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A Pedagogia do Jogo na Capoeira

A Pedagogia do Jogo na Capoeira

Dentre as diversas potencialidades da capoeira no âmbito educativo, destacaremos algumas de suas possibilidades tomando como foco principal o jogo, evidenciando traços de interlocução com africanidades e a formação humano no espaço escolar.

Aprender fazendo

A capoeira nos ensina que todo aprendizado deve emergir de uma experiência vivenciada, ou seja, a perspectiva eurocêntrica do aprendizado por abstração intelectual, que nos foi apresentada na escola, não atende as necessidades funcionais da arte, pois não consegue dar conta das subjetividades pulsantes de se aprender a tocar tocando, cantar cantando, jogar jogando, e de todo o fluxo interativo de um aprendizado vivo e significativo.
Valorização do mais antigo

Socialmente fomos adestrados a encarar a pessoa mais velha como um fardo social, algo inútil, pois sua capacidade produtiva e de gerar renda estariam em franco declínio, ledo engano, pois a capoeira nos ensina que sem o mais antigo não existirá continuidade de construção do conhecimento, pois perderíamos o acesso a todo acumulo de experiências destes indivíduos. Desta forma, na roda, o mais experiente é sempre o mediador dos processos, cabendo a ele a responsabilidade da garantia da construção do novo, estando este adaptado as necessidade conjunturais de cada tempo, sem contudo, perder de vista a conexão ancestral com os fundamentos estruturantes da arte.

Perder e ganhar

Na capoeira aprendemos que o ganhador não será necessariamente aquele que anula o outro, pois o jogo nos ensina que a verdadeira vitória só surge pelo signo da dupla, ou seja, o vencedor sempre será aquele capaz de deixar o parceiro sem respostas para suas perguntas e ainda ansioso e capaz de continuar tentado responder, pois é preciso vencer em franco fluxo da dinâmica do jogo, ganhando não aquele que finaliza o outro, mas sim aquele que mantem o outro em atividade e com a crença de que poderá vencer.
Com certeza, para muitos, é difícil entender a explicação acima, pois fomos educados a pensar em uma única perspectiva de competição, aquela que para garantir a vitória precisa anular e/ou subjugar o oponente da peleja, pois esta é a lógica do sistema capitalista, privilegiando um em detrimento de todos os outros, matando a noção de comunidade e construção coletiva para o bem comum.

Respeito as diferenças

Vivemos em um mundo que tenta a todo o momento nos enquadrar, criando padrões que facilitem o controle e nos tornem presas fáceis do consumismo, e a escola não tem, historicamente, fugido a esta lógica, pois diversos são os elementos que homogeneízam os indivíduos e tentam anular as diferenças em seu cotidiano.
Na roda de capoeira ser diferente é condição primordial, pois só poderemos constituir uma boa dinâmica, na medida em que pessoas diferentes possam executar funções diferentes, alguns tocando, outros cantando e uma dupla jugando, ou seja, a diversidade é o catalizador de aprendizado pela complementariedade que o outro, diferente de mim, poderá aportar para resolução de problemas que auxiliarão a todos daquele contexto. Desta forma, a roda de capoeira funciona como uma metáfora da roda da vida, explicitando que os diferentes são complementares para o bom andamento da dinâmica social.

O corpo como registro do saber

O nosso corpo foi historicamente negligenciado como repositório de um saber ancestral, pois o mesmo sempre foi tido como uma espécie de simples suporte para sustentar o intelecto, ou seja, um corpo para suor e músculos, como sustentáculo de uma cabeça, única responsável para construção do conhecimento. Neste sentido, crescemos com a ideia equivocada de subutilização da corporeidade como estratégia de construção do saber, negligenciando as potencialidades do movimento na pedagogia para emancipação humana.

Em capoeira aprendemos que o corpo pensa e fala por seus movimentos, interpretando realidades, expressando sentimentos e trazendo encaminhamentos para os diversos conflitos de uma dada comunidade, pois este corpo passa a ser entendido como um repositório de experiências educativas, como uma espécie de biblioteca ambulante, ratificada pela difusão de conhecimento a partir da simples observação de um grande mestre jogando.
Diversos são os exemplos de interlocução do jogo da capoeira com os processos educativos formais, portanto, acima destacamos apenas alguns, contudo, estes só terão a eficácia desejada no chão da escola, na medida em que esta se transforme numa espécie de extensão da própria comunidade, contextualizado conteúdos e atuando de forma fluida e dinâmica em favor dos anseios de cada tempo histórico.

Sonhamos com a capoeirização da escola, pois estamos cansados da inoperância transformadora da escolarização da capoeira.

 

Mais sobre: Mestre Jean Pangolin

 

 

MUITO ALÉM DE… ESPORTE !

MUITO ALÉM DE… ESPORTE !

 

“Era a arma utilizada
pelos negros desnutridos…
contra branco forte, armado,
o Negro é bem sucedido”!
(trecho de ladainha / anos 70)

 

Por mais estranho que pareça, a Capoeira é vista por quase todos como Folclore — e não esporte ! — mesmo que de forma inconsciente, intuitiva. Artes Marciais antigas como Judô, KungFu, Karatê, carregam uma essência, uma mística do Passado dentro de si. Nossa Capoeira a tem de sobra, as raízes africanas continuam presentes e sua Música e canto grupal acentuam isso. Futebol tem 2 séculos, corrida e natação vêm de gregos e romanos, são milenares, mas sem carisma. Felizmente a Capoeira encerrou sua fase de “conquista de territórios”, abrindo Grupos de qualquer maneira em muitos lugares ou com professores medianos. Chega de amadorismos, a Dança-Luta está no Mundo inteiro e não pode se dar ao luxo de ser mal-vista ou desdenhada como “coisa menor”, “de quem não tem o que fazer”… nos disse um prefeito evangélico em 1989, em nosso município, quando lhe pedi ajuda.

 

Esportes têm regras — muitas delas — e a Capoeira também, por parte de Federações… segundo meu irmão, falando para um jornal de Belém em 1987, “as regras da Capoeira acabam quando começa o jogo”. A frase é “maldosa”, embora naqueles tempos até fizesse sentido ! “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”! Hoje professores e mestres dela precisam estar atentos, não há mais leigos a assistir suas apresentações, todo mundo agora conhece os rudimentos da luta. Eventos e shows exigem os melhores, aluno iniciante é só para completar a Roda, o círculo. Canto e toques devem estar “nos trinques”, o berimbau é o elemento soberano, nada de “estapear” o pandeiro ou “socar” o atabaque, para que seja ouvido na lua.

 

Há na platéia pessoas com noções de canto e música, observando o andamento do show e as falhas, quando houver. Quem canta, mantenha sempre o ar nos pulmões para a voz não sair ríspida, seca, desagradável. Palmas firmes, “respostas” vivas, a fim de que o mestre não tenha que passar pelo vexame de intimar… “abre a boca, gente”! Tudo isso é Passado, Capoeira agora tem que ser excelente, é o que o público espera dela !

 

Nessa busca pela modernidade como ficam os símbolos ? Dormem “em berço esplêndido”, criados a 30 ou 50 anos atrás por professores, “treinéis” e mestres “paus para toda obra”, que tinham que fazer TUDO no Grupo, desde pintar as paredes do local de treinos até… criar e DESENHAR o símbolo. Daí termos ainda hoje verdadeiros “garranchos” como símbolos. É hora de mudar, capoeiristas jogam, desenhistas desenham ! Quem quizer algo mais exclusivo faça uma foto posada do movimento e leve-a a um bom desenhista. Programas de computador já “transformam” foto em desenho… quer fazer isso você mesmo ?! O caminho mais simples é XEROCAR sua foto, ampliada. Se conseguir papel carbono tanto melhor, seu desenho sairá completo na página por baixo da risca, a ampliação original. Marque na xerox somente as partes escuras, vá circundando essas partes negras. Use fita DUREX para manter bem unidas as 2 folhas, a de baixo em branco. Terminou ?! Aí está em tamanho grande o novo desenho do Grupo, a partir da tal foto… você tem apenas traços, “riscos”, se quizer sombra e cores terá que acrescentá-las. Fiz um “esboço” a partir de foto colorida de um cantor, poeta e cordelista mineiro, “Zé Ribeiro”, que “baixei” do Facebook. Para inverter “vire o carbono” ao contrário ou use os recursos do próprio PAINT, program do WINDOWS.

 

A “quadriculação” da foto original é o caminho mais curto… aumenta-se os quadradinhos no papel de reprodução da imagem.

 

MUITO ALÉM DE... ESPORTE ! Publicações e Artigos Portal Capoeira

 

De minha parte, insisto: é preciso “quebrar a estética” do símbolo redondo, que soa antigo, pouco criativo. Mesmo que seja mantido, é possível modernizá-lo, embora hajas resistências. Em junho/1988 fizemos meu irmão e eu um concurso aberto entre os “capoeiras” de Belém para eleger o símbolo do nosso Centro Cultural – CCCP. Além de nós, só 2 desenhos externos, entre êles o vencedor, mal desenhado mas com o mapa do Pará (e colorido !). Usando as vantagens da xerox em colagens criativas a partir de fotos de Rodas e movimentos — com os rostos de Pastinha ou de Bimba — fizemos 13 desenhos, muito mal votados, por sinal. (Cada pessoa presente podia escolher 3 desenhos e venceria a obra com mais pontos.) Recusaram quase todos os meus 10 desenhos, dos 3 de meu irmão o REDONDO teve mais votos e um “bairrismo” tolo falou mais alto, premiando a bandeira do Estado sobre o mapa, com 2 “capoeiras” em cima. É a Vida !

 

“NATO” AZEVEDO (em 25/jan. 2019)

…TERIA SIDO SONHO ?!

 …TERIA SIDO SONHO ?!

