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Rivalidade feminina nas rodas

Rivalidade e competitividade existem desde que o mundo é mundo e não é exclusividade feminina. Mas entre as mulheres a rivalidade normalmente é mais acirrada ou, pelo menos, mais perceptível.

Infelizmente é comum as mulheres se verem como oponentes ou inimigas uma das outras, e se posicionarem de tal modo como rivais que ganham a fama de fofoqueiras, invejosas e traiçoeiras.

Na capoeira não é diferente e, nas rodas, a rivalidade feminina também faz fama, causa desunião e, algumas vezes, acaba até em briga e puxões de cabelo.

Já me indignei com um campeonato onde o regulamento para as competições masculinas e femininas eram bem diferentes. Ao questionar, a explicação foi de que “as mulheres levam tudo para o lado pessoal”. Mesmo a contra-gosto, observando algumas mulheres nas rodas nos dias que se seguiram, fui obrigada a concordar.

Mas por que isso acontece?

Sem dúvida existe a herança dos tempos das cavernas, onde se destacar para conquistar um macho de qualidade era até mesmo questão de sobrevivência. Mas os tempos mudaram e, ao invés de largar a competição, ela foi levada para outras áreas da vida, como o trabalho, ou, no caso, as rodas.

É bom lembrar que, independente do sexo, querer se destacar, ser o melhor, faz parte da natureza humana e é até saudável pois estimula a superação.

O fundamental é reconhecer quando a rivalidade passa dos limites, pois assumir a vida como um jogo onde o outro é um adversário que precisa ser “vencido” costuma ser sintoma de imaturidade e baixa autoestima.

Nesta situação, o melhor remédio é reconhecer que todos têm seus pontos fracos e fortes e que, a melhor forma de evoluir, é através da ajuda mútua, e não da disputa.

E para quem foi eleita “a rival” de alguém, não há nada melhor do que um elogio sincero a algo que “a oponente” tenha de bom ou faça bem, pois conhecer as próprias qualidades é um ponto de partida para o resgate da autoestima e para o fim da necessidade de se auto promover passando por cima do outro.

Neila Vasconcelos – Venusiana
capoeiradevenus.blogspot.com

Livro: Capoeira Angola por Mestre Pastinha

O livro: “Capoeira Angola”, escrito por Vicente Ferreira Pastinha, com prefácio de Jorge Amado foi originalmente lançado em 1964, pela Gráfica Loreto. A edição disponivel para download é datada de 1988, já em sua 3ª edição. Capa: Carybé. 

“É muito raro sair acidentado algum capoeirista em conseqüência da prática da Capoeira em demonstrações esportivas, porém, tratando-se de enfrentar um inimigo, a Capoeira não é dotada somente de grande poder agressivo, mas possui uma qualidade que a torna mais perigosa – é extremamente “maliciosa”.

O capoeirista lança mão de inúmeros artifícios para enganar e distrair o adversário: Finge que se retira e volta rapidamente; deita-se e levanta-se; avança e recua; finge que não está vendo o adversário para atraí-lo; gira para todos os lados e se contorce numa “ginga” maliciosa e desconcertante.

Não tem pressa em aplicar o golpe, ele será desferido quando as probabilidades de falhar sejam as mínimas possíveis.

O capoeirista sabe aproveitar de tudo o que o ambiente lhe pode proporcionar”.

  • fonte:texto extraído do livro “Capoeira Angola”, de Mestre Pastinha

 

Fundação Cultural do Estado da Bahia 1988

Agradecimentos:

Bruno Sousa – Teimosia

 

“Ou Mato ou Morro”: Capoeira como Weltanschauung

– Entrevista com Eduardo de Andrade Veiga – 

Entrevista realizada em São Paulo, em 20-10-99, por Luiz Jean Lauand. Eduardo Veiga, batizado por Bimba com o nome de guerra Duquinha, é capoeirista da velha guarda e foi discípulo de Mestre Bimba. É ainda professor aposentado da Univ. Federal da Bahia. Atuou também – aplicando a "filosofia da educação da capoeira" – como professor no Centro de Treinamento de Professores Anísio Teixeira (do Governo da Bahia). Edição: Luiz Jean Lauand.

