre si para ver quem fica mais em evidência, pois nossos camaradas da França fazem o melhor de dois mundos: tem uma capoeira excepcional, um clima amigável e rico, ao tempo em que eleva o axé até onde podem, se que haja nenhum desequilíbrio por animosidades desnecessárias!
Obrigado pela oportunidade, amigo Furrupa!

Obrigado galera presente no WEC2k17, foi uma honra estar presente num momento tão lindo desses para a nossa Arte…!

À tout à l’heur, France!

Reginaldo Silveira Costa – Mestre Skisyto

https://www.facebook.com/mestre.squisito

 

Veja também: Nosso Encontro Évora 2017 – Presença do Mestre Skisyto confirmada

Uma Roda de Capoeira à Francesa...!?? Geral Portal Capoeira

Cadu e as histórias de Bantu

Cadu e as histórias de Bantu, é fruto de um longo período de pesquisa e escrita e já foi adotado por várias escolas. Esse livro fala sobre nossas raízes afro-brasileiras.

A história começa num vilarejo do Sul da Bahia, onde os ventos atlânticos trazem o cheiro do mar impregnado de lembranças da África…

 

Alexandra Barcellos, autora de oito livros do gênero infanto-juvenil é professora de literatura em Curitiba.

 

E-book – Cadu e as histórias de Bantu

E-book sobre a história de um menino que cresce num vilarejo do Sul da Bahia. Sua família tem uma pequena fábrica de berimbau: atividade que é passada há gerações de pais para filhos e que não é só um negócio, mas uma forma para manter as tradições familiares vivas.

Cadu cresce nesse ambiente, e vive o seu vilarejo como se ele fosse um lugar mágico, até que grandes eventos começam a transformá-lo.

 

Mais:

E-book afro-brasileiro sobre nossas raízes.

Alexandra Barcellos é professora de literatura e autora de diversos livros de temática ambientalista.

alexandra-barcellos@hotmail.com

Repercussões: RED BULL PARANAUÊ

3 BONS MOTIVOS PARA VOCÊ APOIAR O RED BULL PARANAUÊ (e um para não apoiar)

RED BULL PARANAUÊ é bom pra Capoeira ou não? Vamos ao campeonato dos argumentos! Começou a seletiva!

Em breve haverá as seletivas para a escolha do “capoeirista mais completo do mundo”, no Red Bull Paranauê, seja lá o que isso significa… 😉

É um marco, porque, até onde eu sei, é a 1a vez na história que uma grande empresa  promove um evento de Capoeira. Promove, não somente patrocina ou apóia.

Tem gente torcendo contra, e apresentam argumentos inteligentes e coerentes. Tem gente achando o máximo, sem enxergar nenhum problema. Polêmicas a parte, o evento será grande e promete atrair muita gente!

Então vamos aos 3 motivos de por quê acho que se deve apoiar o evento e 1 para não apoiar!

Motivo1: Competição na Capoeira não é novidade!

– Capoeiristas como Mestre Bimba e alunos ou os alunos de Sinhozinho fizeram competição de vale-tudo entre si e contra outras lutas e isso ajudou a promover a Capoeira desde, pelo menos, a década de 1930.

– Mestre Gato Preto ganhou uma competição de berimbau contra Mestre Canjiquinha, e isso deu notoriedade a ele e a Capoeira.

– O grupo Senzala ganhou 3 vezes uma competição que ajudou a divulgar a Capoeira, dando notoriedade nos jornais do RJ, na década de 60.

-As federações esportivas fazem competições de Capoeira desde o tempo do ronca e quem vai negar a importância que elas tiveram para o crescimento da Capoeira em SP, por exemplo?

– O pessoal mais novo não conheceu, mas os JEBS, competições feitas nas Universidades, ajudaram muito a consolidar a Capoeira em muitos locais do Centro-Oeste e do Nordeste, principalmente.

Motivo 2: Sempre existe O MELHOR

Ser melhor é subjetivo, por isso o que é melhor para um, não é para outro. Da mesma forma, o que achamos melhor num dia, no outro já não é, mas todo dia, a cada instante, tomamos decisões baseadas em juízos subjetivos de valor: “o que é melhor neste momento? Café ou suco? Cinema ou livro?”. Se perguntarmos para as pessoas, no fim de uma roda: “qual foi o melhor jogo da roda, na sua opinião?”, provavelmente ouviremos respostas diferentes, mas cada um está julgando baseado no que viu e sentiu ser melhor, segundo seus critérios pessoais. O negócio é que a Capoeira é uma arte e apreciação de arte é sempre subjetiva.

Qual o problema de reconhecer o MELHOR?

Não devemos ter medo de dizer que consideramos alguém o melhor na sua área. Numa lista dos melhores jogadores de futebol de todos os tempos, você tiraria Pelé? E numa lista dos grandes jogadores de Capoeira, alguém excluiria Mestre Cobra Mansa?