“YÊ, ‘TAva lá em CAsa, sem
penSÁ nem ‘MAgiNÁ… (…)
ISso pra MIM é conVERsa
pra viVÊ sem TRAbaIÁ” !
me. PASTINHA (trecho de LP)

Quando ouvi o disco de depoimentos de mestre Pastinha pela primeira vez — por volta de 1972, eu acho — na casa do exímio jogador de Capoeira “Rubinho” (“nasceu pra la”, diria Vicente Ferreira !) pensei ser cantado em gêge ou yorubá, nem percebi que era em Português. Foi preciso que o depois “Tabajaras” “me soletrasse” o que estava sendo cantado. Rubinho sabia muitos toques de Berimbau, tinha facilidade para aprender as coisas nessa área de percussão e canto, andou frequentando um “centro de macumba” na Ladeira — na época, “Centro Espírita”, a Umbanda era mal vista !– onde tocava atabaques, muito bem por sinal, como “ogan”. A partir deles entendi que qualquer sujeito pode até não ser um grande professor desta Dança-Luta, mas tem obrigação de dominar a parte musical que a mantém enquanto folclore,,, isso é o mínimo que a Capoeira exige !

Nesses tempos eu frequentava o Grupo Senzala, de mestre “Peixinho”, como curioso, acompanhando “Rubinho”, que lá treinou por um período, por volta de 1974, calculo. Alguns sábados à noite voltava para assistir a Roda de bambas da Zona Sul, todos conhecidos por “Peixinho” e gozando de sua hospitalidade e gentileza. Um “gentleman”, MARCELO AZEVEDO jamais fechou as portas de sua Academia para quem quer que fosse, jamais questionou o fato de eu ficar ali, sentado num canto hora e meia, só observando. Isso é o “terror” de alguns, mestres medíocres que sequer merecem o título.

...TERIA SIDO SONHO ?! Capoeira Portal Capoeira

De Peixinho só belas lembranças… Deus sabe o que faz mas, por vezes, leva os melhores para sentar ao Seu lado no Céu. “Peixinho” esteve em Belém graças ao então contramestre Luís Carlos por volta de 2005… a mesma e eterna simplicidade, título e importância não lhe subiram à cabeça, contudo “não ensinou aqui” sua entrada “de tesoura” (ou “vingativa”) na “meia lua” alheia nem o “aú duplo” no mesmo lugar, exclusividades suas. Também tinha um “giro em pé”, braços abertos feito Cristo Redentor, mas como vi “Camisa” usá-lo quase na mesma época, não posso afirmar que foi “invenção” dele.

Ainda como praticante pouco esforçado no “CÉU” — Casa do Estudante Universitário, no Flamengo — vi mestre “Camisa” em ação várias vezes… levei caderno e lápis para tentar reproduzir alguns dos seus movimentos, em vão. Enquanto “rabiscava” perdia momentos geniais dele, isto por volta de 1974, talvez meados de 1975. Enfim, o Destino nos deu oportunidade de comprar pequena filmadora, com rolinho de 5 minutos, na bitola Super8. Adiante, adquirimos um miniprojetor, que “lixava” a fita, estragando-a em pouco tempo. Entretanto, conseguimos registrar esses 2 ASES da Capoeira carioca na sua melhor fase, no auge de sua forma física e técnica, provavelmente em 27 de setembro de 1975, na “Caixa d’Água” (em Santa Teresa ou Cosme Velho)e em 77… segundo meu irmão, seria em 1976 e 77.

Remontados precariamente, os 8 ou 12 rolinhos de 5 minutos fizeram um registro sem igual do Grupo SENZALA na época, quase todo êle em peso, com a presença de um certo Caio, de São Paulo, isto em 1977. A fita “viajou” por 3 MIL KMs sobre o mar e graças ao mestre “Guará”, em Paris, voltou com qualidade suficiente (em 3 partes) para ser admirada. “Camisa” e “Peixinho” juntos, mais o “meteoro” mestre “Lua” — que só se via a cada 2 ou 3 anos — todos mantendo viva a aura de excelência do Grupo SENZALA.

 

Capoeiragem no Rio de Janeiro dos anos 70 parte 1

 

Afinal, onde entra o SONHO nessa estória ?! Explico já: me vejo numa tarde sentado ao lado do então “Camisinha”, por volta de 1974 suponho, numa das “torres” abandonadas do prédio do CÉU. Êle preparava os berimbaus de um Batizado à noite, provavelmente um sábado. Não comeu nem bebeu nada até o fim da festa, lá pelas 22 horas… naquele os mestres torciam as cordas das graduações, entregues DE GRAÇA conforme o merecimento de cada um. “Camisa” andava só na época, não dava espaços para intimidade de aluno nenhum, nem os mais graduados. Como se explica que eu — tímido e reservado — estivesse ali, inútil, sem sequer cortar pneus : “Teria sido um sonho”? Êle nunca soube, mas na época criei um enredo de filme com êle (ao estilo “Bruce Lee”, seu ídolo, tenho certeza !) bem antes do filme “Cordão de Ouro”, no qual meu irmão gêmeo “Leiteiro” atuou por 10 segundos. 

Falando nisso, é com “NESTOR Capoeira” a outra parte do tal “sonho”… estou num casarão antigo, bela fogueira no varandão e o Rio iluminado lá embaixo. Seria Santa Teresa ? Há “capoeiras” antigos  novos circulando por ali… Nestor se aproxima e me diz que “canto bonito” !” E agora, José ? Eu não me atreveria a cantar ali, nem que me pedissem ! Não havia Roda alguma talvez nem berimbau… parecia ser aniversário de alguém importante na Capoeira ! Infelizmente, essa Internet de “ratos” e pilantras cria um monte de perfis FALSOS e ficamos sem ter certeza se o do “CAMISA” e os 3 com o nome de “NESTOR CAPOEIRA” seriam verdadeiros.

Vou continuar em saber se… “teria sido SONHOS” ?!

 

“NATO” AZEVEDO (em 21/jan. 2019, 15 hs)

MESTRE MOA DO KATENDÊ: UMA VITIMA DO EXTREMISMO

MESTRE MOA DO KATENDÊ: UMA VITIMA DO EXTREMISMO

Texto: Jeferson do Nascimento Machado

Este texto, escrito em um momento de consternação, como não poderia deixar de ser, está carregado de emoções (o presente artigo foi elaborado para um compêndio intitulado Brasil Nunca Mais, organizado pela Frente Popular – São João do Triunfo). Tenho ciência disso. No entanto, o emergir da violência no país, que se desdobrou – entre outros tantos crimes políticos – no assassinato de mestre Moa do Katendê (Romualdo Rosário da Costa), aponta para uma necessidade de tomarmos posições frente ao que vem acontecendo, buscando equacionar os acontecimentos, numa perspectiva progressista, e apontar caminhos melhores que estes que os reacionários nos oferecem.

Assim sendo, busquei realizar uma reflexão a partir do crime brutal que vitimou Moa, de modo que possamos compreender a dimensão histórica e social do ocorrido. Para isso, me amparei em uma bibliografia criteriosamente selecionada acerca da capoeira, bem como em fontes variadas, como portais de notícia, fontes orais, jornais e revista (que estarão referenciadas junto com as bibliografias deste compêndio).

O assassinato de Moa repercutiu e continua a repercutir, sendo divulgado nos mais variados portais de notícias, nacionais e internacionais. Sua morte levou muitos capoeiristas, grupos culturais e políticos, bem como grande parte da sociedade civil organizada a realizarem uma série de eventos, atos e protestos contra o crime. Também aconteceram homenagens de vários artistas, como Caetano Veloso e Chico Cezar, que gravaram, cada qual, uma música em homenagem ao Mestre Moa. Roger Waters, ex-integrante da banda inglesa Pink Floyd, fez emocionante discurso sobre ele em show na Bahia. Além do mais, a sua morte levou algumas alas da periferia a se organizarem frente ao que se instala no país. Exemplo disso, está sendo a criação dos Comitês Mestre Moa do Katendê, por todas as periferia do país, iniciado pelo rapper G.O.G (Genival Oliveira Gonçalves). Toda esta rede de ações pragmáticas e discursiva, criadas em volta de Moa, parece apontar que a sua morte, longe de ser algo isolado e distante, está totalmente enraizada ao social, catalisando sentimentos e produzindo ações. A dimensão social do ocorrido ultrapassa o próprio evento – junta-se a outros tantos crimes, de hoje e de ontem, cometidos contra o negro, contra os trabalhadores e todas as minorias em poder – e produz redes de consciências que podem despertar as classes menos favorecidas.

Dito isso, vamos adentrar na biografia deste mestre. Romualdo Rosário da Costa, o Mestre Moa, foi um dos grandes mestres de capoeira e divulgador da nossa cultura popular. Ele nasceu em Salvador (BA) no dia 29 de outubro de 1954 e conheceu suas raízes aos oito anos, aprendendo os primeiros movimentos de capoeira. Com seus 16 anos Moa começou a trabalhar em grupos folclóricos como o “Viva Bahia” e o “Katendê”. Foi uma pessoa essencial para a difusão da cultura afro-brasileira pelo sul do país, sendo responsável pela introdução da dança afro no Rio Grande do Sul.

Em 1985 Mestre Bobó formou Mestre Moa do Katendê, que deste então passou a ensinar a capoeira no Espaço Clube de Regatas Vasco da Gama. Mas ainda antes dele ter sido formado mestre, ele já tinha construído uma grande carreira no campo cultural. Assim foi que no ano de 1977 ele veio a ser campeão do Festival de Canção Ilê Aiyê, primeiro bloco afro do Brasil. E em 1978 a fundar o Afoxé Badauê, que veio a ser campeão do desfile de 1979, na categoria de afoxé. Em sua vida ele foi compositor, dançarino, ogã-percussionista, artesão, educador e capoeirista.
Sobre a capoeira, Moa costumava dizer que ela abriu sua mente “para o entendimento de liberdade, de irmandade, de companheirismo, de respeito ao próximo, de respeito ao mundo, respeito à natureza, principalmente”. Em suma, a capoeira fez ele ter um olhar à esquerda sobre social e sobre a própria natureza. E foi este olhar que fez dele um constante guerreiro na luta contra a opressão, inclusive aquela da Ditadura Militar (1964-1985). Os militares daquela época chegaram a lançar bombas em um de seus ensaios, no Bonfim.

