17 Fev 2005

Naná de Vasconcelos

"Eu trabalho com percussão como se fosse uma orquestra"    Viver só é possível enquanto o coração estiver batendo. Talvez isso explique

17 Fev 2005
"Eu trabalho com percussão como se fosse uma orquestra"
   Viver só é possível enquanto o coração estiver batendo. Talvez isso explique o poder hipnotizante e a sensação de vitalidade que a percussão atrai. Essa idéia foi inspirada numa conversa com um dos nomes mais importantes da percussão mundial. Naná Vasconcelos é um artista impressionante, que faz de sua arte um instrumento de alegria e respeito. Se o reconhecimento para ser respeitado no Brasil tem que vir de "fora", que seja: Naná foi eleito sete vezes o melhor percussionista do mundo pela revista americana Down Beat. Quer mais? Tem. Faz trilhas de balé para companhias de dança de vários países e atualmente está trabalhando para Pina Bausch, na Alemanha, para onde vai em outubro. Já compôs também para o cinema americano – tem residência em Nova York há 26 anos – em filmes como "Down by Law", de Jim Jarmush, "Procura-se Susan Desesperadamente", de Susan Seidelman, e "Amazonas", de Mika Kaurismak.
    Apesar disso tudo, ele sente falta e gostaria que a maioria de seus discos, lançados quase todos fora do País, fosse reeditada aqui. Talvez um ótimo presságio seja o recente lançamento editado pela gravadora Núcleo Contemporâneo. Trata-se do CD "Fragmentos", com trilhas sonoras compostas pelo músico para filmes, documentários e balés. Foi gravado em Paris, em 1998, e já editado na Europa, no Japão e nos Estados Unidos. No Brasil, Naná está mais atuante que nunca. Seja compondo ou atuando em filmes brasileiros ou dirigindo o Percpan, Panorama Percussivo Mundial, festival que é realizado todos os anos em Salvador. A biografia, a música, a expressão, a integridade, tudo é um show em Naná Vasconcelos. Veja a entrevista que o artista concedeu de Recife para a Página da Música.
PM – Naná, o que é a música para você?
NV – A música para mim é o que faz sentido na vida. É minha maneira de viver, minha razão de viver. Eu não sei fazer outra coisa a não ser música. Música é tudo para mim. Sou músico profissional desde os 12 anos de idade e sou autodidata, nunca fui a escola de música. Tive uma grande escola, que foi escola da vida, ouvindo todo tipo de música, como a folclórica, ou em bailes, cabaré. Comecei cedo no cabaré (risos). Hoje tenho consciência de que essa escola da vida me fez uma pessoa flexível. Aprendi a ouvir. E ouvir é uma das coisas mais importantes para um músico. Porque quando você aprende isso encontra seu espaço em qualquer situação em que estiver envolvido. No meu caso, às vezes eu toco um dia com um grupo punk rock, em outro vou tocar com um cantor religioso lá na Lapônia, na Noruega…
PM – Você acha que existe diferença entre o músico intuitivo e o músico acadêmico?
NV – Há uma grande diferença no sentido de que a intuição é uma das coisas mais fortes que nós temos. Aprender fazendo é diferente de aprender didaticamente. Inconscientemente a gente age assim: a pessoa que aprende didaticamente tem mais possibilidade de esquecer, porque ela confia muito no livro. Quando você aprende fazendo, o seu corpo se lembra, partindo do princípio de que o primeiro instrumento é a voz e o melhor é o corpo. É como aprender a andar de bicicleta. Vinte anos depois você pega a bicicleta e o seu corpo vai lembrar do equilíbrio. Além do que, aprendendo intuitivamente você tem possibilidade de ser mais um músico improvisador do que aquele músico que só aprendeu a ler. São poucos os músicos de orquestra sinfônica que tocam sem a partitura.
PM – Inclusive isso vem ao encontro das bases da educação moderna. Na verdade, descobriram o óbvio, de que quando aprende fazendo o indivíduo incorpora melhor o aprendizado.
NV – Um dos exercícios, em escolas de música, é tirar a partitura da frente para tentar memorizar aquilo. É um treinamento feito para o aluno não ficar bitolado a só tocar diante da partitura. É abrir dentro da sua cabeça outra maneira de fazer música.
PM – De que maneira você vê a percussão na música? Ela é base, melodia ou uma expressão musical por inteiro?