Assim como todos debatem sobre qual foi a MELHOR escola de samba do ano, ou o MELHOR filme que ganhou o Oscar, ou o MELHOR livro que ganha o PULITZER, haverá debate sobre quem foi o MELHOR ou mais completo Capoeira. Julgamento de arte, de qualquer arte, é sempre subjetivo! Mas ser melhor não é vergonha! Eu, capoeirista, tenho que reconhecer que tem muita gente que é melhor do que eu, em vários aspectos! Melhor de canto, melhor de jogo, melhor de toque… Que coisa boa! Posso aprender com eles! Não preciso ser o suprassumo das galáxias do berimbau quando tenho Rafael Xikarangoma para admirar como alguém melhor!

Motivo 3: A ancestralidade e o exemplo dos mais velhos.

Vários dos antigos estão lá no Red Bull Paranauê, começando por Mestre João Grande e Mestre Jair Moura, passando por Mestre Nenel e Mestre Itapuã, continuando com Mestre Jogo de Dentro, Mestre Virgílio, Mestre Lua Rasta e outros.

Julgar que os Mestres mais velhos estão sendo enganados ou que estão se vendendo é ignorar a inteligência, a visão de mundo e a capacidade crítica de nossos ancestrais culturais. Se eles estão lá, é porque apóiam a ideia e o conceito como algo positivo para a Capoeira em geral, mesmo não aplicando a mesma ideologia nos seus trabalhos.

 

Repercussões: RED BULL PARANAUÊ Notícias - Atualidades Portal Capoeira

 

 

RED BULL MANJA DOS PARANAUÊ?

O skate, o surf, o Jiu Jitsu, o MMA e até mesmo o samba, o rap, o hip-hop ou o rock são movimentos de massa que, ao serem midiatizados, anos atrás, tinham praticantes que se consideravam puristas, que afirmavam que a midiatização mataria a alma de suas artes. O que aconteceu? Justamente o contrário, uma projeção enorme, possibilitando o avanço dos artistas.

E a Capoeira com isso?

A Capoeira se projeta e carrega a todos em sua trajetória. Muitos criticaram quando do lançamento do filme “Esporte Sangrento”, do videogame Tekken, quando o Mestre Boneco vivia nos programas Globo ou mais recentemente, quando Mestres como Sabia ou Gege carregaram a tocha olímpica. Ainda assim, o crescimento proporcionado por estes fenômenos ajudou a Capoeira e consequentemente a todos os capoeiristas.

Não importa quem vai ser o campeão do Festival. Ele vai continuar sendo um capoeirista igual, melhor ou pior que qualquer outro. O bom é que, independentemente do campeão, todo mundo vai sair ganhando, inclusive quem está criticando.

UM MOTIVO PARA NÃO APOIAR

A Red Bull é uma empresa que faz parte do mundo capitalista, cujo objetivo é somente gerar lucro e renda. Se você não quer viver a contradição de apoiar o capitalismo, não apoie o Red Bull! Mas lembre-se que patrocínio da Petrobras é advindo de dinheiro sujo de outra empresa capitalista. Que edital de apoio do Governo Federal está envolvido com a sujeira política de sempre. Que o seu smartphone foi construído com mão-de-obra semi-escrava em algum país asiático e que absolutamente tudo que você come ou veste foi produzido na lógica da exploração do homem pelo homem. Não se vive no mundo real sem cair em contradição, pois questões complexas não são resolvidas com respostas simples.

CONCLUSÃO

Não é porque eu não faço competição e não compartilho do paradigma da competitividade é que não quer dizer que não haja coisas positivas nele. As contradições fazem parte da Capoeira e é sempre bom dialogar e fazer pontes com todos que a estão defendendo, mesmo que eu discorde em muitos aspectos. Afinal, eu levo em conta que posso estar errado.

No mais, o Capoeirista mais completo é aquele que tem coração pra sentir amor pela Capoeira como um todo, e não somente pela parte que lhe toca.

Axé!

Ferradura

 

Fonte e Fotografia: http://www.capoeirariodejaneiro.com.br/

 

E você? Tem talvez 3 motivos para não apoiar e 1 para apoiar? Ou tem outras idéias a respeito? Comente e compartilhe para estarmos sempre debatendo e trocando ideias! Quem troca ideia sai com duas!

Contemplações: A primeira vez…

A primeira vez

 

Para tudo há uma primeira vez”, quantos vezes eu já não ouvi esta frase? E quantas “primeiras vezes” já não passavam em nossas vidas, muitas vezes sem ser mesmo notado? E quantas a gente nunca mais esqueçam: A primeira viagem sem pais, a primeira namorada, o primeiro beijo, a primeira vez que viu a capoeira…

Este aí, é a minha primeira vez, quer dizer; a minha primeira coluna para o Portal Capoeira. E como todas primeiras vezes, há uma mistura de expectação, incerteza, vontade, tensão, animação e esperança: será que vai dar certo mesmo?

Para começar, gostaria de esclarecer algumas coisas: eu não sou Mestre de Capoeira, e então não tenho aquela autoridade que vem de combinação de conhecimento, experiência e o tempo. Minha proposta então é de falar sobre temas, conceitos e tópicos que surgem na minha experiência da capoeira e das minhas pesquisas sobre ela, e outras áreas em que trabalho. Meu alvo não é falar ‘como é que é’, tampouco de só informar, mas de dar incentivo para refletir, para pensar. Isto quer dizer que gostaria também ter feedback de vocês leitores; coisas que vocês dis/concordam, e temas sobre quais vocês querem ouvir mais.