Este atentado contra Moa e seus outros colegas de ensaio, revela a parte de uma perseguição antiga, histórica, da burguesia brasileira sobre o negro, sobre o capoeira, sobre o trabalhador. Porém, mesmo com a perseguição, Moa nunca parou de lutar, prosseguiu engajado nas lutas sociais até o dia 7 de outubro, quando foi violentamente assassinato.

A perseguição a capoeira esteve assentada, ao longo de sua história, na luta de classe. E essa perseguição foi constante, os poderosos não descansaram um só dia no intuito de eliminar a capoeira. E quando notavam que era impossível, tentavam domesticá-la (ainda tentam até hoje). No entanto, ela sobreviveu a escravidão, a Ditadura e continua atuante nas periferias, nos becos, nas vielas e cortiços.

A origem da capoeira é carregada de polêmica, dividindo capoeiristas e intelectuais, que cada qual, a seu modo, busca dar uma versão sobre seu surgimento. Todavia, no âmbito historiográfico, foi Eugênio Soares que deu a melhor versão para o estado embrionário da capoeira. Para ele a capoeira foi uma prática urbana, exercida por escravos (sobretudo os de escravos de ganho) que, no todo, constituíam-se de homens, jovens e da África Centro-Ocidental. Muitos outros intelectuais concordam com Soares de que a capoeira tenha sido criada no Brasil, pelos africanos. Dessa forma, a capoeira é uma prática afro-brasileira, ou seja, ela foi criada no Brasil por africanos escravizados e se desenvolve sob influência de todo o caldo cultural do século XIX e XX.

João da Matta, que é psicanalista e usa da capoeira como ferramenta terapêutica, entende que a capoeira surgiu como resposta contra o colonizador europeu, servindo como instrumento de luta contra a escravidão e a repressão policial. E foi assim que ela veio se construindo ao longo da história, formando laços de companheirismo entre a classe oprimida.

No entanto, mesmo sendo fato que a capoeira foi criada por trabalhadores escravizados, a burguesia sempre buscou chamar ela de uma prática de vadios, desocupados. Se olharmos para os jornais antigos da Bahia, por exemplo, nos depararemos com os ritos de carregar peso – que eram realizados pelos trabalhadores de rua – conviviam com a capoeira, sendo que o cancioneiro da capoeira bebeu nos cantos do trabalhador de rua e estes se utilizava da capoeira em momentos conflituosos ou lúdicos. No geral as fontes revelam que os capoeiras, mesmo depois da escravidão, continuavam a exercer as profissões antigas mostrando certa continuidade de posição, desta forma eles continuaram a viver de ocupações esporádicas e intermitentes: estivadores, carroceiros, peixeiros, engraxates, pedreiros, chapeleiros, etc.

E foi o fato da capoeira ser uma prática cultura da classe trabalhadora que fomentou, desde muito cedo, o engajamento desta prática com as alas mais progressista da sociedade. Afinal, trabalhadores e grupos de trabalhadores, são impelidos pela dinâmica da própria luta de classe, que se assenta no modo de produção capitalista, para organizações que expressem seus anseios e ofereçam chaves interpretativas da realidade, para que assim suas ações se aperfeiçoem.

Assim sendo, aqui damos atenção para os partidos e organizações políticas, na percepção de que elas expressam as classes e frações de classes e que, portanto, também atraem os trabalhadores, bem como os organiza e é organizada por eles. Este engajamento da capoeira a partidos, pode ser encontrado ainda no século XIX, embora naquele momento a consciência dos capoeiristas, assim como da própria elite, estivesse totalmente fora do lugar. Esta deturpação da realidade, nascia pela tentativa da elite em reproduzir o mundo europeu dentro da realidade brasileira, que era totalmente diversa daquela. Esta deturpação da elite afetava a própria ação dos trabalhadores, que naquele momento ainda se encontravam na condição de escravos. Esta deturpação produzia partidos fora do lugar, como o Partido Conservador e Partido Liberal, nos quais muitos capoeiristas se reuniam em maltas, onde lutavam. Os Nagôas, que eram africanos ou descendente vindos da Bahia, ocupavam a Pequena Africa, apelido dado aos arredores da Praça XI, um dos limite do Rio de Janeiro. Eles declaravam apoio a monarquia, que era representado pelo Partido Conservador e identificado com o movimento abolicionista. Os Gaiamuns já eram uma malta que se identificava com os mestiços. Eles ocupavam o centro da cidade e estavam aliados ao Partido Liberal, que tinha identidade com ideais republicanos.

Passado o século XIX, os capoeiristas passaram a se organizar junto alas de maior clareza, e de caráter realmente progressista. E isso já pode ser visto em Mestre Pastinha, que durante toda sua vida, foi próximo dos membro e militantes do Partido Comunista, chegando a ter como amigo pessoal, o comunista Jorge Amado, escritor que dedicou bastante à divulgação da capoeira, a partir da literatura, sobretudo da capoeira Angola. Pastinha chegou mesmo a dar aulas no Centro Operário, o que o aproximou ainda mais dessa ala progressista. Além disso, também foi próximo dos anarquistas, que se expressa em sua aproximação com Roberto Freire, que mais tarde criaria a Somaterapia, que tratava-se da união da psicanálise desenvolvida por Wilhelm Reich, do anarquismo e da capoeira angola.

Em momentos conturbados, como foi o caso da Ditadura Civil-Militar(1964-1985), a capoeira se fez presente na luta e houve constante perseguição aos capoeiristas que se recusaram a seguir as normas impostas. O Grão Mestre Dunga, praticante da Capoeira de Rua, chegou a ser preso por estar tocando berimbau na Praça Sete, em Belo Horizonte. Ele narra que “a capoeira de rua sofreu repressão e perseguição, considerada como atividade subversiva pelo governo militar” e que ele “foi recrutado pelo exército, na década de 70, quando resistia e alimentava, às escondidas, os universitários presos durante as manifestações estudantis”.

Também Mestre Djalmir, em depoimento a Identidade Cultura TV narra a sua experiência durante a época da repressão em São Gonçalo, dizendo que “[…] era uma época forte da repressão da Ditadura, que não queria aceitar o capoeirista […] então fui obrigado a correr muito. Aquela época se você tive jogando a capoeira num determinado lugar, todo mundo nem perto queria passar […] olhava com medo e se por acaso algum militar chegasse, ai a gente tinha que correr […]. Mestre Djalmir chegou a ser preso duas vezes por causa de capoeirista.

Outros capoeiristas, como o Mestre Arraia, considerado precursor da capoeira em Brasília, foi atuante junto aos movimentos contrários a Ditadura Militar. Entre esses capoeiristas que lutaram contra o regime, ainda poderíamos citar o jovem capoeiristas e estudante de direito, Caio Venancio Martins, que foi integrante do Movimento Estudantil da USP e que foi considerado perigoso em documento do DOPS por praticar capoeira, sendo preso e sumido pelos militares. Devemos lembrar que o próprio Carlos Marighela foi capoeiristas, chegando a utilizar da capoeira para resistir a uma prisão.

Além disso, vale notar que o ativismo não se limitou aos sujeitos isolados, mas também se manifestou em grupos e associações de capoeira, como foi o caso da Associação Cultural Corrente Libertadora, que estabeleceu fortes diálogos como movimento sociais, tornando-se ferramenta de intervenção política no período da Ditadura Militar, tendo dado a sua contribuição para a criação do PT (Partidos dos Trabalhadores). Assim sendo, a capoeira criou uma relação histórica com esse partido progressista, tendo fortalecido a relação quando a capoeira foi reconhecida pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 20 de novembro de 2008, como Patrimônio Nacional e como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, em 26 de novembro de 2014.

Outro grupo importante nessa resistência, foi o grupo de mestre Anande das Areias. Este mestre foi para São Paulo após treinar em Itabuna, como o jovem Luís Medicina, a pedido de Mestre Suassuna, que era líder do grupo. Ali se estabeleceu e passou a dar aulas. Suas aulas começaram a chamar atenção, sobretudo dos estudantes universitários. Areias veio a ser preso por essa relação com os universitários da época, que estavam engajado na luta contra a ditadura. Na prisão foi que ele teve contato com os intelectuais de esquerda, os quais transmitiram seus conhecimento. Quando Areias saiu da prisão, ele rompeu com seu antigo mestre e fundou o grupo Capitães d’Areia, que se propunha trabalhar a capoeira enquanto instrumento de libertação para os grupos oprimidos.

Desta forma, podemos dizer que a capoeira, construída na arena da luta de classe, acumulou experiências que foram sendo transmitidas pela tradição oral e pela estética das rodas de capoeira, sendo assim interiorizada pelos capoeiristas, funcionando como esquemas mentais de classificação e ação diante a sociedade com que se defrontam. E foi isso que levou a muitos capoeiristas a terem uma posição clara quanto o Golpe de 2016, vindo a participarem de vários atos contra o Michel Temer e a retirada da então presidenta Dilma Rousseff, que podem ser encontradas nos mais variados portais de notícias.

Em continuidade e coerência com o caráter emancipatório da capoeira, também Mestre Moa do Katendê se posicionou à esquerda, neste momento conturbado da história. Este posicionamento acarretou em sua morte, porém ele morreu enquanto individuo, mas sobrevive enquanto classe emancipadora.

Este crime soma-se a outros, como o feminicídio da vereadora Marielle Franco, que até o momento ainda não foi resolvido; ao atentado a caravana do ex-presidente Lula, aos ataques ao acampamento situados nas proximidades da Policia Federal, local onde se encontra o ex-presidente; além de tantos outros caso de violências. Dessa forma, notamos que o assassinato de Moa se insere num quadro de violência, que vem sendo orquestrado pela ala reacionária da sociedade, que aproveita-se de um momento de crise para encarnar sua ideologia no social, produzindo verdadeira milícias.

Assim sendo, estes acontecimentos expressam parte da luta de classes atual. A esquerda tem escolhido o caminho do pacifismo, da não agressão. Enquanto isso, a extrema direita escolheu o caminho radical. E cada dia ela aumenta o grau de violência, sistematiza e amplia seu poderio sobre as massas.