NV – Ela é uma expressão musical que depende muito da criatividade de cada um. Por exemplo, se você me der uma canção eu posso apresentar sugestões sobre esta música poder virar um samba ou um bolero. A percussão define essas coisas. Afinal, eu posso pegar uma melodia sua e apresentar três ou quatro opções. Quer dizer, a percussão num sentido rítmico. Eu trabalho com percussão como se fosse uma orquestra. Eu trabalho muita coisa dos timbres, da sonoridade, muito mais do que o elemento rítmico. Procuro extrair da percussão o senso de orquestração. Tento fazer uma percussão que dê ênfase ao visual que existe na música. A música tem um elemento visual muito forte. Villa-Lobos já fez isso quando compôs O Trem Caipira. Ele mostra o trem e depois coloca você na janela vendo as paisagens brasileiras. É escutar essa música e ver essa idéia assim. Eu trabalho muito nesse senso.
PM – Você sabe qual é a origem mais remota da percussão? Seria da África, talvez?
NV – A origem mais remota da percussão é a vida, porque se o coração não bater, não tem música, não tem vida! (risos). Mas a África é onde se propagou mais a percussão. Além dela, o Oriente, a Índia, as regiões mais antigas. O berimbau, por exemplo, tem similares na Índia e na Ásia, instrumentos de uma corda só. O símbolo do primeiro instrumento com corda, por exemplo, era o arco que virou corda. Assim como os índios americanos que tinham um arco que virou instrumento. A África é mãe eterna de tudo o que a gente faz criativamente. Estou falando de música, no caso. A África é o nome da tradição, e a filha mais nova da tradição chama-se internet (risos). Os africanos tinham como meio de comunicação os tambores ou batiam na madeira para mandar uma mensagem enquanto o outro respondia. Hoje a gente aperta um botão. Mas a mãe de toda essa tecnologia que existe hoje é a tradição. No caso, a África. A gente está imitando a natureza.
PM – Você tem muitos discos lançados em vários lugares, como Estados Unidos, Europa e Japão, e só três lançados aqui no Brasil. São eles o "Amazonas", de 1973, e dois nos anos 90, "Contando Histórias" e "Contaminação". Sem contar o "Fragmentos", que acabou de sair. Você não sente falta de outros títulos seus serem lançados aqui no Brasil?
NV – Claro, claro. Além de sentir falta eu já sofri muito, já chorei muito por causa disso. Mas eu entendi que para ser ouvido aqui no Brasil você tem de trabalhar aqui. No Brasil acontece tanta coisa que quem está lá fora, está lá fora, e ponto. Até com Tom Jobim ou João Gilberto quando moravam fora, ninguém nem falava deles por aqui. Quer dizer, é tanta coisa acontecendo no Brasil ao mesmo tempo que para você ser ouvido você tem de vir para cá. E agora está mais difícil, mesmo você estando aqui, porque a música virou um produto descartável. Mas isso ocorre por causa das gravadoras, não do público. Elas fabricam uma coisa que dura dois anos e dois discos, e pronto. Ninguém fala mais da Carla Perez. O axé está desaparecendo e eles vão colar outra coisa no lugar. Tinha o forró de Fortaleza que apareceu, como o Mastruz com Leite, depois desapareceu. Agora é o Falamansa, o forró universitário. Virou uma coisa descartável. Isso faz parte do marketing delas. Quando fui produzir o disco do Cordel do Fogo Encantado, uma gravadora falou que eles não tinham teclado, nem baixo, portanto estavam fora dos padrões de produto. No entanto, eles são originais e maravilhosos!
PM – Embora você continue com sua casa em Nova York, você está ficando mais tempo no Brasil. Com quais projetos você está envolvido no momento?
NV – Estou gravando um disco aqui. Também acabei de fazer a música de um curta no Recife, chamado "As Heroínas de Tejocupapo". Estou fazendo a trilha sonora do filme "Ginga", de Otávio Corrêa, e até participando do filme junto com a atriz Adriana Lessa. É a história, que foi adaptada para o Brasil, de uma rainha africana. Estou realizando também a trilha do filme "As Tentações de São Sebastião", de José Araújo, um longa-metragem. José Araújo foi quem fez "Sertão das Memórias", do qual tem músicas neste disco meu que acabou de ser lançado.
PM – Além de cinema tem outros projetos que você está fazendo?
NV – Estou envolvido com um projeto com a Pina Bausch, na Alemanha. Em outubro eu vou para lá. Outro projeto de dança é "A Sagração da Primavera", na Bélgica, com uma companhia chamada "As Palavras", uma companhia que ficou no lugar do Maurice Bejart. Esse espetáculo tem música do Stravinsky, mas entre um movimento e outro tem música minha.