Fora da capoeira, minha “áreas de especialização” são a filosofia, as ciências políticas e sociais e a educação. No momento estou fazendo um doutorado em filosofia, teoria política e educação, onde eu implico a capoeira também; deste trabalho surgem varias temas que vão ser refletido aqui na coluna.

Mas para não ficar só numa introdução, queria continuar na tema que já introduzi; a primeira vez. Na capoeira, depois o primeiro encontro, uma das mais importantes primeiras vezes é talvez a(s) primeira(s) aula(s) e o primeiro professor de capoeira. Já ouvi um mestre falar que “a verdadeira base do jogo e a técnica de um capoeirista é feito no primeiro 2-3 anos. Depois é quase impossível, o pelo menos muito difícil, de mudar o jogo e estilo de um(a) aluno/a.”

Então me perguntei: será que esta declaração tem alguma reflexão na ciência? Para isto olhei para a área de psicologia do desenvolvimento; como o nosso cérebro e a capacidade de aprender se desenvolve no ser humano. Na verdade, nosso cérebro consiste de vários partes, e uma destes é a memória. E o que a gente está treinando na aula de capoeira, é uma memória corporal; aprender e aperfeiçoar um movimento, até ele sai (quase) sem pensar como fazer-lhe, intuitivamente. Este tipo de memória chama se memória processual; o lugar dos nossos rotinas e automatismos. Habilidades que a gente aprendeu num certo momento, e muitas vezes com um monte de prática, muitas repetições.[1]

Mas não toda repetição tem o mesmo valor: as primeiras tem muito mais impacto do que os seguidas. Porque como a gente sabe, mudar de habito é uma coisa difícil; e na capoeira isto é devido ao memória processual. Então quando estamos na aula de capoeira, estamos a aprender (ou ensinar) de criar um habito, que são (o conjunto de) movimentos de capoeira. E esses movimentos a gente aprende com olhar e imitar, e com explicação e correção pelo um professor. E por isto a primeira vez, o primeiro professor, é tão importante: é lá onde os fundamentos do habito, da rotina, são feitos. Uma casa sem fundamento boa, cai. Um capoeirista com habito ‘ruim’, dificilmente se desenvolve até um nível mais alto de jogo.

Com crianças, há ainda uns fatores a mais para cuidar. Porque o nosso cérebro se desenvolve até uns 25 de idade; quer dizer que até lá, todos estímulos das pessoas, do ambiente e da experiência própria, tem uma influência maior no desenvolvimento do cérebro, e nas capacidades que desenvolvemos durante o resto da vida. Dentro isto, o mais importante são os primeiros 6 anos da vida, onde o cérebro desenvolve o ‘hardware’ dele, que determina as possibilidades de ‘softwares’ que pode desenvolver depois.

Isto quer dizer, que ensinar crianças é quase uma responsabilidade maior do que ensinar adultos: não só pelo lado pedagógica, mas então mais ainda da perspectiva do desenvolvimento do cérebro e as habilidades que surgem dele.

Aí, na capoeira tem alguma coisa particular: porque eu, como a maioridade dos professores de capoeira, aprenderam a dar aula com crianças. As primeiras aulas que a gente normalmente podem gerar sozinho, são aulas (ou oficinas) de crianças (ou iniciantes). Há vários razões para isto: crianças pequenas fazem de ti um bom professor – se sabes gerar um grupo de 30 crianças entre 5-8 anos de idade, com certeza sabe gerar um grupo de adultos. Também, um professor iniciante, as vezes ainda não tem suficiente experiência e ferramentas para desafiar um grupo de adultos mais experientes na capoeira. Tem que começar a ensinar a base. Etc.

Mas se olhamos pelo lado de aprendizagem, de desenvolvimento do corpo e mente, e a ligação com as nossas habilidades e capacidade, isto parece um pouco estranho: no lugar e no período mais delicada de aprendizagem, botamos muitas vezes os professores de capoeira menos experientes, iniciantes.[2] Mesmo quando sabemos que um tratamento errado duma criança, pode causar problemas para ele/a para o resto da vida. Então porque deixamos tanto ao sorte?

Falando disto, há uma outra coisa importante ligado nisto, que vou tratar na próxima, que é ‘o exemplo’.

 

[1] Aqui estou falando de treino corporal, porque com o treino de música, que também faz parte da capoeira, alguns outros aspectos de nosso cérebro são usadas também.

[2] A mesma coisa acontece na sistema educacional formal, onde para ser professor de primaria, precisa ter menos formação do que para um professor de secundaria, ou até universitária.

Há 35 anos, partia Mestre Pastinha, criador da capoeira de Angola

Mosaico cultural | Pastinha dedicou sua vida a defender, divulgar e ensinar uma das expressões culturais mais fortes do Brasil

Vicente Ferreira Pastinha nasceu em 1889 e, segundo ele mesmo, aprendeu capoeira com apenas oito anos de idade, com um africano chamado Benedito que, ao vê-lo brigar com um garoto mais velho, resolveu lhe ensinar a capoeira.

Em 1902, Pastinha entrou para e escola de aprendizes marinheiros, onde passou oito anos de sua vida. Na Marinha, praticou esgrima e aprendeu a tocar violão. Ao mesmo tempo, ensinava capoeira a seus companheiros.