Visto isso, antes de encerrarmos este texto, voltemos a Itália do dia 16 de maio de 1924, momento em que o deputado Gramsci faz um discurso histórico contra Mussolini. Nessa época Mussolini já estava ocupando o cargo do Conselho de Ministros e resolveu encaminhar ao parlamento italiano o projeto de lei para “disciplinar a atividade das associações e institutos”, ou seja “acabar com os ativismos”. Gramsci, que era deputado, se opôs totalmente ao projeto, desmascarando a lei, demonstrando que era antidemocrática e que o fascismo buscava a implantar uma ditadura naquele país. Mussolini ficou profundamente irritado e rebateu, definindo o fascismo como “revolução”.

Porém, “Gramsci retrucou dizendo que o fascismo não era uma revolução, mas uma ‘simples substituição de um pessoal administrativo por outro. Só é revolução – acentuou – aquela que se baseia em uma nova classe; o fascismo não se baseia em nenhuma classe que já não esteja no poder’. Mussolini voltou à carga, procurando descaracterizar o conteúdo de classe do fascismo e protestando: ‘Grande parte dos capitalistas está contra nós!’. O deputado oposicionista não se perturbou, e observou que o fascismo só entrava em choque agudo com os outros partidos e organizações da burguesia […] porque queria estabelecer o monopólio da representação da classe. A atitude do fascismo com relação aos demais partidos burgueses era simples: “’primeiro lhes quebra as pernas e, depois, faz o acordo com eles em condições de evidente superioridade’. Mussolini não gostou da referência à violência dos fascistas, retrucando que esta violência equivalia a dos comunistas. Gramsci lhe respondeu: ‘A vossa violência é sistemática e é sistematicamente arbitrária, porque vós representais uma minoria destinada a desaparecer’”.

E assim como na Itália daquela época, estamos hoje no Brasil. Algo semelhante ao fascismo surgiu nas nossas terras tropicais e, da mesma forma que lá, cada dia que passa, torna-se mais violenta, sistematiza-se e se instala no âmbito social. O Brasil se encontra em uma grande encruzilhada, que não sabemos para onde vai. Por isso, esperamos que este conjunto de crimes políticos, sirvam de alerta para um perigo que se avizinha, no qual qualquer um de nós pode vir a ser vítima.

Mestre Moa, presente!

 

Texto: Jeferson do Nascimento Machado

email: jeferson075@gmail.com


REFERÊNCIA

AGÊNCIA BRASIL. Em salvador, crianças recebem cartilha sobre momento político atual. Disponível em: <http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2016-05/em-salvador-criancas-recebem-cartilha-sobre-momento-politico-atual>. Acesso em: 09 ago. 2017.
ANDRADE, Jefferson de; SILVEIRA, Joel. Um jornal assassinado: a última batalha do Correio da Manhã. Rio de Janeiro: José Olympio, 1991. p. 42-44.
Arquidiocese de São Paulo. Brasil Nunca Mais: um relato para a História. 26 ed. São Paulo: Petrópolis, 1991.
BAHIA.BA. Com batucada e capoeira, ato pró-dilma ocorre no rio vermelho. Disponível em: <http://bahia.ba/salvador/com-batucada-e-capoeira-ato-pro-dilma-ocorre-no-rio-vermelho/>. Acesso em: 09 ago. 2017.
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O ABC da Capoeira Angola – Os Manuscritos de Mestre Noronha

O ABC da Capoeira Angola – Os Manuscritos de Mestre Noronha

Um documento histórico de grande valor… Uma versão atualizada e completa com 120 páginas !!!
Preparamos uma nova versão, completa e atualizada, a versão que estava largamente disponibilizada em PDF na rede, do Livro: “O ABC DA CAPOEIRA ANGOLA – OS MANUSCRITOS DE MESTRE NORONHA“, continha apenas 18 paginas. Esta versão do livro nos foi enviado há cerca de 10 anos pelo incansável Mestre Decanio (em memória), uma das mais fantásticas figuras da Capoeira que defende a democratização da informação… para o mestre, boa informação é aquela que é transmitida…
O Livro originalmente foi enviado ao Mestre Decanio pelo escritor, historiador e pesquisador Fred Abreu que conseguiu publicar os manuscritos de Noronha, com o apoio do Governo do Distrito Federal, Programa Nacional de Capoeira/Projeto Capoeira Arte e Oficio, DEFER e CIDOCA/DF
Mais uma excelente novidade para toda a comunidade capoeirística!!!

 

o-abc-da-capoeira-angola-manuscritos-de-mestre-noronha
Fica a dica de uma ótima e importante leitura, aproveite!!!

 

Agradecimentos especias:

Fred Abreu, Angelo Augusto Decanio Filho, Bruno “Teimosia” e A Família de Daniel Coutinho o Mestre Noronha, que autorizou esta publicação.
Programa Nacional de Capoeira/Projeto Capoeira Arte e Oficio – DEFER – CIDOCA/DF

“É um documento emocionante por que demonstra a sede que nosso povo tem manter e propagar a tradição provando que têm consciência de um povo sem tradição é uma arvore sem raiz… qualquer abalo destrói… como venho dizendo há anos…”

Desejando muita saúde, felicidade e  axé!
Decanio

 

 

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O futebol é o nosso esporte? Que nada, é a Capoeira!

O futebol é o nosso esporte? Que nada, é a Capoeira!

Se fosse vivo, Monteiro Lobato perguntaria onde estão os livros, filmes, séries, games e HQs com o Herói da Capoeira

Pode parecer incrível hoje em dia, mas a introdução do football foi problemática no Brasil. Intelectuais e desportistas das mais variadas tendências saíram a público para esbravejar contra a “brincadeira selvagem” dos bretões. Argumentavam que, em vez de dar moral para estupidezes europeístas, deveríamos clamar a primazia e a perfeição do nosso próprio jogo, a capoeiragem, excelente como condicionamento físico e sistema de defesa pessoal.

Em diversas crônicas publicadas no princípio do século XX, o escritor Coelho Neto sugere a adoção da Capoeira como o esporte da pátria, ideia que consagraria num artigo antológico, Nosso Jogo (1928), sempre citado por pesquisadores do tema.

A capoeiragem deve ser ensinada em todos os colégios, quartéis e navios, não só porque é excelente ginástica, na qual se desenvolve, harmoniosamente, todo o corpo e ainda se apuram os sentidos, como também porque constitui um meio de defesa individual superior a todos quantos são preconizados pelo estrangeiro e que nós, por tal motivo apenas, não nos envergonhamos de praticar.

Coelho Neto

Muito antes, em 1910, Coelho Neto se unira a Luiz Murat e Germano Haslocher para enviar um projeto à Mesa da Câmara dos Deputados tornando obrigatório o ensino da Capoeira nos institutos oficiais e nos quartéis. Infelizmente, segundo relato do próprio autor, o trio desistiu de lutar pela causa. Motivo? Foram ridicularizados e achincalhados, simplesmente porque a Capoeira é… brasileira!

Mais nacionalista era Monteiro Lobato. Sempre desconfiado das influências estrangeiras, football incluso, acreditava que, para a Capoeira perder a fama marginal e ser vista como esporte, precisaríamos alimentar a memória coletiva com as façanhas dos antigos mestres da ginga, então esquecidos nas brumas do período imperial.

Infelizmente não se guardou memória estreita desse esporte cujos anais se encheram de maravilhosas proezas. Não teve poetas, não tem cantores, não teve sábios que as salvaguardassem do olvido; e de todo o nosso rico passado de rasteiras, rabos de arraias e soltas restam apenas anedotas esparsas, em via de se diluírem na memória de velhos contemporâneos.

Monteiro Lobato

Não obstante o pessimismo dos nossos escritores, a Capoeira proliferou sozinha, a despeito das perseguições que a cultura negra sofreu ao longo do século XX. Hoje desempenha um papel relevante no mundo do esporte e da chamada “representatividade nacional”. Segundo dados levantados pela revista Superinteressante, a Capoeira é o sexto esporte mais popular do Brasil, com 6 milhões de praticantes. Repetindo: 6 milhões de praticantes! Entre os esportes de combate, fica em primeiro lugar, ganhando longe do Judô, o segundo, que conta com 1 milhão e 100 mil atletas. Professores de Capoeira fazem sucesso no exterior, dando aulas para celebridades de Hollywood e divulgando a arte entre a classe média europeia.

O futebol é o nosso esporte? Que nada, é a Capoeira! Capoeira Portal Capoeira

Se Coelho Neto estivesse vivo, perguntaria: onde está o apoio do governo — e principalmente do público — para a difusão do esporte? Um décimo do que é gasto no football transformaria a Capoeira no maior espetáculo da Terra, na poesia de exportação oswaldiana, num soft power semelhante ao Karatê japonês e ao Kung Fu chinês. É por isso que Monteiro Lobato, se vivo, perguntaria pelos livros, filmes, séries, games e HQs com o “herói da Capoeira”, ou seja, todo o material narrativo necessário para fundamentar o esporte em termos míticos.

Nada contra o futebol (agora aportuguesado, ok, porque também é nosso), mas já passou o tempo de tocar músicas com uma nota só. O berimbau tem pelo menos duas.

 

Por Maicon Tenfen

 

https://veja.abril.com.br

Évora, um novo capítulo na Capoeira. O verdadeiro encontro de Bambas!

Évora, um novo capítulo na Capoeira. O verdadeiro encontro de Bambas!

Um novo tempo… ou o resgate dos velhos tempos??!!

Após minha participação no último Nosso Encontro em Évora, incrível cidade medieval portuguesa, tombada e conservada com seu ancião estilo urbano, mantendo inclusive seus muros tradicionais da época, em setembro último (2017), me recolhi na expectativa de relatar o que vi e vivi naqueles dias que ali estive. Era um impasse que me colocava num dilema: ou o que eu vi estava completamente fora da realidade da capoeira atual, ou nós, lato senso da capoeira, estamos equivocados em algum ponto!