PM – Está trabalhando bastante. Você está fazendo um disco também. Quando deve ficar pronto?
NV – Acho que daqui para o fim do ano está pronto.
PM – Como você está se apresentando atualmente?
NV – Atualmente tenho feito concertos solo ou com orquestra sinfônica. Fazer concertos solo acho interessante, porque procuro dar workshops dois dias antes do concerto. É uma maneira de encontrar os jovens músicos. E os meus workshops não são só para músicos. Chamam-se "Orgânico Workshops", que é o entendimento dos ritmos através do corpo. Então se abre um leque muito grande para atrizes, atores, dançarinos, músicos em geral, e não necessariamente só para percussionistas. É muito interessante porque encontro pessoas que, de uma certa forma, a música faz parte daquilo que elas fazem.
PM – Há bastante tempo você já é uma das influências mais importantes da música brasileira. A gente gostaria de saber quais foram suas influências, ou se ainda há coisas que te influenciam?
NV – Eu me influencio com tudo que me envolvo. Porque quando me envolvo, faço totalmente. No início, quem abriu muito a dimensão para mim foi o Milton Nascimento. Quando ele começou não tinha nem grupo ainda. Era só eu e o Milton. Aliás, o Milton e eu, porque eu fazia percussão para a música dele. Comecei a criar ritmos para a música do Milton e ele me deixava criar, isso foi muito bom. Quer dizer, me influenciou bastante. Hoje utilizo a minha voz influenciado pela voz maravilhosa que o Milton tem. Hermeto Pascoal é um grande percussionista, de uma certa forma, pela intuição e originalidade. Hermeto é responsável pela idéia de que tudo é percussão. Você pode pegar qualquer coisa e fazer virar um instrumento. Por exemplo, quando ele fez o Quarteto Novo e trouxe a queixada de burro. Isso são grandes idéias que o Hermeto lançou. Então ele foi uma influência muito grande na percussão.
PM – E no cenário contemporâneo? Você mencionou o Cordel do Fogo Encantado, como foi seu encontro com eles?
NV – Eles me convidaram para dirigir o disco deles e eu disse que tinha de conhecê-los primeiro. Eles estavam com dificuldade de vender seus shows porque ninguém os conhecia. A maneira que encontrei para conhecê-los foi quando fui fazer uma pequena turnê pelo interior de São Paulo e os convidei. Eu fazia meu show e os apresentava. Isso foi uma maneira de conhecê-los melhor. Mas o Cordel já estava pronto, o fato é que eles nunca tinham entrado em estúdio e meu trabalho foi muito mais de gravar bem o som dos instrumentos. Mas o fato de eles não conhecerem procedimentos de estúdio acabou sendo bom para não perderem a energia. Gravavam tudo direto. Se errassem, tinham de voltar e gravar tudo de novo. Não dava para emendar. Também conversava com o Lirinha, o líder do grupo, sugerindo idéias de colocar som de cigarra, fazer vinhetas, dando a idéia concepcional do trabalho. Foi maravilhoso. Eles são muito originais. Uma coisa que está vindo aí do sertão de Pernambuco.
PM – Como você vê essa questão regional, de identidade musical?
NV – Acho importante. Eu conheço o folclore do meu País. Tenho um projeto que se chama ABC Musical, que é educacional, para crianças, e conheço o folclore de diferentes regiões do Brasil. É isso que não me faz perder a identidade, mesmo morando fora todo esse tempo. Cada Estado nosso é uma mistura diferente. Tem coisas que só tem aqui em Pernambuco. A África do Maracatu só deu aqui. Ou o bumba-meu-boi, o tambor-de-crioula, lá no Maranhão, é uma outra África que o Brasil ainda não conhece bem. Porque todo o nosso folclore são verdadeiras óperas populares. Depois do Chico Science, começou a se falar muito em Maracatu.
PM – O que aconteceu no cenário da música brasileira foi muito interessante. Ao mesmo tempo que se internacionalizavam, os músicos também se voltaram para a música regional, muito a partir do Chico Science que isso parece ter ficado mais evidente…
NV – Exatamente. Ele abriu um grande leque. A música que está acontecendo no Brasil e que vai para fora do País tem bastante da cultura regional do Nordeste. Mestre Ambrósio, Nação Zumbi, Cordel do Fogo Encantado, mesmo o Mundo Livre S.A., Chão e Chinelo. Isso é maravilhoso!
 
CD "Fragmentos" – Lançamento Núcleo Contemporâneo
Site: www.nucleo.art.br / Tel. (11) 3873-1386
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