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Irmãos de Viagem

“Todos DIFERENTES… JUNTOS pelo mesmo… CAPOEIRA” (1)

A caminhada, a vivência, a história de cada capoeira… significa a luta e o esforço traçados durante sua árdua e longa jornada…

Valorizar o indíviduo não obstante de sua origem ou estilo em detrimento a sua escolha… é valorizar nossa arte… é perpetuar o verdadeiro significado da Palavra IRMÃO!!!

Durante esta caminhada tive o previlégio de também ser um IRMÃO…  um MALUNGO (Irmão de Viagem) (2).

Toda e qualquer iniciativa, seja ela qual for, desde que valorize a integração e a disseminação da nossa tão rica e multifacetada arte-luta sem o “vistoso manto das bandeiras” tem de ser vista com respeito e seriedade… tem de ser vistas com os olhos de ver… sob a ímpar e aliciante perspectiva da CIDADANIA (3).

Cada individuo que atua de forma a acrescentar algo neste universo tão complexo, dinâmico e vivo da nossa capoeiragem carrega com ele a responsabilidade de passar uma mensagem… de proferir uma “Vogal”… uma “Sílaba”… alguns destes indíviduos conseguem escrever na nossa audição… conseguem formar “Palavras”… “Frases”… e até densas e rebuscadas “Histórias”… que ficam pra sempre registradas e guardadas neste BAÚ da ORALIDADE que todo capoeirista respeita, acredita e trás consigo como um verdadeiro “tesouro”, repleto de pérolas e significados, guardando cada uma destas “Vogais”… “Sílabas”… “Palavras”… e “Frases”… , para fomentar e criar a sua própria “História”… a sua Jornada…

Algumas destas histórias estão repletas de mitos… de fantasias… de criações fictícias… frutos da “imaginação pré concebida” e até mesmo do incondicional amor por esta imensurável e perplexa CAPOEIRA.

Outras histórias são tão profundas…  embasadas… prolixas… Outras nos surpreendem pela beleza e simplicidade… algumas por devaneios loucos… tecendo uma complexa teia de informações dissonantes e as vezes até improváveis e cruas verdades…

Ainda existem “estórias”… contadas por aqueles que “gingam na roda dos saberes formais”… pesquisam, publicam… fomentam…. convidam para o banquete da constante busca pelo conhecimento…

Cada um destes “Tesouros” devem ser considerados de igual maneira… devem ser filtrados, analisados, digeridos, engasgados, vomitados e até defecados!!!

Cabe a cada um destes IRMÃOS de VIAGEM, cabe a cada MALUNGO construir, manter, organizar e cuidar do seu BAÚ… Valorizando cada pérola cada pedra… cada grão de areia que considerar coerente e importante para a sua História para a sua formação… para a sua Jornada…

 A escolha que fazemos é de nossa inteira responsabilidade e cabe a cada CAPOEIREIRO (4) partilhar esta BAÚ com os seus iguais contribuindo desta forma no emaranhado jogo do conhecimento e sua disseminação, pois segundo Mestre Decanio, a Capoeira é uma Escola de Cidadania.

“…nenhum homem se constrói homem sem a ajuda e interação de outro homem…” (5)

 

 

Referências:

(1) Referência aos Irmãos de Roda, interessante encontro de capoeira, que acontece todos os anos no mes de novembro, na cidade do Porto.

(2) Referência à CCM – Casa de Capoeira Malungos, Irmãos de Viagem, “celeiro de bambas” da capoeiragem Paulista na Decada de 90.

(3) Em Homenagem ao Mentor e Amigo, responsável direto pelo espírito do Portal Capoeira, Mestre Decanio.

(4) Em Homenagem ao Amigo e Parceiro de Capoeiragem Miltinho Astronauta e a sua forma ímpar de ver a nossa capoeira.

(5) Lev Semenovitch Vygotsky: Cientista e Pensador importante em sua área e época, foi pioneiro no conceito de que o desenvolvimento intelectual das crianças ocorre em função das interações sociais e condições de vida. 

Memórias de um cidadão-capoeira

O livro de Umói: Memórias de um cidadão-capoeira

No meio de centena de milhares de carros que disputam um espaço no meio da tarde de nossa Capital Federal, a Brasília de nossas vidas comuns, de nosso começo, no início da estrada em que ele também viveu e representa no seu livro.

Os carros loucos buscam uma passagem, uma brecha por onde se jogar, por onde encaminhar sua vida, seus anseios e sua cavalgada, no trote dos minutos rápidos que passam sob a neblina desses passos que damos sem notar…

Ali exatamente eu começo a me lembrar do livro Capoeira, provocando a Discussão, que  meu amigo/irmão Mestre Umói,  de Souza, lançado recentemente na calma serrana de Sobradinho, quase no anonimato da vida oficial do planalto central do Brasil e que eu já tive o privilégio até mesmo de ler a versão pré formatada, antes de sair da gráfica e agora recebo o exemplar que me foi destinado por seus discípulos, dias após a sua impressão, já que ele se encontra na sua nova terra, nas proximidades de Dusseldorf, na Alemanha.

Nesse burburinho eu me lembro da importante verdade que podemos encontrar na capoeira e que Umói retrata no seu livro, de que nós somos embevecidos de uma calma privilegiada…  os capoeiristas são pessoas que conseguem ser tranqüilos, embora vivendo no meio de uma série de competições estereotipadas das cidades, da vida comum das pessoas,  onde se disputam coisas estranhas, escrotas, feias e sem brilho, transformando o ser humano num arquétipo de coisa nenhuma que povoa os lugares-comuns.

Essa calma nos permite sair pela vida de uma maneira própria, colecionando pérolas que a estrada oferece para quem está com tempo para tal, para quem se presta e se empresta a essa jornada sem volta da vida, essa coleção de momentos eternizados na memória poética que habita os capoeiras, são rodas, são canções, são amigos, são momentos, são viagens, são pétalas de energia que são recolhidas com a calma dos caçadores de vida, num planeta já quase sem…

Nessa estrada que vai para um lugar incerto, ele não quer chegar em lugar nenhum, ele é qualquer um, é um de nós, é um Capoeira, seu caminho não tem fronteira, nem balela, tem o espírito que anda, como meu personagem favorito da infância O Fantasma, da revista em quadrinho que lia e relia mil vezes. Pelo caminho, na calma ele vai entoando os seus versos de poeta e de capoeira, com seu berimbau, em cada página, recheadas de alegrias e de tristezas, de beleza, de vidas que preencheram a sua vida. Umói respira o que o vento lhe traz em cada passo, celebrações e momentos cruéis são apenas paisagens de um guerreiro que sai vadiando pela vida, e rir ou chorar é parte da história, não há tempo para pausar a caminhada. O berimbau recomeça a próxima roda e a vida continua consumada em mais uma ladainha.

Ele partilha sua história de modo generoso e grato por tudo. Ele é um irmão de todos. É um de nós, como disse. De nosso mundo, valoriza as suas origens, sua história, sua cidade, seus amigos, seu povo, sua terra e seu bairro. É um exemplo da mais pura expressão de amor por tudo que se tem desse mundo e que brota no coração de quem ama o que faz. 

Egoísmo meu me sentir na história dele, na história da capoeira de Sobradinho, mas enquanto ele estava dando seus primeiros passos na Arte da Capoeira, eu também o fazia, somos contemporâneos do mesmo ano de 1974. Ele em Sobrado e eu no Plano Piloto, além de minhas próprias questões de órfão de mãe e pai, chegado a pouco do Rio de Janeiro onde aprendi bastante coisa, quando sai do interior de Minas e de lá pra Capital Federal, enfrentava o estranho vazio de povo, do que a vida de Umói era plena. Muito mais tarde eu descobri, quando fui para Fortaleza-CE, que a capoeira vem do povo, é dele, e não existe história verdadeira que não passe pelas aventuras e desventuras de um cidadão comum que virou capoeira.

No Plano as coisas ainda eram mornas para mim, só haviam as aulas e os eventos, não tinha a convivência de perto, do dia-dia com os camaradas da Academia. Local sagrado de conviver com bambas, mas ao sair porta afora a vida era outra, de trabalhador aprendiz da vida, as vezes a noite, mas sempre conciliando os deveres e a Academia Tabosa, a maior da cidade. Algum tempo depois, passados muitos anos, conheci Umói, já corda vermelha, por isso fui muitas vezes nos treinos no Bumba, nas rodas de sábado ou domingo. O lugar próximo a uma mata fechada era um convite para ir beber daquele axé maravilhoso, onde todos riam e brincavam de forma harmônica… Era maravilhoso ir lá, na Roda do União, rever e curtir pessoas como o Jeová, o Mariô, figura ímpar, única, eternamente ele só, na história de qualquer pessoa que o conheça.

A vida seguia em frente. Exatamente como conta o Mestre Umói. Os movimentos na Capital Federal eram cada vez mais intensos e os novos tempos acabaram por unir mais e mais a galera da periferia – no caso do DF, as cidades-satélites – aos capoeiras do Plano, forma resumida com que se entendia o Centro da Capital da República. 