"Ou mato ou morro: ou me escondo no mato, ou fujo para o morro…"

LJ: Poucos capoeiras refletem sobre sua arte e poucos intelectuais conhecem "por dentro" a capoeira. Nessa sua situação privilegiada – você foi assistente de Mestre Bimba e, por outro lado, vice-reitor de universidade – poderia falar-nos de como começou nessa arte e da capoeira como visão-de-mundo?
EV: Antes de mais nada, quero deixar registrado que este meu depoimento tem o caráter de uma homenagem a meu professor (de capoeira e, portanto, de vida), o grande Mestre Bimba, cujo centenário de nascimento se celebra no dia 23-11-99.
Comecei a jogar capoeira (quero observar, desde já, que capoeira "se joga": não é "arte marcial" de iniciativa agressiva; depois voltaremos a falar disso) ainda bastante jovem, em meados da década de 40, "vestindo farda" do Colégio dos Maristas de Salvador, e ingressei na capoeira como atividade complementar de minha formação pessoal. Escolher Mestre Bimba era seguir um caminho natural de excelência: Bimba já estava consagrado como grande capoeirista.
Por estranho que pareça, a Academia de Mestre Bimba ficava na "Laranjeiras", na época, a conhecida rua do meretrício. Só andar nesta rua já significava aprender: para chegar à Academia, era necessária a disposição de enfrentar eventuais problemas: a calçada era estreita, só uma pessoa podia passar e não raramente algum "valentão" – dos da zona – podia provocar… De modo que nós íamos pelo meio da rua.
Assim, a própria localização da Academia – já servia para ir ensinando duas lições, muito úteis para a mentalidade do capoeira: evitar o confronto desnecessário (no caso, evitar o passeio estreito) e evitar expor-se inutilmente ao perigo (passar perto das portas, de onde poderia surgir agressão de surpresa).
O ritual de ensino de Mestre Bimba começava por uma rigorosa seleção de quem entrava e de quem podia prosseguir na escola: tanto em termos de capacidade física como em termos de comportamento em relação aos colegas e ao mestre. Daí a escola ter um Regulamento – uma espécie de "código interno" – orientando a conduta dos discípulos. Nesse regulamento (talvez o primeiro código escrito de aprendizagem de comportamento da capoeira: um "código" seria impensável, por exemplo na capoeira de angola, extremamente fluída e espontânea…), encontravam-se normas como por exemplo: a de guardar silêncio durante a prática e observar atentamente o jogo dos companheiros. Mestre Bimba era também um educador muito sensível às fases de progresso dos alunos, sabendo extrair o potencial e avaliar as possibilidades de cada um.
A sentença que cunhei – um tanto jocosamente – "Ou mato ou morro" (no sentido de "Ou me escondo no mato, ou fujo para o morro…") – indica em sua formulação literal a temerária atitude de coragem irresponsável; já a jocosa interpretação poderia ser mal-entendida como pura e simples covardia. Na verdade, a capoeira não é nem uma coisa nem outra. A capoeira surge como objetivação, como consubstanciação da mentalidade do escravo, submetido a uma situação de desesperada injustiça e sem ter a quem recorrer ante o arbítrio de seus dominadores. Que defesa cabe em uma tal situação? Como sobreviver? Assim, desenvolveu-se entre os escravos – de modo mais ou menos inconsciente, mas profundamente racional – uma técnica, uma arte, um jogo, um jeito (ou talvez o único jeito) de ser e viver (ou sobreviver…). Isto corresponde a duas situações historicamente vivenciadas: a de enfrentamento direto dos desesperados escravos com o poderoso sistema dos senhores ("mato ou morro" no sentido literal) e o esquivar-se a qualquer confronto (esconder-se no mato), buscando o mato como espaço sobre o qual é possível uma forma de vida independente: os quilombos (é interessante observar que já os holandeses surpreendiam-se com a familiaridade, a facilidade, a desenvoltura com que os escravos transitavam pelos matos e morros…). Essa atitude é a base da capoeira. Subtrair-se ou, ao menos, procurar minimizar os horrores da escravidão, em busca de uma vida livre e digna (na medida do possível, evitando o desigual enfrentamento). Assim se compreendem certas "regras" (naturalmente, não escritas…) da capoeira em sua forma originária (a que deu origem a grandes mestres como Bimba), como por exemplo:
– Prontidão em observar o adversário e o ambiente. Como não se trata de iniciativa de agressão, mas de esquivar-se de um possível dano, é pela atenta observação que se vê a real dimensão do perigo e as rotas de fuga. Por exemplo, o capoeirista deve observar se o potencial agressor (e para o escravo – desde o "boçal", recém-desembarcado dos navios negreiros, ou o "ladino" ou "crioulo", já aclimatados – qualquer branco é um potencial agressor…) está de paletó aberto ou fechado (se aberto, há a possibilidade de ele sacar rapidamente uma arma…).
– Fazer sempre o papel do agredido ou do inocente. Como sua situação é de total desamparo social e jurídico, ser tido por agressor equivale à morte. Daí a malícia do capoeira: ele bate, mas como quem está apanhando; se recebe um golpe deve gritar e chorar como se a dor fosse muito superior à real, provocando compaixão ou desprezo… Pode desfazer-se em súplicas de misericórdia enquanto prepara um golpe fatal…
– Enquanto não mata, a pancada é suportável. Em todo caso, sempre há uma expectativa e, na primeira oportunidade real, o capoeirista aplica o seu golpe (daí a necessidade da rapidez e do reflexo, inclusive a partir de situação de imobilidade). Em outra formulação jocosa: na primeira oportunidade não é que ele dá o troco, ele "fica com tudo"…
Naturalmente, há diversos níveis de "capoeirismo", adaptados aos diversos graus de "encurralamento" social… Em qualquer caso, essa malícia para a luta, essa arte enquanto técnica, encontra uma representação simbólica no jogo entre amigos, que brincam capoeira (agora transformada em arte mesmo), entre ritmos, danças e cantos:

"Água de beber.

É Água de beber camarada…"

A estética substitui a violência e, também nesse sentido, pode-se falar de uma educação pela capoeira, independe de qualquer propósito de defesa ou ataque. Sobrevive a capoeira mesmo fora de um contexto de escravidão: ela, por assim dizer, ganha vida própria e emancipa-se das desumanas situações que lhe deram origem.
Por outro lado, muitos aspectos das relações de trabalho nacional (e, como se sabe, também do sincretismo religioso ou do futebol etc. etc.) são afins à mentalidade que estamos descrevendo. Não se trata só da escravidão formal; num caso extremo, "pratica capoeira", hoje, um trabalhador mal pago que faz "corpo mole" e conscientemente busca esforçar-se o mínimo possível (guardando, naturalmente, na presença do chefe, as formas externas de prontidão, solicitude, integração na firma etc. etc.). Um boy é encarregado de entregar uma correspondência urgente num endereço que requer uma hora de percurso. Ele acata solicitamente a ordem, sai com presteza e, mal virada a primeira esquina, já começa a treinar malabarismo, girando – com arte e maestria – a pasta na ponta do indicador direito; penteia-se ante as vitrines das lojas; no primeiro fliperama, desenvolve outras habilidades etc. Quando, após três ou quatro horas, retorna, queixa-se de dor de cabeça (o trânsito infernal, manifestações de greve…) e pede à secretária o reembolso do (pretenso) táxi que teve que tomar ("como o chefe falou que era urgente…").
Neste, e em tantos outros aspectos, a capoeira – totalmente incorporada à mentalidade nacional – é uma importante clave de interpretação do Brasil. Não se trata de "malandragem" ou preguiça, mas de um fenômeno complexo que inclui uma escravidão que persiste disfarçadamente: por que o escravo vai empenhar-se em algo que – de nenhum modo – lhe pertence ou beneficia? E não esqueçamos que "escravo" é um conceito relativo: só cessa de haver escravo, quando cessa de haver feitor… É nessa linha que se encontra o agudo pensamento de autores como Anande das Areias e Nestor Capoeira.
É evidente que a capoeira traduz realidades muito distintas das veiculadas por artes marciais, digamos, como o jiu-jit-su, caratê ou de ninjas & cia. O Brasil é diferente; o brasileiro procura não chocar de frente: ele pode te destruir, mas sempre com ares de vítima ou de quem não quer nada…
Evidentemente, toda essa mentalidade de que estamos falando pode degenerar em uma grave situação de caos – como aconteceu no final do século passado com as "maltas" capoeirísticas do Rio de Janeiro ou como acontece hoje com alguns políticos brasileiros… Daí o valor de Mestre Bimba que, como líder carismático, procurou racionalizar um código de honra e criar uma elite de capoeira: praticar a arte do escravo com a alma do príncipe! Quem não se dedicasse seriamente ao estudo ou ao trabalho, estava excluído da academia. Aliás, diga-se de passagem, muitos escravos negros provinham de famílias nobres africanas e, alguns, com nível cultural muito superior ao de seus senhores.
LJ: Que outros aspectos destacaria das práticas da capoeira? E da capoeira como meio de educação?