Pensei, pensei e repensei…!
O que está errado com a nossa Capoeira…!?
Évora, me trouxe uma felicidade e, ao mesmo tempo, uma angústia…!
Me fez perceber que estamos fazendo uma coisa errada, des-encaminhando nossa capoeira para rumos equivocados e provavelmente sem volta!

Mas demorei muito procurando a maneira certa de falar sobre isso…!
Não quero briga com nossos milhões de felizes jogadores de perna, hoje chamados de capoeiristas, espalhados pelos quatro cantos do Brasil, como também mundo afora!
Não quero criticar ninguém!

Quero apenas ser sincero e se possível útil a essa Arte Secular que abracei e que me abrigou em seu seio generoso de verdades, de mandingas e de tanta energia!

Estava ali, vendo aquela roda cheia de estrangeiros, em plena Praça do Giraldo, Centro de Évora, onde uma centena de pessoas disputavam, tanto a oportunidade de se expressar naquela roda, ou simplesmente assistir e se deleitar, com os jogos que iam acontecendo, contagiando a todos com sua beleza e, principalmente, com a emoção que despertavam…!

Emoções fortes rolaram…
Quedas incríveis…!
Entradas perfeitas e saídas competentes… no tempo milimetricamente certos…!
Havia algo que eu não via há longo tempo. E nem me considero tão antigo assim!
Havia um equilíbrio, uma verdade de roda e uma aceitação diferenciada pelo prejuízo que alguém levava durante os jogos!

Onde andaria esse espírito de jogo… que ninguém interrompe quando o jogo flui…?
Onde estariam esses nossos bambas de capoeira, que aceitam quando tomam um prejuízo e não se tornam – como se tornou comum – agressivos…!!?
Onde estariam nossas rodas de capoeira em que todos vibram com os jogos, mas não tentam desprezar quem levou desvantagem?

Eram muitas perguntas que me vinham.

Mas faltava uma questão básica:
o que havia de estranho em nossas rodas de capoeira desde o início da Capoeira Regional de Mestre Bimba, e essa realidade que estamos vendo proliferar nas nossas rodas…!!??

 

 

Algumas luas depois de minhas inquietações, eu finalmente entendi o que estava errado:

  • Estamos traindo a causa primeira que Mestre Bimba viu na capoeira, a da objetividade… do jogo efetivo… o jogo de resultado… o fim da capoeira estéril, falsa, sem força e sem expressão… vendida em qualquer esquina do planeta hoje… sem disciplina e sem profissionalismo!

Pois a verdade é que estamos vendo prosperar uma capoeira sem graça!
Estamos misturando nossa necessidade de nos expressar, de nosmostrar nas rodas, de uma forma tão sem sentido, que a maioria dos jogos não dura nem o tempo mínimo para acontecer alguma coisa: alguém já corre e compra…!! É como se a gente quisesse dizer: eu não jogo, mas não deixo ninguém jogar!!!!

Convenhamos…! Precisamos rever isso. Antes que seja tarde!!

Temos excelentes atletas na capoeira…!
Temos excelentes capoeiristas, mas esses que tem essa competência não têm oportunidade de fazer um jogo bonito… alguém compra em poucos segundos seu jogo!!

O que Évora me mostrou foi mais de uma centena de pessoas educadas, capazes de abrir mão de seu próprio ego, para assistir um bom jogo, reunidas num mesmo evento…!!

Vi mestres criativos e organizados, que não interrompiam um jogo bonito, que sabiam a diferença entre um jogo comum e um especial, cheio de magia, de efetividade e, para mim o melhor, o gol no jogo…! o resultado… ou pelo menos momentos de grande vibração…!!

O que vi também foi uma razão para estarmos perdendo tantos bons capoeiras para outras artes-marciais: não estamos permitindo que ninguém desenvolva um bom jogo de capoeira! Esses jogos são fundamentais para desenvolvermos nossa capacidade de obter resultados no nosso aprendizado!!

Também acontece que, ao apagarmos o brilho dos jogos de nossa capoeira, nos tornamos sem graça para a platéia. Jogamos para uma plateia alheia que vê uma roda de capoeira e a compara com todos os outros esportes radicas.

Quem não estiver me entendendo, prestem atenção nas rodas que acontecem pelos quatro cantos: nenhum jogo dura mais de 5 segundos… quando muito!!! Aí eu me pergunto: como vamos desenvolver nossa Arte se ninguém tem tempo suficiente para se manifestar…!? Sem poder fazer acontecer um jogo de decisão,  um jogo bonito??

Infelizmente estamos a cada dia perdendo o brilho de nossa Arte. E enquanto não revertermos essa situação a capoeira estará caminhando somente para o seu extermínio enquanto Arte e esvaziada de seus maiores conhecimentos: a Arte da Sobrevivência no meio de uma situação difícil…!

Depois de alguns meses em que estive naquela atmosfera de bambas do povo, sem estrelas, apenas capoeiristas de brilho, como deve ser, ainda sinto os ecos daqueles momentos e percebo que esse evento (2017) não foi um acidente. Isso se acumulou nos anos que Évora vem se tradicionalizando entre os que ali se refugiam, que se encontram e confraternizam em emoções e alegrias pulsantes, mesmo para os nossos capoeiristas europeus, tão serenos e racionais, eles também apreciam – quem não o faz!! – uma roda bonita, um jogo bonito, uma volta do mundo mandingada… uma boa Capoeira, sem sobrenomes… sem ninguém dominando os momentos da roda, a cantoria, os jogos, um verdadeiro celeiro de bambas, anônimos, só preocupados com uma única e exclusiva coisa: que a Capoeira possa descer ali, na milagrosa transcedência dos desiguais, dos diferentes, dos distintos, dos graduados e não graduados, transmutação de uma energia que se torna a verdadeira chama que todos buscamos para nossa arte, em paz, mas em seu pulsar mais sagrado, mais relutante contra essa hegemonia estéril que está tentando anular nossos fundamentos, transformando-os em regras estereotipadas, medidas pela espessura dos bíceps ou dos abdômens perfeitos…!

A roda é o lugar do mais fraco encontrar sua afirmação e sua emancipação enquanto ser igual, enquanto o portador da divina chama de Filho de Deus, que tantos pregam, mas tão poucos sabem o verdadeiro significado, na prática!

Roda também é o lugar do Mestre se encontrar em sua dimensão de respeito ao próximo, aos ancestrais, se conectar na dimensão mais profunda de sua alma. Receber a concessão do sagrado para encontrar sua entidade interior (como dizia o Mestre Decânio) e se manifestar no espaço comum de todas as almas e consciências.

Por isso tudo é que só posso afirmar, depois de contabilizar todos os prós e contras, verificar a efervescência de tantos eventos, cada um clamando por ser o melhor dos melhores, que o Nosso Encontro de Évora é uma dessas tradições que tem muito para ensinar a todos quantos tem a humildade de aprender.

Por isso que só nos resta panfletar essa rica experiência de todos quantos ali já percorreram:
Viva nossa Capoeira de verdade!!

Viva os capoeiristas que não estão permitindo que suas rodas se tornem estéreis e sem nenhum realismo!!

Viva Évora e sua capoeira de bambas de verdade!!!

 

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A arrogância neoangoleira e a tradição autista

A arrogância neoangoleira e a tradição autista

por: Paulo Mutaokê Magalhães 

Essa semana fiquei abismado com um comentário que li na internet. Um velho mestre de capoeira angola, conhecido pela fluidez com que encara a relação entre a capoeira e outras manifestações culturais populares e pelo especial apreço ao espaço da rua, comemorou seu aniversário com uma grande roda. Após publicar trechos do jogo de compra, um jovem capoeirista o questiona, afirmando que na capoeira angola não existiria compra e que o adeus adeus seria uma música do samba de roda. Além da evidente falta de conhecimento desse capoeirista, o que salta aos olhos é o desplante de se dirigir a um mestre de capoeira com idade de ser seu pai (ou talvez seu avô), acusando-o de corromper fundamentos por dinheiro. Trata-se na verdade de uma inversão dos fundamentos, uma vez que uma característica básica que perpassa toda a cultura de matriz africana é o respeito aos mais velhos. De acordo com esta tendência, que infelizmente vem crescendo nos dias de hoje, alguns detalhes formais da prática da cultura seriam mais importantes que a relação viva que se estabelece entre mestre e discípulo, entre os mais novos e os mais velhos de uma forma geral.

Ora, sabemos que de forma diferente da capoeira regional do Mestre Bimba, a capoeira angola tem uma grande diversidade de linhagens, heranças, famílias. E muito do seu formato é relativamente recente. Grande parte das músicas “tradicionais” da capoeira vêm do candomblé, são sambas de caboco, que se confundem com o samba de roda porque nunca houve essa fronteira rígida. O jogo de compra não vem nem da capoeira angola de academia nem da capoeira regional, uma vez que na academia do Mestre Bimba as duplas saíam do pé do berimbau para jogar. A compra vem da rua, das festas de largo, do samba, desse caldeirão cultural onde os mais velhos aprenderam e preservaram esta cultura para que chegasse até nós. O fato de ser proibido em algumas academias talvez diga mais sobre elas do que sobre a herança da capoeira angola em geral. As heranças são muitas, e cada um busca preservar o que aprendeu.

Este caso me lembrou algo que aconteceu comigo no ano passado. Ao vadiar em uma roda coordenada por um jovem contramestre, alguns anos mais velho que eu, fui repreendido pelo mesmo ao aplicar uma tesoura. Visivelmente nervoso, bradou que tesoura não era de capoeira angola, era coisa de dez anos pra cá, pois não via tesouras acontecendo em determinada roda que ele frequentara. Também neste dia fiquei surpreso pelo absurdo da situação, pois na linhagem de capoeira angola a que ele se filiara, a aplicação de tesouras era algo comum. Para não polemizar em casa alheia, lembrei do Mestre Canjiquinha: “o calado é vencedor para quem juízo tem”. Algumas pessoas costumam ser rígidas com o que aprenderam ao ensinar para seus alunos, é natural. Agora, querer colocar os ensinamentos de uma academia como se fosse a grande verdade da capoeira angola é no mínimo desrespeito aos mais velhos. Pus-me a pensar nos mestres Moraes, Paulo dos Anjos, Nô e tantos outros. Será que todos estariam errados, e esse camarado, que nasceu quando estes antigos mestres já praticavam capoeira, sabe mais do que eles? Aprendi que jogo de compra, tesoura, martelo, gancho, tudo isso faz parte da capoeira angola, são ensinamentos que vieram de velhos mestres do passado. Como uma pessoa jovem pode questionar algum desses elementos, por não ter visto em sua formação, se antes dela nascer os velhos mestres já praticavam?