Umói foi generoso também nisso. Compartilhou sua História com os daqui do Plano e de outras cidades-satélites, como ele frisa quando destaca sua admiração por capoeiristas que conviveu nos seus anos de aprendizado e de caminhada pelas estradas da Capoeira.

Depois dessa fase tão rica e envolvente, ele entra na difícil seara das verdades e inverdades, conversas fiadas, conversas sérias, parâmetros de autonomia dos grupos, esse modismo estranho que tenta pasteurizar a capoeira…

Umói debate e se debate com a falta de personalidade que assola os grupos de capoeira.

Ele desconfia de determinados modismos e das ideias que tenta definir os rumos da capoeira de acordo com os estereótipos e as verdades universais que as vezes se encontram nas práticas da capoeira.

Mais ainda, debate a questão internacional que envolve a capoeira na Europa, onde a cerca de 20 anos ele vive e professa sua arte.

Ele lembra certas premissas e condições inerentes ao aprendizado da capoeira, o idioma por traz e por dentro dessa arte. O aprendizado cultural brasileiro implícito na sua linguagem e todo desafio envolvido para que um estrangeiro se torne mestre da capoeira.

Livro Mestre Umoi

O seu debate vai bem longe. Vive dentro dessa questão. Conhece de perto em anos de convivência. 

Alguém pode até discordar de sua visão, mas nunca lhe negar a fala, a reflexão e deixar de levar em consideração suas questões. Ele sabe o que fala e o que pensa!

Umói demonstra sua indignação sem meias palavras. Tem sua tranquilidade em afirmar o que discorda e o que vê de deformação na capoeira. Tem a capacidade de transcrever com clareza sua percepção das questões da arte.

É um Mestre de Capoeira. Tem todo o direito de se manifestar.

Tem trabalho. Tem estrada. Tem credibilidade. Tem carisma. Tem as palavras que lhe saem mais do coração do que da mente! 

 

 

Waldeloir Rego e o seu “Capoeira Angola”

O livro Capoeira Angola, da autoria de Waldeloir Rego, e publicado na Bahia em 1968, é geralmente reconhecido como um livro fundamental para o estudo da capoeira.

 

Waldeloir Rego, reconhecido estudioso da cultura afro-baiana, nasceu no dia 25 de agosto de 1930, na cidade de Salvador, e faleceu na mesma cidade no dia 21 de novembro de 2001.

O seu Capoeira Angola, de 1968, é geralmente reconhecido como um livro fundamental para o estudo da capoeira. Infelizmente, não é fácil encontra-lo. Esgotada a esperança de ver Capoeira Angola — ensaio sócio-etnográfico reeditado pelo autor ou mesmo reimpresso, não podendo entregar cópia digital à comunidade devido à continuação dos direitos autorais, só podemos incentivar a procura em bibliotecas públicas colocando aqui um índice detalhado do livro e a conclusão (capítulo XVII. Mudanças Sócio-Etnográficas na Capoeira), esta na sua integra.

 

Mudanças Sócio-Etnográficas na Capoeira

Primitivamente a capoeira era o folguedo que os negros inventaram, para os instantes de folga e divertirem a si e aos demais nas festas de largo, sem contudo deixar de utilizá-la como luta, no momento preciso para sua defesa. As festas populares eram algo de máximo na existência do capoeira, era o instante que tinha para relaxar o trabalho forçado, as torturas e esquecer a sua condição de escravo, daí farejarem os dias de festas com uma volúpia inconcebida, pouco se lhes importando se a festa era religiosa, profana ou profano-religiosa. As procissões com bandas de música eram o chamariz para os capoeiras e, se tinham um pretexto para arruaças, faziam-no sem a menor preocupação de estarem perturbando um ato religioso. A propósito desses momentos, lembra Gilberto Freyre que:– “As vezes havia negro navalhado; moleque com os intestinos de fora que uma rede branca vinha buscar (as redes vermelhas eram para os feridos; as brancas para os mortos). Porque as procissões com banda de música tornaram-se o ponto de encontro dos capoeiras, curioso tipo de negro ou mulato de cidade, correspondendo ao dos capangas e cabras dos engenhos”. Vivia assim o capoeira em seu status social sem nenhuma simbiose com outro, capaz de modificar a sua estrutura.

[p. 360]

Com o passar dos tempos e cada vez mais crescente a sua fama de lutador e de implantar grandes desordens em fração de segundos, sem possibilidade de ser molestado, conseqüentemente ficando oculto, para quem estava a serviço, o capoeira passou a ser a cobiça de políticos. Serviria de instrumento de luta ora para a nobreza, que dava os seus últimos suspiros, ora para os republicanos, que lutavam encarniçadamente para obterem a vitória sobre o trono, daí os graves acontecimentos que abalaram o país, nos fins do século passado, já anteriormente estudados neste ensaio e registrados por Gilberto Freyre, ao fazer a história da decadència do patriarcado rural e o desenvolvimento do urbano. Com isso, a capoeira, um folguedo por propósito, começa a sofrer mudanças de caráter etnográfico, em sua estrutura — a luta que era um acontecimento passou a ser um propósito. Por outro lado, isso acontecia justamente num período em que a sociedade brasileira chegava ao auge nas suas transformações de base por que vinha passando e “com essa transformação verificada nos meios finos ou superiores, deu-se a degradação das artes e hábitos mestiços que já se haviam tornado artes e hábitos da raça, da classe e da região aristocrática, em artes e hábitos de classes, raças e regiões consideradas inferiores ou plebéias. Foram várias essas degradações; e algumas rápidas”. Como se vê, a capoeira, por uma determinação sociológica, não poderia estar imune a essas transformações.

[p. 361]

Esse estado de coisas veio se arrastando e se desenvolvendo até 1929, com o advento de Mestre Bimba, que tira a capoeira dos terreiros e a põe em recinto fechado, com nome e caráter de academia, onde os ensinamentos passaram a ter um cunho didático e as exibições possibilitaram a presença de outras camadas sociais superiores. Desse modo os quadros da capoeira passaram por modificações profundas. A classe média e a burguesia para lá acorreram, a princípio para assistirem às exibições e depois para aprenderem e se exibirem a título de prática de educação física, daí a 9 de julho de 1937 o governo oficializar a capoeira, dando a Mestre Bimba um registro para sua academia. Um status social superior ao dos capoeiras invade as academias e os afugenta. Os que resistem, por minoria, se esforçam para se enquadrarem no modo de vida do invasor, porém sendo tragados por ele, começando assim a sua alienação e decadência como capoeira. Forçando uma compostura de rapaz-família, exibem-se somente em recintos fechados, salões burgueses, palácios governamentais e jamais onde primitivamente se exibiam, como por exemplo nas festas de largo. Como já tive oportunidade de salientar, em virtude de nenhuma academia querer exibir-se nas festas populares, o órgão oficial de turismo municipal da Bahia convidou várias academias para comparecerem às referidas festas pagando-lhes as exigências. Então houve um cafuso, mestre de uma academia, que, ao saber da finalidade do convite, declinou, alegando ser sua academia freqüentada por uma casta já referida, não podendo misturar-se com o povo de festa de largo.

[p. 362]

Mas o agente negativo no processo de decadência da capoeira, sociológica e etnograficamente falando, foi o órgão municipal de turismo. Detentor de ajuda financeira, material e promocional, corrompeu o mais que pôde. Embora o referido órgão tenha por norma a preservação de nossas tradições, os titulares que por ele têm passado, por absoluta ignorância e incompetência, fazem justamente o contrário, direta ou indiretamente. Lembro-me bem de presenciar um deles interferir na indumentária das academias e os seus responsáveis acatarem pacatamente; e infeliz do que não procedesse assim — estaria banido da vida pública para sempre. Houve época em que as academias eram fantasiadas como verdadeiros cordões carnavalescos, cada qual disputando cores mais berrantes e variadas em suas camisas e calças. Já falei também de um mestre de capoeira que foi consultar um dos diretores de turismo da possibilidade de colocar número nas costas de seus discípulos, como se fossem jogadores de futebol, mas que em boa hora o bom-senso baixara na cabeça do referido diretor, proibindo terminantemente. O fato é que, quanto mais palhaçada faz a academia essa é a preferida do órgão público. No momento em que escrevo este ensaio existe uma academia com amparo financeiro, material, promocional e ainda com direito a se exibir no próprio Orgão, até muito tempo com exclusividade, em detrimento de outras, porém hoje apenas a coisa é mascarada com a presença de uma outra, quando em realidade o órgão não deveria promover exibições dessa espécie, em seu próprio e sim escoar os turistas para as diversas academias. Pois bem, essa academia, que por sinal possui um grande mestre e excelentes discípulos, está totalmente prostituida. Com a preocupação de não perder o ponto, em detrimento de outra, a dita faz misérias, em matéria de descaracterização. A certa altura da exibição, o mestre perde a sua compostura de mestre, diz piadas, conta anedotas, faz sapateado com requebros e apresenta alguém para fazer um ligeiro histórico da capoeira, onde as maiores aberrações são ditas. Depois faz um samba de roda ao som dos instrumentos musicais da capoeira, vindo para a roda sambar, cabrochas agarradas de última hora, passista de escola de samba ou profissional amigo do mestre, que por acaso aparece no local. De certa feita, perguntei-lhe o porquê daquilo, ao que me respondeu que era pra não ficá monoto (ele queria dizer monotono) e o turista ir-se embora. A grande lástima é que essas coisas continuam a ter a cobertura oficial.