EV: Um aspecto importante na minha formação – eu, na época era muito moço – foi o de preparação para as dificuldades da vida. Para quem teve a feliz oportunidade de ser "puxado" (que significa, em linguagem de capoeira, "ensinado" – e vocês, professores de filosofia da educação, podem explorar as ricas sugestões desse termo -; um ensino em que o professor vai se adequando à capacidade do discípulo, como quem "puxa" para fazer aflorar o jogo próprio de cada um…) por mestre Decânio, certamente se lembra de como ele, logo que iniciava o treino, procurava alertar com um ligeiro e repentino tapa sem machucar, porém suficiente para deixar em desconforto ou furioso quem o recebesse. Ora, na aula seguinte e nas mais outras ou tantas quantas necessárias, o Decânio repetia esse gesto… Era um estímulo meio amargo, entretanto, em duas ou três vezes – ou um pouco mais – o remédio atingia o efeito desejado. E Decânio já procurava outro para dar o seu remédio pouco convencional e amargo. Nós, aprendizes, nos conscientizávamos de que quem não observa bem, literalmente "leva tapa na cara". Ele nos ensinava a ficar atento às possibilidades de agressão do adversário.
Outra lembrança "pedagógica". Menos drásticos, porém mais excitantes eram os treinos para a prontidão que mestre Bimba usava. Ele portava um apito. Na situação de treino, dois alunos deveriam enfrentar-se: um dos oponentes se armava antes da luta, porém só podia usar a arma ao ouvir o apito. O sinal era também válido para o outro: ao som do apito, poderia reagir. Como é óbvio, somente Mestre Bimba sabia o momento em que iria ocorrer o sinal. Fazia-o em função da aprendizagem. Isso porque, durante a luta há momentos oportunos (e outros que não o são) para se puxar uma arma. O mesmo se pode dizer em relação a tomá-la, podendo chegar ao ponto, de mesmo sendo capoeirista, o outro tomar-lhe a arma, antecipando-se ao gesto de sacar. Obviamente, só após a ordem de ação autorizada pelo apito. Nessa situação, a capoeira funciona também como metáfora da vida: há o momento certo de agir para acometer ou defender.
Uma terceira situação corresponde ao treinamento de dois iniciantes, que com o tempo vão aumentando gradualmente a precisão, velocidade e graça nas seqüências de golpes. Os alunos mais adiantados percebiam que os formados quando os "puxavam" com mais velocidade tinham o cuidado de não atingi-los, parando o golpe a poucos centímetros do ponto de impacto. Este gesto possibilitava ao aluno dar prosseguimento à seqüência de golpes e contragolpes. Por isso as solas ou pontas das "basqueteiras (kedis) pretas" de Aquiles Gadelha eram muito conhecidas dos alunos. Elas deram muitos sustos, pois a cada momento estavam em frente do peito ou do rosto perplexo dos aprendizes. Era o resultado das "bençãos" (pontapé frontal) e "martelos" (de lado) ou "armadas soltas estancadas" (golpe giratório). Não é este o papel de todo verdadeiro professor e educador que – auxilia o aluno, mostrando-lhe as dificuldades e o modo de superá-las, sem massacrá-lo, porém fazendo-o suar bastante? É nesse clima de solidariedade e confiança, ao som do berimbau, que se canta de verdade:

"Água de beber.

É Água de beber camarada…"

Nem sempre é apropriado estancar um golpe. Numa "armada solta", caso se encolha a perna no meio do caminho para não machucar o adversário, pode não ser uma boa alternativa. A percepção deve estar concentrada também no esboço de defesa que o aluno faz… E para isso o tempo é muito curto para se decidir o que fazer. No caso de se aplicar rasteira nas mãos durante os "aus" (rotação descendente substituindo o apoio dos pés pelas mãos) sucessivos, o procedimento correto de quem aplica a rasteira é de fazê-la com muita velocidade, porque caso contrário não encontrará o que puxar. Porém se encontra a mão apoiada, é para fazer o arrasto com muito vigor. Isto facilita o "rolê" (giro) de defesa do oponente. Este treino só é feito no curso de especialização. Em função do exposto "capoeirar" é saber aplicar golpes:
a) "em câmara lenta", suave e graciosamente;
b) desferir golpes com alta velocidade a partir de uma situação de repouso;
c) modificar a trajetória de um golpe ou estancá-lo em vista da percepção de algo "novo" após ter desfechado o golpe de defesa ou ataque;
d) durante o jogo da capoeira, o que se observa é uma "seqüência" de golpes desferidos em velocidades desde o lento quase imperceptível até aqueles em que a vista, talvez não acompanhe. O meio ambiente dos golpes é a ginga: e o ritmo e a velocidade seguem o compasso da orquestra, muitas vezes composta de um só berimbau dolente.
e) a ginga é tão importante que ela aparece sozinha no item 5 do Regulamento de Bimba e o "gingado" é conteúdo programático da primeira lição. O gingado é como uma rampa de lançamento para se disparar uma violenta cabeçada ou se defender dando um "au" com rolê saindo-se do raio de ação do oponente, que procura, mas não sabe mais onde, encontrar o adversário. Gingando, o capoeira determina as distâncias mais convenientes, inclusive para "amarrar o jogo" do adversário. Por mais que se descreva o gingado, sempre existe o inesperado no adversário: ele esconde manhas ou pode até não significar nada. Tanto simula e dissimula como esconde ou gera golpes ou defesas. É no gingado que os floreios e as negaças se harmonizam. Quando bem feitos, o adversário procura e nada encontra ou encontra sem esperar o que não procura… É malícia pura.
f) emprega-se a expressão "jogar capoeira" à semelhança de "manejar com destreza, jogar com armas". Então o capoeira é aquele que é destro no manejo de armas, a semelhança do jogo de florete ou espada. Somente que as suas armas por excelência são os dedos, as mãos abertas ou fechadas de frente ou lateral ou em "cutila", os pés, as articulações ligeiramente dobradas e a cabeça também são usadas. Sem dúvida, aprende-se também a usar armas simples e convencionais ou improvisadas;
g) joga-se também no sentido de brincar. É aprender brincando – é demonstrar que se sabe de forma alegre. Por isso o capoeirista não machuca quando joga em situação de aprendizagem ou demonstração. Conserva um sorriso as vezes até matreiro de quem com facilidade saiu-se de uma situação difícil ardilada. Pode também representar um pouco de zombaria face ao outro que nem se apercebeu claramente do que aconteceu, ou melhor, do que poderia ter acontecido….
Todos esses ensinamentos estão centradas no modelo de ser e de aprender de Mestre Bimba (sem demérito de outros grandes mestres), que inquestionavelmente é um referencial firme para tema.
Eu, em minha vida pessoal e também como professor (e professor de professores) sempre me remeto à capoeira como metáfora da vida: viver é capoeirar. E há também uma mentalidade de capoeira, mesmo quando você não é o oprimido. Uma vez, há muitos anos, um ladrão invadiu minha casa: eu e minha mulher acordamos com o sujeito ameaçando-nos com uma barra de ferro. Nem sei como, de um pulo já estava ao lado dele que, assustado, fugiu. Eu fui atrás, com muito furor, mas só até a porta: daí em diante, "persegui-o" um pouco, mas não para alcançá-lo (isso é capoeira pura), era só para estimulá-lo a fugir: rápido e para longe. Como consegui dar aquele pulo? Não sei! Inconscientemente, eu tinha me programado (capoeira é observação e antecipação) para, numa situação dessas, "virar um bicho" (um ladrão, por definição, não teme tanto a um homem, mas não há homem que não tema um bicho…)
Resumindo, eu diria que a capoeira, sim representa uma visão de mundo, marcada por um conjunto de atitudes de defesa em situação de forte desigualdade: seja o oponente um feitor; um governo (há empresas que praticam contra o governo a capoeira fiscal…); um professor, pai ou sargento opressor; um seqüestrador (li recentemente no Estadão as indicações da polícia para o caso de você ser seqüestrado e era um "manual de capoeira": indicavam por exemplo, não encarar, não discutir, dormir só quando o seqüestrador estiver acordado e vice-versa; etc.); ou mesmo o mundo como um todo, sempre ameaçador à fragilidade humana. Por isso, encontram-se traços de capoeira em qualquer cultura em que haja situações de opressão. A capoeira não se baseia na agressão positiva nem na mera resignação passiva; é a defesa racional levada ao limite do possível, na inaparência de jogo, ginga e lúdico.


Luiz Jean Lauand.

jeanlaua@usp.br

Esta matéria foi alvo de uma indicação do Sapujo – Teimosia (ORKUT), obrigado por garimpar este documento e assim podermos disponibilizar para todos capoeiristas…

Axé!

O OLHAR DO CAPOEIRISTA

"No acto da lucta, toda a atenção se concentrava no olhar dos contendores; pois que, um golpe imprevisto, um avanço em falso, uma retirada negativa, poderiam dar ganho de causa a um dos dois."