Pensei também nos manuscritos do Mestre Pastinha, um verdadeiro tesouro para nos aprofundarmos no pensamento desse mestre. Ao criar sua escola, ele estabelece uma série de regras, cria cargos a que nenhum dos seus discípulos deu continuidade (fiscal, juiz, mestre de bateria, etc.) e proibiu uma série de golpes. Se proibiu, será que existiam ou não? Será que as outras academias foram obrigadas deixar de usar os mesmos movimentos ou seguiram dando continuidade ao que aprenderam com seus mestres? Segue um trecho:

“É proibido no jogo e prinsiparmente em baixo, fonsional golpes, ou truque, não por a mão, é fau. Os golpes que não pode ser fonsionado em demonstração; golpes de pescoço, dedo nos olhos, cabeçada solta, cabeçada presa, meia lua baixa, Balão a coitado, rabo de arraia, Tesoura fechada, chibata de clacanhar, chibata de peito de pé, meia lua virada, duas meia lua num lugar só, pulo mortal, virada no corpo com presa de calcanhar, presa de cintura, balão na boca da calça, golpes de joelho e nem truques”.

 

A arrogância neoangoleira e a tradição autista Publicações e Artigos Portal Capoeira

Falta mais humildade para aceitar as diferenças e continuar aprendendo com os mais velhos. Trata-se de uma tradição autista, que não dialoga com as que estão ao seu lado, encerrada em sua verdade única e absoluta que impõe em seu pequeno espaço de poder. As diferenças fazem a riqueza da capoeira angola, e preservar essa diversidade é zelar pelos seus fundamentos. Tempo é rei e nos ensinará mais. Iê dá volta ao mundo!

Imagens: Manuscritos do Mestre Pastinha; Mestre Sapo (aluno dos mestres Pelé da Bomba e Canjiquinha) e seu aluno Mestre Patinho treinando em uma praia do Maranhão. No berimbau, Mestre Tião Carvalho.

 

por: Paulo Mutaokê Magalhães 

Só se melhora a capoeira, melhorando o capoeirista

Só se melhora a capoeira, melhorando o capoeirista. (Mestre Camisa)

Porque você começou a praticar capoeira? Se essa pergunta for feita para qualquer capoeirista, rapidamente ficará claro como um processo de REGULAMENTAÇÃO será nocivo ao futuro da capoeira, ele poderá limitar e eliminar diversas passagens que temos em nossas memórias, situações que são frutos da liberdade e diversidade que a capoeira possui em sua essência. Liberdade de se expressar, diversidade de estilos, enfim, uma riqueza infinita que confunde nossa sociedade fazendo com que ela pense que a padronização é o caminho para organização. Organizar o que? As pessoas ou a arte? As pessoas devem se profissionalizar e a arte tem que ser arte em sua essência, manifestando das formas mais improváveis para inspirar, atrair novos seguidores e admiradores.

Foi essa liberdade que me manteve na capoeira, eu sou produto dela, já treinei na rua, clubes, academias, garagem de prédios, garagem da minha casa, praças, ou seja, em todo canto.

As vezes sou abordado com a seguinte pergunta: O que é a capoeira? Na mesma hora me vem na cabeça um dos ensinamentos do Mestre Camisa. Capoeira é o que o momento determinar. Pode ser um jogo, uma luta, uma música, um artesanato, uma profissão, um show, um remédio, uma poesia, depende do momento. Mas pra nós capoeiristas ela sempre será a capoeira. Então, pra você o que é a capoeira? Não tenha dúvida, capoeira é capoeira, o momento em que determina sua compreensão.

Estou fazendo essa pequena introdução para mostrar o quão é importante essa liberdade da capoeira, uma arte adaptável, inclusiva e genuinamente brasileira. Sempre fazendo curvas para sobreviver sem perder a tradição e suas origens, tendo a oralidade como principal caminho do seu entendimento pleno. Acredito que seu desenvolvimento deve ser eterno, sempre respeitando o seu passado e suas origens.

A sociedade atualmente está discutindo sobre A REGULAMENTAÇÃO DA CAPOEIRA COMO PROFISSÃO, uma situação que vem gerando dois cenários. De um lado pessoas que entendem que é necessário esse processo e do outro lado, pessoas que entendem que esse caminho será prejudicial a capoeira.

Venho acompanhando diversas opiniões sobre o tema e percebo que existe um tremendo equívoco na maioria das pessoas que se posicionam a favor, pois a REGULAMENTAÇÃO DA CAPOEIRA COMO PROFISSÃO é muito diferente da PROFISSIONALIZAÇÃO DO CAPOEIRISTA. Reparem no significado de Profissionalização que é um ação ou efeito de profissionalizar ou profissionalizar-se. Processo de treinamento para obter certo nível profissional ou para alcançar maior habilidade num determinado trabalho; capacitação. Agora compare o significado de Regulamentação que é uma ação ou efeito de regulamentar, imposição de regras, regulamentos, conjunto de normas. Ato de fixar por meio de regulamento. Conjunto de medidas legais ou regulamentares que regem um assunto.
Perceberam a diferença?

É nesse ponto, que a meu ver, está acontecendo uma grande confusão. Muita gente que é a favor está entendendo que os benefícios que desejam, só serão conquistados por meio deste processo de REGULAMENTAÇÃO DA CAPOEIRA ENQUANTO PROFISSÃO.

 

Essa confusão de entendimento é muito grave. 

Se você é a favor da REGULAMENTAÇÃO DA CAPOEIRA ENQUANTO PROFISSÃO e defende essa posição porque tem consciência das consequências e resultados que serão gerados, eu respeito e entendo já que é uma questão individual e vivemos em uma democracia.

Agora, defender a REGULAMENTAÇÃO DA CAPOEIRA ENQUANTO PROFISSÃO porque você acha que terá mais reconhecimento, benefícios trabalhistas, organização e outros. Lamento, mas estão escondendo de você as verdadeiras intenções. Já existem diversos dispositivos legais que contemplam muitos dos anseios de quem acha que só vai alcança-los se a capoeira for REGULAMENTADA ENQUANTO PROFISSÃO, as pessoas precisam se informar melhor. Qualquer pessoa pode pagar o INSS para se aposentar, qualquer pessoa pode se inscrever no programa de Micro Empreendedor Individual e emitir nota fiscal como professor ou como artesão, qualquer pessoa pode elaborar um projeto nas leis de incentivo, qualquer pessoa pode organizar um evento de capoeira, basta investir na capacitação e no profissionalismo.

Para o fomento de ações temos as leis de incentivo à cultura e ao esporte nas esferas federal, estaduais e municipais. Sobre a educação temos a lei 11.645/08 que traz em seu artigo 26-A a obrigatoriedade do estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena em todos os estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio público e privado. No tema profissão temos o Art.170 da nossa CONSTITUIÇÃO FEDERAL que diz em seu parágrafo único que é assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei.

Para o reconhecimento temos o Estatuto da Igualdade Racial – Lei nº 12.288, de 20 de julho de 2010 que em seu Art. 20 diz que O poder público garantirá o registro e a proteção da capoeira, em todas as suas modalidades, como bem de natureza imaterial e de formação da identidade cultural brasileira, nos termos do art. 216 da Constituição Federal. E no Parágrafo único deste mesmo artigo diz que O poder público buscará garantir, por meio dos atos normativos necessários, a preservação dos elementos formadores tradicionais da capoeira nas suas relações internacionais. Ainda tem o Art. 22 que diz A capoeira é reconhecida como desporto de criação nacional, nos termos do art. 217 da Constituição Federal. § 1o A atividade de capoeirista será reconhecida em todas as modalidades em que a capoeira se manifesta, seja como esporte, luta, dança ou música, sendo livre o exercício em todo o território nacional. § 2o É facultado o ensino da capoeira nas instituições públicas e privadas pelos capoeiristas e mestres tradicionais, pública e formalmente reconhecidos.

E mais, em 2008 a roda de capoeira e o ofício de mestre foram inscritos no Registro dos Saberes pelo Iphan. Depois a roda de capoeira, que é onde se reúne tudo que engloba a capoeira, foi reconhecida pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura) como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. A escolha foi feita durante a 9ª Sessão do Comitê Intergovernamental para a Salvaguarda do Patrimônio Imaterial, em Paris, em 26 de novembro de 2014.

Nenhum esporte olímpico tem esse reconhecimento, nenhuma luta tem esse reconhecimento, nenhuma religião tem esse reconhecimento, nenhum time de futebol tem esse reconhecimento, nenhuma banda famosa tem esse reconhecimento e a nossa capoeira conquistou isso graças a sua diversidade e liberdade!
Precisamos ser profissionais de fato. No meu entender, a profissionalização está totalmente relacionada a pessoa que exerce a profissão. É uma ação que depende somente do individual. Será que todos os capoeiristas ao longo dos anos preocuparam com sua formação? Será que todos preocuparam em se instruir? Todos preocuparam com a forma de se comportar perante a sociedade?

Bom, se analisarmos dentro do tri pé, valorização, reconhecimento e profissionalização de qualquer profissão e/ou atividade, em uma rápida pesquisa chegaremos à conclusão que houve um marco na história onde esses objetivos começaram a ser alcançados, um ponto de partida, uma movimentação totalmente ligada ao agente que a representa, pois foram suas atitudes, dedicação, doação e profissionalismo que produziram esse resultado.