Lamentavelmente, o quadro atual das academias de capoeira é esse, variando apenas a intensidade das mudanças sociológicas, etnográficas e o grau de decadência. Nos bairros bem afastados, longe das tentações ventiladas e também talvez porque jamais tenham acesso a elas, existem capoeiristas que praticam o jogo apenas por divertimento, no maior estado de pureza e conservação possíveis e enquadrados no seu status social.

 

Waldeloir Rego
Capoeira Angola – ensaio sócio-etnográfico

 

Rego, Waldeloir, Capoeira Angola – ensaio sócio-etnográfico,
Editora Itapoan, Salvador, 1968 – Obra publicada com a colaboração da Secretaria de Educação e Cultura do Governo do Estado da Bahia. In-8.vo de 400 páginas. Ilustrações de Hector Júlio Paride Bernabó (Carybé).

 

Fonte: http://www.capoeira-palmares.fr/

Waldemar da Paixão Gravação Histórica de 1953

O Barracão

Mestre Waldemar construiu o seu barracão no morro que chamavam ainda do Corta-Braço no início dos anos 1940, não longe da Estrada da Liberdade.

Já existia na vizinhança o terreiro de candomblé dos Egugun de Tio Opê. Muitos trabalhadores baianos invadiram terras neste setor para constroirem as suas casas. 

O terreiro de mestre Waldemar localiza-se no célebre bairro proletário da Liberdade. Bairro de grande densidade de população, sem pretensões, esquecido da Prefeitura que se preocupa em embelezar e cuidar só daqueles trechos da Cidade do Salvador que se encontram à vista do turista. Quanto ao bairro da Liberdade, não é para “gringo” ver. Como todo bairro operário, não tem calçamento, é cheio de valas onde, em tempo de chuva, as águas apodrecem envoltas em nuvens de mosquitos; seus incontáveis casebres mal se têm de pé, e se o fazem é por pura teimosia. Abundam as vendolas onde se compra desde a jabá até a caninha. É um bairro repleto de vida e de movimento, corajoso e revoltado.

 

A Musicalidade de Waldemar

Waldemar marca a sua diferença de conceito com os músicos usando o termo gritar*, tratando-se de cantar para a capoeira. Nem ele, nem Mestre Bimba aceitaram o violão em suas capoeiras. Até hoje, é costume que os membros da charanga sejam capoeiristas.

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*gritar — Esta diferença de estilo vocal certamente faz parte de uma repartição geral dos papeis entre homens e mulheres na Bahia da época, na qual a capoeira é uma atividade masculina. Uma cantiga de capoeira affirma explicitamente: Quem bate pandeiro é homem / Quem bate palma é mulher. No samba e no candomblé somente os homens batem os tambores, enquanto as mulheres sacodiam o shekerê, batem palmas e cantam. Waldemar talvez usa o termo gritar tanto para afirmar a sua masculinidade que para se diferenciar dos cantores de radio.

 

Estética é Importante…

A pintura do berimbau, inventada por Waldemar, foi adoptada por muitos, mas não por todos. Ao menos Mestre Bimba não a aprovava (Shaffer 1977:26-27).

De acordo com as nossas medidas, uma diferença de um tom não pode ser alcançada com um berimbau maior do que 1.20m, tamanho conforme ao relatório de Shaffer 1977:21 sobre os berimbaus de Waldemar, de quem o autor recolheu também uma medida logicamente baseada no tamanho da mão, sete palmos. No caso, um palmo só pode ser a distância do pulso à ponta dos dedos, aproximadamente 17 cm.

 

Fama e Reconhecimento

Pode-se relembrar a apreciação de Waldeloir Rego dezeseis anos mais tarde: Waldemar da Paixão – como bom capoeirista antigo, a sua fama corre paralela à de Mestre Bimba. Quanto às gravações recentes, testemunham na maior parte dos casos de uma construção inteiramente diferente, que repercuta, cremos, outro conceito do jogo.

 

Gravações Históricas de 1953

 

Textos extraídos do site: http://www.capoeira-palmares.fr “Capoeira no terreiro de mestre Waldemar EUNICE CATUNDA” e adaptados ao Artigo pelo Editor.

 

 

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Waldemar da Paixão, o Mestre da Liberdade

Revista Capoeira N°07, ano II

 

No último número desta Revista tratamos do desenvolvimento recente da capoeiragem na Bahia, fazendo referências a alguns dos personagens que fizeram o elo do passado das famosas rodas de rua com a realidade que vivemos hoje. Trata-se de uma linha sinuosa, e essa ligação histórica é muito difícil de ser traçada. Felizmente esse percurso vem sendo cuidadosamente reconstruído com o trabalho dedicado de pesquisadores como Frederico Abreu, Carlos Eugênio, Jair Moura, mestre Itapoan, Marcos Bretas, Letícia Reis, Antônio Liberac e alguns outros. Não nos preocupamos, nesse momento, em esgotar e nem mesmo detalhar o assunto, o que seria realmente impossível nos limites dos artigos publicados e, também, pelas nossas próprias limitações. De qualquer forma, o artigo anterior serve como uma brevíssima introdução ao tema que agora vamos abordar. 

Para isso, vamos nos valer de algumas referências a esse capoeira na bibliografia e, principalmente, do depoimento prestado em 1989, há dez anos portanto, para um projeto desenvolvido pelo Ministério da Educação, do qual o autor deste artigo teve a oportunidade de participar, juntamente com outros capoeiristas e pesquisadores, como mestre Itapoan e o saudoso mestre Ezequiel. Naquela ocasião, mestre Waldemar, com 71 anos de idade e sofrendo de mal de Parkinson, nos recebeu em sua casa com toda a gentileza e simplicidade que caracteriza o povo baiano. Foi um dos momentos mais singelos e importantes pelos quais já passei em minha vida. 

Temos visto que a comunidade da capoeira tem despertado a atenção para a vida do mestre Waldemar e sua enorme contribuição ao desenvolvimento da nossa arte-luta. Um bom indicador disso são as cantigas entoadas nas rodas, muitas das quais já fazem referência à importância desse homem, que durante muito tempo esteve quase esquecido por nós capoeiristas. Aos poucos vamos rompendo os limites da dualidade mestre Bimba/mestre Pastinha em busca de outros personagens reais, com histórias e estórias riquíssimas sobre seu cotidiano e sua vida na capoeiragem. No livro Bahia: imagens da terra e do povo, publicado em 1964, Odorico Tavares descreve uma roda de domingo à tarde no barracão de Waldemar no Corta-Braço, na Estrada da Liberdade, destacando as qualidades do mestre como cantor: 

“Com os tocadores ao seu lado o mestre levanta a voz, iniciando o canto. Os jogadores, em número de dois, estão de cócoras, à sua frente. É lenta a toada que o mestre canta, como solista e já os capoeiras acompanham-no em movimentos mais lentos ainda, como cobras que começam a mover-se: olhe o visitante atentamente, como aqueles homens nem ossos tivesses, seus membros parecem que recebem um impulso quase insensível, de dentro para fora. (…) Os homens não se tocam para defesas e ataques que se sucedem em imprevistos segundos. É um milagre em que a violência de um ataque resulte em outro ataque, em que ninguém se toca, ninguém se fere, ninguém se agride. É combate, é baile que dura duas horas.” 

Mestre Waldemar, tendo iniciado a prática da capoeira em 1936, já com 20 anos de idade, foi discípulo de Canário Pardo, Peripiri, Talabi, Siri-de-Mangue e Ricardo de Ilha de Maré: “Eu pedi a esses homens para me ensinar, para eu poder ficar profissional. Pra eu dizer que sabia, e sei mesmo. Aprendi capoeira”, afirmou o mestre. Começou a ensinar capoeira em 1940, ano em que se iniciam as apresentações na Estrada da Liberdade: “Antes era ao ar livre. Depois eu fiz um barracão de palha e os capoeiristas da Bahia vinham todos para cá, para jogar”. Aos poucos, a roda do mestre Waldemar foi se tornando um dos mais importantes pontos de encontro dos capoeiras baianos. Outros locais de reunião da capoeiragem eram, como afirmamos no artigo anterior, o Alto de Amaralina, onde mestre Bimba organizava rodas aos domingos: o tradicionalíssimo Largo do Pelourinho, onde a capoeiragem acontecia sob a direção de mestre Pastinha, e o Chame-Chame, onde ocorria a também famosa roda do mestre Cobrinha Verde. Waldemar nos conta um pouco dos personagens das antigas rodas, falando dos “valentões”: 

“Tinha uns que usavam a navalha na cabeça e jogavam com o chapéu. Comprava um chapéu na loja, e não fazia ziguezague na copa, nada. Da forma que vinha eles usavam. Chapéu era canoado, copa redonda, que era a navalha presa com uma tira de borracha. Eu jogava de chapéu, mas não usava nada. Eu não quis usar essas coisas não. Sempre eu quis ficar de fora de zoada, de barulho. (…) Então esse valor eu tenho até hoje. Todo mundo me aprecia, todo mundo gosta. Chega aqui de ponta a ponta, não tem quem fale de mim, em assunto nenhum. Sei tratar todo mundo bem, não maltrato pessoa nenhuma”. 