Querino, Manoel – "A Capoeira" in "Costumes Africanos no Brasil", Biblioteca de Divulgação Scientifica, vol. xv, pág. 272. Civilização Brasileira, S.A. – Editora. Rio de Janeiro,1928.

"No ato da luta, a atenção se concentrava no olhar dos contendores pois que, um golpe imprevisto, um avanço em falso, uma retirada negativa poderiam dar ganho de causa a um dos dois."

Querino, Manoel – A Capoeira"in "A Bahia de Outrora", "editorado por Frederico Edelweiss". Livraria Progresso – Editora, Praça da Sé, 26,l955, Salvador, Bahia, pág.73.

Introdução

Quando iniciei a prática da regional fui advertido pelo Mestre Bimba para manter o "adversário" sob o controle visual, procurando evitar encarar diretamente os seus olhos ou alguma outra região em particular, observando sempre disfarçadamente, de soslaio, evitando deste modo que o objetivo do movimento de ataque fosse denunciado pela direção do olhar.
Em linguagem acadêmica, fui aconselhado a usar a visão periférica, única capaz de abranger o parceiro como um todo e o ambiente imediatamente vizinho.
A compreensão e a aplicação dos princípios acima enunciados exige noções básicas sobre visão e seus mecanismos.

Campo visual

Campo visual é todo o espaço visível pelo olho em um dado momento.
Determinamos o limite horizontal do campo visual por meio de manobra simples:

  • fixando o olhar diretamente para a frente, focalizando um ponto imaginário no infinito;
  • colocando um dedo diretamente ante o olho, com o braço estendido, deslocamos o dedo lateralmente na horizontal até o desaparecimento do mesmo no limite exterior do campo visual;
  • a repetição da manobra do lado oposto determina o ângulo abrangido pelos dois olhos.

Visão central e periférica

A atenção do observador pode ser focalizada na área central do campo visual ou procurar abranger o campo em sua totalidade.
A fixação da visão numa determinada área acarreta aumento da nitidez da mesma e redução evidente da percepção do espaço restante.
Controlando a tendência natural de fixação do olhar em algum objeto, principalmente luminoso, é possível manter a percepção de todo o campo visual periférico e deixar operar os reflexos de acompanhamento dos objetos em movimento selecionados inconscientemente por um ordem da vontade (a postura mental do jogador ou lutador), apesar da redução aparente da nitidez dos objetos.
Esta seleção, inconsciente, dos objetos em movimento no campo visual periférico é fruto da atitude mental do capoeirista, que deve ser defensiva ou de esquiva para usar as oportunidades de contra-ataque durante os ataques frustados do adversário.
A visão periférica é usada pelos espiritualistas e parapsicólogos no treinamento para visualização da aura energética que envolve todos os seres, vivos e inanimados.
A possibilidade de antever a intenção do adversário é uma vantagem adicional do uso da visão periférica, uma vez que os fenômenos mentais acarretam modificações da aura, que podem deste modo serem percebidos inconscientemente pelo capoeirista, desencadeando instantaneamente os movimentos de esquiva, defesa ou contra-ataques.
A concentração voluntária da visão no campo central dificulta os reflexos de acompanhamento dos objetos que se deslocam no campo visual periférico.
O olhar manhoso do capoeirista, esguelhado, de soslaio, de través, de lado, oblíquo, que evita olhar diretamente para o objeto interessado (visão central) é a aplicação prática da visão periférica na capoeira.

Movimentos oculares

Pelo interesse para os capoeiristas, destacamos entre os movimentos oculares aqueles que permitem a fixação do olhar, voluntária ou involuntariamente, em determinada área do campo visual.
Os pontos luminosos atraem involuntariamente a visão focal (central), o que dificulta bastante a visão da estrada no cruzamento de veículos à noite.
O objetos em movimento no campo visual, sobretudo os luminosos, provocam "movimentos de perseguição" que acompanham automaticamente o trajeto dos mesmos.
Estes movimentos de perseguição inconsciente de objetos em movimento no campo visual periférico permitem o verdadeiro olhar do capoeirista… desconfiado… manhoso… suspeitoso… oblíquo… de través… de soslaio… porém alerta, pronto para esquiva ou contra-ataque!
A expectativa de esquiva, predominanteno comportamento dos capoeiristas, predispõe à instalação de reflexos defensivos, de esquiva ou fuga, ante movimentos capazes de ameaçar sua estabilidade ou integridade física, complementados por contra-ataques, adequados à abertura na defesa do adversário.
Daí a importância fundamental da esquiva no jogo de capoeira, contrariamente à predisposição belicosa que atribui relevância aos movimentos e golpes de ataque.
No jogo em atitude de esquiva o contra-ataque é natural, inconsciente e instantâneo, sem que necessitemos escolher o alvo, infalível.