Confira o programa Mosaico Cultural, da Radioagência Brasil de Fato (para baixar o arquivo, clique na seta à esquerda do botão compartilhar):

Em 1910, Mestre Pastinha começou a ministrar aulas de capoeira às escondidas na sua própria casa, pois a prática havia sido proibida, e quem contrariasse as regras poderia ir para a cadeia.

Pastinha se tornou defensor e a principal referência da capoeira de Angola, que possui movimentos mais lentos, rasteiros e lúdicos do que outros estilos do jogo.

“A capoeira é espiritualizada e materializada no eu de cada qual”

No documentário “Pastinha, uma vida pela capoeira”, o escritor Jorge Amado fala sobre Pastinha:

“Ele era um homem pequeninho, não era alto; ágil como um gato. Eu me lembro de tê-lo visto brincar, jogar capoeira… num hábito tão importante tão belo, em que homens de todas as classes se juntavam para brincar ao som dos atabaques, as cantigas de escravos…”

Mestre Pastinha trabalhou ainda como pedreiro, pintor, entregando jornais, entre muitas outras ocupações.

Mestre Curió, discípulo de Pastinha, fala sobre o pensamento de seu mestre sobre a capoeira:

“Ele combatia a violência, e dizia que capoeira não é violência. Capoeira é arte, dança, mandinga, malícia, filosofia, educação, cultura e, na hora da dor, é que ela passa a ser uma luta perigosíssima”

Em 1966, Mestre Pastinha realizou o seu sonho de conhecer a África ao representar o Brasil por meio da capoeira angola no 1º Festival Mundial das Artes Negras, em Dacar, no Senegal. Ele estava ficando cego, consequência de uma trombose que atingiu sua visão, e não chegou a passear em terras africanas.

O último lar do mestre foi no abrigo para idosos Dom Pedro II, onde morreu aos 92 anos, no dia 13 de novembro de 1981.

 

Por: Mauro Ramos

Brasil de Fato | https://www.brasildefato.com.br

“Arte da Capoeira” Livro & Ilustrações – Katjuša Pinoquio

 “Arte da Capoeira” Livro & Ilustrações – Professora Katjuša Pinoquio

 

Um livro didático, repleto de belas ilustrações feitas pela própria autora, Katjuša Kovačič, conhecida na capoeiragem como Professora Pinóquio, aluna de Mestre Ubaldo Alegria, Grupo Tradição Baiana.

Katjuša nasceu em Junho de 1986 em Ljubljana, Slovenia onde desenvolve um trabalho artístico e multicultural…  que envolve uma diversidade de elementos como a improvisação teatro, dança contemporânea e de expressão, teatro de rua, acrobacia, capoeira, desempenho ambiental, dança do fogo e circo.

O Livro apresenta movimentos de capoeira, os instrumentos utilizados na capoeira e ainda trás um pequeno dicionário que ajuda o iniciante estrangeiro na inicialização do processo de aprendizagem da Língua Portuguesa, dentro do contexto da capoeiragem, todas as ilustrações foram feitas pela própria Pinóquio.

Fica a dica para quem quiser ter uma ferramenta interessante para apoio didático e leitura… feito artesanalmente com carinho e paixão pela nossa capoeira.

Obrigado Katjuša pelo presente…

ARTE DA CAPOEIRA – ISBN: 978-961-283-341-1

KATJUŠA KOVAČIČ

 

2006@ Capoeira CTB (Jose Ubaldo dos Santos- Mestre Alegria)

https://katjusakovacic.wordpress.com/

Livro: Cadu e as histórias de Bantu

Sobre o livro: A autora Alexandra Barcellos nesta obra Cadu e as histórias de Bantu apresenta ao público juvenil as raízes afro-brasileiras, pouco exploradas na literatura específica para esta faixa etária, situando a narrativa no vilarejo mítico e sugestivo de africanidade Bantu, aonde o protagonista Cadu dotado pelas asas da imaginação, vivencia peripécias repletas de aprendizagem por entre o ondular de coqueiros e a presença do mar.

“Textos como o de Alexandra Barcellos, que abordam as nossas raízes afro-brasileiras, são sempre bem-vindos. Em Cadu e as histórias de Bantu, a autora nos carrega, nas asas da imaginação, a um vilarejo mítico, pleno de africanidade.

Personagens de nome marcantes, como Nilo e Luanda; o ondular dos coqueiros; a presença do mar que nos une ao continente africano; a labuta dos pescadores; o som dos instrumentos musicais; o sabor das comidas… tudo nos remete à África tão distante e ao mesmo tempo tão perto de nós. Axé!” (Rogério Andrade Barbosa é professor, escritor, contador de histórias e ex-voluntário das Nações Unidas na Guiné-Bissau)

“Através dos olhos do curioso Cadu, a escritora Alexandra Barcellos nos envolve nas histórias de Bantu, um vilarejo que nasceu como refúgio de escravizados africanos e de afrodescendentes. Essas histórias celebram a natureza e a luta pela igualdade e pela integridade humana, sempre nos apontando para a existência de diferentes formas de viver.