É interessante observarmos que nas antigas rodas da capoeiragem, a literatura confirma isso, ocorriam eventualmente conflitos provocados pelos chamados “valentões”. Mas essas figuras vivenciavam o ambiente da capoeira dentro de determinados limites, sobretudo respeitando os mais antigos e reconhecidos como mestres. O respeito ao mestre é, de fato, uma característica marcante da boa tradição da capoeira, e vemos os velhos mestres contarem com orgulho a posição que conquistaram nas rodas de seu tempo: 

“Barulho eu não tive com ninguém, porque eu sempre fui respeitado, nunca ninguém me desafiou. Se me desafiava para jogar, mestre que aparecia aqui, a minha cabeça é que resolvia. (…) Me respeitavam muito, os meus alunos. E não tinha barulho, porque eu olhava para eles assim, eles vinham pro pé de mim e ninguém brigava”. 

O mestre se emocionava ao contar sua história, e a emoção era mais forte quando nos falava da hora em que jogava:

“Quando em tava jogando, eu dizia: toque um angola dobrado. É embolado, ninguém dá um salto. É um por dentro do outro, passando, armando tesoura, se arriando todo. Parece que eu to vendo jogar. Eu joguei muito. (…) Eu gostava de jogar lento, pra saber o que eu faço. Pelo meu canto você tira. Eu canto pra qualquer menino jogar, e ele joga sem defeito. Para os meus alunos eu digo que vou cantar e eles já sabem o que eu quero: são bento pequeno. É o primeiro toque meu. Para o outro tocador eu digo: ‘de cima para baixo’, e ele sabe que é são bento grande. Para a viola eu digo: repique, e ele bota a viola pra chorar”. 

Assim, vamos aos poucos tentando nos transportar para aquele universo das rodas tradicionais, em que a figura do mestre era quase sagrada, respeitada por todos pelo seu saber e suas qualidades demonstradas na roda, no toque dos instrumentos musicais e nas cantigas. Mestre Waldemar, além de grande jogador, era também conhecido como um dos maiores cantadores da capoeira da Bahia: “Tenho orgulho inda na minha garganta, de gritar minhas ladainhas. Canto amarrado da capoeira angola. Isso eu não achei quem cantasse mais do que eu. Ainda não achei. Se mulher pariu homem, pra cantar não se cria…”. Perguntando sobre como se formava a “orquestra” da capoeira, o mestre nos disse: 

“Primeiramente um bom berimbau tocando. Três berimbaus: um berra-boi, um viola e um gunga. Depois, agora nessa moda nova, apareceu o atabaque, mas eram três pandeiros, três berimbaus e um reco-reco. E o instrumento que acompanha o berimbau, para ajudar o berimbau, o caxixi, e tinha o agogô. Depois que colocaram o atabaque em roda de capoeira, mas não tinha isso”. 

Sobre esse trecho, cabe uma observação: sabemos que não se pode estabelecer um padrão rigoroso de como se organizavam as rodas da antiga capoeira, em termos de instrumentação musical, o que se comprova pelos depoimentos de outros velhos mestres, como Caiçara, Bobó, Canjiquinha, Ferreirinha e outros. Entendemos essas diferenças, como afirmamos em outra oportunidade nesta revista, como próprias da cultura popular da qual a capoeira faz parte. Não podemos nos esquecer de que o improviso também é uma característica essencial da capoeira. A riqueza das antigas tradições da capoeira se encontra, segundo entendemos, em seus valores e fundamentos éticos e culturais, que são muito mais importantes do que detalhes como o número exato de cada instrumento que os mestres escolhiam para utilizar em sua roda. Outro comentário que pode ser feito também sobre a fala acima destacada diz respeito à utilização do atabaque: sabe-se que sua associação à prática da capoeira é anterior ao berimbau como se pode constatar, por exemplo, na gravura de Rugendas publicada em 1835. Naquela capoeira aparece um tambor, mas não há berimbau. No entanto, é provável que a prática da capoeiragem nas ruas com folguedo popular tenha, até mesmo por razões práticas, ocorridos por muitos anos sem a utilização de atabaques. Essa pode ser uma explicação para o fato de mestre Waldemar se referir ao uso do atabaque como “moda nova”. 

Retornando, então, ao depoimento do mestre da Liberdade, temos um importante relato sobre como ocorriam suas aulas. Há uma tendência a se pensar que nos círculos da capoeira tradicional o aprendizado estava restrito à convivência informal com o mestre. É verdade que a sistematização de aulas de capoeira, com métodos de ensino com maior rigor, tem na capoeira regional sua origem, mas tem-se identificado entre os mestres mais antigos da angola diversas e interessantes formas de transmissão de seu conhecimento adotadas já nos anos 30 e 40. A respeito do tema, mestre Waldemar nos informou como, em situações de ensino, sinalizava com gestos para os alunos determinando os movimentos que deveriam executar: 

“Eu ensinava na roda, mas tinha os dias de treino. Eles estavam jogando e eu fazia sinal pra fazer tesoura, fazia sinal pra chibatear. Fazia sinal pro outro abaixar”.

Assim, mestre Waldemar dava continuidade à tradição de ensino da capoeira angola, conforme aprendeu com diversos mestres, como já afirmamos. Referindo-se ao aprendizado com Siri de Mangue, antigo capoeira de Santo Amaro, disse-nos Waldemar: 

“Ele dava aquela volta e dizia: ‘Pegue na boca de minha calça’. Eu levava pra pegar na boca da calça dele e ele virava aquela carambola desgraçada e já cobria rabo-de-arraia. Quando eu ia levantando ele dizia: ‘Não levante não, lá vai outro’. Os alunos dele jogavam com a gente como que a gente já era bom. Chegava a riscar o chinelão, o sapato, deixar aquele risco. Naquele tempo tinha capoeira”. 

Observações dessa natureza são muito importantes nesse momento de grande expansão da capoeira nos meios esportivos, escolares e universitários, quando muitos dos novos pesquisadores e professores, muitas vezes pelas dificuldades de acesso às informações históricas, concentram-se em elaborar métodos de ensino em alguns casos sem aproveitar todo um conhecimento acumulado em tradições seculares.(…)

 

Revista Capoeira N°07, ano II (páginas 46 a 50)

 

O “renascimento” da capoeira no Rio de Janeiro

 

A capoeira no Rio de Janeiro retomou sua força coletiva apartir de meados do séulo XX 

 

A antiga capoeiragem das maltas que dominaram as ruas do Rio de Janeiro, capital do Imperio (1822-1889), fora desarticulada pela polícia assim que foi instaurada a ordem repúblicana no país. Luis Sérgio Dias, em “Quem Tem Medo de Capoeira”, defende que a capoeiragem encontrou assim sua “morte”. O que significa dizer que a capoeira perdia sua força agregadora, desfazendo-se as associações de capoeiras, as maltas, por conta da ação repressiva da polícia sob o comando de Sampaio Ferraz (chefe de polícia), o Cavanhaque de Aço.

Na primeira metade do século XX a capoeira sobrevive no cotidiano dos malandros, dosbambas, que tinham aprendendido os movimentos corporais e outras heranças culturais dos antigoscapoeiras. Este período de transição na história da capoeira carioca, entre a antiga capoeiragem dasmaltas e os atuais grupos de capoeira, encontra seu termo com a chegada de três capoeiristas baianos: Mestre Artur Emídio, Mestre Paraná e Mestre Mário Buscapé foram os primeiros a ensinar a capoeira em academias no Rio de Janeiro, em um momento que a esportização e “modernização” da capoeira estabelecia parâmetros que serviram como base de nossas tradições capoeiristas atuais.

As escolas formadas por Artur Emídio, Mestre Paraná e Mário Buscapé nas década de 1950 serviram como importantes fontes de estruturação da capoeira “moderna” no Rio de Janeiro. Atuando a partir da região da Leopoldina (região que comprrende os bairros que acompanham a antiga linha férrea ramal Leopoldina, atual Gramacho-Central), mais precisamente nos bairros de Higionópolis, Bonsucesso e Olaria, seus alunos e ensinamentos serviram de matéria-prima no desenvolvimento de uma rede de capoeristas de onde se multiplicaram grupos de capoeira que se espalharam pela cidade, sobretudo Zona Norte, pelo Brasil e pelo mundo.