Considerações técnicas e táticas finais

Durante o jogo de capoeira devemos obedecer à recomendação de Pantajali aos praticantes de Ioga: manter os olhos desfocado e dirigidos diretamente para o infinito.
Os corredores também adotam olhar semelhante para manter a passada larga, desde que o olhar focalizado no solo em ponto muito próxima acarreta um passo muito curto. O ideal é mirar o infinito com o olhar paralelo ao horizonte.
Fitar um ponto imediatamente adiante do capô ao dirigir um veículo prejudica os reflexos de adaptação ao rumo.
O capoeirista precisa ter noção do adversário como um todo, desde que os ataques poderão partir de qualquer segmento corpóreo, em qualquer movimento ou atitude e qualquer momento.
A focalização da visão em um determinada região, mesmo que seja nos olhos do oponente, impede a visão global (periférica), única capaz de perceber simultaneamente o corpo inteiro do adversário, seu deslocamento, os movimentos dos seus vários segmentos e o espaço circunvizinho.
A concentração da atenção num ponto fixo desencadeia um reflexo de imobilização do pescoço na direção do objeto mirado, incompatível com a mobilidade permanente do capoeirista, retardando o desenvolvimento dos movimentos de esquiva e contra-ataque, além de prejudicar a espontaneidade dos movimentos e manobras inconscientes que ocorrem e embelezam o jogo de capoeira.
Um capoeirista mais experiente pode enganar um parceiro simulando, com o olhar, interesse num determinado ponto (alvo falso) para desviar a atenção do verdadeiro objetivo (alvo verdadeiro) em mente.
A área central da retina é responsável pela "visão tubular" e a permanência no seu emprego acarreta o bloqueio dos reflexos de perseguição dos objetos em movimento no campo visual do observador.
A prática quotidiana, contínua, em ritmo lento, dos movimentos de capoeira desenvolve complexas manobras reflexas de esquiva, defesa, contra-ataque, iniciadas pela captação inconsciente dos deslocamentos de membros ou do corpo do adversário no campo visual do atleta. Manobras que formam a estrutura fundamental, o esqueleto digamos, da defesa pessoal do capoeirista e só ocorrem em ausência da fixação permanente e voluntária da atenção em ponto fixo.
O exercício da capoeira evidentemente aumenta o trânsito de influxos pelas vias de conexões intraencefálicas e logicamente melhora as funções do cérebro como um todo, vez quefacilitando a transmissão de informações como efeito do treinamento a capoeira melhora obviamente o rendimento cerebral.
A observação dos treinamentos nos ensina que a repetição freqüente dos gestos facilita da execução dos movimentos, tornando-os ágeis, leves e elegantes, aumentando a velocidade da resposta reflexa e da execução do movimento propriamente dito.
Um fenômeno corriqueiro e que freqüentemente passa desapercebido, de modo semelhante ao amaciamento dos motores, que no inicio é meio emperrado e subitamente alcança o rendimento pleno.
A capoeira transforma-se assim num instrumento de aperfeiçoamento das funções cerebrais que fazem do Homem a mais bela criação de Deus em nosso mundo animal!

"Num mundo que Deus queria que fosse belo !"
diria nosso Mestre Pastinha…

As considerações acima comprovam sobejamente as vantagens do uso do jogo de capoeira no tratamento dos excepcionais, podendo se estender ao preparo físico dos pilotos para melhor acompanhamento dos enormes e complexos painéis de controle dos modernos aviões, como preconiza o Ten. Esdra Magalhães , "Mestre Damião", aeronauta por conveniência e capoeirista por vocação…
Aliás, durante a segunda grande guerra mundial, os pilotos dos aviões "North America" sediados na Base Aérea de Salvador usaram a prática da regional como terapia contra o estresse e recuperação física.
Nesta ocasião auxiliei, como contra-mestre do nosso Mestre Bimba, o treinamento dos aviadores brasileiros que patrulhavam o nosso litoral, no terraço do Edífício Oceania, onde se hospedavam.

OS AGARRAMENTOS NA CAPOEIRA

Os agarramentos são, como sempre foram, proibidos durante a prática da capoeira, especialmente por impedirem a sintonia com o rimo musical, condição sem a qual não podemos conceber a capoeira baiana.
As palavras manuscritas de Mestre Pastinha, abaixo reproduzida em imagem escaneada e transcritas da página 43, do vol.3, da "Coleção S. Salomão", "A herança de Pastinha", editado por Decanio, demonstram esta tradição ainda conservada pelos atuais praticantes do estilo "angola".
 