Livros como este, que valorizam as vozes das minorias, são imprescindíveis na educação e na formação de nossos jovens, pois nos brindam com um imaginário mais plural e nos convidam a ter mais solidariedade com a história e o presente. O leitor encontra um Brasil múltiplo nesta visão de poeta.” (Lauren Fraiz é historiadora)

Sobre a autora: “A Alexandra é daquelas pessoas que conquistam nossos minutos com sua companhia e simpatia. Amiga poeta e cheia de talento. Dona de um olhar apurado sobre a natureza, sendo capaz de transmitir esses sentimentos em sua obra. Em sua relação com o que existe no universo, encontra beleza nas pedras que transforma em mandalas e nas árvores que viram personagens atentos à sua história. É um encanto em vida podermos contar com tamanha sensibilidade e vontade de escrever. É um privilégio mandar letras para o papel em um mundo em que Alexandras existem.” (Felipe Belão é autor dos livros No lugar do meu pai, eu; Monólogos de menino; e Vitrine de sonhos. É professor universitário (PUC-PR e FAE), publicitário, blogueiro, especialista em Engenharia Econômica e Mercado Financeiro e Mestre em Administração Estratégica)

Livro: Cadu e as histórias de Bantu

alexandrapoeta@gmail.com

http://editorakazua.com.br/

Irmãos de Viagem

“Todos DIFERENTES… JUNTOS pelo mesmo… CAPOEIRA” (1)

A caminhada, a vivência, a história de cada capoeira… significa a luta e o esforço traçados durante sua árdua e longa jornada…

Valorizar o indíviduo não obstante de sua origem ou estilo em detrimento a sua escolha… é valorizar nossa arte… é perpetuar o verdadeiro significado da Palavra IRMÃO!!!

Durante esta caminhada tive o previlégio de também ser um IRMÃO…  um MALUNGO (Irmão de Viagem) (2).

Toda e qualquer iniciativa, seja ela qual for, desde que valorize a integração e a disseminação da nossa tão rica e multifacetada arte-luta sem o “vistoso manto das bandeiras” tem de ser vista com respeito e seriedade… tem de ser vistas com os olhos de ver… sob a ímpar e aliciante perspectiva da CIDADANIA (3).

Cada individuo que atua de forma a acrescentar algo neste universo tão complexo, dinâmico e vivo da nossa capoeiragem carrega com ele a responsabilidade de passar uma mensagem… de proferir uma “Vogal”… uma “Sílaba”… alguns destes indíviduos conseguem escrever na nossa audição… conseguem formar “Palavras”… “Frases”… e até densas e rebuscadas “Histórias”… que ficam pra sempre registradas e guardadas neste BAÚ da ORALIDADE que todo capoeirista respeita, acredita e trás consigo como um verdadeiro “tesouro”, repleto de pérolas e significados, guardando cada uma destas “Vogais”… “Sílabas”… “Palavras”… e “Frases”… , para fomentar e criar a sua própria “História”… a sua Jornada…

Algumas destas histórias estão repletas de mitos… de fantasias… de criações fictícias… frutos da “imaginação pré concebida” e até mesmo do incondicional amor por esta imensurável e perplexa CAPOEIRA.

Outras histórias são tão profundas…  embasadas… prolixas… Outras nos surpreendem pela beleza e simplicidade… algumas por devaneios loucos… tecendo uma complexa teia de informações dissonantes e as vezes até improváveis e cruas verdades…

Ainda existem “estórias”… contadas por aqueles que “gingam na roda dos saberes formais”… pesquisam, publicam… fomentam…. convidam para o banquete da constante busca pelo conhecimento…

Cada um destes “Tesouros” devem ser considerados de igual maneira… devem ser filtrados, analisados, digeridos, engasgados, vomitados e até defecados!!!

Cabe a cada um destes IRMÃOS de VIAGEM, cabe a cada MALUNGO construir, manter, organizar e cuidar do seu BAÚ… Valorizando cada pérola cada pedra… cada grão de areia que considerar coerente e importante para a sua História para a sua formação… para a sua Jornada…

 A escolha que fazemos é de nossa inteira responsabilidade e cabe a cada CAPOEIREIRO (4) partilhar esta BAÚ com os seus iguais contribuindo desta forma no emaranhado jogo do conhecimento e sua disseminação, pois segundo Mestre Decanio, a Capoeira é uma Escola de Cidadania.

“…nenhum homem se constrói homem sem a ajuda e interação de outro homem…” (5)

 

 

Referências:

(1) Referência aos Irmãos de Roda, interessante encontro de capoeira, que acontece todos os anos no mes de novembro, na cidade do Porto.

(2) Referência à CCM – Casa de Capoeira Malungos, Irmãos de Viagem, “celeiro de bambas” da capoeiragem Paulista na Decada de 90.

(3) Em Homenagem ao Mentor e Amigo, responsável direto pelo espírito do Portal Capoeira, Mestre Decanio.

(4) Em Homenagem ao Amigo e Parceiro de Capoeiragem Miltinho Astronauta e a sua forma ímpar de ver a nossa capoeira.

(5) Lev Semenovitch Vygotsky: Cientista e Pensador importante em sua área e época, foi pioneiro no conceito de que o desenvolvimento intelectual das crianças ocorre em função das interações sociais e condições de vida. 