 

Fonte: http://grupoterracapoeira.blogspot.pt/

Livro: Roda dos Saberes do Cais do Valongo

Esse livro documenta uma experiência singela. Acontece no cais do Valongo desde julho de 2012. O Valongo, lugar de desembarque de centenas de milhares de africanos escravizados entre 1774 e 1831, passou em seguida quase dois séculos encoberto e esquecido pelos habitantes do Rio de Janeiro e seus visitantes. Como era inconveniente lembrar desse lugar de sofrimento e de profunda injustiça, os donos do poder carioca o encobriram, primeiro com outro cais, depois com um largo chamado de “Jornal do Commercio”, o que evoca notícias de uma atividade decente e normal, não um crime contra a humanidade.

Agora, graças a iniciativa de Mestre Carlão e dos alunos do Kabula Artes e Projetos, reúnem-se ali na sombra mais próxima ao lado do antigo cais, cada terceiro sábado do mês, capoeiristas, artistas, acadêmicos e outros transeuntes para participar das várias rodas consecutivas: a roda dos saberes, a roda dos fazeres e a roda de capoeira. As falas da roda dos saberes, diligentemente selecionadas por Carlo Alexandre Teixeira e editadas pelo escritor e artista Délcio Teobaldo, permitem ao leitor entrever um pouco daquilo que está acontecendo nesse local que representa, segundo Ali Moussa Iye, diretor da Diversidade Cultural da UNESCO, “o mais importante sítio de memória da diáspora negra fora da África”. O Valongo constitui assim um lugar crucial de memória para lembrar a tragédia que foi o tráfico transatlântico de seres humanos escravizados, e sua escala inhumana de quase um milhão de vítimas desembarcadas apenas nas pedras desse cais. Por que a memória desse lugar foi silenciada durante tanto tempo? Milton Guran salienta na sua fala que os “capitais financeiros do Império tiveram ligação direta e participação direta com o tráfico negreiro. […] Toda economia do Império estava diretamente ligada e desfrutava do tráfico negreiro.”  De fato, é bom lembrar que o Rio de Janeiro foi não somente o maior porto de desembarque de escravos nas Américas, mas também o segundo maior porto de origem dos navios negreiros, depois de Liverpool, na Inglaterra. Ou seja, o Rio não era apenas o porto de destino dos navios negreiros de negociantes portugueses, mas foi mesmo o segundo mais importante porto de armação do infame comércio, perdendo apenas para Liverpool.

O Valongo é denominado de complexo porque inclui não somente o cais de desembarque, mas também o cemitério dos Pretos Novos para onde foram aqueles milhares de recém chegados que não se recuperaram dos horrores da travessia. Foram jogados em fossas comuns ali mesmo, sem cerimônia. Por que os traficantes haveriam de considerar os mortos se maltratavam os vivos? Como explica Denise Demétrio, o descaso com o corpo do escravo defunto era a norma no Rio de Janeiro colonial. A distância da fazenda para um cemitério ou para a igreja da paróquia geralmente sendo grande, “os cadáveres eram largados na estrada ou enterrados no meio do caminho para não custar um dia inteiro.” Mas ela também nos fala das primeiras pontes que se estabeleceram entre os próprios escravizados, também com a população pobre “de cor” e até mesmo com os senhores. Isso é revelado pelos registros coloniais de batismo do Recôncavo da Guanabara. O compadrio que se instaurou entre a casa grande e a senzala é o símbolo máximo do escravismo patriarcal brasileiro. Através dele, o dono reconhecia a humanidade de sua propriedade e a ideia da família extensa incluindo seus escravizados lhe permitia dar um ar de aparente respeitabilidade à instituição do cativeiro. Também acabou subvertendo a ideia de pensar a escravidão unicamente “como dois blocos, os senhores e os escravos.”

Entre a chegada, a re-partida ou a morte, o Valongo também foi um lugar de quarentena para os recém-chegados onde deveriam ficar até sua recuperação e venda. Por isso, salienta Hebe Mattos, o complexo do Valongo também é um “um espaço de aprendizado da língua, do trabalho, uma espécie de socialização para a nova vida que teriam.” A partir desse momento, o Valongo passa a ser não somente um lugar de tragédia, mas também de um milagre, que Richard Price chamou do “milagre da crioulização”. Várias das falas reproduzidas aqui nos contam outros aspectos desse processo de criação cultural. A minha própria fala tenta resgatar a memória dos Benguelas, um grupo importante entre os desembarcados, tanto em termos numéricos quanto pela sua cultura de jogos de combate que contribuiu muito para a formação da capoeira. Cláudio de Paula Honorato discorre sobre os capoeiras que trabalhavam na região portuária, destacando os grandes capoeiristas locais como o Prata Preta. Já Mestre Neco nos fala de seus próprios mestres: Adilson, Moraes, e o início da capoeira angola no Rio, até a década de 1980. 

Martha Abreu também faz reviver os bairros portuários, espaço de trabalho de uma população em sua maioria negra ou afrodescendente, mas também espaço de lazer. Depois da abolição do tráfico e do cativeiro, a “Pequena África” continua a receber migrantes negros, só que agora eles vêm da Bahia ou do Vale do Paraíba… Ela põe em evidência essa sociabilidade negra dos bairros portuários que pesquisas recentes estão redescobrindo. Personagens fascinantes como o Mano Elói, migrante do Vale do Paraíba, que “pertence ao candomblé, é capoeirista, trabalha no porto como estivador, participa de blocos, de ranchos e passa a ser fundador-membro atuante da fundação da Portela e depois da Império Serrano.” Luiz Antônio Simas reivindica que caras como ele seriam “os verdadeiros heróis civilizadores do Rio de Janeiro”, e providencia aos ouvintes mais um insight provocador dessa permanente tensão entre tragédia e milagre, no caso “o incômodo fabuloso que é você pensar uma cidade que tem como seus heróis civilizadores que codificaram, talvez, a maior referência de construção do imaginário dessa cidade que é o samba urbano carioca, uns camaradas que estavam lá traficando maconha; os camaradas que estavam lá colocando mulher na zona; uns camaradas que estavam lá morrendo de sífilis, morrendo de briga de esquina, morrendo por causa de um jogo da chapinha, morrendo por causa de um jogo de ronda.” A genealogia da cultura diaspórica não é, por definição, simples. Muita gente acredita, por exemplo, que o semba, gênero musical angolano, seria a origem do samba brasileiro.

Mas como Mauricio Barros de Castro explica na sua fala sobre a história do N’Gola Ritmos, não foi bem assim. Esse grupo se engajou na luta anti-colonial, trouxe o quimbundo de volta pra canção angolana, dominada até então pelos chamados  “assimilados”. Mas o que veio a ser o semba foi concebido pelo predecessor “Grupo dos Sambas”, orquestra angolana “inspirado justamente no samba brasileiro”. Assim, “essas culturas que consideramos nacionais são, na verdade, construídas nos movimentos de diáspora; nos movimentos de trânsito Atlântico.” Adriana Facina examina um novo capítulo dessa história do silenciamento e da criminalização das expressões culturais da diáspora africana. O Programa de Aceleração ao Crescimento (PAC) efetivou uma série de remoções em favelas com consequências negativas. Ela nos conta como no Complexo do Alemão, obras do PAC destruíram uma galeria de grafite a céu aberto, produzida pelos artistas locais e, também, por artistas de fora. Esse rebaixamento das manifestações culturais é visível em várias outras manifestações culturais populares. Segundo constato de MC Leonardo, o processo de “pacificação” das comunidades, a ação da UPP, teve como resultado acabar com a diversidade cultural: “O baile funk não está agonizando, ele já morreu e a gente precisa revitalizar”. Com isso, acabou o concurso entre funkeiros, importante para a criatividade e interação do artista com público. No momento, a “molecada” da cultura está inventando as Rodas de Rima. Mas  mesmo “para rimar no meio da rua, sem caixa de som” ainda precisa de autorização da prefeitura… Por isso Amir Haddad afirma: “Quando saio pra rua estou transgredindo, estou politicamente me opondo a esta cidade, a esta cidade que não dá espaço para criação, uma cidade sem linguagem.” Vários palestrantes da roda dos saberes nos falam assim do poder de mobilização da arte, em particular da arte pública como o grafite e o funk, ou da roda de capoeira. Acredito que o Valongo, por ser um espaço de memória tão impactante, tem a vocação de também virar um espaço privilegiado para a arte pública. O Valongo, espaço de arte pública, e como resultado disso, também espaço de utopia. Ainda nas palavras de Amir: O espetáculo de rua “passa a ser a utopia representada, […] quando se equilibram as forças públicas e as forças privadas em um espetáculo, quando se estabelece a harmonia entre o privado e o público […] Você está eternamente naquele lugar. Presente, passado, futuro é uma coisa só, no momento que você consegue esse encontro na praça com as outras pessoas”.