Se repararmos em outras áreas, conseguiremos ver que em algum momento da história, um agente ou um conjunto de pessoas, foram a mola propulsora para que uma profissão ou arte alcançasse novos ares e viesse a ter seu pleno desenvolvimento e reconhecimento. Pense nos grandes historiadores que deram o devido valor a sua profissão, pense nos grandes pintores, nos grandes jogadores de futebol, nos grandes médicos, nos grandes advogados, eles deram valor a sua profissão. O mérito individual de cada um, dignificou o ofício por eles representado.
No caso da capoeira é fácil identificar os grandes capoeiristas que contribuíram mundialmente e contribuem para que esse processo de evolução cultural esteja sempre em movimento.

Só se melhora a capoeira, melhorando o capoeirista Publicações e Artigos Portal Capoeira 1

E você o que está fazendo pela capoeira?

Entendo que sempre podemos fazer algo diferente para valorizar nossas ações. Se o vendedor de picolé começar a melhorar o seu serviço, com certeza ele vai vender mais e será mais valorizado. Basta ele começar a imprimir mais qualidade, mais seriedade, mais comprometimento, estar atento ao que está acontecendo ao seu redor e no mundo, melhorar seus equipamentos, melhorar o atendimento, ser mais comprometido, melhorar a matéria prima usada para fazer seu picolé, enfim, ficar atento aos detalhes e entre linhas para fazer a diferença.

Será que os capoeiristas que estão defendendo a regulamentação da profissão, achando que isso trará mais resultados e benefícios, estão atentos aos detalhes e as entre linhas para fazerem a diferença?
Quem precisa de reconhecimento é o capoeirista ou a capoeira? O capoeirista está investindo nele para ter esse reconhecimento?

Eu aprendi que a profissão do capoeirista é ser um poli artista, estar preparado para agir e atuar de acordo com que o momento determinar. Como diz meu Mestre, “Nem tudo que é bom para o capoeirista é bom pra capoeira, mas tudo que é bom pra capoeira é bom para todos os capoeiristas.”

Sendo assim, eu não sou a favor da regulamentação pois entendo que esse processo não vai fazer a capoeira ter reconhecimento. Esse processo vai engessar a capoeira e vai criar uma desigualdade política e cultural a nossa arte, prejudicando o grande público que vive da capoeira e precisa dela. É muito claro os desdobramentos gerados por uma regulamentação de profissão. Podemos citar a criação de sindicatos de classe, reserva de mercado, perseguição política, limitação da criatividade e liberdade, direcionamento, manipulações, enfim, todas as conquistas que a capoeira conseguiu ao longo dos anos serão prejudicadas.

Hoje estamos em um novo momento, um momento de encontro de aproximação dos diversos estilos, um momento de estudo e troca de saberes. Sou a favor de muitos congressos, fóruns, simpósios, seminários e outros mecanismos de encontro e discussão de ideias, mas penso que eles devem ser desenvolvidos pelos capoeiristas. Agradeço aos admiradores da capoeira, mas se querem nos ajudar que tragam o caminho das pedras, mas deixem que os capoeiristas andem por eles.
Obrigado e pode ter certeza que estaremos cada vez mais unidos para que as nossas diferenças continuem sempre crescendo em harmonia, com liberdade de escolha e comprometidos com a construção desse painel cultural que se chama capoeira.

Leonardo Dib
Boiadeiro – ABADÁ-CAPOEIRA
leonardoboiadeiro@yahoo.com.br

Capoeira? Não existe. O capoeirista sim.

Capoeira? Não existe. O capoeirista sim.

Professor Me. André Luis de Oliveira, professor de Educação Física pela Unesp – Rio Claro (1989), Especialista em Educação Física pela Unesp – Rio Claro (1990), Mestre em Educação pela PUC/SP (1993), Professor de Culturas Corporais de Lutas da Uninove (SP), Professor de Capoeira da Projete Liberdade Capoeira.

Resumo:

A capoeira normalmente é tratada como algo que tem existência em si, separada de seu sujeito, o capoeirista. Assim, esse trabalho resgata na literatura a origem do nome “capoeira”, seus significados possíveis e sua relação com o jogo-de-luta-dançada capoeira. Por fim, se quer recuperar a importância do professor ou mestre de capoeira: os que dão existência a ela.

Etimologia da palavra capoeira.

A palavra “capoeira”, esta longe de ser precisamente definida na sua origem. Isto porque há dois vocábulos, um de origem portuguesa e outro de origem do tupi, que podem ter originado capoeira para designar luta e como é usado em nosso país. Assim, o termo “capoeira” é registra a primeira vez no ano de 1712 (Bluteau in ARAUJO, 2004), e “usado para designar cesto, gaiolas ou locais determinados para se guardar aves” (ARAUJO, 2004, p.17). Para o vocábulo Tupi, que somente no século XIX aparece referenciado (op.cit. p.17), “capoeira” seria a junção de “ka’a”, mata e “PÛER”, passado, velho, superado, que já foi. Em tupi existe o tempo do substantivo. (NAVARRO, S/D). Assim, capoeira seria lugar que foi mata, mas já não é mais.

Também o termo tem sito usado para designar um tipo de ave: uru ou capoeira (Odontophorus capueira, Spix, 1825 in http://www.taxeus.com.br/especie/odontophorus-capueira).

 

A palavra “capoeira” para designar um indivíduo associado a um modo de conduta onde a luta física é usada, aparece somente em 1789, e esta registrado no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro (ANRJ — Tribunal da Relação — cód. 24, livro 10) e foi apontado por Cavalcanti (2004): O mulato Adão, escravo de Manoel Cardoso Fontes, comprado ainda moleque, tornou-se um tipo robusto, trabalhador e muito obediente ao seu senhor, servindo-lhe nas tarefas da casa. Manoel resolveu explorá-lo alugando-o a terceiros como servente de obras, carregador ou outro qualquer serviço braçal. Tornou-se Adão deste modo uma boa fonte de renda para seu senhor. Com o passar do tempo, o tímido escravo, que antes vivera sempre caseiro, tornou-se mais desenvolto, independente e começou a chegar tarde em casa, muito tempo depois do término do serviço. Manoel questionava-o: o que levava à mudança de conduta? As desculpas eram as mais inconsistentes para o senhor. Até ocorrer o que já o preocupava: Adão não mais voltou para casa. Certamente fugira para algum quilombo do subúrbio da cidade. Para sua surpresa, Manoel foi encontrar Adão por trás das grades da cadeia da Relação. Havia sido preso junto a outros desordeiros que praticavam a capoeira. Naquele dia ocorrera uma briga entre capoeiras e um deles fora morto. Crimes gravíssimos para as leis do reino: a prática da capoeiragem, ainda resultando em morte. No decorrer do processo constatou-se que Adão era inocente quanto ao assassinato, mas foi confirmada sua condição de capoeira, sendo, por isso, condenado a levar 500 “açoites” e a trabalhar “dois anos nas obras públicas”. Seu senhor, após Adão cumprir alguns meses de trabalho e ter sido castigado no pelourinho, solicitou ao rei, em nome da Paixão de Cristo, perdão do resto da pena argumentando ser um homem pobre e, portanto, muito dependente da renda que seu escravo lhe dava. Comprometeu-se a cuidar para que Adão não mais voltasse a conviver com os capoeiras, tornando-se um deles. Teve o pedido homologado pelo Tribunal em 25.04.1789.

 

Esta citação desmitifica alguns mitos em torna da capoeira:

  • A referência mais antiga da luta capoeira é carioca, para decepção dos baianos;
  • Capoeira, nas origens, está associada à contravenção e suas referências históricas mais antigas encontram-se em boletins de ocorrência, e não como prática lúdica entre escravos (jogo);
  • Capoeira aparece em meio urbano, não em fazendas, senzalas ou quilombos;
  • Capoeira é usada como luta de escravo contra escravo, de escravo contra policia quando são reprimidos ou entre maltas de capoeiras, e não como “mandinga de escravos em ânsia de liberdade” (Mestre Pastinha apud Zulu, 1995, p.6);
  • Capoeira como luta só aparece referendada a partir do final do século XVIII (1789) e não com a vinda dos primeiros escravos (1539).

O que, neste momento, me parece mais importante a tudo isto, é a associação da prática ao praticante. “Capoeira”, a partir de um processo associativo entre etimologia da palavra + atitudes e ações dos indivíduos pertencentes a grupos marginalizados + manifestações corporais de caracterizadas por exercícios de agilidade e destreza corporal, segundo Araújo (2004, p. 49) poderemos ter:

  • Muitos dos indivíduos considerados capoeiras eram malfeitores;
  • Alguns dos indivíduos considerados capoeiras eram apenas fugitivos;
  • Alguns dos indivíduos considerados capoeiras, logo malfeitores, eram praticantes da capoeiragem;
  • Alguns dos indivíduos considerados capoeiras, logo fugitivos, eram praticantes da capoeiragem;
  • Alguns dos indivíduos praticantes da capoeiragem, e considerados capoeiras, não eram malfeitores nem fugitivos.

A partir da análise semântica e histórica, Araújo (op.cit. p. 50) conclui que:

“Muitas das expressões (capoeira) que atentavam contra a ordem pública nem sempre foram realizadas por aqueles que praticavam e exerciam a luta/jogo de agilidade e destreza, e que a atribuição de culpa a eles era por demais perniciosa tanto para a manifestação referida como para os seus executores”.

Soares (1999) corrobora com essa associação de sujeito e prática ao falar de outro personagem. O “capoeiro”, escravo carregador dos grandes cestos (capoeira), assim como açougueiro, leiteiro e aguadeiro formariam os ofícios da escravaria urbana. (SOARES, 1999). Para Rios Filho (in SOARES, 1999 p.23) capoeira luta teria nascido das disputas da estiva destes “capoeiros”, nas horas de lazer, nos “simulacros de combate”, que pouco a pouco se tornaram hierarquias de habilidades, onde se duelava pela primazia no grupo. Dessas disputas de perna teria nascido o “jogo da capoeira” ou dança do escravo carregador da capoeira. Ou seja, nem todo capoeira era jogador de capoeira.