Memórias de um cidadão-capoeira

O livro de Umói: Memórias de um cidadão-capoeira

No meio de centena de milhares de carros que disputam um espaço no meio da tarde de nossa Capital Federal, a Brasília de nossas vidas comuns, de nosso começo, no início da estrada em que ele também viveu e representa no seu livro.

Os carros loucos buscam uma passagem, uma brecha por onde se jogar, por onde encaminhar sua vida, seus anseios e sua cavalgada, no trote dos minutos rápidos que passam sob a neblina desses passos que damos sem notar…

Ali exatamente eu começo a me lembrar do livro Capoeira, provocando a Discussão, que  meu amigo/irmão Mestre Umói,  de Souza, lançado recentemente na calma serrana de Sobradinho, quase no anonimato da vida oficial do planalto central do Brasil e que eu já tive o privilégio até mesmo de ler a versão pré formatada, antes de sair da gráfica e agora recebo o exemplar que me foi destinado por seus discípulos, dias após a sua impressão, já que ele se encontra na sua nova terra, nas proximidades de Dusseldorf, na Alemanha.

Nesse burburinho eu me lembro da importante verdade que podemos encontrar na capoeira e que Umói retrata no seu livro, de que nós somos embevecidos de uma calma privilegiada…  os capoeiristas são pessoas que conseguem ser tranqüilos, embora vivendo no meio de uma série de competições estereotipadas das cidades, da vida comum das pessoas,  onde se disputam coisas estranhas, escrotas, feias e sem brilho, transformando o ser humano num arquétipo de coisa nenhuma que povoa os lugares-comuns.

Essa calma nos permite sair pela vida de uma maneira própria, colecionando pérolas que a estrada oferece para quem está com tempo para tal, para quem se presta e se empresta a essa jornada sem volta da vida, essa coleção de momentos eternizados na memória poética que habita os capoeiras, são rodas, são canções, são amigos, são momentos, são viagens, são pétalas de energia que são recolhidas com a calma dos caçadores de vida, num planeta já quase sem…

Nessa estrada que vai para um lugar incerto, ele não quer chegar em lugar nenhum, ele é qualquer um, é um de nós, é um Capoeira, seu caminho não tem fronteira, nem balela, tem o espírito que anda, como meu personagem favorito da infância O Fantasma, da revista em quadrinho que lia e relia mil vezes. Pelo caminho, na calma ele vai entoando os seus versos de poeta e de capoeira, com seu berimbau, em cada página, recheadas de alegrias e de tristezas, de beleza, de vidas que preencheram a sua vida. Umói respira o que o vento lhe traz em cada passo, celebrações e momentos cruéis são apenas paisagens de um guerreiro que sai vadiando pela vida, e rir ou chorar é parte da história, não há tempo para pausar a caminhada. O berimbau recomeça a próxima roda e a vida continua consumada em mais uma ladainha.

Ele partilha sua história de modo generoso e grato por tudo. Ele é um irmão de todos. É um de nós, como disse. De nosso mundo, valoriza as suas origens, sua história, sua cidade, seus amigos, seu povo, sua terra e seu bairro. É um exemplo da mais pura expressão de amor por tudo que se tem desse mundo e que brota no coração de quem ama o que faz. 

Egoísmo meu me sentir na história dele, na história da capoeira de Sobradinho, mas enquanto ele estava dando seus primeiros passos na Arte da Capoeira, eu também o fazia, somos contemporâneos do mesmo ano de 1974. Ele em Sobrado e eu no Plano Piloto, além de minhas próprias questões de órfão de mãe e pai, chegado a pouco do Rio de Janeiro onde aprendi bastante coisa, quando sai do interior de Minas e de lá pra Capital Federal, enfrentava o estranho vazio de povo, do que a vida de Umói era plena. Muito mais tarde eu descobri, quando fui para Fortaleza-CE, que a capoeira vem do povo, é dele, e não existe história verdadeira que não passe pelas aventuras e desventuras de um cidadão comum que virou capoeira.

No Plano as coisas ainda eram mornas para mim, só haviam as aulas e os eventos, não tinha a convivência de perto, do dia-dia com os camaradas da Academia. Local sagrado de conviver com bambas, mas ao sair porta afora a vida era outra, de trabalhador aprendiz da vida, as vezes a noite, mas sempre conciliando os deveres e a Academia Tabosa, a maior da cidade. Algum tempo depois, passados muitos anos, conheci Umói, já corda vermelha, por isso fui muitas vezes nos treinos no Bumba, nas rodas de sábado ou domingo. O lugar próximo a uma mata fechada era um convite para ir beber daquele axé maravilhoso, onde todos riam e brincavam de forma harmônica… Era maravilhoso ir lá, na Roda do União, rever e curtir pessoas como o Jeová, o Mariô, figura ímpar, única, eternamente ele só, na história de qualquer pessoa que o conheça.

A vida seguia em frente. Exatamente como conta o Mestre Umói. Os movimentos na Capital Federal eram cada vez mais intensos e os novos tempos acabaram por unir mais e mais a galera da periferia – no caso do DF, as cidades-satélites – aos capoeiras do Plano, forma resumida com que se entendia o Centro da Capital da República. 