Isso é particularmente relevante agora que a área portuária está passando por uma mudança radical. Investimentos bilionários estão resultando numa reforma impressionante da infraestrutura além da construção de espaços para escritórios, comércio e moradia. Torres novas estão pipocando em vários lugares. O perigo é que mais uma vez passa a operar a política do silenciamento. Como lembra Wallace de Deus, a nova sede do Banco Central será edificada no local mesmo onde ficava o Lazareto dos Escravos. Vai ter algum tipo de memória em evidência no edifício novo do Banco Central?  É  verdade que foram resgatados alguns artefatos provenientes das escavações pelos arqueólogos. Um percentual do faturamento do Porto Maravilha é dedicado para a cultura, o que está abrindo uma série de oportunidades. Mas é importante também que os espaços de sociabilidade da área sejam reconstruídos ao mesmo tempo, para que a região portuária continue sua tradição, cultuando o seu milagre, a Pequena África. Como diz o Guran: “Então, o Valongo pode, no prazo de uma geração se transformar num grande centro multiplicador de cultura de matriz afro-brasileira, mas nós, a sociedade cível, temos que lutar pelo que consideramos correto.” Com as rodas de rima e de capoeira de rua em vários pontos da cidade, as sessões religiosas no Cemitério dos Pretos Novos e outras muitas iniciativas nessa área portuária que não tem espaço aqui para enumerar, isso já está acontecendo. Seria bom também mudar o nome do “Largo do Jornal do Commercio” para “Largo do Infame Comércio”, para dar mais visibilidade ao Valongo e reverter o processo de silenciamento. Por isso também a fabulosa iniciativa dos iniciadores e participantes da roda do Valongo merece todo nosso apoio.

Essas são as melhores maneiras de prestigiar os ancestrais africanos que foram desembarcados aqui: ocupar o Valongo com as rodas, os rufos dos tambores, os toques dos berimbaus – o milagre que deixaram para nós. 

Matthias Röhrig Assunção – Essex, 23 de novembro de 2014

 

Introdução

As obras de urbanização do Porto Maravilha, realizadas na Região Portuária do Rio de Janeiro, redescobriram o Cais do Valongo em 2010, após 167 anos encoberto por sucessivas ondas civilizatórias que transformaram radicalmente sua configuração original. No ano seguinte, graças ao Decreto Municipal 34.803 de 29 de novembro de 2011, o monumento passa a integrar o Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração Africana, composto por seis marcos históricos que legitimam a presença africana na região.

A partir dessas mudanças, o local se configurou como espaço urbano adequado à prática da Roda de Capoeira, evidenciado pela singularidade de ser o ponto onde funcionou o maior entreposto escravagista durante o período do tráfico Atlântico de africanos. Este fato acabou despertando a consciência, motivando o interesse e gerando a necessidade de se falar a respeito do que havia acontecido, em especial, na região conhecida a partir do inicio do século xx, como A Pequena África, um dos berços da cultura afro-brasileira no Rio de Janeiro. A Roda de Capoeira do Cais Valongo iniciou suas atividades no dia 14 de julho de 2012, treze dias após a inauguração dos monumentos do Cais do Valongo e da Imperatriz e Jardins Suspensos do Valongo. As palestras que precedem cada roda de capoeira logo ganharam nome, passando a se chamar Roda dos Saberes. Em seguida foi criada uma agenda fixa, trazendo um programa de que participaram palestrantes renomados. Esse formato atraiu a atenção do público engajado na cultura popular, da mídia, pesquisadores e acadêmicos que entraram em contato, solicitando dados relativos aos objetivos e desdobramentos da roda para pesquisas ligadas a políticas públicas e cultura popular, dentro da ótica da “arte pública” e da democratização e ocupação dos espaços urbanos.

Este livro é fruto desta roda pública, realizada a céu aberto no antigo Cais e desde seu início se propõe a pensar a cidade do Rio de Janeiro, a partir de fatos passados e atuais da sua história e de sua cultura, através do convite a pesquisadores, professores especialistas e artistas para falarem, in loco, sobre temáticas relacionadas a estas áreas do conhecimento. De 2012 para cá, contamos mais de 30 rodas naquele local e uma frequência estimada em mais de três mil visitantes, entre amantes da cultura, capoeiristas, pesquisadores, moradores da região e turistas, que visitam o Valongo nos dias de roda para assistir não apenas a capoeira angola mas, também, às atividades integradas a ela. Por isso, é importante frisar que seu maior diferencial e ineditismo consiste na dimensão da produção de conteúdos, dinamizados no contexto desta cultura imaterial, ou seja, a partir do envolvimento de especialistas nas Rodas dos Saberes como prática sistemática integrada à Roda de Capoeira. Somada a isso, outra grande inovação surgida dentro desse processo foram os registros fotográficos, realizados pela fotógrafa Maria Buzanovsky e a captação de imagem em vídeo por Guilherme Begué. Com destaque para as fotografias que impressionam pela qualidade artística e invadiram o ciberespaço através das redes sociais, além de serem expostas em museus e galerias de arte, no Rio, Niterói e Lyon, na França. Além disso, também conquistaram prêmios de fotografia importantes. As filmagens se tornaram clipes bem realizados, exibidos em sites de compartilhamento de vídeos. Ao mesmo tempo em que tudo isso acontecia, alguns grupos de capoeira angola criaram o movimento cultural Conexão Carioca de Rodas na Rua: um calendário mensal de Rodas Públicas de capoeira, com datas fixas e locais pré-estabelecidos, ocupando espaços públicos da cidade.

O Conexão Carioca, como ficou conhecido o movimento, sistematizou e ampliou algo que já acontecia na cidade há muito tempo, facilitando ao público o acesso ao conhecimento e à participação nas rodas, divulgando e ampliando as oportunidades para que os capoeiristas, também, a pratiquem publicamente. É inegável dizer que graças ao envolvimento de diversos grupos e de rodas de capoeira, integrados num movimento organizado, a Roda do Cais do Valongo ganhou visibilidade sem precedentes, assim como as outras rodas do Conexão Carioca, destacando-as no circuito cultural e nos espaços públicos da cidade. É bom notar, que após alguns meses de funcionamento dessa metodologia de trabalho, que associou o calendário do Conexão Carioca à produção e à circulação das fotos e vídeos na internet, foi gerado um impacto sobre diversas rodas pelo Brasil e pelo mundo, pois deram mais visibilidade e importância às rodas públicas de capoeira. Portanto, foi por meio dessa sequência de ideias que se criaram condições especiais para que a Roda do Cais do Valongo alcançasse notoriedade e impacto positivo, especialmente, sobre a Região do Porto. Hoje, esta ação é considerada uma das tradições culturais locais e a prova disso é que foi integrada como um dos pontos de partida do “Roteiro de Visitas Guiadas à Região Portuária”, enquanto patrimônio cultural imaterial de herança africana, uma ação patrocinada pela Concessionária Porto Novo.

É importante perceber que, nesta mesma época, houve uma aproximação maior entre os agentes culturais locais com o poder público. Este processo coletivo reuniu diversos agentes culturais, gestores e artistas independentes que realizam atividades na zona portuária, organizados em torno de um objetivo comum: a reivindicação de programas, ações e políticas públicas para a cultura da região. Foi a partir desta ação integrada que se consolidou o Condomínio Cultural da Região Portuária, que até hoje possui papel crucial no diálogo, entre os protagonistas que fazem a cultura e a arte do porto com o poder público. Em meados de 2013, a Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro (CDURP) e a Prefeitura do Rio, alinhadas às diretrizes traçadas pelo Programa Porto Maravilha Cultural, lançou o primeiro prêmio dirigido exclusivamente aos projetos para a Região Portuária do Rio de Janeiro, o “Prêmio Porto Maravilha Cultural”. A partir daí surge a oportunidade para que diversos agentes e gestores culturais que trabalham na região portuária possam transformar suas ações em projetos ou seus sonhos em realidade.

Nesse momento, a Roda do Cais do Valongo foi inscrita como projeto, com o nome O Porto Importa – Memórias do Cais do Valongo, destinado à manutenção das três ações que já aconteciam: a Roda de Capoeira do Valongo, a Roda dos Saberes e a Roda dos Fazeres (oficinas). A novidade é que incluímos três novas ações objetivando ampliar o alcance do projeto. Assim, propomos uma exposição com as fotos de Maria Buzanovsky; um vídeo documentário Memórias do Cais do Valongo e o livro Roda dos Saberes do Cais do Valongo, que agora vocês terão a oportunidade de ler.

O projeto O Porto Importa – Memórias do Cais do Valongo foi premiado entre 34 dos 206 inscritos para a seleção e, desde então, já mobilizou para o Valongo uma quantidade considerável de público durante os seis meses do projeto. Esse público é composto, basicamente, por professores e alunos da rede pública de ensino, crianças moradoras em ocupações, assim como alunos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), do Programa Estudante Convênio de Graduação de países africanos e caribenhos: Jamaica, Costa do Marfim, Benin, Congo, Haiti e Barbados, o que nos motiva e estimula ampliar as atividades que realizamos na região do porto. Esperamos que vocês, leitor e leitora deste livro, satisfaçam a forte demanda por conteúdos relativos à história do Rio de Janeiro, neste momento de aparente sensibilização da memória carioca e sejam contagiados pelo diálogo proposto entre os 13 autores, cuidadosamente selecionados, nessa cartografia afetiva de memórias que surgem a partir do Cais do Valongo.