Vê-se assim que associar capoeira (luta) ao capoeira (sujeito contraventor) foi sempre uma constante, mesmo quando descabida. O artigo 402 do Decreto Lei número 847, de 11 de outubro de 1890 (capítulo XIII – Dos vadios e capoeiras) também não faz nenhuma distinção entre “exercício de agilidade e destreza corporal conhecida pela denominação Capoeiragem” e malfeitor, contraventor, homicida, assassino, fugitivo, ladrão. Todos eram capoeiras e considerados praticantes da capoeiragem (exercício de agilidade e destreza corporal) e punidos no rigor da lei. Araújo (2004, p.59) corrobora a isto afirmando que:

“Acreditando que as autoridades judiciais, ao identificarem uma prática corporal de caráter lúdico ou mesmo de luta e desconhecendo sua origem e denominação, por certo, vincularam-na diretamente aos indivíduos dos grupos marginais (capoeiras) que as realizavam, depreendendo-se daquela manifestação de agilidade e destreza corporal que se lhes apresentava como sendo uma luta/jogo de capoeiras, evidenciando-se preponderantemente, neste caso, o vocábulo designativo de tais personagens como determinante para a qualificação nominal da coisa.”

Corriqueiramente, associamos práticas e profissões a determinados indivíduos, ou seja, a prática ou ofício vai denominar o praticante ou profissional. Assim temos:

  • Advogado, aquele que advoga, defende (alguém ou alguma causa) em juízo ou fora dele;
  • Artesão, aquele que faz arte e técnica do trabalho manual não industrializado, artesanato,
  • Estivador, trabalhador portuário que, recebendo a carga de um navio, a arruma devidamente no porão ou num compartimento, ou a descarrega de bordo, estiva;
  • Jogador, aquele que tem por profissão jogar ou aquele que joga;
  • Marceneiro, aquele que trabalha com marcenaria, artesão ou operário industrial que trabalha com madeira em tábua;
  • Mecânico, aquele que monta, conserva e conserta máquinas e motores;
  • Professor, aquele que professa uma crença, uma religião ou aquele que ensina, ministra aulas;
  • Torneiro: aquele que trabalha com o torno.

No caso da capoeira (jogo/luta), não é o que ocorre. O sujeito CAPOEIRA vai nomear sua prática de jogo-de-luta-dançada – a capoeira, e não ao contrário. A expressão corporal capoeira foi denominada por indivíduos que receberam a mesma denominação. O Capoeira era um personagem que não tinham um meio de subsistência e domicílio certo, vivia em mocambos nas matas próximas (capoeiras) às vilas e cidades, logo um “capoeiro”, e que através do uso popular e de adaptações vocabulares popularizou-se e afirmou-se como sendo a luta/jogo do (indivíduo) capoeira, ou da capoeira, pois tal prática vinha destes espaços. Com o tempo passou-se a denominar exclusivamente como capoeira (ARAUJO, 2004, p.60).

 

O Capoeira: quem é ele hoje?

Como vimos, capoeira jogo/luta é uma prática típica brasileira associada a um personagem histórico (o Capoeira) visto e perseguido como contraventor, embora não o fosse sempre. Vimos também que o praticante dá nome a pratica e não ao contrário: o modo de vida do capoeira é capoeiragem; a luta criada pelo capoeira é a capoeira. Posto isto, vê-se que a capoeira jogo/luta está estritamente ligada a seu praticante: o capoeira, hoje chamado de capoeirista. Sozinha, ela não existe.
No Brasil, estima-se 6 milhões de praticantes (ATLAS DO ESPORTE NO BRASIL, 2014). Há uma certa unanimidade em gratidão a essa prática. Numa pesquisa simples e rápida, encontram-se dezenas de depoimentos e músicas aludidos a uma gratidão e ajuda da capoeira:

 

  • Agradeço a capoeira do fundo do coração (http://www.realcapoeira.ru/capoeira/song/agradeco-a-capoeira-m-casquinha);
  • Agradeço à capoeira, Por todo que me ensinou Sou de coração marcado, Por essa arte que o negro criou (https://es-la.facebook.com/permalink.php?story_fbid=141225046061135&id=124456147738025 visto em 16/nov/2014);
  • Agradeço a Capoeira, Do fundo do meu coração, Pra vocês todos os presentes, Eu dedico essa canção (http://www.capoeira-music.net/all-capoeira-songs/all-capoeira-corridos-songs-m/mandei-cair-meu-sobrado/ visto em 16/nov/2014);
  • Um dia a capoeira ela lhe ajudou, Tirou você da miséria lhe transformou; Você não sabe o valor que a capoeira, tem, Ela tem valor demais, Ê se segura rapaz; A Capoeira me ajudou. Ela me fez ser na vida. Hoje quem eu sou (http://capoeiralyrics.info/Songs/Details/2104 visto em 16/nov/2014); .
  • Agradeço a Capoeira, Por tudo que me tornei, Hoje estou aqui rimando, Foi nela que me criei (http://www.ondeachocapoeira.com/ondeacho/noti_detal.php?id=585&pag=1&tipocat= visto em 16/nov/2014);
  • Agradeço à capoeira porque ela me resgatou; Acho a capoeira um apoio de vida porque ela me tirou de muita coisa ruim http://www.vitoria.es.gov.br/noticias/noticia-9015 visto em 16/nov/2014);
  • A capoeira me ajudou; A capoeira vai me curar (http://www.capoeira-music.net/all-capoeira-songs/all-capoeira-corridos-songs-m/mas-que-saudade/ visto em 16/nov/2014);
  • Ela é quem me ensinou, É ela quem vive a me ensinar, Ela é quem me ajudou https://www.facebook.com/pages/M%C3%BAsicas-Da-Abad%C3%A1-Capoeira/543758379075509 visto em 16/nov/2014);
  • Ela me ajudou não só no meu físico, mas também na parte de caráter, responsabilidade, disciplina (http://m.tvg.globo.com/novelas/malhacao/2012/por-tras-das-cameras/noticia/2013/04/rodrigo-simas-declara-sua-paixao-pela-capoeira-eu-ginguei-antes-de-andar.html visto em 16/nov/2014);
  • “E foi a capoeira que me ajudou a levantar da cadeira de rodas” a capoeira vem trazendo reflexos na vida escolar e nos planos para o futuro (http://quiririmnews.com.br/seminario-gera-inclusao-social-na-cecap/#.VGk7FPnF9vA, visto em 16/nov/2014)

Será mesmo que se deve agradecer à capoeira? Será que a capoeira jogo/luta tem esse poder de, sozinha, fazer tanto pelas pessoas?

De tal maneira, muito se tem escrito sobre as contribuições da capoeira para a Educação em geral e a Educação Física em particular – FALCÃO, 1996; FREITAS, 1997, 2003, 2005, 2007; MENEZES, 2007; RADICCHI, 2013; REIS, 2001, 2006; REIS, 2011; RIBEIRO, 1992; SILVA, 1993; SILVA e HEINE, 2008. Mas como a capoeira jogo/luta faz isso dissociado de seu produtor, fazedor ou professor/mestre?

No momento em que se produz este texto, discute-se o projeto de lei destinado a reconhecer a prática da capoeira como profissão (PLC 31/2009). A visão predominante é de que regulamentação só será legítima se reconhecer a capoeira como atividade multidimensional – ao mesmo tempo luta, dança e arte – além de fator de socialização, criação de identidade e de transmissão de memória ancestral. Parece-nos tão relevante quanto esta legalização é a definição de quem será este profissional: qual sua formação mínima? Em quanto tempo? Qual sua escolaridade/capacitação? Quais instituições estarão autorizadas a capacitá-lo? Quem serão os capacitores destes profissionais?

Capoeira? Não existe. Capoeirista sim.

 

Referências Bibliográficas

ARAÚJO, Paulo Coêlho de. Capoeira: um nome – uma origem. Juiz de Fora, MG: Irmãos Justiniano, 2004.
CAVALCANTI, Nireu O. Crônicas históricas do Rio colonial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira/FAPERJ, 2004.
FALCÃO, José L.C. A escolarização da capoeira. Brasília: Royal Court, 1996.
FREITAS, Jorge L. Capoeira infantil: a arte de brincar com o próprio corpo. Curitiba: Ed. Gráfica Expoente, 1997.
_______________. Capoeira infantil: jogos e brincadeiras. Curitiba: Torre de Papel, 2003.
_______________. Capoeira pedagógica. Curitiba: O autor, 2005.
_______________.. Capoeira na educação física: como ensinar? Curitiba: Editora Progressiva, 2007.
MENEZES, Lilia B. Capoeira; benefícios psicofisiológicos. Niterói: La Salle, 2007.
NAVARRO, Eduardo. Curso elementar de Tupi antigo. http://tupi.fflch.usp.br/node/16 visto em 12 de novembro de 2014.
RADICCHI, Marcelo R. Capoeira e escola: significados da participação. Várzea Paulista: Fontoura, 2013.
REIS, André L.T. Educação física & capoeira: saúde e qualidade de vida. Brasília: Thesaurus, 2001.
______________. Capoeira: saúde e bem estar social. Brasília: Thesaurus, 2006.
REIS, Ronaldo. Capoeira, educação e educação física: inter-relações e práticas pedagógicas. São Paulo: Livro Pronto, 2011.
RIBEIRO, Antonio L. Capoeira: terapia. Brasília: Secretaria dos Desportos, 1992.
SILVA, Gladson de O. Capoeira: do engenho à universidade. São Paulo: O autor, 1993.
SILVA, Gladson de O. e HEINE, Vinícius. Capoeira: um instrumento psicomotor para a cidadania. São Paulo: Phorte, 2008.
SOARES, Carlos Eugênio Líbano, A negregada instituição: os capoeiras na Corte Imperial, 1850-1890. Rio de Janeiro: Access, 1999.
TÁXEUS, Listas de espécies. http://www.taxeus.com.br/especie/odontophorus-capueira, visto em 13 de novembro de 2014.
ZULU. Idiopráxis de Capoeira. Brasília: Editora do Autor, 1995.

 

Autor:
André Luis de Oliveira
Mestre em Educação – PUC/SP, Projete Liber…

Cidade

Embu das Artes – SP