Umói foi generoso também nisso. Compartilhou sua História com os daqui do Plano e de outras cidades-satélites, como ele frisa quando destaca sua admiração por capoeiristas que conviveu nos seus anos de aprendizado e de caminhada pelas estradas da Capoeira.

Depois dessa fase tão rica e envolvente, ele entra na difícil seara das verdades e inverdades, conversas fiadas, conversas sérias, parâmetros de autonomia dos grupos, esse modismo estranho que tenta pasteurizar a capoeira…

Umói debate e se debate com a falta de personalidade que assola os grupos de capoeira.

Ele desconfia de determinados modismos e das ideias que tenta definir os rumos da capoeira de acordo com os estereótipos e as verdades universais que as vezes se encontram nas práticas da capoeira.

Mais ainda, debate a questão internacional que envolve a capoeira na Europa, onde a cerca de 20 anos ele vive e professa sua arte.

Ele lembra certas premissas e condições inerentes ao aprendizado da capoeira, o idioma por traz e por dentro dessa arte. O aprendizado cultural brasileiro implícito na sua linguagem e todo desafio envolvido para que um estrangeiro se torne mestre da capoeira.

Livro Mestre Umoi

O seu debate vai bem longe. Vive dentro dessa questão. Conhece de perto em anos de convivência. 

Alguém pode até discordar de sua visão, mas nunca lhe negar a fala, a reflexão e deixar de levar em consideração suas questões. Ele sabe o que fala e o que pensa!

Umói demonstra sua indignação sem meias palavras. Tem sua tranquilidade em afirmar o que discorda e o que vê de deformação na capoeira. Tem a capacidade de transcrever com clareza sua percepção das questões da arte.

É um Mestre de Capoeira. Tem todo o direito de se manifestar.

Tem trabalho. Tem estrada. Tem credibilidade. Tem carisma. Tem as palavras que lhe saem mais do coração do que da mente! 

 

 

Waldeloir Rego e o seu “Capoeira Angola”

O livro Capoeira Angola, da autoria de Waldeloir Rego, e publicado na Bahia em 1968, é geralmente reconhecido como um livro fundamental para o estudo da capoeira.

 

Waldeloir Rego, reconhecido estudioso da cultura afro-baiana, nasceu no dia 25 de agosto de 1930, na cidade de Salvador, e faleceu na mesma cidade no dia 21 de novembro de 2001.

O seu Capoeira Angola, de 1968, é geralmente reconhecido como um livro fundamental para o estudo da capoeira. Infelizmente, não é fácil encontra-lo. Esgotada a esperança de ver Capoeira Angola — ensaio sócio-etnográfico reeditado pelo autor ou mesmo reimpresso, não podendo entregar cópia digital à comunidade devido à continuação dos direitos autorais, só podemos incentivar a procura em bibliotecas públicas colocando aqui um índice detalhado do livro e a conclusão (capítulo XVII. Mudanças Sócio-Etnográficas na Capoeira), esta na sua integra.

 

Mudanças Sócio-Etnográficas na Capoeira

Primitivamente a capoeira era o folguedo que os negros inventaram, para os instantes de folga e divertirem a si e aos demais nas festas de largo, sem contudo deixar de utilizá-la como luta, no momento preciso para sua defesa. As festas populares eram algo de máximo na existência do capoeira, era o instante que tinha para relaxar o trabalho forçado, as torturas e esquecer a sua condição de escravo, daí farejarem os dias de festas com uma volúpia inconcebida, pouco se lhes importando se a festa era religiosa, profana ou profano-religiosa. As procissões com bandas de música eram o chamariz para os capoeiras e, se tinham um pretexto para arruaças, faziam-no sem a menor preocupação de estarem perturbando um ato religioso. A propósito desses momentos, lembra Gilberto Freyre que:– “As vezes havia negro navalhado; moleque com os intestinos de fora que uma rede branca vinha buscar (as redes vermelhas eram para os feridos; as brancas para os mortos). Porque as procissões com banda de música tornaram-se o ponto de encontro dos capoeiras, curioso tipo de negro ou mulato de cidade, correspondendo ao dos capangas e cabras dos engenhos”. Vivia assim o capoeira em seu status social sem nenhuma simbiose com outro, capaz de modificar a sua estrutura.

[p. 360]

Com o passar dos tempos e cada vez mais crescente a sua fama de lutador e de implantar grandes desordens em fração de segundos, sem possibilidade de ser molestado, conseqüentemente ficando oculto, para quem estava a serviço, o capoeira passou a ser a cobiça de políticos. Serviria de instrumento de luta ora para a nobreza, que dava os seus últimos suspiros, ora para os republicanos, que lutavam encarniçadamente para obterem a vitória sobre o trono, daí os graves acontecimentos que abalaram o país, nos fins do século passado, já anteriormente estudados neste ensaio e registrados por Gilberto Freyre, ao fazer a história da decadència do patriarcado rural e o desenvolvimento do urbano. Com isso, a capoeira, um folguedo por propósito, começa a sofrer mudanças de caráter etnográfico, em sua estrutura — a luta que era um acontecimento passou a ser um propósito. Por outro lado, isso acontecia justamente num período em que a sociedade brasileira chegava ao auge nas suas transformações de base por que vinha passando e “com essa transformação verificada nos meios finos ou superiores, deu-se a degradação das artes e hábitos mestiços que já se haviam tornado artes e hábitos da raça, da classe e da região aristocrática, em artes e hábitos de classes, raças e regiões consideradas inferiores ou plebéias. Foram várias essas degradações; e algumas rápidas”. Como se vê, a capoeira, por uma determinação sociológica, não poderia estar imune a essas transformações.