Carlolo Alexandre Teixeira – Rio de Janeiro, 20 de novembro de 2014

 

 

BATUQUE: “Pai João, capoeira e navalhista”

Mais uma passagem da capoeiragem pela amazônia se deu nos versos do poeta Bruno de Menezes, nascido em 1893 no bairro do Jurunas, em Belém do Pará, deixou um importante legado a cultura amazônida em seus versos e prosas, falecendo em 1963 na cidade de Manaus. Em seu livro “Batuque” publicado pela primeira vez em 1931, o poeta conta a história de Pai João, capoeira e navalhista que cisma no tempo de ontém, que de tanta desordem e furdunço, foi recrutado para Guerra do Paraguai lutar. Segue abaixo o texto…

 

Pai João

Pai João sonolento bambo na pachorra da idade

Cisma tempo de ontém.

De olhos vendo o passado recorda o veterano

A vida brasileira que ele viu e gozou e viveu!

Mãe Maria contou que o pai dele era escravo…

Moleque sagica e teso, destro e afoito num rolo,

Pai João teve fama de capoeira e navalhista.

– Eita!… era o pé comendo,

quando a banda marcial saía à rua,

com tanto soldado de calça encarnada.

E rabo-de-arraia, cabeçada na polícia,

xadrez, desordens, furdunço no cortiço

e o ronco e o retumbo do zonzo som molengo do carimbó.

“Juvená

Juvená!

Arrebate

esta faca

Juvená!

Arrebate

esta faca

Juvená!”

De amores… uma anágua de renda engomada,

um cabeção pulando nos bicos duns peitos,

umas sandálias brancas bem na pontinha dum pé.

E o rebolo bolinante dos quartos roliços da Chica Cheirosa…

E a guerra do Paraguai! Recrutamento!

Gurjão! Osório! Duque de Caxias!

Itororó! Tuiutí! Laguna!

E não sabia nem o que era monarquia!

… Agora, sonolento o bambo,

tendo em capuchos a trufa,

Pai João ao recordar a vida braisleira,

que ele viu e gostou e viveu,

diz do Brasil de ontém:

AH! MEU TEMPO!…

 

80 anos de ‘Batuque’, do poeta Bruno de Menezes

Foi em junho de 1931 que saiu a primeira edição do livro de poemas“Batuque”, do poeta e folclorista paraense Bruno de Menezes, um registro da presença do negro na cultura brasileira. De lá pra cá já saíram sete edições, o que para Maria de Belém, filha do escritor, é uma grande conquista.
A segunda edição contou com ilustrações de Garibaldi, já a quinta foi uma tiragem especial em comemoração aos 350 anos de Belém. As ilustrações desta edição estão no piso do palanque da Praça Bruno de Menezes, no bairro de Canudos. O escritor publicou um total de 13 obras, sendo as primeiras tiradas pela Tipografia Guará, na Cidade Velha.
 
Criado no festivo bairro do Jurunas, conhecido por suas tradições populares, Bruno de Menezes, ou Bento de Menezes, como foi batizado, só fez o curso primário, o que não o impediu de imprimir em seus livros todas as manifestações de sua vivência. Foi o ofício de encadernador que o levou a apaixonar-se pelo mundo dos livros.
 
Obra reflete a musicalidade negra
 
Maria de Belém tem em “Mãe Preta” e “Pai João” alguns de seus poemas preferidos do livro “Batuque”. Funcionária aposentada da Justiça do Trabalho, a filha de Bruno de Menezes esbanja lucidez do alto de seus 84 anos de vida, e não deixa de citar, com orgulho, seus irmãos e os atributos de seu pai. “Meu pai era um homem cordial, alegre e presente, sempre nos incentivava muito na leitura e nos estudos”, relembra.
Com ilustrações de Raimundo Vianna, “Batuque” já foi adaptado para espetáculos e homenageado diversas vezes, como nas peças “Bento Bruno”, de Carlos Correia Santos, apresentada no ano passado pelos alunos da Fundação Curro Velho, no Teatro Waldemar Henrique, e “Batuque”, apresentado pela Cia. de Dança Clara Pinto no Theatro da Paz.
(…)
“A musicalidade dos poemas dele mostram o negro cantando a noite para disfarçar a dor de seu sentimento na senzala”, diz Maria de Belém.
João Bosco Castro chegou a musicar “O Cheiro da Mulata” e a “Escola dos Sapos”. “Numa excursão à França, brincava-se que o cheiro da mulata se comparava ao cheiro dos perfumes franceses”, divertem-se as filhas de Bruno.

 

“‘Batuque’ não fica só nas estantes de livros; é uma obra que tem um destaque popular e desceu para a alma do povo. São 80 anos de alma viva. Não é uma comemoração saudosa, é participativa”, emociona-se Maria de Belém.

Livro: Num Tronco de Iroko vi a Iuná Cantar

EDITORA PEIRÓPOLIS LANÇA “NUM TRONCO DE IROKO VI A IÚNA CANTAR”, DE ERIKA BALBINO

Acompanhado de CD de áudio com a contação da história e músicas de capoeira, livro apresenta para as crianças seres lendários das culturas cabocla, negra e indígena

A Editora Peirópolis lança, no próximo dia 24 de maio, na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, _915 – São Paulo, SP), o livro-CD infantojuvenil “Num tronco de Iroko vi a Iúna cantar”. Escrito por Erika Balbino e ilustrado pelo grafiteiro Alexandre Keto, a publicação aproxima as crianças da capoeira por meio de figuras lendárias das religiões de matriz africana, que marcaram profundamente o desenvolvimento da cultura brasileira.

Num tronco de Iroko vi a Iúna cantar narra a história dos irmãos Cosme, Damião e do pequeno e levado Doum, que um dia encontram com um menino chamado Pererê e, por meio dele e de muitos outros amigos que vão se juntar a eles nessa fábula, percorrem caminhos mágicos e descobrem os segredos e artimanhas da arte chamada de capoeira. Com  Pererê, a índia Potyra, Vovô Joaquim e outros seres lendários das culturas cabocla, negra e indígena, os três vão ao encontro do grande guerreiro Guariní, ou Ogum Rompe-Mata, capaz de ajudá-los a combater Ariokô e aqueles que fizeram a Mãe-Terra tremer de dor pelo desmatamento.

Erika Balbino revela a força da cultura africana em uma de suas manifestações mais populares ao narrar com maestria o encantamento e o deslumbramento dos protagonistas meninos ao desvendarem os poderes e os mistérios da capoeira, e de como essa prática tem o poder de falar com todas as pessoas. Uma luta, uma dança, um jogo, uma arte.

Ariokô, o ser irracional que os meninos irão combater, deseja usá-la como arma de sua vaidade, que funciona como uma cortina negra não o deixando perceber o poder acolhedor da capoeira, bem como todo o mal que a vaidade dos homens causa a Mãe Terra.

No prefácio, o professor de Jornalismo da USP, coordenador do CELACC (Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação) e membro do NEINB (Núcleo de Pesquisas e Estudos Interdisciplinares sobre o Negro Brasileiro) Dennis de Oliveira, traça uma analogia da invisibilidade da cultura negra com a brincadeira de esconde-esconde, afirmando que é necessário retirar a venda do preconceito dos olhos – que nos impede de ver o outro – para descobrir o que está escondido ao nosso redor.

Segundo a autora, apesar de estar presente em momentos históricos importantes  a capoeira tem seu reconhecimento só no papel, assim como várias políticas públicas em favor da cultura afrobrasileira e periférica.  “A capoeira foi declarada Patrimônio Cultural do País em 2008, e ainda hoje, está mais presente nas escolas particulares do que nas públicas, exceto naquelas que abrem espaço para programas sociais de final de semana, e nas quais o profissional da capoeira não é remunerado”, afirma.

Combatendo esse paradigma, a publicação introduz uma série de elementos dessa cultura para o público infantojuvenil. “A cultura afro-brasileira ainda é invisível. Seu ensino foi aprovado por lei (Lei 10.639/030 em 2003), mas permanecemos no campo do aprendizado da cultura europeia, replicando valores já tão ultrapassados. Continuamos no campo do folclore, como se o negro e até mesmo o índio fossem objeto de uma vitrine, utilizada para fazer figuração em momentos oportunos. A literatura pode nos libertar dessas amarras e acredito que esta seja minha pequena contribuição”, conclui Erika.

As lindas ilustrações de Alexandre Keto, artista urbano conhecido na periferia de São Paulo, com trabalho reconhecido na França e na Bélgica e educador social no Senegal, são lúdicas e dinâmicas, e harmonizam-se com a linguagem proposta por Erika Balbino, refletindo força e a riqueza do  imaginário plural brasileiro.

Encartado na obra há ainda um CD com a narração da história pela própria autora e cantos de capoeira e pontos de Umbanda, com a participação do percussionista Dalua, da cantora Silvia Maria, Rodrigo Sá, além dos Mestres Catitu, Jamaica, e Caranguejo, grandes nomes da cultura popular, esse último tendo exercido a profissão de Mestre de Capoeira por quase 20 anos na Fundação Casa. No final do livro há um glossário contendo todos os termos utilizados no livro que possam ser desconhecidos do público em geral. Além disso, a contra capa do livro conta com um QR Code que pode ser acessado por qualquer smartphone e permite ouvir a todas as músicas do CD.