1.4.42 – …"é falta usar as mãos"…

"Todos os mestres tem por dever fazer ciente que é falta usar as mãos no seu adversario; se não fizer assim, não prova ser mestre, os que tem educação prova a sua decensia jogando com seu camarada e não procura conquista para enporcalhar seu companheiro, já é tempo de compreender, ajudar do seu esporte, é a judar a moralisar; levantar a capoeira, que já estava decrecendo."
(12b, 1-10)

… aparece aqui a única diferença…
… entre os estilos de Bimba e Pastinha…

… Bimba…
… ao criar um sistema de ensino da capoeira…
… instrumento de luta…
… abandonou a tradição…
… de não usar golpes traumáticos de mão…
… permissão estendida aos balões e projeções…
… bem aceitos e estimulados…
… pela difusão das técnica orientais…z
.. no meio social em que pontificava…

Embora a Luta Regional Baiana permitisse o emprego das mãos durante a sua prática, Mestre Bimba não admitia que o capoeira permanecesse imobilizado, parado ou agarrado porque nesta condição estaria desprotegido e exposto como alvo às armas, branca ou de fogo, bem como a outros tipos de ataque.
Os chamados treinos de agarramento, secretos, na verdade eram treinos para não se deixar agarrar, prática de manobras para se desvencilhar dos adversário, adequada para a defesa pessoal ou eventual confronto físico com adversário conhecedor destas técnicas.
Enquanto um praticante ficava em posição vulnerável, habitualmente sentado ou deitado no chão, um ou mais parceiros tentavam segurá-lo e mantê-lo imobilizado.
O objetivo do treino era desenvolver os reflexos, a resistência, a potência e calma indispensáveis à libertação da imobilização, estrangulamento, agarramento, presa, presilha ou chave, recuperando a plena mobilidade para a defesa pessoal.
A instrução genérica era pegar o adversário e jogar no chão (… com força naturalmente) ou sacudi-lo instantaneamente, com violência, ante o menor esboço de tentativa de apresamento, sem deixar "fechar" o golpe.
Como dizia o Mestre: "Gorpe ligadu só funciona se você deixá garrá."<golpe ligado só funciona se você deixar agarrar>
O capoeirista se caracteriza pela agilidade e intangibilidade quase mágicas, tem que ser como o vento, parece que está em toda parte e ao mesmo tempo em lugar algum, sacode, agita, derruba, destrói.. mas não se deixa pegar!
Quem gosta de se agarrar é ‘ganhamun’ e siri, por isso se deixam pegar… e terminam na panela, diziam os antigos.
O capoeirista não carrega para derrubar, pois seu ancestral direto, o carregador não deve deixar cair sua carga… só se escapulir…
Entre os antigos, aqueles menos eficientes, tecnicamente deficientes, porém dotados de maior corpulência, eram os que procuravam agarrar os melhores de técnica e mais franzinos, na esperança de imobilizá-los…

… com medo de apanharem ou caírem…

Mesmo durante as projeções em jogo de capoeira do estilo regional, não se pode parar para pegar, nem tampouco "carregar" o parceiro… "é pegar e jogar"!
Um bom capoeirista, por definição e princípio;deve possuir técnica e manha, indispensáveis para conduzir seus alunos e parceiros, à armadilha em que se enredarão!
Cumprindo assim o triste destino que os aguarda ao final de cada volta do mundo!

Capoeirista não derruba!
… só faz armar o laço…
… o bobo é que cai!

A Arte da Capoeira

  • A Arte da Capoeira
         
Camille Adorno
 
©Copyright by Camille Adorno
Caixa Postal 95
CEP 74001-970 – Goiânia – G0.

  • Prefácio
Herança africana legada à cultura brasileira, o jogo da Capoeira significa valioso contributo à formação da nossa identidade cultural.
Neste livro, Camille Adorno estabelece os caracteres delineadores da Capoeira, propiciando uma oportunidade de iniciação à arte.
Na leitura desse tema ampliam-se as possibilidade de compreensão da nossa história, onde  se insere a Capoeira e que preservou a lembrança das lutas sociais que forjaram a cidadania brasileira.
Esta obra é um passo importante para se promover o resgate das tradições da Capoeira divulgando essa bela expressão nacional.
KLEBER ADORNO
 
 
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