[p. 361]

Esse estado de coisas veio se arrastando e se desenvolvendo até 1929, com o advento de Mestre Bimba, que tira a capoeira dos terreiros e a põe em recinto fechado, com nome e caráter de academia, onde os ensinamentos passaram a ter um cunho didático e as exibições possibilitaram a presença de outras camadas sociais superiores. Desse modo os quadros da capoeira passaram por modificações profundas. A classe média e a burguesia para lá acorreram, a princípio para assistirem às exibições e depois para aprenderem e se exibirem a título de prática de educação física, daí a 9 de julho de 1937 o governo oficializar a capoeira, dando a Mestre Bimba um registro para sua academia. Um status social superior ao dos capoeiras invade as academias e os afugenta. Os que resistem, por minoria, se esforçam para se enquadrarem no modo de vida do invasor, porém sendo tragados por ele, começando assim a sua alienação e decadência como capoeira. Forçando uma compostura de rapaz-família, exibem-se somente em recintos fechados, salões burgueses, palácios governamentais e jamais onde primitivamente se exibiam, como por exemplo nas festas de largo. Como já tive oportunidade de salientar, em virtude de nenhuma academia querer exibir-se nas festas populares, o órgão oficial de turismo municipal da Bahia convidou várias academias para comparecerem às referidas festas pagando-lhes as exigências. Então houve um cafuso, mestre de uma academia, que, ao saber da finalidade do convite, declinou, alegando ser sua academia freqüentada por uma casta já referida, não podendo misturar-se com o povo de festa de largo.

[p. 362]

Mas o agente negativo no processo de decadência da capoeira, sociológica e etnograficamente falando, foi o órgão municipal de turismo. Detentor de ajuda financeira, material e promocional, corrompeu o mais que pôde. Embora o referido órgão tenha por norma a preservação de nossas tradições, os titulares que por ele têm passado, por absoluta ignorância e incompetência, fazem justamente o contrário, direta ou indiretamente. Lembro-me bem de presenciar um deles interferir na indumentária das academias e os seus responsáveis acatarem pacatamente; e infeliz do que não procedesse assim — estaria banido da vida pública para sempre. Houve época em que as academias eram fantasiadas como verdadeiros cordões carnavalescos, cada qual disputando cores mais berrantes e variadas em suas camisas e calças. Já falei também de um mestre de capoeira que foi consultar um dos diretores de turismo da possibilidade de colocar número nas costas de seus discípulos, como se fossem jogadores de futebol, mas que em boa hora o bom-senso baixara na cabeça do referido diretor, proibindo terminantemente. O fato é que, quanto mais palhaçada faz a academia essa é a preferida do órgão público. No momento em que escrevo este ensaio existe uma academia com amparo financeiro, material, promocional e ainda com direito a se exibir no próprio Orgão, até muito tempo com exclusividade, em detrimento de outras, porém hoje apenas a coisa é mascarada com a presença de uma outra, quando em realidade o órgão não deveria promover exibições dessa espécie, em seu próprio e sim escoar os turistas para as diversas academias. Pois bem, essa academia, que por sinal possui um grande mestre e excelentes discípulos, está totalmente prostituida. Com a preocupação de não perder o ponto, em detrimento de outra, a dita faz misérias, em matéria de descaracterização. A certa altura da exibição, o mestre perde a sua compostura de mestre, diz piadas, conta anedotas, faz sapateado com requebros e apresenta alguém para fazer um ligeiro histórico da capoeira, onde as maiores aberrações são ditas. Depois faz um samba de roda ao som dos instrumentos musicais da capoeira, vindo para a roda sambar, cabrochas agarradas de última hora, passista de escola de samba ou profissional amigo do mestre, que por acaso aparece no local. De certa feita, perguntei-lhe o porquê daquilo, ao que me respondeu que era pra não ficá monoto (ele queria dizer monotono) e o turista ir-se embora. A grande lástima é que essas coisas continuam a ter a cobertura oficial.

Lamentavelmente, o quadro atual das academias de capoeira é esse, variando apenas a intensidade das mudanças sociológicas, etnográficas e o grau de decadência. Nos bairros bem afastados, longe das tentações ventiladas e também talvez porque jamais tenham acesso a elas, existem capoeiristas que praticam o jogo apenas por divertimento, no maior estado de pureza e conservação possíveis e enquadrados no seu status social.

 

Waldeloir Rego
Capoeira Angola – ensaio sócio-etnográfico

 

Rego, Waldeloir, Capoeira Angola – ensaio sócio-etnográfico,
Editora Itapoan, Salvador, 1968 – Obra publicada com a colaboração da Secretaria de Educação e Cultura do Governo do Estado da Bahia. In-8.vo de 400 páginas. Ilustrações de Hector Júlio Paride Bernabó (Carybé).

 

Fonte: http://www.capoeira-palmares.fr/