Apaixonante, “Num tronco de Iroko vi a Iúna cantar” é uma fábula sobre amizade, descoberta e fé, e nos mostra que o conhecimento pode estar muito perto e, no entanto, damos uma volta ao mundo para encontrar o que buscamos. Com outro olhar e sem vendar os olhos, percebemos novos significados em coisas que, desde sempre, estavam ao nosso alcance. Como escreve o escritor e jornalista Nirlando Beirão na apresentação do livro “Erika da uma rasteira no preconceito em prol desta cultura que o Brasil reluta em aceitar investigando, na ginga dos negros, a rica relação entre corpo e música, entre combate e dança, e nos presenteando, com sua arte mandingueira, com uma obra capaz de enfeitiçar gente pequena assim como adulto teimoso”.

 

Erika Balbino

Nasceu na cidade de São Paulo. Formou-se em Cinema com especialização em Roteiro na Fundação Álvares Penteado (Faap) e é pós-graduada em Mídia, Informação e Cultura pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc) da Universidade de São Paulo (USP). Além de seu envolvimento com cultura afro-brasileira e umbanda, joga capoeira há treze anos e desenvolve projeto de pesquisa sobre essa prática na capital paulista.

 

Alexandre Keto

Nascido na capital paulista, seus primeiros contatos com a cultura Hip Hop ocorreram em oficinas que aconteciam no bairro em que morava. Logo virou um multiplicador e passou a espalhar a cultura Hip Hop por diversos guetos mundo afora por meio de projetos sociais. Usa o trabalho artístico como uma ferramenta de transformação social, principalmente em países africanos, onde desenvolve projetos comunitários e de intercâmbio.

Sobre a Editora Peirópolis

Criada em 1994, a Editora Peirópolis tem como missão contribuir para a construção de um mundo mais solidário, justo e harmônico, publicando literatura que ofereça novas perspectivas para a compreensão do ser humano e do seu papel no planeta. Suas linhas editoriais oferecem formas renovadas de trabalhar temas como ética, cidadania, pluralidade cultural, desenvolvimento social, ecologia e meio ambiente – por meio de uma visão transdisciplinar e integrada. Além disso, é pioneira em coleções dedicadas à literatura indígena, à mitologia africana e ao folclore brasileiro. Para saber mais sobre a Peirópolis, acesse www.editorapeiropolis.com.br

 

FICHA TÉCNICA

  • Título: Num tronco de Iroko vi a Iúna cantar
  • Autor: Erika Balbino
  • Ilustrador: Alexandre Keto
  • Páginas: 80
  • Formato: 21×26 cm
  • ISBN 978-85-7596-329-6
  • Preço: R$49,00

 

 

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Apple Getting Sued for ‘Planned Obsolescence’ of iPad 3

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Da Espiral à Roda

Nas redes sociais tenho visto com frequência publicações alusivas a uma nostalgia dos anos 80 (sim, esses que foram considerados pirosos!) acerca dos brinquedos, das brincadeiras, dos desenhos animados… o brincar na rua !!! Ah, que saudades! E tem-se falado sobre como as crianças crescidas nesses tempos estariam mais bem preparadas para enfrentar obstáculos ao longo da vida do que possivelmente estarão as crianças que hoje em dia primam pela tecnologia e pelo isolamento mais do que pela criatividade e o vínculo social.

Surge também nos últimos anos uma frequência mais elevada de diagnóstico de hiperatividade e défice de atenção do que nesses anos. Hiper = grande, atividade = criança? É suposto que as crianças sejam ativas, que se mexam, que sejam curiosas, aventureiras… não é isso ser criança? Mas ter essa atividade toda e não ter como a gastar pode ser altamente nocivo. E atenção, não pretendo minimizar os diagnósticos feitos nem o impacto que isso trás na vida da criança e da família, porque são situações extremamente complexas que têm que ser avaliadas com critérios rigorosos. Apenas pretendo pensar um pouco a hiperatividade na sua expressão mais lata, do senso comum, a hiper-atividade, a atividade em excesso.

Provavelmente nos anos 80 gastavam-se as energias numa apanhada, numa macaca ou num jogo de futebol e quando se chegava a casa, com fome e cansados e com apenas dois canais de televisão, poucas opções sobravam.

Pois, não era uma era tecnológica mas era uma era de ir para a rua. Mas os tempos mudam e não existem apenas efeitos secundários nocivos desta era tecnológica. Os miúdos tratam a tecnologia por tu. Ensinam os pais, os avós, os professores. Encontram músicas, jogos e histórias, chegam a todo o lado com um clique. A tecnologia está para as crianças de hoje em dia como as brincadeiras na rua estavam para as crianças dos anos 80. Sem dúvida que existem benefícios e perigos em ambas as épocas. Mas como em tudo, no meio é que está a virtude.

Uma das vantagens deste fácil acesso é que o longe está sempre mais perto do que nos anos 80. E tudo o que se fazia lá fora e nós só sabíamos 20 anos depois, agora é quase em tempo real. E isso não é necessariamente mau. Faz-nos sentir ligados. Faz-nos sentir menos sós. Parte de algo. Capazes.

A grande questão, na minha humilde opinião, é como conjugar isso. E aí, caros pais dos anos 80, a bola é nossa. Cabe-nos a nós fazer essa ligação. Sim, a nós que apanhámos a transição. As cassetes, os vinis e VHS, os CDs DVD’s DIVX, Nintendos, Spectrums, Playstations, Gameboys…nós conhecemos ambos os lados.

E a nós cabe a tarefa de ajudar as nossas crianças a tirar partido de estar com os outros, estar na rua, jogar esses jogos saudosistas, navegar na Internet, ver os programas mais adequados…enfim, sermos responsáveis por ajudar os nossos filhos a estar, a crescer e ser feliz nesta era.

A hiper-atividade é a expressão máxima da inquietação. Dentro e fora. E ainda não é pacífica a sua definição em termos etiológicos. É genética, é do meio, é daqui e dali… mas é. E a forma com lidamos com essa questão é que terá mais impacto do que o rótulo ou a origem.

Com isto, proponho um pequeno olhar por uma atividade já bem implementada em Portugal desde o final dos anos 80, mas ainda desconhecida para muitos de nós: a capoeira.

Muitos desportos, nomeadamente as artes marciais, visam o auto controlo, respeito das regras, capacidade de concentração, resiliência, competência…mas todas estas tarefas podem parecer hercúleas aos olhos de uma criança cujo nervoso miudinho é quem manda. Saber que se tem que estar atento pode ser por si só catalisador de maior agitação!

Mas existem atividades que podem juntar uma série de elementos que beneficiam de forma imensa as crianças (especialmente as hiper-ativas, ansiosas e introvertidas). A capoeira é sem dúvida uma dessas atividades.

Porque transmite noção de eu no mundo, através da passagem histórica das raízes interligadas (e nem sempre felizes) de Portugal e Brasil. Conhecimento histórico e geográfico, multiculturalidade, expressão física e artística, pertença do grupo, autoestima, atenção e motivação são alguns dos ganho imediatos da prática desta atividade. E porquê?

Porque o fator competição é preterido ao da inter ajuda, porque os grupos são habitualmente heterogéneos (em género e faixa etária), porque tem que se ser rápido e enérgico (valorizando os aspetos considerados tóxicos na hiperatividade), mas ao mesmo tempo atento para se esquivar de um golpe. Porque nunca se perde o outro de vista, porque se canta e se aprende a tocar instrumentos. Porque se valoriza o grupo em detrimento do indivíduo, porque existe a possibilidade de renascer através do batismo de uma alcunha de capoeira.

Porque se pertence. Porque se é. Porque se está ligado. E não é através da Internet. É ali, ao vivo e a cores!

E então, porque não, antes de mandarmos os meninos e meninas distraídos, impulsivos e inquietos para dentro de um cubo gigante e opressor de um medicamento que apenas faz bem aos cuidadores (que têm menos desgaste), mas que mata a criatividade e a possibilidade de encontrar alternativas, se mandasse para uma roda de capoeira?

 

NOTA: Apesar de considerar que as crianças com TDAH de acordo com o DSM IV-TR estão igualmente aptas a entrar para uma atividade física e desportiva como a capoeira, essa indicação deve ser dada criteriosamente em contexto clínico, de acordo com a avaliação da situação individual. E não se esgota na prática de uma atividade, a sua leitura é sempre multidisciplinar tal como a intervenção. Em caso de dúvida, contacte um especialista. A Psicronos em Setúbal tem um serviço dirigido a crianças e adolescentes, bem como o aconselhamento parental que pode e deve caso exista suspeita da criança ou jovem se enquadrar neste diagnóstico.

 

Carla Ricardo

Carla Ricardo é licenciada em Psicologia Clínica pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA) de Lisboa, desde 2002. Exerce clínica privada na delegação de Setúbal da Psicronos e tem formação base em Psicoterapia Psicanalítica, EMDR e terapia cognitivo-comportamental.

Email: carla.ricardo@psicronos.pt

Contactos: 213 145 309 / 918 095 908

Imagem: © Turma da Mónica / Maurício de Sousa